terça-feira, 29 de setembro de 2009

Reabilitação do centro Histórico de Torres Vedras




A notícia foi esta tarde divulgada pela Agência Lusa:


“Torres Vedras investe 6 milhões para reabilitar centro histórico

“Aquisição e recuperação de edifícios devolutos por parte da autarquia é uma das medidas previstas para reabilitar e combater a desertificação no centro histórico da cidade.

“A câmara de Torres Vedras aprovou hoje a revisão ao Plano de Reabilitação do Centro Histórico, dez anos depois da primeira versão ter entrado em vigor, com alterações que visam combater a desertificação populacional nesta zona da cidade.

"Este plano dá respostas para no futuro termos mais habitantes e comerciantes no centro histórico, porque está dotado de mecanismos que permitem adaptar as construções às novas exigências de vida", afirmou o presidente da câmara, Carlos Miguel.

“Segundo o autarca, as alterações inseridas no documento vão no sentido de autorizar pequenas obras nos mais de quatrocentos imóveis existentes.

“A possibilidade de os cidadãos abrirem uma porta para garagem ou terem um sótão para habitação, mantendo as fachadas das habitações, são algumas das alterações trazidas por este plano, facilitando a vida aos cidadãos que queiram fixar residência no centro histórico.

“O Plano de Reabilitação do Centro Histórico, que deverá entrar em vigor só em 2010, privilegia a salvaguarda e valorização do património existente com o objectivo de "dotar todos os edifícios de boas condições de habitabilidade".

“Além das normas que vêm estipular o tipo de obras que os proprietários de habitações no centro histórico estão autorizados a efectuar, o plano prevê um conjunto de intervenções no espaço público, como obras de requalificação urbanística, alterações no mobiliário urbano e iluminação e criação de estacionamento e interdição de vias ao trânsito.

“As intervenções públicas previstas no plano estão estimadas em 6,1 milhões de euros e contemplam a aquisição e recuperação habitacional de edifícios devolutos.

“Com o objectivo de intervir na reabilitação social do centro histórico, estão também previstas medidas, que passam pelo apoio ao arrendamento destes imóveis para realojar famílias carenciadas, a projectos de urbanismo comercial e fixação da população e animação cultural.

“Nas últimas décadas e com o crescimento da cidade de Torres Vedras, muitos residentes optaram por abandonar o centro histórico, tendo-se registado um decréscimo populacional de 63 por cento entre 1980 e 2002.

“Entre os motivos apontados pelo diagnóstico do plano, destacam-se a falta de espaço das habitações e das ruas e as fracas condições de habitabilidade de muitos edifícios, tendo em conta o "preocupante estado de conservação", havendo situações de "iminente derrocada".

“Assim, o centro histórico passou a ser habitado por uma população maioritariamente envelhecida.” In Lusa 15:56 Terça-feira, 29 de Setembro de 2009 .

Em época de campanha eleitoral - Dez Sugestões para Debater a Cidade



Ao ter hoje início a campanha eleitoral para as eleições municipais, gostava de dar o meu contributo para este tempo de debate, apresentando Dez temas que gostaria que entrassem na campanha (a ordem dos mesmos é arbitrária):


1 – Torres Vedras, cidade respirável – desenvolver uma rede de ciclo vias, ligando vários pontos da cidade e, principalmente, a cidade e vários pontos do concelho, melhorando as já existente (que precisam de ser revistas nalguns troços) e aproveitando as condições dos vários vales do concelho, nomeadamente o vale da cidade, o percurso dos rios Sizandro e Alcabrichel e o vale de Runa.

2-Torres Vedras, cidade da Fotografia – a fotografia e os fotógrafos estão presente na cidade desde os primeiros tempos da sua existência. Seria fundamental criar um ARQUIVO FOTOGRÁFICO MUNICIPAL, que recolhesse o máximo de espólio existente em instituições ou que fosse doado por profissionais do sector e por particulares, dinamizando um espaço de divulgação dos artistas desta arte, do presente e do passado.

3 – Torres Vedras, cidade da imprensa – Criação, quanto a mim urgente, de uma Hemeroteca, independente do Arquivo Municipal e da Biblioteca, reunindo, divulgando e preservando não só a já longa lista de publicações periódicas do concelho, como um vasto espólio, existente na Biblioteca Municipal, mas com pouco uso, de jornais e publicações periódicas nacionais.

4- Torres Vedras, terra da Contemporaneidade – A criação, prevista, de um centro de interpretação histórica das Linhas de Torres Vedras e de um Museu do Carnaval, devem apostar num objectivo mais abrangente já que, no primeiro caso, foi com a Guerra Peninsular que Torres Vedras entrou na época Contemporânea e, no segundo caso, foi com o Carnaval que se revelaram muitos dos artistas torriense contemporâneos. Por isso aqueles espaços não podem ser pensados estritamente para o tema que está na sua origem, mas devem desenvolver outras valências. (podiam integrar o Arquivo Fotográfico e a Hemeroteca acima referidos).

5-Torres Vedras, cidade do Cinema – criação de um festival, anual ou bianual, de cinema, explorando uma temática ainda rara em festivais de cinema portugueses. Em tempos cheguei a propor que essa temática fosse O CINEMA E A HISTÓRIA. Para além de uma longa tradição de interesse pelo cinema, Torres Vedras tem actualmente espaços, públicos e privados, preparados para receber uma tal iniciativa.

6 – Torres Vedras, cidade da Arqueologia – o concelho é rico em vestígios arqueológicos das mais variadas épocas, desde a pré-história á Idade Média, passando pela época romana. Nas últimas décadas têm-se dado grande avanços no conhecimento arqueológico do concelho, mas, muitas vezes, não se dá a devida visibilidade a essas descobertas. Por outro lado, parte dessas novidades restringe-se a locais há muito explorados e conhecidos, como o Castro do Zambujal. Seria importante pegar nos registos de Aurélio Ricardo Belo e Leonel Trindade e começar a fazer um levantamento sistemáticos das muitas centenas de sítios que eles referem, sem que, depois deles, se tivesse voltado a estudá-los, e desenvolver novas e sistemáticas campanhas arqueológicas. Seria importante também alargar essas campanhas à Idade Média, nomeadamente à época muçulmana, tão ignorada neste concelho.

7 – Torres Vedras, cidade dos Transportes Públicos – É necessário incentivar o uso de transportes públicos, para isso é necessário melhorar os horários, os percursos e as informações . Dentro da cidade só se consegue convencer os cidadãos a recorrerem aos transportes públicos se não tiverem de ficar mais de 15 minutos à sua espera.

8 – Torres Vedras cidade ferroviária – Muito deve esta cidade ao transporte ferroviário. Mas, infelizmente, nas últimas décadas muito pouco se tem feito para pressionar a CP a respeitar os habitantes desta região. Hoje, quando se prevê que o caminho-de-ferro vai ser o transporte do futuro e o seu desenvolvimento venha a ser cada vez mais um sinal de modernidade, a Linha do Oeste continua com horários, percursos e velocidades que, em muitos casos, são piores que há trinta anos atrás. É necessário que Torres Vedras, juntamente com todos os concelhos servidos pela Linha do Oeste, contribuam para a sua modernização.

9 – Torres Vedras, cidade pedonal – Hoje é cada vez mais evidente que a degradação das cidades se deve muito à dificuldade dos seus habitantes em se deslocarem a pé. Os automóveis invadem todos os espaços e impedem uma vivência saudável da cidade. Ao contrário do que alguns comerciantes ainda defendem, a criação de áreas pedonais incentiva a frequência do comércio local. A sua decadência prende-se com outras situações, como a proliferação de grandes superfícies e a falta de modernização de muito desse comércio local. Incentivar e aumentar as ruas de exclusividade pedonal, coma excepção de ciclo vias, é uma maneira de incentivar a vivência de uma cidadania saudável.

10 – Torres Vedras, cidade da Música – Nos últimos anos a cidade tem conhecido uma dinâmica assinalável nesta área, com escolas de música e espectáculos dos mais variados géneros musicais. O que falta é reforçar e divulgar melhor algumas dessas iniciativa e, principalmente, manter a continuidade dessas actividades, pois só assim se consolida um público e se conquista qualidade.



Nos tempos que correm, as cidade só podem garantir o seu desenvolvimento económico e social se reforçarem a sua identidade e a melhoria da sua qualidade de vida.

Em Torres Vedras alguma coisa tem melhorado nesse sentido, mas há ainda muito a fazer, e as nossas sugestões visam apenas incentivar o debate sobre o caminho e a identidade que esta cidade quer para si.

domingo, 27 de setembro de 2009

Vindimas em Torres Vedras nos postais de António Passaporte (anos 40/50)


António Passaporte foi um dos mais conceituados fotógrafos portugueses da primeira metade do século XX.

Pertencendo a uma família de fotógrafos, nasceu em Évora em 24 de Fevereiro de 1901, falecendo em Lisboa em 1983.

Combateu na Guerra Civil de Espanha, ao lado das forças republicanas, onde integrou as Brigadas Internacionais como fotógrafo do 5º regimento.

Terminada a guerra regressa a Portugal, iniciando em 1940 a produção de postais ilustrados com vistas de vários pontos do país, assinando por vezes como “Loty”.

A maior parte do seu espólio está no Arquivo Fotográfico Municipal de Évora.

Lemos, há poucos anos, que também a Câmara Municipal de Mafra tinha adquirido parte do seu espólio, o referente à região deste concelho.

Tendo Torres Vedras uma longa tradição de fotógrafos, talvez fosse uma boa ideia criar-se um Arquivo Municipal Fotográfico, para o qual se conseguisse obter o espólio de Passaporte e outros fotógrafos.

Até lá apreciem as seguintes imagens referentes às vindimas no concelho de Torres Vedras da autoria de António Passaporte, editadas em postal.






(não sendo uma cena de vindimas, mostra uma figura popular de Torres Vedras)








(atribuo a autoria deste postal a Passaporte, com algumas reservas)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

FICHA DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA: "Jubileu do Collegio do Barro - 1860-1910"

Ficha bibliográfica





Título: Jubileu do Collegio do Barro – 1860-1910 – Noticia Historica de Sua Fundação e Ministerios Até o Anno Presente

Autor: CORDEIRO, P. Antonio Costa



Ano: 1910.

Edição:Typ. a vapor de Augusto Costa & Mattos.

Local: Braga.

Preço: não indica.

Nº de páginas: 242.

Tiragem: não indica.





Gravuras: “O Collegio do Barro em 1860”.

Fotografias: 22, do sítio do Barro, do interior do edifício e dos padres do convento.

Gráficos: 2, “Indicação numérica e comparativa dos que entram e perseveraram, relativamente a cada um dos 50 annos que vão de 1859 a 1909”, e “Quadro das entradas, repartida pelas províncias do Reino e por outras províncias”.





Tema: Este livro foi editado para comemorar o jubileu da instalação de um colégio de noviciados da Companhia de Jesus no antigo Convento do Barro, ocorrida em 14 de Agosto de 1860. Descrevendo em breves traços a História do antigo convento dos arrábidos, daqui expulsos em 1834, bem como o seu património, a obra debruça-se especialmente sobre os últimos cinquenta de história do convento, dirigido pelos Jesuítas assim como sobre as missões em que participaram por quase todo o país. Por ironia do destino, menos de dois meses depois desse jubileu era proclamada a República e os Jesuítas do Barro foram das primeiras vítimas do anti-clericalismo do novo regime.


Capítulos: Algumas palavras d’introdução; CAPÍTULO I – Breve noticia da casa e noviciado do Barro - § 1º - Notícia geral do convento até o anno de 1860; § 2º Como o convento do Barro passou a ser propriedade da Companhia; § 3º - Abertura do noviciado no Collegio do Barro; CAPÍTULO II – A Casa do Barro e as suas officinas; Adro da Egreja; Sacristia e claustro; Capella domestica; Refeitório; Infermaria; Novciado e Estudantado actuaes; Mata e telheiro; Monumento a Nª Sª de Lourdes; ECHOS – o Monumento do Barro [poema da autoria de José Maria Gomes Ribeiro, professor do colégio]; CAPÍTULO III – A casa do Barro e seus labores apostolicos (desde o anno de 1861 a 1866); §1º - A Idéa geral das missões – Estado moral em que os nossos operários vieram encontrar o povo do reino, quando começaram com as missões volantes; ceremonial que é costume guardar-se nas missões; ceremonial da 1ª communhão das crianças; ceremonia da communhão geral; § 2º - Ministerios dos operários do Barro no termo de Torres-Vedras – Estreia no púlpito do P. Luiz Prosperi; Missão (novena) em Serra da Villa; Missões do Carvalhal, Orjariça, Figueiredo e Matacães; Erecção das primeiras Congregações na nossa Egreja; Primeira communhão geral das crianças na Egreja do Barro; Missão do Ramalhal; Missão em S. Pedro da Cadeira; Missões em Nª Sª do Amparo, Incarnação e Ponte do Rol; Missão em S. Mamede; Missão da Ericeira; Missão da Lourinhã; § 3º - Ministerios dos operários do Barro fora do termo de Torres – Missão de Cintra; Missão em S. João das Lampas; Missão em Monte Lavar; Missão de Peniche; Missão do Almargem do Bispo; Missão d’Olho Marinho; Missão em Serra d’El-rei; Missão d’Obidos; Missão em Porto de Mós; Missão de Leiria; Missão da Marinha Grande; Missão em Vieira; Missão em Merciana;Missão em Carvalhal de Obidos; Missão do Sanguinhal; Missão do Cadaval; Missão na Vermelha; CAPÍTULO IV – Trabalhos apostolicos ou missões dos operários do Barro (desde o anno de 1866 a 1910); § 1º - Abrangendo as missões, que tiveram logar desde princípios de 1866 até á morte do P. Prosperi – Missão da Pederneira; Missão em Santa Quiteria de Meca; Missão na Sapataria; Missão na Diocese de Coimbra; Missão na Diocese da Guarda – Guarda e Covilhã; Missão em Idanha-a-Nova; Missão em Pinhel; Missão de Cezimbra; Missões em algumas povoações do Districto de Beja; Missão no Cartaxo; Missão em Chaves; Ministerios apostólicos no Funchal; Missões na Diocese de Coimbra; § 2º - Ministerios apostólicos dos operários do Barro que se seguiram ao P. L. Prosperi; § 3º - Alguns ministérios dos PP. Terceiranistas no presente anno de 1910; APPENDICES: APPENDICE I – Breve noticia histórica dos Reitores e Mestres de Noviços d’esta casa, já fallecidos – P. João Meloni; P. José Catani; P. Domingos Moscatelli; O Collegio do Barro em 1860 [desenho do P. Rademaker]; APENDICE II – Relação dos que na casa do Barro (ou em Sarnache do Bom Jardim) começaram ou concluíram o noviciado desde 1860 a 1909 [quadros com listas de nomes ] : Agosto de 1860-Outubro de 1863; Outubro de 1863-Abril de 1866; Abril de 1866-Outubro de 1869; Outubro de 1869-Dezembro de 1881; Dezembro de 1881-Julho de 1888; Julho de 1888-Fevereiro de 1895; Fevereiro de 1895 – Maio de 1907; Maio de 1907; SCHEMA 1º - Indicação numérica e comparativa dos que entram e perseveraram, relativamente a cada um dos 50 annos que vão de 1859 a 1909 [gráfico]; SCHEMA 2º - Quadro das entradas, repartida pelas províncias do Reino e por outras províncias; APPENDICE III – Breve descripção dos festejos [do jubileu] do dia 2 d’Agosto [de 1910] – Programma dos Festejos; ERRATAS; INDICE



O Convento do Barro, visto do interior (1910)


Brazão de Armas de António de Teive, por cima de uma inscrição que lhe é dedicada  (Igreja do Convento do Barro, lado do evangelho)


Brazão de Armas dos Froes, por cima de uma inscrição dedicada a Leonardo Froes, aqui sepultado, pela sua filha D. Isabel Perestrella (Igreja do Convento do barro, lado da epístola)


Vista parcial da Igreja do Convento do Barro


Painel de Azulejos da capela mor da Igreja do Convento do Barro (lado da Epístola).




Painel de Azulejos da Capela mor da Igreja do Convento do Barro (lado do evangelho).



Capela Interior do Convento do Barro


Sala de Estudo do "escolasticado" do Convento do Barro


Iconografia do Barro (1910)


Cruzeiro do adro da Igreja do Convento do Barro, datado de 1673.



Monumento dedicado a Nª Sª de Lurdes, colocado no monte do Barro em 1908 (visto de nascente).



Imagem de Nª Sª dos Anjos, venerada no Barro (1910)



Monumento de Nª Sª de Lurdes, visto a partir da escadaria.

Fotografias e Gravura relacionados com o antigo Convento do Barro


Barro - Procissão com o andor de Nª Sª dos Anjos (principio do séc. XX)


Convento do Barro - vista do "coberto" e do terraço (1910)


Gravura do Padre Rademaker, representando o Convento do Barro em 1860



Padre Carlos Rademaker - 1910 - Fotografia de F. de S. Borges Grainha. "Phototypia" de E. Biel

Vista do Convento e Vale do Barro - 1910


O "Colégio" do Barro visto de Poente - vista da Enfermaria (1910)

o "Colégio" visto do Nascente


O "Colégio" visto de Sudeste


O "Colégio" visto de Sudoeste


O "Colégio" visto do Norte

domingo, 20 de setembro de 2009

As Linhas de Torres Vedras em notícia



(Forte do Zambujal. Fonte: "Público")



O Público edita hoje um trabalho do jornalista Luís Filipe Sebastião sobre os projectos existentes para dinamizar as Linhas de Torres.

Pelo seu interesse, transcrevemo-lo de seguida:





“Fortes que travaram invasão francesa abrem-se ao turismo



As fortificações que abrigaram peças de artilharia vão dar lugar a uma rota histórica e cultural onde apenas se poderão escutar os "disparos" de máquinas fotográficas
Dois séculos após terem sido construídos para travar o avanço das tropas de Napoleão, as fortificações das linhas defensivas de Torres Vedras estão a ser reabilitadas para o turismo cultural. O forte do Zambujal, virado para a foz do Lizandro, é o primeiro a ser integralmente recuperado pela autarquia de Mafra no âmbito da rota histórica que junta seis municípios.
As linhas defensivas de Torres são constituídas por 152 obras militares edificadas entre 1809 e 1811. As estruturas militares, dispostas em barreiras mais ou menos paralelas entre o mar e o rio Tejo, foram construídas de raiz ou aproveitando edificações já existentes pelas tropas luso-britânicas para defenderem Lisboa da terceira invasão das forças francesas. Segundo um levantamento histórico, a primeira e a segunda linhas defensivas contavam com 142 fortes. Um rastreio realizado em 2002 confirmou a localização de 114.
O forte do Zambujal (obra 95), juntamente com os da Carvoeira e de São Julião, faz parte do núcleo militar mais a sul da segunda linha defensiva. Estas estruturas tinham por missão estratégica a defesa da foz do Lizandro, apoiando a frota naval inglesa, e o controlo da estrada entre a Ericeira e Sintra. A fortificação do Zambujal, num morro sobre o vale da Senhora do Ó, estava guarnecido com duas peças de artilharia e 250 milicianos portugueses.
Uma campanha arqueológica, levada a cabo entre Abril e Agosto deste ano, pôs a descoberto "estruturas em madeira que são muito raras de encontrar em bom estado de conservação", notou Ana Catarina Sousa, do gabinete de arqueologia da Câmara de Mafra. A escavação quase integral, apoiada nos diários com os projectos dos engenheiros ingleses, confirmou que a fortificação possuía um túnel escavado na rocha e "um aparelhamento de pedra mais elaborado". A arqueóloga precisou que os elementos em madeira recuperados faziam parte da "plataforma para o canhão deslizar e de uma paliçada que protegia [visualmente] a boca de fogo".
"Conseguimos perceber as técnicas construtivas e ao mesmo tempo recolhemos informações para o próprio restauro, de forma a manter a autenticidade da estrutura", adiantou Ana Catarina Sousa. Além das informações ao visitante - que fica a saber tratar-se geralmente de construções em terra, com uso de pedra e madeira -, foram criados dois acessos, um para viaturas e outro pedonal, este com cerca de 500 metros e que permite "usufruir da paisagem envolvente" sobre a foz do Lizandro.
O município de Mafra possui 43 fortes, mas nem todos serão recuperados como o do Zambujal. Para já, a autarquia tem apoiado a Escola Prática de Infantaria na reabilitação do forte do Juncal, no perímetro da Tapada Militar de Mafra. A Divisão de Infra-estruturas do Exército, por seu lado, tem colaborado em diversas acções de desmatação em fortificações nos concelhos que integram a Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres (Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira).
Em Mafra já foram recuperados outros dois fortes da Enxara e o posto de sinais da serra do Socorro. O telégrafo, cuja réplica foi construída em colaboração com o Museu da Marinha, fazia parte do sistema de comunicações das linhas, transmitindo informações codificadas para a capital do reino em sete minutos. Este circuito funciona desde Novembro de 2008. No próximo ano avançará a reabilitação do forte da Feira, em pleno centro urbano da vila da Malveira.





Bicentenário em 2010



O forte do Alqueidão, em Sobral de Monte Agraço, fez parte da primeira linha de defesa, entre Alhandra (Vila Franca) e a foz do Sizandro (Torres Vedras), e seria o posto de comando das forças aliadas. As primeiras escavações, em 2008, permitiram localizar a "casa do governador", duas canhoneiras, dois paióis e um poço. Entre Julho e Agosto deste ano foram escavados exaustivamente o paiol norte e o pequeno edifício revestido a telha. Aqui se reuniriam o comando militar do forte e o marechal Wellesley (duque de Wellington), que instalara o seu quartel-general em Pêro Negro.
"O paiol está menos estragado do que a casa do governador", explicou Sandra Oliveira, responsável pelo projecto das linhas de Torres na Câmara de Sobral de Monte Agraço. A técnica, que dá apoio à coordenação da plataforma intermunicipal (este ano liderada pelo concelho), acrescentou que se trata de um dos cinco paióis do forte, com 15 metros de comprido, "ainda com vestígios de reboco antigo" e do sistema de escoamento de águas pluviais.
O município, que possui nove fortificações, aposta na concretização de "uma rota histórica e cultural, comum aos vários municípios, com acções concertadas para o bicentenário das linhas em 2010". Sandra Oliveira esclareceu que, em colaboração com o Exército e outras entidades públicas, deverá ser apresentado "até Janeiro" o programa comemorativo das linhas que travaram o avanço francês. A construção arrancou em Novembro de 1809 e a primeira linha foi "avistada" pelas tropas de Massena em Outubro de 1810.
Além da musealização dos espaços do Alqueidão (incluindo os fortes do Machado e do Simplício), a autarquia do Oeste prevê a criação de um núcleo de apoio ao visitante na serra do Olmeiro/Montagraço, o restauro da antiga estrada militar para uso pedonal e recuperação do moinho do forte Novo. Embora reconheça a dificuldade em angariar apoios mecenáticos, a técnica municipal confia que Sobral e os restantes municípios consigam dinamizar a rota, quando estiverem concluídas as estruturas de apoio. No caso do seu concelho, contou, já é habitual responder a pedidos de visita às linhas quando as condições climatéricas não são favoráveis para turistas hospedados em resorts da região jogarem golfe.



Luís Filipe Sebastião, in “Público” de 20 de Setembro de 2009.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Torres Vedras Há 120 anos, na Imprensa da Região - Julho, Agosto e Setembro de 1889

JULHO de 1889
No domingo 7 de Julho tiveram lugar as festas de S. Sebastião realizadas na Igreja Paroquial da Carvoeira, com missa “instrumental e vozes, sendo o coro executado por alguns músicos da phylarmonica da Aldeia Gavinha”.
A mesma filarmónica, “durante o dia como na Véspera à noite, abrilhantou a festa com varias peças do seu reportório”.
Pelas 6 horas da tarde desse Domingo, o lugar da Carvoeira foi percorrido pela “procissão que se compunha de quatro andores com imagens, conduzidos pelas respectivas irmandades. Após o pallio seguia a phyllarmonica e muito povo”. (A Vinha de Torres Vedras de 13 de Julho de 1889).
Também nesse mês, dia 21, celebrou-se na Igreja do Turcifal a festa do Senhor Jesus Morto, com missa “a grande instrumental, e sermão”, e , à tarde, teve lugar uma procissão com a imagem do “Senhor Jesus” (A Vinha de Torres Vedras de 20 de Julho de 1889)
Muitas pessoas hospedaram-se nesse mês nos dois principais Hotéis da vila de Torres Vedras, o Natividade e o Pimenta, para frequentarem os “banhos dos Cucos” (A Vinha de Torres Vedras de 20 de Julho de 1889).
Nas páginas do mesmo jornal fazia-se eco da queixa dos moradores do Ramalhal contra as “peiores condições de transito” do “caminho que dáquelle lugar vae à estação de caminho de ferro” que, a “continuar assim, será no próximo inverno um verdadeiro lamaçal”.
A situação na vila não era melhor, pedindo-se à Câmara Municipal, “a quem não regateâmos louvores pelas obras que ultimamente tem emprehendido na villa e em outras terras do concelho”, que olhasse “para o estado em que se encontram algumas ruas da villa, principalmente a da olaria, por onde é quasi impossível deixar a gente de tropeçar nas muitas covas que ali há, e passar um vehiculo sem que soffra enormes solavancos” (A Vinha de Torres Vedras, de 27 de Julho de 1889).
Igualmente alvo de queixas eram os serviços do Caminho de Ferro, fazendo-se o jornal Vinha de Torres Vedras eco de um artigo publicado no “Diário de Notícias” onde se referiam as “geraes e constantes queixas e reclamações do commercio e dos lavradores da zona atravessada pelas linhas férreas de Torres-Figueira-Alfarellos, contra o preço excessivo das tarifas em vigor, resultando d’este grave inconveniente continuarem quasi todas as mercadorias a ser transportadas em carroças e outros antigos meios de locomoção, o que é irrisório e extremamente prejudicial” (A Vinha de Torres Vedras de 27 de Julho de 1889).
A iluminação pública era igualmente alvo de críticas, sendo frequente as ruas da vila estarem à escuras “como breu, durante todo o serão”, ironizando-se que a “Lua tem pregado o calote ao município de se não prestar a substituir a illuminação publica”. “Por fim, convencidos de que o poético astro não se dignava projectar luz, resolveu-se accenderem-se os candieiros entre as dez e as onze” (A Semana de 4 de Julho de 1889).
No início desse mês de Julho a imprensa local fazia eco da aceitação pela Junta Distrital do pedido, feito em 27 de Junho último pelo município, de se criar em Torres Vedras uma “Escola Municipal de Instrucção Secundária” ( A Semana de 4 e de 11 de Julho de 1889).
AGOSTO de 1889
Uma notícia dava conta da que se iria proceder, no dia 3 de Agosto, “á expropriação dos prédios rústicos entre a Ponte do Rol e a Coutada, que tem de ser atravessados pela estrada de S. Pedro da Cadeira” (A Vinha de Torres Vedras de 3 de Agosto de 1889).
Em 10 de Agosto anunciava-se a chegada, prevista para esse dia, do deputado Casal Ribeiro, no comboio da manhã, “para onde vem com sua família demorar algum tempo em casa de seu tio, o sr. Administrador do concelho”, preparando-lhe os amigos uma “recepçãp condigna” (A Vinha de Torres Vedras de 10 de Agosto de 1889).
Já então se queixavam “os moradores da rua dos Balcões n’esta villa, de que por vezes acontece haver completo pejamento de transito n’aquella via publica, em consequência de descarregarem á porta de um forno que ali existe, carradas de matto, que se não dão pressa em recolher” (A Semana de 24 de Agosto de 1889).
Realizando-se em S. Domingos de Carmões, no dia 11 de Agosto, a festa anual do Santíssimo Sacramento, a ocasião foi escolhida para a inauguração pública da fanfarra da “Sociedade instrucção e recreio carmoense, fundada em 1 de Abril d’este annno”, que “acompanhará a procissão, e tocará á noite no seu coreto, sob a direcção do regente, o sr. Alberto Lança Galvão” (A Vinha de Torres Vedras de 10 de Agosto de 1889).
Também na mesma data teve lugar no Maxial a festa do Santíssimo Sacramento “ que é uso fazer-se no segundo domingo de Agosto desde o anno de 1671. Esteve bastante concorrida, e houve socego, fora do costume dos annos anteriores”, sendo a festa “abrilhantada” com “dois sermões, um ao evangelho e outro ao recolher da procissão”, pelo “padre António José de Almeida”(A Vinha de Torres Vedras de 17 de Agosto de 1889).
Agosto foi ainda mês da tradicional Feira do Mato, no Turcifal que nesse ano esteve “de pouco commercio (…) apezar de ser regularmente concorrida. Houve muito junco, vendendo-se a preço diminuto” (A Semana de 29 de Agosto de 1889)
Por fim, noticiava-se, esse ano, de que a “famosa” Praia de Santa Cruz estava pouco animada, registando-se algumas famílias que tinham partido para essa praia: “os snr. Belford e Augusto dos Santos Ferreira com suas famílias” (A Vinha de Torres Vedras de 31 de Agosto de 1889).
SETEMBRO de 1889
Na sua edição de 28 de Setembro de 1889 a “Vinha…” dava grande destaque da chegada à vila de Torres Vedras, no dia 26, e de onde era natural, de “Luís António de Abreu, que há bastantes annos reside em Buenos Ayres, onde é considerado como um dos mais abastados negociantes, e fundador de diversos estabelecimentos bancários, e outras emprezas de commercio e navegação.
“O sr. Abreu, que veiu com sua esposa e um cunhado, era esperado na gare do caminho de ferro por muitos dos seus conterrâneos e pela fanfarra Sociedade Recreativa Torrense, que acompanharam os recem chegados até casa do sr. Francisco José de Bastos e Silva, onde ficaram hospedados”, tencionando seguir depois para Caldas e regressar a Lisboa, de onde seguiria viagem por alguns países da Europa, voltando a Torres Vedras para “se demorar” dois meses, constando que “o sr. Abreu pensa em deixar assignalada com uma acção meritória a sua estada na terra natal” (A Vinha de Torres Vedras de 28 de Setembro de 1889).
Entretanto chegavam também a Torres Vedras dois torrienses, António Xavier de Rosa Bray, das Carreiras, e Candido do Nascimento Vieira, “conhecido industrial n’esta villa”, que tinham ido a Paris visitar a exposição universal, “tendo-se também demorado algum tempo em Bordéus e em Madrid” (A Vinha de Torres Vedras de 28 de Setembro de 1889).
Nessa Exposição de Paris, estiveram presentes expositores de viticultores do concelho de Torres Vedras, tendo sido premiados “com a medalha de ouro: César Vasconcellos” do Turcifal e “Custodio Miranda” da Ribaldeira.
“Com medalha de prata: Visconde da Silveira; dr .Sabino Galrão; dr. José Henriques Palma d’Almeida; Joaquim Belford; dr. António Maria de Carvalho; e João Garcez Palha” (A Semana de 26 de Setembro de 1889).

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A "Festa dos Arcos", no Ramalhal

O Verão é tempo de festejos populares, alguns de origem imemorável.
De entre os muitos realizados na região, merece destaque a Festa de Nª Sª da Ajuda, que tem lugar no Ramalhal todos os anos, a partir do segundo fim-de-semana de Setembro.
Realiza-se este ano de 12 até 18 de Setembro e distingue-se das outras festas pela decoração do seu recinto com dois arcos enramados em murta, atingindo uma altura que varia entre os 20 e os 30 metros.
Não se conhece, em rigor, desde quando o fabrico destes arcos se associou à festa. Contudo, todas as gerações vivas do Ramalhal sempre se recordam da festa incluir aquele elemento decorativo.
Uma das hipóteses avançadas é a de esse costume ter sido incluído na festa por Augusto Maria Franco, que o teria trazido do Norte do País. Pelo menos é recordado como o homem que durante anos dirigiu a construção dos arcos e como o autor dos desenhos que ainda hoje servem de modelo aos motivos decorativos usados. Na década de 90 era um seu sobrinho, Eduardo Franco que dirigia a construção dos arcos.
A murta é uma planta pobre, sem qualquer utilidade, mas de aroma agradável e de um verde vivo. Antigamente existia com muita abundância na região, mas com o passar dos anos começou a rarear, devido ao uso das terras, onde aquela ramagem se dava, para a construção civil e para a agricultura.
Nos anos 90 a maior parte da murta era colhida em Montejunto, onde existia ainda em abundância.
A apanha da murta obedecia então a um certo ritual, conhecido do povo do Ramalhal: às 5 horas da madrugada da 4ª feira anterior ao início dos festejos, lançavam-se foguetes que avisavam os colaboradores da festa para se juntarem numa camioneta que ao levava a Montejunto para a apanha e transporte da murta, que assim mantinha a sua frescura até ao final dos festejos.
Os arcos têm uma estrutura em madeira de pinho, desmontável e guardada no final das festas, voltando a ser usada nos anos seguintes.
Nessa estrutura montam-se os painéis decorativos com temas que variam de ano para ano, ligados a motivos geométricos, outras vezes a motivos regionais.
Estes painéis são feitos em vime e rebentos de eucaliptos, atados com arames de ligação, só depois enramados com murta. A técnica de enramar era feita pelos mais idosos, com prática de empar vinhas.
Concluída a decoração os arcos só serão levantados à hora da abertura oficial da festa e é um dos seus momentos mais espectaculares.
Este ano o “levantamento” terá lugar neste Sábado, dia 12, pelas 17 horas.
Aproximadamente há 50 anos atrás os arcos eram levantados à força muscular de homens auxiliados por juntas de bois, auxiliados com o uso de cordas largas.
Actualmente estes são levantados com auxílio de tractores e cordas mais resistentes.
Como todas as festas tradicionais, esta também desempenha uma importante função social. Na época da festa caiam-se casas, limpam-se ruas, reencontram-se famílias e amigos. Havia famílias que ao longo de todo o ano só jantavam fora de casa por ocasião desta festa.
Todos os anos os lucros obtidos com a festa revertem a favor de uma obra social.
A festa do Ramalhal tem sabido renovar-se, integrando na sua comissão de festas jovens da localidade, garantindo deste modo a continuidade de uma das festas mais originais do concelho de Torres Vedras.
(este texto baseou-se num trabalho nosso, publicado na revista “Zona Oeste”, nº 1, Outubro de 1990, e as informações foram então recolhidas oralmente junto ao coordenador da comissão de festas desse ano, o sr. António Joaquim Espírito Santo. As fotografias foram tiradas em 1992).

terça-feira, 8 de setembro de 2009

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 1ª parte

Em 1836 acontecia a primeira grande crise do liberalismo português,pouco mais de 2 ano após a derrota dos absolutistas.

Ficou esse período conhecido por "Setembrismo", por ter acontecido de 9 para 10 de Setembro de 1836 uma revolução que, de modo dramático, revelou as profundas divisões político-sociais no seio do liberalismo.

A Torres Vedras também chegaram os ecos dessa conjuntura.
Breve descrição da conjuntura
A 9 de Setembro de 1836 deu-se uma das mais importantes revoluções populares do nosso país, conhecida por "Revolução de Setembro".
Pouco mais de dois anos após a vitória dos liberais sobre os miguelistas, aquela revolta culminou o acentuar de tensões no seio dos liberais vitoriosos, que, "grosso modo", se dividiam entre os defensores da restauração da Constituição de 1822, mais "progressista" e restritiva do poder real, e aqueles outros que defendiam a manutenção da Carta Constitucional de 1826, reposta em vigor após a vitória liberal de 1834, mais "conservadora", defendendo um poder régio forte.
As tensões entre essas duas facções liberais, que ficaram conhecidas por "setembristas" e "cartistas", acentuaram-se em 1836, com a formação do governo presidido pelo duque da Terceira, em Abril, acusado pelos opositores de corrupto, situação política agudizada pela grave crise económica e social que então se vivia.
Vitoriosa em 10 de Setembro, a revolução teve como consequências imediatas a abolição da Carta Constitucional de 1826, substituída pela Constituição de 1822 e a demissão do governo do duque da Terceira dando lugar a um outro presidido pelo visconde Sá da Bandeira, mas dominado por Passos Manuel.
Foi a contra gosto que a rainha, D. Maria II, aceitou tais alterações e à sua volta reuniram-se todos aqueles que, desde logo, começaram a conspirar contra a revolução de Setembro. A 3 de Novembro a rainha ensaiou um golpe de estado, a "Belenzada", proclamando a restauração da "Carta". Essa intentona acabaria por falhar graças à rápida resistência popular e da Guarda Nacional. Sá da Bandeira e Passos Manuel, por sua vez, comprometeram-se com a rainha na elaboração de uma nova Constituição, conciliando a Constituição de 1822 com a Carta Constitucional, marcando assim a afirmação da tendência moderada e menos popular do "setembrismo". Mais grave foi a chamada "Revolta dos Marechais" (Duque da Terceira e Saldanha),que lançou algumas regiões do país em autêntica guerra civil, de Julho a Setembro de 1837.
Preso nas suas próprias contradições o "Setembrismo" terminaria com a restauração da Carta em Janeiro de 1842. (Quem quiser conhecer um pouco melhor este período histórico, recomenda-se a leitura da obra de Victor de Sá, A Revolução de Setembro, (3º edição 1978,Livros Horizonte).
Reflexos da crise em Torres Vedras.
Temos por objectivo neste artigo registar o modo como este acontecimento se reflectiu em Torres Vedras entre o poder político local, tendo por base as informações contidas nos livros de acordãos, durante o período do chamado "Setembrismo", que durou até Janeiro de 1842.
A Câmara de Torres Vedras tomou posição sobre os acontecimentos na sua reunião de 14 de Setembro de 1836: "A camara, em execução do officio que lhe foi transmetido pello Governador Civil por via do Administrador deste concelho sobre os acontecimentos que tiverão lugar na cidade de Lisboa em o dia 10 do corrente em o qual S.Magestade a Rainha adoptou a Constituição promulgada em o anno de 1822 em consequencia dos Sentimentos manifestados pellos habitantes da capital. Deliberou que se passasem editaes com a copia do mesmo officio fazendo saber aos povos deste concelho o refferido acontecimento para seu regozijo e satisfação reservando se a camara para todas as mais solemnidades, esperar as ulteriores determinaçoes que do governo de Sua Magestade a Rainha se devem receber e determinou que hoje se fizessem luminarias na casa da camara para signal do regosijo que lhe cauzou tão agradavel noticia" ( Livro 27 de Acordãos da Câmara de Torres Vedras, 14 de Setembro de 1836, folha 87 verso, Arquivo Municipal de Torres Vedras (A.M.T.V.).
A posição da Câmara de T. Vedras foi bastante cautelosa, mantendo uma certa distância perante os acontecimentos, frisando que a Constituição de 1822 tinha sido adoptada por pressão dos habitantes de Lisboa. Note-se ainda a respeitosa reverência perante a rainha.
A 20 de Setembro tem lugar uma vereação extraordinária para aclamação da Constituição, cuja acta se encontra trancada por deliberação tomada em 20 de Agosto de 1837, quando a Câmara em funções adere à revolta dos Marechais e proclama a restauração da Carta.
A 26 de Outubro de 1836 a vereação volta a jurar a Constituição de 1822, ao que parece por pressão da Guarda Nacional de Torres Vedras:
"(...) na mesma vereação sendo presentes os commandantes das companhias, secçoens avulsas e Esquadras da Guarda Nacional deste concelho o Presidente da Camara em cumprimento do officio do Ex.mo Ademnistrador deste Distrito (...) manda lavrar o seguinte juramento: (...) de guardarem e fazer guardar a Constituição Política da Monarquia de (...) 1822 (...)"(Livro 27 de Acordãos da Câmara de Torres Vedras ,26 de Outubro de 1836. folha 90 verso).

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 2ª parte

A Revolução de Setembro de 1836 é geralmente apontada como uma afirmação da burguesia industrial e urbana, aliada à classe média dos comerciantes e apoiada pelas classes baixas, sobre os grandes proprietários rurais e a alta burguesia, defensores da Carta Constitucional de 1826.

Contudo, em Torres Vedras, não se revela muito evidente o domínio do primeiro grupo social sobre o segundo, tendo em conta a constituição social dos elencos camarários em exercício durante o chamado "setembrismo".
Entre a aclamação da Constituição de 1822 em Torres Vedras, a 20 de Setembro de 1836, e a proclamação da Carta pela Câmara local, a 13 de Fevereiro de 1842, existiram12 elencos camarários, por onde passaram 43 cidadãos, dos quais 24 eram "proprietários", maioritariamente rurais. Além destes, registam-se ainda 6 "fazendeiros" e 2 "lavradores". Entre os 11 restantes distribuem-se pelas seguintes profissões: 2 "mercieiros", 2 "advogados", 1 "médico", 1 "tabelião", 1 "professor", 1 "boticário", 1"logista e proprietário", 1 "cirurgião" e 1 "mercador".
Alguns desses cidadãos participaram em vários elencos camarários, ao longo de vários anos, outros apenas num, ou nem sequer tomaram posse.
As Câmaras eram formadas por 7 membros, nem sempre os mesmos ao longo do mandato, pois frequentemente pediam "escusa" do seu cargo.
Elaborámos um quadro, que por razões técnicas não conseguimos inserir no blog, mas que está disponível numa edição do jornal “Frente Oeste” de Setembro de 1996, onde podemos observar o peso dos vários grupos profissionais em cada elenco camarário.
Pela observação do quadro comprova-se o predominio dos "proprietários", que podemos considerar "rurais", tendo em conta o cruzamento de informações biográficas dos mesmos, contidas em diversos documentos do Arquivo Municipal de Torres Vedras, nomeadamente censos eleitorais, documentos fiscais e livros de acordãos. Aqueles, conjuntamente com os "lavradores e "fazendeiros", mantêm a maioria absoluta da burguesia rural no seio do elenco municipal .
É curioso observar também que a Câmara "cartista", em funções antes da "revolução de Setembro", se manteve em funções até 13 de Março de 1837, numa altura em que a ala conservadora do Setembrismo já dominava a situação, assim como a ultima Câmara "setembrista" se manteve em funções até quase um ano após a restauração da Carta.
Mais curioso será notar que nesses dois elencos camarários encontramos dois vereadores comuns, enquanto os presidentes dessas duas Câmaras tinham afinidades familiares.
O ano de 1837 foi aquele que se revelou mais conturbado, tendo conhecido cinco elencos camarários ao longo de 12 meses, dois dos quais nomeados interinamente e um deles dissolvido por irregularidades eleitorais.

 
Os Rostos do Poder
Ao longo do "Setembrismo" presidiram à Câmara de Torres Vedras as seguintes personalidades:
-De 20 de Setembro de 1836 a 13 de Março de 1837, em funções desde 15 de Janeiro de 1836: António Pedro Ferreira Campelo, Lavrador (alguns anos depois já era proprietário).
-De 13 de Março de 1837 a 19 de Setembro de 1837: Estevão José da Silva, Proprietário.
-De 19 de Setembro de 1837 a 15 de Outubro do mesmo ano: António Agostinho Ferreira de Carvalho, Proprietário (Presidente interino).
-De 15 de Outubro a 18 de Novembro de 1837: Estevão José da Silva.
-De 18 de Novembro de 1837 a 1 de Janeiro de 1838: António Agostinho Ferreira de Carvalho (Presidente interino).
-De 1 a 27 de Janeiro de 1838: Estevão José da Silva. Abandonou o cargo por ter sido nomeado Administrados Substituto do Concelho. Em 1 de Janeiro de 1839 tornou-se Administrador do Concelho de Torres Vedras, posição que ocuparia pelo menos até Fevereiro de 1842, quando da restauração da Carta. Este cargo era de nomeação governamental e politicamente mais importante que o de presidente da Câmara.
-De 27 de Janeiro de 1838 a 1 de Janeiro de 1839: Dr.José Eduardo Cezar , Proprietário da Quinta da Marinha, em substituição do anterior nomeado para novo cargo.
-De 1 de Janeiro a 18 de Abril de 1839: João Victorino Pereira de Castro, Cirurgião.
-De 19 de Abril a 2 de Maio de 1839: Dr.José Eduardo Cezar (nomeado interinamente).
-De 2 de Maio de 1939 a 1 de Janeiro de 1840: António Pedro Ferreira Campelo,
-De 1 de Janeiro de 1840 a 2 de Setembro de 1841: João Tavares de Macedo, Proprietário.
-De 2 de Setembro de 1840 a 2 de Janeiro de 1843: Ignacio Ferreira Campelo, Advogado. Foi esta Câmara que proclamou em Torres Vedras a restauração da Carta em 13 de Fevereiro de 1842.
Como se observa, também na presidência do município predominam os proprietários.
Existem contudo outras personalidades que, ocupando ou não tais cargos, nunca deixaram de exercer a sua influência ao longos dos mais de 5 anos e 4 meses em que o Setembrismo vigorou neste concelho, participando em vários dos elencos camarários.
Foram eles:
-José Miguel Franco, Proprietário da Quinta do Infesto, vereador em 7 Câmaras, num total de 4 anos, 2 meses e 4 dias de serviço;
-Boaventura dos Santos Franco de Carvalho, Proprietário da vila, exercendo cargos municipais em 6 Câmaras, num total de 3 anos e 6 meses de serviço;
-Amancio António Xavier de Buitrago, Proprietário do Turcifal, servindo 5 vereações, num total de 3 anos e 9 dias;
-João Felix Gomes de Azevedo, Lavrador da vila, ao serviço de 4 elencos camarários, num total de 2 anos, 4 meses e 24 dias.
Tendo em conta todo o conjunto de dados atrás referidos, bem como o facto de encontrarmos entre as várias vereações deste período os então proprietários de 6 das mais importantes quintas do concelho, (Calvel, Macheia, Marinha, Infesto, Juncal e Póvoa), reforça-se a ideia de que, ao contrário do que aconteceu em Lisboa e noutros pontos do país, o "Setembrismo", em Torres Vedras, pouco terá beliscado a influência política e o poder da grande e média burguesia rural local.

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 3ª parte

Uma das primeiras medidas legais dos vencedores da "Revolução de Setembro" foi a publicação de uma nova legislação eleitoral, datada de 8 de Outubro.

A lei eleitoral de 8 de 0utubro de 1836 destinou-se a preparar as eleições de Dezembro desse ano para eleger os representantes às Cortes Constituintes.

Com base nos cadernos eleitorais da maioria das freguesias de Torres Vedras, elaborados com base nessa lei, procurámos obter uma aproximação à realidade social e profissional deste concelho em 1836.


A legislação "cartista", anteriormente em vigor, restringia o eleitorado a "uma minoria de nível económico elevado", preconizando a eleição indirecta e mantendo um sistema de divisão de círculos eleitorais que favorecia "o caciquismo, o suborno e a preponderância dos grandes proprietários rurais". Pelo contrário, a nova legislação setembrista suprimiu o voto censitário, tornando-o práticamente universal, sendo extensivel a todos os homens maiores de 25 anos ou, sendo casados, oficiais militares, bacharéis ou clérigos, maiores de 20 anos.. Além disso, a eleição passou a ser directa, e "as novas divisões eleitorais introduzidas pelo setembrismo" tenderam"a efectuar uma descentralização que" favoreceu "uma maior independência dos eleitores e" facilitou "a participação no acto eleitoral"( in A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836-Geografia eleitoral, de Sacuntala de Miranda, ed. Livros Horizonte, 1982, pp.18 e 19)..
A lei eleitoral de 8 de 0utubro de 1836 destinou-se a preparar as eleições de Dezembro desse ano para eleger os representantes às Cortes Constituintes. O voto censitário (voto censitário: a condição de eleitor ou eleito depende do rendimento de cada um) voltou a ser reposto pela lei de 9 de Abril de 1838, mantendo-se em vigôr até ao final da monarquia(Para se conhecer a evolução do sistema eleitoral português, recomendamos a leitura da síntese, sobre o assunto, escrita por António Lopes Cardoso, intitulada OS SISTEMAS ELEITORAIS, edições Salamandra, 1993).
Embora o Arquivo Municipal de Torres Vedras (A.M.T.V.) não nos revele o resultado dessas eleições neste concelho, em contra partida existem nesse arquivo os cadernos eleitorais de quase todas as freguesias, elaborados tendo por base a lei de 8 de Outubro.
Com base neles podemos obter uma visão muito próxima da realidade sobre o peso dos vários grupos sociais e profissionais deste concelho, tendo em conta a excepcional abrangência eleitoral dessa lei, quase única no século XIX.
Contudo faltam os cadernos eleitorais de cinco importantes freguesias, Turcifal , Freiria, S.Pedro da vila, Dois Portos e Carmões. Estas duas útimas não surgem porque pertenciam então ao concelho da Ribaldeira. Pelo contrário existem os cadernos eleitorais da freguesia de Fanga da Fé (Encarnação) e Sobral da Abelheira então pertencentes ao concelho de Torres Vedras e hoje integradas no de Mafra. Não se encontra qualquer registo sobre os eleitores da freguesia da Azueira, também actualmente pertencente ao concelho de Mafra, mas que integrava então a administração de Torres Vedras.

Uma aproximação à sociedade Torriense em 1836.
Elaborámos, com base nesses cadernos eleitorais, um Quadro, o qual não podemos incluir neste blog por razões técnicas, mas que, tal como o anterior, pode ser consultado nas páginas do “Frente Oeste” de Setembro/Outubro de 1996. Arriscamos, mesmo assim, fazer a leitura dos seus dados. Esse quadro inclui o total de fogos, o número de eleitores registados, a relação percentual entre eleitores e "fogos" e a sua distribuição percentual pelos três sectores de actividade em todas as freguesias do concelho.
O número de fogos baseia-se nos dados publicados em anexo ao decreto eleitoral de 8 de Outubro de 1836, que tinham por base o recenseamento de 1828. Um "fogo" corresponde a uma habitação familiar. Os restantes dados baseiam-se nos já mencionados cadernos eleitorais do A.M.T.V. Quanto aos totais concelhios, entre (...) registamos a soma de todas as freguesias, enquanto os restantes totais se referem apenas ao total das freguesias para as quais obtivemos dados eleitorais.
Tendo em conta que, a cada "fogo" correspondia uma família e que as mulheres e menores não tinham direitos eleitorais, a relação percentual entre "fogos" e eleitores mostra-nos que, tomando aquele critério como válido, estavam representadas eleitoralmente cerca de 2/3 das famílias do concelho, chegando esse índice a ultrapassar os 80% em A-Dos-Cunhados, Sobral da Abelheira e Stª Maria.
Pelo contrário, em freguesias como o Maxial, S.Pedro da Cadeira, Ponte do Rol e mesmo Ventosa, cerca de metade das famílias não estavam eleitoralmente representadas.
Mesmo assim podemos considerar que, para a época, o corpo eleitoral era significativamente representativo.
Observando agora os dados referentes aos sectores de actividade, não é de admirar o peso então representado pelo sector primário, com um peso médio de 76,6%, ultrapassando os 80% em 6 freguesias. Esta percentagem devia ser ainda mais significativa se fossem incluídos os menores de 25 anos não casados, pois o trabalho rural começava em idades muito mais baixas.
Também não espanta que os eleitores do sector primário, residentes na vila, repartidos pelas freguesias de Stª Maria, S.Miguel e Santiago, não cheguem a representar 50%. A falta de dados sobre a freguesia de S.Pedro distorce de algum modo este resultado, pois era nesta que se concentrava a maior parte da população urbana, e por isso esta percentagem devia ser ainda menor. O resultado da freguesia de S.Tiago reflecte o facto de ser nesta que se concentra a maior parte da população da vila entre os eleitores conhecidos. O índice abaixo do normal registado em Ponte de Rol é pouco representativo, dado o número reduzido de eleitores que serve de amostra. Já em relação à freguesia de Runa , situação idêntica parece dever-se ao peso do sector terciário, nomeadamente aos militares do então Asilo Militar.
A maior parte, mais de metade, dos eleitores do sector primário do concelho, era constituído por trabalhadores assalariados, enquanto 1/3 era de "fazendeiros" e "lavradores" e só menos de 2% do total desse sector por "proprietários".
Quanto ao sector secundário era formado, maioritariamente, por actividades artesanais para consumo local, não se registando qualquer concentração significativa que revelasse qualquer industria de tipo capitalista. O grosso deste sector era representado pelos "sapateiros", actividade registada em todas as freguesias e que representava mais de 1/4 deste sector. Seguia-se a actividade de "carpinteiro", representando cerca de 1/6 do sector, seguida muito de perto pelos "moleiros" .
Quanto ao sector terciário revela-se muito pouco representativo no total de eleitores, concentrando-se quase 1/3 na vila. A profissão de "Almocreve" é a a mais referenciada neste sector, representando cerca de 20% , profissão que se acha disseminada por 10 freguesias e por várias localidades. A maioria concentrava-se nas freguesias da Ventosa e de A-dos-Cunhados, respectivamente nos lugares de Fernandinho e Póvoa, em número idêntico aos existentes na vila. Estes "almocreves" tinham uma importante função comercial, fornecendo as populações com produtos essenciais nos intervalos dos mercados. A sua concentração em zonas rurais leva-nos a colocar a hipótese de terem um papel importante no comércio da produção agrícola no concelho e arredores.
Sem pretendermos esgotar o tema, até por razões de espaço, e deixando ainda muita informação por tratar, pretendemos apenas traçar algumas tendências sobre o peso dos vários grupos sociais e profissionais no concelho de Torres Vedras em 1836.

Nota Final
Por razões técnicas, não conseguimos inserir notas de rodapé com as referências bibliográficas e de fontes, pelo que as referimos junto do texto. Pelo facto pedimos desculpa aos nossos leitores.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ESCLARECIMENTO SOBRE O TEXTO "TORRES VEDRAS DURANTE A 2ª GUERRA"

O texto por nós publicado sob aquele título tem, só por si, uma longa história.
Foi escrito em 1995, a pedido de Andrade Santos para ser publicado numa edição da “Torres Cultural”, comemorando os 50 anos do final da guerra.
Deparando-me com uma grande falta de fontes locais tradicionais para elaborar esse trabalho, recorri à ajuda de testemunhas orais, de pessoas que eu conhecia e tinham vivido esse período: o Sr. Pedro Fernandes, o sr. Adão de Carvalho, ambos entretanto já falecidos, e à minha mãe, Maria Helena Costa Aspra de Matos, que, durante a infância, me tinha contado muitas histórias desses tempos conturbados.
Entretanto alarguei o meu estudo para a recolha de dados sócio-económicos sobre a região.
Uma versão resumida do resultado dessa investigação, acabou por ser a publicada no nº 7 da “Torres Cultural”, edição de 1996.
Como tinha recolhido e escrito muito material que não pôde ser publicada por razões de espaço, acalentei a ideia de publicar um pequeno livro sobre o assunto.
Esse objectivo ficou-se pela elaboração de uma maqueta, cujo exemplar é o único documento original que possuo desse texto.
Tal texto tinha sido escrito no meu primeiro computador, um Macintosh, copiado posteriormente para uma disquete quando me desfiz desse computador para comprar um mais recente, entretanto também já desaparecido.
Resumindo e concluindo, desse texto, em formato digital, apenas consegui salvar para o meu actual computador uma parte. Tem-me faltado tempo para passar o que falta para o computador, a partir daquela maqueta (cujo exemplar só hoje descobri).
Entretanto comemorava-se, no passado dia 1 de Setembro, o 60º aniversário do início da Segunda Guerra e lembrei-me que talvez pudesse publicar esse texto no blog Vedrografias, mesmo com o texto incompleto, sem conseguir reproduzir os gráficos (já agora, alguém me ensina como é que posso reproduzir gráficos para um blog?), e sem a bibliografia incluída.
Só tinha duas opções, ou deixava passar a efeméride, à espera de aperfeiçoar o texto (cuja publicação ficava mais uma vez adiada) ou publicava-o mesmo assim, com o objectivo de divulgar o que era essencial.
Encaro este blog como um espaço de divulgação e ensaio e não o confundo com uma tese de Mestrado ou uma edição em livro.
Não me pareceu que o texto perdesse qualidade ou importância sem estar tecnicamente perfeito.
A própria leitura do texto que tinha digitalizado, era esclarecedor sobre as fontes utilizadas. Implícita ou explicitamente estavam lá as indicações bibliográficas fundamentais.
Por isso não percebo a boca anónima que me foi enviada.
Aliás, tenho pouca consideração pelo anonimato, e esta será a última vez que respondo a um leitor anónimo, mais porque penso que os meus leitores têm direito a um esclarecimento do que por qualquer consideração pelo anonimato.
Sendo assim, e de modo resumido, passo a esmiuçar as fontes utilizadas, sem preocupação em seguir os cânones, como mera indicação (que, repito, estão implícitas ou explícitas no texto, um texto inacabado e de mera divulgação):
Fontes Orais (as principais para a elaboração deste texto):
- Adão de Carvalho;
-Maria Helena Costa Aspra de Matos;
- Pedro Fernandes.
Fontes Manuscritas:
- Livros de Acordãos da Câmara Municipal de Torres Vedras, nº 47 e nº 48,Arquivo Municipal de Torres Vedras (nomeadamente os acórdãos de 10 de Maio de 1945, ff. 194V e 195, e de 16 de Agosto de 1945, f. 14);
Fontes Impressas:
- Anuários Demográficos de 1938 a 1947, ed. INE.
- “Notícias de Torres”, de 1942 e 1943.
- OLIVEIRA, Rogério V. de “O custo de produção do vinho no concelho de Torres Vedras”, in Anais da Junta Nacional do Vinho, vol. III, 1951, pp. 185 a 289.
- Recenseamentos Gerais da População, 1930, 1940 e 1950, ed. INE (actualmente estão disponíveis na internet no site do INE – Instituto Nacional de Estatísticas).
- Regulamento Interno da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras, ed. Sociedade Progresso Industrial de Torres Vedras, Outubro de 1944.
- “A Voz do Concelho”, 1942.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Torres Vedras Durante a IIª Guerra

Passam hoje 70 anos sobre o início da Segunda Guerra Mundial. Portugal, país neutral, não deixou de sentir os efeitos dessa tragédia mundial.
E em Torres Vedras? Como se vivia então? De que modo chegavam os ecos do conflito? Como é que os seus habitantes sentiam tão grave acontecimento?
Questões que, pese embora a falta de documentos escritos, nos propomos tentar esclarecer, mesmo que modesta e parcialmente. À falta de documentos tradicionais, recorremos também à recolha de testemunhos orais, mercê principalmente, da colaboração e boa vontade de Pedro Fernandes, de Adão de Carvalho, ambos infelizmente já falecidos, e de Maria Helena Matos, testemunhos presenciais desse conturbado período da história do século XX.
Por razões técnicas não podemos reproduzir aqui alguns gráficos essências, pelo que os comentaremos de forma mais clara que seja possível.
A População e a Sociedade de Torres Vedras
Em 1945 a população do concelho de Torres Vedras rondaria entre os 52 143 habitantes (pelo censo de 1940) e os 56 514 (pelo censo de 1950). Destes, só pouco menos de 10% não eram naturais do concelho (assim acontecia tanto em 1940 como em 1950).
Tendo sido o censo de 1940, o segundo onde se publicaram os dados sobre a distribuição da população por lugares, (o primeiro foi o de 1911, e tal só voltaria a acontecer em 1960), sabe-se que viviam nessa altura 4890 pessoas no centro urbano de Torres Vedras, correspondendo a 9,3% da população do concelho.
Analisando a evolução demográfica conjuntural, no período de 10 anos, entre 1938, o ano anterior ao início da guerra, e 1947,vemos que a tendência geral foi para a descida lenta do número de nascimentos, quebra fortemente acentuada em 1941, talvez por acção psicológica da guerra, no mesmo ano em que se registou um número anormal de casamentos, muito acima da média normal, quer em anos anteriores, quer em datas posteriores. Este caso deverá estar intimamente ligado ao agravamento do conflito, observado esse ano, e à então eventual possibilidade do envolvimento militar de Portugal, visto que o casamento permitia, no mínimo, adiar a incorporação militar.
Quanto ao número de óbitos não existe nenhum dado significativo a registar nos anos da guerra, a não ser a sua lenta e normal descida estabilizada.
Segundo o censo de 1940, a população masculina activa era de 17086, dos quais 13250 estavam ocupados na agricultura, isto é 77,5% dos activos, percentagem só ultrapassada por Arruda dos Vinhos no Distrito de Lisboa.
Infelizmente o censo de 1940 não nos esclarece sobre o tipo de ocupação da restante população activa. O censo de 1930 é o mais próximo a revelar esse tipo de dados. Neste, para a distribuição profissional, onde também se contavam as mulheres activas, a percentagem de activos na agricultura é igualmente elevado, ocupando 75,8% . O grupo profissional que se seguia ocupava apenas 3,5% dos activos, e surgia intitulada como “industrias relativas à construção civil”. Seguiam-se , citando apenas as mais significativas:
- “criados e criadas” com 2,3% dos activos
- “industria de vestuário e calçado” com 2,1% .
- “industrias relativas ao fabrico de géneros alimentares” com 1,5%.
- “saúde publica” com 1,2%.
- “industria metalurgica” com 1,1%.
A Vida Económica
De entre todos os produtos agrícolas produzidos na região, o vinho era então, não só o que ocupava a maior parte da área cultivada, como aquele que mais produzia e maiores rendimentos dava.
Rogério Oliveira considerava que “cerca de 95% da população agrícola está ligada à vitivinicultura (...).Este facto ,aliado à circunstância de se tratar de uma cultura que absorve mão de obra durante quase todo o ano ,diz bem da enorme importância social ,a acrecentar-se ao domínio económico ,da vinha e do vinho na região.”.(ob.cit. ,pág.205).
De salientar também o facto de o trigo, apesar de ocupar a segunda maior área de cultivo ,ser ultrapassado, em termos de produtividade, pela produção de batata.
De qualquer modo este concelho manteve uma produtividade significativa, do ponto de vista agrícola durante os anos de guerra, facto confirmado pelas testemunhas coêvas que consultámos e que nos informaram não ter esta terra sofrido grandes carências alimentares, nomeadamente quanto ao fornecimento de pão, graças, em grande parte, ao esforço da Moagem Clemente, que chegava a laborar para além do seu horário para poder responder à procura da população. Segundo esses mesmos testemunhos, o concelho de Torres Vedras chegava mesmo a fornecer produtos agrícolas e pecuários para Lisboa e concelhos vizinhos.
Contudo, com o prolongamento da guerra, a situação agravou-se, mesmo neste concelho, como se parece deduzir de uma notícia publicada nas páginas do “Notícias de Torres”, em 1 de Agosto de 1944, dando conta duma resolução da Intendência Geral dos Abastecimentos, enviada à “Comissão Reguladora do Comércio Local”,tendo por objectivo o racionamento do pão, mandando realizar, por freguesia, uma relação de padarias, obrigando à distribuição equitativa por cliente “distinguindo o trabalhador rural a quem se deve distribuir 500 gramas de pão por dia”, fornecendo aos hotéis e pensões apenas pão de 1ª e onde só se podia servir 46 gramas de pão por pessoa “ao almoço e jantar e 93 gramas ao pequeno-almoço”.
O racionamento na venda de determinados produtos é uma das recordações mais fortes de quem viveu essa época. Regularmente, cada família tinha de levantar as senhas de racionamento necessárias, distribuídas no edifício onde funcionou a Biblioteca Municipal, pertencente à Misericórdia, situado no cimo da Rua Paiva de Andrada.
A alternativa para obter determinados produtos era o recurso à candonga. Tal situação mereceria mesmo a reprovação pública nas páginas do “Notícias de Torres”: “Embora se venha acentuando a falta de géneros alimentícios, inegável consequência da angustiosa situação internacional, este concelho não é dos que mais tem sofrido.
“A Comissão Reguladora do Comércio Local, sob a presidência do ilustre presidente da Câmara Municipal, sr. Eng.D. Jose Telles da Silva , tem sabido vencer sérias dificuldades.
“É de lastimar que nem todos compreendam que não é fazendo comércio ilícito que se adquire um bem estar solido.
“O inimigo da civilização cristã, sem preconceitos e sem amor ao seu semelhante reage na treva ,servindo-se da intriga para fazer valer a sua criminosa acção especuladora.
“Todos os que anceiam a paz, a verdadeira alegria na vida,devem participar no sacrifício imposto pela anormal situação.
“Os que assim não procedem são ignobeis fragmentos humanos, torna-se ,por isso indispensavel, deter enérgicamente a sua barbara ambição”.
Tais reparos não evitaram o enriquecimento imoral de muita gente, tendo-se mesmo construído um bairro a sul da vila, na continuação poente da rua Carlos França, que ficou popularmente conhecido por “Bairro da Candonga”, cujas habitações teriam sido feitas à custa dos lucros dessa actividade ilegal.
Houve mesmo um episódio relacionado com essa situação, ainda hoje recordado por muitos torrienses com mais de 75 anos: Certo dia, talvez no ano de 1942, um cliente deslocou-se ao estabelecimento “Fonseca & Lisboa”, na rua Dias Neiva, para levantar os seus artigos do racionamento. Os armazéns daquele estabelecimento encontravam-se em frente e alguém reparou que um dos empregados aí se deslocou e retirou barras de sabão para entregar ao cliente, mas que não vinham no seu racionamento. Então os ânimos exaltaram-se, acusando-se os armazenistas de esconderem o sabão ilegalmente, constatando-se que este era vendido por alto preço a quem o pudesse pagar, quando se declarava aos outros clientes a inexistência daquele bem. Houve quem corresse para a Igreja de S. Pedro e tocasse os sinos a rebate, registando-se o assalto aos armazéns ,principalmente por parte dos moradores da Rua da Corredoura, os mais pobres e, por isso, mais prejudicados com a situação. Várias pessoas foram presas, 2 mulheres e 4 homens.
O sabão era mesmo um dos produtos cuja falta mais se fazia sentir. Havia até quem o fabricasse em casa artesanalmente e o vendesse. Comprava-se sebo no talho ,misturava-se com potássio e outros produtos químicos, adquiridos na farmácia , secando-se ao sol em caixas de madeira .
As dificuldades provocadas pela guerra podem ser também exemplarmente observadas através da evolução dos preços tabelados, anualmente , pela câmara municipal, em Agosto ou Setembro de cada ano. Até 1942 os preços permanecem estáveis, com prejuizo para os produtores , situação que ,contudo, se torna insustentável a partir de 1942 ,ano em que ,talvez para responder ao mercado negro, e uma maior carência dos produtos, os preços subiram em flecha.
Mas nem todos os efeitos foram negativos. É conhecido o caso da “Casa Hipólito” que ficou a dever em grande parte a sua expansão à guerra, nomeadamente nas relações privilegiadas que, pelo menos desde 1938, mantinha com a Alemanha, fabricando invólucros de granada, pelo que o nome dessa empresa chegou a constar de uma “lista negra” elaborada pelos aliados, com os nomes de empresas que haviam colaborado com os alemães, divulgada aos microfones da BBC, e envolvendo outras empresas da região, entre elas uma serralharia de Runa. Só a diplomacia de um Vasco Parreira, bem relacionado com o delegado comercial da embaixada Norte-Americana, conseguiu livrar a empresa de sofrer as consequências dessa situação.
Alguns dados sobre a vida cultural
No censo de 1940 69,85% dos habitantes do concelho de Torres Vedras eram analfabetos, percentagem que se reduziu para 57,13% no censo de 1950. O ensino conheceu então algum incremento com a fundação, em finais de 1944, da Escola Comercial Augusto Cabral.
Da população recenseada em 1940, 94,01% declarava-se católica, percentagem que, curiosamente, aumentaria para 97,24% dos recenseados em 1950.
A imprensa era então, conjuntamente com a rádio, um dos principais meios de difusão cultural. Contudo, apesar da tradição jornalística de Torres Vedras, os anos 30 e 40 foram marcados pela redução drástica de edições.
Os piores anos para a imprensa local foram os de 1937,1938,1939 e 1940. A saída definitiva deste período negro na história do jornalismo torriense só teria lugar em 1948 com a fundação do jornal “Badaladas”. A censura, o domínio quase absoluto do jornalismo por propagandistas do regime e as próprias dificuldades económicas inerentes ao período de guerra, terão contribuído para essa fase decadente. Daí também a dificuldade em obter informações documentais escritas sobre o período de guerra.
Muitas das notícias da guerra chegavam a Torres Vedras de comboio, vendendo-se aos balcões da estação os principais títulos da imprensa nacional de então.
Mas outro meio, não menos importante e de certeza mais espectacular, era o cinema , exibindo o Teatro Cine Ferreira da Silva as “actualidades” da guerra.
A rádio era ainda o meio de informação mais rápido, e dela chegavam as notícias mais frescas. Alguns arriscavam mesmo a audição proibida e clandestina da B.B.C., onde se destacava a locução irreverente de um Fernando Pessa, emissões frequentemente sujeitas a interferências, atribuídas em Torres Vedras aos germanófilos locais.
Os cafés eram o principal ponto de encontro dos homens da vila, já que então o lugar da mulher era em casa, e a sua presença, a não ser que acompanhada, era muito mal vista pela sociedade de então. Aí se discutiam as últimas da guerra, muias vezes acompanhando-se os movimentos militares com mapas sobre as mesas.
Periodicamente tinham lugar os bailes, as sessões teatrais ou musicais nas várias colectividades da vila, pelas quais os torrienses se distribuíam segundo as classes sociais: as classes “altas” frequentavam o seu “Casino”, as classes “médias” dividiam-se pelo “Clube Artístico e Comercial” e pela “Tuna Comercial”, e o operariado, em crescimento, mercê da prosperidade industrial, que a guerra terá acelerado, divertia-se na “Sociedade Recreativa Operária”.
Em finais de 1944 era fundada uma nova colectividade, “A Banda Recreativa Torreense”, também conhecida por “Banda Nova”.
Propaganda e Política
Torres Vedras não estava alheada da guerra propagandística desencadeada em Portugal pelos dois blocos em confronto.
Em Torres Vedras a propaganda das forças do “Eixo” era distribuída no estabelecimento situado no “chalé” onde hoje está o novo e remodelado Café Império. Alguns torrienses estavam inscritos no “Clube Alemão”, deslocando-se regularmente a Lisboa, em excursões organizadas à sede desse clube, para assistirem a sessões cinematográficas de propaganda alemã. Ao que parece, esta associação terá tido alguma aceitação e actividade até 1942, ano em que se inicia a viragem na guerra, entrando desde aí em declínio.
Quase em frente ao estabelecimento que centralizava a propaganda alemã, situava-se a Papelaria e Livraria Progresso, de Victor Cesário da Fonseca, responsável pela distribuição da propaganda aliada, à volta da qual se reunia a oposição republicana ao “Estado Novo”.
Sinais da guerra chegavam também pela presença de crianças adoptadas, refugiadas de guerra, residindo no seio de algumas famílias da vila e do concelho.
Não são conhecidos, contudo, casos de espionagem, a não ser numa situação nunca esclarecida de um dinamarquês, provavelmente judeu, residindo durante algum tempo numa pensão da terra e que apareceria misteriosamente morto a tiro numa estrada do concelho, poucos dias depois de ter chegado uma ordem governamental para exilar todos os estrangeiros em Caldas da Rainha.
Durante os anos de guerra foi presidente da câmara o Engenheiro D. José Teles da Silva (Tarouca), cargo que exerceu até ao final de 1945.
O Presidente da Câmara era então nomeado pelo governo.
Vivia-se em plena vigência da Constituição de 1933, e vigorava a lei eleitoral de 27 de Dezembro de 1933, aperfeiçoada pelo Decreto-lei de 6 de Novembro de 1934.Só se podiam recensear os homens, maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou, não o sabendo , pagando no mínimo 100$00 de imposto. As mulheres só tinham capacidade eleitoral se, para além de maiores e emancipadas, tivessem cursos do ensino secundário ou superior. Obviamente que, no tipo de regime então em vigor, os presos políticos não possuíam capacidade eleitoral.
O recenseamento era feito pelos orgãos do Estado, sem fiscalização externa. Durante a guerra, só em Novembro de 1942 houve eleições para deputado à Assembleia Nacional, à qual apenas concorreram os candidatos do partido único, União Nacional.
É conhecido o resultado desse escrutínio eleitoral, referente a Torres Vedras e às suas freguesias, publicado nas páginas do “Noticias de Torres” de 18 de Novembro de 1942.
O número total de eleitores do concelho correspondia, praticamente, ao máximo legalmente possível, tendo apenas em conta, e como termo de comparação, o número de habitantes do concelho que, no censo de 1940, sendo do sexo masculino, tinham 21 anos ou mais e sabiam ler e escrever, perfazendo um total de 4446, aos quais podemos somar o número de mulheres, com 21 ou mais anos, possuindo ensino secundário ou superior, em número de 73, o que, tudo somado, corresponde a 4819 potenciais eleitores. Contudo não é possível detectar o número de habitantes que, não sabendo ler e escrever, pagassem o imposto mínimo exigido. Mesmo tendo em conta o modo geralmente fraudulento como decorriam então os recenseamentos eleitorais, podemos ver que mais de 90% da população do concelho estava arredada de qualquer participação política.
Todavia, é de registar o facto de, nas freguesias de Carvoeira, Matacães, Maxial e, principalmente, em Monte Redondo e Runa, a percentagem de eleitores ser bastante superior à média concelhia.
A Freiria, a Silveira e a Ventosa registam o mais baixo índice de eleitores.
Quanto ao acto eleitoral, mesmo tendo em conta apenas concorrer o partido único, o controle das assembleias eleitorais pelos fiéis do regime e o facto de, em muitos casos até os mortos contarem, bem como os votos nulos e brancos, a favor da União Nacional, é possível detectar as freguesias menos controladas pelo regime, e onde os eleitores manifestavam o seu desinteresse ou oposição através de uma abstenção superior à média concelhia, como aconteceu, e por ordem decrescente quanto à abstenção, com Dois Portos,Runa, 1º assembleia das freguesias de SªMaria e S.Pedro, e ,de forma menos evidente, Ventosa, Matacães, Freiria e Turcifal.
Pelo contrário, nas assembleias de Carmões, Silveira, Monte Redondo, Outeiro, Ponte do Rol, Maxial, Campelos e Ramalhal, o eleitorado mostrou-se mais empenhado em manifestar o seu apoio ao regime, votando em “massa” no partido único.
Claro que esta leitura dos resultados é discutível, tendo em conta os condicionalismos do acto eleitoral, mas é uma aproximação possível para um ensaio de caracterização geográfica dos apoios e oposições que a política do Estado Novo podia então encontrar no concelho.
...E A Guerra Acabou.
A partir de 1944,com o rápido avanço do exército russo e, principalmente com o desembarque das forças aliadas na Normandia a 6 de Junho, começava a ser evidente que a derrota alemã era uma questão de tempo, e renascia a esperança que o final da guerra trouxesse o fim do regime salazarista.
Em Torres Vedras, Raimundo Portas, conjuntamente com outro oposicionista, preparou uma armação de fogo armado para lançar uma salva de 21 tiros, a ser colocada no Castelo assim que os soviéticos entrassem em Berlim. Até lá, o material pirotécnico foi escondido no “Tavares Ferro-Velho”, enquanto no castelo já tinham sido preparados os buracos para colocar a armação. Até que um dia Raimundo Portas que diariamente se deslocava à estação de caminho de ferro, para comprar o jornal “República”, ao passar na “Ginjinha” ouviu pela rádio que os soviéticos tinham entrado em Berlim.”Nem comprou o jornal, foi a correr avisar os outros, montaram tudo no Castelo, acenderam aquilo. Estava tudo preparado para terem um certo tempo para fugirem para o Forte. Quando estavam a subir, começou a ouvir-se o início da salva de 21 tiros de canhão”(Pedro Fernandes). A polícia em Torres desatou a correr castelo acima, mas quando lá chegou já tinha acabado a salva.
Foi a 2 de Maio de 1945 que os soviéticos entraram em Berlim. A vitória dos aliados seria proclamada a 8 de Maio.
Assim que a paz na Europa foi oficialmente anunciada, as pessoas saíram para a rua para se manifestarem, num grande movimento popular e espontâneo. Contou-nos Adão de Carvalho que se lembrava nesse dia de acompanhar o padre Joaquim Maria de Sousa a casa, quando depararam com alguma agitação frente ao posto da polícia. Várias pessoas insistiam junto do chefe da polícia para que autorizasse uma manifestação pelas ruas da vila para comemorar a paz. Este mostrava-se renitente, alegando não ter ordens superiores. Ainda segundo o testemunho de Adão de Carvalho, terá sido o padre Joaquim a convencer o chefe da polícia a permitir a manifestação, responsabilizando-se pessoalmente pela mesma, tendo mesmo mandado tocar os sinos das igrejas para assinalar a paz.
A manifestação percorreu as principais ruas da vila, e em vários locais alguns dos manifestantes discursavam espontaneamente. Dois grandes cartazes acompanhavam os manifestantes, um com os dizeres “Paz, Pão, Liberdade e Trabalho” e outro “Viva Portugal”. Bandeiras inglesas e americanas eram entusiasticamente acenadas pelos manifestantes.
O ponto alto da manifestação teve lugar no largo da câmara, onde os manifestantes se dirigiram para serem recebidos pelo executivo camarário. Mas esta encontrava-se fechada e ninguém compareceu para receber os populares. Foi aí que o republicano Dr.Graça, da varanda do seu escritório, situado frente à Câmara, dirigiu um improviso que muito sensibilizou todos os presentes.
Pouco entusiástica parece ter sido assim a reacção do executivo camarário ao resultado da guerra, como se confirma pelo conteúdo das actas camarárias. Assim , a 10 de Maio ,surge, no meio de requerimentos e propostas várias ,uma formal e envergonhada deliberação de se telegrafar “a Sua Exª o Presidente do Concelho, agradecendo e felicitando-o vivamente pela forma digna, inteligente e altamente patriótica como conduziu a politica interna e externa de Portugal assegurando a todos os portugueses uma Paz inestimável”(Livro nº 47 dos Acordãos da Câmara ,10 de Maio de 1945 ,194 v e 195).Apenas uma outra reduzida e lacónica frase volta a referir-se à paz definitiva, após a derrota japonesa, num outro acordão de 16 de Agosto de 1945, onde se dava conta da decisão de “exarar na acta um voto de congratulação da Camara pelo fim da guerra mundial” (Livro nº48 dos Acordãos f.14)
Victor Cesário da Fonseca, que durante a guerra havia feito da sua livraria o centro de divulgação da propaganda aliada, decorou a sua montra com as bandeiras de todos os aliados, ao lado das quais colocou um pau sem bandeira, onde deveria estar a da União Soviética, cuja exibição pública estava proibida pelo Estado Novo.
O fim da guerra foi um período de esperança para muita gente, infelizmente logo desfeita, internamente com o intensificar da repressão política, externamente com o início da chamada “Guerra Fria”.Mas, apesar disso, tanto para o mundo, como para Torres Vedras, iniciava-se aqui um novo capítulo da sua História.