terça-feira, 26 de julho de 2011

TORRES VEDRAS NOS ANOS 30




Os anos 30 foram marcados, em Portugal, por uma série de revolta militares que procuraram restaurar o regime republicano derrubado no 28 de Maio de 1926.Todas saíram derrotadas.

Em 1933 a ditadura militar deu origem ao “Estado Novo”, regime que se consolidou durante essa década, numa mistura de autoritarismo conservador tradicional com a mística vanguardista do fascismo italiano.

Francisco Horta Catarino foi um homem que viveu intensamente esse período. A sua experiência deu origem a uma edição de autor, publicada depois do 25 de Abril, em 1977, intitulada “Falando do Reviralho (A Roda do Crime contra a Humanidade”, onde, entre outras peripécias, revela o modo como se viveu esse período na região Oeste, em Peniche, na Lourinhã, em Torres Vedras, e no Sobral de Monte Agraço.

São alguns desses acontecimentos que hoje aqui recordamos.

Francisco Horta Catarino – o percurso de um resistente

O contacto de Francisco Catarino com a acção republicana iniciou-se logo em Fevereiro de 1927, de forma involuntária e anónima, pois, trabalhando no Porto nessa data, e ao deparar-se com os militares na rua, logo se ofereceu para participar na revolta. Esta durou vários dias, até se esgotarem as munições, acabando os revoltosos por se renderem, depois de recolherem as armas que distribuíram pelo povo, entre o qual estava Horta Catarino.

Não sendo conhecida a sua participação, nada lhe aconteceu.

No ano seguinte iniciou o seu serviço militar, sendo incorporado num batalhão de recrutas para prestar serviço no grupo de esquadrilhas de Aviação aquartelado na Amadora. Foi progredindo na carreira militar, como cabo, furriel e, mais tarde, sargento.

Quando se dá a revolta de 26 de Agosto de 1931 comandada por Sarmento de Beires (revolta que terminou em Torres Vedras), preparou armamento para o caso daquele militar procurar apoio na Amadora, o que não aconteceu.

Perante mais essa derrota dos militares republicanos, Francisco Horta Catarino decidiu dedicar-se à carreira militar, não se deixando “envolver em conspirações com fins políticos”.

Contudo, as circunstâncias da vida puseram-no de novo em conflito com a ditadura. Escolhido para representar os sargentos da sua unidade militar como correspondente do órgão da classe, a revista “Marte”, publicou um artigo que não agradou às autoridades, vindo a ser detido por causa disso, e por suspeitas, infundadas, de pertencer a uma célula comunista militar, iniciando um percurso de prisões que o acompanharia pela vida fora.

Foi libertado poucos meses depois, após a polícia política ter reconhecido o erro.

O nosso sargento prosseguiu a sua vida militar, sendo integrado no Quartel de Alverca. Aí envolveu-se em actividades conspirativas contra o regime, acabando mais uma vez, em 1934, por ser preso e embarcado para a prisão-fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo.

Aqui, estando na companhia de outros 18 sargentos na sua situação, concebeu o plano de dinamizar a Organização Revolucionária de Sargentos (ORS).

Em meados desse ano foram libertados . Ao chegar ao continente, Francisco Horta Catarino recebeu guia de marcha para Peniche, onde ficava a residir em situação de residência fixa.

E é a partir deste momento que a sua biografia mais nos interessa .

Peniche acolhe os conspiradores

Chegado a Peniche teve de alugar casa para alojar a sua família que tinha ficado em Alverca.

Estando nesta vila vários oficiais e sargentos na mesma situação que ele, viu aí “condições de dar seguimento ao trabalho da ORS”(p.42).

Começou a deslocar-se clandestinamente a várias localidades, onde se encontravam outros sargentos regressados dos Açores, com vista a reorganizar aquele movimento.

Tinha de fazer tudo, não só de modo a não levantar suspeitas, como de não faltar à obrigação diária de assinar um livro de ponto na Fortaleza de Peniche.

Fazia aquelas deslocações “aproveitando as camionetas que transportavam o peixe para os mercados. Havia mais de uma centena delas na vila de Peniche. Quase sempre de madrugada lá seguiam carregadas, voltando à tarde”. Esperava pela “sua passagem em sítio combinado fora da vila e trepava para cima da carga. A alta velocidade lá seguia regressando da mesma forma, sempre a tempo de aparecer na Fortaleza para assinar o Ponto” (pp. 43 e 44).

Com esse estratagema conseguiu deslocar-se “às Caldas da Rainha, a Leiria, a Coimbra, a Santarém, a Tomar, a Mafra e a Lisboa”.

O seu segredo era conhecido por centenas de “motoristas, ajudante de motoristas e negociantes de peixe”,sem nunca o denunciarem às autoridades, situação reveladora do apoio da população local às conspirações dos “reviralhistas”.

Com aquela acção estabeleceram-se vários núcleos da ORS em várias unidades militares chegando a uma dimensão tal que alertou a Polícia Política.

Iniciando-se a prisão de muitos elementos da ORS, Horta Catarino acabou por ser atraído a uma cilada em Lisboa, acabando detido pela Polícia.

Detido na Fortaleza de S. Julião da Barra, acabaria demitido da suas funções militares, em Maio de 1935, perdendo, por isso, o direito de estar detido em presídio militar, sendo enviado para o Aljube e daqui para a Prisão de Peniche, onde ficou a aguardar julgamento.

Nesta prisão, com o apoio dos restantes prisioneiros, planeou a sua fuga e a de outros três militares republicanos aí detidos. A Fuga efectuou-se, com êxito, do dia 1 de Maio de 1936.

O início da Acção Clandestina

A fuga foi feita pelo mar, onde os esperava um pescador que “remando com vigor contra a ondulação e em larga travessia”, os colocou numa praia da costa de Peniche, não identificada.

Aí aguardava-os um automóvel que os conduziu à Lourinhã. Nesta vila receberam abrigo na casa de Américo Marques, lavrador e proprietário, antigo administrador desse concelho durante a República e que pertencia ao Partido da Esquerda Democrática.

Daí deslocaram-se para Torres Vedras onde foram recebidos por Joaquim Henriques da Silva Martinez, “que tinha uma padaria na Serra da Vila”, sendo depois transportados para Belas(p.60).

Tendo, entretanto, a Frente Popular vencido as eleições em Espanha, os republicanos portugueses esperavam auxílio de Espanha para se iniciar a luta contra o salazarismo.

Presos quase todos os militares conspiradores, o grupo de Catarino programou a preparação de um “levantamento revolucionário de núcleos civis devidamente organizados”, devendo cada um agir separadamente, por razões de segurança.

É neste contexto que Horta Catarino seguiu para Torres Vedras “onde já tinha amigos seguros”.

Francisco Horta Catarino conspira em Torres Vedras

Nesta vila, como o apoio do “sindicalista Mafalda”, do “ferroviário Gomes” e por outros, começou “a preparar o povo de Torres Vedras para um levantamento armado, falando várias vezes perante centenas de pessoas reunidas geralmente durante a noite em pleno campo, no meio das vinhas dos arredores da vila” (p.62).

Enquanto andava foragido, a sua família, mulher e filhos, continuou a viver em Peniche, valendo-lhes a bondade do senhorio da casa, o “Sr. Manuel Coelho”, com o apoio da esposa “Dona Alice Passos Coelho” que, dadas as circunstâncias, deixou de cobrar a renda e fornecia-lhes gratuitamente o pão da padaria de que era dono (p.63).

Dá-se entretanto o movimento militar nacionalista em Espanha, em 18 de Julho de 1936,iniciando-se a Guerra Civil, pelo que o grupo de Horta Catarino considera urgente desencadear a luta em Portugal “em auxílio dos que em Espanha lutavam pela mesma Causa” republicana (p.64).

Horta Catarino conta-nos um episódio passado em Torres Vedras, relacionado com aquele acontecimento político: o autor viu “a passagem” pela vila “de uma coluna motorizada de falangistas vinda do sul, pelo Alentejo, em marcha para a Galiza, onde havia (…) alguma resistência de forças republicanas. De passagem por Torres Vedras obrigaram a seguir com eles um empregado de café, natural da Galiza, que além se encontrava trabalhando. Vinham armados e fardados como se estivessem em terreno conquistado gritando constantemente o seu “Arriba España” (pp. 68 e 69).

Entretanto, numa reunião realizada na quinta da Conceição, em Dois Portos, Torres Vedras, decidem que, “não havendo esperança de” obterem “recursos” a parir de Espanha, decidem conquistá-los, apoderando-se “pela força de dinheiros públicos”. Para esse efeito foi necessário adquirir armamento, pelo que Horta Catarino seguiu de Torres Vedras para Lisboa, “num automóvel arranjado” por Joaquim Martinez, na casa do qual as armas entretanto adquiridas ficaram escondidas (p.65).

Um dos elementos do grupo que se encontrava na Lourinhã “apareceu a informar que na repartição de finanças da Lourinhã havia um funcionário disposto a indicar o dia e a hora apropriados para lá se encontrar boa quantia com o cofre aberto” (p.61).

O Assalto às Finanças da Lourinhã

No dia combinado, 1 de Agosto de 1936, a partir de Torres Vedras, o grupo, de três elementos (o nosso cronista, o “Rocha” e o Martinez) seguiu , “numa camioneta de passageiros que ia para o Bombarral”, tomando aqui um táxi para a Lourinhã.

Tendo dado início ao assalto à repartição de finanças da Lourinhã encontraram resistência por parte dos funcionários, tendo um agarrado Horta Catarino. O seu cúmplice no assalto, para o soltar, disparou, matando o resistente. Tiveram de fugir sem levar dinheiro nenhum, mas deixando um morto.

Dirigiram-se então para Peniche. Aqui chegados, planearam um assalto á fortaleza de Peniche “libertar os presos e armá-los com as armas das forças de guarda lá existentes”, ocupar a vila, apoderarem-se das “camionetas destinadas ao transporte do peixe e” transportarem-se nelas “até à fronteira” na zona ainda ocupada pelos republicanos (p.67).

Com esse fim estabeleceram contacto com a organização local do Partido Comunista. Esta, apoiando a iniciativa, preveniu, contudo que não podia actuar sem autorização dos responsáveis máximos do partido.

A resposta demorou demais. Entretanto caía Badajoz nas mãos dos insurrectos nacionalistas, caindo rapidamente todas as posições republicanas junto da fronteira portuguesa.

A “Monte”…

Dadas as circunstâncias desistiram do seu plano e cada um seguiu a sua vida. O Rocha conseguiu fugir para Espanha, alistando-se num regimento republicano de Madrid, Martinez regressou à sua vida, na Serra da Vila, em Torres Vedras e o nosso Horta refugiou-se no Casal das Voltas, perto de Torres Vedras, protegido pelo dono do casal, Joaquim de Oliveira.

Poucos dias depois o casal foi cercado pela polícia. Alertado pelo Oliveira, Horta Catarino conseguiu fugir para a Quinta da Conceição, em Dois Portos, onde foi apoiado pelo caseiro desta, um tal Nogueira.

Entretanto Torres Vedras “fora cercada e rebuscada casa a casa, havendo horrores por lá” (p.70).

O Martinez foi preso “na sua casa na Serra da Vila” e “parece ter sido assassinado um comerciante muito conhecido como republicano que se atirou ou foi atirado de uma janela dos Paços do Concelho [de Torres Vedras] onde estava a ser interrogado” (p.70).

Horta Catarino prosseguiu a sua fuga, sendo escondido por um amigo, Leonel Filipe, em Seramena, perto do Sobral de Montagraço. Alguns dias depois foi aquela aldeia cercada pela polícia mas, mais uma vez, o Catarino conseguiu escapar, indo até á Malveira, onde foi apoiado por um sapateiro amigo, seguindo depois, de madrugada, até Belas, onde tinha apoio.

Desenvolvendo vários contactos, o nosso narrador continuou a tentar organizar uma insurreição contra o regime, uma delas a partir de Coimbra que acabou por se malograr mais uma vez.

Foi então que voltou a encontrar refugio perto de Torres Vedras, na Feliteira, na adega de Carlos Manata Carrasqueiro, fundador do ainda hoje conhecido restaurante “O Labrego”. Foi neste sítio que Horta Catarino acabou finalmente por ser preso pela Polícia Política, devido á traição de um tal João Comprido. Carlos Manata também foi preso.

Terminava aqui esta parte da vida aventurosa de Francisco Horta Catarino, aquele que nos despertou mais interesse por se passar na nossa região e na época dos anos 30, aqui evocada, a propósito do 75º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha.

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