terça-feira, 8 de abril de 2014

Homenageando o Projecto "Livro do Dia"...ou um contributo para a história das livrarias torrienses...


No final do passado mês de Março, 6ª feira 28, encerrou definitivamente um dos projectos livreiros mais originais deste concelho, o “Livro do Dia”.

Nascido em 2005, o projecto “Livro do Dia” começou por abrir num pequeno espaço do cruzamento entre o final da rua Henriques Nogueira e a Avenida Humberto Delgado, para adquirir em 2007 o espaço mais central, junto à Igreja de Santiago, antiga “Praça da batata”, praça Machado dos Santos, da antiga livraria Index.

A Livro do dia realizou várias actividades culturais no seu espaço, com uma pequena cafetaria, distinguindo-se igualmente pela actividade editorial.

A “Livro do Dia” tornou-se uma livraria de referência na região, nomeadamente nas áreas da literatura e da poesia.

Infelizmente acabou por ser mais uma das vitimas da actual crise financeira, que muito tem atingido o comércio local, nomeadamente aquele que se dedica ao livro.

Ficam a restar a velha “Gráfica Torriana”, na rua 9 de Abril, que sobrevive mais da sua ligação à Igreja e aos materiais do culto do que da venda de livros, e a “União”, com sete lojas espalhadas pela cidade, mas que sobrevive principalmente como papelaria e tabacaria.

Sobra a loja mais recente, a secção local da Livraria Bertrand, no Centro Comercial Arena.

Com o encerramento do Livro do Dia, a cultura torriense fica mais pobre e o centro histórico ainda mais desertificado.






Em homenagem a este projecto e aos seus responsáveis, recuperamos aqui um pequeno estudo de divulgação, da nossa autoria, sobre as livrarias históricas de Torres Vedras, trabalhado publicado num suplemento que nós dirigimos, com o grafismo do Aurelindo Ceia, coordenado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, que fazia parte do jornal Badaladas, e que conheceu quatro edições entre 1993 e 1994.

Um desses Suplementos, o nº4, integrado na edição nº 1990 do jornal “Badaladas”, de Fevereiro de 1994, com o título genérico “Recordações da Casa dos Livros”, foi dedicado  à história das livrarias torrienses .

Para além da minha síntese histórica, abaixo transcrita, escreveram nessa edição Ana Mourão, prefaciando o tema, Maria Helena Aspra de Matos, Cristina Lopes e Maria Hermínia Guilherme, familiares dos donos de algumas das livrarias históricas (respectivamente da Papelaria Escolar de António Ferreira Aspra, Galeria 70 de António Pedro Lopes, e  Papelaria 9 de Abril, de Raul Guilherme), descrevend de memória as suas vivências nesses espaços.

Para nós, esta é uma pequena forma de homenagear mais um projecto cultural que morre em Torres Vedras.

Tintas e Papéis

Por Venerando Aspra de Matos

Pertenço a uma família que há várias gerações se encontra, de algum modo, ligada aos papéis e às tintas: trisavô e bisavô tipógrafos, avô livreiro e pai ligado à arte da escrita. Esta circunstância despertou a minha curiosidade para a procura de dados sobre as antigas livrarias de Torres Vedras.

A história dos livreiros torrienses anda associada à história das tipografias desta cidade, isto porque as mais antigas livrarias eram também tipografias.

Desconhece-se a data exacta da fundação da primeira tipografia em Torres Vedras. Júlio Vieira (1) dá-nos a mais antiga referência conhecida, a “Torreense", de Manoel do Nascimento Aspra, existente em 1887, que , teria surgido para apoiar o jornal “Voz de Torres Vedras”, editado pela primeira vez a 5 de Fevereiro desse ano. Os Anuários Comerciais editados na época (2) confirmam Manoel do Nascimento Aspra como o mais antigo responsável por uma tipografia neste concelho.

As primeiras tipografias surgiram e desenvolveram-se nesta terra, quase sempre ligadas à imprensa local. Curiosamente, o primeiro periódico torriense, o “JORNAL DE TORRES VEDRAS” fundado em 1885, não indica o local de impressão, situação igualmente confirmada na obra citada de Júlio Vieira. Provavelmente terá sido editado fora de Torres Vedras.

As primeiras tipografias locais não se dedicavam, contudo, exclusivamente à edição de jornais. Editavam, também, folhetos, relatórios, e estatutos de várias associações instituições locais. Já a edição de livros era rara.

O jornal “A Semana” anunciava em 14 de Maio de 1895 uma nova edição, a terceira, da “Descripção histórica e económica da Villa e termo de Torres Vedras”, de Manoel Agostinho Madeira Torres, obra a editar por “Cabral & Irmão", e informava sobre as condições de assinatura para aquisição dessa obra, a tratar na “Tabacaria Havaneza Torreense’’. Pelo que sabemos, aquela obra nunca conheceu a anunciada terceira edição, a não ser a que saiu há pouco mais de dez anos, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.

O primeiro livro comprovadamente editado em Torres Vedras foi a obra de Júlio Vieira, “Torres Vedras Antiga ê Moderna”, editada em 1926 pela Livraria da Sociedade Progresso Industrial - Victor Fonseca & Almeida, Limitada”.

No Arquivo Municipal (3), a primeira tipografia registada que encontrámos foi a de António Augusto Cabral, em 17 de Fevereiro de 1900, como “tipografia com venda de papel”, e “papelaria” a partir do ano seguinte. Com base noutros documentos, nomeadamente fotografias antigas e anúncios publicitários publicados na imprensa local, podemos afirmar, com alguma segurança, que a “Typografia e Papelaria Cabral” foi o primeiro estabelecimento a funcionar como livraria em Torres Vedras, a partir de 1893, data exacta da fundação dessa loja.

Com base na bibliografia citada, em anúncio de jornais, na indicação dois editores de vários folhetos (4), em folhas de recibo e mesmo em recolha oral, foi-nos possível elaborar o Quadro I, evidentemente incompleto, mas que pode servir como esboço de um primeiro registo histórico da actividade tipográfica e livreira em Torres Vedras. Limitámos esse quadro ao período anterior ao 25 de Abril. A História mais recente, bem como o importante papel desempenhado peias livrarias de Torres Vedras, será abordado em futuro Suplemento.

Venerando Aspra de Matos



(1) VIEIRA, Júlio. Torres Vedras, Antiga e Moderna, T. Vedras, 1926.
(2)ANNUÁRIO DO COMÉRCIO - PROVÍNCIA, 1891 ANNUÁRIO - ALMANACH COMERCIAL E INDUSTRIAL PARA... 1893,1895, 1896.
(3)“REGISTO DE LICENÇAS DE ESTABELECIMENTOS CONCEDIDAS PELA CÂMARA” (VÁRIOS VOLUMES), Arquivo Municipal deT.V.
(4)ALMANACH DA “FOLHA DE TORRES VEDRAS" PARA-1904,1906            
   —
- ANNUÁRIO DA REGIÁO DE TORRES VEDRAS. 1907

- “A União”, nº único 1968

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