quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PORTO NOVO NA HISTÓRIA

Diz a tradição que o nome de “Porto Novo” ficou a dever-se a “ter-se aberto para dar mais saída às águas e servir de foz ao rio Alcabrichel”, abandonando-se “a foz antiga, que descrevia uma grande volta” (1).

Uma bem documentada alegação judicial proferida no tribunal de Torres Vedras, em 1939 questionou essa tradição ao demonstrar que a actual localidade de Porto Novo já foi em tempos um ilhéu, formando o areal de Santa Rita uma imensa lagoa, situando-se a foz do Alcabrichel mais no interior, aproximadamente no sítio onde se iniciam os agora desactivados campos de golfe (2).

A primeira tentativa de fundação de um porto junto à foz do Alcabrichel ocorreu durante o reinado de D. Dinis que, para o efeito, mandou edificar uma Igreja sob invocação de S. Dinis, cuja primeira pedra foi benzida em 15 de Outubro de 1318, na presença do monarca, do infante D.Pedro e de muita nobreza, objectivo que, contudo  não se concretizou por divergências entre o concelho de Torres Vedras e os frades de Alcobaça quanto à posse do local, diferendo que se arrastou até 1322, e que acabou por ser decidido a favor o mosteiro(3).

Finalmente, por carta régia de 6 de Maio de 1436, sabe-se que D. Leonor, esposa do rei D. Duarte, mandou abrir naquele lugar um “porto novo” ao qual deu o nome de Porto Real “em direito de pena firme”, concedendo várias isenções aos seus 10 povoadores. Para Veríssimo Serrão, razões “de defesa marítima contribuíram para a criação desse povoado que servia uma zona agrícola importante. Mas o local nunca se transformou num grande centro piscatório, visto a pequena baía não dispor de condições nem área para desembarque, não tardando um século para o vizinho porto de Peniche se tornar no local predominante daquela zona costeira” (4).

Essa falta de condições daquele local para se desenvolver como grande porto de pesca confirma-se em 1758, na memória Paroquial referente à Paróquia de A Dos Cunhados onde se pode ler que esse “porto” não é capaz de “embarcar calois grandes; mas tão somente barcos piquenos que no verão fazem suas pescas”.

Contudo, em 7 de Maio de  1902, foi inaugurada em Porto Novo uma armação de pesca “valenciana”, para a pesca de sardinha, por iniciativa de uma “Sociedade Piscatória de Porto Novo”, cujo êxito inicial levou à inauguração de uma nova armação de pesca em 16 de Abril de 1906, pertencente a Rufino de Carvalho. Contudo tal iniciativa não terá durado muitos anos, embora tenha contribuído para dar a conhecer  a beleza natural daquela praia (5).

Mesmo assim regista-se alguma actividade regular de pesca nas primeiras décadas do século XX, actividade que terminou “em Janeiro de 1938, na sequência da crise das pescas iniciada em 1935” (6).


Já em relação às condições como local de defesa, Porto Novo revelou-se mais importante.

A costa da zona de Porto Novo e Santa Rita, junto do hoje arruinado convento quinhentista, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(7).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem: reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.
No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los.

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (8).

Perante a continuação e frequencia dos actos de pirataria naquele local, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Nessa fortificação foram instaladas cinco peças de artilharia, com uma pequena força militar, que ainda se mantinha artilhado e guarnecido em 1707 (9), mas terá sido totalmente destruído por ocasião do terramoto de 1755.

A costa de Porto Novo foi bastante assolada pelo maremoto que se seguiu a esse terremoto sendo deste local a única descrição desse fenómeno referente ao litoral do distrito de Lisboa.
Quando se deu o terramoto, o “mar estava acabando de encher”. O maremoto deu-se nesta costa cerca de 1 hora e 1/4 depois do abalo, por volta das 11 da manhã.

A descrição daquele padre confirma as descrições do que por essa altura se passou em Lisboa, registando-se três grandes fluxos de subida e descida da água: “o fluxo e refluxo extraordinário só foi por três vezes (…) porém, toda aquela tarde continuou enchendo e vazando, recolhendo as águas com tanta velocidade que ficava tudo enchuto até à distância em que se tinha levantado e mandando-as com a mesma velocidade para terras”, ou seja, para além daquelas três grandes ondas, outras ondas mais pequenos tiveram lugar nesse dia, calculando-se actualmente que se registaram ao todo 16 ondas de grandes dimensões, destacando-se, contudo, aqueles três momentos.

Observada a partir de Penafirme e Porto Novo, “a novidade que se viu do mar (…) foi o levantar-se esta coisa de meia légua |cerca de 2 quilómetros e meio| distante da terra em um grande monte em que algumas pessoas divisaram diversas cores nas águas, pondo esta novidade em tão grande pasmo e temor a toda aquela vizinhança, que quase toda, imaginando era chegado o tremendo dia do juízo, da mesma sorte que estavam, ou bem ou mal compostos, sem fecharem suas casas e sem cuidarem de seus bens, fugiram para este lugar e igreja”.

Continuando a relatar-nos o tsunami, refere o cura António Duarte: “esse grande monte de mar veio discorrendo com voracidade para terra e combateu as arribas na altura de nove ou dez braças (…) Em um vale que corre do Sul para o norte e desagua na praia de Porto Novo, passando-se naquele tempo a pé enchuto correu tão cheio de água que por algum tempo se não pôde passar, cuja enchente lhe procedeu dos muitos olhos de água que circunvizinhos rebentaram (…).

“Os palmos que cresceu mais do ordinário se pode conjecturar pela altura das nove ou dez braças |algures entre os 16 e 20 metros de altura| em que combateu as arribas (…) chegando pela terra dentro a distancia que não há tradição chegasse em tempo algum [de facto, terá entrado, na zona de Porto Novo, pelo menos até às proximidades da actual “fonte dos frades]”(10).

Porto Novo voltou a entrar na história por ocasião da Batalha do Vimeiro, por junto a esta localidade desembarcaram parte das tropas inglesas, as divisões dos generais Anstruther e Ackland.

Foi, aliás, para defender aquele desembarque que Arthur Wellesley, posicionou as tropas terrestres, sob seu comando,  entre o Vimeiro e a Maceira, na tarde de 19 de Agosto de 1808.

O desembarque daquelas divisões efectuou-se “a uma legua de distancia do” Vimeiro, “na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel (sic)”.

“No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”. (11).

Foi para tentar travar aqueles desembarques que Junot avançou sobre o Vimeiro, desencadeando a célebre batalha.

Já depois da Batalha do Vimeiro de 21 de Agosto de 1808, no dia 24, chegaram a Porto Novo as tropas de sir John .Moore que só fundearam  a 25.

“O desembarque das tropas de sir John Moore fez-se com grande difficuldade, pois levou 5 dias, e pereceram afogados bastantes marinheiros e soldados. Os transportes soffreram taes estragos que só 30 ficaram em condições de prestarem serviço (12)”.

Já mais perto de nós, durante a 2ª Guerra Mundial, há a noticia de no grande vale arenoso em frente à praia de Santa Rita, aí ter aterrado, em 31 de Março de 1943, um bombardeiro inglês, o “Consolidated Catalina IB da RAF com dez tripulantes”. Segundo o relato que seguimos, depois “ de várias tentativas foi possível desencalhá-lo da areia e levá-lo para o Centro de Aviação Naval de Lisboa, onde ficou a degradar-se” (13).


Porto Novo e a sua “irmã” Santa Rita, apesar de um passado histórico mais “rico”, perderam terreno, ao longo do século XX, para a praia de Santa Cruz, como lugar de destaque no litoral torriense.

Foi esse interessante passado que procurámos aqui destacar.

(1)   COSTA, António Baptista da, “Porto Novo” in Enciclopédia das Famílias, nº 259, ed. 1908;
(2)   SILVA, Dr. Augusto Paes de Almeida e, Em Defesa do Património Nacional (…), ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, ed. 1939;
(3)   FONTES, João Luís Inglês, in A Dos Cunhados – Itinerários da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág.88, e RODRIGUES, Ana Maria, “O Porto Novo de D. Dinis e o “Porto Carro” de D. Fernando”, comunicação apresentada ao IV Congresso sobre Monumentos Militares Portugueses, Santarém, 2 e 5 de Outubro de 1987;
(4)   SERRÃO, J. Veríssimo, História de Portugal, Vol. II, pág. 176;
(5)   Anuário da “Folha de Torres Vedras” para o ano de 1907;
(6)   CORDEIRO, Ana Sofia Nunes, in FONTES, João Luís Inglês (coord.), A Dos Cunhados – Itinerário da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág. 286;
(7)   SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74.
(8)   SANTA MARIA, ob. cit., p.75;
(9)   ANACLETO, Pedro Garcia, “Grandezas e desventuras na história de um pequeno porto do litoral de Torres Vedras”, in Panorama, nº 41, IV série, Março de 1972;
(10)DUARTE, padre António, cópia do manuscrito existente nos registos paroquiais de A-Dos-Cunhados (original de 1756, cópia de 1908).
(11)SORIANO, Simão José da Luz, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, p. 392
(12)CÉSAR, Victoriano J. Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143.
(13)OLIVEIRA, Hermínio de, in “Crónicas do meu pequeno mundo”, Gazeta das Caldas de 22 de Agosto de 2009.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Evocando Alberto Avelino (1940-2017)

Ao iniciar mais uma temporada do blog Vedrografias, e sendo este um blog dedicado a Torres Vedras, não podia deixar de evocar um torriense que nos deixou recentemente, Alberto Avelino.

Infelizmente soube tardiamente do seu falecimento, ocorrido no passado dia 29 de Agosto,  não tendo ido a tempo de prestar a minha última homenagem a um torriense que muito prezo.

Lembro-me de Alberto Avelino ainda na minha juventude, como um exemplo muitas vezes invocado pelo meu pai de alguém que, tendo começado a trabalhar como operário na Casa Hipólito, se esforçou por tirar um curso, estudando à noite, enfrentando todas as dificuldades dessa situação,  formando-se em germânicas e tornando-se um dedicado e exemplar professor de inglês.

Com o 25 de Abril de imediato se envolveu na vida política, tendo-se filiado na  secção local do Partido Socialista.

E na vida política percorreu um invejável percurso de dedicação aos valores que sempre defendeu, os da democracia, da liberdade  e do socialismo.

Foi deputado na Constituinte de 1975, tornou-se o primeiro presidente eleito da Câmara de Torres Vedras, cargo que exerceu entre 1976 e 1983, voltando a ser eleito várias vezes para deputado e exercendo, a partir de 1995, e durante 12 anos, o cargo de Governador Civil de Lisboa.

Actualmente continuava dedicado à causa cívica, exercendo o cargo de presidente da Assembleia Municipal de Torres Vedras.

Cruzei-me várias vezes com Alberto Avelino, nem sempre do mesmo lado da “barricada”, por vezes discordando das suas opções na Câmara, mas sempre o respeitei e muitas vezes trocávamos impressões sobre uma paixão comum, a história e o património locais.

Enquanto Governador Civil de Lisboa tomou uma louvável mas quase desconhecida iniciativa, a de organizar e classificar o vasto e valioso espólio histórico do Governo Civil, da qual resultou a publicação de dois volumes onde se regista esse valioso património, hoje, e após a infeliz iniciativa da extinção dos governos civis, despejado na Torre do Tombo, aguardando por nova classificação.

Nas suas funções cívicas nunca se esqueceu das suas origens nem do concelho que o viu nascer em 26 de Novembro de 1940.

Com o desaparecimento de Alberto Avelino, Torres Vedras perde uma das suas mais marcantes referências humanistas.

Até sempre amigo Avelino!

(podem ler AQUI uma das últimas entrevistas a Alberto Avelino, onde ele nos conta o seu percurso de vida).

terça-feira, 25 de julho de 2017

Há 190 anos: em 25 de Julho 1827 foi inaugurado o “Hospital Real dos Inválidos Militares de Runa”

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 Foi em 18 de Junho de 1792 que a princesa D. Maria Francisca Benedita, filha de D. José, irmã da rainha D. Maria I, viúva do principe D. José, seu sobrinho, mandou iniciar construção do “Hospital Real” de Runa, ordem confirmada por Decreto de 25 de Julho de 1802 e por Alvará de 27 de Julho desse mesmo ano (1). Com essa finalidade aquela princesa comprou a chamada Quinta de Alcobaça, em 11 de Agosto de 1790, para além de outras propriedades próximas, incluindo a Quinta de S.Miguel da Enxara do Bispo, tudo pelo preço de “40 contos de réis”.
 “A construção do edifício só veio a iniciar-se, porém, em 1803, participando nela mais de trezentos operários. Em 1807, quando a família real emigrou para o Brasil, já grande parte do edifício se encontrava erguida” (2) . Mesmo distante, a princesa continuou a enviar regularmente “do Rio de Janeiro repetidas vezes avultadas sommas em dinheiro” (3). Quando finalmente regressou ao reino, em 1821, deu ordens para que a obra fosse apressada e concluída, o que aconteceu no dia 25 de Julho de 1827, por ocasião do seu 81º aniversário.

 A descrição desse dia mereceu uma ampla “reportagem” na Gazeta de Lisboa nº 199 de 23 de Agosto de 1827; “(…) Com a maior satisfação annunciamos aos bravos Defensores da Patria, e a todos os Portuguezes amigos da Gloria Nacional, que no dia 25 de Julho forão recebidos no Real Asylo dos Invalidos, mandado edificar junto ao Lugar de Runa, e magnificamente dotado por S. A. R. a Serenissima Princeza D. Maria Francisca Benedicta, os primeiros Militares, que no Serviço da Patria adquirírão enfermidades porque forão julgados em estado de lhes aproveitar o beneficio deste tão piedoso quão patriótico Estabelecimento, do qual Portugal carecia, e que hoje deve unicamente á generosidade, assiduos disvélos, e heroicas virtudes de huma Princeza, que o Ceo conserva para exemplo de seus iguaes, e consolação dos Portugueses. “A’s onze horas e meia da manhã do dia 25 de Julho de 1827, dirigio-se á 1greja do Real Asylo dos invalidos S. A. R. a Serenissima Senhora D. Maria Francisca Benedicta, viuva do nunca assás chorado Principe do Brazil, D. José, tendo a honra de acompanhar S. A.R. os Excellentissimos Mordomo Mór, e Viadores da mesma Senhora, diversas pessoas da primeira Nobreza, o Coronel Governador do Asylo e seus Ajudantes, o Corregedor, Provedor da Comarca, e outros Magistrados, bem como as Pessoas mais distinctas tanto no estado Ecclesiastico como Secular da mesma, Celebrada huma Solemne Missa, a que assistírão, em uniforme, e lugar distincto, os Militares Invalidos, e recitada huma eloquente e análoga Oração, pelo Prégador Regio o muito R. P. M. Fr. João de Santa Anna; passou S. A. R. á Sala destinada para refeitorio dos Invalidos. “No topo desta Sala se achava preparada para S. A. R. huma cadeira, a que servião de ornato diferentes troféos militares, entre os quaes se distinguião duas bandeiras, nas quaes os fieis e cançados defensores do Estado podião ler em torno do Escudo Real, a nobre apóstrofe, que outr’ora dirigia ao seu Rei hom Poeta Soldado: E Julgareis qual he mais excellente;Se ser do mundo Rei, se de tal Gente. “Tanto que S. A. R. occupou este assento, Ordenou,que os Invalidos fossem introduzidos na Sala, e acolheo a cada hum delles singularmente, com aquella carinhosa affabilidade, que só pode gerar a solida beneficencia, que inspirára a Sua Alteza Real a primeira idéa desta fundação, e de cuja expressão só podem formar exacta idéa, aquelles que tiverão a satisfação de presencealla, e de ouvir da bocca de S. A. R. as seguintes palavras, dirigidas áquelles para quem preparára hum tão honroso descanço : “» Estimo ter podido concluir o Asylo, que mandei construir para descançardes dos vossos honrosos trabalhos; emrecompensa só vos peço a Paz e o Temor de Deos.» “Tendo S. A. R. mandado sentar os Militares Invalidos, e servido hum sumptuoso banquete, levantou-se S. A. R.,e acompanhada pelo seu Mordomo Mór, e Viadores, Dignou-se servir os mutilados, mas não, vencidos Defensores da Patria, e a cada hum delles dirigio Esta Augusta Virtuosa Princeza palavras de consolação, que fizeram derramar lagritnas de enternecimento e gratidão, não só áquelles a quem S. A. R. as dirigia, mas ao grande numero de espectadores de todas as classes, que por permissão sua havião sido admittidos na Sala. “Repetidos vivas, nascidos do enthusiasmo da gratidão, e do respeito, que inspira a verdadeira Magnanimidade,e a solida Virtude, resoárão em toda a Sala quando S.A. R. se despedio dos seus novos hospedes. “Este bello dia em que completou oitenta e hum annos a Augusta Fundadora do Real Asylo destinado aos Defensores da Patria, foi terminado por hum solemne Te Deum, ao qual S. A. R. assistio com aquella efusão de Piedade, de quem tão eminentemente sabe alliar as virtudes Christãs cou hurn inalteravel e esclarecido amor dos Povos,que Seus Augustos Antepassados Governárão. “Não só dos lugares vizinhos, mas de outros mui distantes, concorreo innumeravel Povo a presencear esta solemnidade verdadeiramente Nacional. Forão todos os concorrentes agazalhados e servidos, e soccorridos os necessitados com esmolas abundantes; folgando todos de verneste numeroso concurso reinar a mais perfeita tranquillidade, e a mais imperturbavel ordem; apezar de não apparecer em armas nem ainda huma Guarda de honra (…)”. Em vésperas daquela solenidade escreveu Roque Ferreira Lobo um panegírico em honra da princesa. (4).
 
 Foi primeiro administrador do “Hospital” o Brigadeiro Luis Pereira Miranda Palha, autor da primeira monografia escrita sobre aquele estabelecimento (5). Até ao seu falecimento, dois anos depois, a princesa aí voltou por várias vezes. Sousa Escrivanis, na sua monografia sobre o “Real Asylo” de Runa inclui uma curiosa lista com o nome das pessoas que nos lugares de Runa, Penedo, Zibreira e Matacães conheceram a princesa, parte delas tendo trabalhado “na  construção do asylo (6) A princesa, além de ter deixado em testamento ao “Asilo” vários bens pessoais (7), declarou este estabelecimento “seu universal herdeiro, passando então a administração das rendas para o Conselho de Administração, o qual, bem como todo o Estabelecimento, é hoje [1859] governado pelo Ministério da Guerra”(8).

 O edifício é de estilo neoclássico e foi responsável pela sua construção o arquitecto José da Costa e Silva. “O edifício tem 450 palmos de frente com 25 janellas: o seu fundo é de 280 palmos com 13 janellas: tem 4 faces regulares e três andares, além das àguas-furtadas, nas quaes, somente, se poderiam acomodar 300 pessoas” (9). Integrando o edifício destaca-se a sua original capela: “Ao centro do edifício, a notável entrada para a igreja, formando peristilo, é de uma arquitectura austera e nobre. O templo tem uma curta nave ou corpo e um grande transepto em que os topos são rematados em semicírculo. O conjunto é dominado por uma cúpula. É inegável que o revestimento de mármore dá certa riqueza ao interior, mas o ambiente é frio e o altar-mor, colocado ao centro, é pesado e fúnebre. De notar, contudo, os nichos com esculturas de mármore de Carrara ao estilo neoclássico (...)” (10).
 Madeira Torres refere que  os mármores usados na capela foram extraídos das “pedreiras descobertas nos logares de Figueiredo, e Furadoiro” (11).. Contudo, os anotadores de Madeira Torres, com base em apontamentos que lhe foram facultados por José Ribeiro d’Almeida, comandante daquele estabelecimento à época (1861), desmentem aquela origem dos mármores, que tiveram, sim, origem, “mas de outros mais existentes nas imediações do mesmo Azylo”,  acrescentando que os de cor preta foram extraídos das pedreiras de “Pêro-Negro ao pé da Çapataria” (12). Pertence também a esta igreja uma alta e valiosa custódia de prata dourada cravejada de pedras preciosas, fabricada de acordo com desenho elaborado pela própria princesa. Essa valiosa e original custódio pode ser vista no museu existente no edifício, que inclui, entre muitas outras peças interessantes “três tábuas portuguesas da primeira metade do século XVI” [escola de Gregório Lopes?]”representando São Luís, rei de França, S. João Baptista e S. Jerónimo, S. Bento e santo Ambrósio, e uma tela representando Santo António e o Menino, assinada  por Vieira Lusitano “(13). Durante a década de 50 do século XIX o espaço onde se encontra o edifício foi alvo de diversas obras de beneficiação (14). A encerrar, recomendamos, após uma visita ao lugar, ao seu valioso museu e aos seus jardins, fazendo  nossas as palavras de Alexandre Herculano que, realçando o pitoresco da localização do edifício, sugeria “formosos passeios nos arredores”, espairecendo “pelas cercanias do hospital” (15). Venerando Aspra de Matos    (1)   A melhor e mais actualizada biografia da princesa pode ser lida em :BRAGA, Paulo Drumond, A Princesa na Sombra – D. Maria Francisca Benedita (1746-1829), Colecção H11, ed. Colibri/CMTV, 2007;
(2)   Lar de Veteranos Militares – Runa, ed. Serviços Sociais das Forças Armadas, Lx. 1970;(3)   Anotadores de MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descripçaõ Historica da villa e termo de Torres Vedras, 2ª edição, Imprensa da Universidade, Coimbra 1862,  pág.68;
(4)   LOBO, Roque Ferreira, Panegírico em honra da Sereníssima Princesa do Brasil e Senhora Dona Maria Francisca Benedita pela sua fundação de um Hospital para Militares Inválidos, na sua Quinta do lugar de Runa, termo da Villa de Torres Vedras, Regia Typ. Silvianna, Lisboa, 1826;
(5)   PALHA, Fernando Luiz Pereira de Miranda, Breve narração acerca do Real Asylo de Inválidos Militares estabelecidos em Runa, Typ. da Sociedade de propaganda dos  Conhecimentos Úteis, Lisboa 1842;
(6)   ESCRIVANIS, Augusto Carlos de Souza, Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares em Runa (…), Lisboa, 1882;
(7)   Leia-se: LÁZARO, Alice, O Testamento da Princesa do Brasil D. Maria Benedita (1746-1829), ed. Tribuna da História, Lisboa 2008;
(8)   (Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.69.
(9)   HERCULANO, Alexandre, “O Hospital Militar de Runa”, in O Panorama, nº72, Setembro 15, 1838, texto transcrito em CUSTÓDIO, Dr. Jorge Raimundo, Hospital Militar de Runa, ed. CMTV/ADDPC de T. Vedras, 1982;
(10)                      Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35, 1963;
(11)                       MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descripção Histórica da villa e Termo de Torres-Vedras, [1819], 2ª edição, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1861, pág.67;(12)                      Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.68.(13)                      Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35, 1963;
(14)                      Ver lista em:Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.71;(15)                      HERCULANO, ob. Cit.
(Uma versão resumida deste texto foi publicada nas páginas do jornal Badaladas, na secção Vedrografias de 21 de Julho de 2017)   

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Torres Vedras Há Cem Anos: 1917 (1)


Se é hoje pacifica a idéia, entre historiadores, de que a 1ª Guerra marcou uma profunda ruptura com uma realidade herdada do século XIX, chegando mesmo a falar-se num “curto século XX” balizado entre essa Guerra e o fim da União Soviética em 1991, não é menos verdade que o ano de 1917 foi, de todos os anos da Guerra, o “ano de todas das decisões” ou mesmo, “o ano que mudou o mundo” (2).

Se a guerra foi o tema dominante em 1917, tendo conhecido novos e decisivos desenvolvimentos, como a revolução Russa, que desestabilizou a frente leste, ou a entrada dos Estados Unidos na guerra, nesse mesmo ano ocorreram grande e pequenos acontecimentos premonitórios para os cem anos seguintes.


Data desse ano a declaração de Corfu, que levaria à formação da Jugoslávia, a Declaração de Balfour, que preconizava a criação de um Estado Judeu da Palestina e definia a organização do Médio Oriente, o tratado de Brest-Litovsky, que começou a ser negociado no final do ano entre a Alemanha e a Rússia e que definiu a geografia futura do leste da Europa, sem esquecer o facto, que então passou quase despercebido, da formação, no parlamento italiano, do grupo “Fascio Parlamentare di Difesa Nazional”, que originou o movimento fascista, no mesmo ano em que Benito Mussolini debitava as suas ideias no Il Popolo d’Italia.

Mas, “cereja no topo desse ano”, um outro acontecimento desenrolou-se ao longo de todo o ano, com consequências imediatas no rumo da guerra, mas que marcaria todo o século. Referimo-nos à Revolução Russa, iniciada em Fevereiro e que culminaria na Revolução de “Outubro” (em Novembro).



Mas, para Portugal, esse foi igualmente um ano marcante, pois foi o ano em que, de facto, as tropas portuguesas começaram a combater na frente ocidental, onde chegaram em 2 de Fevereiro.



A participação de Portugal na frente europeia provocou grandes problemas sociais e económicos, gerando grande agitação social e política, que levou ao fim do governo de “União Sagrada”, com o regresso de Afonso Costa à liderança do governo e que culminaria, em Dezembro, como o golpe de Sidónio Pais.



O desespero social da população e as suas dificuldades crescentes não terão sido estranhas às aparições de Fátima que tiveram lugar entre Maio e Outubro desse ano.


Em Torres Vedras a guerra foi o tema dominante, quer pelas notícias divulgadas na imprensa local, quer pelo facto de muitos jovens torrienses terem sido mobilizados para a frente ocidental.

O jornal local “A Vinha de Torres Vedras” , “ no patriótico intuito de fornecer notícias do torrão natal àqueles que em terra de França estão honrando o nome português” resolveu colaborar no esforço de guerra enviando  “gratuitamente a vários conterrâneos nossos”, mobilizados para guerra, exemplares da sua edição semanal (3).


Para além das muitas notícias que a imprensa local dedicava ao conflito, por cá realizavam-se muitas iniciativas para apoiar o esforço de guerra.


Foi nesse sentido que foi criada uma “sub-comissão” local da “Cruzada das Mulheres Portuguesas” (4) que organizou várias iniciativas para angariar fundos para auxiliar as famílias dos soldados mobilizados, de entre as quais se destacou uma “Festa da Flor”, realizada no Domingo 1 de Julho.

A “Cruzada da Mulher Portuguesa” foi criada por Ana de Castro Osório nesse ano, tendo como principal objectivo apoiar a criação de orfanatos para os filhos dos soldados falecidos, mas também apoiar as vítimas da guerra, formar enfermeiras de guerra, recuperar mutilados e  fomentar “madrinhas de guerra”. Esta organização é um exemplo da crescente emancipação feminina.


Em Torres Vedras essa organização era presidida pela “professora oficial srª D. Emília de Castro Garcia” (5).


Um dos temas mais abordado, não só na imprensa local, mas também na documentação oficial da câmara e do administrador do concelho, relacionou-se com a produção, distribuição, racionamento e preço dos produtos alimentares, aquilo que na época ficou conhecido pela “crise das subsistências” (6), principal reflexo da situação de guerra junto do dia-a-dia das populações.


No concelho registaram-se vários casos, ao longo de 1917, relacionados com a “exportação”, muitas vezes ilegal, de produtos agrícolas, a produção do pão, alimento básico das populações, por causa do seu preço elevado, da má qualidade do fabrico ou da sua falta, ou ainda vários casos de açambarcamento.


Essa situação mereceu várias queixas na imprensa local, que denunciava que, de “há tempos para cá”, o preço do pão e o de outros géneros subir “assustadoramente” e de, apesar das promessas das autoridades em punir severamente quem não pesasse correctamente o pão, este ter rapidamente voltado a aparecer “mal cozido e com falta de peso” (7).


Problemas como esse foram factores que provocaram alguma agitação social, registando-se várias notícias que dão conta de várias reclamações por parte de sectores da população junto das autoridades locais contra a falta de géneros, o açambarcamento ou a má qualidade do pão fabricado.


Também em 27 de Fevereiro há registo de um tipo novo, neste concelho, de agitação, uma  greve dos operários da oficina de  tanoaria da “viúva de António da Silva”, pelo aumento de salário (8). Por intervenção das autoridades e após negociações, todos foram trabalhar, menos um operário que acabou por ser despedido.


A questão salarial deveu-se ao constante aumento do custo de vida, provocado pela situação de guerra, que se sentia de forma mais grave entre o escasso operariado local, mais dependente do salário do que a maior parte da população rural que, embora com rendimentos mais baixos, tinha a possibilidade de se socorrer de um economia de auto subsistência que caracterizava o mundo rural do concelho.


As crescentes dificuldades e carências alimentares da população mais pobre terão estado na origem da constituição, em Abril, de uma comissão de residentes na vila “para levar a efeito a organização de uma sopa para os pobres”(9).


Mas não foram só as consequências económicas e socias da guerra a marcar os acontecimentos em Torres Vedras nesse ano de 1917.


Logo em Janeiro regista-se uma alteração na recém criada companhia que fornecia luz electrica na vila, inaugurada em 1912, quando José Augusto Lopes, “conceituado comandante do Vapor “Cazeng”, e o filho, José Augusto Lopes Júnior, “proprietário e administrador da Casa Fivelim”, compraram as acções da Sociedade Progresso Industrial, Cabral e Cª, concessionária daquele serviço e passaram a deter a administração daquela empresa (10).



Talvez reflectindo essa mudança, a imprensa local anunciou que a partir de 7 de Fevereiro os estabelecimentos da vila passavam a encerrar à 19 horas “em virtude de Torres Vedras ser iluminada a electricidade”(11).


Em Abril registou-se grande agitação, a dominar uma polémica que encheu as páginas da imprensa local, por causa da decisão do executivo camarário, dominado pelo PRP, de  mandar cortar 240  árvores junto ao actual Choupal, atitude que quase provocou um levantamento popular. Em reunião de 10 Agosto, o senado da câmara, face às pressões populares, decidiu anular aquela decisão.


Não é noticiado nas páginas da imprensa local, mas sabe-se que foi nesse ano, no dia 1º de Maio, que foi fundado o hoje centenário Sport União Torrense, nascido da fusão de dois clubes de futebol fundados em 1913, o do Grémio Artístico e Comercial e o Grupo Sportivo da Tuna.


No dia 2 de Maio registaram-se grande inundações, provocadas por uma violenta trovoada na tarde dessa Quarta-Feira, atingindo a àgua, em certas zonas da vila, os 2 metros de altura, alagando casas comerciais e casas particulares. A Rua Paiva de Andrada tornou-se num “verdadeiro rio”. Nas zonas rurais a trovoada destrui “grande parte dos cereais, do trigo, das favas, do vinho e sementeiras de batata, milho e feijão”, agravando a situação económica do concelho (12).


A meio do ano, no dia 11 de Junho, conheceu a luz do dia mais um título da imprensa local, o jornal  “Ecos de Torres”, “republicano independente”, mais tarde, após o sidonismo, orgão do novo Partido Reconstituinte (criado por cisão no PRP)), juntando-se ao outro título que então se editava, “A Vinha de Torres Vedras”.

A vida política local ficou também marcada por dois acontecimentos.

Um, foi a formação, em Abril, do Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras, “acolhido com viva satisfação pela classe operária” (13), ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (14).

O outro acontecimento político importante foi o da realização das eleições administrativas para as juntas de freguesia e para a Câmara que se realizaram em 4 de Novembro de 1917.

Esse acto eleitoral foi bastante disputado, embora o peso dos eleitores em relação à população do concelho fosse bastante diminuto, devido ao discutível sistema eleitoral republicano, de tipo capacitário, que exclui da decisão política os mais de 75% de analfabetos do concelho.

Concorreram duas listas, uma do PRP, que controlava a Câmara desde 1910, e outra, apelidada de “Lista do Concelho”, liderada por Aleixo Cezário de Sousa Ferreira, reunindo à sua volta a participação e apoio de monárquicos, “evolucionistas”, “unionistas” e alguns “democráticos” descontentes com o PRP.

A “Lista” teve o apoio dos dois jornais locais. Por sua vez, o recém criado Núcleo Socialista não apela ao voto numa das candidaturas, apenas apelando a que ninguém se abstenha.

A “Lista do Concelho” venceu as eleições, mas acabou por não tomar posse, devido ao golpe de Sidónio Pais no mês seguinte (15).

Para além das conjunturas, havia um outro ritmo que marcava o desenrolar anual da vida dos seus habitantes nessa época.

O ano começou com a realização da tradicional feira de S. Vicente, que se realizava na “Várzea do Jardim ” em Janeiro.

Fevereiro era o mês do Carnaval, que nesse ano de 1917 decorreu entre 18 e 20 de Fevereiro, embora as ruas fossem preteridas aos “salões” das colectividades locais, como o “Casino”, a “Tuna” ou o “Grémio”, que anunciavam “comédias”, “récitas”, “cançonetas”, “fados”, para além dos bailes (16).

Anunciada em 1918, não encontramos qualquer referência à realização, em 1917, da tradicional Procissão dos Passos, ainda sujeita às limitações impostas pelo regime republicano ao culto público.

Em Abril, como costumava referir a imprensa local anualmente, anunciava-se a “chegada das andorinhas” à vila (17).

O primeiro de Maio foi comemorado com a actuação da Filarmónica Torrenese no coreto do Largo da Graça que, depois de executar algumas peças do seu reportório, percorreu as ruas “tocando o Hino 1º de Maio” (18).



A mesma banda iniciou a sua época de concertos regulares em 17 de Maio, mesmo dia em que se iniciou a temporada de touradas na Praça de Touros então existente na vila.

Nas Termas dos Cucos a época balnear iniciou-se em 1 de Junho, com a abertura do Hotel ali localizado.

A noite de Santo António era comemorada, como era tradição, no Varatojo e o Grémio anunciava para essa noite um baile na sua sede, com a promessa de fogueiras no seu quintal.

A 29 teve lugar a centenária Feira de S.Pedro e, no mês seguinte, a mais importante feira da zona rural do concelho, a Feira do Mato no Turcifal, seguindo-se, em 19 de Agosto a Feira de S.Vicente, onde se vendiam “alfaias agrícolas, gado, fruta e quinquilharias”(19).

A ápoca de praia em Santa Cruz só se iniciava na segunda metade de Agosto, prolongando-se até meados de Outubro. Nesta ano de 1917 teve início em 27 de Agosto com a inauguração, no “Club-Miramar” de uma sala de bilhar, com bufete.

Depois das vindimas, durante o mês de Setembro, o ano encerraria com os bailes de passagem de ano nas colectividade locais.

A Guerra, as dificuldades económicas provocadas por ela  e os acontecimentos desse ano eram o tema de conversa nas muitas tabernas do concelho, frequentadas pelo “povo”,  ou nos “modernos” espaço dos “cafés”, em expansão no centro urbano e o principal ponto de encontro das elites locais.


Seguindo a publicidade publicada na imprensa desse ano existiam então 4 espaços desses: “A Brazileira”, fundada dois anos antes e localizada na Rua Serpa Pinto;a mais antiga “Havaneza” no Largo da República, o único destes espaços ainda hoje existente; a “confeitaria e Pastelaria Chic” na Rua Heliodoro Salgado, ao lado da “Sapataria Trigueiros”; e a “Pastelaria Confiança”, na Rua Dias Neiva.

Quase todas tinham serviço de mercearia. A Brazileira de Luis Duarte Pinto, vendia doces, chá e café, vinhos do Porto e Madeira, champagnes, cognacs, licores, àguas minerais e cervejas nacionais e estrangeiras, além de tabacos, postais ilustrados e lotaria, Entre os bolos vendidos, destacavam-se os “deliciosos pastéis de feijão “ fabricados pela D. Maria Adelaide Rodrigues da Silva “mázinha”.

O pastel de feijão, “o legitimo”, também era uma das especialidades vendidas pela “Havaneza”, de João Guimarães Junior, onde se vendiam, para além de produtos idênticos aos vendidos noutros estabelecimentos do género, conservas nacionais e estrangeiras, chocolates e manteigas nacionais, recebendo ainda encomendas de vários tipos de doces, como pudins, trouxas de ovos e “lampreias”.

A “Pastelaria Chic” de Francisco Môra Rodrigues, além de vender as bebidas alcoólicas anunciadas por aqueles concorrentes, também anunciava a venda de refrescos. Confeccionava, para além do pastel de feijão, “bolos secos e pastelaria à francesa, pastelaria inglesa”, entre outros.

A Pastelaria Confiança, gerida por Alvaro Simões, fabricava igualmente o pastel de feijão, vendia várias bebidas e doces idênticos aos referidos nos outros estabelecimentos, vendendo “leite a copo” que podia ser mandado ao domicilio a quem o solicitasse, incluindo também a venda de gelados, rebuçados de ovos, pudins, queijinhos, pão de ló e bolo de festa (20).

Entre as notícias da guerra, o desafio quotidiano de enfrentar as suas consequências económicas e socias e continuar a viver entre os ritmos da tradição e as novidades dos novos tempos, este é um retrato possível de Torres Vedras de há cem anos, em 1917.



(1)    Resumo da nossa comunicação apresentada em 3 de Junho último na conferência “1917 – O Ano de Todas as decisões”, integrada no ciclo de palestras Comemorativas do Centenário da 1ª Guerra Mundial, organizadas pelo núcleo torriense da Liga dos Combatentes, como o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras;Um versão mais sintética deste texto foi publicada na secção Vedrografias do jornal "Badaladas" com o título "Torres Vedras em 1917", em 30 de Junho de 2017;
(2)    Angelo d’Orsi, 1917 – o Ano que mudou o mundo, Bertrand Editora, 2017;
(3)    In “A Vinha de Torres Vedras” (VTV) de 5/7/1917;
(4)    In VTV de 15/2/1917;
(5)    in VTV  de 7/6/1917;
(6)    Sobre este problema, podem ler a minha comunicação “A Questão das “subsistências” em Torres Vedras (1916-1918)” , publicada em “História da Alimentação, Turres Veteras IX, Lisboa Colibri, 2007, pp.181-214;
(7)    In VTV de 10 /5/ 1917;
(8)    In VTV de 2 /3/ 1917;
(9)    In VTV de 12/4/1917;
(10)                       In VTV de 25/1/1917;
(11)                       In VTV de 8/2/1917;
(12)                       In VTV de 3/5/1917;
(13)                       In VTV de 5/4/1917;
(14)                       In VTV de 19/7/1917;
(15)                        Para saber mais sobre a vida política em Torres Vedras nesta época, ler “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri, 2003;
(16)                       In VTV, vários números de Fevereiro:
(17)                       In VTV de 26/4/1917;
(18)                       In VTV de 3/5/1917;
(19)                       In VTV de 16/8/1917;
(20)                        Informações recolhidas a partir da publicidade publicada no jornal A Vinha de Torres Vedras, ao longo de 1917.