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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras


Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.



Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.

Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs.  conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"(1) (foto em cima).

Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros (2):

 (Nº de ordem de matricula;  Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo, Nome do Proprietário e residência)

    1    1660       1918   Abril 18    D. Vasco Martins Sequeira   Q.ta Juncal
    2     2393      1918   Julho  5     Vasco de Moura Borges      Q.ta Paio Correia
    3      943       1919   Julho 12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
    4     1390      1919   Julho 19    Gonzaga Limitada               Q.ta Charneca
    5      ---         1919   Agos.  2    José Augusto Lopes & C.ª   Torres Vedras
    6     2270      1919   Sete.   2    José Duarte Capote               Torres Vedras
    7     2705      1919   Out.   10    José Augusto Lopes Jr.        Torres Vedras
    8       ---        1919   Dez.   26    Joaquim C. Rodrigues         Torres Vedras
    9     2811      1920   Jan.    12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
  10       ---        1920   Maio  22    António |...?| Oliveira           Torres Vedras
  11     4076      1920   Junho 15   António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
  12     4258     1920   Agos.   2    Alfredo Oliveira Luso           Lisboa
  13   4230    1920   Agos. 16    João Henriques dos Santos   Torres Vedras -   camioneta
  14     4614     1920   Set.      2    Faustino Policarpo Timóteo  Dois Portos   -camioneta
  15     4473     1920   Out.     2    Manuel Augusto Baptista      Torres Vedras
  16      2981      1920   Out.   14    José Botto Pimentel Carv.º    Q.ta do Paço
  17      2907      1920   Nov.  16    José Antunes Martins             Ramalhal
  18      3382       1921   Abril  13    Dr.Pereira Branco                  Ribaldeira
  19        218       1922   Maio  25    António Hipólito                    Torres Vedras
  20        ---         1922   Agos.  4     Amadeu dos Santos                Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas (2).

Contudo, o inicio desse registo camarário não quer dizer que a existência de torrienses  proprietários de automóveis se tivesse iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de Lisboa (3).

Existem  testemunhos de que João Henriques dos Santos possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do século (por volta de 1908)(4).

Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.

Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.

Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara,  annualmente  três  por cento da receita bruta.

"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).

A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa  à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)" (6).

Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.


Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.

O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.

"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.

"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou  de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.

"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)" (7).

Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.

Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.

A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8). Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.

Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".

O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.



Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas  que lhes eram enviadas pelos familiares.

Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).

A empresa que fundou continuou ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.

(1)   – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902;
(2)   – In Livro de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3)   – Decreto de 3 de Outubro de 1901;
(4)   - RODRIGUES, António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5)   - In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6)   - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915;
(7)   –In Badaladas [data desconhecida];
(8)   – in O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nota: uma versão mais resumida deste texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e actualizado com base em novas informações.




quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PORTO NOVO NA HISTÓRIA

Diz a tradição que o nome de “Porto Novo” ficou a dever-se a “ter-se aberto para dar mais saída às águas e servir de foz ao rio Alcabrichel”, abandonando-se “a foz antiga, que descrevia uma grande volta” (1).

Uma bem documentada alegação judicial proferida no tribunal de Torres Vedras, em 1939 questionou essa tradição ao demonstrar que a actual localidade de Porto Novo já foi em tempos um ilhéu, formando o areal de Santa Rita uma imensa lagoa, situando-se a foz do Alcabrichel mais no interior, aproximadamente no sítio onde se iniciam os agora desactivados campos de golfe (2).

A primeira tentativa de fundação de um porto junto à foz do Alcabrichel ocorreu durante o reinado de D. Dinis que, para o efeito, mandou edificar uma Igreja sob invocação de S. Dinis, cuja primeira pedra foi benzida em 15 de Outubro de 1318, na presença do monarca, do infante D.Pedro e de muita nobreza, objectivo que, contudo  não se concretizou por divergências entre o concelho de Torres Vedras e os frades de Alcobaça quanto à posse do local, diferendo que se arrastou até 1322, e que acabou por ser decidido a favor o mosteiro(3).

Finalmente, por carta régia de 6 de Maio de 1436, sabe-se que D. Leonor, esposa do rei D. Duarte, mandou abrir naquele lugar um “porto novo” ao qual deu o nome de Porto Real “em direito de pena firme”, concedendo várias isenções aos seus 10 povoadores. Para Veríssimo Serrão, razões “de defesa marítima contribuíram para a criação desse povoado que servia uma zona agrícola importante. Mas o local nunca se transformou num grande centro piscatório, visto a pequena baía não dispor de condições nem área para desembarque, não tardando um século para o vizinho porto de Peniche se tornar no local predominante daquela zona costeira” (4).

Essa falta de condições daquele local para se desenvolver como grande porto de pesca confirma-se em 1758, na memória Paroquial referente à Paróquia de A Dos Cunhados onde se pode ler que esse “porto” não é capaz de “embarcar calois grandes; mas tão somente barcos piquenos que no verão fazem suas pescas”.

Contudo, em 7 de Maio de  1902, foi inaugurada em Porto Novo uma armação de pesca “valenciana”, para a pesca de sardinha, por iniciativa de uma “Sociedade Piscatória de Porto Novo”, cujo êxito inicial levou à inauguração de uma nova armação de pesca em 16 de Abril de 1906, pertencente a Rufino de Carvalho. Contudo tal iniciativa não terá durado muitos anos, embora tenha contribuído para dar a conhecer  a beleza natural daquela praia (5).

Mesmo assim regista-se alguma actividade regular de pesca nas primeiras décadas do século XX, actividade que terminou “em Janeiro de 1938, na sequência da crise das pescas iniciada em 1935” (6).


Já em relação às condições como local de defesa, Porto Novo revelou-se mais importante.

A costa da zona de Porto Novo e Santa Rita, junto do hoje arruinado convento quinhentista, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(7).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem: reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.
No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los.

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (8).

Perante a continuação e frequencia dos actos de pirataria naquele local, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Nessa fortificação foram instaladas cinco peças de artilharia, com uma pequena força militar, que ainda se mantinha artilhado e guarnecido em 1707 (9), mas terá sido totalmente destruído por ocasião do terramoto de 1755.

A costa de Porto Novo foi bastante assolada pelo maremoto que se seguiu a esse terremoto sendo deste local a única descrição desse fenómeno referente ao litoral do distrito de Lisboa.
Quando se deu o terramoto, o “mar estava acabando de encher”. O maremoto deu-se nesta costa cerca de 1 hora e 1/4 depois do abalo, por volta das 11 da manhã.

A descrição daquele padre confirma as descrições do que por essa altura se passou em Lisboa, registando-se três grandes fluxos de subida e descida da água: “o fluxo e refluxo extraordinário só foi por três vezes (…) porém, toda aquela tarde continuou enchendo e vazando, recolhendo as águas com tanta velocidade que ficava tudo enchuto até à distância em que se tinha levantado e mandando-as com a mesma velocidade para terras”, ou seja, para além daquelas três grandes ondas, outras ondas mais pequenos tiveram lugar nesse dia, calculando-se actualmente que se registaram ao todo 16 ondas de grandes dimensões, destacando-se, contudo, aqueles três momentos.

Observada a partir de Penafirme e Porto Novo, “a novidade que se viu do mar (…) foi o levantar-se esta coisa de meia légua |cerca de 2 quilómetros e meio| distante da terra em um grande monte em que algumas pessoas divisaram diversas cores nas águas, pondo esta novidade em tão grande pasmo e temor a toda aquela vizinhança, que quase toda, imaginando era chegado o tremendo dia do juízo, da mesma sorte que estavam, ou bem ou mal compostos, sem fecharem suas casas e sem cuidarem de seus bens, fugiram para este lugar e igreja”.

Continuando a relatar-nos o tsunami, refere o cura António Duarte: “esse grande monte de mar veio discorrendo com voracidade para terra e combateu as arribas na altura de nove ou dez braças (…) Em um vale que corre do Sul para o norte e desagua na praia de Porto Novo, passando-se naquele tempo a pé enchuto correu tão cheio de água que por algum tempo se não pôde passar, cuja enchente lhe procedeu dos muitos olhos de água que circunvizinhos rebentaram (…).

“Os palmos que cresceu mais do ordinário se pode conjecturar pela altura das nove ou dez braças |algures entre os 16 e 20 metros de altura| em que combateu as arribas (…) chegando pela terra dentro a distancia que não há tradição chegasse em tempo algum [de facto, terá entrado, na zona de Porto Novo, pelo menos até às proximidades da actual “fonte dos frades]”(10).

Porto Novo voltou a entrar na história por ocasião da Batalha do Vimeiro, por junto a esta localidade desembarcaram parte das tropas inglesas, as divisões dos generais Anstruther e Ackland.

Foi, aliás, para defender aquele desembarque que Arthur Wellesley, posicionou as tropas terrestres, sob seu comando,  entre o Vimeiro e a Maceira, na tarde de 19 de Agosto de 1808.

O desembarque daquelas divisões efectuou-se “a uma legua de distancia do” Vimeiro, “na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel (sic)”.

“No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”. (11).

Foi para tentar travar aqueles desembarques que Junot avançou sobre o Vimeiro, desencadeando a célebre batalha.

Já depois da Batalha do Vimeiro de 21 de Agosto de 1808, no dia 24, chegaram a Porto Novo as tropas de sir John .Moore que só fundearam  a 25.

“O desembarque das tropas de sir John Moore fez-se com grande difficuldade, pois levou 5 dias, e pereceram afogados bastantes marinheiros e soldados. Os transportes soffreram taes estragos que só 30 ficaram em condições de prestarem serviço (12)”.

Já mais perto de nós, durante a 2ª Guerra Mundial, há a noticia de no grande vale arenoso em frente à praia de Santa Rita, aí ter aterrado, em 31 de Março de 1943, um bombardeiro inglês, o “Consolidated Catalina IB da RAF com dez tripulantes”. Segundo o relato que seguimos, depois “ de várias tentativas foi possível desencalhá-lo da areia e levá-lo para o Centro de Aviação Naval de Lisboa, onde ficou a degradar-se” (13).


Porto Novo e a sua “irmã” Santa Rita, apesar de um passado histórico mais “rico”, perderam terreno, ao longo do século XX, para a praia de Santa Cruz, como lugar de destaque no litoral torriense.

Foi esse interessante passado que procurámos aqui destacar.

(1)   COSTA, António Baptista da, “Porto Novo” in Enciclopédia das Famílias, nº 259, ed. 1908;
(2)   SILVA, Dr. Augusto Paes de Almeida e, Em Defesa do Património Nacional (…), ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, ed. 1939;
(3)   FONTES, João Luís Inglês, in A Dos Cunhados – Itinerários da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág.88, e RODRIGUES, Ana Maria, “O Porto Novo de D. Dinis e o “Porto Carro” de D. Fernando”, comunicação apresentada ao IV Congresso sobre Monumentos Militares Portugueses, Santarém, 2 e 5 de Outubro de 1987;
(4)   SERRÃO, J. Veríssimo, História de Portugal, Vol. II, pág. 176;
(5)   Anuário da “Folha de Torres Vedras” para o ano de 1907;
(6)   CORDEIRO, Ana Sofia Nunes, in FONTES, João Luís Inglês (coord.), A Dos Cunhados – Itinerário da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág. 286;
(7)   SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74.
(8)   SANTA MARIA, ob. cit., p.75;
(9)   ANACLETO, Pedro Garcia, “Grandezas e desventuras na história de um pequeno porto do litoral de Torres Vedras”, in Panorama, nº 41, IV série, Março de 1972;
(10)DUARTE, padre António, cópia do manuscrito existente nos registos paroquiais de A-Dos-Cunhados (original de 1756, cópia de 1908).
(11)SORIANO, Simão José da Luz, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, p. 392
(12)CÉSAR, Victoriano J. Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143.
(13)OLIVEIRA, Hermínio de, in “Crónicas do meu pequeno mundo”, Gazeta das Caldas de 22 de Agosto de 2009.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Torres Vedras Há Cem Anos: 1917 (1)


Se é hoje pacifica a idéia, entre historiadores, de que a 1ª Guerra marcou uma profunda ruptura com uma realidade herdada do século XIX, chegando mesmo a falar-se num “curto século XX” balizado entre essa Guerra e o fim da União Soviética em 1991, não é menos verdade que o ano de 1917 foi, de todos os anos da Guerra, o “ano de todas das decisões” ou mesmo, “o ano que mudou o mundo” (2).

Se a guerra foi o tema dominante em 1917, tendo conhecido novos e decisivos desenvolvimentos, como a revolução Russa, que desestabilizou a frente leste, ou a entrada dos Estados Unidos na guerra, nesse mesmo ano ocorreram grande e pequenos acontecimentos premonitórios para os cem anos seguintes.


Data desse ano a declaração de Corfu, que levaria à formação da Jugoslávia, a Declaração de Balfour, que preconizava a criação de um Estado Judeu da Palestina e definia a organização do Médio Oriente, o tratado de Brest-Litovsky, que começou a ser negociado no final do ano entre a Alemanha e a Rússia e que definiu a geografia futura do leste da Europa, sem esquecer o facto, que então passou quase despercebido, da formação, no parlamento italiano, do grupo “Fascio Parlamentare di Difesa Nazional”, que originou o movimento fascista, no mesmo ano em que Benito Mussolini debitava as suas ideias no Il Popolo d’Italia.

Mas, “cereja no topo desse ano”, um outro acontecimento desenrolou-se ao longo de todo o ano, com consequências imediatas no rumo da guerra, mas que marcaria todo o século. Referimo-nos à Revolução Russa, iniciada em Fevereiro e que culminaria na Revolução de “Outubro” (em Novembro).



Mas, para Portugal, esse foi igualmente um ano marcante, pois foi o ano em que, de facto, as tropas portuguesas começaram a combater na frente ocidental, onde chegaram em 2 de Fevereiro.



A participação de Portugal na frente europeia provocou grandes problemas sociais e económicos, gerando grande agitação social e política, que levou ao fim do governo de “União Sagrada”, com o regresso de Afonso Costa à liderança do governo e que culminaria, em Dezembro, como o golpe de Sidónio Pais.



O desespero social da população e as suas dificuldades crescentes não terão sido estranhas às aparições de Fátima que tiveram lugar entre Maio e Outubro desse ano.


Em Torres Vedras a guerra foi o tema dominante, quer pelas notícias divulgadas na imprensa local, quer pelo facto de muitos jovens torrienses terem sido mobilizados para a frente ocidental.

O jornal local “A Vinha de Torres Vedras” , “ no patriótico intuito de fornecer notícias do torrão natal àqueles que em terra de França estão honrando o nome português” resolveu colaborar no esforço de guerra enviando  “gratuitamente a vários conterrâneos nossos”, mobilizados para guerra, exemplares da sua edição semanal (3).


Para além das muitas notícias que a imprensa local dedicava ao conflito, por cá realizavam-se muitas iniciativas para apoiar o esforço de guerra.


Foi nesse sentido que foi criada uma “sub-comissão” local da “Cruzada das Mulheres Portuguesas” (4) que organizou várias iniciativas para angariar fundos para auxiliar as famílias dos soldados mobilizados, de entre as quais se destacou uma “Festa da Flor”, realizada no Domingo 1 de Julho.

A “Cruzada da Mulher Portuguesa” foi criada por Ana de Castro Osório nesse ano, tendo como principal objectivo apoiar a criação de orfanatos para os filhos dos soldados falecidos, mas também apoiar as vítimas da guerra, formar enfermeiras de guerra, recuperar mutilados e  fomentar “madrinhas de guerra”. Esta organização é um exemplo da crescente emancipação feminina.


Em Torres Vedras essa organização era presidida pela “professora oficial srª D. Emília de Castro Garcia” (5).


Um dos temas mais abordado, não só na imprensa local, mas também na documentação oficial da câmara e do administrador do concelho, relacionou-se com a produção, distribuição, racionamento e preço dos produtos alimentares, aquilo que na época ficou conhecido pela “crise das subsistências” (6), principal reflexo da situação de guerra junto do dia-a-dia das populações.


No concelho registaram-se vários casos, ao longo de 1917, relacionados com a “exportação”, muitas vezes ilegal, de produtos agrícolas, a produção do pão, alimento básico das populações, por causa do seu preço elevado, da má qualidade do fabrico ou da sua falta, ou ainda vários casos de açambarcamento.


Essa situação mereceu várias queixas na imprensa local, que denunciava que, de “há tempos para cá”, o preço do pão e o de outros géneros subir “assustadoramente” e de, apesar das promessas das autoridades em punir severamente quem não pesasse correctamente o pão, este ter rapidamente voltado a aparecer “mal cozido e com falta de peso” (7).


Problemas como esse foram factores que provocaram alguma agitação social, registando-se várias notícias que dão conta de várias reclamações por parte de sectores da população junto das autoridades locais contra a falta de géneros, o açambarcamento ou a má qualidade do pão fabricado.


Também em 27 de Fevereiro há registo de um tipo novo, neste concelho, de agitação, uma  greve dos operários da oficina de  tanoaria da “viúva de António da Silva”, pelo aumento de salário (8). Por intervenção das autoridades e após negociações, todos foram trabalhar, menos um operário que acabou por ser despedido.


A questão salarial deveu-se ao constante aumento do custo de vida, provocado pela situação de guerra, que se sentia de forma mais grave entre o escasso operariado local, mais dependente do salário do que a maior parte da população rural que, embora com rendimentos mais baixos, tinha a possibilidade de se socorrer de um economia de auto subsistência que caracterizava o mundo rural do concelho.


As crescentes dificuldades e carências alimentares da população mais pobre terão estado na origem da constituição, em Abril, de uma comissão de residentes na vila “para levar a efeito a organização de uma sopa para os pobres”(9).


Mas não foram só as consequências económicas e socias da guerra a marcar os acontecimentos em Torres Vedras nesse ano de 1917.


Logo em Janeiro regista-se uma alteração na recém criada companhia que fornecia luz electrica na vila, inaugurada em 1912, quando José Augusto Lopes, “conceituado comandante do Vapor “Cazeng”, e o filho, José Augusto Lopes Júnior, “proprietário e administrador da Casa Fivelim”, compraram as acções da Sociedade Progresso Industrial, Cabral e Cª, concessionária daquele serviço e passaram a deter a administração daquela empresa (10).



Talvez reflectindo essa mudança, a imprensa local anunciou que a partir de 7 de Fevereiro os estabelecimentos da vila passavam a encerrar à 19 horas “em virtude de Torres Vedras ser iluminada a electricidade”(11).


Em Abril registou-se grande agitação, a dominar uma polémica que encheu as páginas da imprensa local, por causa da decisão do executivo camarário, dominado pelo PRP, de  mandar cortar 240  árvores junto ao actual Choupal, atitude que quase provocou um levantamento popular. Em reunião de 10 Agosto, o senado da câmara, face às pressões populares, decidiu anular aquela decisão.


Não é noticiado nas páginas da imprensa local, mas sabe-se que foi nesse ano, no dia 1º de Maio, que foi fundado o hoje centenário Sport União Torrense, nascido da fusão de dois clubes de futebol fundados em 1913, o do Grémio Artístico e Comercial e o Grupo Sportivo da Tuna.


No dia 2 de Maio registaram-se grande inundações, provocadas por uma violenta trovoada na tarde dessa Quarta-Feira, atingindo a àgua, em certas zonas da vila, os 2 metros de altura, alagando casas comerciais e casas particulares. A Rua Paiva de Andrada tornou-se num “verdadeiro rio”. Nas zonas rurais a trovoada destrui “grande parte dos cereais, do trigo, das favas, do vinho e sementeiras de batata, milho e feijão”, agravando a situação económica do concelho (12).


A meio do ano, no dia 11 de Junho, conheceu a luz do dia mais um título da imprensa local, o jornal  “Ecos de Torres”, “republicano independente”, mais tarde, após o sidonismo, orgão do novo Partido Reconstituinte (criado por cisão no PRP)), juntando-se ao outro título que então se editava, “A Vinha de Torres Vedras”.

A vida política local ficou também marcada por dois acontecimentos.

Um, foi a formação, em Abril, do Núcleo de Propaganda Socialista de Torres Vedras, “acolhido com viva satisfação pela classe operária” (13), ficando as adesões a cargo de José Augusto Correia Lemos, na Rua Mouzinho da Albuquerque, nº 32, r/c. A inauguração desse Núcleo ficou marcado para 1 de Setembro, numa “sessão de propaganda, numa colectividade”, estando programada a actuação de um “sexteto” de Lisboa que “executará o hino operário “A Internacional” (14).

O outro acontecimento político importante foi o da realização das eleições administrativas para as juntas de freguesia e para a Câmara que se realizaram em 4 de Novembro de 1917.

Esse acto eleitoral foi bastante disputado, embora o peso dos eleitores em relação à população do concelho fosse bastante diminuto, devido ao discutível sistema eleitoral republicano, de tipo capacitário, que exclui da decisão política os mais de 75% de analfabetos do concelho.

Concorreram duas listas, uma do PRP, que controlava a Câmara desde 1910, e outra, apelidada de “Lista do Concelho”, liderada por Aleixo Cezário de Sousa Ferreira, reunindo à sua volta a participação e apoio de monárquicos, “evolucionistas”, “unionistas” e alguns “democráticos” descontentes com o PRP.

A “Lista” teve o apoio dos dois jornais locais. Por sua vez, o recém criado Núcleo Socialista não apela ao voto numa das candidaturas, apenas apelando a que ninguém se abstenha.

A “Lista do Concelho” venceu as eleições, mas acabou por não tomar posse, devido ao golpe de Sidónio Pais no mês seguinte (15).

Para além das conjunturas, havia um outro ritmo que marcava o desenrolar anual da vida dos seus habitantes nessa época.

O ano começou com a realização da tradicional feira de S. Vicente, que se realizava na “Várzea do Jardim ” em Janeiro.

Fevereiro era o mês do Carnaval, que nesse ano de 1917 decorreu entre 18 e 20 de Fevereiro, embora as ruas fossem preteridas aos “salões” das colectividades locais, como o “Casino”, a “Tuna” ou o “Grémio”, que anunciavam “comédias”, “récitas”, “cançonetas”, “fados”, para além dos bailes (16).

Anunciada em 1918, não encontramos qualquer referência à realização, em 1917, da tradicional Procissão dos Passos, ainda sujeita às limitações impostas pelo regime republicano ao culto público.

Em Abril, como costumava referir a imprensa local anualmente, anunciava-se a “chegada das andorinhas” à vila (17).

O primeiro de Maio foi comemorado com a actuação da Filarmónica Torrenese no coreto do Largo da Graça que, depois de executar algumas peças do seu reportório, percorreu as ruas “tocando o Hino 1º de Maio” (18).



A mesma banda iniciou a sua época de concertos regulares em 17 de Maio, mesmo dia em que se iniciou a temporada de touradas na Praça de Touros então existente na vila.

Nas Termas dos Cucos a época balnear iniciou-se em 1 de Junho, com a abertura do Hotel ali localizado.

A noite de Santo António era comemorada, como era tradição, no Varatojo e o Grémio anunciava para essa noite um baile na sua sede, com a promessa de fogueiras no seu quintal.

A 29 teve lugar a centenária Feira de S.Pedro e, no mês seguinte, a mais importante feira da zona rural do concelho, a Feira do Mato no Turcifal, seguindo-se, em 19 de Agosto a Feira de S.Vicente, onde se vendiam “alfaias agrícolas, gado, fruta e quinquilharias”(19).

A ápoca de praia em Santa Cruz só se iniciava na segunda metade de Agosto, prolongando-se até meados de Outubro. Nesta ano de 1917 teve início em 27 de Agosto com a inauguração, no “Club-Miramar” de uma sala de bilhar, com bufete.

Depois das vindimas, durante o mês de Setembro, o ano encerraria com os bailes de passagem de ano nas colectividade locais.

A Guerra, as dificuldades económicas provocadas por ela  e os acontecimentos desse ano eram o tema de conversa nas muitas tabernas do concelho, frequentadas pelo “povo”,  ou nos “modernos” espaço dos “cafés”, em expansão no centro urbano e o principal ponto de encontro das elites locais.


Seguindo a publicidade publicada na imprensa desse ano existiam então 4 espaços desses: “A Brazileira”, fundada dois anos antes e localizada na Rua Serpa Pinto;a mais antiga “Havaneza” no Largo da República, o único destes espaços ainda hoje existente; a “confeitaria e Pastelaria Chic” na Rua Heliodoro Salgado, ao lado da “Sapataria Trigueiros”; e a “Pastelaria Confiança”, na Rua Dias Neiva.

Quase todas tinham serviço de mercearia. A Brazileira de Luis Duarte Pinto, vendia doces, chá e café, vinhos do Porto e Madeira, champagnes, cognacs, licores, àguas minerais e cervejas nacionais e estrangeiras, além de tabacos, postais ilustrados e lotaria, Entre os bolos vendidos, destacavam-se os “deliciosos pastéis de feijão “ fabricados pela D. Maria Adelaide Rodrigues da Silva “mázinha”.

O pastel de feijão, “o legitimo”, também era uma das especialidades vendidas pela “Havaneza”, de João Guimarães Junior, onde se vendiam, para além de produtos idênticos aos vendidos noutros estabelecimentos do género, conservas nacionais e estrangeiras, chocolates e manteigas nacionais, recebendo ainda encomendas de vários tipos de doces, como pudins, trouxas de ovos e “lampreias”.

A “Pastelaria Chic” de Francisco Môra Rodrigues, além de vender as bebidas alcoólicas anunciadas por aqueles concorrentes, também anunciava a venda de refrescos. Confeccionava, para além do pastel de feijão, “bolos secos e pastelaria à francesa, pastelaria inglesa”, entre outros.

A Pastelaria Confiança, gerida por Alvaro Simões, fabricava igualmente o pastel de feijão, vendia várias bebidas e doces idênticos aos referidos nos outros estabelecimentos, vendendo “leite a copo” que podia ser mandado ao domicilio a quem o solicitasse, incluindo também a venda de gelados, rebuçados de ovos, pudins, queijinhos, pão de ló e bolo de festa (20).

Entre as notícias da guerra, o desafio quotidiano de enfrentar as suas consequências económicas e socias e continuar a viver entre os ritmos da tradição e as novidades dos novos tempos, este é um retrato possível de Torres Vedras de há cem anos, em 1917.



(1)    Resumo da nossa comunicação apresentada em 3 de Junho último na conferência “1917 – O Ano de Todas as decisões”, integrada no ciclo de palestras Comemorativas do Centenário da 1ª Guerra Mundial, organizadas pelo núcleo torriense da Liga dos Combatentes, como o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras;Um versão mais sintética deste texto foi publicada na secção Vedrografias do jornal "Badaladas" com o título "Torres Vedras em 1917", em 30 de Junho de 2017;
(2)    Angelo d’Orsi, 1917 – o Ano que mudou o mundo, Bertrand Editora, 2017;
(3)    In “A Vinha de Torres Vedras” (VTV) de 5/7/1917;
(4)    In VTV de 15/2/1917;
(5)    in VTV  de 7/6/1917;
(6)    Sobre este problema, podem ler a minha comunicação “A Questão das “subsistências” em Torres Vedras (1916-1918)” , publicada em “História da Alimentação, Turres Veteras IX, Lisboa Colibri, 2007, pp.181-214;
(7)    In VTV de 10 /5/ 1917;
(8)    In VTV de 2 /3/ 1917;
(9)    In VTV de 12/4/1917;
(10)                       In VTV de 25/1/1917;
(11)                       In VTV de 8/2/1917;
(12)                       In VTV de 3/5/1917;
(13)                       In VTV de 5/4/1917;
(14)                       In VTV de 19/7/1917;
(15)                        Para saber mais sobre a vida política em Torres Vedras nesta época, ler “Republicanos de Torres Vedras”, ed. Colibri, 2003;
(16)                       In VTV, vários números de Fevereiro:
(17)                       In VTV de 26/4/1917;
(18)                       In VTV de 3/5/1917;
(19)                       In VTV de 16/8/1917;
(20)                        Informações recolhidas a partir da publicidade publicada no jornal A Vinha de Torres Vedras, ao longo de 1917.