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terça-feira, 19 de junho de 2018

Torres Vedras e as eleições Presidenciais de 8 de Junho de 1958



Passam agora 60 anos sobre as eleições presidenciais de 1958, marcadas pela candidatura do general Humberto Delgado. 

Foi um momento que abalou a relativa estabilidade politica em que vivia o Estado Novo, no ano em que se comemorava o 30º aniversário de Salazar no poder, e depois de o regime ter conseguido travar as esperanças surgidas com o final da 2ª Guerra na instauração de um regime democrático. 

Craveiro Lopes terminava o seu primeiro mandato em ruptura com Salazar e a oposição viu nesse momento uma oportunidade para ganhar um novo alento. Inicialmente, a oposição democrática não comunista tentou avançar com a candidatura de Cunha Leal, um republicano conservador, num jantar de homenagem a essa personalidade que teve lugar no Porto em 11 de Janeiro. 

Mas é também no Porto que ganha peso uma outra candidatura, a do general Humberto Delgado, militar oriundo das fileiras do regime mas que, depois de cinco anos a viver nos Estados Unidos como adido militar da embaixada portuguesa, entre 1952 e 1957, sonhou com a implantação de um regime democrático em Portugal, seguindo o modelo presidencialista norte-americano, iniciando a ruptura com Salazar.

Cunha Leal anuncia a desistência da sua candidatura em 18 de Abril e, no dia seguinte 230 eleitores do Porto entregam no Supremo Tribunal de Justiça o processo de candidatura de Humberto Delgado às eleições presidências. 

Entre os seus principais apoiantes encontram-se figuras como António Sérgio ou Henrique Galvão, muitos dissidentes do salazarismo, como os “integralistas” e os “nacional-sindicalistas”, assim como figuras tradicionais do republicanismo, sendo também apoiado oficialmente pelo que restava do velho Partido Republicano Português. 

Muitos oposicionistas, principalmente antigas figuras do MUD e o PCP, desconfiavam de Delgado , devido à sua ligação anterior ao Estado Novo,  a quem chegam apelidar de “General Coca-Cola”, e apoiam a candidatura de Arlindo Vicente, anunciada em 20 de Abril. 

O regime foi apanhado de surpresa pela rapidez com que essas duas candidaturas se colocaram no terreno e só no dia 1 de Maio apresentaram o seu candidato, o então Ministro da Marinha. o contra-almirante Américo Tomáz, uma figura apagada e sem carisma e que surgiu como candidato de recurso da “União Nacional”, face à ruptura de Craveiro Lopes com o salazarismo. 

O carisma de Delgado acabou por se impor a toda a oposição, especialmente quando, numa conferência realizada no Café Chave de Ouro em Lisboa, em 10 de Maio, perante uma pergunta de um jornalista sobre o futuro de Salazar caso vencesse as eleições, o general pronunciou a célebre frase: Obviamente demito-o!”.
(a célebre sessão do Café Chave de Ouro)
 A partir daí a sua campanha foi em crescendo, com comícios gigantescos, como o do Porto em 14 de Maio, ou na sua recepção em Santa Apolónia, em 16 de Maio. 
(Delgado no Porto) 
Perspectivando uma oportunidade para pôr fim ao regime, Arlindo Vicente e os seus apoiantes assinam um acordo com Delgado, o chamado “Pacto de Cacinhas”, assinado em 30 de Maio, unificando a candidatura da oposição na figura do “General sem Medo” (1). 

Também em Torres Vedras esse período foi vivido com grande agitação.

 Na sua edição de 13 de Maio o jornal “República” divulgou um manifesto de apoio à candidatura de Arlindo Vicente , distribuído no concelho de Torres Vedras, transcrevendo-o na integra. Apresentando Arlindo Vicente como o “candidato próprio” da “Oposição Democrática” e o programa da candidatura, esse “manifesto” apela à formação de “uma ampla Comissão Eleitoral Concelhia pró-Candidatura”, e é assinado em nome dessa Comissão por António Catarino, Arnaldo Pedro Faria Rodrigues, Carlos Augusto Bernardes, Carlos Augusto Bernardes Portela, Emílio Luís Costa, Fernando Coelho da Silva, Fernando Vicente, Francisco Matias, João Carvalho Mesquita, João Ferreira dos Santos, João de Oliveira, Joaquim Augusto de Oliveira, Luís Adelino, Luís Perdigão, Mário de Almeida Carvalhosa, Miguel Cunha, Pedro Mendes Fernandes, Reinaldo Ferreira da Silva e Rui da Costa Tomás dos Santos. 

Em 18 de Maio teve lugar, a partir das 21 horas, no Teatro-Cine Ferreira da Silva, uma sessão de apoio a Arlindo Vicente, com a presença do candidato, sessão anunciada nas páginas do jornal “República” , na sua edição de 17 de Maio, e que merece amplo destaque de primeira página naquele mesmo diário, destacando o “Grande Entusiamo” que se viveu nessa sessão, perante uma sala “completamente cheia”. 

A sessão foi aberta pelo próprio candidato que convidou para a mesa “João Carvalho Mesquita, Mário Carvalhosa, Pedro Fernandes, Arnaldo Pedro Faria, Fernando Vicente e D. Leónia Augusta Rodrigues todos membros da comissão concelhia de Torres Vedras”. Usaram da palavra Luís de Almeida Perdigão, João Carvalho Mesquita, José Prudêncio, a escritora Lília da Fonseca e Arnaldo Faria.

Pelo meio “uma comissão de senhoras subiu ao palco para oferecer ao candidato três ramos de rosas vermelhas, atadas com fitas das cores nacionais”, sendo igualmente oferecido ao candidato “um artístico barril, com vinho da região”.

 Logo após a desistência de Arlindo Vicente, a favor da candidatura de Humberto Delgado, o jornal “República” de 1 de Junho anuncia para esse dia, sem aprofundar o teor da mesma, a realização de uma sessão de “propaganda oposicionista” em Torres Vedras, onde usaram da palavra a “Drª D. Maria Isabel Aboim Inglês e os srs. Alexandre Cabral, Dr. Vareda, Dr. Palma Carlos, Demétrio Duarte, D. Maria Alçada Padez e Domingos Carvalho”. 

Refira-se que Humberto Delgado não esteve presente em Torres Vedras durante qualquer comício ou manifestação durante essa campanha eleitoral.

 Contudo, o general já tinha estado em Torres Vedras, mas quando ocupava um importante cargo da aeronáutica portuguesa, ainda longe da ruptura com o regime, por ocasião da inauguração do hangar do aeroclube de Torres Vedras em Santa Cruz, em Setembro de 1946, então como representante oficial do governo salazarista. 

Voltando ao ano de 1958, num folheto aqui reproduzido, divulgou-se a lista dos lugares em Torres Vedras onde os apoiantes locais podiam levantar as "listas eleitorais" (os votos) para votarem em Humberto Delgado: na Papelaria Progresso, no consultório do Dr. Troni, no escritório do Dr. Carvalho dos Santos, na Alfaiataria de Mário Carvalhosa, na Papelaria Ribeiro e na Loja de Francisco Matias.
 
 Com a data de Junho foi distribuído  um folheto de apoio a Delgado, intitulado “Ao Povo de Torres Vedras”, distribuído no dia 1 desse mês, assinado pelos membros da Comissão Concelhia dessa candidatura. 

Segundo a PIDE, a distribuição foi feita por “Adalberto Carvalho dos Santos, Dr. Troni, António Leal d’Ascenção, Antolins e Victor Fonseca, que se deslocaram nos seus automóveis”.

 Faziam parte dessa Comissão Adalberto Simões de Carvalho, contabilista, Augusto Bastos Troni, médico, José Carvalho Mesquita, professor, todos classificados como “comunistas” pela PIDE, António Leal d ‘ Ascenção, comerciante, António Soares Antolin, comerciante, Ernesto Carvalho dos Santos, advogado, Faustino Soares de Antolin Hourmat, comerciante, Francisco Roque Gomes Ferreira, médico e proprietário, Luís Brandão Pereira de Melo, contabilista, Victor Cesário da Fonseca, comerciante e industrial, estes classificados pela mesma polícia como “Democratas, maçons” , Adriano Estevinha Lopes, proprietário e Armando Pedro Lopes, estes dois últimos registados como “novos” pela mesma policia politica.

 A mesma policia chamava a atenção para dois nomes, Adalberto Carvalho, “individuo manifestamente comunista e perigoso”  e para Faustino Soares Antolin, que era director “do Campo de Aviação de Santa Cruz e” tinha “à sua disposição um avião de turismo biplace Piper-Club e um avião de carcteristicas militares Tinger Moth, cedido pela Aeronutica Militar ao Aero Club de Torres Vedras” (2).

 Da propaganda do candidato do Estado Novo, Américo Tomaz, encarregaram-se as estruturas locais do regime, como a União Nacional, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Câmara Municipal, como se revela pela leitura do jornal “Voz do Oeste” , mensário da Comissão Concelhia da União Nacional em Torres Vedras, que dedica quase toda a edição de 25 de Maio ao tema, ainda antes da unificação das candidaturas da oposição. 

A primeira página dessa edição, como uma fotografia de Américo Thomaz, sob o título “Três Candidatos”, procurou fazer uma apresentação dos candidatos, obviamente realçando, ao longo das páginas do jornal, as “qualidades” do candidato oficial do Estado Novo. 

Américo Thomaz é apresentado pelo jornal torriense como “o homem que tem por fiador Salazar, e que portanto é a garantia de que continuaremos a viver em paz em ordem e dignidade”, enquanto, pelo contrário, Humberto Delgado era “o homem que, para chamar a atenção sobre si mesmo nesta campanha, precisou de dar espectáculo, num recital de frases caricatas, impolíticas e ofensivas (…) com palavras repassadas de ódio”, e Arlindo Vicente “o homem a quem os comunistas apoiam, e isto, ao país, basta”. 

O mesmo mensário da UN torriense inclui na primeira página um apelo aos eleitores: “Quereis os tempos da desordem e das revoluções?“Se quereis, deixai-vos ficar em casa com medo dos homens que, indiferentes ao ridículo e ao grotesco berram que são os homens sem medo.“Se quereis voltar a acordar ao som dos tiros e das bombas votai no General Humberto delgado ou no Dr. Arlindo Vicente.“eles vos farão a vontade dando-vos os partidos, e atrás dos partidos, a intranquilidade (…)”.

 Grande parte do jornal divide-se entre tentar desmontar e desacreditar os candidatos da oposição, em especial Humberto Delgado, apresentando-se em grande destaque as opiniões de apoio ao salazarismo que este tinha revelado nos anos 30, como “prova” da sua “incoerência” e, com menos destaque, denunciando as ligações de Arlindo Vicente aos comunistas, chegando mesmo, para o efeito, a transcrever um longo texto do jornal “Avante” onde se justificava o apoio do PCP ao candidato.

 Relatava ainda um episódio passado em Torres Vedras, “do dia em que fez a sua sessão nesta vila”.

Quando o candidato, Arlindo Vicente,  “seguia a pé para o Teatro, a certa altura, voltando-se, reparou que um oficial, encarregado de manter a ordem, mantinha-a mesmo.“O Dr. Arlindo interpelou-o:

“ – Parece impossível que o Governo…
“ – V. Ex.ª – replicou o oficial  - reclame ao Governo; eu cumpro e cumprirei as ordens.
“ – Mas olhe que eu posso vir a ser eleito Presidente da República…
“ – Não interessa – atalhou o oficial – quando V. Ex.ª for eleito Presidente, eu continuarei a cumprir as ordens que receber.”. 

O outro jornal que então se editava em Torres Vedras, então quinzenário, o “Badaladas”, pouco destaque deu à campanha eleitoral, limitando-se a transcrever, na sua edição de 1 de Junho, um artigo do jornal “Novidades” sobre a posição oficial da Igreja, que, sem nomear o candidato, assumia, nas entrelinhas, o apoio ao candidato do regime, e dois artigos de opinião, um da autoria de Maria da Conceição Gomes Leal e outro de Teixeira de Figueiredo, de apoio a Salazar a ao seu candidato.

 A campanha eleitoral acabou em 4 de Junho e as eleições decorreram no dia 8.

 Américo Thomás venceu com mais de 70% de votos, sob suspeita de uma enorme fraude eleitoral, agravada pelo próprio funcionamento dos actos “eleitorais” do salazarismo, com caderno eleitorais forjados, sem a presença de representantes da oposição na maior parte das mesas eleitorais, com a censura a impedir  a divulgação das candidaturas em condições de igualdade na imprensa e a PIDE a dificultar a realização de manifestações e comícios por parte do candidato Delgado, sem esquecer o facto de os votos, que os eleitores transportavam consigo, terem cores e formatos diferentes conforma as candidaturas, o que permitia conhecer em quem se votava, um forte factor dissuasor, sabendo-se que, assim que terminava o acto eleitoral, se seguia uma onda de prisões.
(folheto da candidatura de Humberto Delgado, com indicações sobre a forma de exercer o voto) 
O resultado eleitoral no concelho, que aqui publicamos, foi divulgado nas páginas do Jornal “Voz do Oeste” de 25 de Junho. 

É de registar que, apesar de todas as dificuldades com que se confrontou a candidatura de Humberto Delgados e das fraudes registadas, este conseguiu vencer o candidato do regime numa das mesas do Maxial, obtendo igualmente bons resultados em Matacães, Monte Redondo, Ramalhal e na mesa de S. Pedro, na vila.
Delgado teve de fugir para o estrangeiro e foi assassinado em 13 de Fevereiro de 1965, em Espanha, por uma brigada da PIDE, depois de ser atraído a uma cilada, brigada essa comandada por Rosa Casaco. Casimiro Monteiro terá sido o seu executor (3). 

Arlindo Vicente dedicou-se às artes plásticas, continuando a conspirar contra o regime, falecendo em 1977. 

A partir de então as eleições presidenciais deixaram de ser se realizar por “voto universal” e Américo Tomaz voltou a ser reeleito por um colégio eleitoral escolhido pelo Estado Novo até ser derrubado no 25 de Abril de 1974. 
 (1)    – Existem diversos estudos e memórias sobre esta eleição e sobre Humberto Delgado. Muitos documentos sobre este acontecimento estão em linha, no site da Fundação Mário Soares. A melhor síntese sobre as eleições presidenciais de 1958 é o livro “Humberto Delgado – As Eleições de 58”, coordenado por Iva Delgado, Carlos Pacheco e Telmo Faria, com prefácio de Fernando Rosas, ed. Veja, 1998.

(2)    – Torre do Tombo, Arquivo da PIDE, processo de 3194-SR/56, de Armando Pedro Lopes.

(3)    – Sobre o assassinato do General Humberto Delgado leia-se a reportagem de José Pedro Castanheira intitulada “Rosa Casaco conta tudo”, publicada na “Revista” do jornal “Expresso” de 14 de Fevereiro de 1998, acessível na internet.
  
(uma versão resumida desta texto foi publicada na nossa secção "Vedrografias", no jornal "Badaladas" de 15 de Junho de 2018)

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O “Maio de 68”…em Torres Vedras


A única referência que encontramos em Torres Vedras ao Maio de 68 em França, durante esse mês, é uma referência indirecta, num artigo algo confuso, publicado nas páginas do jornal “Badaladas”, intitulado “Como Dialogar?”, e do qual transcrevemos as passagens mais significativas:

“(…) Não seria mais acertado procurar dialogar carinhosa e humildemente, embora com firmeza, com os dirigentes educacionais, administrativos, religiosos, sociais e até políticos, antes de agitar os subordinados daqueles?

“A insubordinação gera a desordem senão a revolta, e onde há desordem não pode haver paz, disso temos agora um flagrante e triste exemplo em França” [sublinhado nosso].

E rematava o mesmo anónimo articulista:

“A obra de reconstrução do mundo, que se impõe, só pode ser feita com o Espírito do Alto, sendo pois necessário caminhar de cima para baixo, para unir fraternalmente toda a Humanidade: dos pais para os filhos, dos patrões para os empregados, dos chefes para todos os restantes”.

Só nas edições de Julho desse ano aparecem as primeiras referências directas àquele acontecimento, em artigos de primeira página, um, na edição do dia 13, da autoria de Andrade Santos, intitulado "França: um teatro de Guerra" e outro na edição do dia 20, intitulado "A Nova Revolução Francesa".

Apesar da censura, a imprensa local da época (que no caso se restringia à edição semanal do jornal “Badaladas”) não vivia alheada da situação internacional. Exemplo disso é o caso de um vigoroso artigo condenando o racismo nos Estados Unidos [recorde-se que em 4 de Abril desse ano tinha sido assassinado Martin Luhter King] e de outro referindo a situação no Vietname, dois temas que, de algum modo, estavam relacionados com a agitação estudantil em França e um pouco por todo o mundo ocidental.

Da Guerra Colonial, na qual o Estado português estava então envolvido, motivo para a agitação estudantil em Portugal que atingiu o seu auge no ano seguinte, a censura apenas deixava passar a publicação de inócuas cartas de soldados, publicadas nas páginas do “Badaladas”.

Torres Vedras vivia nessa altura um dos períodos mais apagados, no ponto de vista cultural. Salazar ainda não tinha caído da cadeira, facto que só ocorreria a 3 de Agosto, e o cinzentismo era imposto a todas as tentativas mais ousadas de criatividade cultural. Ainda estava fresco o caso do Cine Clube de Torres Vedras, a quem fora imposta uma comissão administrativa seis anos antes, levando à perseguição politica dos jovens que então tinham ousado fazer diferente.

A única excepção a esse cinzentismo era o Pelouro Cultural da Física que iniciava então um período de crescente actividade (que viria a conhecer um destino parecido ao do Cine Clube anos depois).

A Associação de Educação Física, então dominada por homens próximos da oposição republicana, realizou, nesse mês de Maio, uma cerimónia para comemorar a abertura das propostas da empreitada da primeira fase das obras para a sua nova sede, que é a actual.

Nesse mês de Maio de 68 o jornal “Badaladas” completava 20 anos de vida e publicava mais 4 páginas do seu histórico Suplemento Cultural, que então, em parte por acção indirecta da censura, em parte pelo afastamento, por várias razões, dos seus primeiros mentores, passava por uma fase menos criativa, menos irreverente  e menos interessante.

Outros acontecimentos marcaram esse mês de Maio de 68 em Torres Vedras, como o fim, em 20 de Maio, da primeira campanha de escavações na Gruta do Cabeço da Rainha, junto ao lugar da Maceira, que tinha contado com grandes nomes da arqueologia portuguesa, como Farinha dos Santos, Veiga Ferreira e o abade Jean Roche, para além do conterrâneo Leonel Trindade.
Essas escavações permitiram que pela primeira vez  se observasse um terraço fluvial numa gruta, possibilitando a datação geológica dos seus níveis.

Nessas escavações foram identificados níveis de ocupação do Paleolítico Superior e outra mais antiga do Paleolítico Médio.

Outro acontecimento localmente marcante foi a realização em Torres Vedras, em 26 de Maio, do Dia da J.O.C. [Juventude Operária Católica]  Internacional que contou com a presença de jovens católicos de todo o país.

Não o sabemos, mas é muito provável, dado o carácter cada vez mais progressista e crítico da JOC em relação às condições sociais e à guerra colonial, que nesse encontro os seus participantes  tivessem falado do Maios de 68.

Foi assim, num clima de paz aparente, mas com pequenos sinais que anunciavam um novo tempo, que se passou o Maio de 68…em Torres Vedras.

(NOTA: a base para a elaboração deste texto foi a leitura das páginas do jornal “Badaladas” no mês de Maio de 1968. O texto original teve como objectivo a sua utilização num programa de rádio em 1988, sendo agora apresentado com ligeiras alterações, recorrendo igualmente a um artigo de Carlos Guardado, que se encontra na página on-line da Câmara Municipal de Torres Vedras, que pode ser lido AQUI)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A “Batalhôa” de 9 de Fevereiro de 1868 em Torres Vedras, reflexo local da “Janeirinha”

(Foto antiga dos Paços do Concelho, um dos "palcos" da "Batalhôa") 
Na sua conhecida monografia sobre Torres Vedras, Júlio Vieira refere a rebelião popular de 9 de Fevereiro de 1868, que ficou popularmente conhecida por “batalhôa” ou “queima dos papéis”. 
Provavelmente baseado na memória oral, recolhida entre muito torriense que, à data da publicação daquela obra, em 1926, ainda tinham memória daquele acontecimento, aquele autor torriense faz uma descrição bastante pormenorizada daquela revolta, donde respigamos algumas passagens: 
“Oito dias antes roubaram o mapa da repartição da fazenda” então situada na Rua da Olaria, no edifício onde funcionou a escola secundária, mapa esse que “foi queimado próximo à Fonte Nova”. 
Mas foi no dia 9 de Fevereiro que se registou o grande levantamento popular, quando “uma massa compacta de populares em número não inferior a 3:000 assumou à ponte da Mentira e deu entrada nesta vila. Eram povos de Aldeia Grande, Machial e Ermigeira, das freguezias do Ramalhal e de Monte Redondo, que se dirigiram sem resistência, e de surpresa, à repartição de fazenda, onde, em grande borborinho, arrancaram o arquivo e o lançaram à rua, emquanto os cá de baixo deitavam fogo à papelada. A administração do concelho, que era no mesmo edifício, sofreu egual sorte” (1). 
A versão do administrador do concelho, registada no livro de registos de correspondência com o governo civil, completa, divergindo nalguns pontos, a descrição de Júlio Vieira: 
Pelas “oito horas da manhã” foi “invadida esta villa por mais de mil homens quazé todos das Freguezias da Dos Cunhados, Ramalhal, Maxial, Monte Redondo, e Matacães, deste concelho, e alguns do Vimeiro, Concelho da Lourinhã, vindo pela maior parte armados com armas de fogo, chuços, baionetas, foices roçadouras, e páos forrados. A força armada que tinha sido requisitada pelo Administrador (…) foi por elle mandada collocar à entrada da villa do lado do Norte”, mas não conseguiu deter a marcha dos populares, devido à grande superioridade numérica destes. (2). 
Retomando a descrição de Julio Vieira, da administração do concelho “dirigiram-se os amotinados para o Largo da Graça, onde existia a recebedoria nas lojas do prédio da família Fivelim”. 
O “recebedor” de então, Francisco Tavares de Medeiros, ainda conseguiu esconder no sótão do edifício parte do arquivo. 
Esse, que vivia por cima da casa da repartição, vendo esta arrombada, pediu da janela “que não fizessem barulho porque tinha a esposa de cama, doente. Ou porque o pedido surtisse efeito, ou porque, de facto, poucos fossem os papéis ali existentes, o certo é que a multidão limitou-se a atirar para a rua com maços de papéis que não chegaram a ser queimados”. 
De seguida a população dirigiu-se à Câmara Municipal, mas aqui, “pondo-se em frente dos paços do concelho algumas individualidades de destaque desta vila, conseguiram pela persuasão e pela exortação, o que a força não poude fazer”, argumentando com pedidos de calma e para que “não levassem por diante tal intuito, pelo prejuízo que a todos acarretava a perda do arquivo da camara”. 
Na descrição do Administrador do Concelho, o assalto à Câmara foi travado porque ele mandou colocar “à porta da Câmara a força armada”. 
Depois disto, e correndo a notícia de que estavam a chegar forças militares vindas de Mafra, a população dispersou. 
Aqueles acontecimentos foram um reflexo local tardio da conhecida revolta da “janeirinha”  (3) e terá tido lugar naquela data, talvez porque o dia 9 de Fevereiro coincidia com o dia da eleição da Câmara Municipal, que não se pôde efectuar, acabando por ter lugar em 8 de Março (4). 
O motivo que os revoltosos deram ao Administrador do Concelho quando chegaram ao edifício dessa administração foi querer queimar os registos das contribuições de 1867 que eles consideravam “exageradamente augmentados, e que não as podião pagar, mas que estavam prontos a paga los segundo o rendimento collectavel por anteriores matrizes”. 
Na carta ao Governador Civil o mesmo administrador do concelho, reforçava “que o motivo que levou aquellas gentes a praticar taes factos d’um perfeito vandalismo foi o exagerado aumento do rendimento collectavel nas últimas matrizes que fez augmentar o contingente distribuído a este concelho de 9:445:800 réis que foi no ano de 1866, a 16:633:270 e a serem collectados, por isso, quasi todos no dobro do que  tinhão sido no anno anterior, e muitos no triplo”. 
Segundo o mesmo relatório “não houveram victimas, nem ferimentos, nem roubos”, sendo os estragos registados os documentos queimado e algum mobiliário das repartições assaltadas. 
Também a Câmara referia alguns dos motivos da revolta: 
“Se houve os lamentáveis acontecimentos do dia 9 de Fevereiro nesta villa – sabe-se que o principal motivo foi a elevação do rendimento collectável nas Matrizes prediais; é verdade porem que se excederam gritando contra todos os tributos, e foram a caza do recorrente pedir-lhe os papéis do cacifo, e queimaram os que a mulher lhes deitara da janella. Nada porem destruio relativamente à renda que havia sido arrematada no Domingo anterior 2 de Fevereiro. O povo gritava contra as medidas cacifadas, ou cerceadas, e não contra o imposto dos cinco réis; -porque é o taberneiro vendedor quem a deve pagar, e não o povo. (…)”(5). 
No dia 10 de Fevereiro, pelas 4 horas da tarde “chegou a esta Villa a força de Cavalaria, e pelas cinco e meia a de Caçadores” (6). 
A presença dessas força militares e a sua acção em perseguição dos lideres conhecidos daquele movimento popular, nas freguesias rurais a norte da vila, deu origem a um conjunto de 15 artigos, intitulados “Quinze dias em Torres Vedras”, publicados no jornal “O Diário Popular” entre 2 de Julho e  19 de Agosto de 1868 da autoria de um dos militares para aqui destacado, A. Osório de Vasconcelos (7). 
As actas da Câmara de Torres Vedras, nos meses que se seguiram àquela rebelião, reflectem igualmente algumas das consequências desse acontecimento. 
Na sessão de 2 de Março registava-se a “impossibilidade em que se achava [a Câmara] de poder occorrer às suas despesas ordinárias e extraordinárias no exercício do anno económico corrente, por terem falhado a maior parte dos seus rendimentos, como do imposto municipal de cinco reis em cannada de vinho, e dez  reis em kilograma de carne, que se não tem podido arrematar por falta do lançador e pela queima que sofreu de documentos de cobrança no dia nove de Fevereiro último” (8). 
Não deixa de ser curioso e o impacto psicológico daqueles acontecimentos evidente quando em sessão de 18 de Março se refere um requerimento enviado à Câmara por Augusto Rafael de Miranda, “arrematador do imposto municipal de cinco reis em canada de vinho”, pedindo a rescisão das suas funções, argumentando que “os tarbeneiros, depois dos acontecimentos que tiveram lugar nesta villa no dia 9 de Fevereiro ultimo, não teem querido fazer avenças pelo vinho que vendem por não ser permittido, como era costume vender-se o vinho por medida cacifada” (9). 
Em 26 de Março esse assunto volta a ser abordado, já que, apesar de indeferido, o pedido de demissão daquele “arrematante do imposto municipal cacifo”, um imposto que cobrava 5 réis por cada 145 cantilitros de vinho, Rafael de Miranda insistia na rescisão, vindo à Câmara pessoalmente para justificar a sua decisão, acabando por confessar que “a maior de todas as razões era o medo com que ficou do povo desde o fatal dia 9 de Fevereiro ultimo, em que lhe foi a casa procural-o, como rendeiro do cacifo pedindo os papéis que tinha desta renda para os queimar, e pos isso era o seu maior desejo livrar-se deste contracto”. 
A Câmara recusou aquela demissão, argumentando com o facto de os taberneiros já terem manifestado à Câmara a decisão de pagarem aquele imposto, mostrando que então já se registava alguma normalidade (10). 
O administrador do concelho anunciou, no documento já referido, a abertura de um inquérito, mas, segundo Júlio Vieira “nunca se apuraram responsabilidades” (11). 
A “Batalhôa”, reflexo local da “janeirinha”, foi um dos acontecimentos que mais marcou a memória colectiva dos habitantes de Torres Vedras, até pela destruição que provocou na valiosa documentação da administração do concelho e na documentação fiscal da repartição da fazenda. 
(1)    VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, T. Vedras 1926, pp.224 e 225;
(2)   Livro de Registos da Correspondência do Administrador do Concelho de Torres Vedras para o Governador Civil de Lisboa, de 1868, registo nº 3  de 11 de Fevereiro;
(3)  para contextualizar  esse acontecimento histórico aconselha-se a leitura de A “Janeirinha” e o Partido Reformista – Da revolução de Janeiro de 1868 ao Pacto da Granja, da autoria de Carlos Guimarães da Cunha, ed. Colibri, Lisboa 2003;
(4)  de acordo com o ofício do Governador Civil citado e transcrito na sessão camarária de 2 de Março de 1868, Livro nº 30 das Actas da Câmara (1864-1873), f.106 e 106 verso;
(5)    Livro nº 30…, sessão de 26 de Março de 1868;
(6)   Livro de Correspondência do Administrador do Concelho para o Governador Civil, registo nº 2 de 10 de Fevereiro de 1868;
(7) este “folhetim”, cujo conhecimento de cópias me foram oferecidas pelo investigador Rui Prudêncio, merecia uma edição anotada;
(8)     Livro nº 30 de Actas Câmara (1864-1893),f.108;
(9)     Livro nº 30…, sessão de 18 de Março,f 113 e 113v;
(10)   Livro nº 30…, sessão de 26 de Março de 1868.
(11)   VIEIRA, Júlio, Ob.Cit.;.   
(Um resumo deste texto foi publicado na secção "Vedrografias" do Jornal "Badaladas", em 16 de Fevereiro de 2018) .
                  

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Origem do Automóvel e do transporte automóvel, em Torres Vedras


Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 14 de Outubro de1897, anúncio publicado na edição seguinte e cuja publicação foi repetida por várias vezes ao longo de 1898.



Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras.

Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs.  conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"(1) (foto em cima).

Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros (2):

 (Nº de ordem de matricula;  Nº de Circulação, Ano, Mês e Dia do Registo, Nome do Proprietário e residência)

    1    1660       1918   Abril 18    D. Vasco Martins Sequeira   Q.ta Juncal
    2     2393      1918   Julho  5     Vasco de Moura Borges      Q.ta Paio Correia
    3      943       1919   Julho 12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
    4     1390      1919   Julho 19    Gonzaga Limitada               Q.ta Charneca
    5      ---         1919   Agos.  2    José Augusto Lopes & C.ª   Torres Vedras
    6     2270      1919   Sete.   2    José Duarte Capote               Torres Vedras
    7     2705      1919   Out.   10    José Augusto Lopes Jr.        Torres Vedras
    8       ---        1919   Dez.   26    Joaquim C. Rodrigues         Torres Vedras
    9     2811      1920   Jan.    12    João Henriques dos Santos  Torres Vedras
  10       ---        1920   Maio  22    António |...?| Oliveira           Torres Vedras
  11     4076      1920   Junho 15   António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
  12     4258     1920   Agos.   2    Alfredo Oliveira Luso           Lisboa
  13   4230    1920   Agos. 16    João Henriques dos Santos   Torres Vedras -   camioneta
  14     4614     1920   Set.      2    Faustino Policarpo Timóteo  Dois Portos   -camioneta
  15     4473     1920   Out.     2    Manuel Augusto Baptista      Torres Vedras
  16      2981      1920   Out.   14    José Botto Pimentel Carv.º    Q.ta do Paço
  17      2907      1920   Nov.  16    José Antunes Martins             Ramalhal
  18      3382       1921   Abril  13    Dr.Pereira Branco                  Ribaldeira
  19        218       1922   Maio  25    António Hipólito                    Torres Vedras
  20        ---         1922   Agos.  4     Amadeu dos Santos                Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas (2).

Contudo, o inicio desse registo camarário não quer dizer que a existência de torrienses  proprietários de automóveis se tivesse iniciado apenas em 1918. Antes desta data, e pelo menos desde 1901, que os automóveis eram registados, mas a nível distrital, no caso torriense pelo Governo Civil de Lisboa (3).

Existem  testemunhos de que João Henriques dos Santos possuiu um dos primeiros automóveis em Torres Vedras logo nos primeiros anos do século (por volta de 1908)(4).

Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.

Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.

Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara,  annualmente  três  por cento da receita bruta.

"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria |sic| , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)" (5).

A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa  à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)" (6).

Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.


Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.

O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.

"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.

"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou  de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.

"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)" (7).

Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.

Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.

A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite" (8). Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.

Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".

O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.



Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas  que lhes eram enviadas pelos familiares.

Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa (7).

A empresa que fundou continuou ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.

(1)   – in Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902;
(2)   – In Livro de Registo de Matriculas, Arquivo Municipal de Torres Vedra;
(3)   – Decreto de 3 de Outubro de 1901;
(4)   - RODRIGUES, António, com Adão de Carvalho,”O Princípio do automóvel em Torres Vedras”, in Toitorres Notícias, nº 39 de Setembro/Outubro de 1996;
(5)   - In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV;
(6)   - In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915;
(7)   –In Badaladas [data desconhecida];
(8)   – in O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nota: uma versão mais resumida deste texto foi publicada na série “Vedrografias”, no jornal Badaladas de 26 de Janeiro de 2018. Por sua vez o texto que aqui se reproduz tem origem num capítulo do meu livro sobre o Impacto da chegada do Caminho de ferro em Torres Vedras, actualizado e já publicado neste blog, mas que agora foi refeito e actualizado com base em novas informações.