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terça-feira, 25 de julho de 2017

Há 190 anos: em 25 de Julho 1827 foi inaugurado o “Hospital Real dos Inválidos Militares de Runa”

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 Foi em 18 de Junho de 1792 que a princesa D. Maria Francisca Benedita, filha de D. José, irmã da rainha D. Maria I, viúva do principe D. José, seu sobrinho, mandou iniciar construção do “Hospital Real” de Runa, ordem confirmada por Decreto de 25 de Julho de 1802 e por Alvará de 27 de Julho desse mesmo ano (1). Com essa finalidade aquela princesa comprou a chamada Quinta de Alcobaça, em 11 de Agosto de 1790, para além de outras propriedades próximas, incluindo a Quinta de S.Miguel da Enxara do Bispo, tudo pelo preço de “40 contos de réis”.
 “A construção do edifício só veio a iniciar-se, porém, em 1803, participando nela mais de trezentos operários. Em 1807, quando a família real emigrou para o Brasil, já grande parte do edifício se encontrava erguida” (2) . Mesmo distante, a princesa continuou a enviar regularmente “do Rio de Janeiro repetidas vezes avultadas sommas em dinheiro” (3). Quando finalmente regressou ao reino, em 1821, deu ordens para que a obra fosse apressada e concluída, o que aconteceu no dia 25 de Julho de 1827, por ocasião do seu 81º aniversário.

 A descrição desse dia mereceu uma ampla “reportagem” na Gazeta de Lisboa nº 199 de 23 de Agosto de 1827; “(…) Com a maior satisfação annunciamos aos bravos Defensores da Patria, e a todos os Portuguezes amigos da Gloria Nacional, que no dia 25 de Julho forão recebidos no Real Asylo dos Invalidos, mandado edificar junto ao Lugar de Runa, e magnificamente dotado por S. A. R. a Serenissima Princeza D. Maria Francisca Benedicta, os primeiros Militares, que no Serviço da Patria adquirírão enfermidades porque forão julgados em estado de lhes aproveitar o beneficio deste tão piedoso quão patriótico Estabelecimento, do qual Portugal carecia, e que hoje deve unicamente á generosidade, assiduos disvélos, e heroicas virtudes de huma Princeza, que o Ceo conserva para exemplo de seus iguaes, e consolação dos Portugueses. “A’s onze horas e meia da manhã do dia 25 de Julho de 1827, dirigio-se á 1greja do Real Asylo dos invalidos S. A. R. a Serenissima Senhora D. Maria Francisca Benedicta, viuva do nunca assás chorado Principe do Brazil, D. José, tendo a honra de acompanhar S. A.R. os Excellentissimos Mordomo Mór, e Viadores da mesma Senhora, diversas pessoas da primeira Nobreza, o Coronel Governador do Asylo e seus Ajudantes, o Corregedor, Provedor da Comarca, e outros Magistrados, bem como as Pessoas mais distinctas tanto no estado Ecclesiastico como Secular da mesma, Celebrada huma Solemne Missa, a que assistírão, em uniforme, e lugar distincto, os Militares Invalidos, e recitada huma eloquente e análoga Oração, pelo Prégador Regio o muito R. P. M. Fr. João de Santa Anna; passou S. A. R. á Sala destinada para refeitorio dos Invalidos. “No topo desta Sala se achava preparada para S. A. R. huma cadeira, a que servião de ornato diferentes troféos militares, entre os quaes se distinguião duas bandeiras, nas quaes os fieis e cançados defensores do Estado podião ler em torno do Escudo Real, a nobre apóstrofe, que outr’ora dirigia ao seu Rei hom Poeta Soldado: E Julgareis qual he mais excellente;Se ser do mundo Rei, se de tal Gente. “Tanto que S. A. R. occupou este assento, Ordenou,que os Invalidos fossem introduzidos na Sala, e acolheo a cada hum delles singularmente, com aquella carinhosa affabilidade, que só pode gerar a solida beneficencia, que inspirára a Sua Alteza Real a primeira idéa desta fundação, e de cuja expressão só podem formar exacta idéa, aquelles que tiverão a satisfação de presencealla, e de ouvir da bocca de S. A. R. as seguintes palavras, dirigidas áquelles para quem preparára hum tão honroso descanço : “» Estimo ter podido concluir o Asylo, que mandei construir para descançardes dos vossos honrosos trabalhos; emrecompensa só vos peço a Paz e o Temor de Deos.» “Tendo S. A. R. mandado sentar os Militares Invalidos, e servido hum sumptuoso banquete, levantou-se S. A. R.,e acompanhada pelo seu Mordomo Mór, e Viadores, Dignou-se servir os mutilados, mas não, vencidos Defensores da Patria, e a cada hum delles dirigio Esta Augusta Virtuosa Princeza palavras de consolação, que fizeram derramar lagritnas de enternecimento e gratidão, não só áquelles a quem S. A. R. as dirigia, mas ao grande numero de espectadores de todas as classes, que por permissão sua havião sido admittidos na Sala. “Repetidos vivas, nascidos do enthusiasmo da gratidão, e do respeito, que inspira a verdadeira Magnanimidade,e a solida Virtude, resoárão em toda a Sala quando S.A. R. se despedio dos seus novos hospedes. “Este bello dia em que completou oitenta e hum annos a Augusta Fundadora do Real Asylo destinado aos Defensores da Patria, foi terminado por hum solemne Te Deum, ao qual S. A. R. assistio com aquella efusão de Piedade, de quem tão eminentemente sabe alliar as virtudes Christãs cou hurn inalteravel e esclarecido amor dos Povos,que Seus Augustos Antepassados Governárão. “Não só dos lugares vizinhos, mas de outros mui distantes, concorreo innumeravel Povo a presencear esta solemnidade verdadeiramente Nacional. Forão todos os concorrentes agazalhados e servidos, e soccorridos os necessitados com esmolas abundantes; folgando todos de verneste numeroso concurso reinar a mais perfeita tranquillidade, e a mais imperturbavel ordem; apezar de não apparecer em armas nem ainda huma Guarda de honra (…)”. Em vésperas daquela solenidade escreveu Roque Ferreira Lobo um panegírico em honra da princesa. (4).
 
 Foi primeiro administrador do “Hospital” o Brigadeiro Luis Pereira Miranda Palha, autor da primeira monografia escrita sobre aquele estabelecimento (5). Até ao seu falecimento, dois anos depois, a princesa aí voltou por várias vezes. Sousa Escrivanis, na sua monografia sobre o “Real Asylo” de Runa inclui uma curiosa lista com o nome das pessoas que nos lugares de Runa, Penedo, Zibreira e Matacães conheceram a princesa, parte delas tendo trabalhado “na  construção do asylo (6) A princesa, além de ter deixado em testamento ao “Asilo” vários bens pessoais (7), declarou este estabelecimento “seu universal herdeiro, passando então a administração das rendas para o Conselho de Administração, o qual, bem como todo o Estabelecimento, é hoje [1859] governado pelo Ministério da Guerra”(8).

 O edifício é de estilo neoclássico e foi responsável pela sua construção o arquitecto José da Costa e Silva. “O edifício tem 450 palmos de frente com 25 janellas: o seu fundo é de 280 palmos com 13 janellas: tem 4 faces regulares e três andares, além das àguas-furtadas, nas quaes, somente, se poderiam acomodar 300 pessoas” (9). Integrando o edifício destaca-se a sua original capela: “Ao centro do edifício, a notável entrada para a igreja, formando peristilo, é de uma arquitectura austera e nobre. O templo tem uma curta nave ou corpo e um grande transepto em que os topos são rematados em semicírculo. O conjunto é dominado por uma cúpula. É inegável que o revestimento de mármore dá certa riqueza ao interior, mas o ambiente é frio e o altar-mor, colocado ao centro, é pesado e fúnebre. De notar, contudo, os nichos com esculturas de mármore de Carrara ao estilo neoclássico (...)” (10).
 Madeira Torres refere que  os mármores usados na capela foram extraídos das “pedreiras descobertas nos logares de Figueiredo, e Furadoiro” (11).. Contudo, os anotadores de Madeira Torres, com base em apontamentos que lhe foram facultados por José Ribeiro d’Almeida, comandante daquele estabelecimento à época (1861), desmentem aquela origem dos mármores, que tiveram, sim, origem, “mas de outros mais existentes nas imediações do mesmo Azylo”,  acrescentando que os de cor preta foram extraídos das pedreiras de “Pêro-Negro ao pé da Çapataria” (12). Pertence também a esta igreja uma alta e valiosa custódia de prata dourada cravejada de pedras preciosas, fabricada de acordo com desenho elaborado pela própria princesa. Essa valiosa e original custódio pode ser vista no museu existente no edifício, que inclui, entre muitas outras peças interessantes “três tábuas portuguesas da primeira metade do século XVI” [escola de Gregório Lopes?]”representando São Luís, rei de França, S. João Baptista e S. Jerónimo, S. Bento e santo Ambrósio, e uma tela representando Santo António e o Menino, assinada  por Vieira Lusitano “(13). Durante a década de 50 do século XIX o espaço onde se encontra o edifício foi alvo de diversas obras de beneficiação (14). A encerrar, recomendamos, após uma visita ao lugar, ao seu valioso museu e aos seus jardins, fazendo  nossas as palavras de Alexandre Herculano que, realçando o pitoresco da localização do edifício, sugeria “formosos passeios nos arredores”, espairecendo “pelas cercanias do hospital” (15). Venerando Aspra de Matos    (1)   A melhor e mais actualizada biografia da princesa pode ser lida em :BRAGA, Paulo Drumond, A Princesa na Sombra – D. Maria Francisca Benedita (1746-1829), Colecção H11, ed. Colibri/CMTV, 2007;
(2)   Lar de Veteranos Militares – Runa, ed. Serviços Sociais das Forças Armadas, Lx. 1970;(3)   Anotadores de MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descripçaõ Historica da villa e termo de Torres Vedras, 2ª edição, Imprensa da Universidade, Coimbra 1862,  pág.68;
(4)   LOBO, Roque Ferreira, Panegírico em honra da Sereníssima Princesa do Brasil e Senhora Dona Maria Francisca Benedita pela sua fundação de um Hospital para Militares Inválidos, na sua Quinta do lugar de Runa, termo da Villa de Torres Vedras, Regia Typ. Silvianna, Lisboa, 1826;
(5)   PALHA, Fernando Luiz Pereira de Miranda, Breve narração acerca do Real Asylo de Inválidos Militares estabelecidos em Runa, Typ. da Sociedade de propaganda dos  Conhecimentos Úteis, Lisboa 1842;
(6)   ESCRIVANIS, Augusto Carlos de Souza, Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares em Runa (…), Lisboa, 1882;
(7)   Leia-se: LÁZARO, Alice, O Testamento da Princesa do Brasil D. Maria Benedita (1746-1829), ed. Tribuna da História, Lisboa 2008;
(8)   (Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.69.
(9)   HERCULANO, Alexandre, “O Hospital Militar de Runa”, in O Panorama, nº72, Setembro 15, 1838, texto transcrito em CUSTÓDIO, Dr. Jorge Raimundo, Hospital Militar de Runa, ed. CMTV/ADDPC de T. Vedras, 1982;
(10)                      Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35, 1963;
(11)                       MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descripção Histórica da villa e Termo de Torres-Vedras, [1819], 2ª edição, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1861, pág.67;(12)                      Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.68.(13)                      Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35, 1963;
(14)                      Ver lista em:Anotadores, MADEIRA TORRES, ob.cit., pág.71;(15)                      HERCULANO, ob. Cit.
(Uma versão resumida deste texto foi publicada nas páginas do jornal Badaladas, na secção Vedrografias de 21 de Julho de 2017)   

quinta-feira, 13 de julho de 2017

25 de Maio de 1887 : inauguração do serviço de passageiros de comboio de T.Vedras para Lisboa

No dia 25 de Maio de 1887 inaugurou-se o serviço regular de passageiros por caminho-de-ferro, ligando Lisboa e Torres Vedras, facto que representou uma enorme revolução na vivência dos torrienses.
Dias antes, no dia 9 de Maio desse ano, tinha tido início o serviço regular de transporte de mercadorias.
Embora ainda fosse preciso esperar pela inauguração das ligações para norte para acabar a obra, que tiveram lugar, respectivamente, em 1 de Agosto desse ano, com o início das ligações regulares para Leiria, passando por Caldas da Rainha, e em 17 de Julho de 1888, com a inauguração da ligação à Figueira da Foz, aquelas duas datas colocaram Torres Vedras na senda do mais moderno progresso do século XIX.
Foi no dia 12 de Janeiro de 1880, e depois do fracasso do Larmanjat, que foi oficialmente aprovada a construção de um caminho de ferro que ligando Torres Vedras a Lisboa, trabalhos que conheceram um ponto alto nos anos de 1885 e 1886, com a construção de três túneis a sul da vila, que antecediam a entrada no vasto aterro onde se contrui a estação, para além da construção de várias pontes metálicas, duas a sul dos túneis e duas a norte da estação.

O primeiro túnel perfurado foi o "do Cabaço", o do meio, junto à azenha do mesmo nome, já ligado de lado a lado em Junho de 1885.
Mais complicada foi a perfuração do túnel da Certã, o mais próximo da estação, tendo custado a morte de um trabalhador espanhol, em 18 de Agosto de 1885, quando este entrou no túnel inadvertidamente, antes de terem explodido todos os tiros necessários à sua abertura, registando-se ainda ferimentos noutros trabalhadores. Finalmente, a 2 de Outubro de 1885, após dois meses de trabalho, ficou concluída a obra.
A imprensa local da época registou esse acontecimento: "Quando apareceu a luz do lado do Cabeço do Cabrito, subiram ao ar muitos foguetes. Foram depois embandeiradas as duas entradas do túnel e as vagonetas, e os dignos empreiteiros fizeram distribuir extraordinariamente pelos capatazes e operários uma boa quantia de dinheiro, dando-lhes depois folga nesse dia. O túnel tem sido percorrido de um a outro lado por muitas pessoas desta vila." (1).
O túnel mais extenso e distante de Torres Vedras, o "da Boiaca", com 160 metros, ficou perfurado em 5 de Outubro de 1885, completando-se assim essa importante obra de engenharia, dirigida pelo técnico francês Abel Marty, que foi assassinado em 26 de Abril de 1886, sem ter assistido à chegada da primeira locomotiva a Torres Vedras.
Quando da construção da estação foi necessário cortar o viaduto que transportava as águas para a vila, até ao Chafariz dos Canos.
O desaterro necessário à construção da estação do caminho de ferro e aos seus serviços transformaram imenso toda a paisagem a leste da vila, numa extensão de, aproximadamente, dois quilómetros, descrita do seguinte modo pela imprensa local:
"A situação da estação é formosissima. Os trens que desembocarem do tunel penetrarão numa deliciosa planície fechada à direita pelas àrvores que bordam o Sizandro, e ao largo por colinas cobertas de vinhedo; em frente, destaca-se a vila, o castelo e o elegante chalet do falecido João Pinto, hoje propriedade do sr. António Maria de Carvalho.
"Pena é que este quadro ridente seja empanado do lado contrário pelo cemitério - uma construção informe, antiga, com sua capela de gosto arquitectonico pesado e casas de mal "(!?)" adjacentes, um verdadeiro ponto negro em tantas belezas" (2).
A construção do troço da linha para a Figueira, cujas obras se iniciaram em finais de Outubro de 1885, provocou igualmente  alterações na configuração paisagística a norte da vila, com o corte de parte da colina do forte da Forca, cuja terra seria aproveitada "para o alçamento da linha pela varzea do Sizandro até às Covas |onde se localiza a estação| - um aterro respeitável, de alguns metros de altura"(3).
Ainda antes de se iniciar o transporte regular de mercadorias e de passageiros, teve lugar uma viagem experimental, com a chegada da primeira locomotiva a Torres Vedras, em 30 de Dezembro de 1886.
Nesta ocasião e data foi lançado o  número único do jornal "Lisboa - Torres Vedras", editado pela "Typographia Torreense" de Manuel do Nascimento Aspra, "destinado a comemmorar a entrada da primeira locomotiva na estação desta villa"(4), onde se fez eco de muitas das esperanças suscitadas a nível local com a chegada do comboio.
A. de Sottomayor, um dos colaboradores dessa publicação comemorativa, anunciava a chegada "a esta rica povoação" da "guarda avançada do progresso", enquanto que J. G. ( João Gualberto ?)de Barros e Cunha acrescentava que, a "partir de hoje Torres Vedras fica sendo um bairro de Lisboa, um suburbio de Madrid, quasi um arrabalde de Paris"
Mais realista, António Batalha Reis reflectia sobre algumas preocupações e vantagens concretas para o concelho deste novo melhoramento:
"(...) Entrâmos pois a valer na intimidade da civilisação actual, e vamos participar, em breve, das enormes vantagens que hoje offerecem os seus gigantescos meios de actividade e de acção!
"Mas para que este poderoso melhoramento não seja esteril, para que lhe possamos colher os sazonados fructos, e pagar honradamente a divida que hoje contrahimos com os proprietarios da linha, é necessario, é indispensavel que tenhamos vida propria, e que sintamos em nós forças bastantes para utilisar por inteiro a riqueza que tão confiadamente nos visita
"Ora a vida d'este concelho, a sua unica riqueza séria (...) assenta (...) nos bem cultivados e excepcionaes vinhedos, que descem das altas cumiadas das suas multiplices collinas até as plainas veigas, que, por toda a parte, marginam as abundantes linhas de agua que rasgam a superficie.
"(...) Lembrem-se que vae acabar o tempo, para este concelho, em que os seus erros e desleixos desappareciam esquecidos ou annulados pelo seu proprio isolamento.
"O seu hontem morre com a carreta que pausada e caprichosamente conduz os generos, e com a diligencia - de maçadora recordação- que arrasta ainda os passeiros, fazendo perder a estes, com a paciencia, a noção das noticias de que são portadores.
"O dia de hoje assignala na sua historia uma transformação economica de subido alcance, e mal iremos todos senão correspondermos a ella como devemos - porque, então, se crusarmos os braços, preparemos seguramente um amanhã de miseria e de fome, e podemos ter a certeza que a nossa innacção converterá em simples e silenciosos apeadeiros, as ruidosas, e, por certo, lucrativas estações, que hoje festivas e alegres ladeiam a linha ferrea a pequenos intervallos, e que não serão de mais, agora, para colher a enorme quantidade de cascos, cheios do nervoso torreano, que espera impaciente novos mercados e abundante clientella" (5).
 Principalmente ao longo dos primeiros anos da chegada do caminho de ferro a T. Vedras, a imprensa local continuou a reflectir sobre os efeitos dessa novo meio de transporte:
"O estabelecimento da Linha-férrea, que decerto modo nos avisinha muito mais da primeira cidade do paiz, modificando as várias condições materiais e sociais em que até hoje temos subsistido, impõe  ao nosso município um maior numero de obrigações, que sem grave desdouro não poderão deixar de se cumprir. É necessário seguirmos abertamente a vereda ampla do progresso, para que a locomotiva nos está chamando com o seu silvo agudo e penetrante.
"Torres Vedras tem de se tornar uma localidade limpa, garrida, sabendo attrahir os seus prováveis visitadores, não lhes apresentando o espectáculo triste de umas ruas mal calçadas, outras mal illuminadas, impróprias finalmente, de uma terra com a importância que a nossa chegara a ter.(...).
"À transformação económica que decerto virá influir salutarmente sobre a nossa povoação, é urgente corresponder com a transformação material, que nos ponha à altura de uma terra tão importante como a nossa, agrícola e comercialmente falando (...)" (6). 
No primeiro comboio que iniciou o transporte regular de mercadorias em 9 de Maio  de 1887  foram transportados 34 cascos e 150 barris de quarto e de quinto com vinho. Esta remessa foi despachada pela casa Santos Bernardes & Filhos” (7)
Mas o momento chave desse imenso melhoramento foi o acima referido dia 25 de Maio de 1887, com a viagem inaugural do serviço de passageiros, momento descrito pela imprensa local:
"Era immenso o enthusiasmo que desde a tarde de terça feira animava os moradores d'esta villa, quando souberam que iam definitivamente estreitar-se as suas relações com a capital (...) grande a animação com que era aguardado o primeiro comboio de Lisboa na quarta 25, dia esplendido, de bello sol, que, batendo em cheio nos vinhedos que aformoseiam as encostas que se desfructam do vasto e desafogado recinto da estação(...).
"Pouco depois das nove horas e meia da manhã começou a afluir à gare grande numero de pessoas das diversas classes socias. Às 10 e 40 surgiu do tunnel da Certã a machina nº 127, comboiando quatro carruagens e dois  wagonetes.
"N'esta ocasião subiram ao ar muitos foguetes, e a philarmonica Torreense tocou o hynno da Carta e seguidamente outras peças do seu reportório, dando assim ao acto um carácter de festa inteiramente popular, nem por isso de menos valor das outras.
"No comboio chegaram cerca de 100 pessoas, satisfeitas com os panoramas que gosaram em toda a linha (...)
"O primeiro comboio, que de Torres saiu às 6 horas e 15 minutos da manhã, conduziu limitado numero de passageiros para Lisboa. Iam n'elle alguns comerciantes da localidade, aproveitando já o enorme benefício que o progresso lhes facilita." (8) .
As enormes expectativas criadas com a chegada do caminho de ferro a Torres Vedras, provocaram algumas decepções nos primeiros tempos, não correspondendo os serviços prestados pela companhia ao que se esperava.
Logo a 25 de junho de 1887 o periódico local "Voz de Torres Vedras" anotava com alguma amargura que, embora tivesse levado "tempo immenso a construir a decantada linha de Torres" esta tinha sido mal construída, cheia "de curvas, com os apeadeiros feitos de pedra solta e terra, algumas trincheiras promettendo querer desabar, a linha é um perigo permanente, não sendo já pequeno o numero de quedas e outros desastres registados pela imprensa. Os wagons são por seu turno o peior que se podia imaginar. A companhia foi á arrecadação, procurou lá os carros que já tinham sido condemnados n'outras linhas, pintou-os, mandou-lhes dar uma demão de verniz, e impigiu-os para cá, assim como quem trata com gente despresivel, que não sabe o que é bom! Wagons tendo os tectos baixissimos, e outros defeitos, foi o que a companhia do norte poz em serviço n'esta linha, zombando do publico que escandalosamente explora...".
As críticas desse jornal não se ficavam por aqui, prosseguindo no mesmo  editorial:
"Aos olhos mesmo da população da villa está patente de uma maneira clara o desmazel-o da companhia. A frente da estação nem ao menos foi mandada asphaltar; o caminho que dá ingresso aos carros, e aos passageiros, cheio de covas, até por detraz da estação, tornou-se n'uma fabrica de quedas, que todos os numeros temos de noticiar.
"Por cima de tudo isto, que já não era pouco, a companhia formulou ainda uma tarifa de preços para as mercadorias, verdadeiramente impossivel. Quasi não vale a pena o servirmo-nos n'esta localidade da viação accelerada! Os carros dos almocreves, velhos como a descaídela do pae Adão, competem vantajosamente com a via ferrea, em que nós tanto tempo tinhamos posto as nossas esperanças. As vantagens do progresso não foram ainda postas ao nosso alcance, estão monopolisados pelos grandes senhores da companhia real, que viajam alegremente em carruagem - salão, emquanto nós se quizermos teremos de fazer uso de perfeitas gaiolas, que promettem dar comnosco...no fundo de um barranco!"
Mas nesse artigo não se responsabilizava apenas a Companhia Real pela situação descrita : "Ora a culpa do procedimento vilão da companhia, que tratou esta terra como cousa conquistada, é ainda nossa, das nossas auctoridades (...). A camâra municipal já podia ter reclamado perante o governo ácerca do serviço dos caminhos de ferro. Não o tem feito, comtudo, sem embargo dos clamores serem geraes entre todos os interessados, que são principalmente os commerciantes e os viticultores d'este concelho(...)" (9).Contudo, o forte impacto da chegada do caminho de ferro a Torres Vedras foi por demais evidente para ultrapassar as susceptibilidades e dificuldades iniciais.
Uma das primeiras consequências da chegada desse novo tipo de transporte foi a redução, em cerca de três horas, da distância anteriormente percorrida entre a vila e Lisboa, pois, em 1887, os horários previam um mínimo de 2 horas e 15 minutos e um máximo de 3 horas e 15 minutos para efectuar esse percurso.
A chegada do caminho de ferro ao concelho de Torres Vedras motivou uma maior preocupação com o estado das vias terrestres de ligação com as estações ferroviárias.
A inauguração desse meio de transporte motivou ainda o desenvolvimento de uma rede complementar de transportes, ligando vários lugares com Torres. Em 24 de Março de 1887 a companhia d "Trens de aluguer Almeida & Cunha" iniciava "uma carreira entre Torres Vedras e a Lourinhã e que se prolongará até Peniche, logo que o caminho de ferro comece a funccionar. Em todos estes pontos tenciona estabelecer succursaes de uma agência central do caminho de ferro, com sede em Torres Vedras, para receber mercadorias para Lisboa e vice-versa(...)" (10).
A chegada do comboio a Torres Vedras revelou o seu impacto sobre o movimento comercial local, como se comprova com o facto da então quase moribunda Feira de S. Pedro ter conhecido, logo no ano de 1887, pouco mais de um mês após a inauguração do serviço regular de passageiros para esta vila, uma animação nunca vista em anos anteriores, como fazia notar a imprensa local, referindo que "de a verem tão concorrida, como este ano, não se lembram os moradores mais antigos daqui" (11),  avançando a mesma notícia que nos dois primeiros comboios chegados nesse dia à vila tinham desembarcado cerca de 2000 pessoas.
Tais queixas não obstaram, apesar de tudo, que o caminho de ferro se tornasse o centro da azáfama comercial da vila tal como o mesmo jornal, pela mesma altura fazia notar, em pleno auge das vindimas :
"É extraordinario o movimento que se observa nas ruas da nossa laboriosa villa. Carros transportando para a estação de caminho de ferro cascos cheios de vinho novo; outros ainda com dornas e tinas cheias de uvas ou de mosto, impregnando de fragancias a atmosphera(...)" (12).
Também a urbanização da vila conheceu um novo fôlego e uma nova direcção, tendo por pólo a localização da estação de caminho de ferro, levando à criação dos eixos urbanos , as actuais Av.5 de Outubro e Av. Tenente Valadim, bem como de um ramal, "construido a expensas da companhia desde a estrada de Alhandra à estação" (13).
 
Finalmente, em Setembro de 1888, anunciava-se o fim das "obras da nova Avenida do Caminho de Ferro, espaçosa, bonita, e um dos melhores trabalhos que se tem feito em Torres, com relação a belleza e utilidade(...)" (14).
Em sessão camarária, realizada em 14 Março de 1889, baptizou-se a Avenida do Caminho de Ferro com  o nome de Avenida Ignacio Casal Ribeiro, uma homenagem ao deputado do círculo eleitoral de Torres Vedras, decisão comunicada ao mesmo quando este visitou a vila a 17 de Março desse ano "como premio dos esforços que s. ex.ª desenvolveu para a construcção d'ella, e como signal do respeito e do amor de todos" (15) .
Uma outra avenida seria construída, a partir da chamada "rua da cerca" e entroncando com a Avenida Casal Ribeiro (actual Av. 5 de Outubro), nas proximidades da estação e que seria baptizada, em sessão camarária de 27 de Novembro de 1890, com a denominação de Avenida Tenente Valadim "em testemunho de admiração e para prepetua memoria d'aquelle martyr da honra e da civilisação" (16) , falecido em Moçambique em Fevereiro desse ano.
A construção destas avenidas rompeu com os limites tradicionais da urbanização da vila, ainda muito marcados pelos limites da já então demolida muralha medieval e pela direcção das "portas" da vila.
Por outro lado, a própria direcção da linha férrea funcionou, tal como tinha acontecido ao longo dos tempos com o rio Sizandro, como um limite, ainda evidente nos nossos dias, à expansão  urbana para leste.
Com a inauguração definitiva do caminho de ferro, Torres Vedras e o concelho conheceram uma animação crescente e antes pouco usual,  como se pode ler na seguinte notícia:
"No domingo chegaram a esta vila mais de 100 pessoas no comboio da manhã. A maioria delas vinha visitar estes sítios, e confessava-se encantada com o panorama que se desdobra à vista desde a saída do tunel da Sapataria até Torres.
"Outro grande numero de passageiros apeiaram (sic) em Dois Portos, para daí seguirem para a Ribaldeira, onde havia a festa e arraial que anualmente se faz a Santa Catarina.
"Em Torres, de tarde, encontravam-se grupos pitorescos de visitantes, merendando entre os choupaes" (17).  
 
O aumento de forasteiros que o caminho de ferro trouxe a Torres Vedras contribuiu ainda para o crescimento do número de pessoas que procuravam cura nas terapêuticas àguas dos Cucos, localizadas  poucas centenas de metros a sudeste da estação ferroviária, estando na origem da crescente preocupação, quer por parte da imprensa local, quer por parte dos proprietários das termas, em melhorar as respectivas instalações. Esta situação  foi geradora de um dos empreendimentos urbanísticos mais importantes do final do século XIX nos arredores da vila.
O jornal "A Semana" foi um dos que mais se bateu por esse melhoramento. Em 12 de Julho de 1888 esse periódico chamava a atenção para a "grande conveniente e maior necessidade que há de construir um edifício, apropriado e decente, onde os doentes de rheumetismo gottoso possam vir receber, com commodidade e asseio, os manifestos benefícios das nossas especialissima águas dos Cucos.
"Aquillo que hoje lá existe, considerado como estabelecimento Thermal, é um péssimo documento da nossa orientação económica, que estamos apresentando aos forasteiros, deixando abandonado um precioso elemento de vida commercial de Torres Vedras (...).
"As toscas locandas estão apinhadas de gente; as pessoas que se installam pelas hospedarias da villa, quando vão tomar banho, ao sair, não teem um quarto confortável onde demorem, acontecendo que nos dias inconstantes que tem corrido sugeitam-se até apanhar chuva, na volta(..)" (18).
Esta descrição é reveladora das dificuldades de resposta da vila na hospedagem de um número crescente de forasteiros, reflexo do aumento de movimento de pessoas provocado pelo recém inaugurado caminho de ferro.
As obras que conduziram àquele espaço que hoje conhecemos como Termas dos Cucos iniciaram-se em 26 de Novembro de 1890. O novo estabelecimento termal foi aberto ao público, provisoriamente, em 11 de Julho de 1892, realizando-se a sua inauguração oficial em 15 de Maio de 1893.
A inauguração da ligação ferroviária entre Torres Vedras e Lisboa foi assim um marco fundamental para o desenvolvimento desta localidade.
(1)   Jornal de Torres Vedras, de 8 de Outubro de 1885;
(2)   Jornal de Torres Vedras, 5 de Novembro de 1885.
(3)   Jornal de Torres Vedras, 10 de Dezembro de 1885.
(4)   Actas da CMTV, Livro nº 33, sessão de 9 de Dezembro de 1886, ff.164 verso e 165.
(5)    Lisboa-Torres Vedras, nº único, 30 de Dezembro de 1886.
(6)   Voz de Torres Vedras , 19 de Fevereiro de 1887.
(7)   A Semana, 12 de Maio de 1887.
(8)   Voz de Torres Vedras, 28-5-1887.
(9)   Voz de Torres Vedras, 25 de Junho de 1887.
(10)                       Semana, de 31 de Março de 1887.
(11)               Voz de Torres Vedras, 2 de Julho de 1887.
(12)                      Voz de Torres Vedras, 13 de Outubro de 1888.
(13)                      Jornal de Torres Vedras, 4 de Novembro de 1886.
(14)                      A Semana,  de 27 de Setembro de 1888.
(15)                      Voz de Torres Vedras, 23 de Março de 1889.
(16)                      Actas da C. M. T. V. Livro nº34, sessão de 27 de Novembro de 1890,f.67.
(17)                      A Semana, 9 de Junho de 1887.
(18)                      A Semana , 12 de Julho de 1888.
(Nota: um estudo detalhado sobre a construção e o impacto do caminho-de-ferro em Torres Vedras pode ser consultado no meu livro “O Caminho de Ferro em Torres Vedras – Impacto da Sua Chegada”, ed. CMTV/Colibri, Maio de 2007;
Por sua vez, este texto serviu de base para um outro mais sintético publicado na secção Vedrografias do Jornal Badaladas no passado dia 26 de Maio de 2017).
VENERANDO ANTÓNIO ASPRA DE MATOS
 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Feira de S. Pedro no Século XIX

A inauguração das ligações ferroviárias entre Lisboa e Torres Vedras em 1887 veio dar um novo alento à centenária Feira de S. Pedro.
 
A reportagem que abaixo transcrevemos, sobre a Feira de S. pedro de 1888, revela uma colorida descrição desse acontecimento e do ambiente que então se vivia, marcado pela "crise da filoxera":
 
"Na Feira de S. Pedro
 
"Bom sitio e muito fresco, bem assombrado de grandes arvores alinhadas regularmente, que estendem os ramos frondosos n'um anceio de abrigarem alguém do calor, anceio inútil, esperança frustrada por nunca ter mandado collocar lá uns bancos alguém que quizesse fazer o gosto às arvores e ser agradável às gentes...
 
"Simplesmente um arruamento de barracas diversas, desde as opulentas barracas dos ourives até às mirabolantes barracas dos bazares, rescendentes de pantominice.
 
"Muita gente acotovelando-se, muitos conhecimentos distantes, muita poeira e muito suor. Por entre os tachos, luzentes do sol, encontravam-se comadres que mesmo ali descosiam o fiado aos seus visinhos mais próximos, e amigos que se ofereciam de jantar, ou ao menos uma cerveja.
 
"- Um capilé. sempre vae, hein?! - Não ia nada, nem pelo demónio, nem sequer se iam aquelles bois que elle vinha vender e que ninguém comprava.
 
"- O phylloxera! O phylloxera!...
 
"E marchavam a contar historias da vida, difficuldades, vinhas arrazadas, uma lastima!
 
"Os bazares é que faziam negócio. Ao Centro da barraca, pendurado n'um poste, um disco pintado de cinzento, e orlado de 16 pinturas a negro de vários bichos, desde o tigre de celebre ferocidade até ao cão de fidelidade reconhecida. Ao todo representavam 16 vinténs, vintém por animal. Um ponteiro ao centro marcando o premio; girava o disco, o animal marcado pelo ponteiro ganhava, e o individuo que tinha o nome d'esse animal, impresso n'uma senha previamente distribuída a troco d'um vintém, recebia...um assobio!
 
"Uma encantadora simplicidade de systema abreviado para tirar o dinheiro das algibeiras do próximo".
 
(artigo assinado por "Y" publicado em "A Semana" de 5 de Julho de 1888).
"