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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

De Bicicleta por Torres Vedras...

Na passada sexta-feira foi apresentado o Plano da Rede de Ciclovias Urbanas de Torres Vedras.

Integrado na apresentação dessa iniciativa do município local teve lugar, nessa manhã, um passeio de bicicleta, com a duração de cerca de 2 horas e num percurso de 10 quilómetros à pelas ruas da cidade.

Fomos acompanhados, por responsáveis da câmara por esta iniciativa e também por Paulo Guerra dos Santos que, há quase cem dias, anda a fazer uma volta a Portugal em bicicleta, que está prestes a acabar.

O diário da sua viagem pode ser lido AQUI.

PAULO GUERRA DOS SANTOS -dar a Volta a Portugal em Bicicleta em Cem Dias.

 
Uma das condições era que cada participante se deslocasse com o seu vestuário normal, sem o aparato que é habitual nestas coisas, onde os ciclistas ( de fim-de-semana) se equipam como se fossem  para a “Volta à França”…

Aqui por Torres Vedas saímos da zona norte do parque da Várzea, seguimos até à “rotunda do Modelo” ou dos sobreiros, subimos à “Madeira Torres”, continuamos pela “Teresa de Jesus”, descendo-a até ao tribunal, entrámos na zona de Santiago, até ao choupal. Daqui subimos ao Arena ( e que subida…ufa!), atravessamos a antiga zona industrial de Arenes, passámos junto ao aqueduto, seguimos em direcção ao cruzamento junto à ponte ferroviária até ao novo Mercado Municipal. Aqui “reabastecemo-nos” (o “reabastecimento” foi devidamente “documentado” e “divulgado” no facebook pela minha amiga Ana Miguel…) regressando à segunda parte da viagem. Subimos a “9 de Abril”, continuando para sul, cortando em direcção à “Henriques Nogueira”, descendo a rua do mesmo nome, contornando a câmara, subindo o alto de S. João até à “rodoviária” e, subindo a Humberto Delgado, outra zona difícil na subida e, principalmente, no trânsito. Deu para perceber o incómodo dos estacionamentos em segunda fila…

A partir da zona da “física” o percurso foi mais fácil, passando junto ao “hospital”, até à “rotunda dos cavalos”, descendo até ao “macdonald” e entrando no Parque da Várzea pela zona sul, terminando aqui este agradável passeio.

Ficou provado que é possível andar em Torres Vedras de bicicleta, sem grandes problemas. Agora é uma questão de vontade política, por um lado, e de cidadania, por outro.

Hoje em dia, o nível de desenvolvimento de um país mede-se pela forma como se consegue reduzir o trânsito particular de automóveis e não tanto, como antigamente, pelo maior quantidade de veículos per capita.










terça-feira, 23 de março de 2010

Petição contra o pagamento de portagens na "Auto-estrada do Horror"

Depois de terem destruido a Linha do Oeste, parece que agora se procura tornar a única ligação entre Torres Vedras e Lisboa, a A8, num autêntico safari, pejado de armadinhas e perigos, onde se sucedem quase diáriamente os acidentes graves.
Na sua origem aquela auto estrada já revelava grandes problemas de segurança, mas agora, com as obras, viajar nela, ainda por cima tendo em conta a falta de civismo de muitos condutores e a autêntica corrida em que se lançam o imenso número de carros de grande cilindrada que existem nesta região, circular nela, única alternativa para chegar com tempo a Lisboa, torna-se uma imensa aventura à Indiana Jones.
O pior é que continuamos a pagar o mesmo, quando, em determinadas horas do dia, é impossível andar a mais de 40 km hora, principalmente entre a Malveira e Loures.
Em boa hora o PSD de Torres Vedras lançou uma petição para pedir a suspensão do pagamento das portagens enquanto durarem as obra.
A reportagem vem hoje no Público e pode ser lida AQUI.
Quanto à petição, ela pode ser assinada AQUI .

domingo, 24 de janeiro de 2010

A8 - A "Auto-estrada da Morte"?


O jornal "Público" publicou hoje, no seu suplemento "Cidades" um interessante artigo sobre o estado da A8, a principal via que liga Torres Vedras e a região Oeste a Lisboa.
Pela pertinência desse artigo resovemos inclui-lo na nosa página.
Ainda ontem, ao regressar de Lisboa à noite e debaixo de chuva, pude comprovar mais uma vez os perigos a que essa reportagem se refere.
A visibilidade das faixas é práticamente nula, e o perigo espreita a cada "muro" protector que se aproxima do veículo:

"Os riscos da auto-estrada que colocou uma região no mapa Oeste


Bela e perigosa, a Auto-estrada 8 recebe nota negativa do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades devido a violações de normas de construção, que colocam em perigo os automobilistas. Não deixa, porém, de ser uma ligação importante para a economia e a vida de milhares de pessoas e empresas do Oeste. PorLuís Filipe Sebastião(texto) e Daniel Rocha(fotos)


"A Auto-estrada 8 (A8) aproximou o Oeste de Lisboa. Há mesmo quem a prefira como alternativa à A1 para chegar ao Porto. Mas o Observatório de Segurança de Estradas e Cidades (OSEC) avaliou as condições de perigo rodoviário que subsistem nesta ligação entre a capital e Leiria e alerta para a necessidade de serem adoptadas medidas que atenuem o risco de acidentes provocados por hidroplanagem e reduzida visibilidade em curvas mais apertadas.
"Francisco Salpico, coordenador do levantamento realizado pelo OSEC, alerta que a auto-estrada do Oeste "está entre as mais perigosas do país". Este engenheiro, responsável pelo relatório preliminar da peritagem à A8, conclui que se impõe a execução de trabalhos "que reponham as condições de segurança rodoviária", que consistam na correcção do traçado, do pavimento e das ranhuras no piso para drenar com eficácia o excesso de água. E defende que devem ser desencadeadas intervenções urgentes "para modelar a velocidade de tráfego para níveis correctos".
"Instado há mais de uma semana a fornecer dados sobre acidentes na A8, e quais as zonas de maior acumulação de sinistros, o comando-geral da GNR prometeu disponibilizar as informações. Um dia depois, o gabinete de imprensa da força policial fez saber que não podia satisfazer o pedido, encaminhando para a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Este organismo, que coordena a política do Governo em matéria de segurança rodoviária, também não respondeu. Como frisava recentemente o ex-ministro Luís Campos e Cunha, sempre que percorre a A8 e tem de pagar como se fosse uma auto-estrada, "gostaria de chamar o gerente, mas não há ninguém para responder, ninguém é responsável".

A caminho do Oeste

"O quilómetro zero da A8 nasce ao fundo da Calçada de Carriche, nos limites dos concelhos de Lisboa e de Odivelas. Os pouco mais de 132 quilómetros até Leiria estão devidamente sinalizados nos pórticos que orientam para o caminho do Oeste.
"Na travessia da várzea de Loures, logo ao quilómetro dois, o anúncio de obras impõe a limitação de circulação para 80 quilómetros por hora, com estreitamento das vias de rodagem. A entrada a partir do Eixo Norte-Sul (através do túnel do Grilo), entupida a qualquer hora do dia, despeja na faixa da A8 uma fila compacta de viaturas ao longo de umas centenas de metros até à saída para Frielas e Santo António dos Cavaleiros. De um lado da estrada, densas urbanizações encavalitam-se em altura nos montes, numa mancha contínua que se espalha desde o concelho de Odivelas. No lado oposto, impõe-se o mastodôntico Loureshopping, um dos muitos centros comerciais plantados em terrenos outrora destinados à agricultura.
"Os trabalhos em curso, a cargo da empresa Auto-estradas do Atlântico, participada pela Brisa e que detém a concessão da A8, fazem parte da empreitada de reabilitação e alargamento do lanço CRIL (Circular Regional Interior de Lisboa)-Loures, numa extensão de 6,3 quilómetros. O investimento é de 34,1 milhões de euros, deve ficar concluído até ao final do ano.
"No traçado plano e com curvas pouco acentuadas até à saída para Loures e Bucelas, a generalidade dos automobilistas circula dezenas de quilómetros acima da velocidade permitida. Isto, apesar da redução da largura das vias e do mau estado do piso. E de existirem, segundo o tal estudo do OSEC às condições de segurança na A8, diversas zonas de risco de hidroplanagem (aquaplaning), ou seja, zonas de acumulação de água no pavimento, por deficiente escoamento, o que cria condições propícias a despistes.
"Só a aproximação à praça de portagem impõe algum abrandamento. Porém, mesmo aqui, há quem teime em quase colar-se ao carro da frente nos corredores da Via Verde.

As obras de Loures

"As três vias de circulação vão escoando o tráfego até à saída para a A9 (Circular Regional Exterior de Lisboa). Na subida íngreme, muitos sinais das obras de alargamento estão tombados. Presume-se que devido ao mau tempo. Neste lanço entre Loures e a Malveira, a concessionária está a investir 35 milhões de euros no alargamento para três vias (também no sentido norte-sul, onde agora só tem duas vias) ao longo de cerca de dez quilómetros. A empreitada, que deve ficar pronta durante 2010, inclui o aumento de mais uma via para lá da área de serviço de Loures (onde actualmente passa a duas), no sentido sul-norte, até à saída para Ericeira/Mafra/Malveira. A necessidade do alargamento é ditada pelo facto de o tráfego médio diário anual entre Loures e a Malveira já ultrapassar os 35 mil veículos.
"O piso irregular em betão, em notório mau estado, será substituído por uma mistura betuminosa modificada a partir de borracha reciclada de pneus. Esta solução permite reduzir o barulho provocado pela circulação de tráfego - além de aumentar o conforto para os utilizadores e, espera-se, assegurar também melhores condições da drenagem transversal e longitudinal à auto-estrada.
"A este nível, Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal, é taxativo: "É urgente acabar rapidamente com o alargamento, porque aquilo é um perigo assim." Barbosa admite utilizar a A8 como alternativa à A1 em deslocações ao Porto - através da ligação à A17 e à A29 "fica a 500 metros da Ponte da Arrábida". Reconhece, contudo, que o traçado inicial, "como foi feito à pressa", não reúne as condições de segurança para uma auto-estrada. No troço entre Loures e Torres Vedras, nota, "há sítios onde para se fazer a 120 [quilómetros por hora] é preciso ter-se cuidado".
"Nesta zona, o estudo do OSEC, organismo não governamental composto por magistrados, técnicos e autoridades de segurança, salienta a violação das normas técnicas relativas à inclinação excessiva da via, com descidas em distâncias muito superiores ao estabelecido. Além disso, há inúmeros pontos de risco de hidroplanagem, incumprimento dos raios para as curvas verticais (lombas) o que reduz "de forma grave" as distâncias de visibilidade e de paragem. Mais problemas detectados por aquele organismo: curvas em planta muito apertadas, geradoras de elevadas acelerações centrífugas, que potenciam a perda de controlo da direcção do veículo.
"Francisco Salpico destaca um caso entre as inúmeras situações de violação: uma curva, pouco antes do quilómetro 19, com um raio de 430 metros, onde a velocidade específica (factor que define até onde estão asseguradas condições mínimas de segurança) é de apenas 97 quilómetros/hora. Este valor é muito inferior à velocidade de tráfego (que se admite ser praticada por 85 por cento dos condutores) e que ronda os 145 quilómetros por hora. Mesmo circulando à velocidade máxima permitida na auto-estrada, o automobilista corre perigo de acidente muito acima do valor limite de segurança do traçado da via.

Torres queixa-se do preço

"Um condutor atento à estrada só de relance pode contemplar a paisagem que se estende desde o cabeço vulcânico de Montachique, ainda no concelho de Loures, até para lá de Torres Vedras. Isto porque a auto-estrada serpenteante possui apenas duas vias até à saída para Sobral de Monte Agraço, o que dificulta a vida a quem queira apreciar o contraste entre as encostas bucólicas pintalgadas com moinhos em ruínas e, do lado contrário, as modernas e gigantescas hélices de ferro das torres eólicas. Mais adiante, ainda se pode aproveitar durante uns quantos quilómetros o alargamento para três vias e deixar para trás os camiões de mercadorias. Isto, se toda a faixa de rodagem não ficar ocupada com pesados a ultrapassarem outros - como acontece frequente. Em Portugal, parece ser assim: quando não é a via que complica, são os condutores que insistem em colocar em risco a sua segurança e a dos outros...
"Em Torres Vedras, que conta com duas saídas (sul e centro), a auto-estrada motiva elogios e críticas. O presidente da câmara, Carlos Miguel (PS), disse ao Cidades, através de um assessor, "que não tem nada a dizer sobre o assunto [A8]". Fica por se saber se o autarca socialista mantém a opinião, expressa num relatório elaborado pela sua própria assembleia municipal e apresentado ao executivo em Março de 2009, de que, "subtraindo questões técnicas como a má qualidade do piso, partes do traçado com curvas demasiado pronunciadas e locais com mau escoamento de águas pluviais, a A8 tem servido muitíssimo bem Torres Vedras e o Oeste".
"Com a auto-estrada, a região ficou a meia hora da distânciade Lisboa, atraiu investimento estrangeiro, traduzido nomeadamente em empreendimentos turísticos.
"O que se passa na A8 é uma vergonha, quer ao nível da qualidade do piso, quer dos preços praticados", contrapõe, em declarações ao Cidades, o vereador Paulo Bento (PSD), da oposição em Torres Vedras. Este autarca apoia-se no relatório de avaliação das portagens para salientar que se trata da "mais cara" do país.
"A comissão da assembleia municipal concluiu que o troço Malveira-Torres Vedras Sul (17,9 km/1,45 euros), comparado com o troço Loures-Malveira (11,4 km/0,75 euros), "tem um valor de portagem substancialmente mais caro". A diferença resulta de contratos de concessão assinados em épocas distintas. Essa foi, aliás, a explicação avançada pelo presidente da Auto-estradas do Atlântico, José Costa Braga. Num ofício remetido à câmara, o responsável sustenta que "os sublanços com mais anos de serviço têm uma tarifa (euro/km) mais baixa, devido a coeficientes de actualização inferiores". O presidente da câmara recorreu da diferença de preços para a associação de defesa do consumidor Deco, mas em Torres desconhece-se o resultado dessa diligência.
"O recente temporal deixou marcas nas áreas de serviço de Torres Vedras. Os ventos dobraram os grossos ferros de uma protecção do parque de estacionamento (sentido norte) e deixaram meio tombada a placa informativa do acesso na direcção sul. A via nesta zona, para o OSCE, apresenta sobretudo deficientes condições de visibilidade, devido a curvas verticais e algumas planas e riscos de hidroplanagem, em diferentes pontos nos dois sentidos. O troço entre a saída para o Bombarral e Óbidos padece dos mesmos problemas. Esta última vila, cujo casario muralhado se avista da auto-estrada, tem sabido tirar partido desta ligação. O presidente da câmara, Telmo Faria (PSD), já lhe chamou mesmo "a coluna vertebral do Oeste".

A sorte das Caldas

"A saída da zona industrial é perigosa." Quem o admite é o presidente da Câmara das Caldas da Rainha, Fernando Costa (PSD), esclarecendo, por seu lado, que se trata de um acesso à A8 que foi projectado inicialmente para servir uma variante à cidade e que acabou por ser transformado em auto-estrada. O social-democrata não poupa nos elogios pelo que a via representa para a região. Os motivos para sorrir também se devem ao facto de os oito quilómetros (sem portagem), com quatro acessos à volta das Caldas, terem retirado "cerca de 60 por cento do trânsito do centro da cidade". E sublinha que a auto-estrada, além de aproximar o concelho de Lisboa e de Santarém, constitui uma alternativa a ter em conta na ligação ao Porto.
"O perfil a partir das Caldas da Rainha torna-se menos acidentado, para benefício do conforto.
"Jorge Barroso, presidente da Câmara da Nazaré, independente eleito pelo PSD, também aprova a infra-estrutura rodoviária, apesar de a vila piscatória não ficar logo à beira da A8. "As auto-estradas são boas para trazer, mas também levam mais facilmente", salienta o autarca numa alusão à necessidade de os municípios saberem tirar partido do dinamismo económico proporcionado pela melhoria das acessibilidades. "Não podemos dizer que não queremos pagar portagens e depois ter a estrada alcatifada. A A8 de hoje não é igual à de anteontem", afirma Jorge Barroso. Tal não o impede de lamentar que os valores praticados no troço após as Caldas da Rainha e a ligação ao seu município sejam dos "mais caros do país". Por isso, defende que, se "o preço fosse igual para todos, o pagamento seria mais justo". Em termos de segurança, o autarca destaca que "o traçado é bastante melhor", apesar dos riscos acrescidos de hidroplanagem na zona de Alfeizerão. Problema que também é assinalado pelo estudo do OSEC.
"A ligação à Marinha Grande é garantida através da A17, a via que depois permite continuar pela A29 até ao Porto. O socialista Raul Castro, presidente da Câmara de Leiria, onde termina a A8, realça que a via proporciona um "acesso mais rápido ao litoral do Oeste". O autarca da cidade do Lis salienta que esta acessibilidade tem sido um dos principais motores para a produtividade industrial da cidade, uma vez que "facilita muito a vida das empresas". Em termos de segurança, Raul Castro chama a atenção para "alguns pontos de maior acumulação de água", que aumentam o risco de acidentes provocados por aquaplaning, mas garante que "a própria concessionária tem mostrado preocupação em melhorar o pavimento e resolver estes problemas".

Observatório quer rever normas

Concessionária garante que o alargamento vai tornar a A8 "mais amigável"

"A segurança rodoviária, para Nuno Salpico, presidente do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades, "é sobretudo um problema de engenharia de transportes". O responsável deste organismo não governamental, criado em 2004, salienta sobre a A8 que, "na construção rodoviária em Portugal, com demasiada frequência a segurança é escandalosamente descurada".
"O relatório do OSEC defende a revisão da Norma de Traçado portuguesa, como aconselha o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de forma a estimar correctamente a velocidade de tráfego, para evitar que se permita, "ilicitamente, a construção de estradas mais baratas à custa da insegurança". Nuno Salpico (na foto) sublinha que o levantamento efectuado na A8 detectou "elevados factores de risco proibido a que se sujeitam os condutores", perante uma "gama de violações técnicas muito graves" do traçado. As curvas de raio reduzido (dos 430 aos 600 metros), que deviam ultrapassar os mil metros, associadas à perda de atrito com pavimento molhado, "potenciam o despiste", para além de a introdução de diferenças de velocidade aumentarem o risco de colisões - o que acontece também na violação das normas para as lombas. O OSEC recomenda, por isso, a correcção dos defeitos estruturais da via e "medidas de redução da velocidade de tráfego nos locais mais perigosos" onde não seja possível avançar já com obras.
"A Auto-estradas do Atlântico explicou que a A8 foi construída em diversas épocas e que todos os projectos "tiveram de ser previamente aprovados pelas entidades fiscalizadoras". A empresa garante que o troço inicial, Loures-Torres Vedras, "cumpre todas as normas aplicáveis em termos de perfil exigido para as auto-estradas". O traçado resulta da orografia e as obras em curso entre Loures e a Venda do Pinheiro "irão nalguns casos corrigir o eixo da auto-estrada". No entanto, segundo a empresa, "essas correcções serão praticamente imperceptíveis aos condutores" e com o alargamento, apesar de condicionado pelo atravessamento de zonas urbanas, o traçado "parecerá mais amigável". Os sublanços com maior número de utilizadores situam-se na proximidade de Lisboa". L.F.S.

domingo, 25 de outubro de 2009

Há 140 anos o Governo concedia autorização para instalar o Larmanjat




Passando hoje 140 sobre a concessão ao Duque de Saldanha para a instalação em Portugal do sistema Larmanjata, aproveitamos o pretexto para recordar aqui o primeiro projecto de caminho-de-ferro concretizado nesta região:


A primeira tentativa de introduzir de modernizar os transportes nesta região teve lugar em 1873, com a inauguração da ligação entre Torres Vedras e Lisboa em caminho de ferro monocarril, o chamado "Larmanjat".
Este tipo de transporte foi inventado pelo engenheiro francês Joseph Larmanjat, aparecendo pela primeira vez nas estradas francesas em 1868 e a cujas experiências assistiu o Duque de Saldanha que resolveu pedir o estabelecimento desse sistema de transporte para ligar Lisboa a Torres Vedras, com posterior ligação a Caldas da Rainha e Leiria, pedido autorizado por diploma governamental de 25 de Outubro de 1869, publicado em Diário do Governo de 29 desse mês (CASTRO, António Pais de Sande e, “O Caminho de Ferro Larmanjat”, in Arqueologia e História, 8ª série, volume III, Lisboa 1955, pp.77 a 97). Ironizava Angelina Vidal que trouxe “para Lisboa esta prenda o duque de Saldanha, que, não podendo já fazer bernardas, arranjou assim um meio indirecto para partir cabeças” (VIDAL, Angelina, Lisboa Antiga e Lisboa Moderna, 2ª edição, Vega, Lisboa (1ª ed. em 1900), p.290).
O "Larmanjat" foi visto como um caminho-de-ferro económico "pois circularia pelas estradas, não necessitando, por consequência, de caminho próprio. Tratava-se dum caminho de ferro monocarril, sendo a via constituída por carril central, ladeado por duas passadeiras de madeira, estando todo o conjunto pregado a travessas por cavilhas de ferro. As locomotivas e as carruagens tinham rodas centrais, que rodavam pelo carril, e rodas laterais, que rodavam pelas passadeiras" (CALLIXTO, Vasco, "O Lármanjat e a sua atribulada existência", in Boletim da C.P., nº 145, Janeiro de 1964, pp. 18-20, p.18).
Em 13 de Março de 1870 foi inaugurada em Portugal a primeira linha deste tipo, ligando Lisboa ao Lumiar. A 27 de Fevereiro 1872 a sua exploração foi concedida à inglesa "Companhia lisbonense a vapor por trilhos, limitada", que, aumentando o seu capital, construiu duas novas linhas, uma para Sintra e outra para Torres Vedras, sendo esta ultima inaugurada a 4 de Setembro de 1873.
Esta viagem iniciou-se às 6 horas e 25 minutos, num comboio formado por 4 carruagens de 1ª classe que chegou a Torres Vedras às 10 horas e 45 minutos, “tendo efectuado uma longa paragem em Freixofeira, onde um dos mais abastados lavradores da região ofereceu uma lauta merenda a todos os passageiros” (RODRIGUES, António (com Adão de CARVALHO), “Os primórdios dos Caminhos de Ferro em Portugal e o 1º Caminho de Ferro em Torres Vedras – O “Larmanjat”, in Toitorres Notícias, Janeiro/Fevereiro de 1996, pp.16 a 21, p. 20).
O serviço regular de passageiros nesta linha teve lugar dois dias depois, a 6 de Setembro.
A linha de Torres tinha as seguintes estações: Lisboa (nas portas do Rego (VIDAL, Angelina, ob. cit. p.290), Campo Pequeno, Campo Grande, Lumiar, Nova Sintra, Santo Adrião, Loures, Pinheiro de Loures, Lousa, Venda do Pinheiro, Malveira, Vila Franca do Rosário, Barras, Freixofeira, Turcifal, e Torres Vedras, localizando-se a estação terminal desta vila no pátio por detrás da “taberna Venceslau” .
A viagem de “Lisboa a Torres custava 9 tostões em primeira e 7 em terceira; a havia somente um comboio em cada sentido” (CASTRO, António Pais de Sande e, ob.cit., p.96).
A primeira viagem neste percurso demorou 4 horas e 20 minutos, reduzindo imenso a distância entre Lisboa e Torres Vedras, que em diligência rondava as 6 -7 horas.
O administrador do concelho de Torres Vedras presenciou, menos de 15 dias após a inauguração deste transporte, dois incidentes, o primeiro ocorrido no dia 16 de Setembro de 1873, quando dois machos que puxavam uma carroça com vinho, assustando-se com a passagem do Larmanjat, antes de Vila Franca do Rosário, arrastaram a carroça e o carroceiro por uma ribanceira. Os donos da carroça aguardaram pelo comboio na estação daquela localidade juntamente com muito povo, não deixando o comboio seguir, ameaçando de morte o maquinista e o fogueiro e lançando pedras contra as carruagens.
Valeu-lhes a protecção do referido administrador, conseguindo acalmar os ânimos da multidão enfurecida, prometendo interceder perante a empresa para indemnizar o carroceiro pelos prejuízos.
Chegados a Torres Vedras, o maquinista só aceitou fazer a viagem de regresso a Lisboa, programada para o dia seguinte, se fosse acompanhado pelo administrador, o que este acedeu, “attendendo ao mau effeito que produsiria a falta de um comboio com que toda a gente contava”.
Contudo, nessa viagem iniciada por volta das 6 da manhã do dia 17 de Setembro, um novo incidente marcaria a viagem, quando, passando perto da Quinta do Calvel, o comboio descarrilou, caindo “todas as carruagens em um barranco”, ferindo ligeiramente três passageiros, entre os quais o próprio administrador do concelho, tendo-se temido que esse descarrilamento tivesse sido provocado, devido ao incidente do dia anterior, por sabotagem. Contudo, o mesmo administrador desmentiu tal hipótese, atribuindo este acidente ao facto de o maquinista, pouco experiente, “para ganhar o tempo que tinha perdido com uma subida”, ter levado “o comboio a grande velocidade para uma grande descida aonde há uma curva. A machina, apezar da sua grande velocidade poude descer a curva, a por isso não descarrilou, outro tanto (...) não aconteceu às carruagens que, não podendo operar o mesmo movimento” se precipitaram no aterro. Por essa razão só no dia seguinte se realizou a viagem de regresso a Lisboa, não se registando, como se temia, qualquer incidente à passagem por Villa Franca do Rosário (Correspondência expedida pelo administrador do concelho de Torres Vedras para o Governador Civil de Lisboa (Livros de registos e copiadores), Livro nº 2, sem data [19 de Setembro de 1873], in Arquivo Histórico de Torres Vedras, Caixa 12 (1868 a 1883) ).
Muitas vezes, quando o percurso era mais íngreme, os passageiros tinham de empurrar as carruagens para ajudar o "Larmanjat" a subir a ladeira (IVO, Carlos com José Brito Paulo, "Quando o Comboio chegou a Sintra", in História, nº 135, Dezembro de 1990, pp.68 a 75, p.71).
Essas situações, assim como os sucessivos descarrilamentos e avarias, provocaram o descrédito desse transporte, pelo que os passageiros preferiam continuar a viajar em diligência, que se revelava mais segura e mesmo mais rápida, situação descrita, de forma pitoresca, em notícia evocativa daquele transporte, transcrita por um jornal torriense do princípio do século XX:
“(...) Quem, em Torres, se mettia na diligencia, puxada a tres muares bem lustrosas, guiadas pelo Zé das Meninas, tinha a certeza de que, volvidas cinco horas, se apeava mais ou menos derreado á porta do Neves do Rocio.
“A gente sahia d’aquella caixa muito tropego, com um pé dormente e uma caimbra levada da bréca; mas constava, deliciosamente, a integridade do seu systema osteologico e esta venturosa coisa de se Ter chegado a tempo.
“Quem se mettia no Larmanjat não gosava d’estas vantagens. Em primeiro logar tanto se podia chegar, ao Arco do Cego, quatro horas depois da sahida de Torres, como oito, como doze, como ... não chegar, ao menos de Larmanjat.
“E isto porque uma rampa, uma curva, um modesto calhau o fazia descarrilar. Parte do trajecto, mesmo, era feito sobre a porção do leito da estrada que lhe era defezo. A machina, por alguns metros, riscava no macadam como se fosse um arado em terras de cultura. Depois estacava.
“As portas das carruagens abriam-se e sahiam poeirentos, cabisbaixos, rogando pragas, os corajosos passageiros que se tinham abalançado áquella aventura. O comboio já lançára desenfreadamente o convencionalismo dos tres apitos que, pelas quebradas da serra se repercutiam a pedir auxilio aos trabalhadores do campo. Mas emquanto elles não chegavam?!
“ O machinista, o fogueiro, o revisor poderiam lá nunca, elles sós, pôr aquelle monstro no seu logar! E então os passageiros, maldizendo a sua sorte e o duque de Saldanha, despiam as suas quinzenas, os seus fracks e um por outro a sua sobrecasaca (porque vinham tratar de eleições com o governador civil) e todos se arvoravam em troço de operarios, de assalariados d’essa Companhia que lhes tinha cobrado bilhete, que se esforçava por quebrar-lhes as costellas e tratavam de encarrilar, com a pressa possivel, aquella bugiganga.
“É justo dizer-se que um certo amor proprio, ou antes, uma pungente vergonha lhes insuflava alentos. Era o espectro escarninho, a insolente casquinada da diligencia obsoleta mas triumphante, demais a mais munida de guiseiras alacres e trocistas que os esforçava n’aquelle mister de retirar comboios manhosos da via publica. Ella, a diligencia, ia passar, guiada pelo Zé das Meninas, o mão-de-redea eximio, que se haveria de rir a bom rir depois de ter sahido do mesmo ponto, seis horas depois, de mais a mais bem jantado na Venda do Pinheiro ... E depois de os vêr, a elles – os do Larmanjat- a trabalharem como servos de gleba, elle continuaria em seu caminho a dizer facecias aos passageiros da imperial e a lançar chuvas ás lavadeiras de Lousa (...)” (ARANTES, Hemiterio, “O Larmanjat”, transcrito do “Popular” em A Vinha de Torres Vedras, nº 667, 1 de Novembro de 1906)..
Também uma escritora coeva, Angelina Vidal, afirmava, àcerca do Larmanjat, que era raro “o dia em que não acontecia ficar gente ou gado atropelado. Os veículos saíam da linha, o povo queixava-se por essas aldeias fora e a empresa não lucrava vintém. O certo é que os carros das carreiras antigas, um momento abandonados pelo público amador das novidades, voltaram a ser utilizados pelos passageiros que desejavam chegar inteirinhos ao seu destino” (VIDAL, Angelina, ob. cit., p.291).
Com tantas contrariedades a Companhia responsável pela exploração deste transporte acabou por abrir falência, terminando a sua curta vida em 1877.
Em Torres Vedras foi logo em 1875 que cessou o serviço daquele meio de transporte, como se comprova pela seguinte passagem da acta camarária da sessão extraordinária de 24 de Maio de 1875:
"N'esta sessão deliberou a Camara derigir uma representação ao Governo de Sua Majestade, pedindo-lhe promptas e urgentes providencias para que sejam reparados os estragos causados na estrada de Lisboa a esta vila, pelo caminho de ferro Larmanjat, mandando-se levantar os carris e longrinas "(vigas sobre as quais se pregam as travessas dos carris)"que nella assentam e que, visto haver cessado o serviço d'aquelle caminho, de nada servem agora se não para embaraçarem e difficultarem o transito, e para apressarem a completa ruina da mesma estrada(...)" (Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras, Livro nº31,sessão extraordinária de 24 de Maio de 1875, f. 88 verso).
A verdadeira "revolução dos transportes" do século XIX em Torres Vedras deu-se apenas em 1886, com o caminho-de-ferro de duplo carril.

(Garvuras Eduardo Frutuoso Gaio, Apontamentos da História dos Caminhos de Ferro em Portugal.; mapaVAZ, Fonseca, Caminho de Ferro em Portugal- História e Técnica de exploração, Lisboa s/d)

Há 140 anos o Governo autorizava o Larmanjat




A Linha do Larmanjat.


Lista dos preços e das estações.


A casa, por detrás do "Venceslau", onde se situava a estação de T. Vedras do Larmanjat.

A porta, por detrás da antiga taberna do "venceslau", da garagem onde ficava o Larmanjat.

4 GRAVURAS e UMA FOTOGRAFIA,  ONDE APARECE O LARMANJAT:






(fotografia)





(ver bibliografia na texto de cima)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras

Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 6 de Janeiro de 1898.
Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras. Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs. conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"[1].
Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros[2]:

(Nº de ordem de matricula; Nº de Circulação; Ano, Mês e Dia do Registo; Nome do Proprietário e residência)
1 1660 1918 Abril 18 D. Vasco Martins Sequeira Q.ta Juncal
2 2393 1918 Julho 5 Vasco de Moura Borges Q.ta Paio Correia
3 943 1919 Julho 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
4 1390 1919 Julho 19 Gonzaga Limitada Q.ta Charneca
5 --- 1919 Agos. 2 José Augusto Lopes & C.ª Torres Vedras
6 2270 1919 Sete. 2 José Duarte Capote Torres Vedras
7 2705 1919 Out. 10 José Augusto Lopes Jr. Torres Vedras
8 --- 1919 Dez. 26 Joaquim C. Rodrigues Torres Vedras
9 2811 1920 Jan. 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
10 --- 1920 Maio 22 António ...? Oliveira Torres Vedras
11 4076 1920 Junho 15 António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
12 4258 1920 Agos. 2 Alfredo Oliveira Luso Lisboa
13 4230 1920 Agos. 16 João Henriques dos Santos Torres Vedras - camioneta
14 4614 1920 Set. 2 Faustino Policarpo Timóteo Dois Portos -camioneta
15 4473 1920 Out. 2 Manuel Augusto Baptista Torres Vedras
16 2981 1920 Out. 14 José Botto Pimentel Carv.º Q.ta do Paço
17 2907 1920 Nov. 16 José Antunes Martins Ramalhal
18 3382 1921 Abril 13 Dr.Pereira Branco Ribaldeira
19 218 1922 Maio 25 António Hipólito Torres Vedras
20 --- 1922 Agos. 4 Amadeu dos Santos Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas[3].
Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito também nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.
Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.
Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara, annualmente três por cento da receita bruta.
"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria sic , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)"[4].
A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)"[5].
Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.
Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.
O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.
"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.
"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.
"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)"[6].
Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.
Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.
A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite"[7].Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.
Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".
O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.
Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas que lhes eram enviadas pelos familiares.
Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa.
A empresa que fundou continua hoje ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.


[1] In Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902.
[2] In Arquivo Municipal de Torres Vedras (AMTV).
[3] In AMTV.
[4] In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV.
[5] In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915.
[6] In Badaladas [em data desconhecida].
[7] In O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras


Uma das primeiras "camionetas" de João Henriques dos Santos (anos 20)

Camioneta de Ruy da Costa Lopes


Uma "paragem" frente ao Convento da Graça



Uma camioneta de passageiros em Stª Cruz - início do século XX

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Torres Vedras no Tempo dos Romanos - mapa das vias romanas (Gil Mantas)

(clicar na imagem para a ver em tamanho maior)

Torres Vedras no Tempo dos Romanos - 4- T.Vedras no contexto da rede viária romana

Durante o tempo de Trajano (98 a 117) investiu-se na construção e renovação da rede viária no actual território português, acção prosseguida no reinado de Adriano (117 a 136).
Na região de Torres Vedras, as vias romanas que a atravessaram teriam aproveitado caminhos pré-romanos, do tempo dos Túrdulos :
“A faixa atlântica ocupada pelos Túrdulos, entre o Tejo e o Douro, contava, pelos finais da Idade do Ferro, com caminhos que se estendiam ao longo do litoral, entre o mar e o Maciço Antigo, unindo as grandes povoações da região; outros caminhos, vindos de alguns pontos privilegiados de uma costa difícil seguiam, frequentemente utilizando os vales dos cursos de água que correm para o litoral, em direcção às terras do interior. As estradas romanas incorporaram nos seus traçados mais ou menos rectificados, troços importantes dos caminhos existentes anteriormente” (MANTAS, 1998, comunicação inédita gravada durante o encontro de história local de T. Vedras, com base em apontamentos pessoais).
A estrada que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), era uma das mais importantes do país. A primeira paragem importante, dos que faziam este percurso partindo de Lisboa, tinha lugar em Ierabriga, em Paredes, perto da actual Alenquer. Daqui seguia uma via secundária em direcção à zona de Torres Vedras.
“Torres Vedras (...) estaria ligada a Ierabriga (...) por estrada de que também não há vestígios reconhecidos. A densidade de achados entre as duas áreas pressupõe, todavia, a existência de uma via. Talvez nas vizinhanças de Torres Vedras se deva supor um vicus, dele poderiam partir duas estradas: uma para sul, na direcção de Sintra; outra para norte, no sentido de Eburobrittium” (ALARCÃO, 1988, p.97).
Gil Mantas identifica ainda uma terceira via, que continuaria a ligação de Eburobrittium com Olisipo que, passando por Torres Vedras e pelo Penedo, bifurcava em Dois Portos da via para Ierabriga, seguia em direcção ao sul, pela Feliteira, Casal da Estrada, em direcção ao Milharado, seguindo o traçado da actual EN 374, para o vale de S. Gião, subindo depois, passando a poente do Cabeço de Montachique até S. Julião do Tojal, ligando-se então à via Olisipo – Scallabis.
Segundo este mesmo historiador, a via de Dois Portos para Ierabriga, correspondia, em termos gerais, ao traçado da EN 248.
Alíás, o topónimo Dois Portos parece derivar o facto de aí se dar a bifurcação dessas duas vias.
Da estrada Torres Vedras – Ierabriga “saía um deverticulum sugerido pela distribuição dos vestígios romanos e que da Carnota seguia em direcção à ribeira de Alenquer, flectindo depois para poente, por Merceana, para a Carvoeira, atingindo as proximidades de Torres Vedras junto á Quinta da Macheia, através de uma zona onde não faltam testemunhos da presença romana” (MANTAS, 1998).
Desta, junto a Matacães, seguia outra via em direcção ao Maxial, a qual se ligava por um ramal ao Ramalhal. Seguia pela margem esquerda do Alcabrichel, em direcção nordeste, paralela à vertente de Montejunto, por Aldeia Grande e Vilar, seguindo aproximadamente o actual percurso da EN 115-2.
Quanto à estrada ligando Torres Vedras a Sintra, seguia a margem direita do Sizandro, passando junto a S. Gião de Entre Vinhas, em direcção à Coutada, atravessava o rio junto a S. Pedro da Cadeira, dirigindo-se para sul, pelo Casal da Estrada, passando a poente de Mafra.
“Seriam maioritariamente estradas de terra com um ou outro revestimento de pedra em pontos críticos do percurso, hoje muito difíceis de identificar no terreno, tanto mais que a colocação de milários parece ter sido excepcional nesta região e a construção de pontes de pedra, se existiu, não deixou vestígios” (MANTAS, 1998).