Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
"Sete mil estão contra aterro em Torres Vedras
"Um grupo de cidadãos de Torres Vedras entrega hoje na câmara local uma petição com sete mil assinaturas contra a instalação de um aterro de resíduos industriais não perigosos na freguesia de A-dos-Cunhados.
"No texto que acompanha o abaixo- -assinado, os subscritores alertam que existem habitações a 500 metros do local para onde está previsto o aterro.
"Os peticionários lembram ainda que a infra-estrutura vai situar-se sobrea «falha sísmica Torres Vedras/Montejunto» e «sobre o sistema aquífero de Torres Vedras»".
(Fonte “DESTAK”, 12 de Setembro de 2011)
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Venerando António Aspra de Matos
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
A "Escola" de Torres Vedras - reflexão sobre a historiografia local.
ESTUDOS VEDROGRÁFICOS: A “Escola de Torres Vedras”.
Existe uma longa tradição de estudos sobre a sua história e o seu património, que remonta à primeira tentativa de escrever uma primeira monografia ainda no século XVIII, um estudo e recolha de notícias da autoria do capitão Luiz Botto Pimentel Corte Real, datado de 1729, “Livro de Notícias Várias…”, que infelizmente não chegou a conhecer a luz do dia, mas continua preservado no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
A primeira obra impressa que versa a história local, embora num tema muito específico, é uma “História do [convento] do Varatojo”, da autoria de Frei Manuel Maria Santíssima, editada em 1799.
Contudo, devemos balizar o primeiro período historiográfico torriense ente monografia de Madeira Torres do início do século XIX e a de Júlio Vieira, do início do século XX e recentemente reeditada.
O padre Madeira Torres, que foi deputado da primeira constituinte, bom conhecedor dos arquivos paroquiais e municipais locais, publicou dois artigos, nas “Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa”, sobre Torres Vedras, um primeiro, em 1819, de carácter histórico, e um segundo, em 1835, de carácter económico, justamente considerados o “actos fundadores” da historiografia torriense .
A meio do século XIX dois “notáveis” torrienses, homens activos na vida política e municipal durante a afirmação do liberalismo, José António da Gama Leal e José Eduardo César de Vasconcelos, pegaram nos artigos de Madeira Torres e, acrescentando-lhes um conjunto de valiosíssimas notas de rodapé, que tiveram como base, principalmente, o ainda hoje valiosíssimo arquivo municipal, ao qual tiveram acesso por causa das suas funções municipais, assim como a recolha na tradição oral e à memória da própria vivência pessoal, e editaram o primeiro livro de História Torriense, tendo como base a parte histórica dos artigos de Madeira Torres, intitulado “Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras – parte histórica”, publicado em 1862, e que passou à história como “a monografia de Madeira Torres”.
Os mesmos anotadores prepararam a edição de um segundo volume, com a parte económica do estudo Madeira Torres, com as mesmas valiosíssimas anotações, mas nunca a conseguiram editar. Felizmente os originais dessa segunda parte da obra de Madeira Torres, devidamente organizados em vários cadernos, prontos para edição, existem no Arquivo Municipal de Torres Vedras e, segundo nos constou, serão em breve editados.
Há quem diga que a quantidade e a qualidade de informação que os anotadores de Madeira Torres acrescentaram aos dois textos deste, são muito mais valiosas e interessantes do que os originais de Madeira Torres.
A Monografia de Madeira Torres, anotada por aqueles dois torrienses, conheceu uma edição fac-similada em 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.
Ainda no século XIX é de registar outra obra, de temática muito específica, a “Descripção do Real Asylo de Inválidos Militares de Runa”, da autoria de Souza Escrivanis e editada em 1882.
Não nos podemos esquecer das muitas memórias editadas por essa Europa fora, em especial na Grã-Bretanha, versando a passagem pela região de Torres Vedras, entre 1807 e 1810, por ocasião das Guerras Peninsulares, de militares de todo o “mundo” e de várias patentes, muitas delas reveladas nos últimos anos, por ocasião do bicentenário desses acontecimentos, nos quais esta região desempenhou um papel importante e fundamental.
À precocidade no interesse pela história local torriense, para além da existência e divulgação daquelas obra, não terá sido estranho o facto de, desde muito cedo, a partir de 1885, ter existido uma imprensa local regular, contando muitas vezes com mais do que um título semanal, situação que se prolongou até ao princípio dos anos 30 do século XX, onde, desde sempre, se revelou interesse em divulgar todo o tipo de documentos e ensaios sobre a histórias local e o seu património.
Aliás, esses mesmos jornais são hoje uma valiosíssima fonte para a história local contemporânea.
Saiu exactamente do jornalismo de divulgação a segunda monografia marcante sobre a história e o património de Torres Vedras, a obra de Júlio Vieira de 1926, e reeditada este ano, “Torres Vedras Antiga e Moderna”.
Com este obra fechava-se o primeiro ciclo, que consolidou o interesse e a divulgação da história torriense.
Entre os anos 20 e 60 do século passado poucas inovações se podem registar ao estilo, metodologia e informações reveladas naquelas duas obras.
Não devem contudo ser desprezados algumas iniciativas dispersas e pontuais de interesse pela história local, através da publicação de vários ensaios na imprensa local, ou em separatas ou folhetos, da autoria de um Rafael Salinas Calados (com destaque para o seu estudo sobre a Misericórdia de Torres Vedras, editado em 1936), de um Rogério de Figueiroa Rêgo, este nos domínios da genealogia, e da afirmação de uma historiografia regionalista e elitista, mas onde se revela um especial cuidado no tratamento e divulgação de fontes, principalmente sobre a época moderna e o início do século XIX, afirmando tardiamente a metodologia positivista em termos de história local. A sua obra “Alguns Sumários das Notas de Vários Tabeliães da Vila de Torres Vedras nos séculos XVI e XVIII”, editada em 1970, é ainda hoje uma importante obra de referência para o estudo do Antigo Regime.
Ao longo da primeira metade do século XX, com cultores que continuaram nas décadas seguintes, muitos foram aqueles que revelaram curiosidade pela História local, recorrendo a um certo “coleccionismo” de factos e documentos e à recolha dispersa de memórias e acontecimentos, destacando-se neste caso um Gabriel Pereira, dedicando um interessante capítulo da sua obra “Pelos Subúrbios e Vizinhanças de Lisboa” , editada em 1910, à história e património torrienses, um Artur da Silva Lino, um Pedro Garcia Anacleto, um França Borges ou, mais recentemente, um Adão de Carvalho.
Algumas publicações revelaram-se um importante centro de divulgação do publicismo da história torriense, como as edições especiais da revista “Hora” nos anos 30 e 50, ou o Boletim da junta Distrital da Estremadura que se editou entre os anos 40 e 80 do século passado.
Não nos podemos esquecer, entretanto, do grande desenvolvimento e da grande ruptura cronológica que representou, sobre o conhecimento do passado local, o elaborado trabalho arqueológico de Leonel Trindade e Aurélio Ricardo Belo.
Ao primeiro deveu-se a importante descoberta do Castro do Zambujal e ao segundo a descoberta do povoado eneolítico do Penedo, nos anos 30. Essas descobertas atraíram o interesse do prestigiado Instituto Arqueológico Alemão, que ainda hoje mantém uma laboriosa parceria com as autoridades locais em várias campanhas arqueológicas que ainda hoje continuam, bem como na publicação de uma vasta bibliografia, muito dela na língua alemã, sobre a pré-história da região de Torres Vedras.
A fundação do Museu Municipal em 1929 conheceu então uma grande projecção com as descobertas arqueológicas daqueles dois torrienses.
Recorde-se que a primeira grande descoberta arqueológica em Torres Vedras tinha acontecido em 1909, com a descoberta do Tholos do Barro pelo frade jesuíta Lapierre.
Com o aparecimento do jornal “Badaladas” em 1948, o interesse pela historia e pelo património locais conhecerem um novo fôlego, habituando-se aquele jornal, que se tornou semanário no início da década de 60, a acolher nas suas páginas trabalhos de investigação e divulgação, alguns de grande fôlego e que não teriam grandes possibilidades de conhecer a luz do dia se não fosse o interesse que o padre Joaquim Maria de Sousa , fundador desse jornal, sempre demonstrou pela história local.
Quem quiser fazer história local sem consultar muitos desses ensaios publicados nas páginas desse semanário não está a fazer um trabalho completo, científico e sério.
Para além de podermos acompanhar nas suas páginas o trabalho arqueológico de um Leonel Trindade, aí foram publicados vários artigos valiosos para a história local, como por exemplo os estudos de Aurélio Ricardo Belo sobre os vestígios romanos no concelho.
A partir da década de 60 um outro período da história torriense vai conhecer um significativo desenvolvimento, a Idade Média. O interesse por esse período, que leva à publicação de alguns trabalhos de âmbito universitário, está relacionado com a vasta documentação sobre este concelho existente no Arquivo da Torre do Tombo, com destaque para uma completa inquirição de 1309 que abrange, detalhadamente, toda a área do concelho de Torres Vedras na Idade Média. Destacam-se os estudos de H.B. Johnson em 1970, um historiador colaborador dos “Annales”, os trabalhos do padre franciscano Félix Lopes na “Lusitânia Sacra”, nos anos 60 e 70, a tese de Maria Julieta de Oliveira em 1970 e, mais recentemente, o trabalho de Ana Maria Rodrigues, “Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média”, editado em 1995.
Importante para o interesse por essa época foi igualmente a recolha de J. Cordeiro de Sousa, feita nos anos 50, e editada em 1957, de “Fontes Medievais de História Toreana”.
Ainda nos finais da década de 60, início da de 70, não podemos esquecer outras teses universitárias, como a de Lígia Maria Gouveia Barreto sobre Torres Vedras no século XVIII, com base na análise dos livros de décimas, ou a tese de Teresa Barata Salgueiro sobre a urbanização de Torres Vedras.
Mas foi, quanto a nós, uma outra tese, abordando a época medieval, que, em termos locais, representou uma ruptura com a historiografia local tradicional, a tese de licenciatura em História do actual Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, apresentada em 1974, “Torres Vedras no 1º Quartel do século XIV”.
Por coincidência esse foi o ano da revolução democrática do 25 de Abril, que muito contribui para uma nova abordagem da história local e para o aparecimento do espírito daquilo que, em artigo recente, Joaquim Moedas Duarte designou como “Escola De Torres Vedras”.
De facto, o que assistimos até essa data, foi um trabalho, sem dúvida importante e laborioso, mas quase sempre individual e disperso.
Quanto a nós houve um conjunto de condições, a partir daquela data, que permitiram o desenvolvimento de uma maior colaboração e qualificação do trabalho de investigação e divulgação historiográficas:
- a afirmação do ensino secundário, inicialmente em duas escolas locais, o antigo Liceu e a antiga Escola Técnica, tendo por base uma renovação historiográfica dos programas de história e a chegada de uma geração mais jovem e metodologicamente inovadora de professores, valorizando a investigação, a história ao vivo e a história local;
- a constituição de uma Associação de Defesa do Património, fundada em 1979, incentivando o estudo, a divulgação e a edição de temáticas relacionadas com a história e o património locais;
- uma crescente afirmação do poder local, levando à edição de vários estudos sobre a História Local, destacando-se o papel relevante da revista “Torres Cultural”.
Tudo isto contribuiu para a afirmação de um espírito de “escola”, já que existia um autêntico sistema local de “vasos comunicantes” entre aquelas instituições.
Estavam criadas condições para a afirmação consciente desse espírito.
O primeiro grande sinal foi dado com a obra colectiva “Torres Vedras – Passado e Presente”, editada em 1996.
Seguiu-se a criação oficial do Arquivo Histórico de Torres Vedras nos anos 90, sob a direcção de Carlos Guardado Silva.
O principal resultado desse espírito de escola está na realização, a partir de 2000, dos Encontros anuais de História, “Turres Veteras”, numa parceria com o Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Essa colaboração tem contribuído para um crescente interesse do meio universitário pelo estudo da História local, que tem resultado também na colecção “Linhas de Torres”, responsável por 13 títulos, editados desde 1999. Uma outra parceria recente com uma editora muito ligada à edição de temáticas de História, a Colibri, tem contribuído para projectar a “escola de Torres Vedras” e para o desenvolvimento da “vedrografia” (termo por nós inventado para definir a historiografia de temática torriense) .
Esperamos com este texto motivar o interesse e a discussão sobre este tema.
Uma nota final para referir que este texto foi escrito de memória, recorrendo apenas a uma ou outra consulta para confirmar datas, nome ou títulos, pelo que poderá registar algumas lacunas.
Deve por isso ser lido como um esboço, sujeito a correcções e críticas.
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Venerando António Aspra de Matos
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011
PEV interroga Governo sobre poluição no Ameal
O Deputado José Luís Ferreira, do
Grupo Parlamentar “Os Verdes”, entregou na Assembleia da República uma
pergunta em que questiona o Governo, através do Ministério da
Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, sobre descargas
poluentes em linhas de água, em Ameal – Torres Vedras.
PERGUNTA:
As linhas de água junto à Quinta Vale do Pato, em Ameal, uma localidade no Concelho de Torres Vedras, têm sido alvo de sucessivas descargas ilegais que provocam a sua poluição.
Como consequência destas descargas tem-se verificado um cheiro
nauseabundo, a água baça, a existência de ratos e de mosquitos, podendo
esta situação constituir um grave risco para a saúde pública, o que tem
provocado um sentimento de receio e preocupação por parte dos
trabalhadores e moradores na zona afectada.PERGUNTA:
As linhas de água junto à Quinta Vale do Pato, em Ameal, uma localidade no Concelho de Torres Vedras, têm sido alvo de sucessivas descargas ilegais que provocam a sua poluição.
A existência de descargas foi confirmada pela Câmara Municipal de Torres Vedras, mencionando esta entidade que as referidas descargas são provenientes de unidades industriais localizadas junto à Quinta Vale do Pato, e que aconteceram devido a falhas de energia no funcionamento da estação elevatória dessas indústrias.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, solicito a S. Ex.ª A Presidente da Assembleia da República que remeta ao Governo a seguinte Pergunta, para que o Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território possa prestar os seguintes esclarecimentos:
1-Tem o Ministério conhecimento desta situação de descargas nas linhas de águas em Ameal?
2-Que medidas tomaram ou pondera tomar esse Ministério com vista a resolver esta situação?
3-Que tipo de fiscalização e/ou monitorização tem sido efectuada nas unidades industriais localizadas em Ameal?
4- Têm sido efectuados testes à qualidade da água junto à Quinta Vale do Pato?
4.1-Em caso afirmativo, quais os resultados?
Gabinete de Imprensa de “Os Verdes” de 07/09/2011
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Torres Vedras vai ter bicicletas para uso gratuito dos habitantes
A Câmara de Torres Vedras decidiu hoje abrir um concurso para a compra de mais de 200 bicicletas que, em 2012, pretende colocar em onze locais diferentes da cidade para uso gratuito dos habitantes.
O executivo municipal aprovou hoje em sessão de câmara abrir um concurso no valor de 380 mil euros destinado à aquisição de bicicletas e de estações de aluguer de bicicletas, as chamadas “bike stations”.
“Queremos promover a mobilidade sustentável e vamos avançar com a aquisição de bicicletas para que as pessoas se possam deslocar nelas e reduzir o uso do automóvel dentro da cidade”, afirmou o vereador do Ambiente, Carlos Bernardes.
A câmara pretende implementar na cidade um conceito idêntico ao adoptado na Holanda, em que os cidadãos podem levantar e estacionar as bicicletas nas “bike stations”, depois de as usar.
A medida insere-se no Plano da Rede de Ciclovias Urbanas da autarquia, que anunciou em Setembro um investimento de 200 mil euros na construção de seis novas ciclovias na cidade até 2013.
A promoção do uso da bicicleta está prevista na Agenda 21 local, documento cujo objectivo é promover o desenvolvimento sustentável do concelho e melhorar a qualidade de vida da população.
“Queremos promover a mobilidade sustentável e vamos avançar com a aquisição de bicicletas para que as pessoas se possam deslocar nelas e reduzir o uso do automóvel dentro da cidade”, afirmou o vereador do Ambiente, Carlos Bernardes.
A câmara pretende implementar na cidade um conceito idêntico ao adoptado na Holanda, em que os cidadãos podem levantar e estacionar as bicicletas nas “bike stations”, depois de as usar.
A medida insere-se no Plano da Rede de Ciclovias Urbanas da autarquia, que anunciou em Setembro um investimento de 200 mil euros na construção de seis novas ciclovias na cidade até 2013.
A promoção do uso da bicicleta está prevista na Agenda 21 local, documento cujo objectivo é promover o desenvolvimento sustentável do concelho e melhorar a qualidade de vida da população.
in: http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1505856
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sexta-feira, 29 de julho de 2011
De Férias
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Venerando António Aspra de Matos
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Antero Valério,
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Raúl Ruiz é o realizador de "As Linhas de Torres Vedras"
Raúl Ruiz é o realizador de "As Linhas de Torres Vedras" (clicar para ler notícia).
A notícia era conhecida desde Abril. Hoje, so seu suplemento "Ípsilon" o jornal Público desenvolve a notícia sobre a realização do filme sobre as Linhas de Torres, da autoria do consagrado cineasta chileno Raul Ruíz.
Ficamos a aguardar com expectativa essa interessante iniciativa.
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Venerando António Aspra de Matos
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quinta-feira, 28 de julho de 2011
SERRA DOSOCORRO - A SERRA MÁGICA - 1 -
(Gravura da autoria de Henriques Nogueira para a revista Panorama)
É este local eixo da região Oeste, limitando três dos seus concelhos: Sobral de Monte Agraço. Mafra e Torres Vedras.
Aí existe uma modesta ermida, centro de romagem anual em 5 de Agosto e ao local estão ligadas muitas das lendas da região.
Uma delas conta a história de uma princesa moura que, por muito gostar deste sítio, pediu a um mágico para a encantar no sítio da Serra do Socorro, juntamente com o seu ouro, jóias e pedrarias. Diz ainda a lenda que quem sair de uma das sete fontes da serra à meia-noite do dia de S. João e correr todas as fontes, quebrará o encanto da bela princesa, casará com ela e ficará com as suas riquezas.
Quanto à origem da romagem anual, uma outra lenda conta-nos que duas crianças, ao pastarem aí o seu rebanho, teriam sido atacadas por um lobo. Ao pedirem auxilio, gritando “Minha Nossa Senhora Socorrei-nos”, apareceu-lhes uma imagem de Nossa Senhora, provocando o desaparecimento do lobo. Em homenagem a esse milagre as pessoas ocorrem ali todos os anos.
Já para explicar a construção da Ermida, situada na parte da serra pertencente à freguesia de Enxara do Bispo, hoje integrada no concelho de Mafra, existem pelo menos duas lendas diferentes: numa conta-se que, existindo um vulcão naquele sítio, o povo prometeu edificar uma capela em louvor de Nossa Senhora do Socorro se o vulcão nada destruísse. Outra versão conta que um pescador, apanhado por uma violenta tempestade, gritando “Socorro, Socorro Virgem Santíssima”, terá sido salvo por Esta que lhe surgiu do lado da Serra. Em agradecimento o pescador mandou erigir a Ermida nessa Serra.
Alguns dos elementos das lendas revelam um fundo de verdade: A formação basáltica da serra prova a sua origem vulcânica; há notícia de em 1752 se ter feito uma prospecção na serra em busca de minas de ouro e nela terem sido encontrados alguns grãos de ouro, o que poderá estar relacionado com a lenda das riquezas encantadas com a princesa moura, talvez existindo aí uma mina de origem romana. Quanto à lenda da fala dos pastores, é verdade que ainda até há pouco tempo a pastorícia era a principal fonte de rendimento económico na encosta da Serra, por onde, como testemunhei há alguns anos, se passeava um rebanho de vacas selvagens, de posse comunitária. A existência de lobos na região também está documentada até ao século XVIII. Quanto à importância da serra para os pescadores da região, a forma como a serra se destaca deve ter uma grande importância para a orientação dos pescadores no alto mar, muito mais importante numa altura em que não existiam os meios tecnológicos de orientação que existem nos nossos dias.
Aliás, a importância da Serra, que se avista num círculo de vários quilómetros, fez dela o principal centro de comunicações das Linhas de Torres, aí se tendo construído o célebre telégrafo de bolas.
Da ermida é tradição ter sido mesquita moura, mas a actual capela revela uma construção mais recente, de características gótico-manuelinas, com alterações posteriores.
A devoção dos crentes da região à Nossa Senhora do Socorro e à sua ermida prova-se pela quantidade de imagens em cera e pelos muitos ex-votos que enchiam o interior da mesma. Infelizmente, há poucos anos, um incêndio destruiu o interior da capela e todo o seu valioso espólio de cultura popular.
Junto à ermida estão algumas casas antigas, outras mais recentes, que serviam para hospedar os romeiros.
Da sua altura de 395 metros vislumbra-se uma bela e ampla paisagem que, em dias de grande visibilidade, aqueles mais ventosos ou que se seguem a um dia de chuva, permitem ver, num simples relance do olhar, sem sair do mesmo sítio, o Oceano Atlântico onde se vislumbram as Berlengas e a costa de Peniche, a cidade de Torres Vedras, a serra de Montejunto, um grande troço da A8, as cúpulas do Convento de Mafra e a Serra de Sintra.
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Venerando António Aspra de Matos
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Dois Portos,
Gravuras Antigas,
José Félix Henriques Nogueira,
Lendas,
Serra do Socorro,
Turcifal
terça-feira, 26 de julho de 2011
TORRES VEDRAS NOS ANOS 30
Os anos 30 foram marcados, em Portugal, por uma série de revolta militares que procuraram restaurar o regime republicano derrubado no 28 de Maio de 1926.Todas saíram derrotadas.
Em 1933 a ditadura militar deu origem ao “Estado Novo”, regime que se consolidou durante essa década, numa mistura de autoritarismo conservador tradicional com a mística vanguardista do fascismo italiano.
Francisco Horta Catarino foi um homem que viveu intensamente esse período. A sua experiência deu origem a uma edição de autor, publicada depois do 25 de Abril, em 1977, intitulada “Falando do Reviralho (A Roda do Crime contra a Humanidade”, onde, entre outras peripécias, revela o modo como se viveu esse período na região Oeste, em Peniche, na Lourinhã, em Torres Vedras, e no Sobral de Monte Agraço.
São alguns desses acontecimentos que hoje aqui recordamos.
Francisco Horta Catarino – o percurso de um resistente
O contacto de Francisco Catarino com a acção republicana iniciou-se logo em Fevereiro de 1927, de forma involuntária e anónima, pois, trabalhando no Porto nessa data, e ao deparar-se com os militares na rua, logo se ofereceu para participar na revolta. Esta durou vários dias, até se esgotarem as munições, acabando os revoltosos por se renderem, depois de recolherem as armas que distribuíram pelo povo, entre o qual estava Horta Catarino.
Não sendo conhecida a sua participação, nada lhe aconteceu.
No ano seguinte iniciou o seu serviço militar, sendo incorporado num batalhão de recrutas para prestar serviço no grupo de esquadrilhas de Aviação aquartelado na Amadora. Foi progredindo na carreira militar, como cabo, furriel e, mais tarde, sargento.
Quando se dá a revolta de 26 de Agosto de 1931 comandada por Sarmento de Beires (revolta que terminou em Torres Vedras), preparou armamento para o caso daquele militar procurar apoio na Amadora, o que não aconteceu.
Perante mais essa derrota dos militares republicanos, Francisco Horta Catarino decidiu dedicar-se à carreira militar, não se deixando “envolver em conspirações com fins políticos”.
Contudo, as circunstâncias da vida puseram-no de novo em conflito com a ditadura. Escolhido para representar os sargentos da sua unidade militar como correspondente do órgão da classe, a revista “Marte”, publicou um artigo que não agradou às autoridades, vindo a ser detido por causa disso, e por suspeitas, infundadas, de pertencer a uma célula comunista militar, iniciando um percurso de prisões que o acompanharia pela vida fora.
Foi libertado poucos meses depois, após a polícia política ter reconhecido o erro.
O nosso sargento prosseguiu a sua vida militar, sendo integrado no Quartel de Alverca. Aí envolveu-se em actividades conspirativas contra o regime, acabando mais uma vez, em 1934, por ser preso e embarcado para a prisão-fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo.
Aqui, estando na companhia de outros 18 sargentos na sua situação, concebeu o plano de dinamizar a Organização Revolucionária de Sargentos (ORS).
Em meados desse ano foram libertados . Ao chegar ao continente, Francisco Horta Catarino recebeu guia de marcha para Peniche, onde ficava a residir em situação de residência fixa.
E é a partir deste momento que a sua biografia mais nos interessa .
Peniche acolhe os conspiradores
Chegado a Peniche teve de alugar casa para alojar a sua família que tinha ficado em Alverca.
Estando nesta vila vários oficiais e sargentos na mesma situação que ele, viu aí “condições de dar seguimento ao trabalho da ORS”(p.42).
Começou a deslocar-se clandestinamente a várias localidades, onde se encontravam outros sargentos regressados dos Açores, com vista a reorganizar aquele movimento.
Tinha de fazer tudo, não só de modo a não levantar suspeitas, como de não faltar à obrigação diária de assinar um livro de ponto na Fortaleza de Peniche.
Fazia aquelas deslocações “aproveitando as camionetas que transportavam o peixe para os mercados. Havia mais de uma centena delas na vila de Peniche. Quase sempre de madrugada lá seguiam carregadas, voltando à tarde”. Esperava pela “sua passagem em sítio combinado fora da vila e trepava para cima da carga. A alta velocidade lá seguia regressando da mesma forma, sempre a tempo de aparecer na Fortaleza para assinar o Ponto” (pp. 43 e 44).
Com esse estratagema conseguiu deslocar-se “às Caldas da Rainha, a Leiria, a Coimbra, a Santarém, a Tomar, a Mafra e a Lisboa”.
O seu segredo era conhecido por centenas de “motoristas, ajudante de motoristas e negociantes de peixe”,sem nunca o denunciarem às autoridades, situação reveladora do apoio da população local às conspirações dos “reviralhistas”.
Com aquela acção estabeleceram-se vários núcleos da ORS em várias unidades militares chegando a uma dimensão tal que alertou a Polícia Política.
Iniciando-se a prisão de muitos elementos da ORS, Horta Catarino acabou por ser atraído a uma cilada em Lisboa, acabando detido pela Polícia.
Detido na Fortaleza de S. Julião da Barra, acabaria demitido da suas funções militares, em Maio de 1935, perdendo, por isso, o direito de estar detido em presídio militar, sendo enviado para o Aljube e daqui para a Prisão de Peniche, onde ficou a aguardar julgamento.
Nesta prisão, com o apoio dos restantes prisioneiros, planeou a sua fuga e a de outros três militares republicanos aí detidos. A Fuga efectuou-se, com êxito, do dia 1 de Maio de 1936.
O início da Acção Clandestina
A fuga foi feita pelo mar, onde os esperava um pescador que “remando com vigor contra a ondulação e em larga travessia”, os colocou numa praia da costa de Peniche, não identificada.
Aí aguardava-os um automóvel que os conduziu à Lourinhã. Nesta vila receberam abrigo na casa de Américo Marques, lavrador e proprietário, antigo administrador desse concelho durante a República e que pertencia ao Partido da Esquerda Democrática.
Daí deslocaram-se para Torres Vedras onde foram recebidos por Joaquim Henriques da Silva Martinez, “que tinha uma padaria na Serra da Vila”, sendo depois transportados para Belas(p.60).
Tendo, entretanto, a Frente Popular vencido as eleições em Espanha, os republicanos portugueses esperavam auxílio de Espanha para se iniciar a luta contra o salazarismo.
Presos quase todos os militares conspiradores, o grupo de Catarino programou a preparação de um “levantamento revolucionário de núcleos civis devidamente organizados”, devendo cada um agir separadamente, por razões de segurança.
É neste contexto que Horta Catarino seguiu para Torres Vedras “onde já tinha amigos seguros”.
Francisco Horta Catarino conspira em Torres Vedras
Nesta vila, como o apoio do “sindicalista Mafalda”, do “ferroviário Gomes” e por outros, começou “a preparar o povo de Torres Vedras para um levantamento armado, falando várias vezes perante centenas de pessoas reunidas geralmente durante a noite em pleno campo, no meio das vinhas dos arredores da vila” (p.62).
Enquanto andava foragido, a sua família, mulher e filhos, continuou a viver em Peniche, valendo-lhes a bondade do senhorio da casa, o “Sr. Manuel Coelho”, com o apoio da esposa “Dona Alice Passos Coelho” que, dadas as circunstâncias, deixou de cobrar a renda e fornecia-lhes gratuitamente o pão da padaria de que era dono (p.63).
Dá-se entretanto o movimento militar nacionalista em Espanha, em 18 de Julho de 1936,iniciando-se a Guerra Civil, pelo que o grupo de Horta Catarino considera urgente desencadear a luta em Portugal “em auxílio dos que em Espanha lutavam pela mesma Causa” republicana (p.64).
Horta Catarino conta-nos um episódio passado em Torres Vedras, relacionado com aquele acontecimento político: o autor viu “a passagem” pela vila “de uma coluna motorizada de falangistas vinda do sul, pelo Alentejo, em marcha para a Galiza, onde havia (…) alguma resistência de forças republicanas. De passagem por Torres Vedras obrigaram a seguir com eles um empregado de café, natural da Galiza, que além se encontrava trabalhando. Vinham armados e fardados como se estivessem em terreno conquistado gritando constantemente o seu “Arriba España” (pp. 68 e 69).
Entretanto, numa reunião realizada na quinta da Conceição, em Dois Portos, Torres Vedras, decidem que, “não havendo esperança de” obterem “recursos” a parir de Espanha, decidem conquistá-los, apoderando-se “pela força de dinheiros públicos”. Para esse efeito foi necessário adquirir armamento, pelo que Horta Catarino seguiu de Torres Vedras para Lisboa, “num automóvel arranjado” por Joaquim Martinez, na casa do qual as armas entretanto adquiridas ficaram escondidas (p.65).
Um dos elementos do grupo que se encontrava na Lourinhã “apareceu a informar que na repartição de finanças da Lourinhã havia um funcionário disposto a indicar o dia e a hora apropriados para lá se encontrar boa quantia com o cofre aberto” (p.61).
O Assalto às Finanças da Lourinhã
No dia combinado, 1 de Agosto de 1936, a partir de Torres Vedras, o grupo, de três elementos (o nosso cronista, o “Rocha” e o Martinez) seguiu , “numa camioneta de passageiros que ia para o Bombarral”, tomando aqui um táxi para a Lourinhã.
Tendo dado início ao assalto à repartição de finanças da Lourinhã encontraram resistência por parte dos funcionários, tendo um agarrado Horta Catarino. O seu cúmplice no assalto, para o soltar, disparou, matando o resistente. Tiveram de fugir sem levar dinheiro nenhum, mas deixando um morto.
Dirigiram-se então para Peniche. Aqui chegados, planearam um assalto á fortaleza de Peniche “libertar os presos e armá-los com as armas das forças de guarda lá existentes”, ocupar a vila, apoderarem-se das “camionetas destinadas ao transporte do peixe e” transportarem-se nelas “até à fronteira” na zona ainda ocupada pelos republicanos (p.67).
Com esse fim estabeleceram contacto com a organização local do Partido Comunista. Esta, apoiando a iniciativa, preveniu, contudo que não podia actuar sem autorização dos responsáveis máximos do partido.
A resposta demorou demais. Entretanto caía Badajoz nas mãos dos insurrectos nacionalistas, caindo rapidamente todas as posições republicanas junto da fronteira portuguesa.
A “Monte”…
Dadas as circunstâncias desistiram do seu plano e cada um seguiu a sua vida. O Rocha conseguiu fugir para Espanha, alistando-se num regimento republicano de Madrid, Martinez regressou à sua vida, na Serra da Vila, em Torres Vedras e o nosso Horta refugiou-se no Casal das Voltas, perto de Torres Vedras, protegido pelo dono do casal, Joaquim de Oliveira.
Poucos dias depois o casal foi cercado pela polícia. Alertado pelo Oliveira, Horta Catarino conseguiu fugir para a Quinta da Conceição, em Dois Portos, onde foi apoiado pelo caseiro desta, um tal Nogueira.
Entretanto Torres Vedras “fora cercada e rebuscada casa a casa, havendo horrores por lá” (p.70).
O Martinez foi preso “na sua casa na Serra da Vila” e “parece ter sido assassinado um comerciante muito conhecido como republicano que se atirou ou foi atirado de uma janela dos Paços do Concelho [de Torres Vedras] onde estava a ser interrogado” (p.70).
Horta Catarino prosseguiu a sua fuga, sendo escondido por um amigo, Leonel Filipe, em Seramena, perto do Sobral de Montagraço. Alguns dias depois foi aquela aldeia cercada pela polícia mas, mais uma vez, o Catarino conseguiu escapar, indo até á Malveira, onde foi apoiado por um sapateiro amigo, seguindo depois, de madrugada, até Belas, onde tinha apoio.
Desenvolvendo vários contactos, o nosso narrador continuou a tentar organizar uma insurreição contra o regime, uma delas a partir de Coimbra que acabou por se malograr mais uma vez.
Foi então que voltou a encontrar refugio perto de Torres Vedras, na Feliteira, na adega de Carlos Manata Carrasqueiro, fundador do ainda hoje conhecido restaurante “O Labrego”. Foi neste sítio que Horta Catarino acabou finalmente por ser preso pela Polícia Política, devido á traição de um tal João Comprido. Carlos Manata também foi preso.
Terminava aqui esta parte da vida aventurosa de Francisco Horta Catarino, aquele que nos despertou mais interesse por se passar na nossa região e na época dos anos 30, aqui evocada, a propósito do 75º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha.
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sexta-feira, 22 de julho de 2011
UM PASSEIO PELAS LINHAS DE TORRES (Fotografias de Ricardo Silva).
Conforme anteriormente anunciámos, o suplemento “Fugas” do jornal Público editou nas suas páginas uma reportagem sobre as rotas das Linhas de Torres.
Agora é possível aceder ás fotografias recolhidas para essa reportagem, da autoria de Ricardo Silva:
http://fugas.publico.pt/Fotogaleria/289197_um-passeio-pelas-linhas-de-torres/Foto/3 (clicar para aceder à fotogaleria)
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Venerando António Aspra de Matos
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quarta-feira, 20 de julho de 2011
20 DE JULHO DE 1936 - SANTA CRUZ, O MEU AVÔ E O AVIÃO DE SANJURJO
A fotografia em cima mostra o meu avô, António Ferreira Aspra, fotografado junto ao avião de Sanjurjo, no campo de aviação de Santa Cruz, fotografia que terá sido tirada a 19 ou 20 de Julho de 1936.
Esta foi, pelo menos, a memória que foi passando na família quanto à identificação da fotografia.
Recentemente procurei confirmar a matricula do avião da fotografia de cima, comparando-a com outra fotografia. A única que descobri, e que reproduzo abaixo, mostra o momento em que Sanjurjo, em Cascais, entrava no avião para o fatídico voo, mas infelizmente as pessoas à volta tapam as letras da matricula (VAA). Contudo, numa análise atenta e ampliando essa fotografia, é possível ver alguns pequenos pontos das letras do avião (assinaladas por mim com círculos vermelhos na terceira fotografia) e vemos que o primeiro traço pode corresponder perfeitamente à parte superior do “braço” esquerdo da letra V, e os outros dois pontos assinalados parecem corresponder na perfeição, respectivamente às partes inferiores do “braço” esquerdo e do “braço” direito” das letras A.
(Quinta da Marinha, em Cascais: O general Sanjurjo prepara-se para o fatídico voo.
Fonte : site "Accidentes que nos hacen pensar", http://www.turismoyarte.com/ )
Fonte : site "Accidentes que nos hacen pensar", http://www.turismoyarte.com/ )
Confirma-se assim que o avião da fotografia do meu avô e a última tirada ao avião de Sanjurjo são do mesmo aparelho. Claro que é necessário ainda mais dados, nomeadamente um registo correcto da matricula desse avião ,informação que até hoje não descobri. Tendo em conta que esse voo foi semi-clandestino, não sei se alguma vez será possível confirmar a matricula do avião. Esta seria, cruzando as duas fotografias, EC-VAA…
É histórico que o avião que devia levar o general Sanjurjo para Espanha, dois dias depois do início do levantamento militar contra a República espanhola, fez uma escala no então ainda improvisado campo de aviação existente na Praia de Santa Cruz, antes de rumar para Cascais, onde aquele general vivia exilado.
A esse facto refere-se Carlos D’Ornellas em 1952 (1) , jornalista simpatizante da causa “nacionalistas” e que esteve em Espanha por várias vezes, em reportagens de propaganda a favor do regime franquista. Segundo a memória que publicou na Gazeta dos Caminhos de Ferro, ele refere que um “avião clandestino, tripulado pelo aviador espanhol Juan António Ansaldo, aterrara no campo de aviação da Praia de Santa Cruz, na noite de 19 [de Julho]. Participado o caso às autoridades portuguesas, estas mandaram apresentar na Polícia Internacional o conhecido aviador, que foi intimado a levantar voo de Santa Cruz e ir para Alverca, sendo acompanhado pelo então capitão Pessoa de Amorim”
Chegado a Alverca, Ansaldo prestou aí declarações sobre o rumo do seu avião: apresentando a sua documentação de aviador civil “declarou ás autoridades portuguesas que viera de Pau (França), tendo aterrado em Salamanca e desejando seguir para Burgos”. Abastecendo-se aí. Levantou voo, “mas, em vez de se dirigir para Burgos, seguiu para Cascais tendo aterrado nos campos da [quinta da] Marinha”.
Aqui, continuando a seguir a descrição de Ornellas, vários automóveis entraram na Quinta da Marinha, “conduzindo várias famílias espanholas, que para ali se dirigiam a despedir-se do general José Sanjurjo”.
Mais completa, e com algumas diferenças, é a descrição dessa situação registada por César de Oliveira , baseando-se nas memórias escritas de Ansaldo:
“Em 20 de Julho, apresentou-se no Estoril ao general Sanjurjo o piloto espanhol Juan Ansaldo, que horas antes havia aterrado no aeródromo de Santa Cruz, a poucos quilómetros de Torres Vedras. O Governo português não levantou qualquer obstáculo á aterragem do avião. Ansaldo vinha buscar Sanjurjo para o transportar para Burgos, a fim de que este assumisse a chefia do movimento militar. Chegado a Portugal, Ansaldo, com o apoio da PVDE e do ajudante de campo do Presidente da República portuguesa, iniciou a preparação da descolagem do avião em direcção a Burgos. No entanto, Oliveira Salazar fez saber aos emigrados espanhóis, por intermédio do capitão Agostinho Lourenço, director da polícia política, que “interditava o uso de aeródromos militares para a descolagem do avião mas que nada tinha a ver com o que se passava em aeródromos civis”. Em reuniões sucessivas no Estoril – e sempre com o ajudante de campo do Presidente Carmona a fazer as ligações entre os emigrados espanhóis e as autoridades portuguesas - chegou-se a uma solução satisfatória para o lder do Alzamento e que “cobria” eventuais complicações para o governo de Salazar: o avião iria de Santa Cruz para Alverca. Aeródromo militar a 20 Km de Lisboa, aí seria reabastecido e deslocaria normalmente como se o fizesse para Espanha; aterraria, depois, num campo improvisado nas imediações de Cascais e aí embarcaria o general e rumaria a Burgos” (2) .
Esta versão parece indicar que o avião esteve mais tempo em Santa Cruz, à espera de que terminassem as negociações, do que a anterior notícia fazia entender.
Em Cascais, nesse dia 20 de Julho, já no início da tarde, o avião levantou voo , mas não conseguiu subir o suficiente, pelo que Ansaldo tentou regressar à pista, mas o avião acabou por se esmagar contra o solo, incendiando-se. O piloto foi cuspido e sobreviveu ao acidente, mas o general morreu logo no embate, ficando depois o seu corpo envolvido pelas chamas.
(o estado em que ficou o avião. Fotografia do Arquivo Fotográfico da Câmara de Lisboa)
A edição do Diário de Lisboa de 21 de Julho descreve as explicações de Ansaldo sobre o acidente:
“Ao levantar voo, um forte torrão, dos que abundam no local, ou uma cova, causou a rotura da hélice. Senti que o aparelho ia afocinhar mas consegui manter a horisontalidade. A queda inevitável foi, assim, em plano, de “barriga”. Gritei ao general que saísse do aparelho. Não me respondeu. Tentei ajuda-lo, mas não se movia. Julguei que havia perdido os sentidos, como eu depois os perdi ante a tragédia e os baldados esforços que fiz para a evitar. Mas não, o general estava morto. Quando as chamas o envolveram já estava insensível”.
O piloto desmentia assim a descrição feita por alguns observadores, que diziam ter visto o avião a cair na vertical, bem como a ideia, que continuou muito divulgada, segundo a qual o general tinha morrido queimado. Como revelou nessa mesma reportagem o marquês de Quintanar que observou o cadáver do general , este apresentava uma “ferida profunda, em cruz, que deve ter sido produzida por um ferro do aparelho, no momento da queda e que lhe deu morte imediata”. (3).
Logo correram rumores sobre a hipótese de um atentado, inicialmente atribuído aos republicanos portugueses, mais tarde, e perante o desenrolar dos acontecimentos em Espanha, atribuído a Franco, já que foi este que acabou por beneficiar com a morte de Sanjurjo, sucedendo-lhe na liderança dos nacionalistas, depois de, no ano seguinte, também o general Mola ter morrido noutro acidente de avião mal esclarecido.
Contudo, em termos oficiais, e com base no testemunho do piloto, o acidente foi atribuído ao excesso de carga e às más condições da pista de Cascais.
Segundo o piloto, este havia avisado o general Sanjurjo que levava carga a mais, mas este insistiu, pois queria levar o fardamento e armamento necessário às sua novas funções como líder dos rebeldes.
Mas é aqui que a história se complica. Como se prova pela facilidade com que o meu avô se fotografou junto do avião, quando ele esteve em Santa Cruz, podemos constatar duas coisas: uma que a presença do avião não era segredo em Torres Vedras, outra que era fácil o acesso a ele.
Esse acontecimento marcou a memória de muita gente em Torres Vedras da geração do meu avô. Ao longo do ano correram mesmo rumores de uma hipotética sabotagem do avião ainda em Santa Cruz.
Esse acontecimento marcou a memória de muita gente em Torres Vedras da geração do meu avô. Ao longo do ano correram mesmo rumores de uma hipotética sabotagem do avião ainda em Santa Cruz.
Recentemente um amigo meu contou-me uma história, conhecida também de outras pessoas, que o pai dele contava em família ou junto das pessoas mais próximas: ele e outros republicanos de Torres Vedras, alguns deles com conhecimentos de aeronáutica, teriam sabotado o avião em Santa Cruz, destruindo algumas peças. O objectivo não era fazer cair o avião, nem matar ninguém, mas impedir que o avião levantasse voo, atrasando assim o transporte de Sanjurjo para Espanha. Para grande surpresa dos sabotadores, o avião levantou voo de Santa Cruz, prosseguindo a sua viagem para Alverca e Cascais.
Curiosamente também, a pessoa que contava esse episódio e que estava envolvido nessa sabotagem, era, não só um opositor ao salazarismo, como, à época, um dos melhores amigos do meu avô. Ambos eram figuras consideradas em Torres Vedras, mas pessoas reservadas, e que não eram conhecidas por mentirosas ou gabarolas.
O meu avô, cujas opiniões políticas que lhe conheci eram de admiração pelo “Estado Novo” e por Salazar, tinha contudo algumas facetas da sua história passada que desmentiam a total adesão ao regime. Neto de sindicalista, muito ligado aos socialistas de Aznedo Gneco e José Fontana, o meu avô era amigo de pessoas conotadas com o anarco-sindicalismo e esteve muito ligado ao associativismo mutualista nos seus tempos de juventude.
Em criança lembro-me de a sua papelaria ser frequentada regularmente por pessoas que conversavam com o meu avô sobre a situação política, criticando o regime, que eram interrompidas sempre que entrava um cliente na loja.
Contudo o meu avô não era do género de organizar ou participar em conspirações
Por sua vez, a pessoa que acima refiro como tendo participado na sabotagem do avião, era politicamente mais activo, sendo então elemento preponderante da chamada juventude republicano-socialista de Torres Vedras que se tentou organizar, nos anos trinta, contra a União Nacional, e foi membro do PCP depois do 25 de Abril.
Parece assim que era possível que opositores ao regime pudessem aproximar-se sem problemas do avião de Sanjurjo, enquanto este esteve estacionado em Santa Cruz.
Não deixa também de ser estranho que a notícia tivesse corrido tão depressa em Torres Vedras, e que rapidamente muita gente se deslocasse a Santa Cruz para ver e fazer-se fotografar junto do avião, tendo em conta a distância que essa praia estava então de Torres Vedras, numa época em que os transportes eram mais lentos e as estradas estavam em piores condições. Convém contudo esclarecer que o dia 19 era um Domingo, dia de descanso para muita gente, e o dia 20 era o dia de descanso semanal do comércio local.
Mesmo que tenha havido sabotagem do avião em Santa Cruz, esta pode não ter sido a causadora do acidente. Quanto muito pode ter potenciado o desfecho trágico desse voo.
Existem ainda muitos pontos obscuros por esclarecer.
Pessoalmente gostava de aprofundar um pouco esta história. Seria interessante se encontrasse por aí mais fotografias do avião de Sanjurjo em Santa Cruz, já que não acredito que só o meu avô se tenha feito fotografar junto do avião.
Será também interessante encontrar uma referência à matricula do avião. Contudo, dado o carácter quase clandestino do voo, será uma tarefa difícil.
É ainda provável que exista algum relatório da PIDE (então PVDE) sobre o assunto, já que se sabe que essa polícia política acompanhou de perto as demarches para que fosse possível realizar o voo de “resgate” do general Sanjurjo.
Não encontrei, nos arquivos da Salazar, disponíveis na net, qualquer referência ao assunto. Mas deve existir qualquer relatório oficial sobre o acidente.
Há ainda o recurso à imprensa portuguesa e espanhola da época.
Por último, a fonte mais importante usada por todos os que se referem ao acidente, o livro de Juan António Ansaldo, intitulado “Para que?”, uma edição de autor, publicada em Buenos Aires, onde dedica dez páginas (135 a 145) à sua passagem por Portugal para levar o general Sanjurjo, não se encontra em bibliotecas portuguesas, apenas está referenciado na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, mas infelizmente não está digitalizado.
Voltarei ao assunto quando tiver mais novidades
NOTAS:
(1) – ORNELLAS, Carlos d’ , “Por Espanha – Crónica de viagem”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1552, Lisboa, 16 de Agosto de 1952, pp. 227-228, edição disponibilizada na internet, no site da Hemeroteca de Lisboa;
(2) – OLIVEIRA, César, Salazar e a Guerra Civil de Espanha, ed. O Jornal, Lisboa 1987, pp.141-142;
(3) – Diário de Lisboa, edição de 21 de Julho de 1936, edição disponibilizada na internet, no site da Fundação Mário Soares.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Corte de crédito bancário empurra Resort Campo Real para a insolvência
Corte de crédito bancário empurra Resort Campo Real para a insolvência (clicar para ler notícia do jornal "i" de hoje).
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Venerando António Aspra de Matos
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sábado, 9 de julho de 2011
AS LINHAS DE TORRES, Tema da reportagem principal do "Fugas" de hoje...
As Rotas das Linhas de Torres fazem parte do tema da reportagem central da suplemento do Público que sai hoje (Sábado) com o Público.
Da autoria do jornalista Carlos Pessoa, ficamos a conhecer algumas das principais rotas pelos vestígios que ainda restam dessa importante obra militar.
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Venerando António Aspra de Matos
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terça-feira, 5 de julho de 2011
Torres Vedras–Quantos Somos?
Foram publicados recentemente pelo INE os resultados preliminares do censo de 2011.
Neste momento somos quase 80 mil torrienses.
Em baixo podem ver os resultados provisórios para a totalidade do concelho de Torres Vedras:
http://www.ine.pt/scripts/flex_v10/Main.html (clicar para aceder aos resultados provisórios).
(Na imagem que aparece, como o todo nacional, colocar o nome "Torres Vedras" no registo de busca. Aparece o mapa e os dados do distrito de Lisboa. Voltar a colocar o nome "torres vedras" na busca ou clicar sobre o mapa do concelho e aparecem os resultados globais do concelho)
(Na imagem que aparece, como o todo nacional, colocar o nome "Torres Vedras" no registo de busca. Aparece o mapa e os dados do distrito de Lisboa. Voltar a colocar o nome "torres vedras" na busca ou clicar sobre o mapa do concelho e aparecem os resultados globais do concelho)
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Venerando António Aspra de Matos
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