quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

OUTROS CARNAVAIS

























Notícia do Correio da Manhã sobre o Carnaval de Torres

Embora com a demagogia do costume, sobre os custos (mas o trabalho e as actividades culturais não têm sempre um preço?...ou será que o "Correio da Manhã" é distribuido de borla e a sua edição é impressa sem custos e os seus jornalistas voluntarizam-se para fazerem os seus trabalhos gratuitamente?), aqui fica a notícia que o Correio da Manhã publicou sobre o Carnaval de Torres:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Reportagem do jornal Público sobre o Carnaval de Torres:

TORRES VEDRAS prepara-se para a folia e garante que só paga quem for brincar

Reportagem de Cláudia Sobral

Público de 11 de Fevereiro de 2012

"Sempre que é Carnaval, na Pastelaria Havaneza, em Torres Vedras, trabalha-se dia e noite. “Ficamos aí até às 6h, fechamos duas horas para ir tomar banho e voltamos”, conta a proprietária, Graça Sousa, por detrás do balcão. Com as ruas cheias de gente, montam-se bancas e os cafés alargam os horários para aproveitar a clientela. O Carnaval será o mesmo sem a tolerância de ponto? Ela acredita que sim: “As pessoas hão-de fazer qualquer coisa para poderem vir”.

"Mas mesmo que a afluência ao corso não diminua este ano e que os negócios não saiam prejudicados com a decisão de última hora do Governo, a não-existência de tolerância de ponto na terça-feira já deu origem a uma polémica.

"Mas a Câmara de Torres Vedras diz que tudo não passou de um “mal-entendido”. “Estamos longe de obrigar as pessoas [que precisam de se deslocar aos serviços públicos] a pagar para entrar”, garantiu o vereador responsável - pelo Carnaval, Sérgio Galvão.

Só paga quem for ao corso

"A confusão começou com um comunicado da Câmara de Torres Vedras em que, depois de criticar a decisão do Governo, o seu presidente, Carlos Miguel, explicava que, à semelhança do que acontece desde há 30 anos, o acesso do público às ruas de passagem do desfile estaria condicionado entre as 11h e as 19h. A entrada custa cinco euros. O problema é que no interior do recinto ficam o Centro de Emprego, o Tribunal do Trabalho e a Inspecção do Trabalho, que estarão a funcionar por não haver tolerância de ponto.

"Carlos Miguel anunciou como medida para minorar esta sobreposição de interesses o fecho do recinto duas horas depois do que é hábito, para que, até às 11h, as pessoas se pudessem deslocar aos serviços livremente. Depois surgiram o que a câmara classifica como suposições, fruto de interpretações do que tinha sido anunciado: quem quisesse entrar depois das 11h teria de pagar os cinco euros do bilhete.

"Já diversos juristas tinham opinado sobre isto quando a autarquia emitiu uma nota esclarecendo que essas situações “serão resolvidas à entrada”, onde vai ser feita uma “triagem sobre as reais necessidades de ingresso para acesso aos serviços no interior do corso”. A entrada no recinto será, por isso, gratuita para quem comprovar a necessidade de aceder aos serviços.

"No mesmo comunicado, câmara esclarece que os CTT estarão encerrados nesse dia e pede aos restantes serviços para não fazerem marcações de atendimento ao público para essa terça-feira, “tendo em conta que o ruído produzido pela realização do corso pão possibilitará as melhores condições de trabalho”.

Missa em dia de Carnaval

"0 presidente da câmara não estava ontem disponível, mas o vereador Sérgio Galvão explicou que quem se quiser dirigir aos serviços públicos nas ruas com acesso condicionado poderá entrar, mas acompanhado por um segurança. “Estamos ainda a equacionar a hipótese de criar um corredor de acesso aos serviços”, adiantou.

“A PSP estará disponível para mediar estas situações e conferir legitimidade a essas pessoas”, disse o comissário Paulo Flor, da Direcção Nacional da PSP, que desvaloriza a polémica. “Não é a primeira vez que é obrigatório o pagamento de uma taxa para entrar no espaço onde vai decorrer o corsa A novidade é o facto de não haver tolerância de ponto naquele dia”, afirma, acrescentando que a PSP não prevê que isso cause “grandes complicações”.

"Para Sérgio Lopes, secretário- geral da empresa municipal Promotorres, o problema levantado não fez sentido, porque “isto sempre aconteceu no Carnaval de Torres”. “Se tivermos missa no dia do Carnaval, as pessoas podem entrar livremente”, exemplifica, dizendo que não é difícil identificar casos de pessoas que se tentam aproveitar das excepções para entrar sem pagar.

"Quem não se incomodou com toda a polémica foram os moradores. Sentado num banco do Jardim da Graça, Joaquim Figueiredo conta que não paga porque vive numa das ruas onde passa o corso. Para aqueles dias em que faz da varanda camarote, apartamento cheio, tem direito à pulseira de livre acesso criada para moradores e comerciantes. “O resto da malta paga, mas, pedindo, eles também dão uma pulseira a mais.”

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Atenção Passos Coelho: Começou o Carnaval de Torres 2012...

Estas são algumas das imagens desta manhã, por ocasíão da inauguração do "monumento" do Carnaval de Torres.
Pela primeira vez a comunicação social nacional fez a cobertura do acontecimento. A tal não terá sido estranha a "propaganda" gratuíta que Passos Coelho fez ao evento, ao decretar poucas horas antes, tal como Cavaco há 19 anos, que não haverá tolerância de ponto na Terça feira de carnaval.
Como a idiotice ainda não paga imposto, tal atiude está a contribuir para garantir um Carnaval 2012 muito animado.
Em 1993 Cavaco iniciou a sua queda quando sofreu a contestação, e foi fortemente ridicularizado pelos promotores do Carnaval de Torres.
Há uns anos atrás foi a  vez de Sócrates iniciar a sua decadência perante o célebre caso do "magalhães", uma brincadeira levada a sério pelas autoridades e que levaria a uma das raras atitudes de censura ao Carnaval em democracia.
Será que agora é a vez de Passos Coelho sofrer as consequências da "maldição" do Carnaval de Torres.
Para já está prometida uma manifestações de gigantones e matrafonas torrienses, frente ao Palácio de S. Bento, para o próximo dia 18...e já agora será curioso saber se o "nosso" primeiro vai estar a trabalhar no seu gabinete, nesse dia e na Terça-feira de Carnaval...
Até lá, fiquem com estas que são as primeiras fotografias do Carnaval de Torres de 2012:


































terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Vida Torriense nos finais so século XIX, nos caracteres da imprensa local (1885-1890) - 1

Como indicámos e artigo anterior, existe imprensa em Torres Vedras desde 1885.

A imprensa é um interessante documento histórico para aferir da realidade que ela abrange, complementando, com a sua vida e colorido, o cinzentismo da documentação oficial.

A partir de hoje, e dentro das nossas possibilidades com regularidade mensal, vamos explorar essa documentação, contando um pouco da história e da realidade que a imprensa local nos revelou durante os primeiros cinco anos em que ela se publicou em Torres Vedras.

Parte deste trabalho já tinha sido publicado, em “folhetins” mensais, nas páginas do jornal “Badalada” em 1985 e 1988, tendo seguimento em crónicas radiofónicas nos anos seguintes, quando do início das rádios locais .

Mês a mês, este é o retracto da vida torriense que esses jornais nos deram do final do século XIX.

Janeiro de 1885

Era uma 5.ª feira, aquele primeiro de Janeiro de 1885.

Por 40 réis os torrienses adquiriam o n.° 1 do primeiro jornal de Torres Vedras.

Fundado por Agostinho Barbosa Sottomayor, Ignácio França e Manuel José da Paula Guimarães, chamava-se «JORNAL DE TORRES VEDRAS» e apelidava-se de «Agrícola, commcrcial e noticioso».

Sendo então a Agricultura a actividade económica mais importante, não é de estranhar que um dos principais objectivos desse Jornal fosse a defesa desses interesses.

Torres Vedras, era então «a primeira de Portugal na produção e abundância de vinho» e o «J. T. V.» esforçar-se-ia «por tomar conhecidos os nossos vinhos, por chamar assim a concorrência dos compradores, e conseguintemente obterão elles preços mais vantajosos, e finalmente, lembrará todlas as indicações que parecem úteis à viticultura e ao fabrico».

Torres Vedras era um concelho com cerca de 30.000 habitantes e 10.000 fogos.

Os arredores da Vila conheciam uma azáfama pouco normal: centenas de trabalhadores, vindos de todo o país trabalhavam na construção do caminho-de-ferro que ia tornar mais rápido o escoamento dos produtos locais para Lisboa.

Eram frequentes as desordens lá para as bandas dos Cucos, onde se encontravam esses trabalhadores: num dos primeiros dias do ano «dispararam-se tiros de revólver, ferveu grossa pancadaria, funcionou a navalhar e ficaram maltratadas bastantes pessoas, algumas com ferimentos de certa gravidade».

Não que os locais não estivessem habituados a cenas deste género, mesmo em festas e romarias, mas agora a frequência aumentava. Esta situação e a pouca segurança oferecida pela cadeia local, de onde «a phrase grosseira, o gesto indecente, dirigidos de grades abaixo, com escândalo para o público, e com grande incommodo para os vizinhos que têem de cerrar as janellas para não ouvirem o phraseado baixo e immundo», levaram a que uma das primeiras posições públicas do jornal se prendesse à necessidade de reforçar a vigilância policial da vila, apelo que seria cumprido em princípios desse ano ao chegar «uma diligência de cavallarla n.' 4, composta de 18 praças commandados pelo sr. alferes Parreira».

Mas outra preocupação dominava os proprietários de então; o combate à «phyloxera», cuja «entrada» no concelho era anunciada a 15 de Janeiro: «o concelho de Torres Vedras, e a grande região vinícola assim denominada, estão invadidas pela «phyloxera», pelo lado de Dois Portos, do Sobral de Mont’ Agrraço, de S. Mamede da Ventosa, do Turcifal».

Ao mesmo tempo a varíola era uma das doenças que mais matavam na região.

Enquanto o caminho de ferro não chegava a Torres Vedras, o comércio com Lisboa fazia-se através de várias carreiras de diligências que efectuavam essa viagem em 6 horas:

«De Simplício & Irmão, e Gatos, partem duas diligências diárias, uma às 6 horas da manhã, e outra às 12 horas pelo Turcifal, Freixofeira, Villa Franca do Rosário, Venda do Pinheiro, Lousa, Loures e Lumiar(...)».

«Dos mesmos, parte outra diligência d’aqui às 10 horas da manhã por Matacães, Runa, Ribaldeira, Dois Portos. Carvalhos, Sapataria, Lousa, etc.

« De Carvalho & C.ª sae uma diligência às 2 horas dá noite de segundas, quartas e sextas feiras, e às 2 da tarde de terças, quintas e sábbados para Alhandra, por Matacães, Runa, Ribaldeira, Dois Portos, Sobral de Mont’ AgraÇo e Arruda dlos Vinhos (...)». «Calcula-Se de 60 a 100 diariamente as carroças com transporte de vinhos para Lisboa, e não mencionámos as carreiras particulares de trens de aluguer, que, termo médio, devem regular por três a quatro cada semana».

E foi assim, ao ritmo da diligência que se iniciou mais um ano na vida da população local, num ritmo que estava prestes a terminar, mais rapidamente do que então se sonhava e com ele terminando uma época…

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Breves Notas para a História da Imprensa Torriense.

Foi no ano distante de l885 que surgiu o primeiro jornal torriense.

Intitulando-se «Jornal de Torres Vedras», iniciava a sua publicação numa quinta-feira, 1 de Janeiro de 1885.

Subintitulando-se como «Agrícola, Commercial, Noticioso», o jornal, fundado por Agostinho Barbosa Sottomayor, Inácio França e Manuel de Paula Guimarães, e impresso na recém fundada, no ano anterior, tipografia de Celestino Aspra, tinha por objectivos «esforçar-se por tornar conhecidos os nossos vinhos(...). A nossa missão, todavia, estende-se mais além. A vila carece de urgentes melhoramentos que a coloquem a par das terras mais civilizadas. Havemos de, pouco a pouco, com insistência, com independência, com dignidade, sem offensa para ninguém, e com proveito para todos, lembrar esses melhoramentos, indicar a senda do progresso e do aperfeiçoamento, indispensável no último quartel do século XIX (…). Em breve tempo se fará ouvir o silvo da locomotiva, que há-de servir prodigiosa¬mente aos interesses commerciaes da villa, como temos fé. O nosso jornal advogará calorosamente todos os interesses hones¬tos, toda a iniciativa pro¬veitosa, industrial ou commercial (…).”

Esta primeira experiên¬cia jornalística durou 2 anos, 2 anos cruciais para o desenvolvimento de Torres Vedras, pois foi nesse período que se ulti¬maram as obras de cons¬trução da linha férrea, que ligaria Torres Vedras a Lisboa, modificando em definitivo e profunda¬mente o rosto da então vila.

Embora o grande des¬taque das páginas desse jornal recaísse em anún¬cios relacionados com a agricultura, principal¬mente a vitivinicultura, lutando então desespera¬damente contra a filoxe¬ra, nelas podemos seguir o episódio semanal da construção desse revolucionário transporte do séc. XIX, que foi o caminho-de-ferro.

Paradoxalmente, o «jornal de Torres Ve¬dras» terminou a sua publi¬cação no próprio dia em que era inaugurada a liga¬ção ferroviária entre Tor¬res e Lisboa, a 30 de De¬zembro de 1886, e por isso ficámos privados da reportagem histórica desse acontecimento.

Tinha-se contudo ini¬ciado a heróica história da Imprensa torriense. De periodicidade e duração variada, com tecnologia mais ou menos apropriada, terão sido publicados desde então em Torres Vedras mais de 60 títulos. O Dr. António da Silva Rosa, no seu trabalho pioneiro editado no n.° 1220, de 25-05-1979, do jornal «Badaladas», localizou 48 títulos editados até essa data, aos quais podemos acrescentar mais 15 títulos por nós registados, sem contar com um sem número de jornais escolares, copiografados, quase anualmente publicados nas salas das escolas secundárias locais.

Não durou muito a interrupção provocada pelo desaparecimento daquele primeiro título. Logo em Fevereiro de 1887 surgiam dois novos semanários, «A Voz de Torres Vedras», que se intitulava herdeiro daquela primeira publicação, e «A Semana», registando-se então o inicio de a uma tradição que se manteve quase ininterruptamente até 1926: a publicação simultânea de, pelo menos, dois títulos semanais em Torres Vedras.

Ainda do século XIX datam dois dos mais importantes títulos da Imprensa local: «A Vinha de Torres Vedras” e a “Folha de Torres Vedras”.

Alguns dos títulos de maior duração foram fundados no século XIX, só sendo ultrapassados pelo jornal “Badaladas” e pelo “Frente Oeste”.

Aqueles dois títulos documentam nas suas páginas a transição da monarquia para a República e do séc. XIX para o séc. XX, relatando, nas suas páginas, não só os reflexos, a nível local, da agitada vida política local, mas também as primeiras notícias da introdução do cinema ou da luz eléctrica em Torres Vedras.

Refira-se ainda a particularidade importante de o jornal «Folha de Torres Vedras» se declarar abertamente defensor de ideias republicanas, muito antes da implantação desse regime político. Este jornal viria a fundir-se em 1913 com o seu velho rival «A Vinha de Torres Vedras» e, até ao aparecimento do jornal «Badaladas» em 1948, mais nenhum jornal conseguiria publicar-se regularmente por mais de 6 anos consecutivos, como aconteceu com “A Vinha…”.

Com a República, e principalmente no pós primeira-guerra-mundial, surgem alguns títulos de vincada ideologia politica, ligados a várias tendências que marcaram a conturbada vida política de então. Talvez por isso, muitos desses jornais tiveram duração efémera.

Três desses títulos merecem, contudo, serem aqui recordados, pelo interesse demonstrado na defesa das questões regionais. São eles o «Eco de Torres», que se publicou de 1917 a 1921, «O Torreense», publicado entre 1919 e 1925, e “A Nossa Terra», entre 1924 e 1926.

A partir de 1926 a imprensa local sofre uma acentuada decadência. Durante quase um ano, entre Setembro de 1926 e Agosto de 1927, não se publica um único título em Torres Vedras. É então que surge uma das mais importantes apostas jornalísticas da época, o “Gazeta de Torres”, inicialmente dirigido pelo dr. Justino Freire de Moura Guedes, substituído no cargo, em finais de 1930, por António Batalha Reis e, pouco tempo depois, por Edmundo de Oliveira.

Nesse jornal destacaram-se como jornalistas, Luís Brandão de Melo e Victor Cesário da Fonseca, que dariam ao jornal um cunho progressista, em contra corrente com o regime ditatorial que se afirmava. Não só se tornou no jornal de maior duração entre os que até essa data tinham sido fundados no século XX, como se tornou o ponto de confluência de uma nova geração de jornalistas locais, dinâmica e inovadora. Contudo, as suas posições políticas, contra a ditadura e apoiando a Aliança Republicana-Socialista, que pretendia fazer o contraponto à recém criada União Nacional, provocaram o seu prematuro encerramento, publicando-se pela última vez em 13 de Agosto de 1933.

A partir dessa data quase toda a imprensa teve duração efémera, e na maior parte dos casos mais não era de que a câmara de eco dos ideais do Estado Novo, nalguns casos de tendência assumidamente fas¬cista.

A crise da imprensa torriense agravou-se a par¬tir de 1936 quando o jor¬nal que então se publica¬va, o segundo com o títu¬lo de «O Torreense», passou a editar apenas um nú¬mero anual, não se publi¬cando mesmo qualquer exemplar nos anos de 1943 e 1944, situação que se altera em 1946, quando esse jornal regressa à sua publicação semanal, que irá durar até 1954.

Contudo, só com o apa¬recimento do jornal “Badaladas” , fundado em Maio de 1948, pelo saudo¬so Padre Joaquim Maria de Sousa, se regista uma mudança significativa no panorama jornalístico de Torres Vedras. O Padre Joaquim Maria de Sousa teve o mérito de conseguir transformar um jornal paroquial no pri¬meiro título moderno deste concelho, revelando nas suas páginas uma visão aberta às novas realidades locais e culturais. Apesar das limitações impostas pela censura da ditadura à liberdade de imprensa, o “Badaladas” soube tornear essas dificuldades, com uma grande dose de independência e dignidade nesses tempos difíceis.

Até 1952 o “Badaladas” editava-se mensalmente. A partir desse ano passou a quinzenário e, finalmente, em 15 de Dezembro de 1960, tonou-se semanário, continuando a publicar-se nos nossos dias, sendo um dos títulos mais antigos da imprensa portuguesa.

Ao longo da sua história o «Badaladas» soube-se adaptar às mais variadas realidades politicas, sociais, culturais e tecnológicas, tornando-se num dos raros casos de longevidade da imprensa regional. Pelas suas páginas têm passado todas as gerações de jornalistas torrienses desde a segunda metade do Século XX. Mesmo algumas personalidades nacionais não têm desdenhado a sua colaboração nas páginas desse semanário

Com a recuperação da Liberdade e da democracia, após o 25 de Abril de 1974, tornou-se possível o aparecimento de mais projectos inovadores. Assim, aconteceu com o «Oeste Democrático», um dos títulos de maior regularidade depois de 1933, a seguir ao «Badaladas», e que se publicou entre 1975 e 1978. Revelou-se inovador não só nas temáticas abordadas, mas também na forma como as apresentava, numa paginação dinâmica, nomeadamente no tratamento dado aos títulos de primeira página. Encerrado devido a dificuldades económicas, parte dos seus colaboradores e redactores passou-se de armas e bagagens para o jornal «Badaladas», contribuindo para a renovação deste título, então já sob direcção do Padre José Manuel Silva.

Também, pelo espírito dinâmico que imprimiu aos seus conteúdos, merece referência o jornal “Área”, de curta vida, um mensário que se publicou regularmente entre 1979 e 1981, e, desde então, esporádica e anualmente, como órgão pertencente à Cooperativa de Comunicação e Cultura, que nasceu exactamente da existência daquele título e é hoje uma das mais dinâmicas e inovadoras propostas culturais de Torres Vedras.

O “Área” afirmou-se como o mais irreverente e inovador de todos os títulos desde sempre publicados em Torres Vedras. Na suas páginas criou-se uma nova geração de jornalistas e de agentes culturais que inovaram o panorama cultural torriense.

O carácter inovador do “Oeste Democrático” e do “Área”, bem como o entusiasmo imprimido, na área da comunicação social local, pelo movimento das rádios locais no final dos anos 80, princípio dos anos 90, influenciaram a novidade que representou, quanto à forma de tratar a informação, a revista mensal “Zona Oeste”, que se editou na década de 90, e o jornal “Frente Oeste”. Este último, encerrado recentemente, tornou-se um dos títulos de maior longevidade no panorama da imprensa torriense.

O conhecimento dos últimos cem anos da sociedade torriense, não pode escamotear o estudo e o conhecimento dos conteúdos de milhares de páginas amarelecidas pelo tempo que guardam milhões de palavras escritas por centenas de homens, muitos deles anónimos, que deram o melhor de si para informar e registar os pequenos e grandes acontecimentos ligados à vida dos habitantes de Torres Vedras.

A eles dedicamos esta breve evocação histórica do jornalismo torriense.

(este texto resulta da adaptação, com algumas correcções e actualizações, de um trabalho por mim publicado nas páginas do jornal “Frente Oeste” em 16 de Abril de 1992, intitulado “A Imprensa Torreense ao longo dos tempos”).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

NUNO AMADO - Um Torriense no centro do "furacão" financeiro.



Foi anunciado esta semana que Nuno Amado, até aqui à frente do Santander Totta, vai substituir Carlos Santos Ferreira na liderança do Millenium BCP.

Nascido e criado em Torres Vedras, Nuno Amado é um caso raro, em Portugal, de alguém que subiu a pulso até ao topo do sempre complexo mundo do poder financeiro.

Se a maioria dos líderes do sector financeiro português chegaram onde chagaram por serem “filho de algo”, por carreirismo político ou pelas mais variadas jogadas maquiavélicas necessárias para acender a esse mundo, Nuno Amado, pelo contrário, chegou onde chegou por mérito próprio.

A economia foi o seu mundo desde a juventude, e o mundo das finanças a sua profissão de sempre.

Ao contrário da imagem dominante dos banqueiros em Portugal, Nuno Amado sempre primou pela discrição.

Para muitos, como eu, que nos cruzámos algumas vezes com Nuno Amado, desde os bancos da escola à Assembleia Municipal de Torres Vedras, a imagem a reter dele é de um homem tolerante e dialogante.

Situando-me eu, desde longa data, nos antípodas políticos e ideológicos do “Nuno”, isso nunca foi impedimento de alimentarmos intermináveis discussões sobre política, num clima de amizade e respeito.

As qualidades de Nuno Amado e a amizade que tenho por ele, não me levam, contudo, a uma atitude de ingenuidade.

Para além das competências e das qualidades pessoais, não deixa de ser significativo que o BCP, considerado por muitos o banco do regime, escolha neste momento para a sua liderança alguém que sendo, no mínimo, simpatizante do PSD, esteja próximo do poder do momento. Sendo ainda de destacar que o substituído, Carlos Santos Ferreira, era conhecido pelas suas ligações ao PS e a personagens como José Sócrates e Armando Vara.

Nuno Amado joga aqui parte da sua credibilidade. Basta ser ele próprio e não se deixar enredar nas malhas do poder político e financeiro para levar a bom termo esta sua tarefa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma Homenagem à Memória de Emílio Costa (1931-2012)

Foi com surpresa que tomei conhecimento, quase uma semana depois, do falecimento de Emílio Luís Costa, ocorrido no passado dia 22 de Novembro.
Emílio Luís Costa, ou “o sr. Emílio”, como carinhosamente era chamado no seio da minha família, foi talvez das primeiras pessoas que conheci fora do círculo familiar, aí pelos anos 60
Com regularidade, nessa época, ele reunia-se com o meu pai à volta da mesa da nossa sala de jantar, juntando gravuras várias e provas de texto que depois, com tesoura e cola, eram montados para dar forma ao “Boletim da Física”. O meu pai era responsável pelo texto e o sr.Emílio pela parte gráfica.
Emílio Luís Costa foi um exímio tipógrafo, numa terra como Torres Vedras onde a actividade de tipógrafo teve grande prestígio. Aliás, foi um antepassado meu, do lado da minha mãe, que fundou, nesta terra, a primeira tipografia em 1884 e que foi responsável pela edição do primeiro jornal torriense, um ano depois.
Dessas reuniões em minha casa ficou muito do meu gosto pelos “papéis”, pela actividade editorial, pelo espaço quase mágico, com aquele cheiro a tinta e aquele ruido das rotativas característicos das tipografias da “era” pré-informática.
O sr. Emílio nasceu em Torres Vedras em 20 de Dezembro de 1931, tendo começado a trabalhar com 11 anos na Tipografia de Victor Cesário da Fonseca, passando depois por outras tipografias, até ter criado a sua própria empresa, a Tipoeste, fundada em 2 de Março de 1973.
Para além da sua actividade profissional, Emílio Costa esteve muito ligado ao associativismo local, principalmente aos Bombeiros de Torres Vedras, instituição fundada pelo seu avô no início do século XX, principalmente como musico da sua Banda, onde ingressou aos 13 anos.
Um outro campo dos seus interesses foi o memorialismo e a divulgação sobre a história local, colaborando activamente no jornal “Badaladas” e noutras publicações locais.
Em 1995 realizou parte do seu sonho de transformar em livro parte da memória da sua rica vivência pessoal nesta vila, ao editar a obra “ESCRITOS DE TORRES VEDRAS”, onde reuniu várias histórias por si vividas, mas onde se cruzam alguns dos mais marcantes acontecimentos históricos dos anos 40 e 50.
A sua obra é tanto mais importante, quanto não existem muitos registos, a não ser os meramente burocráticos, sobre a vida local naquele período. Se Torres Vedras tem um historial rico de publicações periódicas desde 1885, chegando em certas ocasiões, a publicar-se mais do que um título semanal, o período entre a primeira metade dos anoa 30 e o principio dos anos 50 do século passado é um período em que existe um verdadeiro “buraco negro” do memorialismo, do qual a imprensa é um importante reportório.

Em sua homenagem, revelamos aqui uma das passagens daquela sua obra, onde se fala nas condições miseráveis de trabalho a que estavam sujeitos os trabalhadores rurais da região, tema tanto mais actuais quando se houve falar, por aí, de animo leve, na “necessidade de empobrecimento” e de retirar direitos a quem trabalha:
“.. .Vamos recuar no tempo, uns bons pares de anos!...
“Este texto é uma singela homenagem aos "heróicos" trabalhadores rurais, esses ignorados homens que durante décadas e décadas ajudaram, com o seu esforço, suor e lágrimas, ao progresso do país e a alimentar riquezas de muitos senhores, alguns considerados feudalistas.
“Ilustres desconhecidos, esses, a quem poucos davam valor, que lutaram de enxada na mão, sem horário certo de "tantas" horas semanais, sujeitando-se a um horário rígido, de "sol a sol". Usufruindo uns miseráveis 12/15/18$00 diários, mal alimentados, comendo parcas refeições e só depois do feitor ou patrão lhes darem ordem, à sombra de uma árvore ou dalgum qualquer pardieiro, e após des­cansarem um pouco o corpo, entregando-se a pequena sesta, revolviam a terra com uma enxada, preparando-a para a sementeira desejada.
“Nos dias de chuva não trabalhavam, e a jorna era-lhes negada como manda­vam as regras impostas por outros senhores... Se não ganhavam, a maior parte deles não comia! Era o lema infeliz destes trabalhadores.
“E mais...
“Sujeitavam-se a vir à vila oferecer o seu corpo para serem explorados. Era triste ver dezenas de homens, de enxada na mão, vindos a pé e descalços, do Varatojo, Paul, Fonte Grada, Ponte do Rol, Silveira, Louriceira, Cambelas e outras localidades, à espera dos senhores feudais para escolherem os mais aptos para o trabalho.
“Primeiro eram preferidos os mais novos; depois, se necessário, alargava-se a escolha aos mais idosos. Homens de quarenta e mais anos era certo e sabido que seriam os últimos a serem contratados, ou então ficavam ali horas, à espera de alguém que lhes oferecesse trabalho. Muitos, pensando na família, esperavam por uns míseros escudos para a compra do pão. Sujeitavam-se a receber uma jorna muitas vezes à vontade do seu contratante.
“Um dos mais abastados proprietários da região, quando tinha necessidade de homens para trabalhar nas suas propriedades, vinha à "praça" e levava con­sigo todos aqueles que não tinham arranjado patrão, mas... calcule-se, ao preço que ele entendia. Algumas vezes até por metade da jorna que corria na altura! Escravidão, não de negros, mas de homens de raça branca, infelizes por terem nas­cido pobres e nos meios rurais, não tinham outra possibilidade de sobrevivência, que não fosse sujeitando-se à exploração de outros homens (?) da mesma raça.
“***
“Era tão triste e degradante o espectáculo que se oferecia diariamente aos torrienses, ali mesmo no largo da Câmara Municipal, que um dia foi transferido para junto da entrada do lado nascente do Mercado Municipal1.
"A "praça" acabou, e muito bem, por volta de 1954.
"Infelizmente, assistimos, algumas vezes à escolha desses homens. (obra citada, pág. 74).
 
Nos últimos tempos encontrava o “sr. Emílio” com alguma regularidade, frequentando a zona onde moro por viver aqui um casal amigo que ele visitava. Contudo, de há uns meses para cá deixei de o ver com a mesma frequência, até me ter chagado a triste notícia.
Ele contava-me muitas vezes da mágoa que sentia pelo facto de lhe negarem apoio para editar um segundo livro de memórias, que completava aquela primeira obra, onde reunia novas e curiosas “estórias”.
Talvez agora, com justa homenagem a um homem bom de Torres Vedras, que muito amou a sua terra, que se interessou em passar à escrita as suas recordações de uma vida rica em acontecimentos, haja por aí alguém interessado em completar o seu sonho.