sexta-feira, 29 de junho de 2012

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da Imprensa Local (1885-1890) - 6



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A situação das vinhas torrienses e os trabalhos da via- férrea, continuavam a ser os temas dominantes da imprensa local de então.

Comerciantes, franceses afluíam a Torres Vedras para comprarem os “saborosos e rijos tintos (…) para fabrico do «medoc» (...) Estes vinhos [de Torres Vedras] satisfazem, como nenhuns outros os requisitos exigidos hoje pelo comércio francês para fazer face à enorme falta que a França tem experimentado, e preencher a lacuna que a phylloxera deixou nas suas vastas plantações”.

Aliás, a «phylloxera» continuava a preocupar os proprie­tários locais. Ao mesmo tempo que eram divulgados os resultados de um novo tratamento para combater a «phylloxera» experimentado nas propriedades de Luis Martins da freguesia de S. Mamede da Ventosa, as notícias sobre o avanço daquela doença das vinhas alarmavam, cada vez mais, os proprietários torrienses:
“No concelho de Torres a área invadida é já este ano mui to maior, o que era de esperar, porque das 54 propriedades invadidas no ano passado foram tratadas 8”.

Mas mesmo assim, e de um modo geral, era “prometedor o aspecto das vinhas desta região”, actividade onde os “salários dos operários têem regulado, termo médio, por 360 réis”.
Entretanto prosseguiam as obras do caminho-de-ferro. Durante o mês de Junho anunciava-se estarem “abertos os alicerces da estação de Runa e quase completos os aterros e cortes d’ali até à estação d’esta villa”.

“A dois Kilómetros  d'aqui no sítio denominado Azenha do Cabaço, já está perfurado de lado a lado o túnel de 75 metros e vai em grande adiantamento a perfuração dos outros dois tunneis”.

“Na quinta-feira, 11, houve vistoria judicial para a expro­priação de 5:400 metros quadrados de terreno pertencentes ao St. José Norberto Correia Lopes, da Feliteira(...) A vistoria não chegou a efectuar-se em consequência de se terem as partes acordado, recebendo o Sr. Correia Lopes a quantia de réis 2:450$000”.

Preocupante continuava a epidemia de Varíola, revelando- -se com grande intensidade na Maceira onde “Em dez dias foram atacadas 46 pessoas de ambos os sexos, das quais sucumbiram bastantes à violência da terrível moléstia”.

Durante este mês seria anunciada a abertura de um novo estabelecimento de relojoaria, ourivesaria e máquinas de co­zer, no largo de S. Pedro, e propriedade de  Francisco dos San­tos Diniz.

Mas, então como hoje, um dos grandes acontecimentos do mês de Junho era a Feira de S. Pedro. E é com a notícia deste acontecimento,  narrado pela imprensa da época, que escerramos a crónica deste mês: 

“A circunstância dos dois dias santificados, 28 e 29, fez antecipar um dia a afamada feira de S. Pedro d'esta villa, na pitoresca  alameda e explanada da Porta da Varzea.

“N’esses locais havia um comprido arruamento de barracas onde esteve  exposta à venda uma infinita variedade de objectos de utilidade e de recreio, fanqueiros, ourives, quinquilheiros, louceiros, botequins, restaurantes, loteria de boboloques, caldeiros, taxos, frutas, etc..

“Não faltou companhia de declamação que construiu expressamente um barracão de teatro e se propõe demorar algum tempo depois da feira.

“A feira foi bem policiada, não havendo, felizmente a la­mentar qualquer incidente desagradável”.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Lançamento do Livro sobre a História da Física de Torres

A Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras, uma das mais antigas e prestigiadas associações desta cidade, vai conhecer finalmente a sua monografia.
Com coordenação de Carlos Guardado Silva e Cecília Travanca,o livro que vai ser lançado amanhã, dia 26 de Junho, pelas 19.30,na sede daquela associação, conta a história de uma associação quase centenária, com uma longa história que por vezes se confunde com a própria história da cidade, nas suas componentes política, desportiva e cultural.
Pela qualidade dos seus autores é uma obra a não perder.

terça-feira, 19 de junho de 2012

UM ADEUS À "CASA RUIM" QUE É UM "ATÉ BREVE" MAS DOUTRO MODO

 (FOTOGRAFIA: ANA ISABEL MIGUEL)
A "Casa Ruim" foi uma das livrarias mais originais de Torres Vedras e arredores...
Foi um espaço que esteve muito à frente do seu tempo e por isso acabou por encerrar precocemente.
Felizmente a Vanessa e o João Faustino, mais a bela gata Simone, vão continuar a ajudar-nos a escolher e a encontrar o bom gosto literário a que nos habituaram, que AQUI na sua página do Facebook, quer no site www.casaruim.com, quer ainda como uma banca na Feira Rural.
Aqui ficam fotografias, retiradas da sua página do facebook, que ficam como recordação daquele espaço. (a foto de cima é da autoria da minha amiga Ana Miguel).









(FOTOGRAFIAS: VANESSA EFFE)

domingo, 17 de junho de 2012

PEDRO LAMY VENCE EM LE MANS (categoria LMS GT AM)

O piloto adoptivo de Torres Vedras (e meu saudoso ex-aluno), Pedro Lamy venceu em Le Mans, na categoria GTE.
 
Mais um fantástico triunfo de Lamy que volta assim a colocar o nome de Portugal no mais alto patamar do desporto motorizado internacional.

Numa corrida imprópria para cardíacos, Pedro Lamy impôs toda a sua experiência para levar o Corvette C6-ZR1 da Larbre Competition à vitória da categoria LMS GT AM.




terça-feira, 12 de junho de 2012

O SANTO ANTÓNIO EM TORRES VEDRAS.

Logo à noite há arraial de Santo António na "Praça da Batata", a partir das 20h, cujos rendimentos, com comes e bebes e venda de manjericos, revertem a favor das actividades sociais do Centro Paroquial de Torres Vedras e das obras de manutenção da Igreja da Graça.
Mas é no Varatojo que a tradição se mantem mais acesa.

Podem ficar a saber mais sobre as festas do Santo António no concelho de Torres Vedras consultando os artigos que, neste blogue, dedicámos ao tema em anos anteriores.Basta clicar AQUI .

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da Imprensa Local (1885-1890) - 5



Maio de 1885

As vinhas e o caminho-de-ferro continuavam a ser os principais motivos noticiosos deste mês.
Como curiosidade registe-se parte de uma carta de António Batalha Reis sobre o vinho torriense: “(...) Os vinhos de Torres Vedras, conforme o tratamento que lhes fazem, têem tanta facilidade em se converterem em bom Bordéus, como em fino Borgonha.
“Esta dupla disposição, que não se encontra em região nenhuma do nosso paíz, fora da região torreense; conservará sempre as vinhas de Tones Vedras, uma fama, que lhes garantirá uma procura certa, e um conceito vantajoso e seguro devido ao seu merecimento real”.

Por sua vez, os trabalhos no caminho-de-ferro revelavam dramaticamente as condições de vida dos operários que aí trabalhavam, as quia provocaram mesmo um motim: “Na terça-feira à noite num magote de operários da via férrea, que andavam sob as ordens do Sr. Martins [ou antes, Marty], engenheiro-empreiteiro francês, morador na quinta das Fontainhas, subúrbios desta villa, queixando-se de que não eram pagos conforme o ajuste, e que o mesmo empreiteiro lhes recusava os pagamentos, correram, noite fechada, àquela casa de habitação, e assaltaram-na com grandes berratas sediciosas. Uma grande parte das vidraças foi feita em pedaços; e o empreiteiro fugiu por uma porta das traseiras da casa”. Mas o mesmo jornal, revelando um espantoso sentido de compreensão pelos conflitos sociais, concluía que “os operários têm tido bastante rasão de queixa à pontualidade de pagamento; e se o caso assim continua, queira Deus que não tenhamos a lamentar algum infausto sucesso”.

É também deste mês a primeira notícia acerca da existência em Torres Vedras de um fotógrafo profissional. Tratava-se de Guilio Zanetta “habil photographo italiano, que , tenciona demorar-se alguns mezes nesta villa.
“O “atelier” está sendo construído no largo de S. Tiago n.° 22, local muito apropriado, Central e bem disposto”.

O Verão aproximava-se e a esse facto não seria de estranhar os preparativos da “Sociedade lyrica 24 de Julho” tendentes à sua estreia pública programada para o coreto do largo da Graça no dia 24 de Julho. Dirigia os ensaios o Sr. Costa Pereira.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Laurie Anderson AMANHÃ em Torres Vedras

Laurie Anderson vai actuar amanhã no Teatro-Cine Ferreira da Silva. Coma lotação esgotada, aqui fica ums pequena amostra da sua musica/performance:

quinta-feira, 17 de maio de 2012

TEM HOJE INÍCIO A 15ª EDIÇÃO DO ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA "TURRES VETERAS":


O tema deste ano do Turres Veteras é "Judiarias, Judeus e Judaísmo".
As conferências vão decorrer até Sábado, realizando-se no auditório dos Paços do Concelho de Torres Vedras, mas a cerimónia de inauguração tem lugar esta noite no Teatro-Cine Ferreira da Silva, antecedendo a actuação da cantora israelita Mor Karbasi.
O Programa oficial é o seguinte:

Dia 17 de Maio de 2012
(quinta-feira)
21h.00 – Cerimónia de Inauguração
21h.30 - A linguagem antiga e a música dos judeus exilados de Espanha
Mor Karbasi
(Jerusalém)

Dia 18 de Maio de 2012
(Sexta-Feira)
10h.00 – Comunicação "Horizontes do Judaísmo,
no olhar português de Isaac Abravanel" por José Augusto Ramos (Universidade de Lisboa)
10h.30 – Comunicação "Diásporas judaicas no tempo de Jesus" por Nuno Simões Rodrigues (Universidade de Lisboa)
11h.00 – Comunicação "As sinagogas no mundo romano" por Vasco Gil Mantas (Universidade de Coimbra)
11h.30 – Debate
11h.45 - Intervalo
12h.00 – Comunicação "Os Judeus na legislação visigoda" por Pedro Gomes Barbosa (Universidade de Lisboa)
12h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Tomar" por Manuel Sílvio Conde (Universidade dos Açores)
13h.00 – Debate
13h.15 – Almoço
15h.00 – Comunicação "A judiaria medieval da Guarda" por  Rita Costa Gomes (Towson University)
15h.30 – Comunicação "A presença judia na Estremadura medieval portuguesa" por Saul António Gomes (Universidade de Coimbra)
16h.00 – Comunicação "Arqueologia dos judeus peninsulares: o exemplo do Alentejo e da estremadura espanhola" por Carmen Ballesteros (Centro de Investigação em História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora; Escola Secundária Gabriel Pereira - Évora)
16h.30 – Debate
16h.45 – Intervalo
17h.00 – Comunicação "A judiaria medieval de Óbidos" por Manuela Santos Silva (Universidade de Lisboa)
17h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Freixo de Espada à Cinta" por António Balcão Vicente (Universidade de Lisboa)
18h.00 – Comunicação "Comunidade Judaica de Belmonte: esquecimento e memória" por Maria Antonieta Garcia (Universidade da Beira Interior)
18h.30 – Debate.

Dia 19 de Maio de 2012
(Sábado)
10h.00 – Comunicação "A comunidade judaica de Lisboa na Idade Média" por Carlos Guardado da Silva (Município de Torres Vedras e Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
10h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Lagos" por José António de Jesus Martins (Município de Lagos)
11h.00 – Comunicação "As comunidades judaicas da Beira Interior na Idade Média" por Isaura Cabral Miguel
11h.30 – Debate
11h.45 - Intervalo
12h.00 – Comunicação (Rua da Antiga Judiaria) "Os judeus e a judiaria de Torres Vedras até à expulsão de 1496" por Ana Maria Rodrigues (Universidade de Lisboa)
12h.30 – Cerimónia alusiva à presença da comunidade judaica torriense
13h.00 – Almoço
15h.00 – Comunicação "A presença judaica em Alcácer" por Maria Teresa Lopes Pereira (IEM - FCSH da Universidade Nova de Lisboa)
15h.30 – Comunicação "Cristãos-Novos e Movimentações Monetárias: Emprestar, Fiar, Penhorar e Hipotecar" por Isabel Drumond Braga (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
16h.00 – Debate
16h.15 – Intervalo
16h.30 – Comunicação "1912-2012: o centenário da legalização da Comunidade Israelita de Lisboa" por Jorge Martins (Centro de História Contemporânea do ISCTE)
17h.00 – Comunicação "Entre a história e a lenda: A memória judaica em Portugal ou o desconhecido Portugal judaico" por Maria José Ferro Tavares (Universidade Aberta)
17h.30 – Debate
18h.00 - Encerramento: Lançamento das Actas "Turres Veteras XIV - História da saúde e das doenças".

COMISSÃO DE HONRA
O Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras : Carlos Manuel Soares Miguel
O Presidente da República : Aníbal Cavaco Silva
O Secretário de Estado da Cultura : Francisco José Viegas
O Embaixador de Israel : Ehud Gol
O Presidente dos Conselhos Directivo e Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: António Maria Maciel de Castro Feijó
A Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras: Ana Umbelino
O Presidente da Turismo Oeste: António Carneiro
Secretário Geral da Rede Judiarias de Portugal: Jorge Patrão

COMISSÃO EXECUTIVA
 Pedro Gomes Barbosa (Presidente)
António Balcão Vicente
Carlos Guardado da Silva
Cecília Travanca
Célia Reis
Maria Manuela Catarino
Pedro Marujo do Canto
Sandra Rodrigues Silva
Vasco Gil Mantas
Venerando Aspra de Matos

Organização
 Câmara Municipal de Torres Vedras & Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Parceria
 Rede Judiarias de Portugal
 Cátedra de Estudos Sefarditas

segunda-feira, 14 de maio de 2012

DADOS ESTATÍSTICOS MUNICIPAIS NA PORDATA

0 portal PORDATA divulgou recentemente um novo conjunto de informações estatísticas sobre os municípios portugueses, nas mais variadas áreas e sectores.
Nesse site podem aceder a vários dados sobre o concelho de Torres Vedras. Não funcionando de um modo muito intuitivo, é preciso procurar de forma exaustiva, mas vale a pena, pois ficamos com um interessante retrato sócio-económico do nosso concelho.
Devem procurar os dados de Torres Vedras, desdobrando-os desde "Municipios", "Centro", "Oeste", "Torres Vedras".

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da Imprensa Local (1885-1890) - 4


ABRIL 1885

Nesse mês iniciaram-se as obras do então “novo matadouro” à Cruz das Almas.
Enquanto Isso podíamos seguir pelo jornal da época a evolução do estado das vinhas: “O trabalho das cavas está tomando grandíssimo desenvolvimento, apesar dos elevadíssimos preços dos salários, alguns dos quais já têem regulado por 550 e 600 reis diários”.
No princípio do mês o ambiente era de pessimismo em relação à evolução dos trabalhos do caminho-de-ferro que, “pelos jeitos que leva, promete demorar-se até às Kalendras gregas. A gente que anda trabalhando é tão diminuta que mais parece destinada a conservar o que está feito do que a prosseguir na construção. Os operários, segundo nos consta, são mal pagos, o que por vezes tem originado desinteligências entre eles e os empreiteiros”.
Mas lá para a segunda metade do mês as coisas pareciam ir melhorar pois tinham desembarcado “em Alhandra uns 500 operários com destino à construção da linha”.
Já na última semana do mês mais um sinal que a obra ira avançar: “realizaram-se as expropriações dos terrenos para o local da estação do caminho de ferro d'esta vila. O preço dos terrenos foi o seguinte:
“Às Sras. Tavares, 450$00 réis, ao Sr. José Avelino Nunes de Carvalho, 2.600$00 réis; ao Sr. Molke 1.700$00 réis; ao Sr. João Victorino Pereira da Costa, 4.300$00 réis.»
Entretanto as más condições sanitárias do concelho e a precária medicina da época levavam  a que a Varíola continuasse “grassando na vila e aldeias convizinhas”.
Correu assim o mês de Abril, mês em que se anunciava a chegada do rouxinol que “à tardinha, nos ulmeiros do Sizandro, ou nas maceiras em flor que cobrem os vinhedos, a pequena avesinha solta, em desafio com as outras, o canto variadíssimamente modulado e vibrante que penetra o coração de doce melancolia, e nos faz cismar nos sonhos do passado e nas ilusões do futuro”.

terça-feira, 24 de abril de 2012

UMA HOMENAGEM A DOIS TORRIENSES: Libertação dos presos políticos


Este documento mostra a libertação dos presos políticos no pós 25 de Abril.
Nele é possível ver dois torrienses, Pedro Fernandes e Maria Lucília Miranda Santos, o primeiro libertado de Caxias nesse dia, um lutador contra o fascismo, e a segunda a única advogada portuguesa que defendeu os presos políticos.
Ambos representam o que há de mais genuino na luta anti-fascista e a recordação desse momento e da sua presença é um singela homenagem a todos os torrrienses que contribuiram para liberdade e a democracia.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

TORRES VEDRAS E O 25 DE ABRIL - Um Pouco de História,com memória...


25 de Abril -  Regresso ao Futuro
Por Venerando Aspra de Matos

“TORRES VEDRAS: 15000 habitantes na vila e 60 000 no concelho (...) 412 km de rede de comunicações; 68 000 000 de litros de produção vinícola, 10 000 000 kg de trigo, 14 000 000 kg de batata; um comércio poderoso e uma indústria em desenvolvimento; [a Casa Hipólito empregava então 1028 pessoas] 4000 alunos diariamente nas escolas da vila”(1).

Estes alguns dos índices que caracterizavam a então vila de Torres Vedras em 1973, uma comunidade a quem faltava «o golpe de asa que torna perenes ou inesquecíveis as iniciativas. Aquele tipo de vontade colectiva que ergueu uma Colónia Balnear Infantil, uma Física, um Cineclube e que, ainda hoje, realiza um Carnaval. O que acontece para lá da rotina é fruto de vontades isoladas e surge como sucesso do acaso. A carcaça está vazia de humanismo e de interioridade. Onde está o rasgo, a lucidez, a alegria, a juventude que transforma as pequenas coisas oferecendo-lhe um significado social duradoiro? Onde está o futuro e que futuro?” interrogava-se o articulista, António Augusto Sales, sobre Torres Vedras, uma terra para quem «até os jovens abdicam à nascença” (2).
No início de 1974, eram mais ás duvidas que as certezas, perante a evidente derrocada da chamada primavera marcelista, o arrastar, sem soluções, da guerra ultramarina, e o ainda quente e frustrante processo eleitoral de 1973.
Num ano marcado pela crise económica, evidente nas restrições impostas ao uso da gasolina e no seu aumento de preço, notava-se um crescente mal-estar na sociedade portuguesa. Nem a censura conseguia disfarçar a falência do regime.
O debate sobre o IV Plano de Fomento, para vigorar de 1974 a 1979, permitia alguma intervenção crítica que deixava passar algum descontentamento sobre a realidade torriense.
O Dr. Afonso de Moura Guedes, num arti­go intitulado “Torres Vedras - o desenvolvimento que não se fez” (3), interrogava-se porque razão tinha sido o desenvolvimento de Torres Vedras marginalizado naque­le Plano, e concluía:
“Administrar, aos tem­pos que correm, exige lar­gueza de perspectivas, imagi­nação, capacidade criadora, ia a dizer audácia.
“(…)
“Em relação ao nosso meio local, creio que, tudo isso, teria exigido a realiza­ção prioritária de três polí­ticas globais: uma política urbanística e de solos; uma politica rodoviária; uma política industrial.
“Uma politica urbanísti­ca e de solos que, corajosa­mente, pusesse cobro ao que há de sufocante e de caótico no desordenado crescimento da vila e a essa vergonhosa especulação de terrenos, que aqui ocorre, sacrificando toda a população ao proveito de muito poucos.
“Uma política rodoviária que estabelecendo toda uma rede efectiva de ligações, no espaço inter-regional, permitisse uma cómoda e rápida circulação interna, de pessoas e de mercadorias, assegurando, deste modo, a Torres Vedras, a posição, a que tem direito, de pólo de desenvolvimento do Oeste.
“Uma política industrial que, começando por definir uma zona industrial, soubesse ordenar, depois, toda a estratégia conjugada de acções, susceptíveis de criarem condições favoráveis à implantação de novas indústrias, no nosso meio.
“(…)
“Pois foi isso tudo o que não se fez, conto reflecte o Plano de Fomento. O desenvolvimento que não se fez. Que não se soube construir como projecto de futuro. O comboio que mais uma vez se perdeu”
As animadas sessões do CDE da campanha eleitoral de 1973 foram, para muitos então jovens como eu, o primeiro contacto com a realidade política desse tempo. Foi essa a primeira vez na minha vida que encarei com a polícia de choque em Torres Vedras. Esse encontro com a polícia de choque repetir-se-ia a 20 de Janeiro de 1974, frente ao cemitério de S. João, quando da romagem à campa do antifascista, natu­ral de Paul, Fernando Vicen­te. Surpreendentemente o convite para que o povo de Torres Vedras participasse nessa Homenagem seria pu­blicada nas páginas do jornal «Badaladas»:
“Ali, entre ciprestes, pe­las 11 horas do dia 20 de Janeiro, num minuto de re­colhimento, a vida não pa­recerá aquele vazio do quo­tidiano, sem ideais, apenas virada para a materialida­de da exixtência.
“Fernando Vicente mere­ce a simples homenagem póstuma que lhe vai ser tri­butada» (4).
Foram alguns os torrienses com coragem para com­parecer, mesmo assim menos que os “pides” e polícias de choque, aí também presentes, mas por “razões” diferentes.
Também as escolas se­cundárias do concelho co­nheciam pela primeira vez al­guma agitação política através da distribuição clandestina de propaganda política, motivando interrogatórios a alunos e professores «suspeitos» e a intervenção de elementos da PIDE na vida escolar. Terá mesmo sido elaborada uma lista para efectuar prisões a 1 de Maio, o que só não aconteceu graças ao 25 de Abril.
Algumas colectividades locais conheciam igualmente alguma animação político- cultural. Tais foram os casos do Cineclube e do CAC.
Na noite de 24 de Abril, muitos de nós fomos para casa tardiamente, depois de assistirmos a mais uma sessão do cineclube no Teatro-Cine, o filme de Jerry Lewis “O morto era outro”, longe de imaginarmos o que se preparava para essa madrugada.

Fui acordado pelo meu pai às 8.30 horas da manhã de 25 de Abril, eufórico com as primeiras notícias do dia. Durante todo o dia foi um rodopio entre a escola, entretanto encerrada, a casa de amigos e a minha casa, ocupando algum tempo a gravar os comunicados militares da rádio. A televisão só iniciaria a sua emissão pelas sete horas da tarde. À noite realizou-se um primeiro comício no Largo da Graça, onde ainda se manifestava algum receio sobre o desfecho do movimento militar.

“Quando olho o longo caminho percorrido cheio de ásperos reveses, perseguições e mediocridades; quando, subindo ali ao For­te, te contemplo crescendo em todos os sentidos caoti­camente envolta pelo des­prezado Sizandro; quando imagino o que és e o que poderias ter sido, eu me entristeço, Torres Vedras.
“Vila verde, pintada a esperança pelos vinhedos, doirada pelo recorte impar das tuas penedias bravias em Santa Cruz; retalhada impiedosamente pelos crimes do mau urbanismo imposto por certos conhecidos pimpões ultramontanos, quase te desconheço Torres Vedras.
“Vila calada e cansada por anos de paz podre, das divisões estéreis às mesas dos cafés, onde raramente qualquer pedra agitava a calma estagnação dos teus sonhos adormecidos, pálida vila estremenha onde através da inoperância dum arranjismo organizado ias crescendo angustiada sob um colete-de-forças tecido de mentiras, ameaças e subornos, Torres Vedras.
“Hoje é livre”. (Venerando Ferreira de Matos — “Torres Vedras e o Futuro” in BADALADAS de 4-5-74).

Na tarde de 26 de Abril as ruas de Torres Vedras eram percorridas por uma grande manifestação popular de aclamação e apoio ao movimento militar.
“Em 26 de Abril quando ali na Avenida 5 de Outubro o Povo bom e simples de Torres Vedras dava largas à  sua alegria, verificou- se a sua maturidade, devoção e patriotismo.
“Maturidade que sempre foi negada por aqueles que nem sempre serviram com dignidade os seus postos.
“Antes pelo contrário, deles se servindo para os seus interesses pessoais” (5).
A 28 de Abril, na sala do CAC, reunia-se a Comissão Concelhia da CDE, inician­do-se aí a transferência do poder concelhio para as for­ças democráticas, da qual sairia uma primeira comissão para preparar essa mudança política e um manifesto ao povo de Tones Vedras, onde eram abordadas algumas das situações mais gravosas para o concelho, herdadas do regi­me deposto:
“Os graves problemas sempre adiados e jamais re­solvidos, como os da electri­ficação, distribuição de água canalizada, abertura de caminhos e estradas nas aldeias e aglomerados do Concelho, ou de um plano de urbanização jamais pos­to em execução, jamais cumprido, com relevância para o tráfico de imóveis feito por uns tantos que sempre se serviram das Câ­maras Municipais no seu directo interesse pessoal, o acumular de desonestas ri­quezas pela valorização ar­tificial de terrenos (por exemplo os de Santa Cruz), pelas «prioridades» dadas ao asfaltamento de estradas e ruas onde os apaniguados do regime tinham as suas moradias e interesses parti­culares em detrimento dos interesses colectivos; (...) a poluição do Sizandro lesiva do interesse das populações, com relevância para as de Runa, em que certas empresas particulares têm graves responsabilidades de conivência com organismos “ainda” oficiais;(...)”(6).
A transferência do poder concelhio não foi isenta de conflitos e situações caricatas.
Logo a 29 de Abril, o executivo camarário ainda em funções reunia-se e apro­vava, numa manobra de puro oportunismo político, uma moção de adesão ao progra­ma da Junta de Salvação Na­cional, atitude logo aí denun­ciada por vários torrienses que assistiam a tão caricata reunião. Aquela Câmara reu­niria pela última vez a 13 de Maio, continuando a delibe­rar como se o mundo à sua volta tivesse parado, talvez ainda esperançada no resultao da operação de branquea­mento tentada por alguns dos seus membros, num conjunto de artigos publicados nas pá­ginas do “Badaladas”, tenta­tiva desde logo desmascarada por vários democratas de sempre, de entre os quais An­tónio Augusto Sales:
“Quem na devida altura não teve, pelo menos, a co­ragem de dizer NÃO, per­deu a oportunidade. Isto é, quem, na ex-vereação não teve a coragem de se demi­tir depois de verificar a im­possibilidade de fazer um trabalho equilibrado per­deu a oportunidade de se descomprometer com as irregularidades e arbitrarie­dades (...) É preciso que to­dos nos convençamos que Portugal mudou mesmo. É preciso que não nos deixe­mos iludir com histórias da carochinha. Durante qua­renta e oito anos muita gen­te passou fome porque não quis colaborar; muita gente perdeu anos de vida nas ca­deias porque não quis cola­borar; muita gente viveu uma existência de sobres­salto porque não quis cola­borar; muita gente perdeu empregos, família, glórias, dinheiro, comodidade, sos­sego e liberdade apenas porque se negou a colabo­rar. Hoje, no segundo mês da libertação, não podemos permitir que sejam confun­didos estes com os outros. Seria criminoso.” (7).
Num plenário popular rea­lizado a 1 de Maio no campo de jogos do Sport Clube Uni­ão Torreense, foi eleita uma comissão para gerir a Câmara, constituída por 18 pessoas. Dois dias depois essa comis­são reuniria com o capitão Ví­tor Manuel Ribeiro, delegado da Junta de Salvação Nacio­nal. Por sugestão deste, aque­la comissão foi reduzida para 9 elementos que ficaram a constituir o elenco da Comis­são Administrativa Munici­pal, sendo eleito para a presi­dir Francisco Manuel Fernandes, coadjuvado por António Leal d’Ascensão, Jo­ão Carlos, José do Nascimen­to Veloso, Duarte Nuno Pinto, Manuel Carlos Penetra, José Sérgio Júnior, Marcos Santos Bernardes e Carlos Augusto Bernardes. Esta comissão ad­ministrativa tomaria posse do seu cargo a 15 de Maio no Governo Civil de Lisboa e reuniria oficialmente pela pri­meira vez a 20 de Maio.

“Depois da euforia dos cravos vermelhos, de reuniões contínuas e esclarecedoras, urge que se faça o ponto da situação. O trabalho espera-nos. Vamos a ele!
“(…).
“À inflação da palavra terá de suceder o estudo dos problemas e a respecti­va solução às realidades que nos cercam.
“Longas milhas come­çam com o primeiro passo — diz um ditado chinês.
“Pois os primeiros passos estão a ser dados com fir­meza e as longas milhas se­rão vencidas através do Tempo, sem o qual nada de duradoiro se pode fazer.” (8).
Os dados do futuro, estavam  lançados!

NOTAS:
(1)      SALES, António Au­gusto — “Das muitas é vari­adas leituras que alguns acontecimentos de 1973 po­dem oferecer (...)”, In BA­DALADAS de 16 de Março de 1974.
(2)         Idem,  idem.
(3)      MOURA GUEDES, Dr. Afonso de — “Torres Vedras — o desenvolvimen­to que não se fez”, in BA­DALADAS de 26 de Janeiro de 1974.
(4)         “Romagem à campa de Fernando Vicente-Convite”, in BADALADAS de 19 de Janeiro de 1974.
(5)     MATOS, Venerando Ferreira de — “Torres Vedras e o Futuro», in BADALADAS de 4 de Maio de 1974.
(7)    SALES, António Au­gusto— “Saber com quem es­tivemos para saber com quem estamos”, in BADALADAS de 29 de Junho de 1974.
(8)       MATOS, Venerando Ferreira de — “Nortadas”, in BADALADAS de 27 de Ju­lho de 1974.

(este texto foi publicado no semanário Frente Oeste, em 21 de Abril de 1994).