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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Lançamento Bibliográfico Sobre as Invasões Francesas, e o seu impacto na região de Torres Vedras

Cristina Clímaco é investigadora em Paris e tem-se dedicado ao estudo da História Contemporânea.

Natural do concelho de Torres Vedras, não tem esquecido nos seus estudos a História desta região.

Uma das suas obras fundamentais é um estudo académico sobre as invasões francesas , que, para além de não estar traduzido para português, estava inédita e era apenas conhecida por alguns.

Em boa hora a Câmara de Torres Vedras, por iniciativa do Arquivo Histórico liderado pelo Carlos Guardado, decidiu desafiar Cristina Clímaco a editar o seu estudo, que está na base deste lançamento que terá lugar amanhã, Sábado, 9 de Outubro de 2010, pelas 18 Horas, no auditório dos Paços do Concelho de Torres Vedras.

Integrada nas Comemorações do bicentenário, esta é mais uma importante e enriquecedora iniciativa para o conhecimento da História local e nacional.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Um Moinho nas defesas das Linhas de Torres

Rui Prudêncio escreve AQUI sobre um dos moinhos que fez parte das Linhas de Torres, o moinho do forte de S. Vicente.

terça-feira, 23 de março de 2010

Descendente de Wellington visita as Linhas de Torres Vedras.

(Duque de Wellington, aliás Lord Douro, regressa às Linhas de Torres - Foto Público)

Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.
O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:

"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão



Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo. Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
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Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.

É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.

São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.

As invasões francesas

Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.

Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.

Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.

Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...

A história a cavalo

Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."

Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."

O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.

Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.

É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"

Uma guerra moderna

"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."

A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."

Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.

É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.

Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."

Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".

domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Itinerante" - "Por Trilhos das Invasões Francesas"

Foi recentemente editada uma nova revista, “Itenerante”, cujo primeiro número, relativo ao período de Nov. 2009 – Fevereiro de 2010, é integralmente dedicado às “Invasões Francesas”.

É uma revista de pedestrianismo e caminheiros que destaca, como tema desta edição, o título genérico “Por trilhos das Invasões Francesas”.

Começa com uma excelente selecção fotográfica de lugares e sítios relacionados como tema, entre os quais a Serra do Socorro. Vários textos abordam assuntos sobre o tema, como um sobre o sistema de comunicações usado na época ( o célebre “telegrafo de bolas”), texto este baseado no estudo de Henrique Vieira s, outro sobre o tipo de fardamento do soldado português de então, um outro sobre o papel das invasões francesas “na génese do Portugal Contemporâneo” (acompanhado por uma cronologia exaustiva sobre os acontecimento de então) e uma proposta de visita aos “campos de batalha da guerra peninsular” da autoria de António Ventura.

Uma reportagem sobre a ligação da Quinta da Póvoa àqueles acontecimentos e uma entrevista com Maria Zulmira Castanheira, que dedicou um estudo de investigação sobre os testemunhos ingleses da época, um texto do embaixador inglês em Portugal sobre a actualidade do tema, e uma reportagem sobre as localidades da região a norte de Lisboa na actualidade, completam o essencial dos artigos.

Como não podia faltar numa revista de caminheiros, são propostos vários roteiros pelas regiões referidas, com destaque para dois trilhos no concelho de Torres Vedras, um “da foz do Sizandro a Torres Vedras” e outro da “Enxara do Bispo à Serra do Socorro”. Os outros trilhos propostos são um “da Serra do Pilar à Ribeira” do Porto, outro “do Luso á Serra do Buçaco”, um “da Roliça ao Monte do Picoto” , outro “de Sobral de Monte Agraço a Pero Negro” e ainda outro de “S. Julião ao Zambujal”. É ainda sugerido um “micro trilho” em Almeida.

Entre outros temas de interesse, destaca-se ainda um espaço dedicado à gastronomia da região e sugestões de leitura de obras sobre as invasões e a sua época.

O tema da próxima edição da revista, a sair em Março, é sobre os Faróis.

Para saber mais sobre essa revista, podem consultar o seu site AQUI.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ORDENS DO DIA DE BERESFORD


VER NO NOSSO BLOGUE PEDRAS ROLANTES MAIS UM RESUMO DAS ORDENS DO DIA DE BERESFORD, REFERENTES A DEZEMBRO DE 1809

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Comemorações do Bicentenário (Notícia do Público)


(Fotografia – Luís Balteiro –Vestígios de uma velha estrada militars -  Público)


"Bicentenário das Linhas de Torres começa a ser celebrado em Sobral de Monte Agraço

In Público de 16.11.2009 - Por Jorge Talixa

"As comemorações oficiais do bicentenário das Linhas de Torres, estrutura defensiva constituída por 177 fortes e redutos que impediu as tropas francesas de Napoleão Bonaparte de invadirem Lisboa em 1811, arrancam, na próxima quinta-feira, em Sobral de Monte Agraço. As cerimónias, que serão presididas pelo presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, incluem uma sessão evocativa do início da construção das Linhas de Torres, uma conferência sobre a importância desta estrutura defensiva e a apresentação do programa da Plataforma Intermunicipal das Linhas de Torres.

"Liderado pelo marechal inglês Wellington, quando já se desenhava uma nova invasão francesa do território português, o processo de construção das Linhas de Torres iniciou-se em Novembro de 1809 e ficou concluído cerca de 10 meses depois. Erguida em "segredo", esta rede de fortes, redutos e baterias estendia-se por duas linhas principais compreendidas entre a zona do Tejo (Alhandra) e a costa atlântica e incluía duas linhas mais pequenas nas zonas de Oeiras e Almada. "Estrategicamente localizadas no alto das colinas, reforçando os obstáculos naturais do terreno", estas fortificações "controlavam os acessos principais para a capital" e as Linhas de Torres são referidas por muitos especialistas como "um dos mais eficientes sistemas de fortificação no campo da história militar".

"Certo é que, logo em 1811, as Linhas de Torres tiveram um papel decisivo. Contando com o empenho das populações - que sacrificaram os seus bens para que o exército napoleónico não tivesse condições para se fixar - e com o desconhecimento pelos franceses da existência desta barreira defensiva, as tropas anglo-portuguesas conseguiram travar a sua progressão e obrigaram o invasor a retroceder.

"As cerimónias de quinta-feira são organizadas pela PILT e pelo Exército português e realizam-se num pequeno município do coração do distrito de Lisboa onde se situam importantes vestígios das Linhas de Torres, como o forte de Alqueidão e a quinta onde Wellington estabeleceu o seu quartel-general. Incluem uma recepção com guarda de honra a Jaime Gama na Praça do Município, uma cerimónia em honra dos que tombaram no campo de batalha e o descerramento de uma placa evocativa do início da construção dos fortes e redutos das Linhas de Torres.

"No cine-teatro de Sobral de Monte Agraço realiza-se a sessão solene evocativa, que inclui intervenções da câmara local sobre os projectos da Plataforma Intermunicipal das Linhas de Torres, uma conferência sobre "As Linhas de Defesa a Norte de Lisboa durante a Guerra Peninsular" e alocuções de Jaime Gama e do chefe de Estado-Maior do Exército.

"No quadro dos projectos que a PILT pretende levar a cabo deverá ser criada uma rota histórica, que deverá ficar concluída no final do próximo ano e que pretende vir a atrair turistas e estudiosos britânicos, franceses e espanhóis, atendendo ao envolvimento que estes povos tiveram na Guerra Peninsular".

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Discurso Do Sr. Presidente da República em Torres Vedras



(irónicamente, "Napoleão" também esteve presente... Fotografia do Jornal Badaladas)

Por ocasião da abertura solene das comemorações do bicentenário da construção das Linhas de Torres, que teve lugar em Torres Vedras no passado dia 11 de Novembro, um dos momentos altos foi o discurso pronunciado pelo Sr. Presidente da República.
O interesse do mesmo e o seu significado histórico levou-nos a solicitar à Presidência da República uma cópia do mesmo, que nos foi facultado hoje, por intermédio da Dr. Carla Marisa Brito, da Biblioteca da Presidência, e cujo conteúdo transcrevemos de seguida:


Discurso do Presidente da República no lançamento das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras


Torres Vedras, 11 de Novembro de 2009

"Senhor Ministro da Defesa Nacional,
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras,
Senhor Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas,
Senhor Comissário das Comemorações,
Senhoras e Senhores,

Assinala-se hoje o lançamento das Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras, uma obra ímpar de organização militar do terreno. Para nós, portugueses, estas Linhas são sobretudo o símbolo da vontade de resistir de um Povo. Prestamos, nesta ocasião, homenagem a esses nossos antepassados heróicos que aqui lutaram em defesa da Pátria.

No início do século XIX, a máquina de guerra napoleónica estendeu as suas forças até ao extremo ocidental do continente europeu. Provindo do centro da Europa, que então dominava, a sua longa marcha quedou-se aqui, nestas terras, apenas a uma jornada de atingir o seu objectivo final.

Que mistério foi este? Como conseguiu um pequeno país fazer parar o melhor dos exércitos quando este se encontrava a dois passos da vitória?

Os exércitos napoleónicos não conquistavam territórios, destruíam as forças oponentes. Estavam sempre em movimento até encontrar o momento e o local azados. Aí, e só aí, atacavam ferozmente, com a máxima concentração de homens e de poder de fogo.

Ora, em 1810, o invasor tornara claro que tinha um único objectivo: atingir Lisboa. Esta revelação permitiu ao comando do Exército português e do Exército inglês antecipar os movimentos do adversário e adequar a sua estratégia defensiva.

Pela primeira vez, o Exército francês enfrentava forças que, parecendo recusar o combate, afinal o atraíam ao ponto em que os defensores o queriam colocar.

Chegado às Linhas de Torres Vedras, o espanto do comando francês foi a prova de que a sua construção fora feita no mais absoluto segredo.

Milhares de homens e mulheres, escavando fossos e erigindo muralhas, transportando materiais e artilharia em carros de bois, pelas encostas mais íngremes, deram tudo o que tinham para edificar as defesas. Um trabalho prolongado, esforçado, organizado, eficiente. E feito com total discrição.

É considerado, por muitos especialistas, um dos segredos mais bem guardados da história militar. É notável, de facto, que se tenha podido confiar no silêncio de tantos milhares de pessoas.

E que o invasor não tenha conseguido comprar um único traidor que lhe vendesse a informação crucial. Assim se tornou possível a vitória.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Na cidade que deu nome a esta obra maior de um povo em armas, aproveito para trazer à memória a figura de um grande português.

Recordo um cartógrafo militar de primeira água, que foi vítima de muitas injustiças, e, porventura, da maior de todas: a do esquecimento.

José Maria das Neves Costa foi o oficial do Real Corpo de Engenheiros que procedeu ao levantamento cartográfico em que assentou a decisão, há precisamente duzentos anos, de edificar em tão curto espaço de tempo uma fortificação com aspecto tão imponente e dissuasor. Honremos a sua memória.

Incapaz de vencer o obstáculo, sendo-lhe impossível contorná-lo, não conseguindo forçar os aliados ao combate, vencido pelo tempo e pela usura das tropas, restou ao invasor a retirada.

Aqui se inverteu o sentido da Guerra Peninsular. Foi o princípio do fim da aventura napoleónica que pôs a Europa a ferro e fogo. A retirada terminaria em Waterloo, cinco anos depois.

O maior erro de Napoleão, no entanto, não teve a ver com tácticas ou com estratégias, mas com a verdadeira natureza do adversário que se lhe opunha.

Em Portugal, o grande general subestimou a força anímica de um povo. Decorria já a invasão e ainda ele proclamava que “… os ingleses são o único perigo.”

De tal modo que não contabilizava as unidades portuguesas e, por isso, assinalava uma clara desproporção a seu favor nas forças em presença e exigia uma vitória fácil.

Um simples soldado do exército francês, veterano de muitas batalhas e de todas as campanhas, deixou testemunho nas suas memórias do modo como os cálculos dos invasores foram reduzidos a nada na Península Ibérica por algo com que nunca tinham contado:

“Nas guerras que até então tínhamos feito acostumámo-nos a ver numa nação apenas as suas forças militares e a desprezar o espírito que anima os seus cidadãos.”

Foi o ânimo dos nossos antepassados que fez toda a diferença. O carácter e a vontade de todos os que se aprestaram a combater, uns guarnecendo as trincheiras, outros fustigando a retaguarda do invasor.

Incluindo todos aqueles que, oriundos das Beiras, do Ribatejo, da Alta Estremadura, abandonaram casas e terras, perdendo os haveres que não puderam transportar. Acolhidos atrás das Linhas, sofreram os horrores da fome, animados unicamente pela esperança de manter a liberdade.

Em homenagem a estes portugueses, temos o dever de cuidar da preservação deste património e de tudo fazer para guardar a memória de um povo que se levantou contra o invasor.

Saúdo a população de Torres Vedras e todos aqueles que se têm empenhado na tarefa de preservação das Linhas de Torres, desde a administração central e o Exército português, às autarquias envolvidas e às entidades da sociedade civil.

Felicito, em particular, a Câmara Municipal de Torres Vedras e, na pessoa do seu Comissário, Senhor D. Manuel Clemente, a Comissão Municipal para as Comemorações do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras.

A vitória dos aliados neste terreno que pisamos veio inspirar aqueles europeus que não tinham resistido quando invadidos por uma força que lhes parecera avassaladora.

Com o nosso exemplo, renascia, para cada povo da Europa, a esperança de ser capaz de decidir o seu destino.

Julgam-se fortes aqueles que querem impor a sua vontade pela força dos números. Fortes são aqueles que conseguem enfrentar a vontade dos outros com a força da sua razão.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

Aqui se derramou o suor e o sangue de muitos portugueses. Aqui se garantiu a independência de Portugal. Aqui se defendeu, com unhas e dentes, a nossa identidade e o nosso modo de ser contra aqueles que queriam forçar a nossa liberdade.

Muito mudou desde então. Mas, dando sentido ao suor e ao sangue derramados, os Portugueses tiveram sempre uma palavra a dizer no traçado do seu próprio caminho.

Estas comemorações bicentenárias cumprem um dever nacional de reconhecimento para com os heróis das Linhas de Torres Vedras. Aquilo que somos deve-se também a eles.

Celebremo-los como merecem.

Muito obrigado".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Exposição Comemorativa do Bicentenário das Linhas de Torres


Amanhã, dia 11 de Novembro, Dia da Cidade de Torres Vedras, o Museu Municipal Leonel Trindade inaugura uma grande Exposição comemorativa do Bicentenário das Linhas de Torres.
Como é do conhecimento público, a inauguração desse evento contará com a presença do Presidente da Repúblca Cavaco Silva.
Segundo informação do próprio museu, a exposição será organizada do seguinte modo:

"A exposição será composta por três núcleos:

"Núcleo 1: Não Passarão! - A importância das Linhas de Torres Vedras para a Defesa de Lisboa "(Exposição permanente. Patente até 2012)
"Esta exposição de carácter permanente privilegia uma abordagem sobre a importância das Linhas de Torres Vedras, desde o conceito, técnica, construção e eficácia, na 3.ª invasão, para impedimento do avanço do exército francês em Portugal.

"Núcleo 2: As Invasões Francesas: Memórias e Relatos
(Exposição temporária. Patente até Novembro 2010)
"Recuperação de algumas memórias e relatos associados às Invasões Francesas e impactos sofridos pelas populações, no âmbito nacional e local.

"Núcleo 3: De Ciudad Rodrigo a Torres Vedras: Uma viagem pelas gravuras de época
(Gravuras de Ciudad Rodrigo. Patente até 11 Fevereiro 2010)
"Esta exposição enfatiza a estreita relação entre Ciudad Rodrigo e Torres Vedras durante a 3ª invasão, unidas pela passagem das tropas francesas. Apresenta uma série de gravuras que espelham os acontecimentos desencadeados pelo conflito Peninsular".

A exposição é de entrada Gratuita, estando aberta das 10h às 13h, durante a manhã, e das 14h às 18h, durante o período da tarde (encerra às Segundas-feiras).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

No Bicentenário do início da construção das Linhas de Torres (3 de Novembro de 1808)



O efeito da construção das Linhas de Torres Vedras junto das populações locais




Em Abril de 1809, poucos meses antes do início da construção das Linhas de Torres, quando estas ainda nem projecto eram, já o Teneente Coronel de Engelharia Cipriano José da Silva enviava aos vereadores da Câmara de Torres Vedras uma ordem, em nome da regência, para se fortificar “provisoriamente” a vila .
Com esse objectivo pedia que lhe fossem fornecidos para a manhã do dia seguinte àquela ordem, “na meia laranja da Ponte da Mentira (…) trinta trabalhadores, dez enxadas, dez cêstos, quatro picaretas, duas paviolas” (in Livro nº24 dos Acordão da Câmara Municipal de Torres Vedras (1802-1812), sessão de 8 de Abril de 1809, ff. 193v-194, AMTV).

Só em Outubro é que Wellington se decide iniciar a construção de defesas que protejessem a cidade de Lisboa, pois o “grande objectivo em Portugal é a posse de Lisboa e do rio Tejo e todas as medidas terão de ser dirigidas com este objecto em vista”.
Existiam ainda outos dois objectivo, ”o embarque das tropas britânicas em caso de revés” e “ o de obrigar o inimigo, tanto quanto possível a realizar o seu ataque com o corpo do exército concentrado”, pelo que o exército aliado deveria “ficar em todas as posições que o terreno possa permitir, o tempo necessário para permitir que a população rural local evacue as vilas e aldeias levando consigo ou destruindo todos os meios de subsistencia e meios de transporte que não forem necessários aos exércitos aliados” (Excerto do memorando do duque de Wellington para o tenente coronel Fletcher, datado de Lisboa , a 20 de Outubro de 1809, citado por A.H.Norris e R.W. Bremner, The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, pp.20-21, segundo tradução de Thomas Croft de Moura).
Deslocando-se de Lisboa, Wellington havia percorrido em Otubro os terrenos a norte da capital na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, deixando a este “instruções tão precisas quanto o póde dar um general chefe, para a execução do seu pensamento, que se póde resumir no seguinte: escolher uma posição suficientemente ampla para abrigar todas as tropas, quer da primeira, quer da segunda linha, das duas nações, que lhes permitisse ocupar uma situação vantajosa para cobrir Lisboa, séde dos recursos do país, e que não pudesse ser torneada nos seus flancos pelo inimigo, devendo ter uma comunicação segura com o mar, para permitir o embarque das tropas inglesas no caso de revezes sucessivos as obrigarem a êsse extremo”. (J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 341-342).



A 3 de Novembro iniciou-se a construção das linhas e, na “primavera de 1810 estava tudo em pleno andamento e a azáfama era grande”(J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 346 a 348).
Como se pode ler nas descrições sueguintes, essas obras implicaram grandes alterações numa paisagem que até então não devia ser muito diferente desde a Idade Média:

“As defesas eram de toda a espécie possível. Os rios foram represados e as vias de acesso aos sopés dos montes, numa extensão de muitos quilómetros, foram transformados em pantânos intransponíveis. As estreitas ravinas foram bloqueadas com abatis, atravessando uma grande ravina elevou-se um muro de pedra com 16 pés [ 4,9 metros] de espessura e 40 pés [12,2 metros] de altura. Ao longo do cume de um monte e por uma distancia de 3 milhas [4,8 kilómetros] amontoaram-se muros de pedra com 6 pés [1,8 metros] de altura e 4 pés [1,2 metros] de espessura. Num ponto o monte foi escarpado numa distancia de 2.000 jardas [1.328,8 metros] de modo a formar um precipício que não podia ser escalado. Num plano geral as linhas consistiam de fortificações fechadas espalhadas pelas duas cadeias de montes. Em certos locais as fortificações expandiram-se até atingir a escala de acampamentos militares sendo o todo ligado com todos os tipos de defesa. As fortificações estavam de tal modo relacionadas umas com as outras que a frente toda era varrida por fogo cruzado; e todas as aproximações da linha exterior tinham sido desnudadas de vegetação até se parecerem com uma ladeira”. (citado por A.H.Norris e R.W. Bremner, The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, p.14, segundo tradução de Thomas Croft de Moura);

“Para desafrontar o campo de tiro das baterias devastou-se tudo que as podia encobrir, não ficando de pé nem casa, nem jardim, nem vinha, nem oliveira, nem arvoredo de espécie alguma. Só escaparam umas formosíssimas e velhas árvores em Tôrres Vedras, que a rôgo do Juiz de fóra e dos habitantes da vila foram deixados para o último momento, se fôsse necessário destruí-las”. (J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, p.351).

Para a construção de uma obra dessa envergadura empregaram-se “os habitantes do paiz e dois regimentos de milicias. Obtinham-se os primeiros por meio de requisições, sendo os operários da semana finda substituidos por outros na seguinte semana, tendo os milicianos o caracter de permanentes n’este serviço.” Essas requisições eram feitas “pelas capitanias móres do termo de Lisboa, Cintra, Gradil, Alenquer, Aldeia Gallega da Merceana e Torres Vedras, sendo esta villa a que quasi sempre deu o maior numero de operarios, depois que o exercito entrou nas linhas”. (Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, pp. 563-564).
A requisição de trabalhadores para as Linhas nem sempre foi fácil, como nos explica Cristina Clímaco na sua tese: “Um dos principais problemas que se colocou a Fletcher e a Jones foi o de obter trabalhadores em número suficiente e de acordo com a dimensão dos trabalhos. Sempre que um engenheiro tinha falta de trabalhadores comunicava-o a Fletcher, que por sua vez o comunicava ao governador militar do distrito onde tinham lugar os trabalhos, sendo este último encarregue de fornecer aos ingleses os homens e os materiais necessários aos trabalhos (…).
“A procura de trabalhadores aumentou todos os dias, sem discriminação de classe social ou de privilégios; segundo os ingleses a requisição devia ser imposta aos eclesiásticos e aos funcionários da administração local: (…) porque quando se trata de se defender do inimigo não há privilégios nem é justo que sómente os miseráveis que nada possuem para além da sua pessoa, venham trabalhar nas fortificações, enquanto que aqueles que têm bens a defender ou a conservar não venham (…)”.
Esta situação provocou alguns conflitos graves com os tradicionais grupos priveligiados, como aconteceu “em Mafra em Março de 1810, porque os ingleses não tomaram em conta a estrutura social do país. O Portugal de 1810 era um país de Antigo Regime, onde a clivagem social se fazia mais pelo direito aos privilégios, do que pela fortuna, sendo o padre o principal símbolo desta situação. Existiam duas classes em Portugal, aqueles que trabalhavam e aqueles que tinham direito aos privilégios, englobando-os os ingleses numa única classe e isto provocou gaves conflitos.
“(…) Os funcionários da administração local (…) recusaram-se a trabalhar nas fortificações, recusa idêntica à que teve lugar entre os eclesiásticos.
“(…) As pessoas que faltavam ao trabalho das fortificações ou que não enviavam ninguém em seu lugar não sofriam na realidade outra punição que a de verem os seus nomes inscritos numa lista que todas as semanas os governadores militares enviavam ao secretário da Guerra (…). Apesar das medidas de compromisso que não implicavam mais que a obrigação de estarem presentes fisicamente no local de trabalho ou de poderem enviar qualquer pessoa em seu lugar, as pessoas continuaram a não se apresentar ao trabalho. (…) Os que oposeram maior resistência foram os eclesiásticos (…).
“A vila de Ericeira foi o centro mais importante dessa resistência anti-inglesa e que tomou carácter de insurreição.Os eclesiásticos da Ericeira não só não enviaram qualquer pessoa em seu lugar, como impediram os outros de o fazer. Existem no Arquivo Histórico Militar listas de eclesiástico daquela vila que recusaram participar no sistema de requisições: em Março de 1810 apenas constam na lista nove nomes, mas em Maio já constam treze, entre os quais o das personalidades mais importantes da vila.
“(…) Um outro meio de obter trabalhadores para as fortificações foi o das condenações de soldados portugueses em conselho de Guerra, condenados a cumprir as suas penas nos trabalhos das fortificações(…)” (Ana Cristina Climaco Pereira, Les Lignes de Torres Vedras et Le Plan de Defense du Portugal Concu par Wellington- Invasion e Resistances (le patriotisme et le nationalisme portugais 1810-1811), tese de mestrado, Universidade de Paris, 1991, pp.66 a 72, tradução adaptada).
“Aos paizanos que eram simples trabalhadores dava-se-lhes o jornal de 120 réis, e o de 240 réis aos que eram officiaes de canteiro, pedreiro, carpinteiro, etc.; os milicianos tinham pela sua parte um terço d’estas sommas. Mais tarde o acrescimo e a duração dos trabalhos, tendo-se estes tornado quasi permanentes, o jornal elevou-se então a 200 réis para os trabalhadores e a 320 para os officiaes e vigias: os milicianos continuaram a ser pagos segundo a antiga taxa. No mez de agosto de 1810 mais de 2:500 homens, reunidos n’um só corpo, se achavam empregados nas fortificações da Alhandra.”  (Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, pp. 563-564).

Richard Fletcher, Jonh Jones e “mais quinze engenheiros militares andaram empregados nas Linhas, quatro dos quais eram portugueses. O trabalho manual foi executado por dois regimentos de milícias e trabalhadores recrutados na região, nas comarcas limítrofes e noutras mais afastadas, até 90 Kilómetros de distância, pois apesar da miséria ser grande, os braços eram poucos, pagando-se á razão de 200 réis por dia os cavadores e 320 os operários artifices. Quando as circunstancias determinaram que o trabalho fôsse acelerado, até as mulheres e os rapazes trabalhavam, aquelas á razão de metade e êstes á de um quarto da jorna dos homens. O número de trabalhadores chegou a 7.000, tornando-se em certos sítios necessária a intervenção da autoridade para lhes assegurar a alimentação, que escasseava. A carência de pão chegou a ponto de ser preciso fornecer a êste exército de obreiros bolachas dos navios ingleses.
“(...) Mercê tambem da boa vontade dos carreeiros, excitando á aguilhada os seus pacientes bois, é que se conseguiu levar pesadas peças de artilharia a montes altíssimos, por caminhos de pé posto, inacessíveis a cavalos. (J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 350-351).

Para além dos grandes custos humanos dessas obras, implicando o recrutamento de milhares de trabalhadores, como se leu nos documentos acima transcritos, a obra implicou igualmente grandes custos financairos.
Agostinho Madeira Torres procurou, na sua monografia, “dar uma noticia exacta da enorme despeza das Obras da Linha” no termo de Torres Vedras ”mas apenas pude achar, e verificar alguns dados para um calculo aproximado, e de proporção. taes como os seguintes: que na obra das Estradas Militares comprehendidas no Termo de Torres Vedras, em que se trabalhou effectiva, e activamente, desde a Invasão de 1810, pelos dois seguintes annos de 1811 e 1812 (continuando-se ainda depois escassamente até Julho de 1814), se empregavam, além dos Officiaes Militares Inspectores, e Directores, por semana, acima de 900 operarios das classes trabalhadoras, de artifices dos tres officios de calceteiros, pedreiros, e carpinteiros, e de lavradores, sendo essa totalidade detalhada pelas Capitanias Móres do Termo de Lisboa, Cintra, Gradil, Alemquer, Aldeia-galega da Merciana, e de Torres Vedras, da qual sempre se tirou mais effectivamente o maior numero (...): que a despeza liquida e total d’aquelles trabalhos se avalia em 171:000$000 réis; e a dos mesmos no districto da direita em 190:000$000 réis: que as obras dos Reductos novos construidos pelo mesmo tempo se avaliam pelo menos em igual importancia; e que as dos outros feitos antes de epocha da invasão deviam avultar mais; porque sómente as dos dois Fortes do Sobral, e de S.Vicente se julgam exceder a trezentos mil cruzados. Não basta porém este processo deduzido das noticias communicadas por Officiaes de distincto merecimento, empregados na direcção das mesmas Obras, para achar-se a somma aproximada da sua despeza; é preciso accumular-se mais o valor de varios objectos até agora não pagos, como grande porção de lenha para as faxinas, e muito consideravel quantidade de madeiras de pinho para estacas, vigas, e pranchas: finalmente tambem deverá entrar em conta o valor de algumas cazas demolidas, ou inutilizadas; de bastantes moinhos (a cujos dônos se pagou algum tempo uma pensão para indeminisal-os de algum modo dos interesses diarios) que soffreram igual sorte; e de muitos pinhaes cortados para desafrontar os reductos, vindo a ter a mesma sorte o arvoredo dos passeios proximos á Villa (...).”(Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp.74 a 76).

O exército aliado chegou às Linhas no dia 9 de Outubro de 1810, perseguido de perto pela cavalaria francesa. “Lord Wellington, com a sua grande serenidade e previdência, ordenára que alguns oficiais e soldados da guarnição das Linhas, a cavalo, esperassem as diferentes unidades, afim de as guiarem ás obras ou localidades que lhes eram destinadas. E assim como se tinha providenciado para que não houvesse confusão á chegada de tantos milhares de homens, assim tambem se cuidára de tudo o que o exército carecia: as guarnições já exercitadas ocupavam os seus postos; acumulavam-se provisões de boca e de guerra em sítios préviamente indicados; cascos embargados nas adegas estavam, cheios de água, em todas as obras: abarracamentos para 35.000 homens, conforme se ordenára, achava-se distribuido pelos seus distritos”. (J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 413-414).
Madeira Torres lamenta-se do efeitos da chegada dessas tropas para o bem estar da população, já que “a copiosa chuva, que cahio desde 7 para 8 do mez d’Outubro, obrigou” os militares “ a buscar arrebatadamente o abrigo das casas, que pela maior parte estavam abandonadas; então se perderam, e foram preza dos soldados nacionaes, e alliados, os fructos não só pendentes, e mal começados a colher, como vinho e azeite, mas os mesmos recolhidos nos celleiros publicos e particulares, que não eram guardados immediatamente por seus donos, e munidos de sentinellas, chegando o excesso a serem a maior parte das casas despejadas dos seus moveis, quasi todos os cartorios publicos, e particulares parcialmente roubados, e o do Escrivão das Sizas, e de um da Correição totalmente destruidos”. (Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 178).
O grosso das tropas francesas foi chegando frente às linhas nos dias seguintes, cuja existência desconheciam: “Vinha á frente, comandando a cavalaria de reserva, o general Montbrun, que na manhã de 11, depois de na véspera á tarde ter repelido as últimas fracções do exército anglo-luso, sob o comando de Craufurd (…), mandára reconhecer a estrada em direcção de Vila Franca. O encarregado desta missão, o brigadeiro Pedro Soult, veio imnformá-lo dos fortes entricheiramentos que vira em Alhandra. A exploração feita na direcção do Sobral, Arruda e Zibreira trouxe-lhe notícias análogas, o que levou o Aludido general, por sua vez, a informar o comandante chefe, então ainda longe, á rectaguarda, de que tinha na sua frente uma linha contínua de fortes entricheiramentos e estendendo-se até um ponto, para oeste, que não podia ainda precisar.
“Os reconhecimentos continuaram nos dias 12 e 13, ocasionando escaramuças, algumas de certa importância, como a que se travou na vila do Sobral (…) “ . (J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 415-416).
As tropas francesas mantiveram-se estacionadas frente às linhas até à madrugada de dia 15 de Novembro, retirando-se durante a noite, a coberto do nevoeiro.

As privações dos habitantes da região não terminaram com a retirada das tropas. Como consequência da “immundice (…) n’algumas terras onde os franceses tinham residido” (Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 271-472), grassou na vila de Torres Vedras “ e muito mais nas suas visinhanças, um contagio, que foi quasi geral, sendo mais mortifero nas terras invadidas, e nos emigrados por serem mais incommodados, e menos socorridos. Contaram-se tantos mortos, que foi preciso designar-se um amplo cemiterio juncto á Igreja de S. Miguel, e ainda este teve de ampliar-se além dos seus primeiros limites. Pela vigilancia do governo e da Policia determinaram-se socorros para supprir á miseria e indigencia, que justamente se entendia ser o principal motivo do contagio” (Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 179).
Quase “todos os doentes morriam do quinto para o sexto dia, sendo acommetidas, não sómente as pessoas pobres e expatriadas, mas igualmente as bem tratadas. Dois cirurgiões havia n’aquella villa, que sendo n’ella sufficientes em caso ordinario, não o eram depois que taes molestias se engravesceram, circumstancia que deu logar a que o intendente geral da policia mandasse indagar em Lisboa onde estavam os dois medicos do partido que n’ella havia, Manuel Tavares de Macedo, empregado no hospital militar da Junqueira, e Joaquim José Durão, para os fazer recolher a ella, devendo levar comsigo um enfermeiro do hospital de S.José, por terem adoecido todos os que havia em Torres. (Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 271-472),
Segundo Ana Cristina Clímaco, os “doentes entrados no hospital” [da Misericórdia de Torres Vedras]“eram oriundos das aldeias das redondezas da vila, tais como de Fonte Grada, Paul, Vila Facaia, Amial, Bordinheira, Dois Portos, Orjariça, mas sobretudo das regiões invadidas, S.Martinho, Leiria, Obidos, Torres Novas, Porto de Mós, Pombal, Coimbra… A partir de Outubro de 1811, a epidemia começou a fazer menos estragos, os doente eram agora quase exclusivamente refugiados”. (Ana Cristina Climaco Pereira, Les Lignes de Torres Vedras et Le Plan de Defense du Portugal Concu par Wellington- Invasion e Resistances (le patriotisme et le nationalisme portugais 1810-1811), tese de mestrado, Universidade de Paris, 1991, p.187, tradução adaptada).

Para obstar ás dificuldades económico-socias provocadas nas zonas sujeitas a à movimentação de tropas e às operações militares, foi distribuído um “donativo da Nação Britânica” que agraciou também a região da comarca de Torres Vedras. Esta “apezar de não ter sido a maior parte d’elle invadido, se achava comtudo nas mesmas, e talvez em peiores circunstancias do que algumas terras, que o foram, como fiz palpavelmente conhecer á juncta incumbida de o distribuir. Em consequencia d’esta representação, receberam-se por vezes até a quantia de 8:200$000 rs. além de trezentos pares de cobertores, com o que se soccorreo ás maiores necessidades “. Madeira Torres foi “incumbido pela Juncta dos Socorros da subscrição Britanica de distribuir aquella somma, (…) repartidas, confórme as instrucções da mesma Juncta. Foi o primeiro donativo 1:000$000 réis metalicos, para se repartir pelos habitantes pobres, e necessitados das Freguezias d’este districto, e de 400$000 réis para o Hospital da Misericordia da Villa [de Torres Vedras] exausto de meios, pelas excessivas despezas accrescidas, e falencia das cobranças; outros 400$000 réis para o curativo do hospital de Aldêa-galega da Merceana, e 600$000 para o da Arruda.Tendo esta primeira distribuição sido approvada, repetio-se outro donativo mais amplo de 4:000$000 réis metalicos, dos quaes se applicaram 880$000 réis aos infelizes habitantes da Villa de Arruda, e 270$000 réis aos do lugar do Pêro Negro, Freguezia da Çapataria, que tinham ficado em total desamparo; o restante foi todo applicado dentro no Termo. Ultimamente houve mais dois donativos especialmente destinados para os orfãos desamparados: o primeiro de 800$000 réis, e o segundo de 1:000$000 réis, dos quaes se tem conferido penções para o ensino de alguns Orphãos a officios mecanicos, e para a criação e educação d’outros infelizes, supprindo-se já por uma vez com o auxilio de 200$000 réis á consideravel despesa do estabelecimento da roda dos Expostos, como a Juncta insinuou no seu Officio datado de 10 de Junho de 1813. Além d’este donativo, tambem recebi tres moios de trigo, que me foram mandados n’aquelle tempo pelo Ex.mo e Rev.mo Bispo Patriarcha Eleito, a fim de serem distribuidos para sementes pelos lavradores mais necessitados.” (Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), pp. 179-180).

Nunca esta região tinha conhecido um tão amplo movimentos de gentes e tropas, ou uma alteração tão profunda da sua paisagem rural.
A população de Torres Vedras entrava assim, de forma violenta e dramática, na época Contemporânea, e a vila ganhava fama mundial graças ao esforço de tanta gente na construção do sistema defensivo imortalizado com a designação de “Linhas de Torres Vedras”.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Nos Duzentos Anos do "Memorando Fletcher" (20 de Outubro de 1809)


Em Outubro de 1809, estando o exército anglo-luso acantonado nas margens do Guadina, Wellington deslocou-se a Lisboa e, na companhia do coronel Murray e do tenente-coronel Fletcher, percorreu durante alguns dias os terrenos a norte de Lisboa (1), deixando instruções para este último, num documento datado de 20 de Outubro de 1809, documento que ficou conhecido pelo “Memorando Fletcher”.

Do seu conteúdo constava o seguinte:

“O grande objectivo em Portugal é a posse de Lisboa e do rio Tejo e todas as medidas terão de ser dirigidas com este objecto em vista. Existe um outro, ligado igualmente com este primeiro objectivo para o qual devemos também prestar atenção, e que é o embarque das tropas britânicas em caso de revés.
“Qualquer que seja a época do ano em que o inimigo possa entrar em Portugal ele fará o seu ataque provavelmente por duas linhas distintas, uma a norte do Tejo e outra a sul; e o sistema de defesa adoptado terá que levar em conta este facto.
“(...) O objectivo dos aliados deverá ser o de obrigar o inimigo, tanto quanto possível a realizar o seu ataque com o corpo do exército concentrado: Eles deverão ficar em todas as posições que o terreno possa permitir, o tempo necessário para permitir que a população rural local evacue as vilas e aldeias levando consigo ou destruindo todos os meios de subsistencia e meios de transporte que não forem necessários aos exércitos aliados; cada corpo do exército deve ter o cuidado de manter as suas comunicações com os outros e a sua distância relativa do lugar de junção”(2).

As intenções de Wellington, com essa recomendação, foram resumidas por Teixeira Botelho, na obra citada, como a necessidade de “escolher uma posição suficientemente ampla para abrigar todas as tropas, quer da primeira, quer da segunda linha, das duas nações, que lhes permitisse ocupar uma situação vantajosa para cobrir Lisboa, séde dos recursos do país, e que não pudesse ser torneada nos seus flancos pelo inimigo, devendo ter uma comunicação segura com o mar, para permitir o embarque das tropas inglesas no caso de revezes sucessivos as obrigarem a êsse extremo”.
Tomada a decisão, Wellington enviou uma carta para o Rio de Janeiro, dirigida ao príncipe regente onde considerava que “o unico corpo organisado, que na peninsula podia manter o campo contra o inimigo commum, era o exercito alliado do seu commando e que sendo por outro lado indispensavel manter a comunicação com o referido principe e com a Gran-Bretanha, tomou por ponto capital do seu plano a conservação da cidade de Lisboa e a do Tejo, cuja posse tão importante era igualmente para o inimigo”. Considerava ainda “que o plano mais seguro, no meio das circumstancias em que se achava, era o da guerra defensiva, que com tanta rasão a prudencia lhe aconselhava como cousa mais salutar por então. Taes foram pois as causas que com tanto acerto o levaram a escolher uma posição em que se podesse com toda a segurança manter. Esta posição não podia deixar de ser effectivamente Lisboa, por ser esta cidade a chave de todos os recursos do reino, por não poder ser torneada pela retaguarda pelo inimigo, e finalmente por ser por meio d’ella, e do seu magnifico porto, que estava em segura e constante communicação com o mar, tanto porque d’elle lhe vinham os recursos de que precisava, como porque por meio d’ella podia effeituar uma retirada para o seu paiz, se porventura algum grande desastre a isto o obrigasse. Alem do exposto, esta posição dava-lhe de mais a mais a vantagem de dominar todas as estradas e caminhos, que a ella se dirigiam; de poder n’ella fortemente intrincheirar-se, e por modo tal, que podesse formar uma praça de armas, onde concentrasse todas as forças defensivas do reino, o exercito, as milicias e as mais tropas irregulares, e onde conjunctamente com os inglezes, estas forças estivessem aprovisionadas de viveres e munições por cero espaço de tempo, entretanto que elle ocuparia o campo de batalha que julgasse mais favoravel para decidir, quando lhe aprouvesse, n’uma acção geral a sorte da capital e do reino, e talvez mesmo que da Europa (3)”.

Uma interpretação mais recente questiona a opinião perfilhada pela “maior parte dos autores”, que defendiam “a opinião errada de serem as linhas de Torres Vedras destinadas a proteger Lisboa. Ora a verdade é que o fim das linhas que Wellington mandou levantar só subsidiariamente era esse. O seu projecto de campanha (...) era tornar praticamente impossível a vida de um exército invasor, destruindo ou transportando para outro ponto todas as produções utilizáveis do País. Assim a região escolhida pelos Franceses para seguirem a sua marcha em Portugal tornar-se-ia numa espécie de deserto, em que o invasor não poderia subsistir”. (...) O Governo Português procurou transportar para fora das suas residências os habitantes da zona em que operavam as tropas francesas, mas (...) a evacuação dessas regiões não foi total (…). Por outro lado, como as tropas inglesas tinham, em regra, mostrado fraca capacidade combativa no continente, Wellington procurava evitar uma acção que pudesse tornar-se geral, comprometendo a existência do seu exército, não só por motivos exclusivamente militares, mas também por causa da política interna da Inglaterra, onde existia um forte partido de oposição ao Governo e favorável à retirada das tropas expedicionárias para a sua Ilha.”.
Esta opinião é corroborada por Norris e Bremner (5), afirmando que em “Outubro de 1809 o plano de Wellington tinha incluído não mais do que uma linha contínua de obras desde Alhandra, no Tejo, até à foz de S. Lourenço (agora chamado Safarujo), no Atântico, com certos redutos e acampamentos fortificados colocados em frente de Torres Vedras, Monte Agraço, Arruda e outros pontos. Não era intenção ocupar estes reductos permanentemente”, mas apenas “deter e estorvar o ataque do inimigo na linha principal na retaguarda”.
Seja como for, Fletcher, depois de receber aquelas ordens por escrito em 20 de Outubro, dirigiu o início da construção das linhas que se iniciaram em 3 de Novembro de 1809 pela construção dos fortes de S. Julião, Sobral e Torres Vedras.

(1) J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 341-342
(2) Excerto do memorando do duque de Wellington para o tenente coronel Fletcher, datado de Lisboa , a 20 de Outubro de 1809, citado por A.H.Norris e R.W. Bremner, The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, pp.20-21, segundo tradução de Thomas Croft de Moura.
(3) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, pp. 535-536.
(4) Gastão de Mello de Mattos, “Torres Vedras, Linhas de (1810)”, in Dicionário de História de Portugal, vol. VI, 2ª ed. , pp.180 a 182.
(5) A.H.Norris e R.W. Bremner, The Lines of Torres Vedras, Lisboa 1986, pp.14-15, segundo tradução de Thomas Croft de Moura.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A "BATALHA" DE DOIS PORTOS (13 de Outubro de 1810)

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Cena de uma Batalha não identificada durante a Guerrs Peninsular


No dia 9 de Outubro de 1810 o exército aliado chegava às Linhas de Torres, sempre seguido de perto pela cavalaria francesa que o seguia à distância e à vista.
Alguns oficiais e soldados da guarnição das Linhas, a cavalo, aguardavam pelas diferentes unidades para as guiarem para as obras ou localidades que lhes eram destinadas.
Desde o dia 7 ou 8, conforme as fontes, que chovia copiosamente, obrigando as tropas anglo-lusas recém chegadas “a buscar arrebatadamente o abrigo das casas, que pela maior parte estavam abandonadas; então se perderam, e foram preza dos soldados nacionaes, e alliados, os fructos não só pendentes, e mal começados a colher, como vinho e azeite, mas os mesmos recolhidos nos celleiros publicos e particulares, que não eram guardados immediatamente por seus donos, e munidos de sentinellas, chegando o excesso a serem a maior parte das casas despejadas dos seus moveis, quasi todos os cartorios publicos, e particulares parcialmente roubados, o do Escrivão das Sizas, e de um da Correição totalmente destruídos” (1).
Com a chuva, encheu-se rapidamente o lado direito do rio Sizandro “tornando-se pelo lado de Torres Vedras n’um formidavel obstaculo defensivo sobre o flanco esquerdo da citada linha, não lhe restando então em toda ella, desde o Oceano até ao Tejo, mais do que um intervallo de duas leguas e meia, pouco mais ou menos, não fortificado, ao sul do valle de Runa, entre a villa de Torres Vedras e Monte Agraço” (2) .
Entretanto, fustigados pelo mau tempo, as tropas francesas iam-se aproximando lentamente das Linhas, cuja existência desconheciam. “Vinha á frente, comandando a cavalaria de reserva, o general Montbrun, que na manhã de 11, depois de na véspera á tarde ter repelido as últimas fracções do exército anglo-luso, sob o comando de Craufurd (…), mandára reconhecer a estrada em direcção de Vila Franca. O encarregado desta missão, o brigadeiro Pedro Soult, veio imnformá-lo dos fortes entricheiramentos que vira em Alhandra. A exploração feita na direcção do Sobral, Arruda e Zibreira trouxe-lhe notícias análogas, o que levou o aludido general, por sua vez, a informar o comandante chefe, então ainda longe, á rectaguarda, de que tinha na sua frente uma linha contínua de fortes entricheiramentos e estendendo-se até um ponto, para oeste, que não podia ainda precisar.
“Os reconhecimentos continuaram nos dias 12 e 13, ocasionando escaramuças, algumas de certa importância, como a que se travou na vila do Sobral (…)” (3).
No dia 12 de Outubro marchou a vanguarda do exercito francês para Vila Franca de Xira, “tomando lá as posições que julgou convenientes, distribuindo as tropas pela dita villa, por Povos e Castanheira”. O oitavo corpo marchou de Alenquer para o Sobral, apoderando-se desta vila onde, durante a noite, construiu algumas trincheiras para defesa própria, sendo no Sobral que Massena estabeleceu o seu quartel general.
“Para alem de Runa a serra do Barregudo e os fortes que se tinham levantado em Torres Vedras não permittiam ao marechal Massena movimento algum de flanco por aquelle lado, não lhe restando portanto mais que a possibilidade de dispor as suas tropas entre Villa Franca e o Sobral, com a vantagem de que emquanto a testa das suas columas ameaçava as partes mais fracas da linha, podia elle em poucas horas concentrarmtodo o seu exercito no ponto que mais lhe conviesse atacar entre o Tejo e a citada serra do Barregudo. O segundo corpo, continuando a occupar as serras fronteiras da Alhandra, estendia a sua direita até á villa da Arruda, sobre um terreno bastante aberto. Um forte posto de cavallaria, collocado na dita villa, cobria a extremidade da sua direita, ligando-a com o oitavo corpo, cuja frente se achava para diante do Sobral, occupando as menores alturas da citada serra do Barregudo, e guarnecendo tambem as duas margens do rio Sizandro até ás Duas Portas” (sic) “, sobre a estrada de Runa” (4).
É na sequência deste posicionamento que tem lugar, em 13 de Outubro, a chamada “batalha de Dois Portos”.
O combate foi travado entre as tropas de um dos postos avançados das Linhas Torres Vedras, e uma “considerável força inimiga”, que, na tarde do dia 13, avançando sobre o mesmo posto, provocou a batalha. Nela participaram, pela parte aliada, duas companhias do regimento n.ºs 11 e 23 (5). Sabe-se que a posição definida para esses regimentos era, respectivamente, a Portela e a Patameira, entre as posições da Ribaldeira e do Sobral (6).
O registo dessa batalha deve-se à memória anónima de um oficial português que a ela assistiu:
“ Por ordem anterior fomos de madrugada formar para o outro lado da ponte de Dois Portos, a qual, assim como outra que ha do lado direito, estão já minadas para saltarem em caso de necessidade. Sendo já dia claro [13 de Outubro] retirámo-nos para os quarteis. - Pelas duas horas da tarde, tendo-se percebido já que os francezes tentavam algum reconhecimento pelo lado do Sobral, para onde tinhamos as nossas avançadas, principiou-se a ouvir fogo, entre elles e uma avançada ingleza que havia á nossa esquerda: viu-se que um forte corpo de tropas francezas, tomava uma altura junto a um moinho. Eu que tinha sido mandado em observação, dei d’isto parte ao general e ao brigadeiro, e quando elles chegaram era já respeitavel a força inimiga, que se apresentava contra as nossas avançadas. A poucos minutos principiou o fogo com os nossos, pois que os estrangeiros se tinham retirado; e tanto valor mostravam as nossas tropas, que obrigaram os francezes a desistir da tentativa depois de bem destroçados. - Não tive eu a fortuna de tomar parte no calor da acção, porque tinha sido mandado pelo general encaminhar a brigada ao alto da outra parte, pelo caminho que no dia 12 tinha reconhecido para retirada, receiando elle que a isso fossemos depois obrigados. Tivemos a sensivel perda do coronel Harvey commandante da brigada, que na acção ficou ferido, a ponto de lhe ser necessario ir tratar de si com todo o cuidado. Esta perda é geralmente sentida por toda a brigada e mesmo pelos officiaes generaes do exercito. - Á noite tornou o inimigo para as suas antigas guardas; nós não baixámos: fizemos saltar as pontes.” (7).
Ao mesmo acontecimento referiu-se o duque de Wellington nos seguintes termos: “O inimigo atacou hoje [13 de Outbro] os piquetes da divisão do general Cole, ao pé do Sobral, porém não teve muito effeito este seu ataque. Tenho sabido com maior satisfação, que as tropas portuguezas da brigada do coronel Harvey, composta dos regimentos 11 e 23, outra vez se hão distinguido n’esta occasião; o coronel Harvey ha infelizmente ficado ferido, porém espero que o haja sido levemente (...)” (8).
No dia seguinte ainda se registaram alguns recontros esporádicos à volta do Sobral, chegando nesse mesmo dia o grosso do exército francês.
Depressa os franceses se aperceberam da impossibildade de se movimentarem mais para sul, lutando desesperadamente contra a falta de mantimentos.
A situação era descrita por Wellington nos seguintes termos: “As difficuldades que o inimigo experimenta em procurar subsistencias, o que é devido a elle por haver invadido este paiz sem o apoio de depositos, e sem que adoptasse medidas para segurar a sua retaguarda, ou as suas communicações com Hespanha, o tem posto na necessidade de que os seus soldados se extraviem com o fim de procurarem com que se mantenham, e por isto mesmo não passa dia sem que venham desertores e prisioneiros” (9).
Rotos, esfomeados, acossados pela guerrilha, Massena iniciva a 15 de Novembro iniciaram a sua retirada da frente das linhas.

NOTAS:

(1) Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), p. 178.

(2) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 217-218
(3) J.J. Teixeira Botelho, História Popular da Guerra da Península, Porto, 1915, pp. 415-416

(4) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 236 e 237
(5) Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238

(6) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222
(7) do diário de um oficial do exército português, iniciado a 31 de Outubro de 1807 e citado por Claudio de Chaby nos Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.245-246

(8) Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238

(9) “officio do marechal general lord Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz”, de 20 de Outubro, in Claudio de Chaby, Excerptos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra denominada da Peninsula (...), Vol. VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1882, Documento nº74, pp.190 a192.

domingo, 20 de setembro de 2009

As Linhas de Torres Vedras em notícia



(Forte do Zambujal. Fonte: "Público")



O Público edita hoje um trabalho do jornalista Luís Filipe Sebastião sobre os projectos existentes para dinamizar as Linhas de Torres.

Pelo seu interesse, transcrevemo-lo de seguida:





“Fortes que travaram invasão francesa abrem-se ao turismo



As fortificações que abrigaram peças de artilharia vão dar lugar a uma rota histórica e cultural onde apenas se poderão escutar os "disparos" de máquinas fotográficas
Dois séculos após terem sido construídos para travar o avanço das tropas de Napoleão, as fortificações das linhas defensivas de Torres Vedras estão a ser reabilitadas para o turismo cultural. O forte do Zambujal, virado para a foz do Lizandro, é o primeiro a ser integralmente recuperado pela autarquia de Mafra no âmbito da rota histórica que junta seis municípios.
As linhas defensivas de Torres são constituídas por 152 obras militares edificadas entre 1809 e 1811. As estruturas militares, dispostas em barreiras mais ou menos paralelas entre o mar e o rio Tejo, foram construídas de raiz ou aproveitando edificações já existentes pelas tropas luso-britânicas para defenderem Lisboa da terceira invasão das forças francesas. Segundo um levantamento histórico, a primeira e a segunda linhas defensivas contavam com 142 fortes. Um rastreio realizado em 2002 confirmou a localização de 114.
O forte do Zambujal (obra 95), juntamente com os da Carvoeira e de São Julião, faz parte do núcleo militar mais a sul da segunda linha defensiva. Estas estruturas tinham por missão estratégica a defesa da foz do Lizandro, apoiando a frota naval inglesa, e o controlo da estrada entre a Ericeira e Sintra. A fortificação do Zambujal, num morro sobre o vale da Senhora do Ó, estava guarnecido com duas peças de artilharia e 250 milicianos portugueses.
Uma campanha arqueológica, levada a cabo entre Abril e Agosto deste ano, pôs a descoberto "estruturas em madeira que são muito raras de encontrar em bom estado de conservação", notou Ana Catarina Sousa, do gabinete de arqueologia da Câmara de Mafra. A escavação quase integral, apoiada nos diários com os projectos dos engenheiros ingleses, confirmou que a fortificação possuía um túnel escavado na rocha e "um aparelhamento de pedra mais elaborado". A arqueóloga precisou que os elementos em madeira recuperados faziam parte da "plataforma para o canhão deslizar e de uma paliçada que protegia [visualmente] a boca de fogo".
"Conseguimos perceber as técnicas construtivas e ao mesmo tempo recolhemos informações para o próprio restauro, de forma a manter a autenticidade da estrutura", adiantou Ana Catarina Sousa. Além das informações ao visitante - que fica a saber tratar-se geralmente de construções em terra, com uso de pedra e madeira -, foram criados dois acessos, um para viaturas e outro pedonal, este com cerca de 500 metros e que permite "usufruir da paisagem envolvente" sobre a foz do Lizandro.
O município de Mafra possui 43 fortes, mas nem todos serão recuperados como o do Zambujal. Para já, a autarquia tem apoiado a Escola Prática de Infantaria na reabilitação do forte do Juncal, no perímetro da Tapada Militar de Mafra. A Divisão de Infra-estruturas do Exército, por seu lado, tem colaborado em diversas acções de desmatação em fortificações nos concelhos que integram a Plataforma Intermunicipal para as Linhas de Torres (Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira).
Em Mafra já foram recuperados outros dois fortes da Enxara e o posto de sinais da serra do Socorro. O telégrafo, cuja réplica foi construída em colaboração com o Museu da Marinha, fazia parte do sistema de comunicações das linhas, transmitindo informações codificadas para a capital do reino em sete minutos. Este circuito funciona desde Novembro de 2008. No próximo ano avançará a reabilitação do forte da Feira, em pleno centro urbano da vila da Malveira.





Bicentenário em 2010



O forte do Alqueidão, em Sobral de Monte Agraço, fez parte da primeira linha de defesa, entre Alhandra (Vila Franca) e a foz do Sizandro (Torres Vedras), e seria o posto de comando das forças aliadas. As primeiras escavações, em 2008, permitiram localizar a "casa do governador", duas canhoneiras, dois paióis e um poço. Entre Julho e Agosto deste ano foram escavados exaustivamente o paiol norte e o pequeno edifício revestido a telha. Aqui se reuniriam o comando militar do forte e o marechal Wellesley (duque de Wellington), que instalara o seu quartel-general em Pêro Negro.
"O paiol está menos estragado do que a casa do governador", explicou Sandra Oliveira, responsável pelo projecto das linhas de Torres na Câmara de Sobral de Monte Agraço. A técnica, que dá apoio à coordenação da plataforma intermunicipal (este ano liderada pelo concelho), acrescentou que se trata de um dos cinco paióis do forte, com 15 metros de comprido, "ainda com vestígios de reboco antigo" e do sistema de escoamento de águas pluviais.
O município, que possui nove fortificações, aposta na concretização de "uma rota histórica e cultural, comum aos vários municípios, com acções concertadas para o bicentenário das linhas em 2010". Sandra Oliveira esclareceu que, em colaboração com o Exército e outras entidades públicas, deverá ser apresentado "até Janeiro" o programa comemorativo das linhas que travaram o avanço francês. A construção arrancou em Novembro de 1809 e a primeira linha foi "avistada" pelas tropas de Massena em Outubro de 1810.
Além da musealização dos espaços do Alqueidão (incluindo os fortes do Machado e do Simplício), a autarquia do Oeste prevê a criação de um núcleo de apoio ao visitante na serra do Olmeiro/Montagraço, o restauro da antiga estrada militar para uso pedonal e recuperação do moinho do forte Novo. Embora reconheça a dificuldade em angariar apoios mecenáticos, a técnica municipal confia que Sobral e os restantes municípios consigam dinamizar a rota, quando estiverem concluídas as estruturas de apoio. No caso do seu concelho, contou, já é habitual responder a pedidos de visita às linhas quando as condições climatéricas não são favoráveis para turistas hospedados em resorts da região jogarem golfe.



Luís Filipe Sebastião, in “Público” de 20 de Setembro de 2009.


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Na tarde de 17 de Agosto de 1808, os habitantes de Torres Vedras tomaram conhecimento da derrota francesa na batalha da Roliça, nesse mesmo dia, ao passarem pela vila soldados franceses feridos e “ alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia."
O grosso do corpo da tropa comandada por Delaborde, abandonou o campo da batalha, aproveitando-se do cair da noite, tomando “a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça [de Montachique]”.
Pela vila de Torres Vedras continuaram a passar, ao longo de toda essa noite, “soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo”.
Tomando conhecimento da derrota das suas tropas na Roliça, e prevendo que as tropas inglesas comandadas por Wellesley avançassem pela estrada de Torres Vedras em direcção a Lisboa, Junot decidiu “fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras, entrando nesta vila “com a divisão de Loison no dia 18, mandando ordem a Delaborde, que estava em Montachique, para se lhe ir reunir. Este general chegou a Torres no dia 19.
“Emquanto á columna, que seguia sob o commando de Thiébault, marchava mui lentamente, porque a estrada era pessima, (…), dando logar a um alongamento consideravel, de forma que só a hora adiantada da noite de 17 attingiu Otta.
“(...) Na manha de 20 entrava Thiébault em Torres, mas os diversos elementos da columna foram chegando pouco a pouco.
“Na tarde 20 de Agosto reunia Junot em Torres todas as forças disponiveis”.
A entrada das tropas francesas em Torres Vedras foi descrita em pormenor por Madeira Torres:
“Quando se pensava, que no seguinte dia 18 d’Agosto entraria[em Torres Vedras] o Exercito alliado, esperado com tanto alvoroço, aconteceo ao contrario espalhar-se o susto, e perturbação, pela noticia de que vinha proximo todo o Exercito Francez, e na frente d’elle o mesmo General em chefe [Junot], e que com rigorosas ordens se mandavam apromptar quarteis, viveres, e forragens. (…) Este General entrou com o seu Estado-Maior pelas tres horas da tarde do indicado dia 18, rodeado dos Generaes quasi todos, e de uma forte escolta de cavallaria, a qual se dividio, e occupou logo as entradas da Villa, não se permittindo a sahida d’alguem, sem guia ou passaporte do Commandante da Praça, que então foi o Chefe dos Gens d’armes. Sómente os Officiaes do Estado-Maior tiveram alojamentos, porque os dos corpos ficaram com os mesmos sobre os campos visinhos. Concorreram aqui muitos individuos não militares, uns por empregados, e unidos ao Exercito nas suas diversas repartições, e outros meramente por buscarem o seu abrigo, receosos de serem sacrificados ao seu furor nas pequenas povoações. Ainda que nos armazens existissem alguns sobrecellentes do antigo fornecimento, nada eram para supprir ás urgencias de um Exercito, que se computava em 20$000 sem contar os seus aggregados: por isso foram indispensaveis as requisições violentas para a entrega dos generos necessarios; as quaes para mais prompto effeito se faziam por pregões, ameaçando-se os habitantes que se subtrahissem, com as penas de morte, e do incendio das suas casas, que seriam examinadas”.
As divisões Delaborde e Loisson tomaram posição na vila, ocupando a sua vanguarda o alto de S. Vicente e o alto da forca, enquanto a reserva de Kellerman se estabelecia na rectaguarda .
A cavalaria “explorou activamente, nos dias 19 e 20, todo o terreno para a frente, até estabelecer o contacto com o inimigo”
No dia 20 de Agosto Torres Vedras conheceu as agruras da ocupação por um exército inimigo, registando-se vários desacatos e excessos cometidos pelos franceses nesta vila, descrito mais uma vez por Madeira Torres:
“Na manhã d’este dia” [20 de Agosto de 1808] “alguns soldados extraviados haviam roubado o Convento dos Religiosos Arrabidos do Barro, penetrando até ao Sacrario, e espalhando as sagradas Particulas sobre o pavimento da Capella Mór. Em quanto se commettia este horroroso desacato, tinha o General Junot mandado matar dois mendigos desconhecidos, um d’elles Hespanhol idozo, o outro Asiatico coxo, que foram prêsos como suspeitos de espiões: outro miseravel da mesma fortuna, residente n’esta Villa,” [de Torres Vedras] “ e quasi cego, que estava junctamente prêso, escapou de experimentar igual sorte pela liberdade e vehemencia, com que fallou em sua defeza o Desembargador Vigario da Vara” [Madeira Torres] “chamado por ordem positiva de Junot para interrogar os prêsos, e depôr da sua conducta, e para ser expectador da injusta e barbara morte, que tiveram, sem que fossem convencidos do crime imputado, nem admittidos a algum preparo christão, e nem de modo algum tractados como homens, mas antes como féras pela indifferença e avidez de matal-os: bem facil é de ver, que esta crueldade foi commetida para exemplo, que indicasse como seria castigada qualquer communicação com o Exercito alliado(...)”.
Na tarde desse dia 20, depois de no dia anterior se ter deslocado pela estrada da Lourinhã para avistar a posição e situação do exército aliado, e depois de reunir com os seus generais, Junot decidiu avançar ao encontro do exército britânico “e o resultado foi levantar-se rapidamente a tropa, e começar a marchar depois das cinco horas pela mesma estrada da Lourinhã” .
Enquanto os habitantes da vila de Torres Vedras testemunhavam as movimentações militares do exército francês, entre os dias 17 e 20 de Agosto, noutra zona do concelho, mais a norte e junto do litoral, era o exército inglês que tomava as suas posições:
“Sir Wellesley convergia para a Lourinhã, por saber que as divisões do general Anstruther e Ackland se achavam á vista da costa, alem de uma consideravel frota de navios carregados de provisões, e como aquellas paragens são bastante perigosas, julgou-se obrigado a proteger o desembarque dos recem-chegados, indo para este fim no dia 19 tomar posição no logar do Vimeiro, emquanto o dito desembarque se effeituava a uma legua de distancia do referido logar, na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel” (sic).“ No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”.
Entusiasmado pelo êxito da Roliça, Wellesley palaneou avançar sobre Lisboa “julgando que Junot não tomaria a offensiva e se limitaria a defender o desfiladeiro de Torres Vedras” torneando esta posição, “seguindo uma columna pela Fonte Grada, atravessando a Bordinheira entre S. Mamede da Ventosa e S. Pedro da Cadeira, seguindo pela Freiria e Picanceira, emquanto a mais importante iria pelas Secarias, Coutada, S. Pedro da Cadeira e a Murgeira, onde deixaria uma forte guarda da retaguarda, emquanto que com as restantes forças iria tomar uma posição que impedisse a retirada de Junot por Cabeça de Montachique. Todo este plano tinha sido esboçado em presença da carta que Wellesley possuia dos arredores de Lisboa, e que julgava excellente, assim como das indicações topographicas fornecidas pelo tenente-general C.Stuart”.
Tomando conhecimento da presença de Harry Burrard “a bordo da fragata Brazen nas proximidades de Porto Novo” no dia 20, “foi Wellesley conferenciar com o novo commandante do exercito inglês e expoz-lhe o seu plano” que desaprovou tal plano por considerar “que as forças de John Moore eram insufficientes para fazerem frente a Junot, caso este retirasse por Santarem, e accrescentou que aquelle general já tinha recebido ordem para vir desembarcar as suas forças na Maceira, e que só depois de reunidas todas as tropas é que marcharia sobre Lisboa. Foi em vão que Wellesley se esforçou por convencer Burrard da grande vantagem que havia em tomar immediatamente a offensiva, aproveitando o estado moral das tropas, animadas sobremaneira com o bom resultado do combate da Roliça.
“Burrard não accedeu e Wellesley voltou para o acampamento muito exasperado, increpando violentamente a fraqueza do seu chefe.
“O plano de Wellesley tem sido apreciado de diversas maneiras.
“(...) Tudo nos leva (...) a crêr que a marcha de Wellesley seria muito a tempo descoberta pela cavallaria inimiga e que Junot tomaria as disposições necessárias para ir atacar as tropas inglêsas durante a sua marcha de flanco.
“A columna da esquerda seria facilmente repellida e bastava occupar a posição de S .Pedro da Cadeira, para deter a marcha da columna da direita, que correria o risco de ser lançada sobre o mar.
“O plano de Wellesley era pois temerario e injustificavel, visto que assentava na hypothese do inimigo não conhecer a tempo um tal movimento, e collocava o exercito, no caso d’um ataque, n’uma situação critica tal que, uma derrota importaria a sua perda total”.
A proximidade do exército britânico encorajou os habitantes de A-Dos-Cunhados a terem sido os primeiros do concelho a aclamar o príncipe regente, dois dias antes da Batalha do Vimeiro, como se comprova pela inscrição de uma tábua existente actualmente no Museu Municipal Leonel Trindade, que diz o seguinte:
“ NESTE LVGAR DOS CV-/ CNADOS COM GRANDE/PRAZER E GOSTO FOI O PRIN-/CIPE ACLAMADO EM/19 D AGOSTO/1808 ERA/O ANO QVE CORIA/ SACODIOCE O JVGO/ FRANCES RESTAV/ROVSE A MONAR/QVIA.”.
Entretanto, para não dar tempo a que a divisão Moore desembarcasse em Porto Novo e se juntasse ao exército britânico, Junot saiu de Torres Vedras na tarde do dia 20, como já vimos, “e, transpondo, de noite, o desfiladeiro entre Torres e Vila Facaia, mandou fazer alto ás suas tropas junto desta povoação, na margem direita da ribeira de Alcabrichel, com o fim de lhes dar descanço e permitir-lhes que cosinhassem a refeição da manhã.
“Ás 7 horas, devisava-se, ao longe, das alturas do Vimeiro, uma densa nuvem de poeira, e, ás 8 horas, via-se já distinctamente, apesar do terreno ser coberto de arvoredo, a vanguarda da cavalaria francêsa, que marchava na direcção da Carrasqueira, seguida de infantaria. Ia dar-se a memoravel batalha na qual se decidiu a sorte de Portugal”.
Não é objectivo deste texto a descrição da batalha do Vimeiro, cujo desfecho é conhecido, mas o impacto destes acontecimentos em Torres Vedras, pelo que recorremos mais uma vez à inesgotável fonte que á a obra de Madeira Torres:
“No dia 21 d’Agosto pelas 9 horas da manhãa começou a ouvir-se o estrondo d’Artilharia: no primeiro tempo do combate vieram noticias agradaveis aos Francezes: mas não tardou muito, que lhes chegassem outras, com que se mostraram descontentes, posto que ainda alentados, ao menos apparentemente; enfim correram os boatos d’uma derrota completa, que se viam verificados pelos estragos, e até depois pela propria confissão, dos que se recolhiam do campo. A tropa entrou de noite, [em Torres Vedras] e buscou acampar-se, como antes de ir para a batalha. No dia seguinte viam-se companhias commandadas por um cabo d’esquadra (tal havia sido a carnagem na officialidade): e todo o grande trem d’Artilharia reduzido a tres carretas. Apezar de ser tão vizivel, e avultado o destroço, ainda Junot se occupava com a impostura de fazer illuminar a Villa em aplauso da victoria, e seguindo igual rutina se occupava o impodente La Garde em remetter ao Juiz pela Ordenação , que então servia, um Officio enviando-lhe junctamente o Boletim do Exercito, e recommendando-lhe, que só acreditasse o que elle lhe dizia. No meio de imposturas tão ridicula, não se occultava o temor, confusão e impaciencia de Junot. Elle logo na manhãa do dia 22 chamou ao seu quartel os Generaes, e lhe propoz pedir capitulação, o que foi adoptado (...)”.
A negociação do armistício levou algum tempo, com avanços e recuos de ambos os lados, até a assinatura do incorrectamente designada Convenção de Sintra (seria mais correcto chamá-la de Convenção do Vimeiro-Lisboa-Ramalhal).
“Nos preliminares da capitulação foi o rio Sizandro constituido linha de separação do terreno, em que deviam conter-se os dois Exercitos, e Torres Vedras ficou neutral; assim tanto que o Exercito Inglez se adiantou para as alturas d’aquem Amial (fixando os Generaes os seus quarteis n’esse logar, e ainda mais no do Ramalhal) começou a ser innundada de gente annexa ao Exercito, recebida com vivissimo enthusiasmo, e prazer; e apezar da supposta neutralidade, houve sem demora sinceras, e voluntarias demonstrações de contentamento pela victoria, e communicação dos allidos. As auctoridades da Villa foram logo comprimentar os Generaes Inglezes, e de todas as visinhanças concorriam numerosos ranchos de pessoas, até do sexo feminino a observar o campo da batalha, o admiravel espectaculo do Comboio estacionado defronte do Porto Novo, e a brilhante linha e revista do Exercito alliado.
“No segundo dia em que se disfructava tanto prazer, houve um incidente, que o perturbou, e foi o rumor de que retrocedia o Exercito inimigo, e já se viam as suas avançadas; por cujo motivo as familias receosas das crueldades, que de certo experimentariam, procuraram precipitadamente ao menos a segurança das vidas com a fuga para a retaguarda da linha ingleza. Isto aconteceo perto da noite, tempo ainda mais opportuno para soffrerem saque as casas abandonadas; porém felizmente desvaneceo-se este rebate, e até se escapou do menor roubo, sem que se fizessem por isso muito sensiveis os incommodos de marchar a pé uma grande legoa,e de pernoitar no campo em uma tão bella estação.
“No intervallo em que se arranjavam diffinitivamente os artigos da capitulação, adiantou-se mais o Exercito Inglez a occupar as alturas situadas ao norte da Villa, desde o logar de Sarges até adiante do do Paul, e os Generaes tomaram quarteis nas casas mais proporcionadas. (...) Pelo que temos dicto fica manifesto, que sôbre esta Villa, e seus contornos carregou por dias o pêso de tres Exercitos (contando-se o Nacional por duas vezes, sendo a segunda quando se retirou para as Provincias); e apezar dos estragos causados nos fructos, que ainda se recolhiam, e estavam pendentes, tal é a fertilidade do terreno, e tal foi a particular abundancia d’aquelle anno, que se supprio ao fornecimento da tropa, e não padeceram falta os habitantes.”
O exército francês retirou-se definitivamente de Lisboa no dia 15 de Setembro de 1808, registando-se grandes festejos emTorres Vedras pela restauração do reino “com muitos dias de luminarias, e em seguida a Camara fez celebrar uma solemne Festividade em acção de graças na Matriz de Sanctiago, com mais tres dias de luminarias, prestito pelas ruas com o seu Estandarte (que já dias antes se tinha arvorado nos Paços do Concelho) dando vivas a S.A.R. o Principe Regente”.