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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Memória da Casa Hipólito - exposição a inaugurar no próximo Sábado no Museu Municipal LeonelTtrindade


de 19 de setembro a 31 de dezembro 2015

Local: Museu Municipal Leonel Trindade 
"A CASA HIPÓLITO marcou todo o século XX de Torres Vedras. Teve origem na pequena oficina de latoaria de António Hipólito  e ao longo do século cresceu, passou por uma fase de esplendor, entrou em decadência e extinguiu-se em 1999.
"Milhares de braços lá trabalharam, tornando próspera a empresa que, pouco a pouco, se firmou no mercado nacional e, a partir da Segunda Guerra Mundial, saíu para o mercado externo com um significativo volume de exportações.
Especializou-se em equipamentos de adega e maquinaria ligeira para a lavoura vitivinícola – o grande sector produtivo do concelho torriense – e em material de queima como fogareiros a petróleo e, mais tarde, candeeiros portáteis “Petromax” e aparelhos de gás.
"Esta mostra expositiva dá a ver um conjunto de objectos, fotografias e documentos que recordam o que foi aquela unidade fabril, - e que fazem parte do Fundo Casa Hipólito que, por iniciativa da Câmara Municipal de Torres Vedras, se encontra à guarda do Museu Municipal Leonel Trindade". 

Museu Municipal Leonel Trindade
Terça a domingo das 10h00 às 18h00
Praça 25 de abril, Convento de Nossa Senhora da Graça
2560 Torres Vedras

261310485

terça-feira, 16 de junho de 2015

o avião de Sanjurjo em Santa Cruz: Novas informações

Reconstituição do "Puss Moth" conduzido por Ansaldo 
O Meu avô junto do Avião de Sanjurjo em Santa Cruz

O General Sanjurjo prepara-se para embarcar no fatídico vôo
O Estado em que ficou o avião depois do acidente

Num post editado em 20 de Julho de 20111 AQUI, referia-me à história da passagem por Santa Cruz do avião que se destinava a transportar o general Sanjurjo para Burgos e do desfecho trágico do mesmo.

Na altura questionava se a fotografia de família que era referida como sendo a do meu avô junto do avião do general Sanjurjo, em Santa Cruz, era mesmo o histórico avião.

Com base nalguns poucos factos e na análise das fotografias arrisquei avançar pela confirmação dessa história, embora necessitando de uma investigação mais aprofundada.

Recentemente, ao descobrir o site  Aeropinakes / La máquina de la civilización, dedicado à história da aviação na Guerra Civil de Espanha encontrei a confirmação da minha história: a  matrícula EC-VAA era do mesmo avião que veio a Portugal para transportar o General Sanjurjo e que era reconstituido na primeira imagem em cima.

Por outro lado, ao rever o que tinha escrito sobre o tema, encontrei um comentário de Vitor Rodrigues, datado de 4 de Abril último, onde, por outra via, também confirmava a minha história, através de um registo oficial desse avião, com essa matrícula, e da sua presença em Cascais na data do acidente:

"Boas,
"No "Registro de aviones comerciales en Espana" - http://www.sbhac.net/Republica/Fuerzas/FARE/Materiales/Registro.htm - pode encontrar o EC-VAA, com o seguinte registo:
"EC-VAA DH.80A Puss Moth 2246 G-ACBL EC-W18 EC-VAA Teodoro Martel Olivares > Francisco Moreno 27.01.34 Written off Cascais 20.07.36 Canc 12.11.40
EC-VAV -
"Ou seja, parece confirmar-se a sua tese.
"Vitor Rodrigues
"4 de abril de 2015 às 23:38"

Fica assim confirmado que  a fotografia do meu avô foi realmente tirada junto do avião de Sanjurjo, em Santa Cruz, na véspera ou no próprio dia do acidente.

Outro assunto relacionado com o tema era esclarecer um rumor que sempre correu por Torres Vedras que referia a possível sabotagem do "avião de Sanjurjo" em Santa Cruz.

Sobre este tema também encontrei alguns dados novos, para além dos referidos no post publicado aqui há 4 anos:

Em primeiro lugar, nunca percebi muito bem o que fazia o meu avô naquele sítio, ao mesmo tempo de outras personagens torrienses que lá estiveram nessa altura, nomeadamente a pessoa que confessou aos seus familiares que tinha lá estado para sabotar o avião, e que, daqui para a frente, designarei por "Sr.T".

Sabia da amizade entre o meu avô e o "Sr.T", mas recentemente descobri mais uma coisa que os unia e que eu até  há dois anos desconhecia (eu e a minha família): a ligação à maçonaria e à mesma loja torriense, aí pelos anos 20 ou 30, informação que me foi facultada pelo filho do líder  dessa loja, Luís Perdigão (pai), que tinha na sua posse várias fichas (que tenho fotocopiadas) com os nomes dos membros da mesma: lá estão o meu avô e o"sr. T".

Entretanto também consegui adquirir o livro de memórias de Ansaldo, na sua edição francesa : ANSALDO, Juan Antonio, Mémoires d'un Monarchiste Esoagnol , 1931-1952 (tradução de Jean Viet), Mónaco, Éditions du Rocher, 1953.

Trata-se da tradução do seu primeiro livro de memórias publicado originalmente em espanhol em Buenos Aires, pela editora Vasca Ekin.

Nesse livro as paginas 50 a 57 são dedicadas à sua malograda viagem a Portugal, falando da sua passagem por Santa Cruz.

Partindo de Pamplona, às ordens do General Mola, para vir a Portugal buscar o General Sanjurjo, exilado em Portugal, para que este se pusesse à frente da sublevação militar então iniciada contra a República, Ansaldo chega em 19 de Julho desse ano de 1936 ao "campo de aviação auxiliar de Santa Cruz, no limite ocidental da Europa", que "acolhe docemente o avião", um "Pass Moth".

Ao aterrar no campo de aviação de Santa Cruz é aguardado por dois automóveis, onde encontra um seu velho amigo "Tavares" onde recebe a notícia, que se confirma ser falsa, segundo a qual o general Sanjurjo já tinha partido para "Burgos a bordo de um avião francês".

Quem seria esse Tavares? Uma das figuras gradas da Legião Portuguesa em Torres Vedras era o "Tavares da maçaneta", também agente local da Polícia Política. Será aquele Tavares referido por Ansaldo a conhecida figura torriense, falecido já depois do 25 de Abril, e que era uma das figuras mais temíveis da PIDE (então PVDE) local?

Continuando a acompanhar a narração de Ansaldo, este, tomando todas as precauções para abrigar o avião porque "não existia nesse aeródromo nenhum serviço de sobrevivência [apoio]" (pág.51), partiu de seguida para Lisboa, a caminho do Estoril, numa das viaturas que o aguardavam, confirmando, á sua chegada ao Estoril, que o general continuava nessa localidade.

No Estoril teve de negociar com as autoridades portuguesas o melhor modo de cumprir a sua missão sem comprometer as relações entre o Estado português e a ainda reconhecida República Espanhola.

Foi aí que se negociou uma saída airosa que não comprometesse o regime português face a um desfecho ainda imprevisível da situação em Espanhola: "eu iria no dia seguinte de manhã [20 de Julho] buscar o avião a Santa Cruz, a 60 kilómetros de Lisboa" (pág. 52), de onde levantava voo para o aeródromo de Alverca, onde procederia a todas as formalidade aduaneiras, de onde voaria oficialmente daí directamente para Espanha. Na realidade, e secretamente, em vez de partir directamente para o seu país, faria um desvio  para um terreno improvisado, o hipódromo da Marinha, junto de Cascais, onde recolheria Sanjurjo,e só então voaria para Burgos .

Nessa noite Ansaldo recebeu um telefonema que o inquietou: era uma chamada de Santa Cruz que o informavam que "elementos comunistas andavam à volta do avião", apelando para que tomasse todas as providências para se evitar qualquer "sabotagem". Ansaldo ficou indignado com o facto de "tais elementos" serem deixados em liberdade pela ditadura portuguesa e mandou que guardassem o avião. Depois de vários telefonemas, Ansaldo recebeu finalmente a confirmação de que tudo tinha sido feito de acordo com as suas ordens para resguardar o aparelho (pág.53).

É neste ponto que a referência de Ansaldo à presença de gente da oposição (que ele designa como "comunistas", mas que podiam ser outros oposicionistas, como era o caso do "sr.T", ou até membros da maçonaria, como era o caso do meu avô e do mesmo "sr.T"), se cruza com a constatação, que já haviamos referido, de gente da oposição ter estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião.

A aplicação da classificação de "comunistas" às pessoas da oposição ou desafectas ao regime era uma designação normal na propaganda da época, e que englobaria todos aqueles que se opunham ao regime. 

Curiosamente o próprio Ansaldo, que mais tarde, tendo entrado em dissidência como regime franquista, foi obrigado a exilar-se, sendo no exilio que escreveu e editou as suas memórias , no prefácio da segunda edição da sua obra, se queixava do "regime franquista com a sua táctica, infelizmente hoje copiada por outros países, de chamar comunista a quem se recuse a ser seu escravo", tentando assim,  "caluniar o autor "(pág.9).

Já nos tinhamos referido a este facto ou rumor no post anterior, mas também aqui recolhemos novas informações, de tradição oral, junto de um dos filhos do "sr.T".

Um dia, já depois do 25 de Abril, num momento de descontracção familiar, regado com vinho, o "sr. T" contou ao filho uma história que ele sempre tinha guardado para si. Ele e vários elementos da oposição republicana local tinham estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião de Ansaldo. Para isso tentaram desviar as atenções dos elementos da GNR que guardavam o avião.

Uns levaram os elementos da GNR a "tomar um copo", enquanto outros, à volta do avião, momentânea mente sem vigilância, tentavam danificar o avião, pulando sobre ele ou tentando danificar partes do avião.

Recorde-se que a GNR local, pelo menos nas primeiras décadas da ditadura, era conhecida pelas relações de amizade entre alguns dos seus membros e elementos da oposição, sendo até coniventes com estes nalgumas situações, com aconteceu mais tarde com o meu pai que, depois de dois anos de prisão em Peniche, tinha de se apresentar regularmente no posto local da GNR, onde recebeu sempre compreensão e até conselhos para escapar à vigilância policial...mas isto é outra história. Apenas o refiro aqui para demonstrar que na GNR de Torres Vedras muitos dos seus elementos não eram apoiantes incondicionais do regime e, no caso de Santa Cruz, tinham relações de amizade pessoal como os elementos da oposição que procuravam sabotar o avião de Sanjurjo.

Contudo, para grande surpresa dos "sabotadores" de Santa Cruz o avião acabaria por levantar voo, sem qualquer problema. Recorde-se aqui que a intenção manifestada pelos sabotadores, como o referiu o "sr.T", não era matar ninguém, mas apenas atrasar o voo e a saida de Sanjurjo do país.

Por isso terão ficado aterrorizados quando, horas mais tarde, souberam do acidente que matou o general Sanjurjo e guardaram segredo da sua actuação. Apenas o "sr.T" confirmou a tentativa de sabotagem, mesmo assim no regato da família, recusando-se mais tarde a aprofundar a história, revelando sempre um grande receio que a história se viesse a saber , mesmo muito tempo depois do 25 de Abril.

Entretanto continuamos a narração de Ansaldo.

Saindo do Estoril a caminho de Santa Cruz, refere que o"pior inimigo da navegação aérea apareceu nessa manhã de um 20 de Julho, meridional e quente: o nevoeiro. À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, ele tornava-se mais denso, escondendo o sol, tornando mesmo difícil avançar pela estrada. Das 10 horas da manhã à duas horas da tarde eu esperei furioso. De tempos a tempos, um pálido reflexo de sol brilhava no terreno e eu punha os motores em marcha; logo de seguida a neblina espalhava-se tão baixo que não nos conseguíamos ver uns aos outros.Telefonei várias vezes para o Estoril para explicar o que se passava; respondiam-me que o general me esperava com alguns amigos(...)".

Finalmente, por volta da uma hora e meia da tarde "como as condições atmosféricas íam de mal a pior, eu decidi adiar o voo" . Estando a almoçar, uma hora mais tarde "o nevoeiro dissipou-se. Com toda a pressa corri para o avião, pus o motor em marcha e descolei para Alverca". Acompanhou-o no voo um elemento da PVDE. Em Alverca tratou das formalidades e partiu, a meio da tarde para "a Marinha", o campo improvisado onde iria embarcar Sanjurjo.

O resto da história é sobejamente conhecida e pode ser lida, não só no nosso post anterior como AQUI, uma interessante tese de mestrado da autoria do brasileiro Gabriel de Senna Pondé, intitulada "A Morte do General Sanjurjo - Análise do tratamento da imprensa escrita portuguesa da época relativa ao acontecimento público", defendida na Universidade Lusófona de Lisboa em 2012.

A tese de atentado, que chegou a ser ventilada à época, foi descartada pelo próprio piloto, apontando outras razões para o mesmo: as más condições da pista da Marinha, o tempo que obrigou a levantar na direcção mais difícil e o excesso de carga com as malas que o general Sanjujo quis levar.

Técnicamente o avião não conseguiu ganhar velocidade suficiente para sobrevoar as árvores que se encontravam no final da pista e a hélice falhou e partiu-se, não se sabe por ter embatido numa árvore se por qualquer problema técnico. Ansaldo salvou-se porque foi projectado do avião quando este, em queda, embateu num muro, mas o general morreu carbonizado, embora antes já tivesse sofrido um ferimento mortal, atravessado por um ferro do avião.

Geralmente um acidente acontece porque se combinam vários factores. Os "sabotadores" de Santa Cruz não foram os responsáveis directos por qualquer falha técnica, mas nunca se virá a saber se contribuiram para potenciar as dificuldades técnicas que levaram o avião a não conseguir ganhar altitude no voo fatal.

Especula-se muito com o que teria acontecido se o general Sanjurjo tivesse chegado vivo a Espanha.

Uma das consequências seria o facto de o General Franco não aceder tão fácilmente à liderança do movimeto nacionalista.

Depois, se fosse o general Sanjurjo a liderar a Espanha durante a segunda Guerra mundial talvez  a posição da Espanha no conflito tivesse sido diferente, já que se conhece a maior simpatia de Sanjurjo por Hitler, maior do que aquela que era nutrida por Franco.

Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas. Eliminar

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Duas obras fundamentais sobre a história política local vão ser apresentadas no próximo Sábado



O Engº José Damas Antunes acaba de editar duas obras fundamentais para a história local e regional, uma intitulada “Contributo Para História do PSD Na Área Oeste – 1974-2014”, e outra “40 anos de Democracia – O PPD/PSD de Torres Vedras”, ambas as obras editadas para assinalar o 40º aniversário da fundação do PPD/PSD.

O primeiro desses títulos é mais abrangente, geograficamente , mas demonstra a importância do concelho de Torres Vedras para a firmação daquele partido na região.

Esta obra reúne uma vasta documentação sobre esse partido, recolhendo depoimentos de todos os presidentes e ex-presidentes vivos  da distrital da área Oeste do PSD, uma recolha fundamental para conhecer a história desse partido, e, numa segunda parte, reúne histórias e factos que, cronologicamente, marcaram a história política regional.

O livro faz um levantamento exaustivo de todos os nomes daqueles que contribuíram para a afirmação política do PSD, participando em vários estruturas políticas existentes.

No segundo daqueles títulos, Damas Antunes recolhe todos os dados possíveis para construir a história daquele partido no concelho de Torres Vedras, recolha tanto mais importante  quanto, e nas palavras do autor, “Torres Vedras foi a base de partida para a implantação do PPD no Oeste” (pág.9).

Nesta segunda obra, mais documental e menos analítica do que na primeira, revela-se mais uma vez o cuidado do autor em não deixar de fora factos e documentos essenciais para um conhecimento exaustivo da base social e humana que esteve por detrás da história do PPD/PSD neste concelho.

José Damas Antunes alia, nestas duas obras, o seu grande conhecimento sobre o funcionamento do partido, onde tem exercido um papel activo em termos locais e regionais , com o rigor e objectividade da investigação histórica, área onde já revelou experiência através da autoria de estudos sobre a freguesia de Campelos.

José Damas Antunes, recorde-se, é um raro exemplo de um político dedicado a uma causa em que acredita, profissionalmente competente, com uma cultura vasta, homem dedicado às questões ambientais,  tolerante e  dialogante com os adversários , na nossa opinião um dos últimos sociais-democratas daquele partido.

Este trabalho de Damas Antunes vem alertar-nos para a necessidade de, ultrapassados os 40 anos de regime democrático, aparecerem outros trabalhos sobre outros partidos e movimentos políticos com impacto local e regional, recolhendo depoimentos e documentos que o tempo pode fazer desaparecer.

As duas obras de Damas Antunes, depois de terem já sido lançadas formalmente em acções internas daquele partido, passam a estar acessíveis ao público em geral no próximo Sábado, com o seu lançamento na sede da Papelaria União, conforme convite reproduzido em baixo.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sábado à tarde : Conferências sobre a 1ª Guerra em Torres Vedras


A secção local da Liga dos Combatentes regressa este ano à temática da 1º Guerra, num ciclo de palestras que se realiza no próximo Sábado à tarde,  a partir das 15 horas, nos Paços do Concelho, com entrada livre.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Apresentação do documentário "Torres Vedras, Memórias do Século XX"

Este documentário é uma iniciativa da Associação de defesa do Património de Torres Vedras.

Segundo refere o documento de apresentação "O documentário «Torres Vedras, Memórias do Século XX» aborda as principais dinâmicas e transformações sociais do Centro Histórico de Torres Vedras no decurso do século XX, com particular enfoque entre as décadas de 20 e de 70". 


Produção: Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, Carlos Levezinho, Jorge Ferreira


Realização: Jorge Ferreira

Direcção de Fotografia/Câmara: Jorge Ferreira 

Câmara adicional: Carlos Ferreira, Carlos Levezinho

Montagem/Edição: Carlos Levezinho

Sonoplastia: Carlos Levezinho



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Há 95 anos : BES - Uma história com "final infeliz" que começou em Torres Vedras em 6 de Abril de 1920:

Por maus motivos, muito se tem falado no BES nos últimos tempos.

O que talvez muita gente não saiba é que esse banco iniciou a sua expansão fundando a sua primeira filial em Torres Vedras, em 6 de Abril de 1920, como nos conta Carlos Alberto Damas no artigo em baixo:

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

130 anos de Imprensa Torriense

Há 130 anos, em Janeiro de 1885 editava-se o primeiro jornal torriense.

Intitulava-se “Jornal de Torres Vedras” e iniciou a sua publicação numa quinta-feira, 1 de Janeiro de 1885.

Subintitulava-se “Agrícola, Commercial, Noticioso”, e teve como seus fundadores Agostinho Barbosa Sottomayor, Inácio França e Manuel de Paula Guimarães.  Tinha por objectivos “esforçar-se por tomar conhecidos os nossos vinhos (...) A nossa missão, todavia, estende-se mais além. A vila carece de urgentes melhoramentos que a coloquem a par das terras mais civilizadas. Havemos de, pouco a pouco, com insistência, com independência, com dignidade, sem offensa para ninguém, e com proveito para todos, lembrar esses melhoramentos, indicar a senda do progresso e do aperfeiçoamento, indispensável no último quartel do século XIX (...). Em breve tempo se fará ouvir, o silvo da locomotiva, que há-de servir  prodigiosamente os interesses commerciaes da villa, como temos fé. O nosso jornal advogará calorosamente todos os interesses honestos, toda a iniciativa proveitosa, industrial ou commercial (...)».

A edição desse primeiro título só foi possível graças à introdução em Torres Vedras da primeira tipografia, em 1884, propriedade de  Manuel Celestino Aspra, onde se imprimiu, quer o “Jornal de Torres Vedras” quer o título que lhe sucedeu, “A Voz de Torres Vedras”.

Esta primeira experiência jornalística durou dois anos, dois anos cruciais para o desenvolvimento de Torres Vedras, pois foi nesse período que se ultimaram as obras de construção da linha férrea, que ligaria Torres Vedras a Lisboa, modificando em definitivo e profundamente o rosto da então  vila.

 Embora o grande destaque das páginas desse jornal  fosse dado à temática agrícola, principalmente  a vitivinicultura, actividade que, então, lutava desesperadamente contra o avanço da  filoxera, nelas podemos seguir semanalmente os progressos da construção do caminho de ferro.

Paradoxalmente, o “Jornal de Torres Vedras” encerraria as suas páginas no dia da inauguração da ligação ferroviária ente esta localidade e Lisboa, no dia 30 de Dezembro de 1886, e assim ficámos privado da reportagem histórica desse acontecimento.

Contudo essa, para comemorar esse acontecimento, foi impresso um número único intitulado “Lisboa-Torres Vedras” impresso na tipografia onde se editava aquela jornal.

Tinha-se assim  dado início à heróica história da imprensa torriense que, com  raras interrupções, acompanhou, semana a semana,  a vida de Torres Vedras e das suas gentes ao longo dos último 130 anos.

De periodicidade e duração diversas, acompanhando as grandes mudanças tecnológicas da actividade tipográfica que a suportou, são conhecidos mais de 60 títulos de periódicos locais.
O dr, António da Silva Rosa, no seu trabalho pioneiro no n.° 1220 de  25-05-1979, no jornal “Badaladas”, identificou, até esse ano, 48, aos quais podemos acrescentar mais uns vinte títulos por nós registados, quer anteriores, quer posteriores a 1979, sem contar com um sem número de jornais escolares copiografados, boletins de juntas de freguesia , de associações locais, de empresas,  ou com fins publicitários.

Não durou muito a interrupção provocada pelo desaparecimento daquele primeiro título. Logo em Fevereiro de 1887 surgiam dois novos semanários. “A Voz  de Torra Vedras” (1887-1890), que se intitulava herdeiro do jornal pioneiro, e “A Semana”(1887-1896), dando-se então início a uma “tradição” que se manteve de forma quase interrupta até 1926, a publicação simultânea de, pelo menos, dois títulos semanais em Torres Vedras.

Ainda do século XIX datam dois dos mais importantes títulos da histórica imprensa local torriense: “A Vinha de Torres Vedras”(1894-1920) e o “Folha de Torres Vedras”(1899-1913).

Aqueles dois títulos documentam nas suas páginas a transição da monarquia para a República e do séc. XIX para o séc. XX, relatando nas suas páginas, não só os reflexos a nível local da agitada vida política local, mas também as primeiras notícias da introdução do cinema ou da luz eléctrica em Torres Vedras.

Refira-se ainda a particularidade importante de o jornal “Folha de Torres Vedras”  ter aderido ao ideal republicano ainda antes da implantação desse regime político. Este jornal viria a fundir-se em 1913 com o seu velho rival “A Vinha de Torres Vedras”, mantendo-se este título até 1920.

Só na década de 80 do século XX é que um outro jornal, o “Badaladas”, fundado em 1948, bateria em longevidade “A Vinha de Torres Vedras”.

Com a República, principalmente no após-primeira-guerra-mundial, surgem alguns títulos de vincada ideologia política, ligados a várias tendências e partidos políticos desse período, todos de duração efémera.

Três títulos desse período merecem ser aqui recordados pela forma como se empenharam na defesa das questões locais: o “Ecos de Torres”, publicado entre 1917 e 1921; “O Torrense”, entre 1919 e 1925; e “A Nossa Terra”, de 1924 a 1926.

A partir de 1926, coincidindo com o início da Ditadura Militar que originou o Estado Novo, a imprensa local conheceu uma acentuada decadência. Durante quase um ano, pela primeira vez desde o nascimento da imprensa torriense, entre Setembro de 1926 e Agosto de 1927, não se publica um único título em Torres Vedras.

É então que surge uma das mais importantes apostas jornalísticas da época, o “Gazeta de Torres”, dirigido inicialmente pelo dr. Justino  Freire de Moura Guedes, substituído em finais de 1930 por António Batalha Reis  e, mais tarde, por Edmundo de Oliveira, e onde se destacam como  jornalistas Luís Brandão de Melo  e Victor Cesário da Fonseca. Este título não só se tornou no jornal de maior duração entre os  fundados  na primeira metade do século XX
(obviamente antes do aparecimento do “Badaladas”), coma seria o ponto de confluência de uma nova geração de jornalistas locais, dinâmica e inovadora. Contudo, as suas posições políticas, anti-salazarista e apoiante da Aliança Republicano-Socialista, primeira grande força de oposição legal ao jovem regime ditatorial, forçaram o seu encerramento prematuro, publicando-se pela última vez  em 13 de Agosto de 1933.

A partir dessa data quase toda a imprensa teve duração efémera, e, na maior parte dos casos, mais não era de que a câmara de eco dos ideais do Estado Novo, nalguns casos assumidamente apoiantes da ideologia fascista que se espalhava pela Europa de então.

A crise da imprensa torriense agrava-se a partir de 1936 quando o jornal que então se publicava, o segundo com o título de “O Torreense”, passa a  editar apenas um número anual, não publicando mesmo qualquer exemplar nos anos de 1943 e 1944, devido às dificuldades económicas provocadas pela Segunda Guerra Mundial, situação que só se alterou em 1946,quando esse jornal regressou à sua publicação semanal, que durou até 1954.

Contudo, só com o aparecimento do jornal “Badaladas”, fundado em 1948 pelo Padre Joaquim de Sousa, se registou uma mudança significativa no panorama jornalístico torriense. O Padre Joaquim Maria de Sousa teve o mérito de conseguir transformar um pequeno mensário paroquial no primeiro título moderno de Torres Vedras, com uma visão aberta sobre as realidades locais, e que, apesar das limitações impostas pelo regime político de então através da Censura, soube tornear essa questão com uma grande dose de independência e dignidade, ainda hoje exemplares.

Até 1952 o “Badaladas” publicou-se mensalmente, tornando-se quinzenário neste ano e, finalmente, a partir de 15 de Dezembro de 1960 em semanário, situação que se mantem até aos nossos dias.

Ao longo da sua história o “Badaladas” soube adaptar-se às mais variadas realidades políticas, sociais, culturais e tecnológicas, que marcaram a segunda metade do século XX, tornando-se num dos raros casos de longevidade, não só em termos locais, mas até a nível nacional. Pelas suas páginas têm passado todas as gerações de jornalistas torrienses dos últimos 70 anos.

Com a recuperação da Liberdade e da democracia, após o 25 de Abril de 1974, tomou-se possível o aparecimento de mais projectos inovadores. Assim, aconteceu com o “Oeste Democrático”, o título que foi, as a seguir ao “Badaladas”, o de maior regularidade , publicando-se entre  1975 e 1978. Revelou-se  inovador nas  temáticas abordadas, mas também na forma como as apresentava, com paginação dinâmica, nomeadamente no tratamento dado aos títulos de primeira página. Encerrado devido a dificuldades económicas, grande parte da sua equipa redactorial passou-se  de armas  e bagagens para o jornal “Badaladas”, contribuindo par a  renovação deste título, então sob direcção do Padre José Manuel.

Também pelo espírito  dinâmico que imprimiu no conteúdo e na forma, há que destacar o jornal “Área”, que esteve na origem de uma das mais dinâmicas e inovadoras associações culturais da actualidade, a Cooperativa de Comunicação e Cultura.

O “Área” teve uma vida efémera, publicando-se mensalmente, de forma mais ou menos regular, entre 1979 e 1981,editando-se a, parir de então, de forma irregular e esporádica, como edição anual, com o objectivo de divulgar as actividades daquela associação.

O carácter inovador destes dois títulos influenciou, sem dúvida, outros projectos que marcaram o final do século XX, o  “Frente Oeste” e  a revista  “Zona Oeste”.

O Frente Oeste nasceu num concelho vizinho, na Lourinhã, como mensário, tendo editado o seu nº 1 em Julho de 1985. Mudou depois a sua redacção e edição para Torres Vedras  em passando a  quinzenário até Dezembro de 1990 e semanário a partir de então, durando 22 anos, até 14 de Janeiro de 2010, quando saiu a sua 1027º edição, vítima da crise económica e má gestão que marcou a sua fase final. Caracterizou-se pelo profissionalismo jornalístico da sua equipa e pela modernidade das reportagens que publicou, rivalizando, neste aspecto, com um outro título do oeste, o “Gazeta das Caldas”.

Foi também na última década do século XX que surgiu uma outra publicação periódica de qualidade, uma revista mensal intitulada “Zona Oeste”,  inovadora do ponto de vista gráfico e dos conteúdos e que iniciou a sua publicação em Outubro de 1990.

No primeiro ano do novo século surgiu aquela que foi a primeira tentativa  de edição de um jornal diário local, o “Diário de Torres”, aproveitando as condições e a experiência da revista “Festa”, uma revista mensal, que nasceu para divulgar uma agência de publicidade, a  “Da Rosa”(A revista “Festa” já vai na sua 135ª edição e 18 anos de vida). O “Diário de Torres”, editado por Carlos Rosa, teve a marca de um jornalista torriense, vindo do Frente Oeste e de outras experiências de jornalismo local, antigo correspondente local do jornal “Público”, Victor Alexandre, infelizmente já falecido. Esse diário teve contudo uma existência efémera, publicando-se entre 3 de Julho e 17 de Agosto de 2001.

O conhecimento dos últimos cento e trinta anos da sociedade torriense não pode dispensar o estudo e o conhecimento das milhares de  páginas amarelecidas que guardam milhões de palavras escritas por centenas de torrienses, muitos deles anónimos que deram o melhor de si, para  informar e registar os pequenos e grandes acontecimentos que marcaram mais de cem anos da vida de Torres Vedras.

A eles dedicamos esta breve evocação histórica do jornalismo torriense.

Venerando Aspra de Matos

O “TOP TEN” DA IMPRENSA TORRIENSE:

(Quadro elaborado com base no estudo pioneiro do DR. António da Silva Rosa, “Esboceto Histórico do Jornalismo Torrense”, no jornal Badaladas nº 1220 de 25-5-1979, e actualizado por nós)

1 – “Badaladas” [Maio de 1948 - …] 3080  edições (até ao fim de Janeiro de 2015):
2 – “A Vinha de Torres Vedras [ 25 -1 – 1894 a 25 – 12 – 1920] -  1348 edições;
3 – “Em Frente Oeste” [Julho 1985 a  14-1- 2010] – 1027 edições;
4 – “Folha de Torres Vedras” [ 26-3-1899 a 11-12-1913] – 676 edições;
5 – “A Semana”  [24-2-1887 a 5-1-1896] – 461 edições;
6 – “Gazeta de Torres” [ 14-8-1927 a 13-8-1933] – 308 edições;
7 – “O Torreense” (2º título) [26-10-1919 a 7-6-1929]- 278 edições;
8 – “O Jornal de Torres Vedras” (2ª Título) [4-3-1929 a 31-7-1932] -198 edições;
9 – “A Voz de Torres Vedras” [5-2-1887 a 25-1-1890] – 196 edições;

10 – “Oeste Democrático” [26-6-1975 a 14-7-1978] – 160 edições.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Mulheres Torrienses contra a ditadura do Estado Novo


Foi editada recentemente a obra "Mulheres contra a ditadura", da autoria da deputada e historiadora Cecília Honório e editada pela Bertrand.

A obra procura dar visibilidade a participação das mulheres na resistência contra a ditadura salazarista, centrando-se no período de actividade do MUD Juvenil (1946-1952), movimento que se caracterizou por uma grande participação de jovens mulheres e onde muitas se iniciaram na vida política.

Na lista de referências são citadas três mulheres que estão, de alguma modo, ligadas a Torres Vedras:

- Ercília Veiga Ralha Leitão -"período de actividade (1950-195?), Coimbra, conservadora do Registo Civil, Alenquer; apoiou homenagem ao Dr. Luís Gomes; relatório da Legião Portuguesa de 1952 refere-a como elemento perigoso do MUDJ." (p.271). Vive há alguns anos em Torre Vedras,na companhia do filho Fernando e é mãe do ex-vereador Jorge Ralha;

- Maria Alzira - "sem indicação de apelido; participou na delegação portuguesa ao Festival de Moscovo, em 1957, e auxiliou João Monjardino no retorno, vítima de uma gripe asiática; farmacêutica em Torres Vedras" (p.273);

-Maria Lucília MirandaSantos -advogada aposentada e  figura incontornável,sempre que se fala na oposição ao Estado Novo e que é referida nos seguintes termos nessa obra : "Torres Vedras (aderente do Mud Juvenil noutras localidades fora de Coimbra que participaram no 50º aniversário)". Vive actualmente em Santa Cruz na companhia do filho e família, o juíz José Edurado Miranda Santos Sapateiro.

Ficam assim aqui estas referências como um contributo para o conhecimento da história local da oposição ao Estado Novo.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Exposição Agrícola nos anos 20 no arquivo da Cinemateca :

(O Choupal no ínicio do século XX)

No dia 22 de Agosto de 1926 teve lugar em Torres Vedras, no Choupal, a inauguração de uma grande exposição "agrícola, pecuária e industrial", motivo de uma rara reportagem cinematrogáfica, em baixo reproduzida dos arquivos da Cinemateca Portuguesa, disponíveis on-line:

Cinemateca - Ficha(clicar para ver)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Torres Vedras durante a Primeira Grande Guerra : A Questão das “Subsistências”.


A Questão das “Subsistências” em Torres Vedras (1916 – 1918)
por Venerando Aspra de Matos

0 – Uma Breve Introdução

Apontar pistas que esclareçam o impacto que a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra teve nas condições de vida e subsistência da população torriense, é o principal objectivo desta nossa comunicação, nomeadamente em relação:

-    à forma como se organizou o poder local para planificar e prevenir a distribuição dos produtos essenciais à subsistência dos habitantes do concelho;
-          ao impacto da crise na evolução dos preços;
-   ao modo como o agravamento das dificuldades enfrentadas  quotidianamente pelas populações potenciou uma crescente agitação social;
-    à situação alimentar da população do concelho, quer quanto ao consumo de produtos essenciais para a sua alimentação, quer quanto à produção dos mesmos;
-     ao reflexo da crise das subsistências na situação sanitária da população, dramaticamente evidenciada quando da “pneumónica”. 

1 - Algumas características sociais da população torriense (1916 – 1918)

Entre os dois limites censitários que incluem o período estudado, a população do concelho, que era de 38.926 habitantes em 1911, cresceu até aos 41.917 habitantes em 1920.

A sua estrutura manteve-se estável durante essa década: o número médio de pessoas por família situava-se nos 4,5 , mais de 50% da população estava incluída no escalão etário dos activos (dos 15 aos 64 anos), 57% em 1911 e 59,1% em 1920.Contudo, quer no topo quer na base da estrutura etária da população registou-se um decréscimo percentual acentuado face ao total da população: os que tinham 65 anos ou mais viram o seu peso reduzir-se de 6% em 1911 para 5,9% em 1920; os que tinham menos de 15 anos registaram uma quebra percentual ainda mais acentuada, descendo dos 37% em 1911 para os 35% em 1920.

A esmagadora maioria da população, 92,8% em 1911 e 92,6% em 1920, era natural do próprio concelho, situação que denota uma mobilidade fraca.

Passemos agora a observar (Quadro I) as características sócio – profissionais da população deste concelho: 

-          em 1911, a percentagem de população activa no concelho de T. Vedras (37,9%) era inferior à média nacional (46,6%);
-    a principal actividade da população activa do concelho era a agricultura, 74,4%, uma percentagem muito superior à média do país (56,5%);
-    em muitas freguesia do concelho a actividade agrícola ocupava a quase totalidade dos activos, ultrapassando a percentagem concelhia de activos na agricultura: 85,7% em Dois Portos, 82,9% em A Dos Cunhados, 82,3% no Ramalhal, 78,3% na Freiria e 78% na Carvoeira;
-    pelo contrário, nas freguesias urbanas, S. Pedro e Stª Maria, a percentagem de activos ligados à agricultura era inferior a 50%, percentagem que se reduz para 11% se tivermos em conta apenas os activos vivendo na sede do concelho.

 QUADRO I

Distribuição profissional da  população activa do concelho de T. Vedras
(1900-1911-1930)
ANO
1900

1911

1930

ACTIVIDADE

%
%
%
I - Trabalhos Agrícolas
10312
74,6
10981
74,4
17051
64,2
II - Caça e Pesca
8
0,1
0
0
8
0,03
III - Extracção de materiais minerais
0
0
1
0,01
33
0,1
IV - Industria
1619
11,7
1635
11,0
2182
8,2
V - Transportes
219
1,6
276
1,9
329
1,2
VI - Comércio
682
4,9
638
4,3
877
3,2
VII - Forças Públicas
45
0,3
85
0,6
88
0,3
VIII - Administração Pública
23
0,2
35
0,3
115
0,4
IX - Profissões Liberais
158
1,1
123
0,8
154
0,6
X - Pessoas Vivendo Rendimentos Próprios
77
0,8
294
2,0
2862
10,8
XI - Domésticos
267
1,9
207
1,4
2097
7,9
XI - Outros
407
2,9
484
3,3
793
3,0

TOTAL

13817
100
14759
100
26589
99,9
FONTE: Censos da População

Com base nos recenseamentos eleitorais de 1911 e 1918 é possível observar mais em pormenor, não só a evolução, mas também as características da estrutura sócio-profissional do concelho, podendo analisar-se igualmente as diferenças entre a média concelhia  e a situação no centro urbano, sede do concelho (Quadro II):


QUADRO II
Comparação entre a  Estrutura Sócio-Profissional do concelho e da vila de T. Vedras (1911 e 1918)
1911
1918


No Concelho
Na vila
No Concelho
Na vila

%
%
%
%
Proprietários
731
16,3
32
6,1
1794
24,6
50
8,1
Agricultores por conta própria
559
12,5
5
0,95
639
8,8
2
0,3
Assalariados Rurais
1882
42,0
22
4,2
3163
43,3
30
4,9
Industria
714
16,0
185
35,2
996
13,7
216
35
Actividade Técnico - cientifica
41
0,9
22
4,2
38
0,5
17
2,8
Administração
82
1,8
61
11,6
88
1,2
64
10,4
Forças Armadas e Militarizadas
36
0,8
5
0,95
19
0,3
7
1,1
Comércio e Serviços
329
7,4
146
27,8
433
5,9
191
30,9
Transportes
94
2,1
46
8,8
103
1,4
37
5,9
Outros
9
0,2
1
0,2
24
0,3
4
0,6









TOTAL
4477
100
525
100
7297
100
618
100
FONTE: Cadernos Eleitorais do Concelho de T. Vedras, 1911 e 1918 , Arquivo Histórico da Assembleia da República.

Podemos observar que, entre os que se dedicavam à actividade agrícola, a maioria era composta por assalariados (mais de 40% de toda a população activa).

É igualmente significativo o número de “proprietários”, revelando a existência de uma propriedade agrícola muito repartida, maioritariamente de pequena ou média dimensão.

A industria concentrava-se principalmente na vila de T. Vedras, tal como acontecia com a administração e o comércio.

2 - A Participação de Portugal na Grande Guerra e o problema das subsistências em Torres Vedras.

A Primeira a Grande Guerra iniciou-se em 28 de Julho de 1914, mas Portugal só entrou no conflito no primeiro trimestre de 1916, depois de a Alemanha ter declarado guerra ao nosso país em 9 de Março desse ano, como consequência do acto de provocação do governo português que, em 23 de Fevereiro, havia mandado apressar os navios alemães fundeados no Tejo.

As razões que levaram Portugal a participar nesse conflito, que durou até 11 de Novembro de 1918, são conhecidas, embora os historiadores interpretem de forma diferente  o peso de cada uma delas na decisão:

-          a importância da tradicional aliança anglo-lusa;
-          a defesa dos nossos direitos coloniais;
-   a necessidade de afirmação na cena política internacional do então jovem regime republicano;
-          questões políticas internas.

Não é nossa pretensão participar nesse debate, mas apenas analisar o modo como aquela decisão afectou a situação económico – social  do concelho de Torres Vedras.[1]

Embora Portugal só tenha entrado em guerra em 1916, os efeitos deste conflito já se faziam sentir muito antes.

Um dos principais efeitos da guerra fez-se já sentir a nível das subsistências, pelo que, logo em 1915, o governo de então tomou medidas tendentes a atenuar os efeitos negativos da guerra no preço e na falta de géneros de primeira necessidade.


2.1 - Medidas institucionais para controlar o preço e o comércio dos géneros de primeira necessidade (das “comissões de subsistência” aos “celeiros municipais”).

O primeiro decreto com impacto regional foi publicado ainda durante a vigência do governo de Pimenta de Castro, o decreto nº 1483 de 6 de Abril de 1915, criando uma “Comissão Reguladora dos Preços Alimentícios” em cada concelho do país, composta  pelo administrador do concelho, pelo presidente da comissão administrativa municipal, pelo delegado do Sindicato Agrícola e pelo delegado da Associação Comercial.

Competia a essa comissão elaborar tabelas, mensalmente actualizadas, do preço de venda a público dos géneros alimentícios de primeira necessidade e registar a saída de cereais do concelho para o abastecimento das fábricas de moagem.

Esse documento  estabelecia ainda um preço máximo nacional para a venda de milho, de centeio, de farinha de milho peneirada e do “pão de família de uso comum” em Lisboa e no Porto.

Um novo decreto, o nº 1900,  publicado em 18 de Setembro desse ano, substituía aquelas “Comissões Reguladoras” por “Comissões de Subsistência”, justificando a criação destas pela “necessidade de atenuar, tanto quanto possível, os inevitáveis efeitos da guerra europeia e tomar medidas a fim de obstar a que a elevação dos preços dos géneros de primeira necessidade” fosse “devido a causas menos lícitas”.

Tais Comissões de Subsistência tinham com principais funções tabelar o preço dos géneros de primeira necessidade e obrigar os “produtores, comerciantes ou detentores de quaisquer géneros de primeira necessidade, que possuindo-os para venda se recusem vendê-los, ou os tiverem em quantidade superior às necessidades da família e da sua exploração agrícola, industrial ou comercial” a “expo-los à venda, sempre que haja procura, sob pena de desobediência qualificada”.
Em cada concelho foi criada uma Comissão de Subsistências composta  pelo administrador do concelho, pelo presidente da comissão executiva municipal e por um representante da agricultura, outro do comércio e outro da indústria.

Comentando a extinção da comissão reguladora dos preços dos géneros alimentares do concelho e a sua substituição por uma comissão de subsistências, à luz desse novo decreto, ironizava o periódico local “A Vinha de Torres Vedras” : “(...) deixou de existir a comissão reguladora dos preços dos géneros, cuja acção se tornou nula neste concelho.

“Em sua substituição criar-se-há uma outra comissão idêntica que trará crtamente os mesmos benefícios.

“A constituição é igual, com a diferença de que os membros da antiga comissão eram eleitos delegados das respectivas classes produtoras e agora são de nomeação exclusiva das autoridades administrativas.

“È mais político e menos democrático”.[2]

Em 20 de Outubro o Administrador do concelho propunha ao Governador Civil a nomeação para a Comissão de Subsistências de Torres Vedras dos cidadãos “Francisco Avelino Nunes de Carvalho, representante da agricultura, José Anjos da Fonseca, representante do comércio, e António Augusto Cabral, representante da indústria”.[3]

Poucas são as referências à acção desta comissão, mas, a partir de 1916, com a entrada de Portugal na guerra, revela-se uma crescente preocupação por parte do executivo municipal com o abastecimento do concelho.

Em 24 de Maio de 1916 a Câmara solicita ao comandante local da GNR “que se faça com maior rigor a fiscalização (...) do peso dos géneros alimentícios” e em 26 de Setembro desse mesmo ano tem lugar uma sessão extraordinária do executivo para resolver os problemas da carestia dos bens de primeira necessidade.

Ao longo destes anos as sucessivas comissões de subsistências, também designadas, a partir da publicação do decreto nº 3216 de 28 de Junho de 1917 por “comissão de abastecimento local”, desenvolvem várias acções tendentes a combater a saída de produtos para fora do concelho.

Foi o que sucedeu em Abril de 1916 quando o administrador do concelho “mandou apreender no Casal da Serra da Murteira, freguesia de S. Mamede, 3 800 litros de trigo” que não tinham sido manifestados no prazo devido, pelo que esse trigo foi “distribuído por pessoas que provaram necessitar deste cereal com mais urgência”.

O mesmo aconteceu em 24 de Maio de 1917 quando foram apreendidos “dois carros de trigo” que pretendiam sair da vila para o vender fora do concelho, sendo o conteúdo apreendido depositado na Câmara Municipal.

Ainda em Abril de 1918 foi efectuada uma apreensão de 1 800 quilos de farinha em Dois Portos, sendo vendida a “várias pessoas, segundo uma lista fornecida pela junta de paróquia (...) sendo metade do produto [da venda] entregue ao seu possuidor e a outra metade ao Hospital da Misericórdia”.[4]

Aquela comissão desenvolveu também a tarefa fundamental de importar, armazenar e distribuir os bens necessários, quer ao abastecimento da população, quer à industria alimentar.

Numa reunião que teve lugar no dia 10 de Outubro de 1917, a Comissão de abastecimento resolveu “adquirir 2 vagons de milho, de Benavente” e oficiar e negociar com vários comerciantes o fornecimento de cereais, azeite e arroz à comissão, decidindo ainda adquirir batata “para a panificação neste concelho”.

Na mesma ocasião manifestou preocupação pelo facto de “lavrar grande descontentamento nesta vila” devido às autoridades terem consentido “na constante saída de feijão para fora do concelho”, temendo “qualquer grave alteração da ordem pública”.[5]

Os poderes atribuídos às comissões de subsistência e a constante intervenção dos poderes locais geraram conflitos envolvendo principalmente os comerciantes e os produtores.

Num caso foram acusadas de abuso de autoridade, como aconteceu com a acção do administrador do concelho António de Sá Pavillon: afastado das suas funções após a instauração do governo sidonista, ele foi acusado pela imprensa local afecta ao novo poder de “ficar com  dinheiros do trigo pertencentes a diversos agricultores, dinheiros que recebeu dos padeiros, não os entregando aos seus legítimos donos”.[6]

Noutro caso os comerciantes queixavam-se às autoridades locais dos abusos dos “fiscais das subsistencias”. O caso mais grave ocorreu em Agosto de 1918, levando a Câmara a reunir extraordinariamente ameaçando-se demitir.

Tendo reunido em assembleia geral no dia 22 de Agosto, os comerciantes apresentaram queixa às autoridades locais contra a “forma vexatória como foram feitos os varejos às existentes dos géneros de subsistencias nos  estabelecimentos desta vila” e “à maneira tumultuosa das apreensões e ao modo ganancioso como se pretende auferir avultosas multas, que em parte aproveita aos fiscais que procedem a estas deligencias”, tendo decidido encerrar os seus estabelecimentos em sinal de protesto, esperando uma solução das autoridades locais.

A Câmara decidiu enviar o protesto dos comerciantes à Inspecção Geral de Subsistências do Ministério do Interior e solicitar “dos poderes públicos uma sindicância aos actos fiscais que aqui procederam ao varejo e impuseram as multas a que aquela representação alude”[7]

   Os Celeiros Municipais

Com  o objectivo de “auxiliarem a Repartição de Cereais  Panificação da Direcção Geral de Subsistências, do Ministério das Subsistências e transportes, na aquisição, armazenagem  distribuição pelo país de todo o centeio, milho e trigo das futuras colheitas e das farinhas desses cereais, bem como de todo o centeio, milho, trigo e farinha exóticas que o Estado venha a importar” foram criados pelo Decreto nº 4125 de 22 de Abril de 1918, os chamado Celeiros Municipais.

Esses Celeiros eram “organismos das câmaras municipais, um por cada concelho”. Para a sua instalação as Câmaras foram autorizadas a “mobilizar os armazéns particulares  que” julgassem “necessários, mediante o pagamento da renda”.

Os municípios compravam directamente aos produtores e efectuavam imediatamente os pagamentos, depositando os géneros nos ditos Celeiros, sendo igualmente responsáveis pelos arrolamentos das futuras colheitas de centeio, milho e trigo.

No regulamento dos Celeiros Municipais atribui-se às Câmaras a obrigação de enviar “até 31 de Maio, à Repartição de Cereais e Panificação, uma nota do trigo, centeio e milho necessário para a manutenção dos seus munícipes”.

Deviam igualmente entender-se “directamente com a indústria da moagem” que existisse no concelho “para que esta” recolhesse e pagasse “de pronto o centeio, milho ou trigo destinados ao fabrico de pão para consumo” da população do concelho, procedendo à “distribuição das farinhas pela indústria de panificação”.

Competia ainda às Câmaras fixar o preço do pão e proibir o trânsito de pão entre concelhos diferentes, não incluindo nesta proibição o pão que os trabalhadores levassem para as suas refeições quando tivessem “serviço fora do concelho em que habitam”.

Na sequência de vários protestos contra esse regulamento, enviados ao governo por diversas câmaras municipais, é publicado o decreto nº4637 de 14 de Julho de 1918 que entrega a direcção administrativa de cada celeiro municipal ao “presidente da Câmara, que será o presidente”, a um “vereador eleito pela câmara” e ao “tesoureiro da Fazenda Pública, que será o tesoureiro do celeiro”, alargando, ao mesmo tempo, os poderes das câmaras e dos celeiros municipais  sobre o abastecimento, fabrico, venda e preço do pão.

Os celeiros municipais complementavam a acção das comissões de subsistência ou abastecimento com vista à resolução da grave crise de subsistências provocada pela guerra, dando às câmaras um poder  substancial sobre a vida económica local.

Em Torres Vedras, na reunião camarária de 10 de Julho de 1918 que se realizou para organizar o funcionamento do respectivo celeiro municipal, decidiu-se a mobilização dos “celeiros dos snr.s João Ferreira Junior e Ângelo Custódio Rodrigues, ambos situados na Rua Dias Neiva”.[8]

    . O tabelamentos dos preços e suas consequências.
 
Segundo António José Telo, “o défice alimentar português e a falta de produtos importados deviam contribuir para um substancial aumento dos preços agrícolas que favorecesse um acréscimo de produção, mas o Estado intervem, A política geral do Governo consiste em conter os preços agrícolas, inicialmente através de tabelação e mais tarde por manifestos obrigatórios, arrolamentos e requisições”. Esta intervenção não permitiu que os preços aumentassem “tanto quanto as condições de mercado ditavam”.[9]

Observando o Quadro III, elaborado com base na média dos preços tabelados anualmente pela câmara municipal, referentes à venda da produção do concelho, fazendo corresponder os preços de 1914 ao índice 100, nota-se que é só a partir de 1918 e, de forma mais acentuada, nos anos seguintes, até 1925, que se regista o aumento mais significativo dos preços.



Para essa situação muito terá contribuído o forte controle exercido sobre os preços durante os anos da guerra.

Em Fevereiro de 1915 foi publicada a primeira tabela dos preços dos géneros alimentícios e combustíveis para o concelho de T. Vedras, alargando o controle dos preços aos produtos importados, avisando-se que aqueles só podiam ser alterados com a autorização do administrador do concelho.

Este controle das autoridades sobre o preço dos produtos de primeira necessidade, se agradava aos consumidores, prejudicava os interesses dos produtores agrícolas e dos comerciantes locais.

A nível nacional os “agricultores queixavam-se dos grandes aumentos dos adubos, alfaias, sementes e salários”, reclamando “contra os baixos preços dos seus produtos e os mais ousados lançaram-se no açambarcamento, mercado negro e contrabando”.[10]


Em Torres Vedras,  a publicação oficial pelo administrador do concelho da tabela que fixava o preço dos géneros de primeira necessidade foi saudada, pela imprensa local, por considerar que tal decisão punha cobro ao facto de “alguns comerciantes menos escrupulosos” abusarem “da situação já precária em que se” encontrava “a vida nacional com gravame para o público que se via lesado”, aproveitando a ocasião para alertar e apelar às mesmas autoridades a porem “cobro aos açambarcadores que aos domingos vêm fazer o seu jogo para a praça”.[11]

Contudo, ainda no mesmo ano, começam a surgir queixas contra a “falta de cumprimento da tabela dos preços dos géneros”.[12]

A maior parte das queixas contra a falta do cumprimento na aplicação da tabela referia-se ao preço do pão. Em Maio de 1916 um articulista denunciava o aumento do preço do pão na vila n’ “um centavo em quilo, sem prévio aviso para os consumidores.

Perante os crescentes protestos o administrador do concelho acabou por providenciar “de maneira que nesse mesmo dia o pão voltasse a vender-se nesta vila ao preço de 9 centavos”.

Aquele mesmo articulista a “que, sempre que se torne necessário fazer qualquer aumento de preço de géneros de primeira necessidade, como estes que têm preço estabelecido e certo, deve presidir o critério de se avisar antecipadamente o público, para se não repetiram os casos desagradáveis que têm acontecido de, inesperadamente, numa manhã, a carne custar mais cara ou o pão subir de preço, com desconhecimento do público que não via isso com bons olhos”.[13]

Um outro tipo de queixa muito frequente referia-se á falta de peso do pão ou ao facto de ser mal cozido.

Em Novembro de 1916 um leitor da “Vinha...” queixava-se da Câmara ter autorizado o aumento do preço do pão a pedido dos “poderosos”, “permitindo ainda (...)  que o pão seja cozido e... cerceado (...) no peso, porque os padeiros não sabem que um quilo tem mil gramas”.[14]

Em Maio de 1917 queixava-se mais uma vez a imprensa local de “há tempos para cá” o preço do pão e o de outros géneros subir “assustadoramente” e de, apesar das promessas das autoridades em punir severamente quem não pesasse correctamente o pão, este ter rapidamente voltado a aparecer “mal cozido e com falta de peso”.[15]

Ao longo desses anos continuam a surgir queixas  contra o encarecimento do pão “algum de má qualidade”, ironizando um articulista que “a diminuir assim de peso, temos que daqui a pouco os padeiros receberão o dinheiro do pão e acabam por não entregar nenhum”.[16]

Alguns comerciantes resistiam a vender o seu produto pelo preço tabelado, como aconteceu em Fevereiro de 1918 com um que, por se recusar a vender na praça a batata ao preço tabelado, viu o seu produto ser apreendido pelas autoridades que o prenderam e venderam a batata ao preço legal, entregando-lhe depois o produto da venda.[17]

Apesar de todas as medidas tomadas pelas autoridades tendentes a controlar os preços, a imprensa local, a poucos dias do fim da guerra, referia o agravamento, “dia a dia”, das “condições de vida económica”, devido à constante subida dos preços, considerando que “o mais modesto chefe de família tem de ter um ordenado de príncipe e uma correia para apertar a barriga”, denunciando ainda que “os ovos vendem-se descaradamente a tostão cada um. Quem deles tiver necessidade por motivo de doença ou seja pobre, sem eles terá de passar, assim como de muitas mais coisas necessárias em caso de doença”.

“Os outros géneros seguem a mesma marcha ascensional de preço (...). Dos géneros sujeitos a tabela, quase não há notícia”, faltando o açúcar e “nalguns dias” o próprio pão.[18]

  Protestos contra a carestia e a falta de géneros.

 Embora sem a gravidade que se registou noutros pontos do país, nomeadamente em Lisboa, a crise das subsistências provocou em Torres Vedras alguma agitação social.

Foram várias as causas que motivaram essa agitação: a qualidade do fabrico do pão; a sua falta ou o seu preço; a falta de outros produtos essenciais, como o açucar ou o arroz; o açambarcamento; menos frequente, a questão salarial.

Já nos referimos anteriormente aos protestos referidos na imprensa local contra a má qualidade do pão fabricado.

Um dos momentos de maior tensão vivido em Torres Vedras por causa dessa situação ocorreu entre os finais de Maio e início de Junho de 1916, quando “apareceu à venda um novo tipo de pão de trigo e milho misturado e pelo preço idêntico ao do pão de trigo só”.

Numa tentativa  para acalmar os ânimos realizou-se uma concorrida reunião no Centro Republicano Alexandre Braga, na qual se nomeou uma comissão para estudar “o assunto e se entender com os industriais de padaria e com a câmara municipal, afim de se solucionar o conflito”.
Após várias reuniões de trabalho, assa comissão reuniu-se pela última vez no dia 6 de Junho “sob a presidência do sr. Administrador do concelho” e com a presença dos “industriais de padaria”, chegando-se “ao seguinte acordo e compromisso” com estes, “até aos novos trigos” : “fabricar, além do pão fino, sem limite de preço, um tipo de pão de farinha de trigo por 180 réis o quilo e um tipo de pão de milho, com uma margem de rolão grosso”, por “120 réis o quilo”.[19]


Durante o dia em que decorreu essa reunião “correram nesta vila vários boatos de que se dariam (...) acontecimentos de vulto, a propósito da questão do pão.

Aquele acordo acabou por ser sancionado pela Câmara cerca de uma semana depois, acalmando os ânimos da população.

A falta de farinha e pão, bem como a instabilidade do seu preço, foi igualmente geradora de alguma agitação social durante o período estudado.

Em Fevereiro de 1916, ainda antes da entrada de Portugal na guerra, a imprensa local destacava as “dificuldades da vida, pela enorme carestia dos géneros de primeira necessidade que, se para os remediados se tornaram de difícil acesso, para os pobres vão sendo uma coisa raríssima” e que agora “a agravar a vida aflitissima  das populações rurais, até a falta de pão veio acentuar, nalguns lugares deste concelho, as dificuldades da hora presente, e sem que ao que parece, as autoridades tenham dado um passo para atenuar essa falta de uma gravidade tão extrema”.[20]

Ao longo do ano de 1916  são frequentes os pedidos por parte do administrador do concelho para o Governador Civil de Lisboa, solicitando o envio urgente para o concelho de milho e outros cereais, com se pode confirmar folheando a correspondência daquele administrador para este orgão de poder existente no Arquivo Municipal de T. Vedras.

Em 28 de Fevereiro de 1917 o administrador do Concelho enviava um telegrama para Ministério do Trabalho, solicitando providências para resolver a falta de farinha no concelho, pois receava que se registasse a alteração da ordem pública.[21]

Em 28 de  Maio desse mesmo ano a câmara municipal de Torres Vedras fazia publicar um edital onde proibia a saída de cereais, de farinha e de pão para fora do concelho devido “à reclamação do povo desta vila” que nesse mesmo dia tinha afluído em grande número à Câmara a exigir que essa decisão fosse tomada.

Com tal medida tentava-se contribuir “para que se não sinta a falta de pão que se apresentava para breves dias, com o espectro negro da fome, se tal medida não houvesse sido tomada”.

Na reunião camarária onde foi tomada essa decisão, deliberou-se ainda que “todos os cereais existentes neste concelho e cujas quantidades se reconheça excederem as necessidades dos respectivos possuidores, só possam, sob pena de apreensão, ser única e exclusivamente vendidas a esta câmara”. Decidiu-se ainda que os padeiros “passassem a fabricar o pão de dia, em lugar da noite, para ser consumido passadas essas horas e assim restringir-se o consumo do mesmo pão” [22]

Em Agosto de 1917 a situação da falta de pão continuava a agitar a opinião pública local, levando os proprietários das padarias a expor ao administrador do concelho “a  situação que se encontravam por falta de trigos, visto que as pessoas indicadas pela mesma administração para venderem o trigo manifestado, se recusavam a entregá-lo”.[23]

Se a falta de pão, por ser o principal alimento das populações, foi a que provocou mais agitação social, a falta de outros produtos motivou igualmente vários protestos.

Foi o que aconteceu em determinadas ocasiões com a falta do açúcar ou do arroz.

No dia 26 de Setembro de 1916 os proprietários das mercearias reuniram-se para protestar “contra as delongas do fornecimento do açúcar” e as dificuldades opostas ao comércio local”, resolvendo enviar uma representação ao administrador do concelho.

Nessa representação, considerando que “a actual escassez de açúcar nos inibe de fornecer regularmente os nossos clientes”, colocando-os “mal perante os consumidores” e sendo a sua distribuição “feita de forma injusta e morosa”, para além de outras queixas, resolveram dar a sua adesão à Associação dos Vendedores de Víveres a Retalho de Lisboa “que se propõe solicitar aos Poderes Públicos a abolição da tabela de preços de açúcar em vigor, deixando livre o seu comércio, que será regulado pela imutável lei da oferta e da procura”. [24]

Houve contudo uma situação que gerou protestos de sentido contrário, relacionada com a proibição de se exportar batata do concelho, decisão que tinha sido tomada pelo executivo camarário em Setembro de 1917 com o objectivo de assegurar o fabrico de pão de trigo misturado com batata.

Os protestos baseavam-se no facto do concelho produzir batata “em quantidade muito superior às suas necessidades”, nunca se tendo registado falta desse tubérculo pelo que, ao não ser escoada devido àquela medida, esta apodrecia rapidamente, com evidente prejuízo para os seus produtores.

Tinha acontecido também, num dos mercados dominicais da vila, que a batata posta à venda teve de voltar “aos pontos de origem, dando em resultado grande parte dela ir parar aos estrumes, por não se aguentar nestes embates de viagens e contra viagens”. No domingo seguinte a este acontecimento “quase nenhuma batata apareceu á venda nesta vila”, ficando armazenada pelos produtores á espera de “obter melhores preços” e evitar os riscos de apodrecimento, situação que levou  vários lavradores a queixarem-se à imprensa local contra aquela medida camarária “que prejudica a agricultura do concelho, ao mesmo tempo que não” resolvia “por forma alguma a crise das subsistências”.[25]

Igualmente alvo dos protestos populares foram as situações de açambarcamento, muito comuns em conjunturas como aquela.

Já em 1915 registou-se em Torres Vedras “grande indignação (...) pelo facto (...) de os açambarcadores de géneros não serem incomodados pelas autoridades”.[26]

Em Maio de 1916 um articulista local denunciava “os grandes açambarcadores” que “vivem à tripa forra” e “engordam com o suor dos campos”, enquanto nos campos se vivia “outra vez a vida miserável das graves dificuldades aumentadas pela carestia e raridade das subsistências”.[27]

Em meados de 1918 a mesma imprensa local chamava a atenção das autoridades administrativas para os abusos cometidos “na praça desta vila com os géneros que são açambarcados2 e vendidos depois a “preços exorbitantes”, pelo que “o público fala exasperado, e com razão e a autoridade administrativa, a quem compete evitar estes abusos, não deve fechar os olhos perante eles, para não dar lugar a continuas e justas reclamações”.[28]

Duas das situações mais graves ocorreram em 1916, a primeira no dia 8 de Abril, tendo os padeiros liderado uma reclamação junto do administrador do concelho por não existir “trigo suficiente para o consumo e saberem haver quantidades desse cereal nos armazéns dos srs. João Ferreira Júnior e jacinto Lopes Baeta” que, em face dos protestos, foram intimados pelo administrador do concelho a vender o trigo ao preço tabelado.

Deslocando-se os padeiros a um desses armazéns foram recebidos pelo encarregado que se negou “a vender qualquer porção desse cereal por menos de 1$20 os 14 litros, preferindo antes largar-lhe o fogo”.

Perante tal situação, as autoridades tiveram de intervir confiscando “452 sacos de trigo de 100 litros cada”, levados para uma “dependência no edifício da Graça” onde o produto foi vendido ao preço tabelado.[29]

Outra situação idêntica ocorreu quando foram apreendidos pela autoridade administrativa, na estação de caminho-de-ferro da vila, “25 sacas de açúcar trazidas para serem vendidas aos comerciantes desta vila2 acima do preço tabelado.[30]

A “questão salarial”.

A questão salarial foi outro dos motivos da agitação social que se registou durante os anos da guerra.

Contudo o efeito do aumento do custo de vida nos salários não se fez sentir não se fez sentir da mesma maneira em todos os sectores de actividade.

Sendo à época a agricultura a actividade dominante entre a população activa do concelho, ao longo do período estudado os salários agrícolas acompanharam, pelo menos nos primeiros tempos, a subida do custo de vida. Apesar disso, e citando mais uma vez a imprensa local, não se podendo “dizer que no nosso concelho (...) as jornas agrícolas se têm conservado por preços um tanto elevados, não haja em larga escala esse mal estar que tanto aflige a sociedade portuguesa”.[31]

Valia a uma parte considerável da população rural a existência de uma economia auto-subsistência.

As principais queixas vindas do mundo rural referiam-se à subida do preço dos meios necessários à actividade agrícola, ao tabelamento dos preços ou à proibição de importações de uns produtos e da exportação de outros: “Enquanto que poderosos magnatas exploram livremente a vida dos campos com ganancioso aumento de preços dos produtos necessários ao solo, era imposta uma tabela de preços para os produtos agrícolas; enquanto se deixavam exportar produtos necessários à agricultura, que tinha por isso mesmo de os pagar mais caro, não se acudia às necessidades fortemente e antecipadamente apontadas da importação de cereais, para se acudir à fome; ao par e passo que se aumentavam as dificuldades da vida presente, paralisava-se, proibindo-se quase, a saída dos nossos vinhos para o estrangeiro(...)”.[32]  

Já em relação ao mundo operário, embora este tivesse ainda pouco peso na sociedade torriense, a situação salarial era mais importante, já que os trabalhadores deste sector dependiam exclusivamente do seu salário para sobreviverem ao constante aumento do custo de vida, para além de se concentrarem maioritariamente na vila, onde a pressão dos preços era maior.

A indústria torriense era ainda maioritariamente artesanal, pelo que as primeiras medidas conhecidas para enfrentar a subida dos preços se resolveu aumentado o preço da sua “obra”:

Em Janeiro de 1916 reuniram-se os “operários” da “arte de marceneiro” para apreciarem a sua “difícil situação”. Devido à “enorme elevação” dos géneros de primeira necessidade, resoveram, para minorar a sua situação, elevar “os preços das obras durante a actual crise, de comum acordo com os patrões”, referindo a notícia que “outras classes vão fazer o mesmo”.[33]

Um movimento pelo aumento salarial na indústria deste concelho teve lugar em Fevereiro de 1917, quando “alguns operários da oficina de tanoaria da viúva de António da Silva, na rua Mousinho d’Albuquerque, exigiram aumento salarial”.

Tendo-lhes sido negado o aumento, resolveram entrar em greve no dia 27 de Fevereiro, uma terça-feira.

A pedido do gerente da oficina, o administrador do concelho mandou “à hora dos operários tomarem o trabalho, um guarda para a oficina, a fim de que não fosse impedida a entrada aos operários que desejassem trabalhar, tendo todos, depois de vários entendimentos com o proprietário e gerente, retomado o trabalho, à excepção d’um que por isso foi despedido”.[34]

3 – A Situação Alimentar da População Torriense (1916- 1918)

. A Produção agrícola do concelho de Torres Vedras.
 Sendo a agricultura a principal actividade do concelho de Torres Vedras este era, no período estudado, um dos principais centros de produção agrícola do distrito de Lisboa (que então se estendia pelo actual distrito de Setúbal), num total de 26 concelhos, como se pode comprovar no Quadro IV.
Nesse quadro podemos ver também a evolução de algumas produções do concelho e o tipo de agricultura era produzida durante a primeira metade  do século XX:

QUADRO IV
Produção agrícola do concelho de Torres Vedras (1904; 1916;)
Produto
medida
1904
1916
Posição de T. Vedras no distrito de Lisboa (1916)
T. Vedras
% da produção distrital
(1916)
Concelho  com maior produção no distrito de Lisboa (1916)
Mosto
litros
S/d
29.933.718
25,4
T. Vedras
Vinho
litros
35.950.000
21.833.640
24,0
T. Vedras
Batata
quilos
6.200.000
3.902.921
17,6
Cadaval
Trigo
litros
856.000
2.295.040
5,8
Vª Frª de Xira
Milho
litros
945.900
1.533.320
10,5
Alenquer
Feijão
litros
124.700
347.403
29,9
T. Vedras
Fava
litros
89.500
588.300
6,2
Vª Frª de Xira
Azeite
litros
51.250
19.124
4,2
Alcácer do Sal
Aveia
litros
15.400
163.056
2,7
Santiago do Cacém
Cevada
litros
59.100
212.280
10º
4,6
Alcácer do Sal
Grão
litros
59.700
48.748
5,7
Vª Frª de Xira
Arroz
litros
s/d
s/d
-
-
Alcácer do Sal
Centeio
litros
7.600
773
19º
0,04
Grândola
Xíxaro
litros
18.200
s/d
-
-
-
Cortiça
quilos
s/d
1.350
16º
0,02
Alcácer do Sal
quilos
s/d
8.719
2,4
Lisboa

Fontes: 1904 – Mapa de Produção do concelho de Torres Vedras, da Administração do Concelho (Arquivo Histórico de Torres Vedras - AHTV); 1916 – Estatística Agrícola de 1916, Lx. Imprensa Nacional, 1917

Embora os dados acima registados correspondam a fontes diversas, com critérios distintos, é possível confirmar a importância do vinho como primeira produção agrícola do concelho. A batata, uma produção recente no concelho, cuja importância data do início da segunda metade do século XIX, revela-se a segunda produção mais significativa. Produções tradicionais, como o trigo e o milho, vão perdendo peso face àquelas duas produções. Contudo, em 1916, o conjunto dos cereais parece conhecer uma  razoável evolução produtiva, contrastando com a quebra da produção  vinícola e de batata. Nesse mesmo ano a produção de leguminosas parece ter conhecido igualmente um acentuado crescimento. De registar ainda o facto de, pela primeira vez, se fazer referência à produção de cortiça e lã.

Segundo dados publicados na referida  Estatística Agrícola de 1916, apesar da importância do vinho, o número de produtores de batata, trigo, milho e fava era superior ao número de produtores de vinho. Contudo, enquanto a produção de milho e trigo se destinava preferencialmente ao auto-consumo ou a fornecer a produção local de pão, já a batata era, conjuntamente com o vinho, destinada à exportação.

Em termos distritais (na área do actual conjunto dos distritos de Lisboa e Setúbal), Torres Vedras ocupava, em 1916, num total de 26 concelhos, o primeiro lugar como produtor de vinho e feijão, o segundo na produção de batata, o terceiro na produção de milho e lã preta e o quarto na produção de fava.

Para a produção vinícola, principal em volume de produção e o principal produto comercializado pelo concelho, possuímos alguns dados mais detalhados, sendo possível acompanhar o seu valor entre 1915 e 1924:

QUADRO V
Produção vinícola do concelho de Torres Vedras (1915-1925)
ANO
LITROS
1915
21.833.640
1916
20.171.905
1917
18.739.099
1918
19.000.000
1919
19.128.180
1920
19.102.967
1921
23.201.230
1922
28.269.000
1923
49.105.100
1924
34.752.600
1925
37.912.100
Fonte: José Manuel Carvajal Telles da Sylva, O Concelho de Torres Vedras, a crise vinícola e a solução cooperativa – alguns subsidios para o seu estudo, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, Junho de 1936, quadro da página 36, baseado em dados dos Boletins de Estatística Agrícola .

Os dados acima registados sobre a produção vinícola do concelho, parecem confirmar alguma crise produtiva na década de 10 do século XX, principalmente durante a sua segunda metade, talvez como consequência da crise comercial provocada pela 1º Guerra Mundial. Só a partir de 1921 se inicia uma tímida recuperação dessa produção, que dispara a partir de 1923.

Podemos observar a produção agrícola usando um outro critério, tomando agora como referência a área agrícola ocupada neste concelho por várias culturas:

QUADRO VI
Áreas ocupadas pelas principais culturas no concelho de T. Vedras (em hectares)- (1904 e1941-1945)

1904 (1)
1941-1945 (2)
VINHO
5760
11069
BATATA
1505
688
TRIGO
1168
4054
MILHO
1200
1440
FEIJÃO
204
2723
FAVA
159
300
AZEITE
300
442
AVEIA
39
326
CEVADA
164
228
GRÃO
110
139
ARROZ
s/d
16
CENTEIO
25
27
CHÍCHARO
74
s/d
                                TOTAL
10708
21452
FONTES: (1) Administração do Concelho - Mapa de Produção do Concelho de Torres Vedras, 1904, AHTV.; (2) OLIVEIRA, Rogério(1951),p.202 (dados relativos à média de produção entre 1941 e 1945)

Embora  só tenha sido possível obter dados completos sobre a ocupação das áreas agrícolas do concelho para dois períodos, confirma-se o peso da vinha, que, no final da primeira metade do século XX, ocupava quase metade da superfície agrícola do concelho, seguindo-se o cultivo de batata, trigo e milho, que apesar de tudo, no seu conjunto, ocupavam menos área que a do vinho.

José de Campos Pereira, na sua obra publicada em 1915, baseada em dados de 1911, intitulada “A Propriedade Rústica em Portugal”, revela dados que colocam o concelho de Torres Vedras em primeiro lugar no distrito de Lisboa, que então incluía a área do actual distrito de Setúbal, quer quanto à área de cultivo da vinha (21 000 hectares, cerca de ¼ do total distrital), quer quanto ao rendimento (15 mil contos, pouco menos de 1/3 do total distrital ) quer quanto à produção (808 500 hectolitros, cerca de 1/3 do total distrital). 

A área ocupada   nem sempre  era proporcional à rentabilidade de cada produto.

Por exemplo, e consultando as mesmas fontes, o vinho era uma das produções mais rentáveis, em relação à superfície cultivada.

Sendo provável que parte dessa produção agrícola fosse consumida  no concelho, o quadro  seguinte pode-nos elucidar sobre a  sua importância comercial, bem como a de outras actividade agro-pecuárias do concelho .

QUADRO VII
Expedição da Produção agro-pecuária pelas estações de caminho de ferro do concelho de T. Vedras (1910).

Cereais e farinhas   (Kg)
Legumes Verdes e Secos (Kg)
Vinhos e Derivados (Kg)
Produtos Florestais (Kg)
Gado  (Cabeças)
Dois Portos


9263870 (7ª)


Runa


7318516 (13ª)

Torres Vedras
1130184 (29ª)
1538317 (10ª)
9946890 (6ª)

1131 (27ª)
Ramalhal


1311516 (30ª)
3406720 (7ª)

Outeiro



915194 (16ª)

FONTE: Estatísticas Agrícolas - Resumo Estatístico, Lx. Imprensa  Nacional, 1914

A informação de onde retirámos estes dados é referente  à evolução dessa situação em todas as estações ferroviárias do país, entre os anos de 1904 e 1911. Não conhecendo, infelizmente, outras informações do género para um período posterior, escolhemos como referência os dados do ano de 1910, o último com dados  completos sobre todos os produtos mencionados.

À frente da quantidade expedida, entre parênteses, colocámos a posição ocupada a nível nacional por cada estação. Naquelas onde nada consta, não quer dizer que  não tivesse havido expedição de produtos, apenas que a sua quantidade era insignificante.

Mais uma vez o vinho surge como um importante produto comercializado por este concelho. É igualmente significativo o peso dos produtos florestais. Mesmo em produções menos importantes, este concelho tinha um peso de destaque a nível nacional na sua exportação como acontecia, e por ordem de importância, com os "legumes verdes e secos", o “gado” e os "cereais e farinhas".

    . Alimentação e recursos alimentares da população torriense.

Uma primeira abordagem à situação alimentar do concelho no perincípio do século XX  pode ser analisada tendo por base um inquérito elaborado pelos sub-delegados de saúde e a outras entidades de todos os concelhos do país, em 1903, a pedido de Pedro Dória Nazareth, para a realização de um “estudo sobre a alimentação das classes trabalhadoras do continente de Portugal”, cujos resultados foram publicados ao longo de vários números da revista Tuberculose  durante o ano de 1909.

Em anexos publicamos os dados referentes ao concelho de Torres Vedras e aos concelhos vizinhos.

Essas informações dariam só por si para um estudo sobre a situação alimentar na região. Deixamos contudo a outros mais competentes do que nós esa análise, registando apenas o facto de o valor médio das calorias consumidas pelos trabalhadores rurais do concelho, Calorias, 4644,998, ser assinalavelmente superior às “necessidades alimentares do homem adulto executando trabalho muscular”, que são de 4000 calorias diárias.[35]

Um outro inquérito mais pormenorizado sobre o concelho de Torres Vedras e temporalmente contemporâneo da época que estamos a analisar, permitiu-nos elaborar o Quadro VIII.

Este inquérito tinha como objectivo “reunir elementos para a coordenação dos estudos sobre os recursos do país que, em tempo de guerra, possam ser utilizados para subsistência e fardamento do exército, não tendo qualquer intuito tributário”. Nos exemplares existentes no arquivo Municipal está riscada o resto da frase, onde se lia “nem supondo tão pouco a probalidade próxima de qualquer conflito armado”, provavelmente porque terá sido enviado em 1916 ou num dos anos seguinte, quando Portugal já se tinha entrado na guerra.

QUADRO VIII

Inquérito aos Recursos Alimentares do Concelho de Torres Vedras (S/D [1916 a 1918?])

S. Pedro
Stª Maria
Freiria
S. Pedro da Cadeira
População indicada
4732
3699
1954
4730
Alimentação usual dos habitantes
Pão, batata, peixe, legumes e arroz
Pão de trigo, batata, arroz, peixe, carne e legumes.
Batata, feijão, hortaliça, couve e peixe
Legumes, hortaliças e  carne de porco
Preço aproximado de uma ração cozinhada(1)
$ 50
$40
$160
$60
Culturas principais
Vinho e Batata (também Trigo, Milho, Feijão, Grão e Fava)
Vinho e Batata
(também Trigo e Milho “pouco”)
Vinho, Batatas e alguns Cereais
(também Trigo, Milho, Cevada, Feijão, Grão, Favas, Ervilhas)

Vinho, Trigo, Milho, Batatas, Legumes (Feijão e Favas) e Hortaliças.
(Também Cevada, Aveia e Ervilhas.).
Importação
(produtos alimentares)
Arroz, Peixe e Carne
Arroz, Peixe e Carne
“Tudo à excepção do indicado”
Azeite, Arroz, Centeio, Milho e Carne de Vaca.
Exportação
(produtos alimentares)
Vinho e Batata.
Vinho e Batata.
Vinho, Batata e alguns Legumes.
Vinho, Trigo, Batata, Legumes e Hortaliças.
Espécies de farinhas fabricadas
Trigo e Milho
Trigo e Milho
Trigo e Milho
Trigo e Milho
Espécies de pão fabricado.
Trigo e Milho
Trigo e Milho
Trigo e Milho
Milho e “algum trigo”
Fonte: Inquérito do Estado Maior do Exército, 2ª direcção, 7ª repartição, sem data (data provável : entre 1916 e 1918), dados existentes para 4 freguesias no AHMTV.
(1) – “O preço da ração cozinhada é o da alimentação de um soldado durante um dia, quando aboletado em casa d’um habitante medianamente remediado, e comendo as refeições usuais do mesmo habitante”, in documento referido na fonte.

Apesar dos dados recolhidos não incluírem todas as freguesia do concelho, abrangem contudo um universo razoável para traçar um retracto da situação alimentar do concelho.

Inclui as duas freguesias sediada na vila e duas das freguesias rurais mais importantes, Freiria e S. Pedro da Cadeira.

De acordo com aquele inquérito podemos referir como alimentos habituais da população deste concelho:

-      o pão, embora apenas referido na alimentação das freguesia urbanas, mas fabricado em todas;
-          a batata, referida na alimentação de todas as freguesias, menos em S. Pedro da Cadeira;
-          os legumes e hortaliças em todas as freguesias;
-          o arroz, apenas referido nas freguesias urbanas;
-        o peixe, sendo igualmente comum á maior parte da alimentação na região observada, não sendo contudo referida na única das quatro freguesias do litoral e onde existia a única comunidade piscatória do concelho (Aseenta);
-      a carne de porco é o único tipo de carne referido e apenas na freguesia de S. Pedro da Cadeira.

Ao que parece, a carne e o peixe seriam importados de fora do concelho, enquanto abundava o vinho e a batata.

O pão era fabricado do trigo e do milho, embora o pão de trigo fosse  mais raro em S. Pedro da Cadeira.

A importância do milho e do trigo na alimentação da população é evidenciada nos dados referidos no relatório dos regedores sobre o “consumo anual das freguesias”, datado de 1916:

QUADRO IX
CONSUMO E PRODUÇÃO ANUAL DAS FREGUESIAS DO CONCELHO DE T. VEDRAS - 1916
Freguesia
Produtos
Para sementeira agrícola
(em litros)
Gastos da Família (total da freguesia, em litros)
Para venda para padeiros e industria local
(em litros)
Total de litros (para consumo anual da freguesia)
Produção manifestada em 1916
Nº de Fogos em 1916
Média de gastos por fogo (anual, em litros)
Carmões
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
400
400
6200


66300
331500
“não gasta trigo, só farinha das fábricas”
400
66700
337700

47112
46714
86640
1956290
255

260
1300
Carvoeira
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
200
4000
1600

197000
646000


13000
200
201000
660600



                23510
84134
77540
998500
540

364
1196
Cunhados
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
2000
20000
4000

882000
94500


44000
2000
902000
142500

416
116156
55402
12300
263260
606

1455
155
Dois Portos
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
2000
33000
65000



324000
648000

50000
100000
2000
407000
813000

145496
215630
367900
5614520
908

357
713
Freiria
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
900
900
1500


375000
66300


22000
900
375900
89800



98660
125228
377965
448500
446

840
1487
Matacães
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho

42000
51000


429000
510000

10000
25000

481000
586000


39300
168658
54350
1028960
344

1247
1482
Maxial
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
600
4500
4500


450000
450000


44000
600
454500
498000
14
145120
202287
213350
1018200
618

728
728
Monte Redondo
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
300
6000
9000

275000
55100



36000
300
281000
100000

20150
15080
57480
562900
212

1297
260
Ponte do Rol
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
1600
3300
3400


468000
156000


36500
1600
471000
195900
100
44316
53339
27800
375600
274

1708
569
Ramalhal
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
800
11000
2500


531500
119500

3000
1000
800
545500
123000
200
114710
48488
65855
1180400
400

1329
299
Runa
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho

7500
8400


36500
219000

39100
50400

83100
277800
11
41102
50265
79420
782237
237

154
924
Stª Maria
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
600
3400
54400

270000
540000

6000
1000
100000
6600
274400
694000
30
129830
56496
23620
1267900
780

346
692
S. Mamede
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
300
20000
51000

530000
725000


86000
300
550000
862000

84040
275756
661930
1172670
728

728
995
S. Pedro
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
500
4000
64000

375000
750000
5000
2000
200000
5500
381000
1014000

84870
320964
104430
1614708
1083

346
692
S. Pedro da Cadeira
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
3300
124200
71700


1226000
306500


91200
3300
1350000
469400

180963
439969
124350
353000
954

1285
321
Turcifal
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho
500
4000
10000

360000
730000


36000
500
364000
776000

78836
145800
263470
1452960
720

500
1013
TOTAL
Centeio
Milho
Trigo
Batata
Vinho


6795300
6347400


171
1394121
2304708
2624700
20189905
9105

746
697

Fontes: “Consumo anual das freguesias” – 1916, relatório dos regedores, AHMTV; Manifestos de produção – 1916, dos regedores, AHMTV;

A fazer fé nesse dados, a produção de trigo e de milho era manifestamente insuficiente para as necessidades médias das famílias do concelho, mesmo nas freguesias onde aquela produção era importante.

Só em duas freguesias, Freiria e Matacães, a produção de trigo era superior a essas necessidades.
Na maior parte dos casos o vinho e a batata confirmam-se como as produções mais importantes, embora mais importantes do ponto de vista comercial do que ao nível do consumo.

É ainda interessante observar o consumo médio por família do trigo e do milho:

-          em 10 freguesias o consumo de trigo era superior ao consumo de milho;
-          o consumo de milho era superior nas restantes 6 freguesias;
-          as freguesias que consumiam mais trigo eram A Dos Cunhados, Monte Redondo, Ramalhal e S.pedro da Cadeira;
-        em todas elas a produção de trigo era pouco significativa, com a excepção de S. Pedro da Cadeira, onde o trigo ocupava o primeiro lugar em termos de produção;
-          em média, somando o consumo de milho com o consumo de trigo, quase todas as freguesias ultrapassam os 1400 litros de consumo anual por família;
-   onde o consumo de trigo é inferior, esse facto era compensado pelo aumento médio do consumo de milho.

Existem quatro freguesias onde o consumo de cereais é inferior àquela média referida em cima: Dois Portos, Runa e as duas freguesias urbanas (S. Pedro e Stª Maria).

A razão não deverá estar numa alimentação mais pobre, mas do facto de todas essas freguesias poderem, pelo contrário, garantir uma alimentação mais variada, recorrendo a outros consumos alimentares que não apenas, ou principalmente o do pão. Todas estas freguesias tinham fácil acesso a outros consumos, já que nelas  se situavam três da estações de caminho-de-ferro, das comercialmente mais importantes do concelho.
 
    . Da crise de subsistências à “pneumónica”.

Com os dados que temos é evidente que a situação alimentar do concelho, sendo preocupante, não era dramática.

A grande produtividade do concelho permitia enfrentar a crise que nesta região era fundamentalmente comercial, através de uma economia de auto-subsistência alimentar.

Contudo, nem todos os seus habitantes sentiram da mesma maneira os efeitos dessa situação.

Um bom barómetro para perceber o efeito da escassez alimentar sobre a população foi a maior ou menor  imunidade biológica  revelada pelo efeito da “pneumónica” entre os habitantes desta região.

Segundo Oliveira Marques[36] um dos motivos para a eclosão das grande epidemias de 1918-1919, com destaque para a pneumónica, foi o “estado débil dos organismos entre as classes pobres”, as “mais afligidas pela escassez e penúrias dos géneros de primeira necessidade”.

A primeira vaga de epidemias registou-se entre Junho e Julho de 1918, entrando rapidamente em declínio e tendo um impacto pequeno. Mas uma segunda vaga iniciou-se nos arredores do Porto em Agosto, disseminando-se lentamente durante os meses seguintes, atingindo o sul e o seu clímax em Outubro, continuando a fazer sentir o seu efeito até Dezembro de 1919.

Em Torres Vedras a doença “começou a fazer-se sentir nos lugares situados ao norte do concelho”, propagando-se “assustadoramente” a todo o concelho, provocando “grande miséria” nos lugares “onde a epidemia tem feito mais estragos”, pelo que se aguardava “a vinda de algum açúcar, cuja falta é enorme”, ao que parece por ser necessário para o fabrico de remédios farmacêuticos. Foi igualmente criado um hospital provisório “para os doentes atacados de epidemia”.[37]

Neste concelho o período mais crítico decorreu entre 27 de Setembro e 31 de Outubro de 1918, obrigando ao encerramento de estabelecimentos e paralisando momentaneamente a vida política, social e económica de Torres Vedras.

Durante esse período morreram no país 31785 pessoas, sendo a região de Lisboa uma das mais atingidas. Em Torres Vedras morreram 861 pessoas, numa percentagem de 2,2% da sua população, tomando como referência os censos de 1911, percentagem ligeiramente inferior, 2,1%, se a base de referência for a população do concelho em 1916 segundo dados não oficiais.

Em termos nacionais e apenas em relação àquele período, a epidemia matou cerca de 0,6% da população nacional.

Torres Vedras registou assim uma mortalidade quase quatro vezes superior à média nacional.

QUADRO X.
População por Freguesias (1911-1916-1920)- e  mortalidade na “Pneumónica”(Set.-Out.1918)
Freguesia
1911
1916
1920
Mortos 1918
(pneumónica)
% vítimas
(em relação à pop. de 1916)
A Dos Cunhados
2866
2998
3386
82
2,74
Carmões
1094
1145
1157
22
1,92
Carvoeira
2112
2185
2137
19
0,87
Dois Portos
3964
3943
4186
82
2,08
Freiria
1861
2004
2018
29
1,45
Matacães
1389
1919
1346
18
0,94
Maxial
2731
2632
2660
69
2,62
Monte Redondo
854
896
864
17
1,90
Ponte do Rol
1258
1303
1318
26
2,00
Ramalhal
1737
1802
1923
67
3,71
Runa
1091
1120
992
22
1,96
S. Pedro da Cadeira
4509
4736
4968
91
1,92
Turcifal
2919
3021
2829
56
1,85
Ventosa
3332
3463
3762
35
1,01
S. Pedro e Santiago
4425
4622
4699


Stª Maria e S. Miguel
3504
3668
3714


“Vila” (S. Pedro + Stª Maria)



226
2,73
TOTAL
39646
41457
41959
861
2,08
Fontes: 1911 e 1920 – Censos; 1916 – informação prestada pelos regedores; dados da “pneumónica” – “Vinha de Torres Vedras” de 21 de Novembro de 1918.
                                  
Como podemos ver no Quadro X o impacto da pneumónica não foi o mesmo em todas as freguesias do concelho.

Como é óbvio, a vila foi das mais afectadas pela propagação da doença e pelo seu efeito, situação que se ficou a dever, não só à facilidade de propagação num meio urbano, servido de transportes, com uma actividade comercial assinalável, mas também porque nele estavam centralizados os principais serviços de saúde (hospital, lares, etc.).

Outras três freguesias destacaram-se pela elevada mortalidade, quer em termos numéricos quer em termos percentuais:

-          Ramalhal, com 67 mortos, 3,71%  da sua população;
-          Maxial, com 69 mortos, 2,62% da sua população;
-          Dois Portos, com 82 mortos, 2,08% da sua população.

A freguesia de Ponte do Rol, embora tivesse contado com um reduzido número de óbitos, 26, mercê da sua reduzida base demográfica, obteve uma percentagem elevada, 2%.

Pelo contrário, a freguesia de S. Pedro da Cadeira, apesar de ter registado o maior número de falecimentos a seguir à vila, 91 mortos, registou uma percentagem baixa, devido á sua enorme base demográfica.

As freguesias que no concelho registaram a mais baixa percentagem de mortalidade foram as freguesias da Carvoeira (0,87%), Matacães (0,94%) e Ventosa (1,01%).

Não deixa de ser significativo o facto de três das quatro freguesias rurais onde existiam estações ferroviárias terem sido das mais atingidas (Ramalhal, Maxial – estação do Outeiro da cabeça -  e Dois Portos).

A situação nestas três freguesias mereceu mesmo a atenção da imprensa nacional. Para o Ramalhal e o Maxial(designado “Ameixial”) a “Obra de Assistência 5 de Dezembro” enviou, em finais de Outubro, açúcar, arroz e medicamentos “para as famílias atacadas pela gripe pneumónica”.[38]

Referindo-se à situação em Dois Portos, podia ler-se que aí grassava a epidemia com “terrível intensidade”, morrendo muitos dos seus habitantes “sem assistência médica e à míngua de recursos de toda a natureza, pois que tudo falta, pão, arroz, açúcar, petróleo, medicamentos”.[39]

Quanto àquelas que registaram uma mortalidade mais baixa tinham em comum o facto de o consumo médio de trigo, por parte dos seus habitantes, ser sempre superior ao consumo de milho, rondando o consumo daquele cereal mais de 900 litros por habitante (995 litros na Ventosa, 1196 na Carvoeira e 1482 em Matacães).

Curiosamente e por contraste, as freguesias onde se registou uma maior percentagem de óbitos em relação à sua população eram as que apresentavam os níveis mais baixos de consumo de trigo por família, abaixo dos 800 litros (Ramalhal, 299 litros; Dois Portos, 713; Maxial, 728).

Os outros dois casos que referimos, Ponte do Rol e S. Pedro da Cadeira, estavam igualmente entre as freguesias que registavam menores níveis de consumo de trigo (S. Pedro da Cadeira com 321 litros e Ponte do Rol com 569 litros).

 Conclusão

Em Torres Vedras a crise das subsistências provocada pela Primeira Guerra fez-se sentir de forma diferente entre a sua população.

A população rural, que vivia principalmente da produção agrícola, queixava-se principalmente do preço dos meios de produção e das limitações á exportação e comercialização dos seus produtos.
A população urbana, constituída maioritariamente por assalariados ligados às actividades não agrícolas, queixava-se principalmente da subida dos preços dos géneros de primeira necessidade, do açambarcamento dos comerciantes e da má qualidade do pão fabricado.

Por sua vez os comerciantes  queixavam-se do tabelamento dos preços e, no caso dos padeiros, da falta de matéria prima.

Em relação á situação alimentar da população torriense, não se terão registado situações de fome extrema, já que funcionava uma economia de auto-subsistência, pelo menos no meio rural.

De qualquer modo, a instabilidade alimentar provocada pela falta pontual ou continuada de determinados géneros alimentares facilitou a rápida disseminação da pneumónica em 1918, com as consequências trágicas que se conhecem, tendo sido este concelho um dos mais atingidos.

Esperamos com esta comunicação ter contribuído para ajudar a esclarecer como se viveu em Torres Vedras a grande crise de subsistências dos anos finais da década de 10 do século XX.


Venerando António Aspra de Matos

(texto apresentado nos encontros de História Local TURRES VETERAS X de 2006 e editado nas actas, publicadas em 2007)


ANEXO

Inquérito à alimentação das Classes Trabalhadoras do Continente de Portugal – dados referentes a Torres Vedras e aos concelhos Vizinhos
CONCELHO:
Ração Alimentar diária de um adulto
-média-
Salários médios cobrados por um dia útil de trabalho
(em réis)
Duração média do trabalho útil diário
(em horas)
Observações
Alenquer
(“resumo de três questionários”)
Em géneros: Pão de milho ou trigo, 1:000 gr. – Legumes secos, 125 gr. – Legumes verdes, 250 gr. – Batatas, 500 gr. – Peixe salgado, 100 gr. – Carne de porco (toucinho), 150 gr. – Azeite, 50 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 168,40 gr. – Hydratos de carbono, 681,40 gr. – Gorduras, 83,88 gr. – Sais, 37,63 gr.

Em energia potencial : Calorias, 3821,386.

Valor da ração em moeda: 160 réis
Homem: 340
Mulher: 180
Criança: 100
9
“A população agrícola do concelho é, na sua generalidade, robusta e muito resistente, apesar de não serem raros os abusos do álcool sob a forma de vinho, que nesta região é muito barato.
“Habitualmente tomam três refeições por dia; o almoço, às 9 horas da manhã, composto de pão e toucinho ou pão e sardinha; o jantar, à 1 hora da tarde, igual ao almoço, e a ceia, que comem ao recolher a casa, composta de sopa de legumes e toucinho ou pão.
“No verão há ainda, às 4 horas da tarde a merenda de pão e fruta ou só de fruta”.
Arruda dos Vinhos (“resumo de um questionário”)
Em géneros: Pão de milho – Sardinha, sarda ou cavala – Carne de porco – Hortaliça – Batata – Azeitonas – Queijo de ovelha  (1)

Valor da ração em moeda: 160 réis
Homem: 200 a 700 réis
Mulher: 160 a 300 réis
Criança: 100 réis
9
(1) “Sobre a quantidade de alimentos, apenas informa como se segue o questionário : “Um adulto come habitualmente por dia 4 ou 5 sardinhas, ou 1 queijo de preço de 30 réis e uma tigela de sopas ou migas. Uma criança contenta-se com duas sardinhas e a mesma tigela de sopas””.
                     ###
“Os habitantes d’este concelho são, na sua grande maioria, robustos e resistentes, não abusando em geral do álcool.
“Geralmente comem: ao almoço pão e sardinhas, queijo ou azeitonas; ao jantar, sopas ou migas com toucinho ou sardinha, e à ceia o mesmo do jantar.
“de verão têm ainda a merenda, composta de pão e fruta”.
Cadaval
(“resumo de um questionário”)
Em géneros: Pão de milho, 1:000 gr. – Legumes secos, 125 gr. – Legumes verdes, 500 gr. –Peixe salgado, 100 gr. – Toucinho, 100 gr., ou azeite, 50 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 165,11 gr. – Hydratos de carbono, 597,40 gr. – Gorduras, 92,83 gr. – Sais, 44,38 gr.

Em energia potencial : Calorias, 3718,3863.

Valor da ração em moeda: 140 réis
Homem: 240 (1)
Mulher: 120
Criança: 120

(1) “Nas épocas de grandes actividades agrícolas, o salário elava-se até 500 réis diários”
9
“Os habitantes do concelho são regularmente robustos e resistentes, não abusando do álcool.
“Geralmente tomam três refeições por dia; duas são constituídas por pão e peixe e uma por sopa de legumes, temperada com azeite ou toucinho”.
Caldas da Rainha
(“resumo de um questionário”)
Em géneros: Legumes secos e verdes – Batatas - Pão de milho - Peixe salgado e Carne de porco (1)

Valor da ração em moeda: 120 réis
Homem:360
Mulher: 180
Criança:100
10
(1)“o único questionário, que consegui obter neste concelho, refere apenas a quantidade de pão que entra na ração diária (1:000 gr.) e de peixe salgado (4 sardinhas); com relação ao uso de carne diz: “Os que podem criam e matam um porco, que governam para todo o ano, seja qual for o número de indivíduos da família. De ordinário, comem carne apenas nos dias festivos, observando sempre regras de parcimónia””.
                              ###
“São robustos e sobretudo resistentes os habitantes d’este concelho, entre os quais só muito excepcionalmente se encontram casos de alcoolismo, posto que usem bastante vinho.
“Em geral tomam três refeições diárias, sendo a primeira e a segunda compostas de pão de milho e peixe salgado, e a terceira de caldo de legumes e batatas”
Lourinhã
(“resumo de um questionário”)
Em géneros: Pão de milho, 1:000gr. – Legumes secos, 125 gr. – Legumes verdes, 250 gr. – Batatas, 1500gr. – Peixe salgado, 200 gr. – Toucinho, 60 gr. – Azeite, 50 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 230,39 gr. – Hydratos de carbono, 886,05 gr. – Gorduras, 120,37 gr. – Sais, 67,59 gr.

Em energia potencial : Calorias, 5326,309.

Valor da ração em moeda: 160 réis
Homem: 300
Mulher: 150
Criança: 160 “dos 14 anos em diante”
9
“São em geral robustos e resistentes os habitantes d’este concelho, apesar de se darem bastante  a bebidas, sobretudo àgua-pé, de que em média ingerem por dia mais de quatro litros.
“Usualmente tomam três refeições por dia, comendo ao almoço batata cozida com peixe salgado e pão de milho; ao jantar, feijão cozido com hortaliça ou batata, toucinho e pão de milho, e à ceia batatas cozidas com peixe salgado e pão de milho”.
Mafra
(um questionário)
Em géneros: Pão de Trigo ou milho – Feijão, Hortaliça – Bacalhau, Atum, Sardinha – Toucinho – Queijo Branco (1)
Homem: 300
Mulher: 200
Criança: 100
9
(1) “Este questionário, que me foi enviado pela câmara municipal, responde aos dois quesitos sobre quantidades de substâncias alimentares e sobre os seus preços, com a palavra “Ignoro”, acrescentando, pelo que se refere ao primeiro, “estou certo que se alimentam sufficientemente”.
                        ###
“Os habitantes do concelho são regularmente robustos  resistentes, não sendo no geral dados a abusos de álcool sob qualquer fórma.
“Habitualmente comem: ao almoço pão e queijo branco, ou pão e sardinha; ao jantar sopas de pão com hortaliça e toucinho e à ceia sopa de hortaliça e pão”.
Óbidos
(“resumo de um questionário”)
Em géneros: Pão de milho, 1:000 gr. – Legumes secos, 125 gr. – Legumes verdes, 500 gr. – Batatas, 500gr. – Peixe salgado, 100 gr. – Azeite, 50 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 163,30 gr. – Hydratos de carbono, 699,25 gr. – Gorduras, 82,24 gr. – Sais, 42,80 gr.

Em energia potencial : Calorias, 4008,770.

Valor da ração em moeda: 180 réis
Homem: 350
Mulher:
160
Criança:
120
9
“ A maioria da população é robusta e resistente, não sendo numerosos os indivíduos que abusam do álcool, comquanto seja frequente o hábito de, em jejum, matarem o bicho, com meio decilitro de aguardente”.
                             ###
“De inverno tomam três refeições: o almoço, composto de pão, batatas e sardinha; o jantar, de sopa de legumes, pão e peixe salgado; e a ceia de pão e peixe. No verão comem em geral mais uma vez, à merenda, pão e peixe”.
Peniche
(“resumo de seis questionários”)
Em géneros: Pão de trigo, 250 gr. – Pão de milho, 800 gr. – Legumes secos, 200 gr. – Legumes verdes, 250 gr. – Batatas, 300 gr. –Peixe fresco, 750 gr. – Carnes verdes (uma vez por semana), 100 gr. – Azeite, 150 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 248,36 gr. – Hydratos de carbono, 711,93 gr. – Gorduras, 107,40 gr. – Sais, 38,13 gr.

Em energia potencial : Calorias, 4597,812.

Valor da ração em moeda: 200 réis
Homem:
300
Mulher:
200
Criança: “não são utilizadas”
9
“Os trabalhadores rurais, neste concelho, são em geral bastante resistentes, embora a sua robustez não seja grande”.
                             ###
“Habitualmente, tomam três refeições diárias: o almoço, composto de pão, peixe e batatas; o jantar, de pão e sopa de legumes e hortaliças e a ceia de pão, peixe e batatas. Usam bastante de vinho, muito alcoolicos, e da aguardente, não sendo raros os que não só usam, mas abusam do álcool”.
Sobral de Monte Agraço
(um questionário)
Em géneros: Pão de milho – Legumes secos e verdes – Batatas – Peixe salgado – Azeite – Carne de porco salgado (1)

Valor da ração em moeda: 150 réis
Homem: 300
Mulher: 160
Criança: 80
9
(1) “Sobre quantidades se substâncias alimentares, limita-se o informador a dizer : “Pão devem comer um kilo a kilo e meio e tudo o mais em muita pquena quantidade, com como conducto”.
                             ###
“São na sua grande maioria, robustos e resistentes os habitantes d’este concelho, embora não sejam raros os que abusam de álcool, sobretudo aos domingos e dias santificados. É também frequente o costume de em jejum matarem o bicho com aguardente.
“De inverno, é costume almoçarem açorda ou pão e peixe, jantarem sopas de legumes, temperadas de azeite ou toucinho, e pão com peixe e cearem sopas iguais às do jantar. No verão, além d’estas três refeições, costumam ainda tomar a merenda, que se compõe de pão e conducto”
Torres Vedras
(um questionário)
Em géneros: Pão de milho, 1:000 gr. – Legumes secos, 125 gr. – Legumes verdes, 250 gr. – Batatas, 1:000 gr. – Peixe salgado, 60 gr. – Azeite, 50 gr.- Toucinho, 50 gr.

Em composição elementar: Albuminoides, 154,51 gr. – Hydratos de carbono, 784,25 gr. – Gorduras, 119,48 gr. – Sais, 46,69 gr.

Em energia potencial : Calorias, 4644,998.

Valor da ração em moeda: 200 réis
Homem: 320
Mulher: 170
Criança: 130
9
“A grande maioria dos habitantes d’este concelho são robustos e resistentes, embora sejam frequentes os abusos do álcool, sob a forma de água-pé, vinho e aguardente.
“Em geral os trabalhadores tomam, antes de começar o trabalho, pão e meio decilitro de aguardente a que chamam o beberete; depois, ás 8 horas da manhã, almoçam pão e peixe salgado com batatas; ao meio dia jantam uma tigela, de litro, cheia de sopa, feita de hortaliça, as mais das vezes com feijão, outras com grão de bico, massas ou abóbora, um pedaço de toucinho ou linguiça, pão e fruta; à noite ceiam feijão, temperada no prato com azeite e vinagre, substituído às vezes por arroz ou massa com feijão ou grão de bico e pão. No verão há ainda a merenda a que comem pão e azeitona ou queijo fresco.
“ A todas as refeições tomam vinho ou água-pé, de que ainda usam nos intervalos das refeições”
Fonte: Pedro Dória Nazareth, “Estudo Sobre a Alimentação das classes trabalhadoras do continente de Portugal”, in Tuberculose, Nº 19, 4º ano, 1909 e seguintes (com base em inquéritos enviados a todos os sub-delegados de saúde dos concelhos em 1903, que voltou a enviar para os presidentes de Câmara, recorrendo ainda à opinião de pessoas conhecidas – médicos, lavradores e industriais, obtendo um total de 540 respostas sobre 256 concelhos do país).





[1] Ler, a propósito deste tema, TEIXEIRA, Nuno Severiano, O Poder e a Guerra . 1914-1918, ed. Estampa, Lisboa 1996.
[2] A Vinha de Torres Vedras, 30 de Setembro de 1915.
[3] Arquivo Municipal de Torres Vedras, Correspondência expedida pelo Administrador do Concelho para o Governador Civil (1914- 1916), 20 de Novembro de 1915.
[4] A Vinha de Torres Vedras, 11 de Abril de 1918.
[5] A Vinha de Torres Vedras, 11 de Outubro de 1917.
[6] A Vinha de Torres Vedras, 14 de Fevereiro de 1918. Ainda sobre este caso, consulte-se, igualmente, as edições deste periódico de 27 de Dezembro de 1917 e 24 de Janeiro de 1918.
[7] Arquivo Municipal de Torres Vedras, Livro nº39 das Actas da Câmara( 1916-1920), sessão extraordinária de 24 de Agosto de 1918.
[8] Arquivo Municipal de Torres Vedras, Livro nº39 das Actas da Câmara( 1916-1920), sessão 10 de Julho de 1918.
[9] TELO, António José, .... , pp. 123 a 170, in António REIS (dir.), Portugal Contemporâneo, vol.     pp. 145 e 146.
[10] TELO, António José, , .... , pp. 123 a 170, in António REIS (dir.), Portugal Contemporâneo, vol.     p. 145 .
[11] A Vinha de Torres Vedras, 25 de Fevereiro de 1915.
[12] A Vinha de Torres Vedras, 24 de Junho de 1915.
[13] A Vinha de Torres Vedras, 4 de Maio de 1916.
[14] A Vinha de Torres Vedras, 30 de Novembro de 1916.
[15] A Vinha de Torres Vedras, 10 de Maio de 1917.
[16] A Vinha de Torres Vedras, 2 de Maio de 1918.
[17] A Vinha de Torres Vedras, 21 de Fevereiro de 1918.
[18] A Vinha de Torres Vedras, 7 de Novembro de 1911.
[19] A Vinha de Torres Vedras, 7 de Junho de 1917.
[20] A Vinha de Torres Vedras, 2 de fevereiro de 1916.
[21] Arquivo Municipal de Torres Vedras, Correspondência expedida pelo Administrador do Concelho para o Governador Civil (1917), 28 de Fevereiro de 1917.
[22] Arquivo Municipal de Torres Vedras, Livro nº39 das Actas da Câmara( 1916-1920), sessão 28 de Maio de 1917 .
[23] A Vinha de Torres Vedras, 23 de Agosto de 1917.
[24] A Vinha de Torres Vedras, 28 de Setembro d 1916.
[25] A Vinha de Torres Vedras, 20 de Setembro de 1917.
[26] A Vinha de Torres Vedras, 23 de setembro de 1915.
[27] A Vinha de Torres Vedras, 11 de Maio de 1916.
[28] A Vinha de Torres Vedras, 25 de Abril de 1918.
[29] A Vinha de Torres Vedras, 13 de Abril de 1916.
[30] A Vinha de Torres Vedras, 28 de Setembro de 1916.
[31] A Vinha de Torres Vedras, 3 de Fevereiro de 1916.
[32] A Vinha de Torres Vedras, 11 de Maio de 1916.
[33] A Vinha de Torres Vedras, 6 de Janeiro de 1916.
[34] A Vinha de Torres Vedras, 2 de Março de 1917.
[35] LALANNE, Raymond, A Alimentação Humana, edição ITAU, Lisboa 1970, (4ª edição de 1974), nomeadamente, pág.56
[36] MARQUES, A . H. de Oliveira Marques, História da 1ª República Portuguesa – As Estruturas de Base, Iniciativas Editoriais, [1978], Capítulo I – “A  População”, pp. 1 a 48.
[37] O Século, 10 de Outubro de 1918.
[38] O Século, de 23 de Outubro de 1918.
[39] O Século, 30 de Outubro de 1918.