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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Como é que se vai devolver gente às lojas da Baixa de uma cidade? -

O Comércio tradicional de Torres Vedras sofre do mesmo drama desse mesmo comércio em quase todas as grandes cidades, principalmente naquelas onde existe um peso demasiado grande de grands superfícies comerciais.
O artigo que cuja leitura em baixo recomendamos, pode indicar pistas que podem ser aplicadas em Torres Vedras para salvar esse Comércio Tradicional e revigorar o centro da cidade:

Como é que se vai devolver gente às lojas da Baixa de uma cidade? - Local - PUBLICO.PT (clicar na frase para ler a notícia)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Passam hoje 40 anos sobre a inauguração da actual Escola Henriques Nogueira

No 40 º aniversário da Inauguração do actual edifício da antiga “Escola Técnica e Comercial” de Torres Vedras, hoje Escola Secundária Henriques Nogueira – um percurso histórico pelo ensino “técnico-comercial”


O nascimento de uma ideia

A ideia de criar uma escola técnica e comercial em Torres Vedras surgiu entre a dinâmica classe comercial de região, então agrupada na “Associação Comercial”, quando, numa Assembleia Geral desta associação, realizada em 23 de Março de 1929, a sua direcção propôs a elevação da cota dos associados para se criar um “curso comercial” (CABRAL, Raul , “A Fundação da Escola Comercial (...)”, in Badaladas, 1/10/19529).
Em 1932 concluía-se o regulamento desse curso, mas, devido a várias dificuldades tal iniciativa não vingou, acabando por ser uma outra associação, a “Tuna Comercial Torreense”, a ter o privilégio de, pela primeira vez, instalar um curso com essas características em Torres Vedras.

A Primeira Tentativa

Em Outubro de 1936 a direcção da “Tuna Comercial Torreense” iniciou, na sua sede, o funcionamento de um Curso Comercial de 6 meses onde se ensinavam as disciplinas de “escrituração comercial”, “contabilidade”, “cálculo comercial” e “caligrafia”. As aulas eram nocturnas e foram inicialmente frequentadas por 30 alunos que pagavam uma mensalidade de 60$00. Esta iniciativa teve um percurso algo irregular e, com o tempo, deixou de corresponder às necessidades da época (O Jornal de Torres Vedras, 15/11/1936)..

A Escola Comercial António Augusto Cabral


(edifício onde se localizava a Escola Comercial António Augusto Cabral)

O crescente desenvolvimento comercial e industrial da região deu um novo alento à associação pioneira na idealização deste tipo de ensino, para voltar a relançar os alicerces de uma Escola Comercial, de acordo com as novas necessidades da educação nacional.

Coube à antiga “Associação Comercial”, agora designada de “Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço”, a responsabilidade pela abertura, em definitivo, de uma escola comercial, criada por alvará de 10 de Outubro de 1944 (CABRAL, Raul, ob.cit.) .

Foi baptizada como Escola Comercial António Augusto Cabral, em homenagem ao homem que, à frente do município torriense em 1919, tinha sido responsável pela instalação da Escola Secundária e, como dirigente da associação comercial local, dos que mais pugnou na defesa da criação de uma escola comercial em Torres Vedras.

As aulas iniciaram-se em 14 de Outubro de 1944, sendo a escola dirigida pelo Dr. Albarran Grilo.

Em sessão solene de abertura desse primeiro ano lectivo, o professor José Carvalho Mesquita, também docente nessa escola, justificava essa iniciativa e a importância desse novo estabelecimento de ensino, pela necessidade de, num “meio comercial, como o é Torres Vedras” se puder oferecer aos seus filhos o ensino da “técnica comercial”, sem que o concelho “tivesse necessidade de importar os seus contabilistas e guarda-livros”.

Essa escola era então “uma promessa, em betão” que funcionava em “acanhadas instalações”, cedidas pela Escola Secundária Municipal, apenas com “um curso nocturno frequentado por 26 alunos e alguns ouvintes”.

Por isso, e porque os “pedidos de matrícula dariam (...) para abrir duas turmas no 1º ano”, prometia-se para o próximo ano lectivo “novas e mais amplas instalações” e aulas diurnas (MESQUITA, José Carvalho, História do Ensino secundário em Torres Vedras, ed. 1969) .

Iniciam-se aulas diurnas

No ano lectivo de 1945/1946, inicia-se um curso comercial diurno com a duração de 4 anos, tendo-se inscrito 101 alunos, inscrevendo-se, no ano lectivo seguinte, 165 alunos. Os filhos dos associados do “Grémio comercial” pagavam uma propina mensal de 80$00, enquanto os restantes pagavam 120$00.

A reforma de 1948 desdobrou esse curso num Curso Geral de Comércio e noutro Curso de Esteno-Dactilografia. Qualquer destes passou a compor-se de dois ciclos, o primeiro com a duração de dois anos e o segundo de três.

A oficialização da escola comercial

Em 31 de Julho de 1952 a Escola Comercial António Augusto Cabral, até então uma escola particular, foi oficializada, de acordo com a nova lei em vigor, tornando-se Torres Vedras a primeira localidade do país a possuir uma escola particular oficializada, o que permitia aos seus alunos que realizassem os exames na sua escola (Badaladas, 15/08/1952) .

Uma nova valência – O Ensino Técnico

Por essa altura, no início da década de 50, inicia-se um debate nas páginas do jornal “Badaladas” com o objectivo de se criar um curso industrial que completasse o ensino comercial e correspondesse às novas necessidades económicas da região, chamando-se a atenção para o Decreto-Lei nº 36409 de 11 de Julho de 1947 que previa a criação de uma escola técnica em Torres Vedras.

Pressionada pela opinião pública, a Câmara Municipal inicia uma série de diligências par conseguir esse objectivo e, em Setembro de 1956, enviava ao Ministério da Educação um bem fundamentado memorando em defesa da criação de uma “escola técnica” em Torres Vedras.

Propunha-se o município subsidiar com 50.000$00 anuais a formação de uma Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, criada a partir da Escola dirigida pelo Grémio do Comércio.

Propunha para essa escola o seguinte “plano de estudos”:

“1º - Ciclo Preparatório;

“2º - Curso Complementar de aprendizagem e electricidade;

“3º - Curso de formação : - de serralheiro; - Geral do Comércio” (Relatório de Gerência da Câmara no ano de 1956, CMTV) .

A Fundação da Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras


(edifício onde foi instalada a "Escola Técnica")

Acedendo ao pedido do município torriense, o Ministério da Educação, através do decreto nº 41258 de 10 de Setembro de 1957, criava a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, substituindo a Escola Comercial António Augusto Cabral, entretanto encerrada, da qual herdou alunos, professores e respectivos processos.

De imediato se iniciaram as obras de ampliação do edifício municipal situado na Av. 5 de Outubro, onde se localizavam as instalações da “Física” e das “escolas primárias” da vila.

Acrescentado de um andar, aí vieram a ser instaladas, a nascente a Escola Secundária Municipal e a poente a nova “Escola Técnica” , enquanto as escolas do ensino primário eram instaladas nos novos edifícios a sul daquelas instalações.

No ano lectivo de 1958/1959 iniciaram-se as aulas da Escola Industrial e Comercial nas suas novas instalações com 261 alunos, número que quase duplicou no ano lectivo seguinte.

O Actual edifício (actual “Henriques Nogueira”) – do projecto à inauguração.



O rápido crescimento do número de alunos matriculados na “Escola Técnica”, bem como as crescentes necessidades de recursos educativos para desenvolver o projecto desta escola, rapidamente levaram a que se colocasse a questão da urgência em construir um edifício de raiz para o seu funcionamento.

No dia 1 de Fevereiro de 1962 foi apresentado, em sessão camarária, um projecto para as novas instalações, da autoria do professor do ensino técnico Luís Manuel Paulo Ferreira, exposto publicamente no ano seguinte.

Contudo, o início da construção desse novo edifício escolar só teve lugar nos finais dessa década.

Finalmente, no dia 20 de Abril de 1970, era solenemente inaugurado, com a presença do então Presidente da República Américo Tomás, o edifício onde funciona actualmente a Escola Secundária Henriques Nogueira, assim baptizada desde 2 de Abril de 1987 (Portaria nº 261/87, de 2 de Abril de 1987).

Recordamos assim a data que hoje se comemora.

domingo, 18 de abril de 2010

Um roteiro por "monumentos e sítios" da cidade de Torres Vedras

Hoje, Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, deixamos aqui uma sugestão de um roteiro pelos mais emblemáticos monumentos e sítios da cidade de Torres Vedras:

TORRES VEDRAS  - PROPOSTA PARA UM ROTEIRO URBANO HISTÓRICO

CASTELO

À sombra da sua muralha nasceu e cresceu o burgo medieval de Torres Vedras. Conquistado (ou negociado) aos mouros por volta de 1148 por D. Afonso Henriques, foi palco de vários episódios da nossa história .

No século XIV, segundo a descrição do cronista Fernão Lopes, Torres Vedras era então “uma fortaleza assentada em cima de uma formosa mota, a qual natureza criou em tão ordenada igualdade como se à mão fosse feita artificialmente” . A vila tinha “uma cerca arredor do monte e na maior alteza dele está o castelo”.

A sua estrutura actual data em grande parte das obras de reconstrução ordenadas pelo rei D. Manuel, situação testemunhada pela porta gótica ogival, datada de 1516, encimada por esferas armilares manuelinas

Já em parte arruinado, mas ainda habitado, o castelo sofreu graves danos com o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Apesar da ruína, voltaria o velho castelo a recuperar a sua importância militar quando, em 1810, foi integrado no sistema defensivo das “Linhas de Torres”.

IGREJA DE STª MARIA DO CASTELO

Sede da mais antiga paróquia da vila, edificada no século XII. Assenta sobre ruínas romanas e visigóticas, sucedendo a uma mesquita .

Da antiga fundação podem ver-se as colunas com capitéis românicos, com símbolos do “cântico dos cânticos”.

Toda a actual estrutura da igreja remonta a obras de restauro de 1662. Tem duas torres de traça seiscentista. Antigamente uma era municipal ( a do relógio) e outra era paroquial (a sineira). Ruiram durante o terramoto de 1755.

PAÇOS DA RAINHA

Foi mandado edificar pela a rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso III, no século XIII. Nele teve lugar do conselho régio de 1414 (24 Julho 1414 ?) onde se decidiu a Conquista de Ceuta que iniciou a expansão marítima portuguesa.

TRAVESSA DO QUEBRA COSTAS

Rua de características medievais, destacando-se o “arco” que une uma casa aos dois lados da rua.

JUDIARIA

Em Portugal D. Dinis, (século XIII), no seguimento dos seus conflitos com o clero, comprometeu-se a obrigar os judeus a morar “apartadamente”.

Em Torres Vedras tal promessa ter-se-á realizado já no reinado do seu sucessor, D. Afonso IV. Os judeus foram expulsos de Torres Vedras em 1499.

IGREJA DE S.TIAGO

Foi reconstruída nos séculos XVI e XVII.

Tem pórtico Manuelino.

Pensa-se que esteve ligada às peregrinações a Santiago de Compostela

IGREJA DE S. PEDRO

Sede de paróquia desde a fundação da nacionalidade foi reconstruída no séc. XVI, datando desta época a sua traça actual.

O seu pórtico manuelino, encimado pelas armas reais (armas com símbolos de Portugal e Castela) atribuídas à rainha D. Maria (2ª mulher de D. Manuel entre 1510 e 1517), é um dos ex-libris de Torres Vedras.

No seu interior merece destaque o túmulo quinhentista de João Lopes Perestrelo e esposa, D.ª Filipa (vinculou a Quinta do Espanhol em 1542, acompanhou Vasco da Gama na sua segunda viagem à Índia em 1502, comandando um navio, e era primo da mulher de Cristovão Colombo).

De destacar ainda o seu rico e variado património de azulejos

Anexa à igreja existe a Casa da Irmandade dos Clérigos Pobres construída entre 1737 e 1769. No seu tecto podem ver-se 4 telas dos Evangelistas (S. Marcos, S. Mateus, S. Lucas e S. João) da autoria de Bernardo de Oliveira Góis e silhar de azulejos do século XVIII, com assuntos tirados da gravuras de Cláudio Coelho .

CHAFARIZ DOS CANOS

Situava-se à entrada da mais importante porta da vila. Dessedentava as montadas, pelo que aí se concentravam várias actividades profissionais como as de ferrador, correeiro e albardeiro.

Data de 1322 o primeiro documento que se refere à sua existência.

Este Chafariz foi reconstruído em 1561 pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel.

Esta fonte é um monumento onde se encontram elementos de diferentes épocas, mas onde domina a arte gótica.

Existem nas faces das colunas do monumento um conjunto de quatro escudos: “ os da frente ostentando o brasão real que remonta ao século XIII, sendo com toda a probabilidade do reinado de D. Afonso III, e os dois laterais da mesma época, representando em três castelos de linhas severas, sóbrias de atavios, o velho brasão da antiga Turribus Veteribus.” ( SALINAS CALADO).


Destaque ainda para o interessante conjunto de gárgulas góticas que decoram este monumento.


CONVENTO E IGREJA DA GRAÇA

A sua construção teve lugar ao longo do século XVI para substituir o velho convento dos eremitas calçados de S. tº Agostinho.

No lugar onde foi construído este segundo mosteiro existia a gafaria de St.º André, cujo terreno foi doado à ordem agostiniana de Torres Vedras, por alvará de D. João III, datado de 26 de Setembro de 1542, para aí se construir este novo convento.

Em 1588 foi prior deste convento Frei Aleixo de Menezes, cuja vida está documentada nos azulejos do século XVIII do claustro.

Por decreto de 30 de Maio de 1834 foi extinto o convento da Graça e os seus frades foram expulsos.

De estilo renascentista, existem no seu interior várias capelas

Na parede da Capela-mor existe um nicho com o primitivo túmulo de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de T: Vedras, que foi prior do primitivo convento desde 1412 e falecido em T. Vedras em Outubro de 1422.


... um Bom Passeio!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

TORRES VEDRAS HÁ 120 ANOS NA IMPRENSA LOCAL

NOVEMBRO 1889
(Largo da Estação)

Festas populares e caçadas eram algumas das poucas distracções desse tempo.

No primeiro domingo do mês tinha lugar “na Ermida da Casa e Quinta do Juncal, em Matacães, festa ao Sagrado Coração de Jesus” (A Semana, 7-11-1889).

A caça era uma actividade mais burguesa, realizando-se a meio da semana, como se pode ler na seguinte notícia, interessante também pela descrição que faz do lugar de Porto Novo:

“Na terça-feira, 5 do corrente, o sr. Dr. Justino Xavier da Silva Freire convidou alguns dos seus amigos (…) para uma caçada nas suas propriedades da Maceira.

“Foi escolhido o sítio do cazal do Porto Novo junto à Foz, nos mattos que em grande vastidão se estendem até ao alto do Seixo. D’este ultimo ponto começaram-se a bater os pinhaes até à enseada da Foz, tendo começado os exercícios às 10 horas da manhã e terminando às 5 da tarde, matando-se 38 coelhos e uma lebre” (A Semana, 7-11-1889).

Torres Vedras conhecia um assinalável crescimento urbano, mercê da chegada do caminho-de-ferro à então vila. A notícia do nascimento da futura Avenida Tenente Valadim, então designada por “Rua Nova”, era uma das notícias do mês:

“Já se anda preparando o solo para collocar a tubagem de ferro que substituirá o acqueducto de pedra por onde corriam as aguas, na parte contigua à Commenda, e que foi preciso demolir para fazer uma rua nova que seguirá do começo da Avenida do Caminho de ferro, do lado do nascente, e que virá desembocar à rua da Cerca, contigua ao largo do Rosário.

“Esta nova rua que será somente para transito de peões, é uma excellente serventia da estação do caminho de ferro para a parte baixa da villa”. (A Semana, 14-11-1889)

Outras obras acompanharam essa expansão urbana :“Vae ser reparada por conta da Companhia dos Caminhos de Ferro o largo em frente das portas da estação, que, quando chove, é um grande lameiro. As obras a fazer-se é terraplanar as covas, e dar escoante às aguas. Depois será bom também que os dois lampiões que ornam a fachada da estação não sirvam só para vista (A Semana, 28 de Novembro 1889).

Um dos monumentos mais emblemáticos da vila era igualmente alvo de reparações :“Estão-se fazendo obras nos telhados da egreja da Graça, que tanto careciam de ser reparados” (A Semana, 21-11-1889).

Curiosa é ainda uma notícia sobre o valor das “Jornas” dos trabalhadores rurais:

“(…) os trabalhadores estão-se actualmente pagando aqui 360 a 400 réis diários” (A Semana, 14-11-1889).

A importância da actividade vinícola era ainda patente numa outra notícia onde se referia o movimento comercial da região de Torres:

“A procura existe, e as offertas attingem para os vinhos de 1888, entre 10 e 12 libras por tonnel. Para os vinhos novos os preços variam, não nos constando vendas por valor inferior a 8 libras por tonnel, e sempre d’ahi para cima conforme a qualidade; os vinhos brancos vendem-se de 500 a 600 réis o almude, conforme a sua riqueza alcoólica” (A Semana, 21 de Novembro de 1889).

DEZEMBRO DE 1889

A vida religiosa marcava o quotidiano torriense :“No domingo, 8 do corrente, fez-se no templo da Collegiada de S.Pedro, com a devida solemnidade, a festa a Nossa Senhora da Conceição, a expensas da irmandade do mesmo titulo, instituída em 25 de Outubro de 1820.” (A Semana, 12-12- 1889).

Mas o profano ganhava terreno através do associativismo, como se percebe pela seguinte notícia:

“Theatro Chalet

“No CLUB d’esta villa houve no sabbado uma reunião de differentes pessoas, d’onde se apurou mais uma tentativa para a construcção d’uma casa de espectáculos de edificação ligeira e moderna.

“Para dirigir os trabalhos preliminares foram acclamados os sr.s dr. Luís António Martins, Manoel Francisco Marques e Augusto dos Santos Ferreira” (A Semana, 12-12-1889).

As obras no Convento da Graça prosseguiam a bom ritmo:

“O templo pertencente à Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, vae apparecer com as gallas que dão o aceio e o cuidado. O telhado foi todo reparado; o interior e o exterior do templo será caiado e a cantaria lavada.

“Da torre foi apeiado o sino grande que estava fendido, e serão gateiadas as cantarias.

“O sino vae ser vendido para com o donnativo Luiz de Abreu occorrer às despezas que alli se andam fazendo.

“Será bom pensar em seguida em realizar n’aquelle vasto templo os officios do culto Divino, aproveitando a sua excellente localisação, e offerecendo grande commodidade aos moradores da villa” (A Semana, 26 de Dezembro de 1889).

Sobre o tal sino “ apeado da torre da egreja da Graça (…) tem a nota de fabricado em 1787 nas officinas de um tal Oliveira. Pesa 978, 800 kilos” ( A Voz de Torres Vedras, 28-12-1889).

JANEIRO 1890

Preocupações com o estado sanitário da vila marcaram as primeiras notícias do ano:

“É rara a casa em Torres Vedras onde não haja um doente, e em algumas acontece que estão de cama todas as pessoas de família.

“Pelos diversos logares das freguezias do concelho há egualmente uma sensível alteração no estado sanitário, que accusa indiscutivelmente uma corrente, se não epidémica, pelo menos endémica.

“O carácter das doenças dominantes são: as bronchites e as tracheites, em casos exporadicos; a grippe e a influenza atacando com tenacidade.

“A provação dos doentes não é, porem, para desesperar. Os ataques, posto sejam intensos, são logo succedidos de melhora. As crises fabris não se fazem demorar, e é notável a declinação no período agudo da doença, que deixa, comtudo, demorados estragos no organismo.

“Nas pharmacias teem-se vendido arrobas de flor de borragem, e milheiros de sinapismos Rigollot.

“Os arsenais da therapeutica teem soffrido ataques medolhos nas seivas de pinheiro, nos xaropes de lactucario, nas antipyrinas e aconittus” (A Semana, 9-1-1890).

Nesse mês teve lugar o tradicional mercado de S. Vicente

“Não foi das mais concorridas, mas com tudo o gado suíno vendeu-se quasi todo.

“O preço da carne começou a 2$800 e chegou a 3$100” (A Semana, 23-1-1890).

Frequentemente, muitas vezes acompanhando a realização de festas ou feiras, a vila era visitada por artistas ambulantes:

“Em uma casa na rua dos Celleiros d’esta villa, está uma pequena troupe d’artistas dramáticos dando uns espectáculos que são limitadamente concorridos, porque,infelizmente, ao presente em Torres Vedras, tudo quanto se apura é para pharmacos” (A Semana, 23-1-1890).

Este mês de Janeiro foi igualmente marcado pela decisão de se iniciar a constituição de uma nova associação, tendo por base uma mais antiga, que deu origem ao ainda hoje existente Clube Artístico e Comercial, a mais antiga em funcionamento:

“Na segunda-feira [27 de Janeiro], a requerimento de precioso numero de sócios reuniu a assembleia geral do Club Torrense para tomar conhecimento do desejo por elles manifestado de que fosse substituído aquella antiga denominação pelo de Grémio de Torres Vedras.

“Assim foi resolvido por unanimidade” (A Semana, 30-1-1890).

As edições de Janeiro dão conta dos “protestos patrióticos” (A Semana de 23 de Janeiro), contra o Ultimato britânico, publicando mesmo, na sua edição de 30 de Janeiro, um texto de Jayme Batalha Reis intitulado “O Movimento Patriótico”.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A História das Termas dos Cucos

1 - O Dia da Inauguração

Quando, em 15 de Maio de 1893, teve lugar a inauguração solene do Estabelecimento Termal dos Cucos, virava-se uma página decisiva na história do Termalismo português e concretizava-se um sonho de gerações de torrienses. Essa cerimónia marcaria ainda a realização da última obra arquitectónica de vulto de toda a história do Concelho de Torres Vedras.
Nesse dia "despontava a aurora aos sons da magnífica philarmonica de Torres, celebrando em Machêa, residência do sr. Neiva, o alvorecer d'este memorável dia, que se marcava uma data importante nos fastos do Concelho com uma obra arrojada de verdadeiro interesse público, devido à iniciativa de um só homem, mais gloriosamente assignalava um facto humanitário, destinado a levar o alívio e a saude há humanidade que sofre. “Resolvera o sr. Neiva não festejar a inauguração, limitando esta a uma pequena festa familiar, reduzindo o programma à benção da lapide commemorativa, e levantamento da bandeira do estabelecimento.
“Por seu lado a villa de Torres preparava-se, ja ha muitos dias, para solemnizar não só a abertura das Thermas, mas para dar áquelle cavalheiro um público testemunho de consideração pelo assignalado serviço, que vinha de fazer ao concelho. “(...). "O primeiro acto foi a benção relegiosa das Thermas, dada (...) pelo reverendo prior de Matacães(...)."A benção celebrou-se às 5 horas da manhã.
"Ás 9 horas voltava o sr. Neiva, acompanhado dos seus amigos particulares, os srs. António Diogo da Silva e José António Ferreira. Já então se achavam na praça das Thermas muitos cavalheiros de Torres, entre elles o digno presidente da camara, a philarmonica, que acolheu o humanitario proprietario com um hymno expressamente composto em sua honra, e muito povo. Todo o pessoal graduado e menor do estabelecimento recebeu aquele cavalheiro ao fundo da escada principal, e seguindo-o até à sala da copa onde elle descobriu a lapide commemorativa, occulta com uma coberta de damasco. Depois executou-se a ultima parte do programa , içando-se a bandeira do estabelecimento, saudada por enthusiasticos palmas de toda a multidão presente, pela musica e por uma grande girandola de foguetes. Findou esta cerimónia com a leitura do auto [da benção e da inauguração do estabelecimento dos Cucos] em seguida assignada pelos cavalheiros que d'elle constam (...).
"Em todo o dia 15 se conservaram abertas aos visitantes as portas do edificio, sendo necessario, durante seis horas consecutivas, estabelecer a visita por turmas de 50 individuos para a facilitar, (...).
"Em Torres o contentamento e a alegria eram geraes, e á noite, quando sr, Neiva ahi foi para assistir á recita e baile, que os cavaleiros da nobre villa lhe dedicaram, esperava-o uma das mais solemnes e imponentes manifestações, que temos presenceado. Tudo quanto esta terra tem de distinto o aguardava á entrada com archotes acessos, acompanhando-o com a música atravez das ruas de transito do cortejo, todos illuminados, até ao club. Mas, não foram sómente estas ruas, até ás mais modestas habitações se estendeu esta manifestação de regosijo!" [1].
António Jorge Freire, o entusiasta autor destas linhas, foi o responsável pelo estudo, traça e direcção das obras das Termas dos Cucos, a ele se deve o estilo característico dos edifícios aí construídos. A João José Alves foi confiado o cargo de mestre de obras. Mas esse 15 de Maio de 1983 foi o culminar de uma longa história de ocupação humana e aproveitamento termal de uma das mais belas zonas naturais do concelho de Torres Vedras.

[1] FREIRE, António Jorge, in Annaes das Thermas dos Cucos – Relatório da Época Balnear de 1893, T. Vedras, 1893, pp. 68 a 73.

A História das Termas dos Cucos

2 - Os “Cucos” na História

Perto do sítio onde se localizam as Termas dos Cucos, junto à Quinta da Macheia, centro das propriedades que englobam aquelas termas, foram descobertos em 1959 vestígios de ocupação romana "quando se procedia à surriba de um terreno para plantação de vinha, e a uma profundidade de um metro e meio, apareceu a superfície quadrada de uma pedra, que depois de convenientemente descavada e retirada se revelou um cipo rectangular com 1, 25 m de altura, sob o qual se encontraram tejolos de fabrico romano e ossos humanos"[1], lápide funerária e ossos humanos que parecem revelar a existência no local de um cemitério romano pertencente a alguma povoação próxima.
Vasco Gil Mantas[2] , ao decifrar a leitura dessa lápide, atribui a origem desse monumento à primeira metade do século I. Aquele mesmo investigador, citado por Pedro Barbosa[3], refere que a via romana do Oeste entrava no litoral passando por Runa e Dois Portos, bem perto, se não mesmo ao lado, do local dos Cucos.
É provável, portanto, que as águas dos Cucos e as suas capacidades terapêuticas fossem conhecidas dos romanos, tanto mais que se trata de um fenómeno geológico muito anterior à existência humana e observável à superfície, como se percebe pela seguinte descrição de José António Neiva Vieira:
"Estas nascentes dos Cucos são nascentes artesianas e a sua existência deve-se aos deslocamentos da área tifónica [terreno confinado por séries de falhas e com fundo levantado através dos terrenos mais recentes] de Matacães. Água meteóricas infiltram-se através dos calcáreos do Jurássico médio [mais ou menos há 150 milhões de anos] da Serra de Montejunto (666 metros de altitude no cimo), descem com as camadas impermeáveis a grandes profundidades, onde elevam a sua temperatura, que na emergência atinge 40,1 graus para Cucos Modernos (Choffat diz descerem a cerca de 720 metros de profundidade), atravessam depósitos de salgema e outros depósitos, adquirindo assim a sua mineralização e radioactividade, e é no vale dos Cucos que encontram as falhas que lhes permitem atingir a superfície."[4]
Com as poucas provas acima referidas e sabendo-se a importância que os romanos atribuíam ao termalismo, não seria de estranhar terem sido eles os primeiros banhistas dos Cucos.
Para os períodos posteriores à ocupação romana continuam a rarear referências àquela região. Sabe-se, por um documento de 1242, da existência de um “moinho do carpinteiro”, um topónimo ligado à área envolvente dos Cucos, e que então pertencia ao património do Mosteiro de Alcobaça.[5]
Por sua vez, a existência da Macheia é referida pela primeira vez em 1309, com 2 “fogos” e no primeiro numeramento nacional de 1527, feito, para a região de Torres Vedras, em 15 de Setembro desse ano por Jorge Fernandes. Nesta data, a então “Aldêa da Macheia com casaes d´arredor” possuía 18 “vizinhos”, sendo um dos lugares mais povoados do concelho.É preciso esperar pelo século XVIII para se encontrarem as primeiras referências conhecidas às águas dos Cucos, nas respostas dadas pelos párocos das freguesias de Stª Maria, S. Miguel e S. Pedro ao inquérito paroquial, realizado a nível nacional em 1758. Escrevia o padre António Ribeiro, cura de Santa Maria, com a data de 7 de Maio de 1758: "Ha poucos anos se descobrirão huns olhos de agoa calidas, que nascem na margem do rio Sizandro e ficão em distância desta villa a parte da nascente por espaço de hum quarto de legoa, junto ao Moinho do Carpinteiro, em que se tem experimentado especial virtude para o figado" [6].
Num português peculiar, o Padre Izidoro de Abreu Machado, pároco de S. Miguel, procurava uma explicação mais científica para a utilidade dessas águas: "Tem tambem o districto desta freguezia no sítio chamada do carpinteiro distancia desta villa de hum quarto de legoa huma [907] agua termal participante de muntas partes sulfuricas, e nitrozas, dotada de muitas virtudes; Para estupores espurios, gotas artetticas, inchassois edematozas; outras muntas queixas, para as medicassois das quais concorrem pessoas de muntas partes, e legoas principalmente no veram por cauza do in commodo que esta tem para o uzo, por nascer na margem do Rio chamado Sizandro contigua a agua do mesmo Rio, e se lhe nam ter feito a diressam medicinal para o abafo, e Rigimento. E nam obstante este muntos se tem achado inteiramente saos de queixas que padessiam, nam consta sem ambargo do uzo desta ser de munto poucos annos he ao presente fosse nossiva". Mais completa foi a descrição feita no mesmo inquérito pelo prior de S. Pedro, António José de Faria, em 17 de Junho de 1758:
"Na distancia de huma milha ao nacente desta villa na margem do mesmo rio Sizandro, estao varios olhos de agoa huns contiguos, outros distantes, mas todos prodzidos de huma vea subterranea que corre transversalmente por baixo do mesmo rio, como se colhe dos vestigios nitrozos que a superficie da terra estão patentes tem esta agoa bastante calor o qual se conserva por muitas horas fora do seu nacimento. Os minaraes que nella se alcansão são muito nitro, e não pouco inxofre, e tambem se presume passara por mineraes de ferro, porem ao certo se não sabe com evidencia.
"Esteve esta agoa sempre incognita athe que hum grande cirurgião do partido da camara desta villa pella observar no ano de 1716 [ou 1746] a pos em uzo na medicina, chamado o dtº cirurgião Maximo Monis de Carvalho, e tem alcansado esta agoa notaveis efeitos, em desterrar Sarnas, Lepras, Caquechias, inchações, e de curar chagas sordidas, goats arteticas, convulcôns, Parllezias, e obestrucoens de olhos, servindo algumas vezes de remedio paleatico a chagas cancrozas, e podera servir pª remedio de outras muitas queixas se o pio zelo lhe mandase por algum reparo, para assim comodamente se uzar dos banhos como convem; pois não he menos para ademirar o grande nomero de enfermos que ali de diversas partes tem concorrido a tomar banhos nos toscos lagos que com sua industria fazem na terra, expostos ao ar, e sem reparo algum, e a maior parte sem concelho de medico, e nem regimento, ja tomandoos a toda a hora, e por dilatado tempo, sendo agoa tão activa não consta athe o prezente que rezultase de tantas dezordens e videntes perigos, mas antes tem sucedido acharem alguns enfermos alivio total nas suas queixas, tomando os ditos banhos depois de terem uzado os das Caldas da Raynha tão celabrados sem utilidade alguma. Restringeçe apena nesta breve noticia para assim de algum modo não dar sentimento aos coracons zellozes da utilidade publica os quaes se por extenço tiveçem anotº desta agoa quazi ancora sagrada que com suas vertudes maravilhozas segura a vida nas procellozas tromentas de tantos males, e não sem grande magoa se ve desprezada e abatida"[7] .
Pode-se assim afirmar que só no século XVIII surgem as primeiras referências às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, assinalando-se igualmente a precariedade das instalações e a necessidade de as melhorar. O século XVIII conhecia, aliás, um pouco por todo o país, a proliferação de construções balneares para a utilização de nascentes. A primeira análise científica da qualidade das nascentes dos Cucos foi feita pelo Visconde de Balsemão, numa comunicação apresentada em 1813 na Academia Real de Ciências, intitulada "Análise das Àguas Minerais dos Cucos e Descrição Física do Sítio". Madeira Torres, na parte económica da sua "Descrição Histórica e Económica da Vila e Termo de Torres Vedras", publicada em 1835 no tomo XI, parte II da 1ª série das "memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa", mas escrita entre 1818 e 1820, é o autor de outra das mais antigas referências às águas dos Cucos:
"(...) no sítio denominado dos Cucos, sobre a margem direita do Sisandro, se acha a célebre agoa Thermal, conhecida com o nome da situação (...) ninguém que conheça esta preciosidade, deixa de lamentar, que apezar dos dispendiosos esforços do benemerito dono dos banhos, estes se acham expostos às inundações, que os entulhão, e destroem. Ninguém deixa de reconhecer, que este estabelecimento devidamente reformado, alêm de tornar-se então mais interessante à saude pública, seria capaz de conciliar vantagens económicas para a nossa villa, chamando hum concurso, que deixasse nella, e seus contornos, espalhada huma parte do numerário, cujo giro tem feito povoar, faz subsistir à Villa de caldas, e suas visinhanças”.
Ao mesmo Madeira Torres se deve a primeira referência a uma outra nascente, a "Dos Coxos": "Em meia distancia entre aquelle sitio dos Cucos e a Villa, sobre o alveo, e junto a margem esquerda do Sisandro, no sitio denominado = Dos Coxos = se acha um copioso nascente, aos lados do qual se levantão algumas barracas, onde assentão tanques, ou caixas de madeira, em que corre, e se deposita a agoa na maior pureza, e se tomão banhos, muito proveitosos para remediar as erupções da pele (...)" .
Ao longo do séc. XIX surgem vários estudos e referências a estas águas. Vivia-se um período de expansão do termalismo, revelando-se uma maior preocupação com a saúde de cada um.

[1] VIEIRA, José António Neiva, História das Termas do Vale dos Cucos, Porto 1964, pág.6.
[2] MANTAS, Vasco Gil, Inscrições Romanas no Museu Municipal de Torres Vedras, Coimbra, 1982, pp. 42 a 49.
[3] BARBOSA, Pedro Gomes, Povoamento e Estrutura Agrícola na Estremadura Central, Lisboa, 1992, pp. 254 e 292.
[4] VIEIRA, ob.cit.
[5] BARBOSA, ob. Cit. Pág. 264.
[6] Memórias Paroquiais de 1758, Paróquia de Stª Maria, A.N.T.T.
[7] Memórias Paroquiais de 1758, S.Pedro, A.N.T.T.

A História das Termas dos Cucos

3 – De Peres a Neiva

O lugar dos Cucos faz parte, desde à longa data, das propriedades da Quinta da Macheia e a esta parece ter estado sempre ligada.
Algumas das propriedades da Quinta pertenciam, nos primeiros tempos do reino, ao mosteiro de Alcobaça e sabe-se, por um documento de doação do século XVI, que Dom Rodrigo de Menezes, do conselho de D. Manuel, recebia, entre outras rendas, o direito do pão de então "Reguengo de Machêa".
A partir do século XVII começa a dar-se um fenómeno raro, que foi a transformação de uma aldeia, a da Machea, que em 1527 era uma das mais povoadas do concelho, numa quinta de um único proprietário, um processo longo e que só se completaria na segunda metade do sec. XIX.
Essa "concentração dos edifícios e das terras na mão de um único senhor começa a produzir-se (...) quando Domingos Fernandes Monteiro, "que vivia por sua fazenda" na dita aldeia, compra numerosas propriedades na serra de Machêa e ribieira de Machêa e casas no lugar da Machêa", de acordo com vários escrituras e documentos desde o princípio do sec. XVII existentes na posse da família de José António Neiva Vieira[1] .
Em finais do século XVIII, após falecer o Dr. António de Matos Pereira, que era o proprietário da Quinta da Machêa, Miguel Lourenço Peres vai herdar essa propriedade e vai mandar fazer um mapa das suas propriedades em 1787, cujo original se encontra naquela quinta e intitulado "Mapa da Quinta denominada de Machêa com todas as suas pertenças de casas, pomar, horta, vinhas, olivais, terras lavradios e matos, tudo conjunto, desde o referido lugar, até ao sítio da Ribeira de Machea, indo pelo de Santo Amaro, calçada que vai para a vila de Torres Vedras, e da dos Cucos, sítio do carpinteiro e outeiro fronteiro ao da Boiaca (...)"[2] .
Miguel Peres foi o primeiro a procurar realizar alguns melhoramentos na captação e nas instalações do lugar dos Cucos: "Constavam de três barracas de madeira: a primeira com um banho, uma bomba para 'choques parciais' e um depósito que alimentava a bomba. Encontravam-se a nível inferior ao do leito do Sisandro e descia-se até aos banhos por degraus feitos na terra. Levavam cinco horas a encher, dado o pequeno débito das nascentes, e rem despejados à mão" [3].
O falecimento, ainda jovem, de Miguel Lourenço Peres provocaria um arrastado processo Judicial pela posse do lugar entre o herdeiro deste, Jose Lourenço Peres, e uma parente do Dr. António de Matos Pereira, que contestava a herança dos Peres, processo esse que se arrastaria de 1782 a 1830, ganho finalmente por José Lourenço Peres, o último Capitão-Mor de Torres Vedras.
Os juros dos empréstimos também estavam sujeitos então ao pagamento da décima e nesse documento encontramos uma referência à divida de Jose Lourenço Peres e "sua mulher" a "João Gonsalves Dias de Lisboa", no valor, altíssimo
Através do livro de décimas de 1831, existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras, e porque os juros dos empréstimos também estavam sujeitos ao pagamento daquele imposto , ficamos a saber que, nessa data, José Lourenço Peres e "sua mulher", deviam a "João Gonsalves Dias de Lisboa", o valor, altíssimo para a época, de ...11.515$545 ! Este "João Gonçalves Dias Neiva e a dívida enorme que lhe era devida por Jose Lourenço Peres talvez explique que mais tarde a Quinta da Macheia viesse a passar para a família "Neiva". No recenseamento eleitoral de 10 de Novembro de 1836, documento existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, surge pela primeira vez uma referência à morada de João Gonçalves Neiva no lugar de Macheia, profissionalmente identificado como "capitalista".
João Gonçalves Dias Neiva iniciou então uma nova “dinastia” na posse da Quinta da Macheia e que alteraria profundamente a importância do lugar.

[1] VIEIRA, ob.cit.p.10.
[2] VIEIRA, ob.cit, Pág. 9
[3] VIEIRA,ob. cit. pág.11.

A História das Termas dos Cucos

4 – Um documento de Propriedade do Século XVIII

“Compra amigavel .Miguel Lourenço Peres da cidade de Lisboa ao Dr. Antonio de Mattos Prª da Q.ta da Machea ,a mesma quinta por 3:200$000

“Ao primeiro dia do mês de Janeiro de mil e sette centos e outenta e douis annos , nesta villa de Torres Vedras lançou em verba de siza Miguel Lourenço Peres morador na cidade de Lisboa , a compra que fes amigavel ao Dr.Antonio de Mattos Pereira morador em Maxea deste termo,de huma morada de cazas Nobres no ditto citio de Maxea ,que consta de dous lagares de vinho ,e hum de Azeite ,e adegas e mais pertenças ,e todos os mais predios Rusticos e Urbanos sejão vinhas ,terras , olivais ,Mattas,Pumar ,Horta ,Corrâes ,que athe o dia de hoje possuhia , exceptuando o ditto vendedor as propriedades de que se paga foro, e huma propriedade de cazas a Ruinadas citas no sobreditto Lugar de Maxea, foreiras do Ex.mo Marques do Lavradio , e huma terra chamada o Paûl junto a Ponte do cordeiro ,tudo pella refferida forma , pella quantia de três contos e duzentos mil reis , entrando digo a Ponte do cordeiro compriendendo tambem nesta compra o Prazo chamado do Mosteiro foreiro às Rellegiozas de Côz ,com a Rezerva de todos os Rendimentos ,uzos // f.2 // e fructos durante a vida do ditto vendedor ,cuja compra fas pella referida forma , pella quantia três contos e duzentos mil reis ,de que o mesmo comprador pagou de Siza dobrada pella sua parte e do vendedor a quantidade de seis centos e quarenta mil reis que Recebeu o Dr.Joaquim Jose de Almeida e Carvalho thezoureiro dos bens de Raiz e assinou como Juiz Veriador e das Sizas e (...?) Gregorio Jose dos Santos (...) Escrivão que a escreveu”

(Documento existente no livro “Bens de Rais do Anno de 1782” ,existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras , folha 1 ,verso , e folha 2 )

A História das Termas dos Cucos

5 – Os Cucos em 1831

Através de um documento inédito existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras é possivel reconstruir a vida sócio-económica dessas propriedades em 1831[1] . Assim no lugar da Ordasqueira (sic) o "Capitão Môr José Lourenço Peres tem a Quinta de machea e mais fazenda e vinha à Madre da Fonte que produz 51 Pipas de vinho e 136 alqueires de pão meado e 18 cantaros de Azeite (...)", enquanto no lugar da macheia pagavam de Décima por "prédios rústicos": - Custodio Jose Rodrigues "que tem fazenda que produz 6 pipas de vinho" - "A viuva de thimotio Nunes tem fazenda que produz meio almude de vinho e 20 alqueires de pão meado" - Estevão Sardinha "tem fazenda 3ª à Quinta Nova" - Thomás Alves "tem Azenha da Boiaca foreira a hum homem de Lisboa em 28:8oo réis" - O Benificiado Carvalho "tem da Quinta da Machêa de baixo que produz 24 alqueires de pão meado e 16 pipas de vinho" - "João do Cazal dos Cucos tem o dito Cazal de renda ao Doutor Tavares em 60 alqueires de pão meado" e "mais fazenda foreira ao Convento da Graça em 7 alqueires de trigo" - António Vieira "tem cazal do trigozo foreiro à Quinta Nova em 60 alqueires de pão meado" e mais uma "fazenda foreira a Medeiros em 6 alqueires de pão meado". - Francisco de Lima "tem fazenda foreira a São Tiago e ao capitão Môr Jose Lourenço Peres em 3 alqueires de trigo". - Francisco "Forneiro desta villa tem fazenda foreira a Medeiros em 8000 reis". - Jose Antunes Cabaço "tem fazenda foreira a Medeiros em 19 alqueires de trigo" - Os Herdeiros de Jose de Lima Falcão "tem fazenda de sua Quinta e anexos que produz 26 pipas de vinho, 200 alqueires de pão meado, 8 cantaros de Azeite, frutos Hortaliças que podem produzir 6:000 reis". - Os Herdeiros de Francisco Xavier da Cruz "tem o Cazal de Fonte Nabóa foreira ao Barão de Quintella em 60 alqueires de trigo". Vemos por este documento, não só a importância produtiva do local, como uma certa dispersão de terras por vários proprietários. No registo do pagamento da décima referente às propriedades "urbanas" são registadas 22 propriedades entre as quais se destacam as seguintes: - A Quinta da Macheia, do Capitão Jose Lourenço Peres avaliada então em 30.000 reis (o edifício "urbano"). - Um Moinho de "vento orgeiro e alveiro" pertencente a Jose Antunes "moleiro". - Um segundo moinho pertencente a Sebastião Velozo de Matacães "que produz 20 alqueires de pão meado" e o segundo "Moinho de Vento que pode vender 3 alqueires de milho". - São ainda referidas entre aquelas propriedades urbanas, três azenhas: - "Jose maria Molleiro tras de renda a Azenha do cabaço do capitão Mor por 40 alqueires de pão meado". - "(...) Azenha da Boiaca de Thomas da Urjariça que pode vender 20 alqueires de pão meado". - "(...) Azenha do Carpinteiro arrendada a Jose Antunes Cabaço por 60 alqueires de pão meado".

[1] “Décima de 1831 – Vintena de Matacães”, Arquivo Municipal de Torres Vedras.

A História das Termas dos Cucos

6– A Mudança

O ano de 1851 foi um ano que marcou a mudança. Nesse ano João Vitorino Pereira da Costa, cirurgião da Câmara e do Hospital Civil de Torres Vedras, publicava "Breves notícias das águas termais dos Cucos, seguido de uma relação da maior parte dos doentes que delas fizeram uso nos meses de verão de 1850", nas páginas do "Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana". Nessa obra "apontava a necessidade de mudar o álveo do rio Sizandro de forma a retirá-lo da proximidade imediata dos banhos e de captar melhor as nascentes"[1], recomendação que sensibilizaria João Gonçalves Neiva, que se havia tornado proprietário da Quinta da Macheia e dos banhos dos Cucos nesse ano.
Com o novo proprietário inicia-se uma nova etapa na história dos Cucos. Devem-se a João Neiva as primeiras obras de vulto no local:
" (...) melhorou as modestas instalações balneares, mandou fazer uma muralha para segurar as águas do rio nas suas arremetidas invernais e fez construir uma série de nove pequenas casas para habitação, comunicando entre si e com cavalariças ao fundo - as ainda existentes casinhas dos Cucos. tais instalações já permitiram que o Marquês do Lavradio, da Quinta da Conceição, aí se instalasse para com mais comodidade e repouso fazer tratamento" [2].
Os anotadores de Madeira Torres, na segunda edição, inédita até hoje, da parte económica da monografia de Madeira Torres, cujo original se encontra na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, escreviam, por volta de 1862, sobre os Cucos:
"A concorrência dos enfermos a estes banhos tem sido grande n'estes ultimos annos, não só das Comarcas visinhas, mas também da Capital e Províncias (...).
"O numero dos banhos tomados nos ultimos 10 annos foi de mil em cada ano; e paga-se por cada hum 120 reis, dando-se porem d'esmolla a quem os pede, huma vez que apresente attestação de pobreza passada pelo respectivo Parocho, e de Facultativo sobre a necessidade, que d'elles tem; mas o numero d'estes não entra na conta assima dita, e calcula-se em huma quinta parte em relação ao numero dos pagos. Talvez tenha concorrido para a maior frequencia d'estes banhos, alem do annuncio mandado fazer todos os annos nos jornaes pelo actual proprietário d'elles João Gonçalves Dias Neiva, o outro publicado pelo pharmaceutico Francisco Fortunato d'Assis, assistente em Lisboa na rua do Alecrim nº 51e 52 , pelo qual tem anunciado não só venda na sua Pharmacia d'esta agoa engarrafada, mas tambem em resumo as suas virtudes (...).
" Para uso dos banhos das pessoas que residem, ou vem residir nesta villa há desde o anno de 1860, a comodidade das carroagens, que a Companhia da Diligencia da mesma villa para a Alhandra alluga para esse fim".
João Dias Neiva faleceu a 20 de Fevereiro de 1868, mas a sua acção em prol da melhoria das instalações nos Cucos contribuiu, de forma decisiva, para chamar a atenção de muitos especialistas para o valor daquelas águas.
Na década de 70 do século XIX surgem vários estudos sobre as águas minerais do reino e de propaganda ao termalismo, então em plena expansão. É dessa altura a publicação de uma obra fundamental de divulgação, da autoria de Ramalho Ortigão, publicada em 1875 e intitulada "Banhos de Caldas e Água Minerais", onde tece grandes elogios às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, chamando a atenção para a necessidade de melhorar as condições de alojamento deste lugar.
O aparecimento em 1885 do primeiro orgão de comunicação social de Torres Vedras, "O Jornal de Torres Vedras" contribuiu para alertar a opinião pública local e principalmente os responsáveis locais, para a importância do aproveitamento convenientemente do local. Logo a 26 de Março desse ano o citado periódico publicava um extenso artigo sobre as "Thermas dos Cucos", chamando a atenção para os frequentes "resultados maravilhosos obtidos pelo uso d'estas águas thermaes no tratamento das diversas formas de rheumatismo" mas queixando-se o articulista de, apesar desses resultados, "aos banhos dos Cucos recorrem relativamente mui poucos doentes" em comparação com outras termas então mais famosos (Caldas da Rainha, Taipas, Vizela, Moledo, S. Pedro do Sul), mas onde os doentes não encontravam os mesmos resultados que podiam obter nos Cucos. E o articulista procurava as causas para essa baixa frequência das águas dos Cucos, em primeiro lugar no facto de alguns médicos e cientistas desvalorizarem aquelas águas e em segundo lugar "no desfavor da apresentação".
Nos periódicos locais, herdeiros de "O Jornal de Torres Vedras", vamos continuar a encontrar várias referências á necessidade de melhorar a propaganda e as instalações daquele sítio.
O Jornal "A Semana" foi dos que mais se bateu por esses melhoramentos. Em 12 de Julho de 1888 esse jornal chamava a atenção para a "grande conveniencia e maior necessidade que há de construir um edíficio, apropriado e decente, onde os doentes de rheumatismo gottoso possam vir receber, com commodidades e asseio, os manifestos benefícios das nossas especialissimas águas dos Cucos.
"Aquillo que hoje lá existe, considerado como estabelecimento Thermal, é um péssimo documento da nossa orientação económica, que estamos apresentando aos forasteiros, deixando abandonado um precioso elemento de vida commercial de Torres Vedras (...). "As toscas locandas estão apinhadas de gente; as pessoas que se installaram pelas hospedarias da villa, quando vão tomar o banho, ao sair, não teem um quarto confortável onde demorem, acontecendo que nos dias inconstantes que tem corrido sugeitam-se até apanhar chuva, na volta ! Este é positivamente o reverso da medalha.
"Vamos, meus senhores, que tendes o nome aureolado com o fastigio da vossa fortuna: dispendei mais alguma coisa da vossa iniciativa própria, e imponde-vos á gratidão dos vossos conterraneos, porque essa gratidão é como o esmalte azul sobre o ouro". Para o crescente afluxo de forasteiros ao lugar dos Cucos terá contribuido a inauguração da linha férrea Lisboa-Torres em 1886, aberta ao serviço público em 1887. A esta situação e ao desafio lançado pela opinião pública local, o novo proprietário dos Cucos, José Gonçalves Dias Neiva, sobrinho do anterior, "decidiu-se a proceder ás obras de valorização desta estância termal. Pesaram no seu espírito, ao tomar esta decisão, vários factos. A região atravessava uma grande crise económica, devido á destruição dos vinhos pela filóxera, e tais obras dariam trabalho a muita gente. Ao seu ânimo agradava esta obra de benemerência, criar melhores condições para dar saúde. Receava, por outro lado, que o débito da água termal não fosse sufeciente para um grande balneário e não acreditava nas vantagens económicas deste empreendimento.
“O desaterro do poço soterrado mostrou que os vários olhos de água que lacrimijavam á superfície e alimentavam os antigos banhos provinham duma única e poderosa nascente, com um débito de 259.000 litros por dia. Tal observação convenceu-o da possibilidade duma exploração termal noutra escala de grandeza, e decidiu-o a iniciar as obras"[3] .
Essas obras, que incluíram o desvio do leito do rio Sizandro mais para a sua esquerda, junto ao monte do Cabrito, foram dirigidas por António Jorge Freire e pelo mestre João José Alves, e iniciaram-se a 26 de Novembro de 1890.
O Estabelecimento termal foi aberto ao público, provisoriamente, a 11 de Julho de 1892 e a sua inauguração oficial teve lugar, como já referimos, a 15 de Maio de 1893. Dias Neiva, entusiasmado com o êxito da obra, idealizou uma vila termal que, num ofício à Câmara definia como uma "nova povoação junto do estabelecimento balnear, subordinada a um plano maduramente estudado em que se observem rigorosamente todos os princípios higiénicos tanto nos arruamentos e esgotos como nas casas de habitação"[4] .Chamar-se-ia "Vila Neiva dos Cucos" e António Jorge Freire foi encarregue de elaborar o plano. Incluía "40 moradias iguais aos actuais chalets que marginam a Avenida das Termas, albergaria com casas mais modestas, um hotel com 300 quartos, hospital termal, capela, mercado, casino, a Avenida de Torres que, vinda da Praça do Mercado cruza-a a actual Avenida das Termas, desembocar na Praça da Capela, atravessa-a o Sizandro e, depois de ladear o contraforte do Casal Cabrito, passaria por cima do túnel, para se dirigir à estação de caminho de Ferro da vila; no alto da serra de Machêa instalava-se um solário para crianças e no morro dos Cucos um pequeno chalet para repouso dos doentes; a serra seria intensamente arborizada e um parque arborizado ligava a Praça das termas a um grande lago, no sitio da antiga Azenha dos Cucos, por trás do actual Buvette" .
Deste arrojado plano "apenas" se concretizaram a construção dos balneários, da Praça das Termas e da Avenida das Termas. O Casino foi construído em 1896 e, das 40 moradias previstas, apenas se concluíram duas vivendas: "D. Feliciana" (1895) e "D. Maria" (1896). De qualquer modo aquilo que se construiu foi de tal modo importante que mereceu a visita de personagens tão ilustres como o rei D. Carlos, em 1902, e que, por essa ocasião, agraciou José Dias Neiva com o título de Conde de Machêa, como o rei D. Manuel II, por ocasião das comemorações do centenário da Batalha do Vimeiro, em 1908, como Egas Moniz, o prémio Nobel Português, que frequentou os Cucos em 1902, 1903, 1905, 1906 e 1907, ou como, em 1920, o Presidente da República António José de Almeida.
Para além de José Gonçalves Dias Neiva, proprietário do estabelecimento, e de A. Jorge Freire, engenheiro responsável pela obra, é de destacar ainda o Dr. Justino Xavier da Silva Freire, director clínico das Termas, e autor de importantes relatórios médicos entre 1893 e 1913. A esse "triunvirato" se ficou a dever tão importante iniciativa.
A José Gonçalves Dias Neiva, falecido em Fevereiro de 1929, sucedeu-lhe, à frente dos destinos das Termas, um seu sobrinho, José António Vieira, que viria a falecer em 1962 e que dirigiria as termas numa fase de certa estagnação do local. Sucedeu-lhe José António Neiva Vieira, que procurou dar um novo dinamismo ao local, apesar das dificuldades acrescidas pela poluição do rio Sizandro. A este, enquanto director clínico da Estância Termal dos Cucos, se deve o primeiro relatório entregue aos serviços técnicos de Salubridade da Direcção Geral de Saúde, em 1969, sobre os inconvenientes das descargas da indústria Calhaus e Ferreira, Ldª no rio Sizandro.
Mas o local não se ficara por aqui no que toca a atentados ao meio ambiente. Recentemente uma pedreira destruiu uma área envolvente da zona dos Cucos e em 1983 foram imensos os estragos provocados pelas cheias.
Nestas condições foi difícil a José António Neiva Vieira melhorar as termas dos Cucos. Deve-se a ele a melhor monografia sobre o local, "História das Termas do Vale dos Cucos", editada em 1964, da qual temos vindo a citar algumas passagens.
Infelizmente, numa altura em que as Termas dos Cucos começavam novamente a conhecer algum desenvolvimento, o Dr. Neiva Vieira veio a encontrar a morte de forma trágica em 28 de Agosto de 1987 na passagem de nível de Runa.


[1] VIEIRA, ob. cit. pág.16.
[2] VIEIRA, ob. cit. pág. 17.
[3] VIEIRA, ob.cit. pp. 23-24.
[4] Citado por VIEIRA, ob. cit, p. 26.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para a História Urbana de Torres Vedras - Praça da República

Durante séculos esta praça representava o limite sul da vila de Torres Vedras, antecedendo a "Porta de Santana".
Era conhecida pela designação de "Outeirinho", embora também apareça com a designação de de largo do Espírito Santo, pelo facto de aí se situar o Hospital do Santo Espírito, no lugar onde se estabeleceu mais tarde o Hospital da Misericórdia.
A partir dos finais do século XIX confundia-se com o Largo da Graça, nas suas varidas designações, até se fixar com a actual designação, quando se inaugurou a Praça do Império junto ao Jardim da Graça, aí pelos anos 40 do século passado.
Nesse largo desembocam três das mais antigas e importantes ruas da cidade (Rua da Olaria, Rua Serpa Pinto e Rua 9 de Abril), como a Av. 5 de Outubro desde os finais do século XIX.
Popularmente é muito conhecida, ora pelo Largo do Império, ora por Largo da Havaneza, por causa dos dois famosos cafés aí localizados.

A Praça da República há cerca de cem anos....



.... e na actualidade

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para a História Urbana de Torres Vedras -"Largo da Graça"

Este Largo era chamado, já em 1818, de Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde actualmente funciona a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome.
Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada.
Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área da antiga cerca do Convento da Graça, encerrado em1834, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.
Em 1885 foi aí instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885[1].
Esse coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado
Em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.
A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Julho de 1892, sendo inaugurado a 21 de Agosto, com festa e Kermesse
Transformado em jardim público com coreto no final do século XIX, ocupando o antigo espaço murado do jardim do Convento da Graça, adoptou o nome do monarca que então reinava, D. Carlos .
A 12 de Maio de 1902 este lugar foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.
Com a República o largo foi rebaptizado com o nome de Largo da República, tendo-se proposto alterar o seu nome para Largo Sidónio Pais em 1919, proposta nunca concretizada.
Em 10 de Outubro de 1954, no lugar do velho coreto, foi inaugurado o obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte a designação de Praça da República.
“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro”.[2]
Com o 25 de Abril foi novamente rebaptizada como Praça 25 de Abril.
Contudo, popularmente continua a ser conhecida por Largo da Graça.

[1] Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885
[2] Segundo Augusto M. Lopes da Cunha em Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra penissular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954.

Para a História Urbana de Torres Vedras -"Largo da Graça"

Uma das imagens mais antigas o Convento da Graça, do início do Século XIX.

Fotografia do final do século XIX, sendo possível ver a cerca que delimitava os domínios do convento, no sítio onde foi implantado o futuro jardim da Graça.


Ruínas da antiga Ermida de Santana


Edição do Jornal "A Semana",comemorativa da inauguração do Largo D. Carlos, com a imagem do seu benemérito D. Diogo de Nápoles, em 1892

domingo, 24 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

Para a História Urbana de Torres Vedras - Av. 5 de Outubro

Em meados dos século XIX Torres Vedras rompeu com os tradicionais limites urbanos medievais.
A chegada do caminho-de-ferro, no final de 1886, contribui para essa importante ruptura com o desenho urbano da então vila de Torres Vedras.
Uma portaria de 28 de Janeiro de 1887 aprovou "o projecto da avenida para serventia do caminho de ferro nesta villa"[1].
Em Março desse ano o periódico local “A Semana” informava que esse projecto custava 5 milhões e 645 mil réis, tendo a nova avenida uma extensão de 342, 76 metros.
Um diferendo entre a câmara municipal e o governo, sobre o pagamento das expropriações para construir aquela avenida entre a estação e o largo da Graça, cujo projecto camarário, elaborado em 15 de Setembro de 1886, previa um caminho em linha recta, mas exigindo maiores gastos por parte do Estado em expropriações, levou a que apenas em 1888 se tivesse dado inicio à construção dessa via.
A Câmara apenas se comprometeu a contribuir para as expropriações a efectuar até ao chamado muro da cerca, daí a razão pela qual essa avenida acabou por não ser feita em linha recta, fazendo um cotovelo exactamente junto, à rua da Cerca[2].
Em Abril de 1888 o jornal "A Semana" anunciava que iam "ser remettidos para a administração do concelho os autos das novas expropriações feitas para o alargamento da Avenida do caminho de ferro d'esta villa, alargamento que acaba de ser approvado pelo ministro, como a camara requereu, por iniciativa do deputado do círculo, que em vez de 8 pediu 16 metros de largura para aquella via publica.
"Parece, pois, que os trabalhos deverão começar agora, que o tempo está permittindo"[3].
Poucos meses depois, em Agosto desse ano, já se podia ler na imprensa local que avançavam "os trabalhos da Avenida do Caminho de Ferro, que alonga o seu prosseguimento até á extrema lateral do largo da Graça, ficando uma obra mais completa (...)"[4] .
Finalmente, em Setembro de 1888, anunciava-se o fim das "obras da nova Avenida do Caminho de Ferro, espaçosa, bonita, e um dos melhores trabalhos que se tem feito em Torres, com relação a belleza e utilidade(...)" [5].
Em sessão camarária, realizada em 14 Março de 1889, baptizou-se a Avenida do Caminho de Ferro com o nome de Avenida Ignacio Casal Ribeiro, uma homenagem ao deputado do círculo eleitoral de Torres Vedras, decisão comunicada ao mesmo quando este visitou a vila em 17 de Março desse ano "como premio dos esforços que s. ex.ª desenvolveu para a construcção d'ella, e como signal do respeito e do amor de todos"[6].
Com o advento da República, logo na primeira sessão do primeiro executivo republicano, realizada em 8 de Outubro de 1910, se decidiu alterar o nome dessa avenida para a sua designação actual, Avenida 5 de Outubro.
Praticamente até à segunda metade do século XX, essa outrora verdejante avenida era a zona nobre e chique da vila.
Nos postais que hoje divulgamos é possível acompanhar as mudanças que nela se registaram ao longo dos seus primeiros cinquenta anos de existência.

[1] citado em sessão camarária de 16 de Junho de 1887, Livro nº33, ff. 198 verso a 199
[2] Sobre este assunto, deve ler-se o artigo "A avenida do caminho de ferro", publicado n' A Semana de 30 de Junho de 1887.
[3] A Semana, 5 de Abril de 1888.
[4] A Semana, de 16 de Agosto de 1888.
[5] A Semana, de 27 de Setembro de 1888.
[6] Voz de Torres Vedras, 23 de Março de 1889.

Para a História Urbana de Torres Vedras - Av. 5 de Outubro

Uma das imagens mais antigas da então Av. Cazal Ribeiro. A fotografia é tirada no sítio onde se situa actualmente a "Arcádia". À esquerda, a Avenida para a estação. À direita, a "Alameda de S. João, que se dirigia para o cemitério do mesmo nome. Entre as duas vias, ainda não estava construido o edifício escolar, que hoje integra a Biblioteca Municipal e o edifício camarário.



Av. 5 de Outubro. Ao fundo vê-se o edifício da estação.


Vista da Avenida vista do lado da estação.


Outra Vista da Avenida, podendo ver-se, à esquerda, em segundo plano, uma das paredes do Hotel Natividade.



Vista na mesma direcção da anterior, um pouco mais recuada. No original é possível avistar, á direita, ao fundo, atrás do arvoredo, uma parte do telhado da Capela de S. João