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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Torres Vedras e a Primeira Guerra (1914-1918)


(vista Geral de Torres Vedras , no início do Século XX)

Quando se comemora o centenário da assinatura do Tratado de Versalhes, assinado em 28 de Junho de 1919, tratado esse que acabou oficialmente com a Primeira Guerra, estabelecendo as condições da paz e um novo mapa geopolítico na Europa ( que conduziu à ascensão do fascismo e no nazismo e à Segunda Grande Guerra…mas isso é outra história..!!), aqui  recordamos a forma como aquele conflito foi vivido em Torres Vedas.

Na década de 1910 Torres Vedras era uma terra, tal como muitas outras terras de província desse tempo, onde a maioria esmagadora da população, cerca de 75% pelos censos de 1911, se dedicava à actividade agrícola.

Segundo o mesmo censo, outros 11% dedicavam-se à “industria”, uma classificação para as tradicionais ocupações artesanais, seguindo-se o comércio, que ocupava 4,3% das actividades profissionais.

A esmagadora maioria desses artesãos e desses comerciantes estavam concentrada no centro urbano.

O vinho era a principal produção agrícola do concelho, o maior produtor do distrito de Lisboa registado em 1916.

A batata, o milho e o trigo, por esta ordem, eram os produtos mais importantes a seguir ao vinho, embora, no seu conjunto, representassem menos de ¼ da produção vinícola.

Esses três produtos, ao contrário do vinho, destinavam-se maioritariamente ao autoconsumo ou ao comércio local, enquanto o vinho era exportado, maioritariamente pelo caminho-de-ferro, sendo por isso a catividade mais lucrativa do concelho.

No dia em que se realizava a centenária Feira de S.Pedro, na véspera do dia desse santo, 28 de Junho de 1914, em Sarajevo,  era assassinado o arquiduque Francisco Frenando, acontecimento que levou ao desencadear da Primeira Guerra, e que terá então  passado despercebido à multidão que animava essa feira, frequentada, quem sabe, por muitos que, em consequência desse acto longínquo, poucos meses depois, acabariam por ir combater para uma Europa ou a uma África distantes ou por chorar familiares  mortos e estropiados em consequência do conflito que se avizinhava.

Um mês depois daquele acontecimento, declarada a guerra em 28 de Julho de 1914, a imprensa local mostrava-se optimista sobre o rápido desfecho da mesma e sobre as suas consequências:

“(…) Nós portugueses, pela situação especial em que nos encontramos, nada temos por ora que recear, antes é licito supor que Portugal se coloque numa situação se superioridade, como nação aliada que é da Inglaterra, situação de que lhe avirá possíveis vantagens.

“Pelo lado económico a guerra veio surpreender o nosso país numas circunstâncias verdadeiramente satisfatórias, numa época em que se acabam de recolher abundantíssimas colheitas de trigo, em que as colheitas de milho, feijão e outros legumes se podem considerar fartas, num ano em que a produção de batata foi verdadeiramente excepcional e com as uvas prestes a amadurecer.

“Em tais  circunstâncias, num pais onde não falta peixe, os ovos, as galinhas e outros animais de criação, as subsistências estão largamente asseguradas e não há perigo da fome, cujo espectro, poderia horrorizar-nos (…)(1).

Ao mesmo tempo, as primeiras palavras dessa imprensa eram de apelo à paz:

“No momento em que as nações se digladiam, disparando os canhões e procurando ferir os adversários, é difícil a alguém escrever sobre assuntos políticos, tanto mais quando quem escreve presando extremamente as ideias mais largas de fraternidade entre os povos, entende, por igual, que o seu país não pode ser esmagado.

“A hora é de tréguas para a sociedade portuguesa, e precisamente porque o é, deve ser da mais absoluta energia política.

“Somos pela paz; somos pela fraternidade – mas somos igualmente pela República Portuguesa, como garantia dessa paz e dessa fraternidade (…)” (2).

 O órgão local do Partido Democrático apontava o dedo aos responsáveis  por essa guerra:

“ A educação fradesca em que há tantos séculos tem vivido, e em que continua a viver a Europa, é a causa principal de todas as lutas que a têm ensanguentado (…).

“A de hoje foi iniciada pelo mais fervoroso dos católicos, incitada pelo mais ardente  dos  protestantes. Lutero abraçou-se a Inácio de Loiola para esmagarem, pelo esforço comum, o inimigo também comum: a Liberdade (…).

“A Guerra actual poderá ser a última se, vencido no campo das armas o medievalismo imperialista, vencedor for depois, no campo das ideias, o modernismo progressivo da Democracia  (…).

“Há muitos anos que a Europa está dividida em dois campos opostos, sendo um constituído pela Rússia, França e Inglaterra e o outro pela Alemanha e pela Áustria.

“O primeiro grupo representa neste caso a Liberdade, o segundo representa  o despotismo” (3).


No inicio da Guerra publicavam-se A Voz de Torres (9/9/1914 a 1/5/1915) e  A Vinha de Torres Vedras (1894-1920) e no final a “Vinha…” e o  “Ecos de Torres” (11/6/1917 a 1921), onde se publicavam regularmente várias crónicas e noticias, em especial e com maior regularidade as “Notas da Guerra” (in VTV desde 20/8/1914) e “carta de Paris – A Guerra Infame (notas da minha carteira” po A Vinardell Roig, in VTV desde 17/9/1915).

As Notícias da Guerra iam chegando aos habitantes de Torres Vedras, não só pela imprensa local e nacional (esta chegava diariamente por comboio), mas por muitos outros meios:

“Diariamente têm sido recebidos telegramas nesta vila, por intermédio deste jornal, os quais têm sido expostos ao publico em placards nas montras da Papelaria Cabral, na Praça do Município e da Sapataria Vieira, no largo da Republica, pontos centrais, onde tem ocorrido grande concorrência de pessoas a saberem notícias da guerra” (4).

Tendo em conta que uma parte considerável da população era analfabeta, não tendo acesso à imprensa escrita, a imagem foi outro importante meio de informação sobre a guerra.

São muitas as referências, na programação da sala de cinema local, o Animatógrafo Salão Central, à exibição de  filmes de ficção e documentários sobre a guerra ( o 1º referido foi exibido em 22 de  Fevereiro de 1915 : “Guerra Europeia” “dividido em duas partes”).

Outro meio era a fotografia, como aconteceu com uma “Exposição” fotográfica  assim anunciada pela imprensa local: “recebemos de Inglaterra um flagrante relatório fotográfico de 32 páginas, em formato grande, das atrocidades inauditas cometidas pelos alemães sobre a heróica e infeliz Bélgica (…) este documento estará exposto na Sapataria Vieira ( …) e depois será facultado nesta redacção” (5).

África foi o primeiro campo de actuação do exército português, antes da entrada “oficial” no palco europeu.

É nesse contexto que a Comissão Municipal do PRP de T. Vedras apelava “Aos habitantes do conselho de Torres Vedras” :

“Devendo brevemente partir para os campos de batalha [em África] parte do nosso bravo e glorioso Exército Português, parte, por consequência, do nosso todo, no qual vão pais, filhos, irmãos e esposos, afim de auxiliarem as tropas aliadas na defesa do Direito, da  Justiça e da Liberdade, seriamente ameaçadas pela barbárie autro-alemã, a Comissão Municipal do Partido Republicano, resolve apelar para os sentimentos nobres e altruístas dos habitantes do Concelho de Torres Vedras, para que aos nosso briosos soldados não faltem uns certos confortos que as circunstâncias de momento reclamam.

“Assim, na sede da referida Comissão, Centro Alexandre Braga, rua Heliodoro Salgado nº 6, 1º, recebem-se quaisquer donativos tanto em dinheiro como objectos agasalho; tais como: ceroulas, peúgas, camisolas de lã, pensos, ligaduras, etc…(…)” (6).



(visita de Teófilo Braga a Torres Vedras em 1915)

Com o prolongamento da guerra, a imprensa local reflectia nas suas notícias o clima de Guerra  e o seu efeito em termos locais:

- “(…) chegará a haver falta de luz por escassez de óleo combustível? Não, diz-nos o gerente da Sociedade Concessionária [António Augusto Cabral]” (7);

- notícias de torrienses que se deslocaram a Lisboa para se despedirem das tropas expedicionárias que partiram para África (8);

- informação sobre editais publicados pela  Administração do concelho “convocando todos os praças do grupo de bateria de reserva que queiram fazer parte da nova expedição a Angola” para se apresentarem no quartel de artilharia 1, passando –se “guias de passagem para Lisboa” (9);

- noticia de uma comissão do Exército que se  deslocou a Torres Vedras para comprar cavalos: “apenas comprou 5 cavalos, rejeitando os restantes, sendo o melhor cavalo (…) o do sr. António Boto de Carmões” comprado por 350$000 réis (10).

Destacam-se também outras iniciativas que procuravam esclarecer a população sobre o conflito e serviam igualmente de propaganda para divulgar a posição do governo, as chamadas Conferências Patrióticas:

 - na Tuna, em 22 Novembro de 1914. Conferencistas: Agostinho Fortes e Aníbal Lúcio de Azevedo. O tema tratado foi “a situação de Portugal perante o conflito europeu”. Contou com “um numeroso auditório a que não faltaram as senhoras para lhe dar mais realce” (11);

- no Grémio em 30 de Novembro de 1914, uma “Récita patriótica”, cujo produto ”reverterá em benefício da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha” (12).

(A Récita rendeu 170$000, sendo divulgados os nomes e os valores dos contribuintes ao longo de várias edições. Na edição em que encerraram essa divulgação refere o jornal A Voz de Torres que no “próximo número publicaremos os nomes dos germanófilos, dos anti-patriotas que se recusaram a contribuir para tão útil quão humano fim. Assim o querem, assim o tenham” (13)).

- na Tuna em 1 Dezembro 1914 -Conferência Patriótica do “Pró-Pátria”. Conferencista – “Sr. Biker (14).

Um acontecimento com repercussões em termos locais, a Revolta Monárquica de 20 de Outubro de 1914, conhecida como “revolta da àgua pé”, não escapou a esse clima de sobressalto constante e de medo da guerra, como se revela numa passagem da reportagem sobre esse acontecimento:

 “(…) pelo caminho [perto da Coutada] só encontramos de anormal povoações em alarme, gente fugindo pelos pinhais, mulheres lastimando a sua sorte, muitos boatos desencontrados, uns diziam que os alemães tinham desembarcado próximo de Santa Cruz para nos aniquilar, outros gritavam que era tropa do governo que vinha buscar gente para a guerra” (15).

(Imagens da "revolta da àgua pé", na região da Ventosa, concelho de T. Vedras. "Ilustração Portuguesa")


No inicio de 1916 a imprensa local já revelava um maior pessimismo sobre os efeitos da Guerra:

“Assistimos à queda do verdadeiro idealismo, num século que devia iluminar, pela sua perfeição, a História do mundo inteiro, para retrogradarmos aos tempos mais remotos do barbarismo, para presenciarmos a mais cruel obra se selvagismo que fez desencadear um coro de imprecações das cinco partes do globo, e acendem as mais ruins paixões, destruindo, até à base, a própria civilização que os séculos conquistaram.

“Que vais tu ser, 1916, se esta guerra amaldiçoada se prolongar, como vaticinamos, para além de ti, talvez para além, ainda, dos fins de 1917?

“Agravada cada vez mais a carestia e falta de subsistências, desaparecendo gradualmente os géneros de primeira necessidade, suspenso ficará, sobre as nossas cabeças, como a espada de Démocles, o gládio da Fome, cuja lâmina pontiaguda já faz arrepiar os cabelos”.

“Que o Novo Ano nos traga, ao menos, a esperança fagueira de que todas estas calamidades desaparecerão breve, e já nos daremos felizes” (16).

Pouco depois Portugal entrava finalmente no conflito europeu, apesar de já estar envolvido na frente africana desde o início do conflito.

Depois de, em Fevereiro desse ano de 1916 o governo português ter apresado todos os navios alemães e austro-húngaros ancorados na costa portuguesa, a pedido dos ingleses, a Alemanha declarou guerra a Portugal em 9 de Março. Oficialmente Portugal entrava no conflito, embora já combatesse em África desde 1914.


A “Vinha…” realçava a “ serenidade com que o povo português recebeu a declaração de guerra feita a Portugal pela Alemanha, contrasta com o nervosismo daquele poderoso país, em fazer tal declaração”(17).

Uma das primeiras medidas concretas em termos locais para preparar a nova realidade reflecte-se na Ordem de serviço nº 19 de 19 /3/1916 da Sociedade de Instrução Militar Preparatória nº 19 de Torres Vedras:


“Na hora presente, em que pela declaração de guerra com que a Alemanha, essa nação brutal (…) nos honrou, nós portugueses, que nos presamos de ser, não podemos ficar de braços cruzados, esperando algum milagre da padroeira (...).


“Como director da instrução deste núcleo e sociedade, cumpre-me o dever de apelar para vós, homens de amanhã, para que, dedicando toda a vossa atenção e toda a vossa força de vontade à instrução que vos é ministrada, procureis tornar-vos aptos a bem defender a nossa querida Pátria (…).

“Este meu apelo, dirijo-o a todos os homens válidos de Torres Vedras (…).

“Trabalhem, pois, com ardor, no ressurgimento da nossa querida Pátria fazendo por ela todos os sacrifícios necessários(…)”.

      " O Director da Instrução
Jorge Marrecas F. Pimentel, capitão de Infantaria 2" (18).

A partir desse ano a até ao final da guerra, multiplicam-se os actos de apoio à mobilização, que se reflectiam nalgumas das noticias da imprensa local:

- 11/4/1916 - Os habitantes de Torres Vedras tomam conhecimento, por “placards afixados”, da vitória de tropas portuguesas sobre as alemães, em África, “tomando a baía de Kionga” . Na vila “formou-se uma comissão que organizou uma marcha aux-flambeaux. À frente íam as bandeiras de França, Inglaterra e Portugal, fechando o cortejo a Filarmónica Torrense, que executou o Hino Nacional, no meio de frenéticos vivas à Pátria, ao Exército, à República (…) subindo ao ar um sem número de foguetes e reinando grande entusiasmo” (19);

-30/7/1916 – Realizam-se as provas finais  e os concursos desportivos dos “mancebos” da Sociedade de Instrução Militar, com a presença do Ministro da Guerra e da banda de Infantaria nº 2 (20);  

-3/9/1916 – Realiza-se  uma “sessão patriótica” com a presença de membros do governo, deputados e altas patentes militares(21).  

Ponto alto desse clima de mobilização foi a realização, no concelho, de parte das manobras da 1ª Divisão entre 8 e 30 de Outubro de 1916 (sobre essas manobras, ver também AQUI) :

“No dia 8 chegaram a esta vila dois pelotões do primeiro esquadrão de cavalaria 4, dois do segundo com respectivo estado maior, sob comendo do major sr. João Nunes Vilela e uma secção de exploração.

“Às 9 horas chegaram as primeiras patrulhas que tomaram as embocaduras das ruas, indo uma até ao Castelo.

“Depois chegou o resto da força composta de 200 praças, 16 sargentos e 42 oficiais, que seguiu em direcção à praça de touros onde bivacou.

“Infantaria 5 tem estado no Turcifal onde tem feito vários exercícios, assim como tem estado bivacado na Encarnação o regimento de infantaria 1, e outros regimentos em diversas localidades aqui perto, esperando se que aqui cheguem muito em breve.

“Amanhã ou depois deve chegar o quartel general, cujos alojamento para oficiais e secretarias já estão prontos”(22).

Vários locais de Torres Vedras foram ocupados por vários serviços dessa divisão:

- Quartel General : “num prédio da rua Valadim, entre a Avenida e a Praça Nova”;
- Estação central de telefones : “Na sede da Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho”;
- Pagadoria : “num prédio da rua Paiva de Andrada”;
- Correio Militar : “noutro à esquina do Largo de S. Tiago”;
- na Porta da Várzea: “montaram-se os serviços de telegrafia sem fios, parque de automóveis e serviços de saúde”;
- Secção de “camions” : “No prédio do sr. José Pedro Lopes”;
- nos Armazéns das Covas: “os depósitos de provisões”.
- 2 Hospitais de sangue : “No campo de S. João”(23).



(reportagem da "Ilustração Portuguesa" sobre as manobras lideradas por Pereira D'Eça)


“Na vila acham-se aboletados soldados e oficiais em grande número, e foi interessante e pitoresco o aspecto de Torres Vedras, no domingo de mercado, pela grande quantidade de famílias que vieram visitar oficiais e soldados.

“os diversos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia acham-se bivacados em roda de Torres Vedras, pelo que se póde dizer-se [sic] que neste concelho estão concentradas tropas no efectivo de alguns milhares de homens.

“O matadouro municipal desta vila foi tomado militarmente, não sendo ali abatidos senão rezes da administração militar” (24).

Deve-se a Júlio Dantas uma pitoresca descrição  dessas manobras na área do concelho:

“Partimos de Torres Vedras às 10 horas da manhã, num automóvel do Quartel General. A divisão Pereira d’Éça estacionava a norte, dispersa numa extensão de noventa quilómetros quadrados, ao longo de três grandes estradas divergentes. Tomámos pela estrada Torres- Lourinhã-Peniche.

“(…) vinte minutos depois, estávamos em Paio Correia (…) [onde] alastravam as tendas do primeiro bivaque: era o batalhão de infantaria 11. Começava a subir o fumo das cozinhas. Um carro alentejano descarregava pão (…). Bandos de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha branca ao pescoço, vinham de lavar-se no ribeiro. (…).

“Seguimos [até] “A dos Cunhados”, centro de reabastecimento, coalhado de carros de bois e de camions militares (…) num campo à mão esquerda, estendia-se o bivaque do 3º grupo de baterias divisionárias (artilharia 3) (…). Dois soldados, a cara lambuzada de sabão, faziam a barba, à beira da estrada”.

Seguiram depois para o Vimeiro onde estavam “duas formações sanitárias –a ambulância nº 2 e uma coluna de transportes - ; e, mais adiante, num vasto campo, perto das águas lampejantes do Maceira, os dois batalhões de infantaria 1”. Continuaram até Toledo onde “se encontravam acantonados os sapadores mineiros”, continuando na direcção a Cabeça Gorda, voltando a Paio Correia, seguindo para o Amial, perto da onde, “subindo por uma encosta de pinhal, um vasto bivaque de três batalhões, infantaria 16 e 17”, seguindo para o Ramalhal “onde vimos infantaria 5 e metralhadoras”, seguindo pela Ermegeira, Quinta do Visconde, Maxial “onde estacionava o 1º grupo de baterias”, Malpique e Mecejana .

Ao todo dispersavam-se pela região vinte mil homens da divisão Pereira D’Éça.

Chegaram a Torres Vedras à 1 hora da tarde (25).

O clima de guerra em Torres Vedras acentuou-se ao longo de 1917 e 1918 (sobre Torres Vedras em 1917, ver também AQUI):

- 15/2/1917 - Anuncio da abertura em  Torres Vedras de uma sub-comissão da Cruzada das Mulheres Portuguesas, presidida pela “professora oficial srª D. Emília de Castro Garcia”(26);

-25/3/1917 -Promovido “por um grupo de piedosas senhoras” , realizou-se na Igreja de Dois Portos “uma festividade religiosa ao Senhor dos Passos, fazendo votos pela vitória das armas portuguesas”(27);

- 23/4/1917 -  Chegam à vila os alunos da escola de Guerra, para exercícios militares. Faziam parte do contingente que partiu para França em 14 de Maio. (memória anónima manuscrita).

- 5/6/1917 - Uma comissão “de senhoras da Freiria” entregou na redacção de A Vinha…., “12 escudos destinados aos feridos de guerra”, parte do produto de uma quermesse realizada naquele lugar (28);

- 21/2/1918 - “Pedido de Madrinha de Guerra” – “De Inglaterra escreve-nos o soldado Cipriano Jacinto, deste concelho (….) pedindo uma madrinha de guerra(…)” (29);

- 26/4/1918 - O padre Jacinto Pio Sobreiro, prior de S. Pedro, comunica à realiza “solenes exéquias por alma dos nossos soldados mortos no campo de batalha” (30);

A própria imprensa local colabora no esforço de Guerra : “A Vinha de Torres Vedras, no patriótico intuito de fornecer notícias do torrão natal àqueles que em terra de França estão honrando o nome português, tem sido enviado gratuitamente a vários conterrâneos nossos, e sê-lo-á da mesma forma àqueles que requisitarem este jornal” (31).

Contudo o maior reflexo da guerra em termos locais foi em termos económicos, reflectindo-se no preço e na falta de géneros, situação que provocou alguma agitação social (sobre o efeito da chamada "crise de subsistências" no concelho de Torres Vedras, podem ler mais AQUI) .

Logo em 1915 foram tomadas várias medidas institucionais para controlar o preço e o comércio dos géneros de primeira necessidade, com a criação as chamadas “Comissões de Subsistência”:

- Decreto nº 1483 de 6 /4/1915 -  cria uma “Comissão Reguladora dos Preços Alimentícios” em cada concelho do país para elaborar tabelas do preço de venda a público dos géneros alimentícios de primeira necessidade e registar a saída de cereais do concelho para o abastecimento das fábricas de moagem.

- Decreto nº 1900 de 18/9/1915- substitui as “Comissões Reguladoras” por “Comissões de Subsistência” para atenuar “os inevitáveis efeitos da guerra europeia e tomar medidas a fim de obstar a que a elevação dos preços dos géneros de primeira necessidade” fosse “devido a causas menos lícitas”. Serviam para tabelar o preço dos géneros de primeira necessidade e obrigar os “produtores, comerciantes ou detentores de quaisquer géneros de primeira necessidade, que possuindo-os para venda se recusem vendê-los, ou os tiverem em quantidade superior às necessidades da família e da sua exploração agrícola, industrial ou comercial” a “expo-los à venda, sempre que haja procura, sob pena de desobediência qualificada”.

Outra medida foi a criação de Celeiros Municipais:

- Decreto nº 4125 de 22 /4/1918, cria os “Celeiros Municipais” com  o objectivo de auxiliarem a Repartição de Cereais  de Panificação da Direcção Geral de Subsistências, do Ministério das Subsistências e transportes, na aquisição, armazenagem  distribuição pelo país de todo o centeio, milho e trigo das futuras colheitas e das farinhas desses cereais.

Os celeiros eram administrados pelo Presidente do executivo, por um vereador eleito e pelo tesoureiro da fazenda pública.

As câmaras ficam com um grande poder sobre a vida económica dos concelhos.

Em 10 de Julho de 1918 foram requisitados os celeiros de João Ferreira Júnior e de Ângelo Custódio Rodrigues, ambos na Rua Dias Neiva.

Em consequência da grave situação económica provocada pela entrada de Portugal no palco europeu, generalizaram-se os protestos contra a carestia e a falta de géneros.

Em Setembro de 1915 registou-se em Torres Vedras “grande indignação (...) pelo facto (...) de os açambarcadores de géneros não serem incomodados pelas autoridades”.

Entre os finais de Maio e início de Junho de 1916 registaram-se protestos contra a venda de “um novo tipo de pão de trigo e milho misturado e pelo preço idêntico ao do pão de trigo só” motivando várias reuniões que resultaram num acordo os  “industriais de padaria” para “fabricar, além do pão fino, sem limite de preço, um tipo de pão de farinha de trigo por 180 réis o quilo e um tipo de pão de milho, com uma margem de rolão grosso”, por “120 réis o quilo”.

Em 26 de Setembro de 1916 os proprietários das mercearias reuniram-se para protestar “contra as delongas do fornecimento do açúcar” e as dificuldades opostas ao comércio local”.
A chamada  “crise de subsistências” em Torres Vedras no período da 1ª Guerra foi sentido de forma diferente pelos vários actores socias:

A população rural, que vivia basicamente  da produção agrícola, queixava-se principalmente do preço dos meios de produção e das limitações á exportação e comercialização dos seus produtos.

A população urbana, constituída maioritariamente por assalariados ligados às actividades não agrícolas, queixava-se principalmente da subida dos preços dos géneros de primeira necessidade, do açambarcamento dos comerciantes e da má qualidade do pão fabricado.
Por sua vez os comerciantes  queixavam-se do tabelamento dos preços e, no caso dos padeiros, da falta de matéria prima.

Em relação á situação alimentar da população torriense, não se terão registado situações de fome extrema, já que funcionava uma economia de auto-subsistência, pelo menos no meio rural (32).

De qualquer modo, a instabilidade  alimentar facilitou a rápida disseminação da pneumónica em 1918 (sobre o impacto deste acontecimento em Torres Vedras, podem ver mais AQUI), com as consequências trágicas que se conhecem, tendo sido este concelho um dos mais atingidos (33).

A vitória aliada e o fim da guerra foi, assim, bastante festejada, festejos assim referidos pela imprensa local:

-  “ULTIMA HORA
 “A PAZ
“Enfim! Victória!
“Os alemães acabam de assinar o armistício capitulando.
“Em sinal de regozijo uma comissão composta por indivíduos desta vila, pede para que hoje sejam iluminadas as frontarias dos prédios”(34).

- “COMEMORANDO A VICTÓRIA DOS ALIADOS
“Uma comissão composta pelos srs. Jacinto Custódio Rodrigues, José Augusto d’ Almeida Trigueiros, Artur Gouveia d’Almeida, João Fernandes Caldeira e Victor Fonseca, angariaram por meio de subscrição a quantia de 95$65 que tiveram o seguinte destino:
23 famílias contempladas a 3$00     - 69$00
7 esmolas de $50                      -  3$50
Pago ao distribuidor das esmolas      -   $50
Entrega à sopa dos pobres            - 22$65  (…)”
“Torres Vedras, 8 de Novembro de 1918
- “Ex.mo Sr. Júlio Vieira – regozijando-nos muitíssimo com o triunfo dos aliados, e para festejar esta tão desejada vitória, rogamos a V. ex.ª que faça chegar às mãos da ilustre direcção do hospital desta vila, a quantia de 10$00 que junto enviamos (…) – João Antolin e Francisco F. Antolin” (35).

Dessa guerra ficou a memória dos muitos torriense que nela combateram e o nome da Rua 9 de Abril,  atribuído à parte da rua Dias Neiva “compreendida entre a Praça da República e o prédio da Firma Fonseca & Lisboa (…) para perpetuar os actos de heroísmo praticados pelo exercito Portuguez na batalha da França”, em sessão do senado de 28 de Julho de 1919. ( in Actas das Sessões Plenárias [Senado da Câmara] 1914-1950, sessão de 28/7/1919, AMTV).

Também muitos ainda se recordarão de ver desfilar no Dia de Portugal, em Torres Vedras, os velhos combatentes dessa guerra, que viviam no “Asilo” Militar de Runa os seus últimos anos de vida.

Ficam aqui, em traços largos, a memória do que foi o reflexo dessa guerra, ao mesmo tempo distante e próxima, distante das destruições materiais e dos horrores das populações em desespero no centro da Europa, mas próxima pela presença de torrienses nas frentes europeia e africana e pelos reflexos socias e económicos vividos pela população do concelho.
  • (1)    Editorial de A Vinha de Torre. Vedras (VTV) de 78/1914;
  • (2)     “Em Hora de tréguas” in A Voz de Torres (AVT) – 9 /8/1914 (nº1), órgão local do PRP;
  • (3)     “A Guerra e o livre Pensamento” in A AVT – 23 /8/1914;
  • (4)     in VTV 13/8/1914;
  • (5)     in VTV de 8/4/1915;
  • (6)     in AVT de 15 /11/ 1914;
  • (7)     In VTV de 6/8/1914;
  • (8)     in VTV de 10/9/1914;
  • (9)     in VTV de 19/11/1914;
  • (10) in VTV de 21/1/1915;
  • (11) In AVT de 22 e 29/11/1914;
  • (12) In AVT de 29/11/1914;
  • (13) In AVT de 7/2/1915;
  • (14) In AVT de 6/12/1914;
  • (15) Revolta da àgua pé de 20 Outubro 1914, reportagem publicada nas páginas de A Voz de Torres, 1 /11/ 1914;
  • (16) “Novo Ano” (1916) in VTV de 6/1/1916;
  • (17) in VTV de 16/3/1916;
  • (18) In VTV de 30/3/1916;
  • (19) In VTV de 13/4/1916;
  • (20) In VTV de 27/7 e 3/8 de 1916;
  • (21) In VTV 10/8, 31/8 e 7/9 de 1916;
  • (22) in VTV 12/10/1916;
  • (23) In VTV de 9/10/1916;
  • (24) In VTV de 19 /10/ 1916;
  • (25) Júlio Dantas  para o jornal Primeiro de Janeiro, segundo transcrição na VTV de 8 /11/ 1916;
  • (26) In VTV  de 15/2/ 1917 e  7/6/1917;
  • (27) In VTV de 22/3/1917;
  • (28) In VTV de 7/6/1917;
  • (29) In VTV 21/2/1918;
  • (30) Acta da CMTV de 24/4/1918;
  • (31) In VTV de 5/7/1917;
  • (32) Sobre a “questão da subsistências”, baseámo-nos na nossa comunicação “A Questão das “subsistências” em Torres Vedras (1916-1918)” , publicada em “História da Alimentação, Turres Veteras IX, Lisboa Colibri, 2007, pp.181-214;
  • (33) Sobre este tema ler “Torres Vedras e a Pneumónica de 1918”in História da Saúde e da Doença, Turres Veteras XIV, coord. de Carlos Guardado Silva,ed. Colibri/CMTV, Maio 2012, pp..187 a 203;
  • (34) in VTV 7/11/1918;
  • (35) in VTV 14/11/1918.


quarta-feira, 24 de abril de 2019

O fim do Estado Novo e o 25 de Abril de 1974 em Torres Vedras


(Torres Vedras, 26 de Abril de 1974, manifestação de apoio ao MFA - Fotografia de Ezequiel Santos)


SÓ O POVO PODE SALVAR O PAÍS – afirmou o candidato Manuel Fernandes na sessão da C.D.E. em Torres Vedras”.

Era esse o título de primeira página, em grandes letras vermelhas, do jornal “República”, de 9 de Outubro de 1973, acompanhado de uma fotografia que mostrava um sala cheia, referindo-se ao comício da oposição realizado no Teatro-Cine de Torres Vedras, na véspera, à noite.

Decorria a campanha para as eleições da Assembleia Nacional.

Então, ao contrário do que tinha acontecido em 1969, a oposição concorria unida, sob a sigla de CDE (Centro Democrático Eleitoral).

Acrescentava o citado jornal que aquela “foi uma das mais acidentadas reuniões de esclarecimento do eleitorado, devido à presença, no palco, ao lado do representante da P.S.P., do vice-presidente da Câmara Municipal, sr. Vitor Oliveira Santos”.

Também o jornal “Diário de Lisboa”, na edição do mesmo dia, mas em página interior (página 11)  noticiou aquele comício e os respectivos incidentes :

“Logo no início, a autoridade governamental, representada pelo vice-presidente da câmara, capitão Victor Henriques e o tenente Maçarico da secção da PSP de Loures, exigiram que os candidatos se identificassem , insistindo que não seria permitido o uso da palavra a quem não estivesse dentro daquela qualidade”.

A sessão foi presidida por Sara de Oliveira Tomás dos Santos que, antes do inicio da sessão pediu um minuto de silêncio em memória do Governo de Unidade Popular do Chile, derrubado, menos de um mês antes, em 11 de Setembro de 1973, por um golpe militar liderado por Augusto Pinochet.

Gonçalves André foi o primeiro orador, falando da politica sindical, acusando o governo de não seguir as normas da OIT.

Carlos Carvalho foi o orador seguinte, que começou por ler um documento do sector dos metalúrgicos da CDE.

Em seguida, Helena Neves leu o texto de Sottomayor Cardia, presente mas impedido de discursar, pelas razões acima referidas, o que provocou uma primeira intervenção das “autoridades” que tentaram impedir a continuação da sessão.

No palco assistiu-se a uma cena quase caricata em que o vice-presidente tentava fazer baixar o pano de palco e os oposicionistas procuravam impedi-lo, cena que não é descrita na reportagem devido à acção da censura e que levou as autoridades a abandonarem a sessão.

“Acalmados os ânimos”, foi dada a palavra ao candidato Francisco Manuel Fernandes, criticando e denunciando as prisões e perseguições de que estavam a ser vítimas os apoiantes e  candidatos da oposição desde o inicio da campanha eleitoral, seguindo-se mais três intervenções, a de Helena Neves, sobre a situação da educação, a de António Abreu, sobre a situação da juventude e, a encerrar, Gonçalves André leu a intervenção de Blasco Fernandes sobre a situação agrária, encerrando-se o comício às 24 horas.

Ao saírem da sala, os presente depararam-se com a policia de choque perfilada no passeio fronteiro ao Teatro-Cine, mas não se registaram mais incidentes nesse dia. Dias depois o vice-presidente da Câmara, que esteve no centro daquela cena, pediu a demissão do cargo de vereador.

(Comício do CDE no Teatro Cine, 9 de Outubro de 1973. Jornal "República") 

Realizaram-se mais dois comícios da oposição em Torres Vedras, um em 19 de Outubro, que mereceu novamente honra de fotografia de primeira página no jornal “República” de 20 de Outubro.

Esta sessão decorreu sem incidentes, devido à presença de duas equipas de televisão estrangeiras, uma holandesa e outra alemã, sendo esta, segundo aquele diário, “a sessão até agora mais televisionada da campanha eleitoral”.

Aquele jornal estimava a presença de cerca de mil e quinhentas pessoas na sala do Tetro-Cine.

A mesa foi presidida pelo candidato Francisco Manuel Fernandes, que começou por ler duas moções de apoio ao jornal “República”, uma de um “grupo de democratas presentes à sessão” e outra da “Comissão de Metalúrgicos de Torres Vedras”.

Seguiram-se as intervenções de Pedro Coelho, que exigiu uma amnistia “para os presos políticos”, de Manuel Fernandes, sobre a situação da educação, João Sequeira Branco, abordando, entre outras, a situação sindical, e, a encerrar José Manuel Tengarrinha que falou da situação económica.

A presença de televisões estrangeiras foi o factor que permitiu que esta sessão decorresse sem incidentes e quase sem censura, porque era preciso dar uma imagem de normalidade para a Europa.

Foi sol de pouca dura.

No dia 24 de Outubro a oposição decidiu que não existiam condições para concorrer a mais uma farsa eleitoral do Estado Novo, decisão apoiada por figuras como o próprio Sá Carneiro, em entrevista ao jornal “República “ em 26 de Outubro, deputado da “ala liberal” da legislatura anterior, que entretanto se tinha demitido em rota de colisão com o marcelismo.

Nalguns pontos do país, no último dia de campanha, dia 25 de Outubro, como aconteceu em Torres Vedras, registaram-se confrontos com a policia de choque, que impediu a realização de comícios da oposição.

A última sessão pública da CDE em Torres Vedras teve lugar nesse dia 25, num espaço improvisado de uma garagem num prédio em construção, no inicio daquela que veio a ser a Avenida Humberto Delgado, sessão violentamente interrompida quando se começou a ler um texto contra a guerra colonial, gerando fugas apressadas à frente da policia de choque pela rua Henriques Nogueira abaixo.

Para muitos, a campanha de 1973, que marcou em definitivo a falência e o fim da ilusão da “primavera marcelista”, foi o inicio do envolvimento politico na oposição e, no caso de Torres Vedras, foi evidente o crescimento de actividades contra a ditadura, como aconteceu nas reuniões clandestinas de apoiantes do CDE que, até ao 25 de Abril, se realizavam regularmente, aos Sábados, em casa do Francisco Manuel Fernandes, num anexo a dar para a rua 1º de Dezembro, nas traseiras da farmácia “Torreense”.

Nessas reuniões conheciam-se e discutiam-se as notícias do país e do mundo que não chegavam à opinião pública devido à acção da censura, mas que se tentava divulgar junto da população,  em folhetos impressos em setencil, distribuídos clandestinamente nas escolas, nas ruas e nas empresas.

Dessas reuniões saíram também as nomeações para a formação de núcleos estudantis para dinamizarem as actividades da oposição no Liceu e na Escola Técnica, sendo a primeira vez que tal aconteceu naquelas escolas torrienses.

Além da acção clandestina do núcleo local da CDE, deu-se um crescimento da actividade associativa que tentava romper com a censura e apresentar novas perspectivas culturais que “agitassem” o marasmo dominante, como aconteceu no rejuvenescido Cineclube ou no Clube Artístico e Comercial.

António Augusto Sales  traçava um retrato do concelho em 1973:

“TORRES VEDRAS: 15000 habitantes na vila e 60 000 no concelho (...) 412 km de rede de comunicações; 68 000 000 de litros de produção vinícola, 10 000 000 kg de trigo, 14 000 000 kg de batata; um comércio poderoso e uma indústria em desenvolvimento; [a Casa Hipólito empregava então 1028 pessoas] 4000 alunos diariamente nas escolas da vila”.

Estes eram alguns dos índices que caracterizavam a então vila de Torres Vedras, uma comunidade a quem faltava “o golpe de asa que torna perenes ou inesquecíveis as iniciativas. Aquele tipo de vontade colectiva que ergueu uma Colónia Balnear Infantil, uma Física, um Cineclube e que, ainda hoje, realiza um Carnaval. O que acontece para lá da rotina é fruto de vontades isoladas e surge como sucesso do acaso. A carcaça está vazia de humanismo e de interioridade. Onde está o rasgo, a lucidez, a alegria, a juventude que transforma as pequenas coisas oferecendo-lhe um significado social duradoiro? Onde está o futuro e que futuro?” interrogava-se, António Augusto Sales, sobre Torres Vedras, uma terra para quem “até os jovens abdicam à nascença” (1).

No início de 1974, eram mais as duvidas que as certezas, perante a evidente derrocada da chamada primavera marcelista, o arrastar, sem soluções, da guerra ultramarina, e o ainda quente e frustrante processo eleitoral de 1973.

Num ano marcado pela crise económica, evidente nas restrições impostas ao uso da gasolina e no seu aumento de preço, notava-se um crescente mal-estar na sociedade portuguesa. Nem a censura conseguia disfarçar a falência do regime.

O debate sobre o IV Plano de Fomento, para vigorar de 1974 a 1979, permitia alguma intervenção crítica que deixava passar algum descontentamento sobre a realidade torriense.

O Dr. Afonso de Moura Guedes, num arti­go intitulado “Torres Vedras - o desenvolvimento que não se fez” (2), interrogava-se porque razão tinha sido o desenvolvimento de Torres Vedras marginalizado naque­le Plano, e concluía:

“Administrar, aos tem­pos que correm, exige lar­gueza de perspectivas, imagi­nação, capacidade criadora, ia a dizer audácia(…).

“Em relação ao nosso meio local, creio que, tudo isso, teria exigido a realiza­ção prioritária de três polí­ticas globais: uma política urbanística e de solos; uma politica rodoviária; uma política industrial.

“Uma politica urbanísti­ca e de solos que, corajosa­mente, pusesse cobro ao que há de sufocante e de caótico no desordenado crescimento da vila e a essa vergonhosa especulação de terrenos, que aqui ocorre, sacrificando toda a população ao proveito de muito poucos.

“Uma política rodoviária que estabelecendo toda uma rede efectiva de ligações, no espaço inter-regional, permitisse uma cómoda e rápida circulação interna, de pessoas e de mercadorias, assegurando, deste modo, a Torres Vedras, a posição, a que tem direito, de pólo de desenvolvimento do Oeste.

“Uma política industrial que, começando por definir uma zona industrial, soubesse ordenar, depois, toda a estratégia conjugada de acções, susceptíveis de criarem condições favoráveis à implantação de novas indústrias, no nosso meio(…).

“Pois foi isso tudo o que não se fez, conto reflecte o Plano de Fomento. O desenvolvimento que não se fez. Que não se soube construir como projecto de futuro. O comboio que mais uma vez se perdeu”.

Logo no inicio de 1974 um novo acontecimento fez regressar a Torres Vedras a policia de choque e um vasto aparato policial, raro por estas bandas, mesmo nos tempos áureos da decadente ditadura.

O motivo do aparato policial, desta vez junto ao cemitério de S. João, foi a romagem à campa do antifascista, tarrafalista e militante comunista, natu­ral de Paul, Fernando Vicen­te, que se realizou em 20 de Janeiro de 1974.

Surpreendentemente, o convite para que o povo de Torres Vedras participasse nessa Homenagem foi pu­blicado nas páginas do jornal “Badaladas”:

“Ali, entre ciprestes, pe­las 11 horas do dia 20 de Janeiro, num minuto de re­colhimento, a vida não pa­recerá aquele vazio do quo­tidiano, sem ideais, apenas virada para a materialida­de da exixtência.

“Fernando Vicente mere­ce a simples homenagem póstuma que lhe vai ser tri­butada” (3).

Foram alguns os torrienses com coragem para com­parecer, mesmo assim menos que os “pides” e polícias de choque, presentes por “razões” diferentes.



Também as escolas se­cundárias do concelho co­nheciam pela primeira vez al­guma agitação através da distribuição clandestina de propaganda política e de pichagens nas paredes com frases contra a guerra e contra a ditadura, motivando interrogatórios a alunos e professores “suspeitos” e a intervenção de elementos da PIDE na vida escolar. Terá mesmo sido elaborada uma lista para efectuar prisões em 1 de Maio, o que só não aconteceu graças ao 25 de Abril.

Nas páginas do “Badaladas” eram cada vez mais frequentes os textos que, utilizando a necessária subtileza para escapar à censura, iam revelando os “podres” do regime:

“Espectador (não comparsa) das Ténues mudanças que se vão operando nesta terra parada no tempo, sobretudo no campo ainda inexplorado do sócio-político (nota que deixo de lado o económico) olho à minha volta num desencanto quase doentio. A manta de retalhos que é Torres Vedras moderna vai crescendo caoticamente sem rei nem roque, desenquadrada dum plano de urbanização inexistente. Creio que já te disse por outras palavras esta mesmíssima coisa.

“A cegueira dos homens, os interesses de alguns grupos, a tenacidade doentia e repetida de certos nomes que hão-de passar à história local como os coveiros de uma terra que merecia melhor sorte, cheira-se, apalpa-se, sente-se no ar que se respira, discute-se em surdina às mesas dos cafés” (4) .

Nomes como Venerando Ferreira de Matos, o autor das palavras acima transcritas, mas também um João Carlos, um António Augusto Sales, um Andrade Santos, os irmãos Afonso e  Ruy de Moura Guedes, os irmãos António e Mário de Sousa Dias, um António Leal d’ Ascensão, um Victor Cesário da Fonseca e mais alguns (poucos) outros,  sempre incentivados pelo Padre Joaquim Maria de Sousa, director e fundador do “Badaladas”, estavam cada vez menos solitários nesse ano de 1974 no uso dessa arma que era a escrita, para enfrentarem o regime.

Chegados ao mês de Março, o Dr. António de Sousa Dias transcrevia para as páginas do “Badaladas” algumas linhas do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”, grande tema de discussão nesses últimos meses de vida do velho regime, livro cuja edição mereceu, uma montra especial na Galeria 70, livraria dirigida por Cristina e Armando Pedro Lopes, local muito frequentada por oposicionistas e onde se realizavam regularmente colóquios, exposições e outras actividades de cariz cultural, sendo por isso regularmente “visitada” pela PIDE, que se refere a esse espaço em vários relatórios internos .



Nesse ambiente, foi sem grandes surpresas que, numa reunião clandestina do núcleo local do CDE, realizada em casa do Francisco Manuel Fernandes, alguns jovens oposicionistas tomaram conhecimento e acompanharam os acontecimentos do falhado golpe militar das Caldas da Rainha, nesse sábado 16 de Março.

Para quem estivesse atento ao que se passava à sua volta era evidente, a partir daí, que o derrube do Estado Novo era uma questão de  tempo.

Na noite de 24 de Abril, alguns foram para casa tardiamente, depois de assistirem a mais uma sessão do cineclube no Teatro-Cine, o filme de Jerry Lewis “O morto era outro”, longe de imaginarem o que se preparava para essa madrugada.

Muitos foram acordados por amigos e familiares que, ao levantarem-se para mais um dia de trabalho, ouviram as primeiras notícias do golpe militar nos aparelhos de rádio.

Outros só souberam o que se passava quando chegaram à escola ou ao local de trabalho.

(1ª Página do "Badaladas" publicado sem censura)

O dia foi longo, seguindo-se avidamente as notícias pela rádio, comprando as primeiras edições especiais dos jornais que íam chegando, ao mesmo tempo que iam correndo muitos boatos sobre a origem da acção militar.

A televisão só iniciou a sua emissão pelas sete horas da tarde.

Em Torres Vedras, nessa noite, realizou-se um primeiro comício no Largo da Graça, promovido pelo MDP-CDE, onde ainda se manifestava algum receio sobre o desfecho do movimento militar.

“Quando olho o longo caminho percorrido cheio de ásperos revezes, perseguições e mediocridades, quando, subindo ali ao Forte, te contemplo crescendo em todos os sentidos caoticamente envolta pelo desprezado Sizandro; quando imagino o que és e o que poderias ter sido, eu me entristeço, Torres Vedras.

“Vila verde, pintada a esperança pelos vinhedos, doirada pelo recorte ímpar da tuas penedias bravias em Santa Cruz; retalhada impiedosamente pelos crimes do mau urbanismo imposto por certos conhecidos pimpões ultramontanos, quase te desconheço Torres Vedras.

“Vila cansada por anos  e anos de paz podre, das divisões estéreis às mesas dos cafés, onde raramente qualquer pedra agitava a calma estagnação dos teus sonhos adormecidos, pálida vila estremenha onde através da inoperância de um arranjismo organizado ias crescendo angustiada sob um colete de forças tecido de mentiras, ameaças e subornos, Torres Vedras.

“Hoje és livre!

“À tua frente abre-se luminoso mas cheio de dificuldades, o Caminho do Futuro que só o teu povo unido, sem privilégios, sem castas de qualquer espécie, sem constrangimentos de qualquer ordem cumpre edificar.

“Terás de escolher entre os melhores ( e não entre os eternos “terratenentes”), entre os de mãos limpas e incorruptos, os teus futuros dirigentes.

“Dezoito freguesias de nível económico baixíssimo não têm estradas, nem água canalizada, nem instalações escolares adequadas, nem lares para estudantes, nem jardins-infantis, nem árvores sequer, nem turismo ou infraestruturas” que o valham.

“Quantos milhares de contos delapidados em projectos sumptuosos de fachada que o teu povo simples, paciente, humilde, arroteando de sol a sol a gleba, pagou ao longo de tantos anos improdutivos do passado? Quantos, Torres Vedras?

“Mas agora és livre TORRES VEDRAS” (5).

A grande manifestação de alegria e de apoio aos militares teve lugar na tarde de 26 de Abril, com um grande desfile que percorreu as ruas de Torres Vedras, tendo muitos nessa noite ido para Peniche assistir à libertação dos presos  políticos , que só se concretizou na madrugada do dia 27.

“Em 26 de Abril quando ali na Avenida 5 de Outubro o Povo bom e simples de Torres Vedras dava largas à sua alegria verificou-se a sua maturidade, devoção e patriotismo.

“Maturidade que sempre foi negada por aqueles que nem sempre serviram com dignidade os seus postos. Antes pelo contrário deles se servindo para os seus interesses pessoais.

“Nem um vidro foi partido, nem um individuo foi maltratado, nem um único incidente se assinalou.

“Afinal o poder não caiu na rua!

“Vamos pois, agora, torrienses passada a onda de júbilo emocional que a todos nos avassalou assumir a nossa responsabilidade de homens autenticamente livres, na dignidade e na responsabilidade, esquecendo rancores, mas denunciando quanto possa contrariar a irreversível marcha da revolução do Movimento das Forças Armadas.

“Vamos viver finalmente com os olhos postos nos nossos filhos que são o teu próprio futuro – TORRES VEDRAS” (6). 


(Manifestação de 26 de Abril. Fotografias  de Ezequiel Santos)


Em 27 de Abril, três dos presos libertados foram recebidos em festa no Largo da Graça. Nesse mesmo dia uma força do MFA veio a Torres Vedras para ocupar as instalações da Legião Portuguesa, no edifício onde veio a funcionar a Creche do Povo (ao lado do Teatro-Cine), prender o “chefe” local da PIDE e desarmar a GNR.


(Fotografias da libertação dos presos politicos de Peniche tiradas pelo fotógrafo torriense Ezquiel Santos na madrugada do dia 27 de Abril de 1974)


A 28 de Abril, na sala do CAC, reunia-se a Comissão Concelhia da CDE, inician­do-se aí a transferência do poder concelhio para as for­ças democráticas, da qual saiu uma primeira comissão, composta por 49 cidadãos, para preparar essa mudança política e um manifesto ao povo de Tones Vedras, onde eram abordadas algumas das situações mais gravosas para o concelho, herdadas do regi­me deposto:

“Os graves problemas sempre adiados e jamais re­solvidos, como os da electri­ficação, distribuição de água canalizada, abertura de caminhos e estradas nas aldeias e aglomerados do Concelho, ou de um plano de urbanização jamais pos­to em execução, jamais cumprido, com relevância para o tráfico de imóveis feito por uns tantos que sempre se serviram das Câ­maras Municipais no seu directo interesse pessoal, o acumular de desonestas ri­quezas pela valorização ar­tificial de terrenos (por exemplo os de Santa Cruz), pelas “prioridades” dadas ao asfaltamento de estradas e ruas onde os apaniguados do regime tinham as suas moradias e interesses parti­culares em detrimento dos interesses colectivos; (...) a poluição do Sizandro lesiva do interesse das populações, com relevância para as de Runa, em que certas empresas particulares têm graves responsabilidades de conivência com organismos “ainda” oficiais;(...)” (7) .


(Documentos saidos da reunião no CAC de 28 de Abril. Arquivo do autor)

O 1º de Maio foi outro momento de apoio popular ao Movimento das Forças Armadas, desfilando os torrienses pelas ruas da vila e concentrando-se frente à antiga sede da Física (no actual edifício da Câmara Municipal) e onde tomara a palavra, na varanda superior desse edifício “Venerando de Matos, Raimundo Portas, um membro do Partido Comunista libertado recentemente, Dr. Afonso de Moura Guedes, um representante de um grupo de trabalhadores comunistas, Dr. Rui de Moura Guedes, um representante dos professores, João Carlos, um representante Sindical, um representante trabalhadores, um representante de jovens estudantes, um soldado das Forças Armadas, um representante de senhoras torrienses e por último Francisco Manuel Fernandes membro do CDE e ex-candidato a deputado pela oposição nas últimas eleições (…)” (8).






(Manifestação do 1º de Maio de 1974 em Torres Vedras. Fotografias de Ezequiel Santos)

Entretanto a comissão concelhia, saída da reunião de 28 de Abril tinha a incumbência de organizar uma assembleia popular para nomear uma comissão provisória que dirigisse os destinos do concelho até uma futura e previsível eleição democrática, assembleia que teve lugar no dia 12 de Maio de 1974 no Estádio do Torreense, na presença de cerca de duas mil pessoas.
(convocatória para a assembleia popular de 12 de Maio. Arquivo do autor)

Tomaram a palavra nesse plenário Francisco Manuel Fernandes, António Leal da Ascensão, João Capão, José Manuel Gomes de Almeida, Sara de Oliveira e José Amado, abrindo-se depois a possibilidade de usarem da palavra outras pessoas da assembleia que o quisessem, falando então Venerando Ferreira de Matos, Orlando Guerra, Joaquim Augusto da Silva, Andrade Santos, entre outros.

Como referimos acima, um dos objectivos dessa assembleia foi a aprovação de uma comissão provisória para dirigir o município, sendo na ocasião posta “à votação um por um, todos os dezoito membros nomeados pela C.D.E. para tomarem parte na gerência provisória da Câmara Municipal”.

Os nomes aprovados foram:

António Leal da Ascensão, Artur dos Reis, Francisco Manuel Fernandes, José do Nascimento Veloso, José Sérgio Júnior, Manuel Carlos da Silva Penetra, Engº Orlando Godinho, Regina Fernandes, Victor Agostinho, Marcos dos Santos Ferreira, João Carlos, Joaquim Aurélio Ferreira, Carlos Augusto Bernardes, Duarte Nuno Clímaco Pinto, Maria Adelaide dos Santos Pereira, dr. António de Sousa Dias, António César Rodrigues e António Ferreira de Castro (9).

Dois dias depois, 3ª feira 14 de Maio, com a presença de um delegado da Junta de Salvação Nacional, capitão Vítor Manuel Ribeiro, teve lugar, na sede local do CDE, ocupada em 26 de Abril e localizada na antiga sede da ANP, a constituição da comissão administrativa municipal que substituiu oficialmente a ultima  Câmara nomeada pelo Estado Novo.

Nessa mesma sessão, por sugestão do delegado da JSN, a  comissão de 18 membros foi reduzida para 9 elementos que ficaram a constituir o elenco da Comis­são Administrativa Munici­pal, sendo eleito para a presi­dir Francisco Manuel Fernandes, coadjuvado por António Leal d’Ascensão, Jo­ão Carlos, José do Nascimen­to Veloso, Duarte Nuno Pinto, Manuel Carlos Penetra, José Sérgio Júnior, Marcos Santos Bernardes e Carlos Augusto Bernardes. Esta comissão ad­ministrativa tomou posse do seu cargo em 15 de Maio no Governo Civil de Lisboa e reuniu oficialmente pela pri­meira vez em 20 de Maio.
(reprodução de uma fotografia publicada no "Badaladas" da 1ª reunião da Comissão administrativa, fotografia do Salão Fotográfico)

A transição do poder concelhio não foi isenta de conflitos e situações caricatas.

Logo a 29 de Abril, o executivo camarário da ditadura, ainda em funções nessa data, reuniu-se e apro­vou, numa manobra de puro oportunismo político, uma moção de adesão ao progra­ma da Junta de Salvação Na­cional, atitude logo aí denun­ciada por vários torrienses que assistiam a tão caricata reunião.

Nessa reunião digladiaram-se duas “facções”, a do presidente em exercício à data do 25 de Abril (Joaquim Pedro Belchior Fernandes), e outra liderada por vereadores que tinham vindo da “SEDES” local (ou como tal autodesignados), tendo à cabeça o vereador José de Oliveira Guia.

O presidente, sem consultar a restante vereação, tomou a iniciativa de contactar “com o seu superior hierárquico – Governador Civil em exercício- tendo recebido deste a confirmação de que deveria continuar no exercício das suas funções, assegurando o regular funcionamento da Administração Local”.

A “facção” liderada pelo Engº. Guia defendia “uma deslocação conjunta da vereação e Presidência, a fim de estabelecerem contacto directo com a Junta de Salvação Nacional. Objectivo: colocar os seus lugares à inteira disposição da Junta, já que nenhum de nós, vereadores, sentia e sente que o mandato em que estamos investidos tenha sido conferido pela via democrática que inspira o programa do Movimento das Forças Armadas”.

Face a essa situação, decidiu-se nessa mesma reunião pela manutenção da Câmara “enquanto não for assegurado, por via legal a instauração de uma verdadeira disciplina democrática na Administração Municipal:- a começar pela eleição do presidente e da vereação por sufrágio directo dos munícipes” (10).

Este estratagema foi, contudo, como vimos, ultrapassado pelos acontecimentos, reunindo essa vereação uma última vez em 13 de Maio, para tratar de assuntos correntes.

No dia seguinte era escolhido o elenco da nova comissão administrativa e a defesa da “honra” da vereação deposta coube então à “facção Guia” nas páginas do “Badaladas”, num conjunto de  artigos “assinados”  irónicamente como  “ex-vereação “fascista””, publicados no jornal “Badaladas”.

“(…) assistiu,  impávido, o concelho de Torres Vedras, ao espectáculo , no mais puro estilo “demo-cala-te” –da “eleição” e posse (?) da Comissão Administrativa que passará a gerir os negócios do concelho até à eleição da nova Câmara Municipal. Realmente malvado regime de opressão que, em 50 anos, reduziu a rebanho até os verdadeiros republicanos e democratas!

“Entre  domingo e terça-feira, “democraticamente”: meus filhos: quer queiram, quer não, têm de vestir voluntariamente estes fatos….

 “Bom! E agora não me venham para cá com o fado do reacionário. Não agitem espantalhos, usando os mesmos truques da “velha senhora”. Jogo limpo: em intenções e em actos!”.

E rematava, em tom de ameaça:

“Contra totalitarismos terão a reacção – e a acção! dos verdadeiros democratas deste concelho” (11).

Esses artigos vieram a desencadear uma animada e viva polémica nas páginas daquele jornal.

Venerando Ferreira de Matos é o primeiro a reagir nas páginas do semanário torriense:

“A ex-câmara fascista vem à carga no último número do “Badaladas”.

“E fala de…democracia.

“Não esqueçamos que já Salazar, quando os aliados derrotaram o nazi-fascismo também mudou o rótulo: o corporativismo passou a chamar-se “democracia orgânica”.

“Não esqueçamos que também Marcelo aboliu a “Censura” para chamar-lhe “Exame Prévio”; a União Nacional para ANP; a PIDE para DGS.

“Não esqueçamos que, por vezes, a memória é fraca…Mas nem sempre.

“Catarina Eufémia foi assassinada há 20 anos. Hoje continua no pensamento de todos os anti-fascistas.

“O General Humberto Delgado foi assassinado e continua no espírito de todos os anti-fascistas.

“Há ainda muitos crimes cometidos por aqueles que hoje, virando a casaca, dizem ser democratas.

“Atenção pois.

“Hoje os tais que servilmente serviram e se serviram da “situação” dizem ter estado contra…ELES.

“Hoje são os mais democratas, os mais…humanos. Eles é que nos defendem “de cara aberta e mãos lavadas”. E vão continuar a  defender-nos.

“”Contra totalitarismos (?) terão sempre a “reacção” – e a ACÇÃO-dos verdadeiros “democratas deste concelho” – afirmam” (12).

A resposta d’ “A Ex-Vereação “Fascista””, não tardou numa “Carta aberta ao Sr. Venerando de Matos” publicada no “Badaladas” de 8 de Junho de 1974.

“Já de há muito tempo que a ex-vereação “fascista” – antes de vereação e antes de ex – vinha apreciando os seus notáveis escritos neste jornal. Síntese, concisão, sarcasmo, exploração sistemática das entrelinhas conferem ao seu estilo a vivacidade, o tónus que prende o leitor, estimulando a sua imaginação e deliciando o que em toda a gente existe de espírito crítico pela via da mordacidade.

“Espantosamente – para desilusão de certas eminências que vêem fantasmas no fumo de um cigarro- o senhor, sem quebra de uma acerada tradição crítica, sempre manteve em relação a nós uma atitude moderada mesmo quando, algumas vezes com toda a razão, apontou ou denunciou deficiências ou situações de injustiça. Foi uma critica que para nós se revelou, não obstante mordaz, quase sempre construtiva, e que nos serviu, várias vezes, para aferirmos da razão da nossa própria luta.

“Eis senão quando, depois de 25 de Abril, se crispa a pena e enfurece o génio: do verbo exacto se desprende o ódio; da palavra ardente negra nasce a raiva. Até o equilíbrio, até a prudência calculada se enovela em espuma de estranho ruminar.

“Quem o viu e ouviu numa reunião com elementos da Sedes e outras da “ala liberal” da A.N.P., ainda não há três anos, mal pode agora conceber, velado embora (como é seu estilo), o ataque que nos faz – ainda por cima embarcando na demagogia medíocre de chamar fascista a quem ainda ontem se sentava na mesma mesa com o senhor para repensar Torres Vedras. A nossa confusão, contudo, não será tão grande como aquela que o senhor confessava, sobre os dados da politica da altura – donde decorria a sua posição indefinida…Se outros méritos não tivera, o 25 de Abril possibilitou, pelo menos ao senhor, a definição de uma posição politica! – O que não é nada pouco, não concorda?”.

Na edição seguinte do “Badaladas”, de 15 de Junho de 1974,  Venerando Ferreira de Matos publica uma “Resposta a uma carta…viciada”, onde, para além de analisar criticamente o conteúdo dos artigos da vereação deposta, publicados sob o título de “Os actos incómodos e as actas malditas”, respondia às insinuações da carta aberta acima referida:

 “As reuniões da “Sedes” e de outras da “ala liberal da A.N.P.” foram as reuniões feitas no Clube Artístico e Comercial como jornadas de esclarecimento dos liberais da A.N.P. Dr. Sá Carneiro e Miller Guerra.

“A elas, como eu, assistiram centenas de torrienses ávidos de ouvir quem teve a coragem na Assembleia Nacional (fascista) de denunciar os atropelos dum governo corrupto e desonesto.

“Porém, a grande diferença entre os citados “liberais” e os de Torres Vedras é que aqueles se demitiram antes do 25 de Abril…

“Quanto aos que “ainda ontem se sentavam na mesma mesa”, esclareço: fui convidado pelo meu amigo João Carlos para com outros munícipes de Torres Vedras debater a sua problemática numa “mesa redonda” na redacção do “Badaladas”. Naturalmente assistiram indivíduos de todas as colorações: desde os sem filiação partidária (meu caso) até possíveis M.R.P.P. E fui.

“Sentei-me ao lado de toda a gente sem complexos. Sim. Porque há coisas que não se “pagam”, mesmo sentados numa mesa. Ao fim de três anos tal prova está feita: não fiquei infectado como os próprios ANPistas confirmam. E ainda bem.

“Resta perguntar:

“Quando se tentou publicar no “Badaladas”, para que o povo de Torres Vedras tomasse conhecimento das conclusões dessa “mesa redonda” porque razão é que os “liberais” da ANP local não protestaram junto da Comissão de Censura contra a proibição de tal publicação?

“Mistério, certamente”.

Sobre a acusação de ter tido uma “posição indefinida”, respondeu:

“Caramba!

“Como é que se põe isto em letra de forma, como quem bebe um capilé ou se arrota depois de ter comido uma posta de pescada?

“Há pessoas que ou são ingénuas ou deliberadamente inconscientes.

“No longo sudário que foi esta nossa noite de meio século, que a Censura à imprensa, a ex-PIDE-DGS, Legião Portuguesa, Câmaras fascistas, Uniões Nacionais, ANP’s, etc, nos obrigaram a viver, teremos ainda de aturar pequenos arrivistas depois do 25 de Abril, desesperados por terem embarcado no barco que naufragou?

“Agarram-se desesperadamente a tudo incluindo à falsidade de informação, à meia-verdade que é pior que mentir, para tentar abocanhar os que pelos mais variados processos resistiram sempre a todos os convites de colaboração como eles o não fizeram?

“Terei por acaso – e milhares de outros homens do meu país- de ser sujeito a mais um julgamento por aqueles que afinal estão na origem de todos os nossos males?

“Que culpa temos nós que certos camaristas de pacotilha tivessem embarcado no navio errado?

“Valha-nos Santa Engrácia.

“Que entendem os ex-vereadores por posição indefinida?

“Quando ao longo dos anos se luta através da palavra escrita (ESCREVER É UMA DAS FORMAS DE LUTA MAIS CONSEQUENTE) e se imprime aos textos uma directriz PROGRESSISTAS E ANTI-FASCISTA pode, conscientemente, falar-se de posições indefinidas?

“Quando se desmistifica a sociedade reacionária em que se vive, se iniciam e se colabora em campanhas, apontando o crime de acumulação de riquezas à custa do tráfego de influências e das situações privilegiadas dos senhores do regime dos donos desta quinta que se chama Portugal” (República, 8-6-74) quando se comentam e se transcrevem textos de Neruda, Manuel Alegre, Namora, Siqueiras, Picasso, Joaquim Namora, Aragon, Soeiro Pereira Gomes, Miguel Torga, etc.,etc., etc., ao longo de anos e anos, sem desfalecimento, em múltiplas secções criadas no “Badaladas” e noutros jornais, será isso tomar decisões indefinidas ?

“Onde é que está a dignidade de quem tal insinua?”.

Recordou depois algumas polémica em que se envolveu ao longo dos anos nas páginas do “Badaladas”, ou as campanhas em defesa da renovação da Biblioteca e em prol da defesa da transformação da Liceu Municipal em Liceu Nacional, esta última alvo de um debate que provocou a reacção de desagrado de um vereador de então e a atenção especial da PIDE, assim como a sua acção no Pelouro Cultural da Física que “levou o então secretário da Câmara Lalande a fazer um inquérito à minha actividade e à do Andrade Santos”.

E concluíu:

“Isto senhores é uma síntese incompleta de doze anos das minhas…actividades “indefinidas”, da luta que travei através da palavra escrita em prol duma Cultura torriense progressista e anti-fascista, mutilada embora pela férrea censura e pela auto-censura, pois só se podia dizer o que se sentia através de imagens e , sobretudo, pela exploração sistemática das entrelinhas de que agora os meus jovens contraditores me acusam.

“Mas eu pergunto: a quem cabe a culpa? A quem cabe a culpa da minha maneira mordaz de escrever, as entrelinhas, as raivas incontidas, a pena acerada e sarcástica?

“Ouvi há dias este desabafo de um jornalista profissional : “Temos de reaprender a escrever”.

“Que parte de culpa Vos cabe também, se trouxestes o “S” no cinto voluntária ou obrigatoriamente?

“Que parte de culpa vos cabe na monstruosa mistificação imposta às ideais pelo tenebroso lápis da Censura?

“Mas responder a escrever como? Se todas as nossas células cerebrais, tal como o tronco retorcido de uma árvore à frente da qual se ergueu um muro, estão ancilosadas, deformadas pela ginástica que a nós próprios impusemos para que os nossos escritos pudessem ser lidos por uma população despolitizada, numa autêntica guerrilha de pensamento, espreitada constantemente pela ameaça da ex-Pide-DGS, cujos “safanões a tempo” senti na própria carne?

“Querem um rótulo para a minha posição politica?

“Ei-lo:

“DEMOCRATA ANTI-FASCISTA, livre portanto de tomar as opções que muito bem quiser – e que tomarei sem duvida- “quando”, “onde” e “como” entender.

“Serve, Senhores neo-“democratas”?”.

A “ex-veração “fascistas”” ainda voltou à carga noutra edição do semanário com uma “Carta re-aberta ao Sr. Venerando de Matos A.”, no  “Badaladas” de 22 de Junho de 1974, no mesmo tom da primeira “carta”, sem merecer, desta vez, qualquer resposta do visado.

Foi António Augusto Sales que encerrou a “polémica”:

“Quem na devida altura não teve, pelo menos, a co­ragem de dizer NÃO, per­deu a oportunidade. Isto é, quem, na ex-vereação não teve a coragem de se demi­tir depois de verificar a im­possibilidade de fazer um trabalho equilibrado per­deu a oportunidade de se descomprometer com as irregularidades e arbitrarie­dades (...) É preciso que to­dos nos convençamos que Portugal mudou mesmo. É preciso que não nos deixe­mos iludir com histórias da carochinha. Durante qua­renta e oito anos muita gen­te passou fome porque não quis colaborar; muita gente perdeu anos de vida nas ca­deias porque não quis cola­borar; muita gente viveu uma existência de sobres­salto porque não quis cola­borar; muita gente perdeu empregos, família, glórias, dinheiro, comodidade, sos­sego e liberdade apenas porque se negou a colabo­rar. Hoje, no segundo mês da libertação, não podemos permitir que sejam confun­didos estes com os outros. Seria criminoso.” (13) .

Durante cerca de dois anos viveu-se num clima de instabilidade politica, ao mesmo tempo que se fazia a descoberta da democracia e da liberdade, entre tentativas de golpes e contragolpes, de manifestações de rua e comícios mais ou menos pacíficos, mais ou menos agitados ou ameaças do regresso de novas ditaduras ou de uma guerra civil.

A maturidade e a tolerância acabaram por vingar e, com mais ou menos tropeções, a democracia foi-se consolidando, até aos nossos dias.

No dia 25 de Abril de 1975 foi eleita a Assembleia Constituinte e em 1976 foram eleitos  Assembleia Legislativa, Presidente da República e Câmaras Municipais.

Cumpria-se assim o desejo formulado por um dos torrienses mais activos na luta pela democracia e pela liberdade:

Cumpria-se assim o desejo formulado por um dos torrienses mais activos na luta pela democracia e pela liberdade:

 “Depois da euforia dos cravos vermelhos, de reuniões contínuas e esclarecedoras, urge que se faça o ponto da situação. O trabalho espera-nos. Vamos a ele!(…).

“À inflação da palavra terá de suceder o estudo dos problemas e a respecti­va solução às realidades que nos cercam.

“Longas milhas come­çam com o primeiro passo — diz um ditado chinês.

“Pois os primeiros passos estão a ser dados com fir­meza e as longas milhas se­rão vencidas através do Tempo, sem o qual nada de duradoiro se pode fazer.” (14).

Começava então uma nova etapa na história torriense e do país.
 (1)   - SALES, António Au­gusto — “Das muitas é vari­adas leituras que alguns acontecimentos de 1973 po­dem oferecer (...)”, In BA­DALADAS de 16 de Março de 1974;
(2)   -  MOURA GUEDES, Dr. Afonso de — “Torres Vedras — o desenvolvimen­to que não se fez”, in BA­DALADAS de 26 de Janeiro de 1974;
(3)   - “Romagem à campa de Fernando Vicente-Convite”, in BADALADAS de 19 de Janeiro de 1974;
(4)   – MATOS, Venerando Ferreira de , “Cartas a um amigo de longe… - XVI”, in  “Badaladas” de 19 de Janeiro de 1974;
(5)   - MATOS, Venerando Ferreira de — “Torres Vedras e o Futuro”, in BADALADAS de 4 de Maio de 1974;
(6)   -  MATOS, Venerando Ferreira de — “Torres Vedras e o Futuro”, in BADALADAS de 4 de Maio de 1974;
(7)   - “Manifesto ao Povo do Concelho de Torres Vedras” pela “Comissão Concelhia do C.D.E de Torres Vedras”, Abril de 1974;
(8)   - CARLOS, João, “Dia 1º de Maio – Festa do Trabalho”, reportagem publicada nas páginas do Jornal “Badaladas” de 11 de Maio de 1974;(9)   -  “Democratas de Torres Vedras aprovaram a nomeação de uma comissão para a gerência da Câmara”, in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;
(10)- Acta da reunião camarária de 6 de Maio de 1974, in “Voz do Município”, “Badaladas” de 25 de Maio de 1974;(11) -  in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;
(12)– MATOS, Venerando Ferreira de, “Um Partido Chamado Portugal . Uma opção: Torres Vedras”, in “Badaladas” de 25 de Maios de 1974.(13)– SALES, António Augusto , “Saber com quem estivemos para saber com quem estamos”, in “Badaladas” de 29 de Junho de 1974;
(14)- MATOS, Venerando Ferreira de — “Nortadas”, in BADALADAS de 27 de Ju­lho de 1974.
ANEXOS:
(convocatória para o 1º comício legal do PCP em Torres Vedras . Arquivo do autor)

(Convocatória para o 1º comício legal do PS em Torres Vedras. Arquivo do autor)

(colagem de cartazes por  militantes do PCP, por ocasião da campanha para as eleições Constituintes de 25 de Abril de 1975. Foto de Ezequiel Santos)

(Sessão comemorativa do 1º aniversário da aprovação da Constituição de 1976, em 1977, com a presença de representantes de todas as forças eleitas para a Câmara nas eleições municipais de 1976. Está no uso da palavra o Dr. Afonso de Moura Guedes, líder local do PSD. Fotografia de Ezequiel Santos)