(Torres Vedras, 26 de Abril de 1974, manifestação de apoio ao MFA - Fotografia de Ezequiel Santos)
“SÓ O POVO
PODE SALVAR O PAÍS – afirmou o candidato Manuel Fernandes na sessão da C.D.E.
em Torres Vedras”.
Era esse o
título de primeira página, em grandes letras vermelhas, do jornal “República”, de
9 de Outubro de 1973, acompanhado de uma fotografia que mostrava um sala cheia,
referindo-se ao comício da oposição realizado no Teatro-Cine de Torres Vedras, na
véspera, à noite.
Decorria a
campanha para as eleições da Assembleia Nacional.
Então, ao
contrário do que tinha acontecido em 1969, a oposição concorria unida, sob a
sigla de CDE (Centro Democrático Eleitoral).
Acrescentava
o citado jornal que aquela “foi uma das mais acidentadas reuniões de
esclarecimento do eleitorado, devido à presença, no palco, ao lado do
representante da P.S.P., do vice-presidente da Câmara Municipal, sr. Vitor
Oliveira Santos”.
Também o
jornal “Diário de Lisboa”, na edição do mesmo dia, mas em página interior
(página 11) noticiou aquele comício e os
respectivos incidentes :
“Logo no
início, a autoridade governamental, representada pelo vice-presidente da
câmara, capitão Victor Henriques e o tenente Maçarico da secção da PSP de
Loures, exigiram que os candidatos se identificassem , insistindo que não seria
permitido o uso da palavra a quem não estivesse dentro daquela qualidade”.
A sessão foi
presidida por Sara de Oliveira Tomás dos Santos que, antes do inicio da sessão
pediu um minuto de silêncio em memória do Governo de Unidade Popular do Chile,
derrubado, menos de um mês antes, em 11 de Setembro de 1973, por um golpe
militar liderado por Augusto Pinochet.
Gonçalves
André foi o primeiro orador, falando da politica sindical, acusando o governo
de não seguir as normas da OIT.
Carlos
Carvalho foi o orador seguinte, que começou por ler um documento do sector dos
metalúrgicos da CDE.
Em seguida,
Helena Neves leu o texto de Sottomayor Cardia, presente mas impedido de discursar,
pelas razões acima referidas, o que provocou uma primeira intervenção das
“autoridades” que tentaram impedir a continuação da sessão.
No palco
assistiu-se a uma cena quase caricata em que o vice-presidente tentava fazer
baixar o pano de palco e os oposicionistas procuravam impedi-lo, cena que não é
descrita na reportagem devido à acção da censura e que levou as autoridades a
abandonarem a sessão.
“Acalmados os
ânimos”, foi dada a palavra ao candidato Francisco Manuel Fernandes, criticando
e denunciando as prisões e perseguições de que estavam a ser vítimas os
apoiantes e candidatos da oposição desde
o inicio da campanha eleitoral, seguindo-se mais três intervenções, a de Helena
Neves, sobre a situação da educação, a de António Abreu, sobre a situação da
juventude e, a encerrar, Gonçalves André leu a intervenção de Blasco Fernandes
sobre a situação agrária, encerrando-se o comício às 24 horas.
Ao saírem da
sala, os presente depararam-se com a policia de choque perfilada no passeio
fronteiro ao Teatro-Cine, mas não se registaram mais incidentes nesse dia. Dias
depois o vice-presidente da Câmara, que esteve no centro daquela cena, pediu a
demissão do cargo de vereador.
(Comício do CDE no Teatro Cine, 9 de Outubro de 1973. Jornal "República")
Realizaram-se
mais dois comícios da oposição em Torres Vedras, um em 19 de Outubro, que
mereceu novamente honra de fotografia de primeira página no jornal “República”
de 20 de Outubro.
Esta sessão
decorreu sem incidentes, devido à presença de duas equipas de televisão
estrangeiras, uma holandesa e outra alemã, sendo esta, segundo aquele diário,
“a sessão até agora mais televisionada da campanha eleitoral”.
Aquele jornal
estimava a presença de cerca de mil e quinhentas pessoas na sala do Tetro-Cine.
A mesa foi
presidida pelo candidato Francisco Manuel Fernandes, que começou por ler duas
moções de apoio ao jornal “República”, uma de um “grupo de democratas presentes
à sessão” e outra da “Comissão de Metalúrgicos de Torres Vedras”.
Seguiram-se
as intervenções de Pedro Coelho, que exigiu uma amnistia “para os presos
políticos”, de Manuel Fernandes, sobre a situação da educação, João Sequeira
Branco, abordando, entre outras, a situação sindical, e, a encerrar José Manuel
Tengarrinha que falou da situação económica.
A presença de
televisões estrangeiras foi o factor que permitiu que esta sessão decorresse
sem incidentes e quase sem censura, porque era preciso dar uma imagem de
normalidade para a Europa.
Foi sol de
pouca dura.
No dia 24 de
Outubro a oposição decidiu que não existiam condições para concorrer a mais uma
farsa eleitoral do Estado Novo, decisão apoiada por figuras como o próprio Sá
Carneiro, em entrevista ao jornal “República “ em 26 de Outubro, deputado da
“ala liberal” da legislatura anterior, que entretanto se tinha demitido em rota
de colisão com o marcelismo.
Nalguns
pontos do país, no último dia de campanha, dia 25 de Outubro, como aconteceu em
Torres Vedras, registaram-se confrontos com a policia de choque, que impediu a
realização de comícios da oposição.
A última
sessão pública da CDE em Torres Vedras teve lugar nesse dia 25, num espaço
improvisado de uma garagem num prédio em construção, no inicio daquela que veio
a ser a Avenida Humberto Delgado, sessão violentamente interrompida quando se
começou a ler um texto contra a guerra colonial, gerando fugas apressadas à
frente da policia de choque pela rua Henriques Nogueira abaixo.
Para muitos,
a campanha de 1973, que marcou em definitivo a falência e o fim da ilusão da
“primavera marcelista”, foi o inicio do envolvimento politico na oposição e, no
caso de Torres Vedras, foi evidente o crescimento de actividades contra a
ditadura, como aconteceu nas reuniões clandestinas de apoiantes do CDE que, até
ao 25 de Abril, se realizavam regularmente, aos Sábados, em casa do Francisco
Manuel Fernandes, num anexo a dar para a rua 1º de Dezembro, nas traseiras da
farmácia “Torreense”.
Nessas
reuniões conheciam-se e discutiam-se as notícias do país e do mundo que não
chegavam à opinião pública devido à acção da censura, mas que se tentava
divulgar junto da população, em folhetos
impressos em setencil, distribuídos clandestinamente nas escolas, nas ruas e
nas empresas.
Dessas
reuniões saíram também as nomeações para a formação de núcleos estudantis para
dinamizarem as actividades da oposição no Liceu e na Escola Técnica, sendo a
primeira vez que tal aconteceu naquelas escolas torrienses.
Além da acção
clandestina do núcleo local da CDE, deu-se um crescimento da actividade
associativa que tentava romper com a censura e apresentar novas perspectivas
culturais que “agitassem” o marasmo dominante, como aconteceu no rejuvenescido
Cineclube ou no Clube Artístico e Comercial.
António
Augusto Sales traçava um retrato do
concelho em 1973:
“TORRES
VEDRAS: 15000 habitantes na vila e 60 000 no concelho (...) 412 km de rede de
comunicações; 68 000 000 de litros de produção vinícola, 10 000 000 kg de
trigo, 14 000 000 kg de batata; um comércio poderoso e uma indústria em
desenvolvimento; [a Casa Hipólito empregava então 1028 pessoas] 4000 alunos diariamente
nas escolas da vila”.
Estes eram
alguns dos índices que caracterizavam a então vila de Torres Vedras, uma
comunidade a quem faltava “o golpe de asa que torna perenes ou inesquecíveis as
iniciativas. Aquele tipo de vontade colectiva que ergueu uma Colónia Balnear
Infantil, uma Física, um Cineclube e que, ainda hoje, realiza um Carnaval. O
que acontece para lá da rotina é fruto de vontades isoladas e surge como
sucesso do acaso. A carcaça está vazia de humanismo e de interioridade. Onde
está o rasgo, a lucidez, a alegria, a juventude que transforma as pequenas
coisas oferecendo-lhe um significado social duradoiro? Onde está o futuro e que
futuro?” interrogava-se, António Augusto Sales, sobre Torres Vedras, uma terra
para quem “até os jovens abdicam à nascença” (1).
No início de
1974, eram mais as duvidas que as certezas, perante a evidente derrocada da
chamada primavera marcelista, o arrastar, sem soluções, da guerra ultramarina,
e o ainda quente e frustrante processo eleitoral de 1973.
Num ano
marcado pela crise económica, evidente nas restrições impostas ao uso da
gasolina e no seu aumento de preço, notava-se um crescente mal-estar na
sociedade portuguesa. Nem a censura conseguia disfarçar a falência do regime.
O debate
sobre o IV Plano de Fomento, para vigorar de 1974 a 1979, permitia alguma
intervenção crítica que deixava passar algum descontentamento sobre a realidade
torriense.
O Dr. Afonso
de Moura Guedes, num artigo intitulado “Torres Vedras - o
desenvolvimento que não se fez” (2), interrogava-se porque razão tinha sido o
desenvolvimento de Torres Vedras marginalizado naquele Plano, e concluía:
“Administrar,
aos tempos que correm, exige largueza de perspectivas, imaginação, capacidade
criadora, ia a dizer audácia(…).
“Em relação
ao nosso meio local, creio que, tudo isso, teria exigido a realização
prioritária de três políticas globais: uma política urbanística e de solos;
uma politica rodoviária; uma política industrial.
“Uma politica
urbanística e de solos que, corajosamente, pusesse cobro ao que há de
sufocante e de caótico no desordenado crescimento da vila e a essa vergonhosa
especulação de terrenos, que aqui ocorre, sacrificando toda a população ao
proveito de muito poucos.
“Uma política
rodoviária que estabelecendo toda uma rede efectiva de ligações, no espaço
inter-regional, permitisse uma cómoda e rápida circulação interna, de pessoas e
de mercadorias, assegurando, deste modo, a Torres Vedras, a posição, a que tem
direito, de pólo de desenvolvimento do Oeste.
“Uma política
industrial que, começando por definir uma zona industrial, soubesse ordenar,
depois, toda a estratégia conjugada de acções, susceptíveis de criarem
condições favoráveis à implantação de novas indústrias, no nosso meio(…).
“Pois foi
isso tudo o que não se fez, conto reflecte o Plano de Fomento. O
desenvolvimento que não se fez. Que não se soube construir como projecto de futuro.
O comboio que mais uma vez se perdeu”.
Logo no
inicio de 1974 um novo acontecimento fez regressar a Torres Vedras a policia de
choque e um vasto aparato policial, raro por estas bandas, mesmo nos tempos
áureos da decadente ditadura.
O motivo do
aparato policial, desta vez junto ao cemitério de S. João, foi a romagem à
campa do antifascista, tarrafalista e militante comunista, natural de Paul,
Fernando Vicente, que se realizou em 20 de Janeiro de 1974.
Surpreendentemente,
o convite para que o povo de Torres Vedras participasse nessa Homenagem foi publicado
nas páginas do jornal “Badaladas”:
“Ali, entre
ciprestes, pelas 11 horas do dia 20 de Janeiro, num minuto de recolhimento, a
vida não parecerá aquele vazio do quotidiano, sem ideais, apenas virada para
a materialidade da exixtência.
“Fernando
Vicente merece a simples homenagem póstuma que lhe vai ser tributada” (3).
Foram alguns
os torrienses com coragem para comparecer, mesmo assim menos que os “pides” e
polícias de choque, presentes por “razões” diferentes.
Também as
escolas secundárias do concelho conheciam pela primeira vez alguma agitação
através da distribuição clandestina de propaganda política e de pichagens
nas paredes com frases contra a guerra e contra a ditadura, motivando interrogatórios
a alunos e professores “suspeitos” e a intervenção de elementos da PIDE na vida
escolar. Terá mesmo sido elaborada uma lista para efectuar prisões em 1 de
Maio, o que só não aconteceu graças ao 25 de Abril.
Nas páginas
do “Badaladas” eram cada vez mais frequentes os textos que, utilizando a
necessária subtileza para escapar à censura, iam revelando os “podres” do
regime:
“Espectador
(não comparsa) das Ténues mudanças que se vão operando nesta terra parada no
tempo, sobretudo no campo ainda inexplorado do sócio-político (nota que deixo
de lado o económico) olho à minha volta num desencanto quase doentio. A manta
de retalhos que é Torres Vedras moderna vai crescendo caoticamente sem rei nem
roque, desenquadrada dum plano de urbanização inexistente. Creio que já te
disse por outras palavras esta mesmíssima coisa.
“A cegueira
dos homens, os interesses de alguns grupos, a tenacidade doentia e repetida de
certos nomes que hão-de passar à história local como os coveiros de uma terra
que merecia melhor sorte, cheira-se, apalpa-se, sente-se no ar que se respira,
discute-se em surdina às mesas dos cafés” (4) .
Nomes como Venerando
Ferreira de Matos, o autor das palavras acima transcritas, mas também um João
Carlos, um António Augusto Sales, um Andrade Santos, os irmãos Afonso e Ruy de Moura Guedes, os irmãos António e Mário
de Sousa Dias, um António Leal d’ Ascensão, um Victor Cesário da Fonseca e mais
alguns (poucos) outros, sempre
incentivados pelo Padre Joaquim Maria de Sousa, director e fundador do
“Badaladas”, estavam cada vez menos solitários nesse ano de 1974 no uso dessa
arma que era a escrita, para enfrentarem o regime.
Chegados ao
mês de Março, o Dr. António de Sousa Dias transcrevia para as páginas do
“Badaladas” algumas linhas do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”,
grande tema de discussão nesses últimos meses de vida do velho regime, livro
cuja edição mereceu, uma montra especial na Galeria 70, livraria dirigida por
Cristina e Armando Pedro Lopes, local muito frequentada por oposicionistas e
onde se realizavam regularmente colóquios, exposições e outras actividades de
cariz cultural, sendo por isso regularmente “visitada” pela PIDE, que se refere
a esse espaço em vários relatórios internos .
Nesse
ambiente, foi sem grandes surpresas que, numa reunião clandestina do núcleo
local do CDE, realizada em casa do Francisco Manuel Fernandes, alguns jovens
oposicionistas tomaram conhecimento e acompanharam os acontecimentos do falhado
golpe militar das Caldas da Rainha, nesse sábado 16 de Março.
Para quem
estivesse atento ao que se passava à sua volta era evidente, a partir daí, que
o derrube do Estado Novo era uma questão de tempo.
Na noite de
24 de Abril, alguns foram para casa tardiamente, depois de assistirem a mais
uma sessão do cineclube no Teatro-Cine, o filme de Jerry Lewis “O morto era
outro”, longe de imaginarem o que se preparava para essa madrugada.
Muitos foram
acordados por amigos e familiares que, ao levantarem-se para mais um dia de
trabalho, ouviram as primeiras notícias do golpe militar nos aparelhos de rádio.
Outros só
souberam o que se passava quando chegaram à escola ou ao local de trabalho.
(1ª Página do "Badaladas" publicado sem censura)
O dia foi
longo, seguindo-se avidamente as notícias pela rádio, comprando as primeiras
edições especiais dos jornais que íam chegando, ao mesmo tempo que iam correndo
muitos boatos sobre a origem da acção militar.
A televisão
só iniciou a sua emissão pelas sete horas da tarde.
Em Torres
Vedras, nessa noite, realizou-se um primeiro comício no Largo da Graça, promovido
pelo MDP-CDE, onde ainda se manifestava algum receio sobre o desfecho do
movimento militar.
“Quando olho o longo caminho percorrido
cheio de ásperos revezes, perseguições e mediocridades, quando, subindo ali ao
Forte, te contemplo crescendo em todos os sentidos caoticamente envolta pelo
desprezado Sizandro; quando imagino o que és e o que poderias ter sido, eu me
entristeço, Torres Vedras.
“Vila verde, pintada a esperança pelos
vinhedos, doirada pelo recorte ímpar da tuas penedias bravias em Santa Cruz;
retalhada impiedosamente pelos crimes do mau urbanismo imposto por certos
conhecidos pimpões ultramontanos, quase te desconheço Torres Vedras.
“Vila cansada por anos e anos de paz podre, das divisões estéreis às
mesas dos cafés, onde raramente qualquer pedra agitava a calma estagnação dos
teus sonhos adormecidos, pálida vila estremenha onde através da inoperância de
um arranjismo organizado ias crescendo angustiada sob um colete de forças
tecido de mentiras, ameaças e subornos, Torres Vedras.
“Hoje és livre!
“À tua frente abre-se luminoso mas
cheio de dificuldades, o Caminho do Futuro que só o teu povo unido, sem
privilégios, sem castas de qualquer espécie, sem constrangimentos de qualquer
ordem cumpre edificar.
“Terás de escolher entre os melhores (
e não entre os eternos “terratenentes”), entre os de mãos limpas e incorruptos,
os teus futuros dirigentes.
“Dezoito freguesias de nível económico
baixíssimo não têm estradas, nem água canalizada, nem instalações escolares
adequadas, nem lares para estudantes, nem jardins-infantis, nem árvores sequer,
nem turismo ou infraestruturas” que o valham.
“Quantos milhares de contos delapidados
em projectos sumptuosos de fachada que o teu povo simples, paciente, humilde,
arroteando de sol a sol a gleba, pagou ao longo de tantos anos improdutivos do
passado? Quantos, Torres Vedras?
“Mas agora és livre TORRES VEDRAS” (5).
A grande manifestação de alegria e de apoio
aos militares teve lugar na tarde de 26 de Abril, com um grande desfile que
percorreu as ruas de Torres Vedras, tendo muitos nessa noite ido para Peniche
assistir à libertação dos presos
políticos , que só se concretizou na madrugada do dia 27.
“Em 26 de Abril quando ali na Avenida 5
de Outubro o Povo bom e simples de Torres Vedras dava largas à sua alegria
verificou-se a sua maturidade, devoção e patriotismo.
“Maturidade que sempre foi negada por
aqueles que nem sempre serviram com dignidade os seus postos. Antes pelo
contrário deles se servindo para os seus interesses pessoais.
“Nem um vidro foi partido, nem um
individuo foi maltratado, nem um único incidente se assinalou.
“Afinal o poder não caiu na rua!
“Vamos pois, agora, torrienses passada
a onda de júbilo emocional que a todos nos avassalou assumir a nossa
responsabilidade de homens autenticamente livres, na dignidade e na
responsabilidade, esquecendo rancores, mas denunciando quanto possa contrariar
a irreversível marcha da revolução do Movimento das Forças Armadas.
“Vamos viver finalmente com os olhos
postos nos nossos filhos que são o teu próprio futuro – TORRES VEDRAS”
(6).
(Manifestação de 26 de Abril. Fotografias de Ezequiel Santos)
Em 27 de Abril, três dos presos
libertados foram recebidos em festa no Largo da Graça. Nesse mesmo dia uma força
do MFA veio a Torres Vedras para ocupar as instalações da Legião Portuguesa, no
edifício onde veio a funcionar a Creche do Povo (ao lado do Teatro-Cine),
prender o “chefe” local da PIDE e desarmar a GNR.
(Fotografias da libertação dos presos politicos de Peniche tiradas pelo fotógrafo torriense Ezquiel Santos na madrugada do dia 27 de Abril de 1974)
A 28 de
Abril, na sala do CAC, reunia-se a Comissão Concelhia da CDE, iniciando-se aí
a transferência do poder concelhio para as forças democráticas, da qual saiu
uma primeira comissão, composta por 49 cidadãos, para preparar essa mudança
política e um manifesto ao povo de Tones Vedras, onde eram abordadas algumas
das situações mais gravosas para o concelho, herdadas do regime deposto:
“Os graves
problemas sempre adiados e jamais resolvidos, como os da electrificação,
distribuição de água canalizada, abertura de caminhos e estradas nas aldeias e
aglomerados do Concelho, ou de um plano de urbanização jamais posto em
execução, jamais cumprido, com relevância para o tráfico de imóveis feito por
uns tantos que sempre se serviram das Câmaras Municipais no seu directo
interesse pessoal, o acumular de desonestas riquezas pela valorização artificial
de terrenos (por exemplo os de Santa Cruz), pelas “prioridades” dadas ao
asfaltamento de estradas e ruas onde os apaniguados do regime tinham as
suas moradias e interesses particulares em detrimento dos interesses
colectivos; (...) a poluição do Sizandro lesiva do interesse das populações,
com relevância para as de Runa, em que certas empresas particulares têm graves
responsabilidades de conivência com organismos “ainda” oficiais;(...)” (7) .
(Documentos saidos da reunião no CAC de 28 de Abril. Arquivo do autor)
O 1º de Maio foi outro momento de apoio
popular ao Movimento das Forças Armadas, desfilando os torrienses pelas ruas da
vila e concentrando-se frente à antiga sede da Física (no actual edifício da
Câmara Municipal) e onde tomara a palavra, na varanda superior desse edifício
“Venerando de Matos, Raimundo Portas, um membro do Partido Comunista libertado
recentemente, Dr. Afonso de Moura Guedes, um representante de um grupo de
trabalhadores comunistas, Dr. Rui de Moura Guedes, um representante dos
professores, João Carlos, um representante Sindical, um representante
trabalhadores, um representante de jovens estudantes, um soldado das Forças
Armadas, um representante de senhoras torrienses e por último Francisco Manuel
Fernandes membro do CDE e ex-candidato a deputado pela oposição nas últimas
eleições (…)” (8).
(Manifestação do 1º de Maio de 1974 em Torres Vedras. Fotografias de Ezequiel Santos)
Entretanto a comissão concelhia, saída da
reunião de 28 de Abril tinha a incumbência de organizar uma assembleia popular para
nomear uma comissão provisória que dirigisse os destinos do concelho até uma
futura e previsível eleição democrática, assembleia que teve lugar no dia 12 de
Maio de 1974 no Estádio do Torreense, na presença de cerca de duas mil pessoas.
(convocatória para a assembleia popular de 12 de Maio. Arquivo do autor)
Tomaram a palavra nesse plenário
Francisco Manuel Fernandes, António Leal da Ascensão, João Capão, José Manuel
Gomes de Almeida, Sara de Oliveira e José Amado, abrindo-se depois a possibilidade
de usarem da palavra outras pessoas da assembleia que o quisessem, falando
então Venerando Ferreira de Matos, Orlando Guerra, Joaquim Augusto da Silva,
Andrade Santos, entre outros.
Como referimos acima, um dos objectivos
dessa assembleia foi a aprovação de uma comissão provisória para dirigir o
município, sendo na ocasião posta “à votação um por um, todos os dezoito
membros nomeados pela C.D.E. para tomarem parte na gerência provisória da
Câmara Municipal”.
Os nomes aprovados foram:
António Leal da Ascensão, Artur dos
Reis, Francisco Manuel Fernandes, José do Nascimento Veloso, José Sérgio
Júnior, Manuel Carlos da Silva Penetra, Engº Orlando Godinho, Regina Fernandes,
Victor Agostinho, Marcos dos Santos Ferreira, João Carlos, Joaquim Aurélio
Ferreira, Carlos Augusto Bernardes, Duarte Nuno Clímaco Pinto, Maria Adelaide
dos Santos Pereira, dr. António de Sousa Dias, António César Rodrigues e
António Ferreira de Castro (9).
Dois dias depois, 3ª feira 14 de Maio,
com a presença de um delegado da Junta de Salvação Nacional, capitão Vítor
Manuel Ribeiro, teve lugar, na sede local do CDE, ocupada em 26 de Abril e
localizada na antiga sede da ANP, a constituição da comissão administrativa municipal
que substituiu oficialmente a ultima
Câmara nomeada pelo Estado Novo.
Nessa mesma sessão, por sugestão do
delegado da JSN, a comissão de 18
membros foi reduzida para 9 elementos que ficaram a constituir
o elenco da Comissão Administrativa Municipal, sendo eleito para a presidir
Francisco Manuel Fernandes, coadjuvado por António Leal d’Ascensão, João
Carlos, José do Nascimento Veloso, Duarte Nuno Pinto, Manuel Carlos Penetra,
José Sérgio Júnior, Marcos Santos Bernardes e Carlos Augusto Bernardes. Esta
comissão administrativa tomou posse do seu cargo em 15 de Maio no Governo
Civil de Lisboa e reuniu oficialmente pela primeira vez em 20 de Maio.
(reprodução de uma fotografia publicada no "Badaladas" da 1ª reunião da Comissão administrativa, fotografia do Salão Fotográfico)
A transição
do poder concelhio não foi isenta de conflitos e situações caricatas.
Logo a 29 de
Abril, o executivo camarário da ditadura, ainda em funções nessa data, reuniu-se
e aprovou, numa manobra de puro oportunismo político, uma moção de adesão ao
programa da Junta de Salvação Nacional, atitude logo aí denunciada por
vários torrienses que assistiam a tão caricata reunião.
Nessa reunião digladiaram-se duas “facções”,
a do presidente em exercício à data do 25 de Abril (Joaquim Pedro Belchior
Fernandes), e outra liderada por vereadores que tinham vindo da “SEDES” local
(ou como tal autodesignados), tendo à cabeça o vereador José de Oliveira Guia.
O presidente, sem consultar a restante
vereação, tomou a iniciativa de contactar “com o seu superior hierárquico –
Governador Civil em exercício- tendo recebido deste a confirmação de que
deveria continuar no exercício das suas funções, assegurando o regular
funcionamento da Administração Local”.
A “facção” liderada pelo Engº. Guia
defendia “uma deslocação conjunta da vereação e Presidência, a fim de
estabelecerem contacto directo com a Junta de Salvação Nacional. Objectivo:
colocar os seus lugares à inteira disposição da Junta, já que nenhum de nós,
vereadores, sentia e sente que o mandato em que estamos investidos tenha sido
conferido pela via democrática que inspira o programa do Movimento das Forças
Armadas”.
Este estratagema foi, contudo, como
vimos, ultrapassado pelos acontecimentos, reunindo essa vereação uma última vez
em 13 de Maio, para tratar de assuntos correntes.
No dia seguinte era escolhido o elenco
da nova comissão administrativa e a defesa da “honra” da vereação deposta coube
então à “facção Guia” nas páginas do “Badaladas”, num conjunto de artigos “assinados” irónicamente como “ex-vereação “fascista””, publicados no jornal
“Badaladas”.
“(…) assistiu, impávido, o concelho de Torres Vedras, ao
espectáculo , no mais puro estilo “demo-cala-te” –da “eleição” e posse (?) da
Comissão Administrativa que passará a gerir os negócios do concelho até à
eleição da nova Câmara Municipal. Realmente malvado regime de opressão que, em
50 anos, reduziu a rebanho até os verdadeiros republicanos e democratas!
“Entre
domingo e terça-feira, “democraticamente”: meus filhos: quer queiram,
quer não, têm de vestir voluntariamente estes fatos….
“Bom! E agora não me venham para cá com o fado
do reacionário. Não agitem espantalhos, usando os mesmos truques da “velha senhora”.
Jogo limpo: em intenções e em actos!”.
E rematava, em tom de ameaça:
Esses artigos vieram a desencadear uma
animada e viva polémica nas páginas daquele jornal.
Venerando Ferreira de Matos é o
primeiro a reagir nas páginas do semanário torriense:
“A ex-câmara fascista vem à carga no
último número do “Badaladas”.
“E fala de…democracia.
“Não esqueçamos que já Salazar, quando
os aliados derrotaram o nazi-fascismo também mudou o rótulo: o corporativismo
passou a chamar-se “democracia orgânica”.
“Não esqueçamos que também Marcelo
aboliu a “Censura” para chamar-lhe “Exame Prévio”; a União Nacional para ANP; a
PIDE para DGS.
“Não esqueçamos que, por vezes, a
memória é fraca…Mas nem sempre.
“Catarina Eufémia foi assassinada há 20
anos. Hoje continua no pensamento de todos os anti-fascistas.
“O General Humberto Delgado foi assassinado
e continua no espírito de todos os anti-fascistas.
“Há ainda muitos crimes cometidos por
aqueles que hoje, virando a casaca, dizem ser democratas.
“Atenção pois.
“Hoje os tais que servilmente serviram
e se serviram da “situação” dizem ter estado contra…ELES.
“Hoje são os mais democratas, os
mais…humanos. Eles é que nos defendem “de cara aberta e mãos lavadas”. E vão
continuar a defender-nos.
“Já de há muito tempo que a ex-vereação
“fascista” – antes de vereação e antes de ex – vinha apreciando os seus
notáveis escritos neste jornal. Síntese, concisão, sarcasmo, exploração
sistemática das entrelinhas conferem ao seu estilo a vivacidade, o tónus que
prende o leitor, estimulando a sua imaginação e deliciando o que em toda a
gente existe de espírito crítico pela via da mordacidade.
“Espantosamente – para desilusão de
certas eminências que vêem fantasmas no fumo de um cigarro- o senhor, sem
quebra de uma acerada tradição crítica, sempre manteve em relação a nós uma
atitude moderada mesmo quando, algumas vezes com toda a razão, apontou ou
denunciou deficiências ou situações de injustiça. Foi uma critica que para nós
se revelou, não obstante mordaz, quase sempre construtiva, e que nos serviu,
várias vezes, para aferirmos da razão da nossa própria luta.
“Eis senão quando, depois de 25 de
Abril, se crispa a pena e enfurece o génio: do verbo exacto se desprende o
ódio; da palavra ardente negra nasce a raiva. Até o equilíbrio, até a prudência
calculada se enovela em espuma de estranho ruminar.
“Quem o viu e ouviu numa reunião com
elementos da Sedes e outras da “ala liberal” da A.N.P., ainda não há três anos,
mal pode agora conceber, velado embora (como é seu estilo), o ataque que nos
faz – ainda por cima embarcando na demagogia medíocre de chamar fascista a quem
ainda ontem se sentava na mesma mesa com o senhor para repensar Torres Vedras.
A nossa confusão, contudo, não será tão grande como aquela que o senhor
confessava, sobre os dados da politica da altura – donde decorria a sua posição
indefinida…Se outros méritos não tivera, o 25 de Abril possibilitou, pelo menos
ao senhor, a definição de uma posição politica! – O que não é nada pouco, não
concorda?”.
Na edição seguinte do “Badaladas”, de 15
de Junho de 1974, Venerando Ferreira de
Matos publica uma “Resposta a uma carta…viciada”, onde, para além de analisar criticamente o conteúdo
dos artigos da vereação deposta, publicados sob o título de “Os actos incómodos
e as actas malditas”, respondia às insinuações da carta aberta acima referida:
“As reuniões da “Sedes” e de outras da “ala
liberal da A.N.P.” foram as reuniões feitas no Clube Artístico e Comercial como
jornadas de esclarecimento dos liberais da A.N.P. Dr. Sá Carneiro e Miller
Guerra.
“A elas, como eu, assistiram centenas de
torrienses ávidos de ouvir quem teve a coragem na Assembleia Nacional
(fascista) de denunciar os atropelos dum governo corrupto e desonesto.
“Porém, a grande diferença entre os
citados “liberais” e os de Torres Vedras é que aqueles se demitiram antes do 25
de Abril…
“Quanto aos que “ainda ontem se
sentavam na mesma mesa”, esclareço: fui convidado pelo meu amigo João Carlos
para com outros munícipes de Torres Vedras debater a sua problemática numa
“mesa redonda” na redacção do “Badaladas”. Naturalmente assistiram indivíduos
de todas as colorações: desde os sem filiação partidária (meu caso) até
possíveis M.R.P.P. E fui.
“Sentei-me ao lado de toda a gente sem
complexos. Sim. Porque há coisas que não se “pagam”, mesmo sentados numa mesa.
Ao fim de três anos tal prova está feita: não fiquei infectado como os próprios
ANPistas confirmam. E ainda bem.
“Resta perguntar:
“Quando se tentou publicar no
“Badaladas”, para que o povo de Torres Vedras tomasse conhecimento das
conclusões dessa “mesa redonda” porque razão é que os “liberais” da ANP local
não protestaram junto da Comissão de Censura contra a proibição de tal
publicação?
“Mistério, certamente”.
Sobre a acusação de ter tido uma
“posição indefinida”, respondeu:
“Caramba!
“Como é que se põe isto em letra de
forma, como quem bebe um capilé ou se arrota depois de ter comido uma posta de
pescada?
“Há pessoas que ou são ingénuas ou
deliberadamente inconscientes.
“No longo sudário que foi esta nossa
noite de meio século, que a Censura à imprensa, a ex-PIDE-DGS, Legião
Portuguesa, Câmaras fascistas, Uniões Nacionais, ANP’s, etc, nos obrigaram a
viver, teremos ainda de aturar pequenos arrivistas depois do 25 de Abril,
desesperados por terem embarcado no barco que naufragou?
“Agarram-se desesperadamente a tudo
incluindo à falsidade de informação, à meia-verdade que é pior que mentir, para
tentar abocanhar os que pelos mais variados processos resistiram sempre a todos
os convites de colaboração como eles o não fizeram?
“Terei por acaso – e milhares de outros
homens do meu país- de ser sujeito a mais um julgamento por aqueles que afinal
estão na origem de todos os nossos males?
“Que culpa temos nós que certos
camaristas de pacotilha tivessem embarcado no navio errado?
“Valha-nos Santa Engrácia.
“Que entendem os ex-vereadores por
posição indefinida?
“Quando ao longo dos anos se luta
através da palavra escrita (ESCREVER É UMA DAS FORMAS DE LUTA MAIS CONSEQUENTE)
e se imprime aos textos uma directriz PROGRESSISTAS E ANTI-FASCISTA pode,
conscientemente, falar-se de posições indefinidas?
“Quando se desmistifica a sociedade
reacionária em que se vive, se iniciam e se colabora em campanhas, apontando o
crime de acumulação de riquezas à custa do tráfego de influências e das
situações privilegiadas dos senhores do regime dos donos desta quinta que se
chama Portugal” (República, 8-6-74) quando se comentam e se transcrevem textos
de Neruda, Manuel Alegre, Namora, Siqueiras, Picasso, Joaquim Namora, Aragon,
Soeiro Pereira Gomes, Miguel Torga, etc.,etc., etc., ao longo de anos e anos,
sem desfalecimento, em múltiplas secções criadas no “Badaladas” e noutros
jornais, será isso tomar decisões indefinidas ?
“Onde é que está a dignidade de quem
tal insinua?”.
Recordou depois algumas polémica em que
se envolveu ao longo dos anos nas páginas do “Badaladas”, ou as campanhas em
defesa da renovação da Biblioteca e em prol da defesa da transformação da Liceu
Municipal em Liceu Nacional, esta última alvo de um debate que provocou a
reacção de desagrado de um vereador de então e a atenção especial da PIDE,
assim como a sua acção no Pelouro Cultural da Física que “levou o então
secretário da Câmara Lalande a fazer um inquérito à minha actividade e à do
Andrade Santos”.
E concluíu:
“Isto senhores é uma síntese incompleta
de doze anos das minhas…actividades “indefinidas”, da luta que travei através
da palavra escrita em prol duma Cultura torriense progressista e anti-fascista,
mutilada embora pela férrea censura e pela auto-censura, pois só se podia dizer
o que se sentia através de imagens e , sobretudo, pela exploração sistemática
das entrelinhas de que agora os meus jovens contraditores me acusam.
“Mas eu pergunto: a quem cabe a culpa?
A quem cabe a culpa da minha maneira mordaz de escrever, as entrelinhas, as
raivas incontidas, a pena acerada e sarcástica?
“Ouvi há dias este desabafo de um
jornalista profissional : “Temos de reaprender a escrever”.
“Que parte de culpa Vos cabe também, se
trouxestes o “S” no cinto voluntária ou obrigatoriamente?
“Que parte de culpa vos cabe na monstruosa
mistificação imposta às ideais pelo tenebroso lápis da Censura?
“Mas responder a escrever como? Se
todas as nossas células cerebrais, tal como o tronco retorcido de uma árvore à
frente da qual se ergueu um muro, estão ancilosadas, deformadas pela ginástica
que a nós próprios impusemos para que os nossos escritos pudessem ser lidos por
uma população despolitizada, numa autêntica guerrilha de pensamento, espreitada
constantemente pela ameaça da ex-Pide-DGS, cujos “safanões a tempo” senti na
própria carne?
“Querem um rótulo para a minha posição
politica?
“Ei-lo:
“DEMOCRATA ANTI-FASCISTA, livre
portanto de tomar as opções que muito bem quiser – e que tomarei sem duvida-
“quando”, “onde” e “como” entender.
“Serve, Senhores neo-“democratas”?”.
Foi António Augusto Sales que encerrou
a “polémica”:
“Quem na
devida altura não teve, pelo menos, a coragem de dizer NÃO, perdeu a
oportunidade. Isto é, quem, na ex-vereação não teve a coragem de se demitir
depois de verificar a impossibilidade de fazer um trabalho equilibrado perdeu
a oportunidade de se descomprometer com as irregularidades e arbitrariedades
(...) É preciso que todos nos convençamos que Portugal mudou mesmo. É preciso
que não nos deixemos iludir com histórias da carochinha. Durante quarenta e
oito anos muita gente passou fome porque não quis colaborar; muita
gente perdeu anos de vida nas cadeias porque não quis colaborar; muita
gente viveu uma existência de sobressalto porque não quis colaborar; muita
gente perdeu empregos, família, glórias, dinheiro, comodidade, sossego e
liberdade apenas porque se negou a colaborar. Hoje, no segundo mês da
libertação, não podemos permitir que sejam confundidos estes com os outros.
Seria criminoso.” (13) .
Durante cerca de dois anos viveu-se num
clima de instabilidade politica, ao mesmo tempo que se fazia a descoberta da
democracia e da liberdade, entre tentativas de golpes e contragolpes, de manifestações
de rua e comícios mais ou menos pacíficos, mais ou menos agitados ou ameaças do
regresso de novas ditaduras ou de uma guerra civil.
A maturidade e a tolerância acabaram
por vingar e, com mais ou menos tropeções, a democracia foi-se consolidando,
até aos nossos dias.
No dia 25 de Abril de 1975 foi eleita a
Assembleia Constituinte e em 1976 foram eleitos Assembleia Legislativa, Presidente da República
e Câmaras Municipais.
Cumpria-se assim o desejo formulado por
um dos torrienses mais activos na luta pela democracia e pela liberdade:
Cumpria-se assim o desejo formulado por
um dos torrienses mais activos na luta pela democracia e pela liberdade:
“Depois da euforia dos cravos vermelhos, de reuniões
contínuas e esclarecedoras, urge que se faça o ponto da situação. O trabalho
espera-nos. Vamos a ele!(…).
“À inflação
da palavra terá de suceder o estudo dos problemas e a respectiva solução às
realidades que nos cercam.
“Longas
milhas começam com o primeiro passo — diz um ditado chinês.
“Pois os
primeiros passos estão a ser dados com firmeza e as longas milhas serão
vencidas através do Tempo, sem o qual nada de duradoiro se pode fazer.” (14).
Começava
então uma nova etapa na história torriense e do país.
(1)
- SALES, António Augusto — “Das
muitas é variadas leituras que alguns acontecimentos de 1973 podem oferecer
(...)”, In BADALADAS
de 16 de Março de 1974;
(2)
- MOURA GUEDES, Dr. Afonso
de — “Torres Vedras — o desenvolvimento que não se fez”, in BADALADAS de 26 de Janeiro
de 1974;
(3)
- “Romagem à campa de Fernando
Vicente-Convite”, in BADALADAS
de 19 de Janeiro de 1974;
(4)
– MATOS, Venerando Ferreira de , “Cartas
a um amigo de longe… - XVI”, in “Badaladas”
de 19 de Janeiro de 1974;
(5)
- MATOS, Venerando Ferreira de —
“Torres Vedras e o Futuro”, in BADALADAS
de 4 de Maio de 1974;
(6)
- MATOS, Venerando Ferreira de — “Torres Vedras
e o Futuro”, in BADALADAS
de 4 de Maio de 1974;
(7)
- “Manifesto ao Povo do Concelho
de Torres Vedras” pela “Comissão Concelhia do C.D.E de Torres Vedras”, Abril de
1974;
(8)
-
CARLOS, João, “Dia 1º de Maio – Festa do Trabalho”, reportagem publicada nas
páginas do Jornal “Badaladas” de 11 de Maio de 1974;(9) - “Democratas de Torres Vedras aprovaram a
nomeação de uma comissão para a gerência da Câmara”, in “Badaladas” de 18 de
Maio de 1974;
(10)- Acta da reunião camarária de 6
de Maio de 1974, in “Voz do Município”, “Badaladas” de 25 de Maio de 1974;(11) -
in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;
(12)– MATOS, Venerando Ferreira de, “Um
Partido Chamado Portugal . Uma opção: Torres Vedras”, in “Badaladas” de 25 de
Maios de 1974.(13)– SALES, António Augusto , “Saber
com quem estivemos para saber com quem estamos”, in “Badaladas” de 29 de Junho
de 1974;
(14)-
MATOS, Venerando Ferreira de — “Nortadas”, in BADALADAS de 27 de Julho de 1974.
ANEXOS:
(convocatória para o 1º comício legal do PCP em Torres Vedras . Arquivo do autor)
(Convocatória para o 1º comício legal do PS em Torres Vedras. Arquivo do autor)
(colagem de cartazes por militantes do PCP, por ocasião da campanha para as eleições Constituintes de 25 de Abril de 1975. Foto de Ezequiel Santos)
(Sessão comemorativa do 1º aniversário da aprovação da Constituição de 1976, em 1977, com a presença de representantes de todas as forças eleitas para a Câmara nas eleições municipais de 1976. Está no uso da palavra o Dr. Afonso de Moura Guedes, líder local do PSD. Fotografia de Ezequiel Santos)