quinta-feira, 11 de junho de 2009

No primeiro dia da pandemia - recordando a pnaumónica de 1918 no concelho de Torres Vedras

A “pneumónica” de 1918 no Concelho de Torres Vedras

Segundo Oliveira Marques[1] um dos motivos para a eclosão das grandes epidemias de 1918-1919, com destaque para a pneumónica, foi o “estado débil dos organismos entre as classes pobres”, as “mais afligidas pela escassez e penúrias dos géneros de primeira necessidade”.
A primeira vaga de epidemias registou-se entre Junho e Julho de 1918, entrando rapidamente em declínio e tendo um impacto pequeno. Mas uma segunda vaga iniciou-se nos arredores do Porto em Agosto, disseminando-se lentamente durante os meses seguintes, atingindo o sul e o seu clímax em Outubro, continuando a fazer sentir o seu efeito até Dezembro de 1919.
Em Torres Vedras a doença “começou a fazer-se sentir nos lugares situados ao norte do concelho”, propagando-se “assustadoramente” a todo o concelho, provocando “grande miséria” nos lugares “onde a epidemia tem feito mais estragos”, pelo que se aguardava “a vinda de algum açúcar, cuja falta é enorme”, ao que parece por ser necessário para o fabrico de remédios farmacêuticos. Foi igualmente criado um hospital provisório “para os doentes atacados de epidemia”.[2]
Neste concelho o período mais crítico decorreu entre 27 de Setembro e 31 de Outubro de 1918, obrigando ao encerramento de estabelecimentos e paralisando momentaneamente a vida política, social e económica de Torres Vedras.
Durante esse período morreram no país 31785 pessoas, sendo a região de Lisboa uma das mais atingidas. Em Torres Vedras morreram 861 pessoas, numa percentagem de 2,2% da sua população, tomando como referência os censos de 1911, percentagem ligeiramente inferior, 2,1%, se a base de referência for a população do concelho em 1916 segundo dados não oficiais.
Em termos nacionais e apenas em relação àquele período, a epidemia matou cerca de 0,6% da população nacional.
Torres Vedras registou assim uma mortalidade quase quatro vezes superior à média nacional.
O impacto da pneumónica não foi o mesmo em todas as freguesias do concelho.
Como é óbvio, a vila foi das mais afectadas pela propagação da doença e pelo seu efeito, contando 226 mortes, 2,73% da população das freguesias urbanas, situação que se ficou a dever, não só à facilidade de propagação num meio urbano, servido de transportes, com uma actividade comercial assinalável, mas também porque nele estavam centralizados os principais serviços de saúde (hospital, lares, etc.).
Outras três freguesias destacaram-se pela elevada mortalidade, quer em termos numéricos quer em termos percentuais:
- Ramalhal, com 67 mortos, 3,71% da sua população;
- Maxial, com 69 mortos, 2,62% da sua população;
- Dois Portos, com 82 mortos, 2,08% da sua população.
A freguesia de Ponte do Rol, embora tivesse contado com um reduzido número de óbitos, 26, mercê da sua reduzida base demográfica, obteve uma percentagem elevada, 2%.
Pelo contrário, a freguesia de S. Pedro da Cadeira, apesar de ter registado o maior número de falecimentos a seguir à vila, 91 mortos, registou uma percentagem baixa, devido á sua enorme base demográfica.
As freguesias que no concelho registaram a mais baixa percentagem de mortalidade foram as freguesias da Carvoeira (0,87%), Matacães (0,94%) e Ventosa (1,01%).
Não deixa de ser significativo o facto de três das quatro freguesias rurais onde existiam estações ferroviárias terem sido das mais atingidas (Ramalhal, Maxial – estação do Outeiro da Cabeça -, e Dois Portos).
A situação nestas três freguesias mereceu mesmo a atenção da imprensa nacional. Para o Ramalhal e o Maxial (designado “Ameixial”) a “Obra de Assistência 5 de Dezembro” enviou, em finais de Outubro, açúcar, arroz e medicamentos “para as famílias atacadas pela gripe pneumónica”.[3]
Referindo-se à situação em Dois Portos, podia ler-se que aí grassava a epidemia com “terrível intensidade”, morrendo muitos dos seus habitantes “sem assistência médica e à míngua de recursos de toda a natureza, pois que tudo falta, pão, arroz, açúcar, petróleo, medicamentos”.[4]
Quanto àquelas que registaram uma mortalidade mais baixa tinham em comum o facto de o consumo médio de trigo, por parte dos seus habitantes, ser sempre superior ao consumo de milho, rondando o consumo daquele cereal mais de 900 litros por habitante (995 litros na Ventosa, 1196 na Carvoeira e 1482 em Matacães).
Curiosamente e por contraste, as freguesias onde se registou uma maior percentagem de óbitos em relação à sua população eram as que apresentavam os níveis mais baixos de consumo de trigo por família, abaixo dos 800 litros (Ramalhal, 299 litros; Dois Portos, 713; Maxial, 728).
Os outros dois casos que referimos, Ponte do Rol e S. Pedro da Cadeira, estavam igualmente entre as freguesias que registavam menores níveis de consumo de trigo (S. Pedro da Cadeira com 321 litros e Ponte do Rol com 569 litros).

[1] MARQUES, A . H. de Oliveira Marques, História da 1ª República Portuguesa – As Estruturas de Base, Iniciativas Editoriais, [1978], Capítulo I – “A População”, pp. 1 a 48.
[2] O Século, 10 de Outubro de 1918.
[3] O Século, de 23 de Outubro de 1918.
[4] O Século, 30 de Outubro de 1918.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Torres Vedras nos Lusíadas


Neste Dia de Portugal e de Camões, recordamos a referência a Torres Vedras nos Lusíadas:


"Que cidade tão forte por ventura

Haverá que resista, se Lisboa

Não pôde resistir à força dura

Da gente, cuja fama tanto voa?

Já lhe obedece toda a Estremadura,

Óbidos, Alenquer, por onde soa

O tom das frescas águas, entre as pedras,

Que murmurando lava, e Torres Vedras."


Canto III

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eleições Presidenciais de 8 de Junho de 1958 - dois documentos de T.Vedras


Comemorando-se hoje o 51º aniversário das eleições presidenciais disputadas por Humberto Delgado, nas quais foi eleito Américo Tomás, o último presidente do regime do Estado Novo, divulgamos aqui dois documentos históricos, relacionados com esse acontecimento.
Num, divulga-se a lista dos lugares em Torres Vedras onde os apoiantes locais podiam levantar as "listas eleitorais" (os votos) para votarem em Humberto Delgado.
Outro é transcrito do semanário "Voz de Torres Vedras", de 25 de Junho de 1958, divulgando os resultados locais dessa eleição.

É de registar de, apesar de todas as dificuldades com que se confrontou a candidatura de Humberto Delgados e das fraudes registadas, estes conseguiu vencer o candidato do regime numa das mesas do Maxial, obtendo igualmente bons resultados em Matacães, Monte Redondo, Ramalhal e na mesa de S. Pedro, na vila.
Os documentos podem ser visionados em tamanho maior, bastando clicar sobre eles.

Humberto Delgado em Torres Vedras - nas eleições

Junho de 1915 - Fundação da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras

Nesta vista geral de Torres Vedras, do início do Século XX, pode ver-se, à esquerda, o edifício que deu lugar à sede actual da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras.


ORIGEM HISTÓRICA DA CAIXA DE CRÉDITO AGRÍCOLA MÚTUO DO CONCELHO DE TORRES VEDRAS


Comemorando-se hoje o 94º aniversário da criação da Caixa Agrícola de Torres Vedras, pelo que incluímos hoje este breve estudo sobre uma das mais importantes instituições criadas pela Primeira República e que, não só sobreviveu até hoje, como se mantém nos nossos dias com o dinamismo e a importância que caracterizou a sua criação nesse ano distante de 1915.
O nosso estudo incide exclusivamente sobre as origens e a fundação dessa instituição.

O primeiro apelo para a criação de uma Caixa de Crédito Agrícola no concelho de Torres Vedras surgiu nas páginas do semanário “Folha de Torres Vedras”, na sua edição de 23 de Abril de 1911, na sequência da divulgação do então recém publicado decreto de 1 de Março 1911, da autoria do ministro do Fomento Brito Camacho, que definia a criação do crédito agrícola em Portugal[1].
Foi só a partir de 1914 que se concretizaram as condições para a fundação de uma instituição desse tipo, ”uma das belas e utilíssimas instituições da República”[2].
Logo em Janeiro deste ano, num artigo de Tiago Sales publicado nas páginas da “Vinha...”, a propósito da proposta de criação de um sindicato agrícola em Torres Vedras, este defendia que, após a fundação de tal instituição devia seguir-se a organização de uma Caixa de Crédito Agrícola, como complemento daquele.[3]
Ainda no final desse mês aquele semanário transcrevia, na sua primeira página, um artigo, da autoria de J. M. d’ Assunção, que tinha sido publicado no diário republicano “A Lucta”, intitulado “Caixas de Crédito Agrícola Mutuo”, onde se divulgava e fazia a apologia de tais instituições, definindo-as como “associações de natureza e índole cooperativa, compostas só por agricultores, as entidades intermediárias de que o Estado se serve para mutuar á lavoura o milhão e quinhentos mil escudos que constitui o fundo especial de crédito agrícola criado pelo decreto de 1 de Março de 1911”.[4]
As primeiras convocatórias para a fundação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras associaram desde logo a criação dessa instituição com a criação de uma Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, como se pode ler nas convocatórias publicadas nas páginas da “Vinha...” durante o ano de 1914 para a fundação e organização de tal sindicato.
Em Março a “Vinha...” publicava o projecto de estatutos da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras, onde se definiam como objectivos:
“1.º Emprestar aos sócios, para fins exclusivamente agrícolas, os capitais de que necessitem e de que a instituição possa dispor.
“2.º Receber por empréstimo do Estado, dos sócios ou de terceiras pessoas, capitais que em operações de crédito agrícola possa empregar.
“3.º Receber dinheiro em depósito, a prazo ou à ordem, tanto dos associados como dos estranhos á associação, pagando-lhes os juros convencionados , mas nunca superiores a 4 por cento ao ano.”
Podiam ser sócios da Caixa de Crédito os agricultores de maior idade que directa “ou efectivamente explorem a terra a dentro da circunscrição da Caixa”, sócios do Sindicato Agrícola de Torres Vedras, “solventes, honestos e trabalhadores”, e que pagassem no acto de admissão a jóia de 500 réis.
Definiam-se ainda três classes de associados: sócios fundadores, sócios ordinários e sócios adjuntos. Eram fundadores os “sócios do Sindicato Agrícola de Torres Vedras, que subscrevam os presentes estatutos”, ordinários “os demais sócios do Sindicato Agrícola de Torres Vedras que adiram aos presentes estatutos”, adjuntos “aqueles que, embora não proprietários, explorem a terra como rendeiros, meeiros, etc.”.[5]
No dia 31 de Janeiro de 1915, na Assembleia Geral do Sindicato Agrícola, é avançada a hipótese de rapidamente se concretizar a fundação da Caixa Agrícola, em face de um ofício do Inspector da Junta de Crédito Agrícola que se oferecia para auxiliar o sindicato na organização da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, sendo logo aí decidido dar poderes à direcção do sindicato “para obter todas as informações necessárias e diligencias tendo em vista tal objectivo”[6].
Em Abril, “A Vinha...” anunciava a iniciativa da direcção do Sindicato Agrícola de, ao longo desse mês, assentar na criação da Caixa de Crédito Agrícola, “outra instituição de vastíssimo alcance, que irá funcionar ao lado do Sindicato”[7].
Finalmente, em Junho de 1915, a “Vinha...” dava “a boa nova aos” seus leitores de ter sido “assinada no cartório do notário Teodoro da Cunha, a escritura da constituição da Caixa de Crédito Agrícola, que funcionará a par do Sindicato Agrícola de Torres Vedras, como complemento indispensável a esta útil forma associativa dos nossos agricultores”[8].
Na mesma escritura, efectuada a 8 de Junho, consignou-se a constituição dos corpos gerentes até ao final do ano corrente de 1915:
Direcção:
Filipe de Vilhena;
Artur Gouveia d’Almeida;
José Augusto Lopes Júnior.
Conselho Fiscal :
José Joaquim de Miranda;
David Simões;
Alberto Gomes Pedreira.
Foram testemunhas desse acto Fernando d’ Oliveira Mota, caseiro, e António Antão de Carvalho, comerciante, ambos moradores na vila.
Estiveram ainda presentes nesse acto, para além das personalidades acima referidas, Francisco Avelino Nunes de Carvalho, Henrique Maria Pedreira Vilela, João Germano Alves, Francisco Alberto de Bastos, Afonso Avelino Pedreira Vilela, Bernardino Soares d’ Almeida e António Marques Trindade [9].
O primeiro empréstimo efectuado pela Caixa Agrícola de Torres Vedras realizou-se no dia 10 de Dezembro de 1915, na importância de 800$00, data do início do funcionamento dessa instituição de crédito, “o qual foi iniciado com o cadastro social de 1:542$67 escudos”, tendo efectuado, até ao primeiro trimestre de 1916, 33 empréstimos.
O crescimento das actividades do Sindicato e da Caixa Agrícola levaram a “Vinha...” a alertar para a necessidade de se procurar uma sede compatível com esse crescimento. Inicialmente a sede do sindicato agrícola começou por funcionar no “pequeno escritório particular” de Júlio Vieira, cedido gratuitamente para esse fim. No início de 1916 a sede daquelas instituições funcionava numa casa arrendada, que não correspondia às necessidades do seu crescimento.
Por isso tornava-se urgente uma nova sede onde se instalasse o escritório do Sindicato, conjuntamente com o escritório da Caixa de Crédito Agrícola, “uma sede onde exista um gabinete para a direcção poder funcionar e onde haja uma sala para as reuniões da assembleia geral, ao mesmo tempo que nela se possa instalar um laboratório e Ter permanentemente uma exposição de alfaias agrícolas”.
Para obviar o inconveniente de Torres Vedras ser então uma terra “onde não se encontra facilmente uma casa para alugar”, propunha-se que se emitissem 400 títulos de dívida, no valor de “dez escudos cada um, vencendo o juro anual de 4,5% e amortizáveis também anualmente” para serem adquiridos por sócios do sindicato, a fim de se obter os 4 contos calculados como necessários para a edificação da sede “do Sindicato e Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras”. Quanto ao lugar onde se devia construir a sede a “resposta é fácil, porque, enquanto não forem rasgadas as novas avenidas que a câmara municipal projecta, de acordo com a família Carvalho Martins, desde a Avenida 5 de Outubro até à Fonte Nova, um ponto só existe, onde essa nova construção ficará bem e embelezará o local (...) e que é no angulo ao princípio da Avenida 5 de Outubro, quase em frente do Hotel Natividade e a fazer esquina para a primeira Avenida que fica correndo ao poente do edifício escolar em construção”[10].
Em 1916 o Senado municipal, na sua reunião de 10 de Abril, uma segunda-feira, concedeu ao sindicato agrícola um terreno na Avenida 5 de Outubro para construir a sede do sindicato e da caixa[11].
A essa reunião compareceu uma comissão de vários “cavalheiros” , representando os corpos gerentes do Sindicato e da Caixa Agrícola, cabendo a Júlio Vieira a responsabilidade de apresentar, perante o Senado, os seguintes argumentos em defesa do referido projecto:
“As sabias leis do crédito agrícola promulgadas pela República, vieram contribuir soberanamente para o fomento do principal ramo da riqueza nacional – a agricultura- desenvolvendo e multiplicando nos últimos quatro anos os sindicatos agrícolas que estão irradiando de todos os pontos do país (...).
“À sombra protectora oficial, nasceram o Sindicato e a Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, instituições recentes que se estão desenvolvendo para benefício da agricultura do nosso concelho (...).
“É intuitivo que para acompanhar o desenvolvimento destas instituições de crédito e fomnto agrícola, se necessita alargar os meios da sua existência, e, entre eles, o que presentemente avulta como principal, é a construção de uma sede onde se possam activar todos os trabalhos necessários ao bom andamento e progresso destes dois ramos de fomento da riqueza pública.
“Esta sede, que deverá abranger as instalações próprias para o movimento desta natureza, compreenderá também salas para exposições de alfaias agrícolas permanentes, e para igualmente se efectuarem as tão interessantes e educativas exposições regionais agrícolas, incluindo laboratórios e pequeno campo experimental para determinados ensaios.
“Dado o belo e grandioso projecto desta câmara municipal, em rasgar as ruas e avenidas no campo de S. João, para o necessário alargamento da vila, nenhum outro local como esse se presta para a construção da sede do Sindicato e Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, o qual virá ainda em auxílio da estética e embelezamento da Avenida Cinco de Outubro, e da rua lateral, lado nascente do edifício escolar em construção.
“Posto isto (...) vêem os corpos gerentes do Sindicato e Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras, solicitar do digno Senado da Câmara Municipal deste concelho, a cedência gratuita do terreno necessário para a construção da referida sede”.
Após a leitura do documento, Júlio Vieira apresentou aos senadores “uma planta do terreno de que se compõe toda a Alameda de S. João, com frente para a Avenida [ 5 de Outubro] , com o esboço da nova Avenida e ruas projectadas, trabalho levado a efeito e a seu pedido, pelo nosso amigo e inteligente artista, sr. Francisco Maria Peres”.
Por unanimidade, aprovaram os senadores presentes “a cedência do terreno ao lado do edifício escolar”. Este referido “edifício escolar” é aquele onde durante anos funcionaram várias escolas de Torres Vedras e onde actualmente estão instalados a Câmara e a Biblioteca Municipais.
O terreno foi cedido gratuitamente na “quantidade mínima de 30 metros de frente e 60 metros de fundo”.
Registe-se, a título de curiosidade, os nomes dos senadores presentes nessa sessão e que aprovaram essa decisão:
Francisco Avelino Nunes de Carvalho; Germano C. de Araújo; Álvaro Lafaia; David Simões; Francisco Firmino; Januário da Silva Lucas; João Anastácio de Oliveira; João Baptista Carneiro Canha; João de Carvalho Ribeiro; Joaquim da Silva; José Bento Garcia; Justino Alves de Almeida; Miguel José Afonso; Romão da Costa Lopes; Venceslau dos Santos[12].
Contudo, em Dezembro desse ano, ainda aquelas instituições não se tinham instalado na Avenida 5 de Outubro, mudando-se para a rua Tenente Valadim, “no prédio onde esteve instalado ultimamente o quartel general”. Nesse prédio passou a funcionar a sede do Sindicato, a Caixa de Crédito Agrícola e a sede da Federação do Sindicato Agrícola Leiria-Lisboa [13].

Breve resenha biográfica das figuras torriense que contribuíram para a fundação da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

Procuramos apenas registar alguns pequenos dados biográficos sobre personalidades que, de algum modo, estiveram na origem e fundação da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras.
Não se procurou construir uma biografia exaustiva. Apenas reunimos algumas informações sobre a sua profissão, morada, idade provável, posição e cargos políticos e funções exercidas no sindicato e na caixa agrícola por volta de 1915.
Algumas das personalidades aqui registadas vieram a exercer em anos posteriores importantes funções associativas, políticas, culturais e/ou profissionais. Com raras excepções, aqui apenas registámos o que de mais importante fizeram até ao início do funcionamento da Caixa Agrícola.
O critério para a elaboração desta lista teve por base a sua participação como associados e/ou em orgãos de gestão nos primeiros tempos do Sindicato e da Caixa Agrícola, ou na tomada de posições públicas sobre a organização destas instituições.

· Dr. Afonso Avelino Pedreira Vilela - Médico de Torres Vedras. Tinha 28 anos em 1915[14]. Foi o primeiro presidente da Assembleia Geral do Sindicato Agrícola. Nesse cargo foi reconduzido para a segunda direcção que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº9 da Caixa Agrícola.

· Alberto Gomes Pedreira – Proprietário da Quinta do Infesto, no Turcifal. Tinha 28 anos. Foi escolhido, em 1915, para o concelho fiscal da primeira direcção da Caixa Agrícola de Torres Vedras, da qual foi sócio fundador nº10.

· Albino Duarte Vieira – Fazendeiro do Casal das Quartans, junto à saída sul de Torres Vedras. Tinha 35 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· António Ferreira Nunes - Proprietário de Matacães, de 50 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· António Germano Pedreira Vilela – Proprietário do Infesto, Turcifal, de 34 anos. Monárquico. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· António Inácio Pereira – Proprietário da Ordasqueira, Matacães, de 46 anos. Monárquico. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras. Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como suplente do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato. Tornou-se membro efectivo do conselho fiscal na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· António Marques Trindade – Comerciante de Torres Vedras, de 51 anos. Republicano. Pertencia ao Partido Evolucionista. Foi vereador da Câmara durante a efémera comissão municipal imposta pelo governo de Pimenta de Castro. Foi o sócio fundador nº14 da Caixa de Crédito Agrícola de Torres Vedras.

· António Romão - Do Paúl. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· António dos Santos Sala – Proprietário da Freixofeira, Turcifal, de 59 anos. Ex-militante do Partido Republicano Português tinha sido membro da comissão administrativa da Câmara Municipal imposta pelo governo de Pimenta de Castro e afastada após a Revolução de 14 de Maio de 1915. Foi eleito como suplente do conselho fiscal na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· Artur Gouveia d’ Almeida – Lojista e proprietário de Torres Vedras, de 36 anos. Republicano. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito secretário da Assembleia-Geral dos primeiros corpos gerentes do Sindicato Agrícola. Foi escolhido, em 1915, para a primeira direcção desta Caixa Agrícola, da qual foi o sócio fundador nº6 .

· Augusto Maria Franco - Proprietário da Ponte do Rol, de 35 anos. Republicano do Partido Evolucionista. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como suplente do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato, cargo que manteve na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· Dr. Aurélio Ricardo Belo – Médico militar do Maxial, de 40 anos. Militante do Partido Republicano Português. Primeiro secretário do Senado Municipal entre 1914 e 1917. Foi administrador do concelho em Maio de 1915, nomeado pelos revolucionários do 14 de Maio. Foi o último administrador do concelho do regime republicano. Tornar-se-ia famoso pelos seus estudos arqueológicos sobre a região. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Bernardino Soares d’Almeida – Lojista e proprietário de Torres Vedras, de 62 anos. Ex-monárquico, era membro do Partido Evolucionista em 1915. Foi eleito como membro substituto da primeira direcção do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi o sócio fundador nº12 da Caixa Agrícola de Torres Vedras.

· David Simões – Farmacêutico e proprietário de Torres Vedras, de 63 anos. Histórico do Partido Republicano Português. Foi o primeiro administrador do concelho após a proclamação da República. Era presidente eleito da Câmara Municipal desde 1914, cargo que exerceu até 1917. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito vice-presidente da Assembleia –Geral dos primeiros corpos gerentes eleitos do Sindicato Agrícola. Foi escolhido, em 1915, para o concelho fiscal da primeira direcção da Caixa Agrícola de Torres Vedras, da qual foi sócio fundador nº11 .

· Filipe de Vilhena – Proprietário da Quinta do Calvel, de 37 anos. Militava no Partido Republicano Português. Foi administrador do concelho em 1911. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras. Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi nomeado de entre e pelos sócios fundadores desse Sindicato para a comissão de três lavradores responsável por preparar a legalização e a fundação dessa instituição. Foi eleito como vice-presidente da Assembleia Geral da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi escolhido, em 1915, para a primeira direcção desta Caixa Agrícola, sendo o seu sócio fundador nº4.

· Fernando de Carvalhosa – viticultor da Ordasqueira, Matacães, de 26 anos. Monárquico. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras. Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como efectivo do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato.

· Francisco Alberto de Bastos - Proprietário de Torres Vedras, de 39 anos. Monárquico. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi nomeado para a comissão de três lavradores responsável por preparar a legalização e a fundação dessa instituição. Foi eleito como membro efectivo da primeira direcção do sindicato. Foi eleito como membro efectivo do conselho fiscal na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº8 da Caixa Agrícola.

· Francisco Avelino Nunes de Carvalho – Proprietário de Torres Vedras, de 60 anos. Ex-monárquico, membro do Partido Republicano Português. Presidente do Senado Municipal. Era um dos 4 maiores contribuintes do concelho de Torres Vedras. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi nomeado para presidir à comissão de três lavradores responsável por preparar a legalização e a fundação dessa instituição. Foi eleito como membro efectivo da primeira direcção do sindicato e como presidente da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº1 da Caixa Agrícola.

· Francisco dos Santos Bernardes - Proprietário de Torres Vedras, com 67 anos. Monárquico. Era um dos 10 maiores contribuintes do concelho. Foi eleito como suplente da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· Francisco Inácio – Proprietário de Matacães, de 48 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Henrique Maria Pedreira Vilela – Proprietário do Turcifal, de 29 anos. Monárquico. Foi eleito como membro substituto da primeira direcção do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como tesoureiro da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº3 da Caixa Agrícola.

· Dr. Hermínio Duarte Ferreira – Médico e proprietário de Dois Portos, com 59 anos. Monárquico. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Honorato de Lima Lopes – Proprietário de Torres Vedras, de 34 anos. Republicano histórico, militando em 1915 no Partido Evolucionista. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras . Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Januário da Silva Lucas – Comerciante da Freiria, de 43 anos. Membro do Partido Republicano Português. Vereador do executivo camarário. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· João Cândido Franco – Fazendeiro do Ramalhal, de 50 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· João Ferreira Guimarães Júnior - “Guarda-livros” , negociante e comerciante de Torres Vedras, de 62 anos. Ex-monárquico, aderiu à República, militando então no Partido Evolucionista. Foi efémero Presidente da Câmara durante a ditadura de Pimenta de Castro, nos primeiros meses de1915.Voltou a exercer as funções de vereador durante a ditadura de Sidónio Pais. Foi eleito como suplente da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· João Germano Alves - Comerciante de Torres Vedras, de 33 anos. Foi eleito como suplente da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº7 da Caixa Agrícola.

· João Nicolau dos Santos Júnior – Proprietário de Moçafaneira, S. Mamede da Ventosa, de 27 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Joaquim da Costa Melícias – Proprietário do Casal dos Palheiros, de 42 anos. Monárquico. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como suplente do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato, cargo que manteve na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· Joaquim Jerónimo Rosa – Proprietário de Torres Vedras, republicano, de 57 anos. Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como efectivo do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato.

· Joaquim Maria Franco Sobrinho – Proprietário do Ramalhal, de 47 anos. Republicano. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Joaquim Rodrigues Quitério – Lojista da Freiria, de 42 anos. Republicano histórico. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· José Agostinho Alves Ginja – Proprietário da Ribaldeira, de 52 anos. Monárquico. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· José Antunes Martins – Proprietário do Ramalhal, de 37 anos. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras. Foi eleito como efectivo do conselho fiscal nos primeiros corpos gerentes eleitos do sindicato, cargo que manteve na segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· José Augusto Lopes Júnior - Proprietário de Torres Vedras, de 26 anos. Foi escolhido, em 1915, para a primeira direcção da Caixa Agrícola de Torres Vedras da qual foi sócio fundador nº13 .

· José Joaquim de Miranda – Proprietário de Torres Vedras, de 45 anos. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras. Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como membro substituto da primeira direcção do sindicato. Foi eleito primeiro secretário da Assembleia Geral da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi escolhido, em 1915, para o concelho fiscal da primeira direcção desta Caixa Agrícola, instituição da qual foi o sócio fundador nº5 .

· José Manuel de Carvalho Roxo – Funcionário da Câmara de Torres Vedras, de 51 anos. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito para secretário da Assembleia Geral na primeira direcção eleita do sindicato. Foi eleito como segundo secretário da Assembleia Geral da Segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras.

· Júlio do Nascimento Vieira – Proprietário e comerciante de Torres Vedras, de 38 anos. Republicano histórico, não estando então ligado a qualquer partido político. Dirigia desde 1913 o jornal “A Vinha de Torres Vedras”, após a fusão deste com a “Folha de Torres Vedras”, histórico jornal republicano dirigido por Júlio Vieira desde 1907. “A Vinha...” foi o principal orgão de propaganda e divulgação das actividades do sindicato e da caixa agrícola de Torres Vedras. Ficou conhecido pelos seus trabalhos de investigação histórica. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras. Foi eleito como membro efectivo da primeira direcção do sindicato e como secretário da segunda direcção eleita do Sindicato Agrícola e que foi a responsável pela fundação da Caixa de Crédito Agrícola de T. Vedras. Foi o sócio fundador nº2 da Caixa Agrícola.

· Dr. Justino Xavier da Silva Freire – Médico de Torres Vedras, de 69 anos. Monárquico. Era um dos 40 maiores contribuintes do concelho. Não sendo sócio fundador, foi um dos primeiros a associar-se no Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

· Miguel José Afonso - Proprietário de Abadia, Matacães, de 68 anos. Membro do PRP. Vereador do executivo municipal. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· Tiago César Moreira Salles – Médico e proprietário da Lourinhã. Republicano histórico, foi eleito deputado às constituintes de 1911 pelo círculo de Torres Vedras. Fundador do Sindicato Agrícola da Lourinhã, foi o primeiro a sugerir, em artigo de opinião publicado no jornal “A Vinha de Torres Vedras”, logo em Janeiro de 1914, a fundação de um sindicato agrícola em Torres Vedras e da respectiva Caixa de Crédito Agrícola.

· Valério da Costa – Proprietário de Dois Portos, de 54 anos. Republicano histórico. Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras.

· Vasco de Moura Borges – Proprietário da Quinta de Paio Correia, freguesia de A-Dos-Cunhados, de 37 anos . Sócio fundador do Sindicato Agrícola de T. Vedras .Foi um dos primeiros sete proprietários a aderir publicamente à criação do Sindicato Agrícola de Torres Vedras.

Conclusão

Limitou-se este trabalho a traçar, de forma genérica, a conjuntura e os primeiros passos de uma instituição que soube atravessar as vicissitudes de um século marcado por grandes convulsões históricas, políticas, culturais, sociais e económicas.
Torna-se agora necessário procurar alargar esse estudo à forma como esta instituição evoluiu num tão longo período histórico e como se soube adaptar às mudanças, que foram acentuadamente dramáticas num sector que esteve na sua raiz, o sector agrícola.
Talvez o segredo tenha residido na forma como Caixa Agrícola se soube integrar no tecido local e regional, sendo essa ligação e proximidade uma das originalidades dessa instituições financeira.
Esperamos com este trabalho abrir as portas a futuros trabalhos de investigação sobre a evolução e o impacto na região de uma tão original instituição.

(excertos de um estudo, mais vasto, publicado em Abril de 2005, a pedido da administração daquele banco e publicado no relatório e contas desse ano)

[1] Diário do Governo nº 49 de 2 de Março de 1911, pp.890 a 894.
[2] “A Vinha de Torres Vedras”, 20 de Abril de 1916.
[3] “A Vinha de Torres Vedras”, 15 de Janeiro de 1914.
[4] “A Vinha de Torres Vedras”, 29 de Janeiro de 1914.
[5] “A Vinha de Torres Vedras”, 5 de Março de 1914.
[6] Resenha Histórica [da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras], organizada pelo Dr. Jacinto Leandro [2004].
[7] “A Vinha de Torres Vedras”, 1 de Abril de 1915.
[8] “A Vinha de Torres Vedras”, 17 de Junho de 1915.
[9] Título de constituição da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras, cartório do escrivão-notário Teodoro da Cunha de Torres Vedras, 8 de Junho de 1915.
[10] “A Vinha de Torres Vedras”, 17 de Fevereiro de 1916.
[11] Relatório da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras in “A Vinha de Torres Vedras”, 13 de Julho de 1916.
[12] “A Vinha de Torres Vedras”, 13 de Abril de 1916.
[13] “A Vinha de Torres Vedras”, 7 de Dezembro de 1916.
[14] As idades referidas, daqui para a frente, repostam-se à situação em 1915, ano da fundação da Caixa de Crédito de Torres Vedras, e o seu cálculo tem por base os dados dos cadernos eleitorais da época, existentes no Arquivo Histórico Municipal de Torres Vedras , podendo haver um desvio de, pouco mais ou menos, um ano.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "Fontes Medievais de História Torreana"


TÍTULO – “Fontes Medievais de História Torreana – Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo copiados por J.M.Cordeiro de Sousa da Academia Portuguesa de História”.

AUTOR - SOUSA, J. M. Cordeiro de.

ANO – 1957.
EDIÇÃO – Câmara Municipal de Torres Vedras, na tipografia da Gráfica Torriana
LOCAL-Torres Vedras
PREÇO – Não refere
Nº de PÁGINAS – 188

GRAVURAS – Nenhuma
FOTOGRAFIAS- Nenhuma
GRÁFICOS- Nenhuma
MAPAS- Nenhuma

TEMA- Transcrição de 112 documentos medievais, desde o reinado de D. Dinis até ao reinado de D. Manuel, existente na Torres do Tombo, sobre Torres Vedras, já anteriormente publicados pelo autor nas páginas do jornal “Badaladas”, desde Julho de 1950.

CAPÍTULOS – Documentos (D. Dinis – 13 documentos; D. Afonso IV – 6 documentos; D. Pedro I – 7 documentos; D. Fernando I – 9 documentos; D. João I – 17 documentos; D. Duarte – 6 documentos; D. Afonso V – 29 documentos; D. João II – 8 documentos; D. Manuel I – 17 documentos); – Índices : I - documentos; II – Onomástico; III – Cargos, Títulos, Ofícios, etc.; IV – Locais de Torres Vedras e Seu Termo; Erratas.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Joshua Benoliel: na PhotoEspaña 2009...e em Torres Vedras em 1908

Uma das Exposições integradas na PhotoEspaña 2009, que abre hoje oficialmente, é dedicada ao pioneiro da fotografia em Portugal Joshua Benoliel.
Como fotógrafo de "O Século" e da "Ilustração Portugueza", acompanhou os grandes acontecimentos do início do século XX.
Numa dessas ocasiões, quanndo da visita do rei D. Manuel II a Torres Vedras, em Agosto de 1908, integrada nas comemorações do primeiro centenário da Batalha do Vimeiro, Joshua Benoliel fotografou alguns dos momentos dessa visita, publicados na edição de 31 de Agosto de 1908 da "Ilustração Portugueza", e que passamos a divulgar:

O povo de Torres Vedras aguarda, frente à estação do caminho de ferro, a chegada do rei, no final da então Av. Casal Ribeiro (actual Av. 5 de Outubro).


A comissão promotora das comemorações da Batalha do Vimeiro, aguarda a chegas do monarca, na estação ferroviária de Torres Vedras. Entre eles pode ver-se o padre Francisco António da Silva, presidente da câmara torriense.


Os franciscanos do Varatojo, na mesma ocasião, na estação feroviária.


A chegada de D. Manuel II a Torres Vedras, ainda dentro do comboio.



D. Manuel II percorre a pé o Largo do Município de Torres Vedras.
("Clichés" de Joshua Benoliel)




terça-feira, 2 de junho de 2009

Para a História Urbana de Torres Vedras - Praça da República

Durante séculos esta praça representava o limite sul da vila de Torres Vedras, antecedendo a "Porta de Santana".
Era conhecida pela designação de "Outeirinho", embora também apareça com a designação de de largo do Espírito Santo, pelo facto de aí se situar o Hospital do Santo Espírito, no lugar onde se estabeleceu mais tarde o Hospital da Misericórdia.
A partir dos finais do século XIX confundia-se com o Largo da Graça, nas suas varidas designações, até se fixar com a actual designação, quando se inaugurou a Praça do Império junto ao Jardim da Graça, aí pelos anos 40 do século passado.
Nesse largo desembocam três das mais antigas e importantes ruas da cidade (Rua da Olaria, Rua Serpa Pinto e Rua 9 de Abril), como a Av. 5 de Outubro desde os finais do século XIX.
Popularmente é muito conhecida, ora pelo Largo do Império, ora por Largo da Havaneza, por causa dos dois famosos cafés aí localizados.

A Praça da República há cerca de cem anos....



.... e na actualidade

domingo, 31 de maio de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - Maio de 1889

O semanário “Voz de Torres Vedras” (VTV), na sua edição de 11 de Maio, anunciava várias “obras municipais”, empreendidas pela Câmara, consideradas de “bastante utilidade”. Para além “da arborisação nos terrenos adjacentes ao largo da Graça e Avenida, e de ter augmentado a já existente nas praças e alamedas, mandou calçar a viella mais immunda que havia na Porta da Várzea, e igualmente as ruas próximas, que no inverno eram verdadeiros lamaçaes”. Considerando estes melhoramentos “já muito, em relação ao costume”, achava, contudo, que não era ainda o suficiente, pois “a hygiene da villa está reclamando outras medidas.
Nessa mesma edição, onde se anunciava a edição em Portugal da obra de “Frederico Engelo” (sic), “o Socialismo utópico e o socialismo scientifico”, dava-se conta dos graves efeitos sociais da crise vinícola que então se vivia na região, informando-se que na Freguesia da Carvoeira e na vizinha Merceana, se estavam a retirar “para os arrabaldes de Lisboa muitos indivíduos em procura de trabalho, que n’aquelles logares escasseia”, sendo o pouco existente “mal retribuído (…), pois que é de 240 réis o salário que os proprietários estão pagando”.
Já na sua edição de 9 de Maio, o semanário “A Semana” dava conta do mesmo problemas, referindo que os “trabalhadores de enchada, que no anno passado venciam 400 réis, o mínimo, por dia, no presente pagam-se a 200 réis, e não há em que os empregue”.
Nesta mesma edição, referia-se como uma das principais causas da crise na região a falta de trabalho na viticultura, porque “os poucos vinhos que se recolhem nas adegas, não teem sahida, e quando a encontram é por preço tão baixo, que ficam os proprietários da mesma sorte desaremediados”, lamentando-se o articulista com a “crise medonha”, a vida caríssima e a paralisação do comércio.
Na sua edição de 25 de Maio, o mesmo semanário dava conta das queixas que lhe tinham chegado da “classe trabalhadora” do concelho que, recorrendo “ao seu importante jornal para a advogar na terrível crise de trabalho que estamos a atravessar”, e que a obrigaria a emigrar, “caso as obras públicas não abram trabalhos”. E exemplificava com as obras necessárias da estrada de S. Pedro da Cadeira, “que parece que mais uma vez ficou no esquecimento, e que podia na presente crise mitigar a fome a muitas famílias, se os influentes eleitoraes se lembrassem d’este triste povo, como se lembram quando precisam do seu voto para os arranjos”. Ontem, como Hoje…
S.Pedro da Cadeira era igualmente motivo de notícia noutra parte dessa edição, pelo facto de, por iniciativa dos taberneiros daquela aldeia, ter sido apresentado um abaixo assinado requerendo ao Cardeal Patriarca para ordenar “a transferência da missa conventual, para as 11 horas da manhã, isto é, pouco depois do almoço, visto que, como agora succede, sendo a missa pouco depois do sol nado, os devotos em jejum não fazem gasto” nas ditas tabernas, prejudicando o negócio.
Um anúncio publicado na edição de “A Semana” de 9 de Maio indicava a abertura, no Colégio de Nª Srª da Conceição, na Travessa da Olaria, nº 22, de uma classe infantil onde se leccionavam as primeiras letras pelo “methodo Simões Raposo”, ao preço de 500 réis.
Ainda na mesma edição, informava-se que constava que se ía estabelecer “uma escola municipal de instrucção secundária em Torres Vedras, onde se leccionará portuguez, francez, arithmetica, desenho e escripturação commercial”, a funcionar “na camerata do edifício da Graça”.
No mesmo edifício do antigo Convento da Graça foi deliberado, em reunião camarária desse mês que “se desse incremento aos trabalhos de adaptação da parte” desse edifício “destinado à cadeia civil, afim de serem para ali transferidos os presos, o mais depressa possível” (A Semana, 9 de Maio).
26 de Maio era dia de festa no Turcifal, dedicada a S. Sebastião, com arraial, “tocando a phylarmonica da Ermejeira, e subindo no ar innumeros foguetes de óptimo effeito” (VTV, de 25 de Maio).

sábado, 30 de maio de 2009

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses

Nesta data, mas em 1834, era publicado o decreto de extinção dos conventos, obrigando ao seu encerramento e à "nacionalização" dos seus bens.
A propósito dessa data, recordamos hoje algumas informações sobre os conventos existentes à data neste concelho.

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento do Varatojo

(Fotografia pertencente à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, da autoria de Mário Novais)


O Convento do Varatojo foi inaugurado em 4 de Outubro de 1474.
A iniciativa de o fundar pertenceu a D. Afonso V, que em 1470, tomou essa decisão, escolhendo o lugar do Varatojo porque o monarca aí possuía uma Quinta que adquiriu por 35$000 réis.
Em Fevereiro de 1470 aí se deslocou aquele monarca em procissão solene, para o lançamento da primeira pedra do convento.
Ficou como responsável pela obra e pela sua inspecção Diogo Gonçalves Lobo, que tinha sido vedor da rainha D. Leonor, ao qual o monarca ordenou “que pusesse toda a eficácia (...) sahindo do Real Erário todas as despesas da mesma: Para effeito de se pôder concluir a obra o mais depressa, e com mais suavidade, e também para que os lavradores mais facilmente, e mais gostosos concorressem para ella com seus carros, lhes fez o Rei sempre generoso a grande mercê de alivia-los em grande parte do oneroso tributo, que pagavão chamado jugada, em quanto durasse a obra” (1).
A jugada era um tributo que os lavradores do concelho pagavam, um moio de trigo por cada junta de bois.
O mesmo Gonçalves Lobo representou o rei à data da inauguração, por impossibilidade da sua presença nessa ocasião, dando posse do convento aos 14 religiosos vindos de Alenquer na companhia do Vigário Provincial dos Religiosos Franciscanos. Frei João da Póvoa, e nomeando Fr. Alvaro de Alenquer primeiro guardião do convento.
D. Afonso V reservou para si um modesto aposento, ao qual se recolhia frequentemente, passando aqui grande parte dos seus últimos anos de vida, [faleceu em 1481] assistindo à missa de uma tribuna junto ao coro, quase em frente ao púlpito. No final dos seus dias entregou o governo ao seu filho D. João, “com tenção de viver em Varatojo, no humilde estado de irmão leigo” (Frei Manuel de Maria Santissima) e só por acaso não veio a falecer neste convento (faleceu em Sintra).
Manuel Clemente afirma que “o conventinho inicial mal daria para albergar vinte e cinco frades. No século seguinte, D. João III teve de o acrescentar e a sua esposa D. Catarina construiu uma nova capela-mor na igreja inicial. Assim já pôde albergar cinquenta religiosos, com estudos de filosofia e teologia até 1680”, acrescentando aquele historiador torriense que, “durante este primeiro período, de 1470 a 1680, a estação evangélica do Varatojo chamava gente grada a ouvir os frades e a aprender com eles. Não foi por acaso que as primeiras habitações à volta do convento tenham sido exactamente as desses ouvintes discípulos” (2). Dessas habitações ainda hoje é possível observar as ruínas do paço brasonado dos Andrades.
Em 1680 Frei António das Chagas fundou, neste convento, um seminário.
Vários cronistas da ordem de S. Francisco apontam a existência de um primitivo convento daquela ordem já no século XIII, entre Torres Vedras e a encosta do Varatojo, na várzea do Alpilhão, junto à muralha da vila, conhecido por Ermida de S. Francisco, hipótese até hoje impossível de confirmar.
Em 1834, os frades deste convento conheceram o destino de todos os regrantes do país. Em 1861 seria recuperado pelos franciscanos como seminário, tendo funcionado como escola de instrução primária, a primeira do concelho, para voltar a ser encerrado e nacionalizado em 1910, funcionando aí, até 1928, um asilo de inválidos. Neste ano voltou a ser entregue aos franciscanos, sendo o único convento desta ordem, de todos os encerrados desde 1834, a regressar às suas funções iniciais, sendo hoje o único convento do concelho habitado por frades.

Descrição geral do convento

Foi ampliado ao longo dos séculos.
Já neste século, entre 1903 e 1906, construiu-se um novo andar.

Janela de Canto
Segundo a tradição era desta janela que o rei D. Afonso V falava aos pobres.
Contudo essa janela é obra mais tardia, posterior ao reinado de D. João II.

Capela de Nª Senhora do Sobreiro
Á entrada, do lado esquerdo, em frente à entrada da Igreja.
Foi construída em 1777.
Deve o seu nome ao facto de a Imagem da Senhora ter sido descoberta, segundo reza a tradição, na cavidade de um robusto sobreiro, na mata do convento.
Talha dourada , mármores e colunas, fazem parte do seu interior.
No coro alto destacam-se os azulejos com molduras roxas e amarelas, com cenas da vida da Virgem até ao nascimento de Cristo, num conjunto de seis painéis.
Nas paredes, duas telas do século XVIII: Assunção e Coroação da Virgem.

Igreja
No portal gótico:
- à direita, o rodízio de D. Afonso V, cercado pelo cordão franciscano. O rodízio de tirar água significa que um monarca deve movimentar-se continuamente ao serviço da nação.
- À esquerda, um baixo relevo gótico de mármore, com as armas do reino sustentadas por dois anjos.
Igreja de uma só nave.
A sua estrutura geral é do século XVII.
As paredes são revestidas por azulejos do século XVIII e nichos para confessionários, cujos azulejos se compõem de motivos alusivos à confissão. Um deles retrata o inferno, representando o estado de um penitente que se confessa bem ,em contraste com o penitente que se confessa bem..
Altares laterais – talha barroca.
Lado do evangelho (à esquerda de quem entre):
- Altar dedicado ao Senhor Crucificado, cuja imagem foi substituída pela do Coração de Jesus em 1883.
Lado da epístola (à direita de quem entra):
- Capela de S. José (?)
- Altar de Nª Srª da Conceição ( ou da Imaculada Conceição) – interessante imagem esculpida
- Capela de Nossa Senhora das Dores – fundada em 1740; painéis de azulejos setecentistas; altar de talha rocaille, com bonitas e pequenas imagens, sobressaindo a de Nossa Senhora das Dores em alto relevo. É nesta capela que, debaixo da mesa do altar, se venera, desde 1870, “em urna de cristal, todo o esqueleto do mártir S. Benedicto, artisticamente composto em cera, e vestido com ricos brocados de cera, oferta da princesa de Portugal, a Infanta D. Isabel Maria (...) filha de D. João VI, ao seu confessor, o conhecido Padre Fr. Agostinho da Anunciação (...) a qual por sua vez a tinha recebido por gentileza do Papa Pio IX, na terceira e última visita que aquela Infanta fizera a Roma” (3)
Púlpito – setecentista, em mármore (em frente ficava a tribuna de onde D. Afonso V ouvia missa).

Capela-Mor:
Abóboda de berço com caixotões
Forro de azulejos do século XVIII com cenas da vida de Stº António, representando alguns dos seus milagres.
Em cima : quatro tábuas do final do século XVI : “Anunciação”, “Adoração dos Reis Magos”, “Adoração dos Pastores”, “Aparição de Cristo”, atribuídos a Grão Vasco.
Ao fundo : retábulo de talha em branco e ouro, com as colunas decoradas com aves, vides e anjos.
Ao centro : tela, da autoria do pintor italiano Braccarelli – “Stº António Perante a Virgem que lhe Entrega o Menino”.

Sacritia
Foi inaugurada em 1732.
Duas tábuas do século XVII: “Milagre da Mula (Santo António)” e “Pentecostes(descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos)”, quadros atribuídos a Grão Vasco.
Silhares de azulejos do século XVIII, cópia das estampas do livro “Escuela del Corazon”, alegoria dos vários estados de alma nas suas ascensões para Deus, legendados com várias quadras.
Armários de parede e grande arcaz setecentista.

Claustro
De tipo gótico.
Arcada ogival assente sobre colunas chanfradas.
O tecto é decorado com o rodízio de D. Afonso V.
Na ala norte, porta manuelina, que dá acesso à capela do Senhor Jesus, forrada com azulejos de ponta de diamante. Aqui encontra-se o panteão da família Soares de Alarcão, que dominaram a alcaiadaria de T. Vedras nos séculos XVI e XVII, para o qual se entra por um magnífico pórtico manuelino. Destaca-se a lápide sepulcral de Gomes Soares, que foi conselheiro de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel..
Nicho de Stº António, com azulejos policromados representando o Santo.
Sala do capítulo: azulejos albarrados do século XVIII ; várias telas com retratos dos priores e figuras ilustres do convento, com destaque para a de “Frei António das Chagas”, tela do final do século XVII.

Cela de Fr. António das Chagas
Tem um pequeno altar, onde se conservam relíquias do santo (?) e vários papéis com a sua assinatura.

Mata
“A cerca do Convento é espaçosa, e comprehende uma boa mata, horta, e vinha povoada de muitas arvores das milhores castas de peras, maças, ameixas, ginjas, e pêcegos, e tambem comprehende diversos taboleiros de pomares d’espinho, sendo bastante conhecidas, e estimadas as limas, que d’elles se colhem” (4).
Nela existem duas capelinhas, uma no sítio do primitivo forno de cal, que funcionou para a construção do convento no século XV, a gruta do “Ecce Homo”, forrada a azulejos, e a primitiva capela da Senhora do Sobreiro, adornada com quatro pequenos painéis que figuram monges em estudo e em contemplação, onde, segundo a lenda, foi descoberta a Imagem de Maria Santíssima com o menino, na cavidade de um centenário sobreiro, escondida aí desde o tempo de D. Afonso Henriques, para escapar á perseguição dos mouros.
“Reconhece-se que não foi plantada esta matazinha, mas fôra um pedaço de monte, cujo mato e arbustos cresceram á mercê da sua natureza, formaram selva, mais ao diante aproveitada para uso dos animais domésticos do primeiro colono, que na encosta daquele monte arroteou e semeou; e mais tarde transformada em recreio do primeiro senhor que ali instituiu Quinta para sua morada” (5).
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(1) Frei Manoel Maria Santíssima, História do Varatojo, 1º volume, 1799
(2) P. Manuel Clemente, “Uma página da história torrense – Varatojo: Centro de Irradicação”, in Badaladas, T. Vedras, 5 de Outubro de 1984.
(3) Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada.
(4) P. Manoel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica (...) de Torres Vedras, 2ª ed., Coimbra, 1862, p.139
(5) Frei Bartolomeu Ribeiro, “Os Franciscanos em Torres Vedras”, in Badaladas, 1953e 1954, ed. Fac-similada.

Para Saber mais:
SILVA, Carlos Guardado da, Torres Vedras Antiga e Medieval, ed. CMTV/Colibri, Lisboa 2008

Ver mais fotografias em http://www.pbase.com/diasdosreis/torres_mosteiro_varatojo

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento de Penafirme

Ruinas do "Convento Velho" de Penafirme.

Igreja do "Convento Novo" de Penafirme


Jorge Cardoso, autor do “Agilogio Lusitano” atribui a fundação do Convento de Penafirme a um eremita germânico, Santo Ancirado, no ano de 850, data discutível, se tivermos em conta que esse eremita faleceu nesse mesmo ano.
Diz a lenda que existia por esses tempos um convento junto a Torres Vedras, nas margens do rio Sizandro mas, porque não podia pagar os impostos devidos aos árabes, que então dominavam este território, eram frequentemente maltratados por estes.
Aquele eremita, então em peregrinação por esta região, conseguiu convencer os religiosos que habitavam esse convento a abandonarem-no e a fundarem outro em local mais seguro.
Escolheram então um local junto ao Oceano e perto da foz do rio Alcabrichel para construírem uma capela de invocação a Nossa Senhora da Graça, que deu origem ao primeiro convento instalado junto ao lugar de Penafirme.
Foi o primeiro agostiniano fundado em Portugal, segundo a opinião dos vários cronistas da Ordem dos Agostinhos Calçados. Contudo esta opinião é discutível, já que “desde os primeiros séculos do cristianismo foram aparecendo pequenas comunidades e conventos de frades eremitas sem se regerem por regras próprias e aprovadas, acontecendo que a partir de certa altura alguns deles adoptaram o nome genérico de “Agostinhos”, mas cujas observâncias eram variadissimas - não significando, portanto, a existência dessa ordem religiosa”.
Só em 1255 é que o Papa Alexandre IV unificou as várias congregações de frades eremitas “de que resultou o código uniforme da Ordem dos Eremitas de St.º Agostinho”(1).
Vários autores, entre os quais Frei Jerónimo Romano, autor de “Centurios da Ordem Agostiniana”, afirmam que o duque de Aquitânia, passando por aquele mosteiro por volta de 1140, em peregrinação para Santiago de Compostela, gostou tanto dele e do lugar onde estava, que por lá ficou alguns anos, mandando reconstruí-lo.
A primeira referência documental à existência desse convento data de 1226. Trata-se de uma doação da câmara de Torres Vedras, citada por Madeira Torres.
Frei António da Purificação, autor de uma das crónicas da ordem de Stº Agostinho, descrevia do seguinte modo o primitivo convento:
“(...) Todo elle é mais pequeno que o mais limitado mosteiro de padres capuchos d’este reino. As cellas não teem de largo mais do que dez palmos craveiros”(2)”, e as janelinhas mais parecem portinholas de navio que janellas. O tecto de cada uma é tão baixo, que eu, com ser de pequena estatura, lhe chego com a mão, posto com os pés no pavimento. O dormitório é tão estreito, que não é capaz de mais passagem, que de duas pessoas somente. A claustra mui estreita, de um só andar e térrea. A igreja e todo o mais edifício em proporção ao que temos representado. E, finalmente, tudo tão tosco e humilde, que tirando os tectos da igreja e sacristia, todos os demais foram de telha vã até ao anno de 1575, rm que o prior, que então era, quiz forrar as cellas e dormitórios, para que os religiosos que estivessem no Verão mais reparados das calmas, e no inverno dos frios” (3).
As precárias condições de vida existentes no primitivo convento levaram os frades a iniciar a construção de um novo edifício em 1597, mas foi só em 15 de Agosto de 1638 que se celebrou missa, pela primeira vez, na nova igreja.
Sobre este segundo convento escreveu Vilhena Barbosa : “ a sua fábrica não tinha sumptuosidade, nem se fazia notar por sua vastidão, antes pelo contrário, era modesta nas proporções e simples na architectura. Porém comparada com a do velho conventinho poderia chamar-se-lhe grandioso”(4). Este segundo convento é o que actualmente se encontra em ruínas, julgando-se que o que está à mostra é apenas o segundo andar do edifício, estando soterrados o rés-do-chão e o primeiro andar, opinião que aguarda a confirmação de um trabalho de pesquisa arqueológica no local.
O período áureo da história de Penafirme parece corresponder ao período de ocupação deste segundo convento, pois foi entre os séculos XVI e XVII que o habitaram alguns frades de renome, como, entre outros, o frei Tomé de Jesus, o frei João Bom, o frei Agostinho da Graça, o frei António de S.tª Maria, o frei João de Estremoz ou o frei Gaspar das Chagas.
Atribui-se geralmente o abandono e ruína deste segundo convento ao terramoto de 1755. Confirmando esta hipótese, refere-se a existência, ainda hoje visível, de uma cruz no topo do monte, a norte das ruínas desse velho convento, que, segundo a voz comum, testemunha “ a morte de um frade que na manhã do Terramoto terá conseguido subir o monte, mas que terá morrido de cansaço ao atingir o cimo”(5).
Se esse convento ainda era habitado à data do terramoto, o seu estado de degradação já era evidente, como é testemunhado, quer por Madeira Torres, ao indicar a fundação do novo convento, o de terceira fundação, num ano entre 1735 e 1755, isto é, antes daquela catástrofe, quer pelo padre António Duarte na sua resposta ao inquérito paroquial de 1758.
Este, na parte em que refere os estragos provocados na freguesia de A-Dos-Cunhados pelo terramoto, afirma que o “ Convento de Pena Firme ficou inabitável, e hum novo, que os Religiosos edificarão junto ao lugar da Póvoa(onde fizerão um hospício em que morão) ficou tão arruinado que he preciso tomar dos fundamentos no que já se trabalha”(6).
Ficamos assim a saber que, quando se deu o terramoto, o convento quinhentista ainda era habitado, tendo ficado destruído nessa ocasião, mas também que já então estava em construção o novo convento, que ficou igualmente destruído.
O avanço natural do areal e o próprio envelhecimento do edifício já tinham iniciado aquilo que o terramoto completou.
O terceiro convento “deveo o seu principio ao provincial Frei António de Souza da Casa de Távora, que por duas vezes foi promovido a esse emprego, e ultimamente ao Bispado do Porto. Apenas se edificou um único dormitório, pelo qual se vê a grandeza, e que a sua fábrica fora desenhada ao gosto d’um fundador capaz de maiores projectos. A igreja aparta-se da architectura ordinária, pois no interno representa um octogono, e apesar de haver sido cortado para limitar despesa, com isso não lhe diminuiu a capacidade, mas sómente a belleza, e regularidade. Sua porta principal é uma obra bem acabada no seu género, e realmente excessiva na perfeição e segurança, e muto mais na somma, que n’ella se diz dispendida”(7).
Poucos anos antes da extinção das ordens religiosas, Madeira Torres descrevia as propriedades do Convento por volta de 1819: “Este Convento tem por património um vasto terreno de legua de comprimento, e quase meia de largura, povoado de varios casaes d’onde recebe rendas e pensões, e tambem cultiva alguns terrenos especialmente de vinhos, resultando-lhe de tudo um rendimento proporcionado a subsistencia de maior Comunidade e susceptivel de grande melhoramento” (8).
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Convento de Penafirme foi vendido “em hasta pública, passando à posse de estranhos, entre eles, o Vice-almirante inglês Jorge Rosa Sertorius, que depois recebeu o título de conde de Penafirme” (9). Também foi seu proprietário José Avelino Nunes de Carvalho, negociante de Torres Vedras, ficando o edifício ao abandono e o seu património sujeito a sucessivos saques.
Mais tarde o edifício foi adquirido pelo pároco de A- Dos- Cunhados José Jorge Fialho e no final dos anos 50 deste século foi restaurado e aumentado com mais um andar “e vários melhoramentos com vista ao seu aproveitamento para a instalação de um seminário menor”(10).
No verão de 1959 foi oficializada a criação do “Seminário-Liceu de Penafirme”, a funcionar nas instalações do convento, tendo-se iniciado o primeiro ano lectivo em Outubro desse ano (11). Em 1975 esse seminário passou a funcionar como externato semi-oficial, sendo hoje uma das escolas mais prestigiadas neste concelho do ensino básico e secundário.
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(1)VITAL, Angelo, “O enigma de Penafirme ou a história do seu convento”, 3 partes, in Badaladas, 9-2-1978,16-2-1978, 23-2-1978.
(2)Dez palmos craveiros correspondem a 2,2 metros, Vital, ob.cit, 16-2-1978.
(3)PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656.Esta obra não está em condições de ser consultada na Biblioteca Nacional, pelo que recorremos à leitura de Vilhena Barbosa, em obra citada na nota 4, p.349.
(4)BARBOSA, J. Vilhena, Estudos Históricos e Arqueológicos, tomo II, ed. 1875, p.351.
(5)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(6)DUARTE, António, resposta ao inquérito paroquial de 1758,in MATOS, Venerando Aspra de, “Torres Vedras e o seu concelho em 1758 (VII parte) - A-Dos-Cunhados (I)”, in Badaladas, 19-1-1990.
(7)TORRES, Manoel Agostinho Madeira, Descripção historica e economica da villa e termo de Torres Vedras, 2º ed., Coimbra 1862 (edição fac-similada, editada pela Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras em 1988),p.134.
(8)TORRES, ob.cit, p.135.
(9)ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958.
(10)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(11)Badaladas, 1-7-1959.

Factos curiosos

“Sómente os frades de Penafirme tinham direito de fornecer o peixe a El-Rei quando ele visitasse esta região” (ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”, in Badaladas, 1-10-1958)

“Nas Termas do Vimeiro, as antigas Fontes de Penafirme, uma das nascentes é dedicada à Rainha Santa (...). A outra nascente tem actualmente a designação de “Fonte dos Frades”, em homenagem aos beneméritos monges Agostinhos, seus primeiros possuidores”(ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958).

No adro do actual convento de Penafirme existe um cruzeiro com a data de 1787

“Frei António da Purificação refere-se (...) à realização, no Convento de Penafirme, “ainda em 1642 e desde tempos imemoráveis”, da festa “da Santíssima Assunção a 15 de Agosto”,
acrescentando que “desta invocação há no altar-mor uma imagem sua, antiga (...) a qual é muito venerada pelos povos circunvizinhos. que todos os anos vêm a este mosteiro celebrar a sua festa com grande devoção e todo o aparato, principalmente os lugares de Rendide, Aldeia Gavinha e Merceana”.(PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656).

Nota: posteriormente à elaboração deste texto, surgiu um estudo mais actualizado e fundamentado sobre este convento, da autoria do Dr. Carlos Guardado Silva:
SILVA, Carlos Guardado da, “O Mosteiro de Penafirme – Das origens ao Século XVI”, in Turres Veteras II – Actas de História Moderna, CMTV, sem data (2000?).



30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento da Graça


O primeiro convento da Graça de Torres Vedras, que já não existe, situava-se na chamada Varzea Grande, em frente à Igreja de Santiago.
A primeira autorização para a sua construção foi dada por D. Afonso III em 1228. Não foi contudo utilizada, pelo que voltou a ser solicitada a D. Pedro I que a concedeu em 14 de Março de 1328.
Só a partir de 1383 existe documentação comprovativa da sua construção, que ainda prosseguia em 1405.
Pouco tempo antes da autorização de D. Pedro, concedeu o papa Urbano V uma bula, datada de 29 de Março de 1364, autorizando a transferência dos eremitas de S.tº Agostinho do convento de Penafirme para o convento a fundar na vila de Torres Vedras.
É a esse desaparecido convento que está ligada a vida de Gonçalo de Lagos, beato, erradamente designado como santo, que foi seu prior entre 1412 e 1422.
A construção do actual convento da Graça teve lugar ao longo do século XVI para substituir o velho convento dos eremitas calçados de S.tº Agostinho.
No lugar onde foi construído o segundo mosteiro existia a gafaria de St.º André, cujo terreno foi doado à ordem agostiniana de Torres Vedras por alvará de D. João III, datado de 26 de Setembro de 1542, para aí se construir o novo convento.
A primeira escritura dessa doação teve lugar a 20 de Outubro de 1544, sabendo-se que em 1566 ainda estava em construção.
Em 1554 os frades ainda viviam no convento velho, como se refere num dos painéis de azulejos que relata a vida de S. Gonçalo.
Talvez tenha sido oficialmente inaugurado em 1559, pois foi neste ano que foi trasladado, do velho convento para o novo, o corpo de S. Gonçalo de Lagos.
Já era habitado nos finais do século XVI, como se comprova pelo facto de existir uma referência à morte de todos os seus frades na chamada “peste pequena” de 1579.
Funcionaram várias escolas no convento: uma de ensino de teologia moral, instituída em 1723 e uma escola pública a cargo dos eremitas fundada em 1780.
Em 1807 foi estabelecido na Igreja um Hospital para as tropas francesas
Por decreto de 30 de Maio de 1834 foi extinto o convento da Graça.
Em 21 de Abril de 1887, a Câmara Municipal comprou parte do edifício da Graça, na posse de um particular, instalando aí vários serviços municipais, a escola primária e a cadeia.
Pelo decreto nº 42007 de 6 de Dezembro de 1958, a Igreja e o Convento da Graça foram classificados como Imóveis de Interesse Público.
A partir de 1983 iniciou-se um movimento para o restauro do edifício. Desde 1992 aí funciona o Museu Municipal e o GAT.

Descrição do conteúdo (elaborado em 1998)

Entra-se para a Igreja por uma uma galilé, aberta em 3 arcos para norte e 2 arcos para nascente, com um Silhar de azulejos de albarrada do século XVIII, com motivos simétricos, com flores e cabeças de anjos.
A Igreja é de uma nave com abóboda de berço, nela existindo 4 capelas laterais de cada lado mais a capela mor. Logo à entrada, na parte superior da parede nascente pode apreciar-se uma bonita mísula barroca do orgão, recentemente restaurada.
Comecemos por descrever as capelas do lado nascente (à esquerda de quem entra), chamado o lado do evangelho:
- na primeira podemos observar o altar com imagem de S. Gonçalo de Lagos e no qual se encontram os restos mortais desse santo, num cofre mandado construir pelo príncipe D. Pedro, marido de D. Maria Iª, em agradecimento pela cura de uma ferida na sua perna, motivando a última trasladação dos restos mortais do santo, efectuada em 1784 ;
- na segunda o altar em talha com o Santíssimo Sacramento, dito do Menino Jesus do Bom Pastor, cuja imagem em marfim se encontra exposta no Museu Municipal;
- a terceira capela é a do Senhor dos Passos, construída em 1668, com altar de mármore embutido e azulejos do séc. XVIII com cenas da paixão ( 2 painéis narrativos da subida para o calvário). Nela existe, na parede da esquerda , uma sepultura dos finais do século XIX de Luiz de Abreu Bulhões (1810-1875) e de Maria da Conceição Bulhões (1816- 1872), antiga família de Trás-os-Montes, para aí trasladados pelos filhos em Março de 1890;
- a quarta é a capela de António Godinho da Cunha e sua mulher, brasonada, datada de 16 de Julho de 1626, com um altar em talha, dedicado a S. Nicolau Tolentino.
Eis-nos agora junto à capela-mor. No altar-mór existem dois espaços vazios onde deviam estar as imagens de Santo Agostinho e de Santa Mónica. No centro deste há uma imagem barroca, estofada, seiscentista, da padroeira da Igreja, N.ª Sr.ª da Graça e no cimo do altar um Crucifixo . Em baixo, ladeiam o coro duas esculturas em madeira, uma de S.tª Gertrudes Magna e outra de Santa Francisca Romana, ambas do séc. XVII, beneditinas, provenientes do convento de S. Bento de Coimbra, obra de Frei Cipriano da Cruz.
Na parede poente da capela-mor está o nicho com o túmulo medieval de S. Gonçalo de Lagos, construído em 1518, para aqui trasladado em 1559. O túmulo é em pedra calcária com estátua jacente num nicho.
Nessa mesma parede existe uma porta de ligação para a ante-sacristial, para a sacristia e para os lavabos, sítios com interessantes painéis de azulejos do século XVIII, narrativos, referentes a frades agostinianos beatificados, um deles datado de 1725.
Voltando à Igreja, falta-nos percorrer as capelas do lado poente, dito da epístola, na direcção da saída para o claustro:
- a mais próxima da capela-mor é a capela de Maria Cabreira e Maria Fróis, filhas de André Cabreira e de Margarida Preto, com brasão, mandada construir a 10 de Junho de 1638 e onde está o altar de Cristo cruxificado;
- segue-se a capela de Mª Serrão Borges e Bartolomeu Pacheco Sande, com brasão, mandada edificar em 20 de Maio de 1644, um dos mais antigos altares da igreja, ainda com traços renascentistas;
- podemos, depois, apreciar a capela de N.ª Sr.ª da Correia, com altar em talha;
- finalmente observamos a capela de N.ª Sr.ª das Dores, com imagem, ladeada, à sua direita por Stª Catarina e à sua esquerda por S. Pedro de Alcantara.
Podemos então sair para o claustro por uma porta lateral. Nele podem ser apreciados os painéis narrativos da vida de Frei Aleixo de Menezes, prior deste convento em 1588, que foi arcebispo de Goa e de Braga, homem de letras e frequentador da côrte de Filipe II. Parte destes azulejos foram retirados do claustro, talvez em 1834, estiveram algum tempo depositados no convento do Varatojo e acabaram no antigo convento franciscano de S. Bernardino, de onde foram recuperados a partir de 1991, para voltarem ao seu lugar de origem.
Será ainda interessante entrar na sala da portaria, que faz ligação entre o claustro e a galilé, com as paredes cobertas por 8 painéis de azulejos, do século XVIII, narrativos da vida de S. Gonçalo de Lagos.

Os Sinos

O som dos sinos da Igreja da Graça, colocados na sua torre, é hoje um dos momentos mais característicos desta cidade.
Em 1962, nela estavam colocados o sino “Santa Rita de Cássia, datado de 1737, o maior de Torres Vedras, com 1 metro de diâmetro, e a imagem da santa gravada, o qual, depois de restaurado, aí se mantém.
Durante anos esteve acompanhado por um outro sino, o “São Nicolau”, datado de 1725, com 0,76 m. de diâmetro, o terceiro maior de Torres, que já estava retirado em 1962.
Existiam mais dois, datados de 1822, mais pequenos. Um destes está actualmente no corredor de ligação à biblioteca do museu.
Actualmente, fazem companhia ao “Santa Rita de Cássia” três novos sinos, aí colocados em 1998, todos datados de 1997.
No exterior da torre sineira está instalado um relógio, que, desde o passado dia 14 de Julho de 1999, voltou a dar horas aos torrienses.

Informação mais aprofundada e actualizada pode ser consultada na seguinte obra:
SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras – a comunidade eremítica e o património, ed. CMTV e Livro do Dia, Torres Vedras, 2007, 171 páginas.

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento do Barro

Foi fundado em 1570 pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel, donatária da vila de T. Vedras.
Foram seus primeiros ocupantes os religiosos arrábidos, até 1834.
A sua Igreja é dedicada a N.ª Srª dos Anjos.
No século XIX foi ocupado pelos Jesuítas, que aí instalaram um colégio. Quando da implantação da República em 1910, foram presos e expulsos deste convento.
Hoje está aí instalado um hospital especializado em doenças contagiosas.
Do velho edifício quinhentista resta apenas a capela do Senhor dos Passos.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

29 de Maio de 1589 - O Prior do Crato em Torres Vedras

(D. António, Prior do Crato)

Em 29 de Maio de 1589, um exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato, entrava em Torres Vedras, dirigindo-se a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português.
A História deste episódio está bem documentada num manuscrito da autoria de André Falcão de Resende, existente na Torre do Tombo.
O conhecido poeta quinhentista tinha sido “juiz de fora” em Torres Vedras desde finais de 1576, onde estabeleceu amizade com o alcaide D. Martinho Soares de Alarcão, já não exercendo esse cargo, pelo menos desde o início de 1586.


Antes, em 18 de Abril de 1589, saia de Plymouth, na Inglaterra, uma armada, a bordo da qual seguia D. António Prior do Crato com a sua “corte”, com o objectivo de conquistar o reino de Portugal.
Era uma armada de “cento e setenta navios grandes e pequenos”, com “perto de vinte mil homens”, ingleses, escoceses, “gente vadia de França” e da Flandres, alguns espanhóis “portugueses e castelhanos”, isto é, composta por mercenários.
A armada era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake, acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.
Atacando,sem êxito, a Corunha, na Galiza, dirigiu-se então para território português.
Tomando-se conhecimento da sua aproximação, entre Lisboa e Cascais foram tomadas várias medidas para a defender a capital de um desembarque e ataque dos ingleses, apesar de os armazéns da cidade estarem “muito faltos de armas e de munições, por se gastar muito na armada do ano passado” (refere-se ao desgaste da armada portuguesa, motivada pela derrota luso-castelhana da Armada Invencível, cerca de um ano antes).
No dia 23 de Maio de 1589, uma sexta-feira , a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.
As tropas estacionada para defender o local e a fortificação, perante a dimensão da armada, fugiram ou renderam-se de imediato.
A facilidade com que os ingleses entraram em Peniche, está na origem do dito popular dos “amigos de Peniche”.
O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.
Em Torres Vedras estavam estacionadas 12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.
Este Gaspar Ruiz de Alarcão tinha vindo para Portugal em 1587, com quatro companhias a cavalo, para apoiar o Vice-rei, Cardeal D. Alberto (AZEVEDO, Maria Antonieta Soares de, “D. Martinho Soares de Alarcão, alcaide-mor de Torres Vedras e avô do Padre Francisco Soares”, in Arquivo do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol.I, Paris 1969, pp. 470-486).

Do Turcifal saiu Pero Correia, filho de Lourenço Correia, com três “homens seus” a cavalo, e quatro a pé com “espingardas” e outra gente a pé, para se juntar ao alcaide de Torres.
No Sábado seguinte, dia 24, Dom Martinho Soares juntava-se às tropas comandadas por Pedro de Gusmão, num local a meia légua de Peniche, “sobre hum alto que chamão o Coymbram”, avistando daí os inimigos.
Sobre estes “discorreram” os “Ginetes de Gaspar de Alarcon”, fazendo prisioneiro um soldado do exército inglês que tinha sido ferido, e que disse ser francês, tendo por missão entregar uma mensagem de D. António para “hu Mosteiro de frades ahy vezinhos” , revelando o número de tropas inglesas, 20 mil “infantes”, e informando que já tinham desembarcado em Peniche seiscentos cavalos.
Impressionados com esses números, os “nossos” “aballarão dalli para outro lugar mais alto, e mais afastado do inimigo”, enquanto que “os de Torres Vedras e seu termo que erão todos até trezentos, os mais delles gente rústica”, fugiram para Torres Vedras, as tropas de Dom Martinho e de João Gonçalves de Atayde.
No dia seguinte, Domingo vinte e oito de Maio, juntaram-se a estes, em Torres Vedras, onde já estavam Pedro de Gusmão e Gaspar de Alarcão, duas companhias de “arcabuzeiros a cavalo” comandadas por D. Sancho Bravo (ou Branco) e outras duas de “infantaria do terço”, comandadas por Dom Francisco de Toledo, alojando-se “esta gente toda” no Castelo de Torres Vedras, que consideravam “forte e defençável, principalmente vindo o I[n]imigo sem artilharia e com poucos cavallos”.
Contudo, dando-se rebate, por volta da meia noite, que os inimigos vinham marchando da Lourinhã para esta vila, que distava duas léguas, “partirão todos logo com muita pressa” para Enxara dos Cavaleiros, ficando apenas Gaspar de Alarcan, como os seus “ginetes”, “sempre” à vista do inimigo.
Na segunda-feira, vinte e nove de Maio, pela manhã “entrou em Torres Vedras hum clérigo que era cura no lugar do Vimieiro [será Vimeiro ?], notificando aos que estavão na villa que se não fossem della, por que lhes não farão mal, prometendo lhes disto seguranças, por parte de Dom António”.
Tomando conhecimento dessa situação, os ginetes de Gaspar de Alarcão avançaram para Torres Vedras, com o objectivo de prenderem esse clérigo.
Com esse pretexto entraram “em muitas casa da villa e termo”, provocando a fuga dos seus habitantes para lugares altos.
Os abusos cometidos por algumas tropas de Gaspar de Alarcão e “outros soldados” castelhanos, provocaram o rumor segundo o qual os ginetes andavam a roubar e a matar, “e disto lançarão fama e causando com isto grande inquietação por esta comarca” de Torres Vedras, “e por outras temendo se e escondendo se a gente miúda e molheres, por montes e covas”, embora o narrador refira que os capitães e nobres não foram responsáveis por esses excessos.
Espalhando-se pela região a notícia dos saques, roubos e assassinatos feitos pelas topas luso-castelhanas, a população temia mais “destes nossos amigos e naturaes que dos Ingleses”, até porque estes, até então, não roubavam nem saqueavam, pelo que começaram a ter apoio popular, dando mantimentos e juntando-se às tropas anglo-lusas de Norris e D. António.
Nessa segunda-feira “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris, “onde alguns poucos e falhos de força e conselho o esperarão, não seguindo a muitos outros que o não quiserão esperar e se ausentarão”, isto é, a vila estava quase desabitada.
D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.
“Sem mantimentos, e com tanta fome”, as tropas inglesas “comerão muitas imundices”, isto porque tinham ordens para não proceder a qualquer saque.
Contudo, muitos desses soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.
Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.
Só na quarta-feira seguinte, dia 30 de Maio, é que as tropas inglesas retomaram a sua marcha sobre Lisboa, avançando por Enxara dos Cavaleiros até Frielas.
Tendo chegado a informação aos castelhanos que as tropas inglesas estavam “tomadas” de vinho, avançaram sobre o acampamento inglês onde deram conta que, afinal, “estavão mais expertos do que cuidaram e bem entricheirados”, retirando-se para Lisboa com algumas baixas em confrontos esporádicos com os ingleses.
Entretanto, André Falcão de Resende, que, quando da tomada do Castelo por D. António, tinha escondido alguns livros numa casa a meia légua de Torres Vedras, voltou à vila assim que os ingleses se retiraram para avançarem sobre Lisboa.
Entrando em Torres Vedras, encontrou-a praticamente deserta, descobrindo, junto ao “pelourinho da praça” uma carta, assinada por D. António, na qual com “graves penas e ameaças, assumindo-se nella como Rei, mandava que todos o fossem logo servir e acompanhar, dentro de vinte e quatro horas”.
A título de curiosidade, refira-se que esta é uma das mais antigas referências coevas ao Pelourinho quinhentista de Torres Vedras
Dirigindo-se depois para um ponto alto perto da vila, Falcão de Resende avistou a marcha do inimigo, contando cerca de “doze mil homens, e sessenta cavallos somente”, sem artilharia, sem mantimentos e sem bagagens. De imediato enviou esta informação ao seu filho, Luís Falcão, que estava em Lisboa, para conhecimento dos defensores desta cidade.
No dia 1 de Junho, 5ª feira, o “inimigo” avançou sobre Lisboa até Alvalade “mea legoa” de Lisboa.
Eram as tropas inglesas abastecidas por Gaspar Campello, que tinha negociado com D. António a entrega de mantimentos às tropas luso-inglesas. Gaspar Campello tinha sido juiz em Torres Vedras e era “muito conhecido nesta comarca” e tinha forçado “a gente fraca, com nome de Almotacel moor para trazerem mantimentos aos Ingleses”.
A cavalaria luso-castelhano conseguiu contudo fazer “presas” desses mantimentos.
Durante este tempo ocorreram escaramuças esporádicas entre os dois exércitos.
No dia seguinte, sexta-feira 2 de Junho, os ingleses marcharam de Alvalade até “perto da cidade” entrando pelos arrabaldes e pelas ruas e travessas.
Do Castelo e das Galés estacionadas no Tejo receberam os ingleses muito fogo.
No dia seguinte os sitiados conseguiram receber mantimentos e vários reforços.
Os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas, entre elas os “ginetes” de Gaspar Alarcão que prenderam e mataram muitos dos soldados luso-ingleses.
De sitiantes, os ingleses passaram, em Cascais, a sitiados.
Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada inglesa.
Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras.
Algumas fontes referem uma segunda tentativa das forças do Prior do Crato de conquistarem o Castelo, sem o êxito da primeira vez.
A ter acontecido, terá ocorrido entre essa data de 6 de Junho e o início da retirada inglesa do território português, que ocorreu entre 18 e 22 de Junho (A. Vieira da Mota, “Memórias de Torres Vedras”,Capítulo IX, in O Torrense, nº 52, 17 de Setembro de 1922).
Segundo Vieira da Mota, deve-se a este episódio o facto de D. António apelidar esta localidade de “Torres Traidora”.
O mesmo Martim Soares, em 22 de Junho, marchou sobre Peniche, levando consigo “30 de cavallo”, com “gente de pé”. Chegado à Lourinhã, foi informado por uma espia que os inimigos estavam a embarcar em Peniche, levando consigo a artilharia da fortaleza, pelo que apressou o seu avanço sobre aquela vila, de onde grande parte dos ingleses já se tinham retirado.
Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.
Retirando-se definitivamente de Portugal, D. António, faleceu na miséria em Paris em Agosto de 1595.

FONTE PRINCIPAL:
FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147, Arquivo Nacional da Torres do Tombo


PARA SABER MAIS (outras fontes consultadas):


BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II, Câmara Municipal de Torres Vedras, Edições Colibri, Lisboa 2009.

RAMALHO, Américo da Costa, O Essencial sobre André Falcão de Resende, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1988.

RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa 2004.

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato – 1580-1589 – Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, ed Tribuna, sem data [séc. XXI].