segunda-feira, 20 de julho de 2009

A História das Termas dos Cucos




A História das Termas dos Cucos

6– A Mudança

O ano de 1851 foi um ano que marcou a mudança. Nesse ano João Vitorino Pereira da Costa, cirurgião da Câmara e do Hospital Civil de Torres Vedras, publicava "Breves notícias das águas termais dos Cucos, seguido de uma relação da maior parte dos doentes que delas fizeram uso nos meses de verão de 1850", nas páginas do "Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana". Nessa obra "apontava a necessidade de mudar o álveo do rio Sizandro de forma a retirá-lo da proximidade imediata dos banhos e de captar melhor as nascentes"[1], recomendação que sensibilizaria João Gonçalves Neiva, que se havia tornado proprietário da Quinta da Macheia e dos banhos dos Cucos nesse ano.
Com o novo proprietário inicia-se uma nova etapa na história dos Cucos. Devem-se a João Neiva as primeiras obras de vulto no local:
" (...) melhorou as modestas instalações balneares, mandou fazer uma muralha para segurar as águas do rio nas suas arremetidas invernais e fez construir uma série de nove pequenas casas para habitação, comunicando entre si e com cavalariças ao fundo - as ainda existentes casinhas dos Cucos. tais instalações já permitiram que o Marquês do Lavradio, da Quinta da Conceição, aí se instalasse para com mais comodidade e repouso fazer tratamento" [2].
Os anotadores de Madeira Torres, na segunda edição, inédita até hoje, da parte económica da monografia de Madeira Torres, cujo original se encontra na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, escreviam, por volta de 1862, sobre os Cucos:
"A concorrência dos enfermos a estes banhos tem sido grande n'estes ultimos annos, não só das Comarcas visinhas, mas também da Capital e Províncias (...).
"O numero dos banhos tomados nos ultimos 10 annos foi de mil em cada ano; e paga-se por cada hum 120 reis, dando-se porem d'esmolla a quem os pede, huma vez que apresente attestação de pobreza passada pelo respectivo Parocho, e de Facultativo sobre a necessidade, que d'elles tem; mas o numero d'estes não entra na conta assima dita, e calcula-se em huma quinta parte em relação ao numero dos pagos. Talvez tenha concorrido para a maior frequencia d'estes banhos, alem do annuncio mandado fazer todos os annos nos jornaes pelo actual proprietário d'elles João Gonçalves Dias Neiva, o outro publicado pelo pharmaceutico Francisco Fortunato d'Assis, assistente em Lisboa na rua do Alecrim nº 51e 52 , pelo qual tem anunciado não só venda na sua Pharmacia d'esta agoa engarrafada, mas tambem em resumo as suas virtudes (...).
" Para uso dos banhos das pessoas que residem, ou vem residir nesta villa há desde o anno de 1860, a comodidade das carroagens, que a Companhia da Diligencia da mesma villa para a Alhandra alluga para esse fim".
João Dias Neiva faleceu a 20 de Fevereiro de 1868, mas a sua acção em prol da melhoria das instalações nos Cucos contribuiu, de forma decisiva, para chamar a atenção de muitos especialistas para o valor daquelas águas.
Na década de 70 do século XIX surgem vários estudos sobre as águas minerais do reino e de propaganda ao termalismo, então em plena expansão. É dessa altura a publicação de uma obra fundamental de divulgação, da autoria de Ramalho Ortigão, publicada em 1875 e intitulada "Banhos de Caldas e Água Minerais", onde tece grandes elogios às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, chamando a atenção para a necessidade de melhorar as condições de alojamento deste lugar.
O aparecimento em 1885 do primeiro orgão de comunicação social de Torres Vedras, "O Jornal de Torres Vedras" contribuiu para alertar a opinião pública local e principalmente os responsáveis locais, para a importância do aproveitamento convenientemente do local. Logo a 26 de Março desse ano o citado periódico publicava um extenso artigo sobre as "Thermas dos Cucos", chamando a atenção para os frequentes "resultados maravilhosos obtidos pelo uso d'estas águas thermaes no tratamento das diversas formas de rheumatismo" mas queixando-se o articulista de, apesar desses resultados, "aos banhos dos Cucos recorrem relativamente mui poucos doentes" em comparação com outras termas então mais famosos (Caldas da Rainha, Taipas, Vizela, Moledo, S. Pedro do Sul), mas onde os doentes não encontravam os mesmos resultados que podiam obter nos Cucos. E o articulista procurava as causas para essa baixa frequência das águas dos Cucos, em primeiro lugar no facto de alguns médicos e cientistas desvalorizarem aquelas águas e em segundo lugar "no desfavor da apresentação".
Nos periódicos locais, herdeiros de "O Jornal de Torres Vedras", vamos continuar a encontrar várias referências á necessidade de melhorar a propaganda e as instalações daquele sítio.
O Jornal "A Semana" foi dos que mais se bateu por esses melhoramentos. Em 12 de Julho de 1888 esse jornal chamava a atenção para a "grande conveniencia e maior necessidade que há de construir um edíficio, apropriado e decente, onde os doentes de rheumatismo gottoso possam vir receber, com commodidades e asseio, os manifestos benefícios das nossas especialissimas águas dos Cucos.
"Aquillo que hoje lá existe, considerado como estabelecimento Thermal, é um péssimo documento da nossa orientação económica, que estamos apresentando aos forasteiros, deixando abandonado um precioso elemento de vida commercial de Torres Vedras (...). "As toscas locandas estão apinhadas de gente; as pessoas que se installaram pelas hospedarias da villa, quando vão tomar o banho, ao sair, não teem um quarto confortável onde demorem, acontecendo que nos dias inconstantes que tem corrido sugeitam-se até apanhar chuva, na volta ! Este é positivamente o reverso da medalha.
"Vamos, meus senhores, que tendes o nome aureolado com o fastigio da vossa fortuna: dispendei mais alguma coisa da vossa iniciativa própria, e imponde-vos á gratidão dos vossos conterraneos, porque essa gratidão é como o esmalte azul sobre o ouro". Para o crescente afluxo de forasteiros ao lugar dos Cucos terá contribuido a inauguração da linha férrea Lisboa-Torres em 1886, aberta ao serviço público em 1887. A esta situação e ao desafio lançado pela opinião pública local, o novo proprietário dos Cucos, José Gonçalves Dias Neiva, sobrinho do anterior, "decidiu-se a proceder ás obras de valorização desta estância termal. Pesaram no seu espírito, ao tomar esta decisão, vários factos. A região atravessava uma grande crise económica, devido á destruição dos vinhos pela filóxera, e tais obras dariam trabalho a muita gente. Ao seu ânimo agradava esta obra de benemerência, criar melhores condições para dar saúde. Receava, por outro lado, que o débito da água termal não fosse sufeciente para um grande balneário e não acreditava nas vantagens económicas deste empreendimento.
“O desaterro do poço soterrado mostrou que os vários olhos de água que lacrimijavam á superfície e alimentavam os antigos banhos provinham duma única e poderosa nascente, com um débito de 259.000 litros por dia. Tal observação convenceu-o da possibilidade duma exploração termal noutra escala de grandeza, e decidiu-o a iniciar as obras"[3] .
Essas obras, que incluíram o desvio do leito do rio Sizandro mais para a sua esquerda, junto ao monte do Cabrito, foram dirigidas por António Jorge Freire e pelo mestre João José Alves, e iniciaram-se a 26 de Novembro de 1890.
O Estabelecimento termal foi aberto ao público, provisoriamente, a 11 de Julho de 1892 e a sua inauguração oficial teve lugar, como já referimos, a 15 de Maio de 1893. Dias Neiva, entusiasmado com o êxito da obra, idealizou uma vila termal que, num ofício à Câmara definia como uma "nova povoação junto do estabelecimento balnear, subordinada a um plano maduramente estudado em que se observem rigorosamente todos os princípios higiénicos tanto nos arruamentos e esgotos como nas casas de habitação"[4] .Chamar-se-ia "Vila Neiva dos Cucos" e António Jorge Freire foi encarregue de elaborar o plano. Incluía "40 moradias iguais aos actuais chalets que marginam a Avenida das Termas, albergaria com casas mais modestas, um hotel com 300 quartos, hospital termal, capela, mercado, casino, a Avenida de Torres que, vinda da Praça do Mercado cruza-a a actual Avenida das Termas, desembocar na Praça da Capela, atravessa-a o Sizandro e, depois de ladear o contraforte do Casal Cabrito, passaria por cima do túnel, para se dirigir à estação de caminho de Ferro da vila; no alto da serra de Machêa instalava-se um solário para crianças e no morro dos Cucos um pequeno chalet para repouso dos doentes; a serra seria intensamente arborizada e um parque arborizado ligava a Praça das termas a um grande lago, no sitio da antiga Azenha dos Cucos, por trás do actual Buvette" .
Deste arrojado plano "apenas" se concretizaram a construção dos balneários, da Praça das Termas e da Avenida das Termas. O Casino foi construído em 1896 e, das 40 moradias previstas, apenas se concluíram duas vivendas: "D. Feliciana" (1895) e "D. Maria" (1896). De qualquer modo aquilo que se construiu foi de tal modo importante que mereceu a visita de personagens tão ilustres como o rei D. Carlos, em 1902, e que, por essa ocasião, agraciou José Dias Neiva com o título de Conde de Machêa, como o rei D. Manuel II, por ocasião das comemorações do centenário da Batalha do Vimeiro, em 1908, como Egas Moniz, o prémio Nobel Português, que frequentou os Cucos em 1902, 1903, 1905, 1906 e 1907, ou como, em 1920, o Presidente da República António José de Almeida.
Para além de José Gonçalves Dias Neiva, proprietário do estabelecimento, e de A. Jorge Freire, engenheiro responsável pela obra, é de destacar ainda o Dr. Justino Xavier da Silva Freire, director clínico das Termas, e autor de importantes relatórios médicos entre 1893 e 1913. A esse "triunvirato" se ficou a dever tão importante iniciativa.
A José Gonçalves Dias Neiva, falecido em Fevereiro de 1929, sucedeu-lhe, à frente dos destinos das Termas, um seu sobrinho, José António Vieira, que viria a falecer em 1962 e que dirigiria as termas numa fase de certa estagnação do local. Sucedeu-lhe José António Neiva Vieira, que procurou dar um novo dinamismo ao local, apesar das dificuldades acrescidas pela poluição do rio Sizandro. A este, enquanto director clínico da Estância Termal dos Cucos, se deve o primeiro relatório entregue aos serviços técnicos de Salubridade da Direcção Geral de Saúde, em 1969, sobre os inconvenientes das descargas da indústria Calhaus e Ferreira, Ldª no rio Sizandro.
Mas o local não se ficara por aqui no que toca a atentados ao meio ambiente. Recentemente uma pedreira destruiu uma área envolvente da zona dos Cucos e em 1983 foram imensos os estragos provocados pelas cheias.
Nestas condições foi difícil a José António Neiva Vieira melhorar as termas dos Cucos. Deve-se a ele a melhor monografia sobre o local, "História das Termas do Vale dos Cucos", editada em 1964, da qual temos vindo a citar algumas passagens.
Infelizmente, numa altura em que as Termas dos Cucos começavam novamente a conhecer algum desenvolvimento, o Dr. Neiva Vieira veio a encontrar a morte de forma trágica em 28 de Agosto de 1987 na passagem de nível de Runa.


[1] VIEIRA, ob. cit. pág.16.
[2] VIEIRA, ob. cit. pág. 17.
[3] VIEIRA, ob.cit. pp. 23-24.
[4] Citado por VIEIRA, ob. cit, p. 26.

terça-feira, 14 de julho de 2009

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "No Primeiro Centenário de Madeira Torres"


Título: “No Primeiro Centenário de Madeira Torres”.
Autor: CALADO, Rafael Salinas.

Ano:1936.
Edição:Tipografia e Papelaria da Sociedade Progresso Industrial.
Local: Torres Vedras.
Preço: Não refere.
Nº de Páginas: 27
Tiragem:300 exemplares.

Gravuras: na capa e no interior, Rua do Quebra Costas, da autoria de A. Loureiro.
Fotografias: Casa da Quinta das Fontainhas; Igreja de Stª Maria do Castelo; Quartel General de Junot (Largo da República); sentença na justificação requerida por Francisco Pedro Boto Pimentel; 1ª edição da Descripção Histórica e Economica-1819; 2º edição da Descripção Histórica e Economica-1861; Parte económica da Descripção Histórica e Economica-1833; Casa onde viveu e faleceu o desembargador Manoel Agostinho Madeira Torres.
Gráficos: nenhum

Tema: Comunicação proferida por Rafael Salinas Calado, então director do Museu e da Biblioteca de Torres Vedras, por ocasião do primeiro centenário do falecimento de Agostinho Madeira Torres, conferência realizada nos Paços do Concelho de Torres Vedras em 27 de Janeiro de 1936, repetida no Teatro-Cine Ferreira da Silva em 8 de Fevereiro do mesmo ano. Nessa comunicação traça-se, não só a biografia de Madeira Torres, como o enquadramento histórico da região na época em que viveu. São ainda transcritos vários documentos.

Capítulos: “Breves Palavras” por Henrique de Campos Ferreira Lima [director do arquivo Militar]; Exposição Bibliografica [transcrição da notícia publicada no jornal “O Torrense” de 16 de Fevereiro de 1936]; Minhas Senhoras e Meus Senhores [comunicação]; Notas [inclui diversos documentos].


FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "No Primeiro Centenário de Madeira Torres"

(no cruzamento da Av.5 de Outubro com o Praça da República -1936)

Quinta das Fontainhas (entre o Aqueduto e os Cucos), local onde nasceu Madeira Torres.


Dedicatória assinada por Salinas Calado



terça-feira, 7 de julho de 2009

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras

Data de 1895 a entrada do primeiro automóvel em Portugal, e não foi preciso esperar muito tempo para aparecer em Torres Vedras o primeiro agente de venda de automóveis, conforme se prova num anúncio publicado nas páginas do jornal "A Vinha de Torres Vedras" em 6 de Janeiro de 1898.
Inicialmente o êxito do automóvel foi limitado e temos de esperar por 1902 para encontrarmos a primeira referência comprovada à circulação de um automóvel nas ruas de Torres Vedras. Foi por ocasião da visita da rainha D. Amélia ao convento da Graça, a 12 de Maio desse ano, de passagem "em direcção à quinta das Lapas(...)em automóvel e (...)acompanhada pelos srs. conde de Tarouca e condes de Figueiró(...)"[1].
Só em finais da década de 10 é que o automóvel conheceu algum incremento neste concelho, levando a Câmara Municipal a iniciar, a partir de 1918, um registo de automóveis matriculados, oficialmente os primeiros existentes em Torres Vedras e dos quais registamos os 20 primeiros[2]:

(Nº de ordem de matricula; Nº de Circulação; Ano, Mês e Dia do Registo; Nome do Proprietário e residência)
1 1660 1918 Abril 18 D. Vasco Martins Sequeira Q.ta Juncal
2 2393 1918 Julho 5 Vasco de Moura Borges Q.ta Paio Correia
3 943 1919 Julho 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
4 1390 1919 Julho 19 Gonzaga Limitada Q.ta Charneca
5 --- 1919 Agos. 2 José Augusto Lopes & C.ª Torres Vedras
6 2270 1919 Sete. 2 José Duarte Capote Torres Vedras
7 2705 1919 Out. 10 José Augusto Lopes Jr. Torres Vedras
8 --- 1919 Dez. 26 Joaquim C. Rodrigues Torres Vedras
9 2811 1920 Jan. 12 João Henriques dos Santos Torres Vedras
10 --- 1920 Maio 22 António ...? Oliveira Torres Vedras
11 4076 1920 Junho 15 António Emilio Cunha S.tos Torres Vedras
12 4258 1920 Agos. 2 Alfredo Oliveira Luso Lisboa
13 4230 1920 Agos. 16 João Henriques dos Santos Torres Vedras - camioneta
14 4614 1920 Set. 2 Faustino Policarpo Timóteo Dois Portos -camioneta
15 4473 1920 Out. 2 Manuel Augusto Baptista Torres Vedras
16 2981 1920 Out. 14 José Botto Pimentel Carv.º Q.ta do Paço
17 2907 1920 Nov. 16 José Antunes Martins Ramalhal
18 3382 1921 Abril 13 Dr.Pereira Branco Ribaldeira
19 218 1922 Maio 25 António Hipólito Torres Vedras
20 --- 1922 Agos. 4 Amadeu dos Santos Torres Vedras

Por este quadro é possível concluir que foi a partir da década de 20 que a aquisição de automóveis começou a aumentar neste concelho e que a primeira camioneta registada pertencia a João Henriques dos Santos. No ano de 1926, registavam-se 48 automóveis e 26 camionetas[3].
Se a divulgação do automóvel foi lenta e demorada, os primeiros transportes usando o automóvel só começaram a obter algum êxito também nos anos 20, quando começaram a poder bater o comboio no tempo de percurso, ou chegando a sítios onde o comboio não chegava, mas que ganhavam crescente importância turística e económica, como foram os casos de S.ta Cruz e Peniche.
Data de 1899 a primeira proposta de estabelecer uma carreira automóvel ligando Torres Vedras a Lisboa.
Em reunião camarária de 14 de Dezembro desse ano dava-se a informação de se ter recebido um requerimento, datado de 25 de Novembro, dirigido a esse orgão municipal de "Alfredo de Brito, - industrial, constructor electricista com fábrica em Lisboa, na rua de Santo António dos Capuchos, nºs 52/54" pedindo "à Camara Municipal de Torres Vedras, concessão por setenta e cinco annos, para si ou para a Companhia que está organisando, para a exploração (em toda a area actual do concelho de Torres Vedras e d' aquella que de futuro venha a pertencer-lhe), do transporte de pessoas, mercadorias, etc.,etc., por meio de vehiculos denominados automoveis. O requerente garante à câmara, annualmente três por cento da receita bruta.
"Esta concessão facultando à Camara uma nova receita, proporcionará aos municipes as vantagens de usarem um meio de transporte rápido e commodo, e facultará o desenvolvimento da industria de carruageria sic , ha muitos annos estabelecida no país,e da industria mecanica pela fabricação dos motores e acessórios necessarios aos automoveis, fabrico que o requerente iniciou na sua fabrica(...)"[4].
A camara ficou de tratar deste assunto noutra sessão, nunca o tendo feito. Foi preciso esperar por 1915 para se inaugurar a primeira carreira automóvel. Pertenceu a iniciativa à empresa da Malveira, Joaquim Jerónimo &Irmão: "Trata-se de uma carreira de auto-omnibus entre Torres e Lisboa, partindo do Largo da República, todos os dias ,às 3 horas da tarde", preenchendo assim "uma lacuna importante, que ha muito se fazia sentir, tanto mais que a companhia dos Caminhos de Ferro nunca quiz atender as reclamações constantes que lhe foram feitas, para restabelecer os comboios da tarde para Lisbos, que ela, há muito, desatenciosamente suprimiu(...)"[5].
Este serviço teve início a 18 de Abril de 1915 e nasceu em confronto directo com o transporte ferroviário. Contudo, fosse por fazer a viagem de Torres Vedras ao Lumiar em 3 horas, tanto tempo como o tempo de comboio, fosse por outras razões, esta iniciativa não teve o êxito esperado, sendo necessário esperar por nova iniciativa do género, nos anos 20, pela qual foi responsável João Henriques dos Santos.
Já referimos noutra parte do nosso artigo que João Henriques dos Santos não só foi o terceiro torriense a registar a posse de um automóvel, como foi o primeiro a adquirir uma camioneta.
O seu entusiasmo por esse então novo meio de transporte revelou-se em diversas ocasiões. Uma das mais conhecidas aconteceu em 1922, a 3 de Dezembro. Tendo passado então pelo Vilar, ouviu foguetes e, perguntando o que se passava, disseram-lhe que anunciavam a realização das festas do lugar do Pereiro. Logo aí manifestou interesse em deslocar-se no seu automóvel a essas festas."É claro, pessoas conhecedoras do lugar e do caminho existente para ali, tentaram dissuadi-lo, mas foi como se chovesse no molhado. Não o demoveram do seu intento. Os companheiros também não ligaram importância aos conselhos, e lá seguiram, por uma estrada vicinal, que em Dezembro só poderia ser transitada por cabras ou por corvos, pois só servia às vezes para carros de bois.
"João Henriques dos Santos, com o carro cheio de amigos, começou subindo aquêle pseudo-caminho, embóra com dificuldade. Mas, mais para cima, o caminho complicou-se e não havia meio de poderem prosseguir. Retroceder muito menos. Então a situação era crítica. Nem para diante, nem para tráz.
"Enfim, como era boa a disposição que tinham adquirido pelo caminho, lá foram removendo uma pedra aqui, colocando outra ali, escangalhando um calço acolá, evantando o carro além para o tirar da situação crítica ou de se despenhar de qualquer ribanceira, e depois de extenuantes esforços, lá conseguiram chegar ao Pereiro.
"Grande festa, entre a população, por ali ser visto, pela primeira vez, um automóvel, foguetes e o resto que se póde imaginar, em tais casos(...)"[6].
Em finais dos anos 40, em homenagem a essa odisseia, o povo do Pereiro mandou colocar uma lápide comemorativa da chegada do primeiro automóvel a esse lugar bem como a João Henriques.
Exemplo do mesmo espírito ousado que marcaria a sua vida, ficou célebre aquela vez em que desceu de carro as escadinhas do castelo, ganhando uma aposta de cem escudos.
A ele ficou a dever-se o início da primeira carreira regular de automóvel, para Santa Cruz, que se iniciou em 1 de Agosto de 1923. Partia da estação de caminho de ferro "após a chegada do comboio correio da capital",saindo depois daquela praia "a tempo dos passageiros poderem regressar à capital pelo comboio correio da noite"[7].Custava a viagem para S.ta Cruz a quantia de 5 escudos.
Se essa iniciativa muito contribuiu para o grande desenvolvimento turístico que essa praia conheceu desde então, mais importante terá sido para o desenvolvimento desta região o facto de ter iniciado a regular ligação rodoviária de Torres Vedras a Lisboa, em Novembro de 1928.Gastou na viagem inaugural duas horas. Custava o bilhete 11 escudos,"custando o lugar ao lado do condutor 15$00!Indicava-se a chegada e partida no Largo de S.Domingos, depois no Largo da Anunciada e, posteriormente, na Rua da Palma. Avisavam-se ainda os passageiros de que deveriam ocupar os seus lugares 15 minutos antes da partida".
O êxito desse empreendimento foi tal, que logo no ano seguinte surgiram dois concorrentes, Ruy Lopes e Francisco Capote, concorrência que foi benéfica para os habituais passageiros desse percurso, pois os três proprietários esmeravam-se por apresentarem as melhores e mais cómodas camionetas. Pouco tempo depois, João Henriques dos Santos conseguia monopolizar a ligação com Peniche.
Reside nesta ligação com Peniche um dos episódios mais marcantes da bondade da sua personalidade ao ajudar os presos políticos de Peniche, transportando gratuitamente as encomendas que lhes eram enviadas pelos familiares.
Dentro do mesmo espírito, de ajudar os que precisavam, tomou igualmente a iniciativa de "na sua carreira da manhã, que passa por Montachique," conceder "nos dias úteis, a todas as crianças do lugar de Malgas, do visinho concelho do sobral de Monte Agraço e que " frequentavam" a escola primária de Pêro Negro, passagem gratuíta", procedendo de igual modo com os passageiros pobres que procuravam tratamento nos hospitais de Lisboa.
A empresa que fundou continua hoje ligada ao ramo automóvel, tendo abandonado os transportes públicos em 1972, cedendo as suas concessões à empresa Claras, absorvida, depois do 25 de Abril de 1974, pela empresa pública Rodoviária Nacional.


[1] In Folha de Torres Vedras, 8 de Maio de 1902.
[2] In Arquivo Municipal de Torres Vedras (AMTV).
[3] In AMTV.
[4] In Actas da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), Livro nº 35, sessão de 14 de Dezembro de 1899, fol. 247 verso, AMTV.
[5] In A Vinha de Torres Vedras, 22 de Abril de 1915.
[6] In Badaladas [em data desconhecida].
[7] In O Torreense, 5 de Agosto de 1923.

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras


Uma das primeiras "camionetas" de João Henriques dos Santos (anos 20)

Camioneta de Ruy da Costa Lopes


Uma "paragem" frente ao Convento da Graça



Uma camioneta de passageiros em Stª Cruz - início do século XX

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Primeira Feira de S. Pedro, depois da chegada do caminho-de-ferro (1887)

No último dia de Dezembro de 1886 chegava a Torres Vedras a primeira locomotiva do caminho-de-ferro. Em Maio de 1887 iniciava-se o serviço regular de mercadorias e passageiros entre Lisboa e Torres Vedras, por via férrea.
Pouco mais de um mês depois tinha lugar na vila mais uma edição da tradicional Feira de S. Pedro.
Nesta primeira feira após a chegada do caminho-de-ferro fez-se notar, desde logo, o impacto desse novo meio de transporte, como referia a imprensa da época:
“De a verem tão concorrida, como este ano, não se lembram os moradores mais antigos daqui. Desde o amanhecer até à noite foi incessante a romaria até ao local da feira, que, sendo tão vasto, tornou-se naquele dia insuficiente para conter a multidão, que afluiu de todos os pontos, e o avultado numero de barracas de todos os géneros e feitios que ali estavam armadas. Em todas se fizeram vendas regulares. As de comes e bebes, as dos espectáculos variados, incluindo os cavallinhos, estiveram sempre cheios de apreciadores. Gado abundava, mas de qualidade inferior. Assim mesmo, os ciganos fizeram bom negocio.
“Permaneceram ainda na quinta feira algumas barracas, e dizem-nos que as das diversões ficam por alguns dias, por isso que continuam a atrair muita gente como as da empresa “Honorio & C.ª” que têem o pomposo titulo de “Corridas de cavallos”, e de Tiro ao alvo com magnificas espingardas alemãs, pelo que tem apanhado boa soma de vinténs.
“Pode dizer-se que reinou no recinto da feira a melhor ordem (…)”

(A Voz de Torres Vedras, 2 de Julho de 1887).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - (2) Junho de 1889

(Torres Vedras, numa gravura do Século XIX)

A comemoração dos Santos Populares foi um tema recorrente na imprensa torriense de há 120 anos.
O Santo António foi “festejado por algumas famílias. Na véspera houve illuminação e fogos de artificio no sitio da Costa do Castello. Algumas fogueiras n’outros pontos.
“No próprio dia fez-se, na forma dos mais annos, arraial no Varatojo”[1] .
O S. João teve as suas comemorações mais importantes em Runa:
“Realisou-se no dia 24, em Runa, a costumada festa de S. João Baptista, a qual teve o luzimento dos annos anteriores, achando-se a egreja bellamente adornada.
“Abrilhantou a festa a orchestra regida pelo maestro Lagrange, que foi como sempre correcto no seu desempenho. Orou o revº Conceição Vieira de Lisboa (…).
“O arraial, artisticamente ornamentado, esteve muito concorrido; á noite a illuminação produziu um bello efeito, e durante o fogo de artificio, que foi bastante vistoso, tocou variadas e escolhidas peças de musica a phylarmonica d’esta villa [de T. Vedras]”[2] .
Mas o S.Pedro foi sempre o ponto alto nos festejos dedicados aos Santos Populares em Torres Vedras, graças à realização da secular que lhe é dedicada, descrita de forma pitoresca por um jornalista local:
“O sol de Verão, que andava a modo com maleitas, dignou-se apparecer em toda a sua plenitude coruscante, e animar o grande quadro da feira, estendida em todo o vasto recinto da Porta da Várzea, rematando ao sul com a passagem typica do acampamento da ciganagem, com as suas tendas improvisadas, os seus montões de farrapagens, os seus vestuários sujos e garridos, os seus rostos acobreados, com molduras de cabello desgrenhado. A caravana, dividida em grupos, sobre a alfombra da relva, e no fresco abrigo do arvoredo copado, por ali relaçava(sic), entre a récua de cavalgaduras, que teem faltado aos respectivos donos, e que os ciganos vão trocando e vendendo, conseguindo sempre augmentar-lhe o numero, sem os comprarem.
“#
“A concorrência de expositores e feirantes foi enorme. No dia de S. Pedro, desde a madrugada, que um enorme concurso de povo afflui ao mercado, e às 10 horas dois comboios, chegados successivamente, trouxeram mais umas 600 pessoas que fizeram da Porta da Várzea um mar de cabeças humanas.
“Há quem diga que a feira foi mais concorrida do que no anno passado, e com referencia a commercio, todos a suppõem mais vantajosa. Appareceram muitos gados, e realisaram-se algumas transacções em gado cavallar. O gado bovino, próprio para trabalho, estava mais caro do que na feira chamada das fructas novas, em Santo Quintino [Sobral de Monte Agraço], por isso quem desejava comprara bois, resolveu-se a esperar. Comtudo houve algumas transacções, especialmente em gado para abater.
“O commercio nas lojas da villa esteve animado. Muitos touristas vieram, por mero passeio, visitar Torres Vedras, muitos d’elles eram nossos antigos amigos, que tivemos o gosto de abarcar. Não lhes enumeramos aqui nomes, com receio de incorrer n’alguma omissão.
“#
“Hoje apenas resta da feira uma ou outra bancada nua e retardatária; e d’aquelle bulício atroador, apenas accorda ainda os ecos das encostas circundantes da vasta alameda, o zambuar da barraca dos fantoches, que ahi se demoraram, fabricando gargalhadas, com as suas peripécias burlescas” [3].
Para aproveitar o público dessa feira , estabeleceu-se na vila um teatro ambulante, o “Theatro Club”.[4]
Outras festas de carácter religioso tiveram lugar no concelho esse mês como a Festa de Santa Catarina na Ribaldeira, Domingo 2 de Junho [5], ou a “Procissão de Corpus Christi”, realizada a 20 de Junho, que decorreu “ com a solemnidade dos mais annos, saindo da collegiada de Santa Maria do Castello, e percorrendo algumas ruas da villa” [6].
O início do Verão trazia a Torres Vedras, a caminho de Santa Cruz para “banhos”, um grupo de 60 crianças, vindas “de Lisboa no comboio da manhã de quarta-feira, (…) acompanhadas de três irmãs de caridade, e dos respectivos professores, ou regentes, do Collegio de Campolide”, sendo depois conduzidos em “trens” para a “referida praia”[7].
Os primeiros anos do comboio a passar por Torres Vedras foram essenciais para marcar uma nova dinâmica na actividade da vila.
Embora queixando-se da “ por ora diminuta (…) concorrência de passageiros de Lisboa a esta vila e seus subúrbios”, a imprensa local fazia notar que, ainda “assim no serviço dos hotéis conhece-se diferença para mais do que o costume; e é de presumir que, continuando o belo tempo dos últimos dias, haja afluência de visitantes nos próximos dias santificados. Oxalá ”[8].
A maior afluência de forasteiros a Torres Vedras e as possibilidades de expansão comercial, por causa do caminho-de-ferro, obrigou a várias obras de melhoramentos nas estradas do concelho.
Foi o que aconteceu com a “estrada de S. Pedro da Cadeira”, tomando-se conhecimento esse mês, por “telegramma recebido no dia 27 pelo sr. Administrador do concelho, e expedido pelo deputado d’este círculo, o sr. Dr. Casal Ribeiro” de “ haver sido concedida a estrada de S. Pedro da Cadeira, cuja construcção, que será feita por empreitadas parciaes, começará brevemente”[9].
Actividade que conhecia igualmente grande expansão, a vinicultura, atraia a Torres Vedras vários comerciantes do ramo, como o “ mr. A de Pomarède, accreditado negociante de vinhos, e membro da câmara do commercio de Bordéus”[10] .
Decorreram assim os dias desse mês de Junho de 1889, cujos ecos distantes chegaram até nós em descrições intensas e coloridas, publicadas na imprensa local da época.

[1] A Voz de Torres Vedras, 15 de Junho de 1889.
[2] A Voz de Torres Vedras, 29 de Junho de 1889.
[3] A Semana, 4 de Julho de 1889.
[4] A Semana, 27 de Junho 1889.
[5] A Semana, 30 de Maio de 1889.
[6] A Voz de Torres Vedras, 22 de Junho de 1889.
[7] A Voz de Torres Vedras, 8 de Junho de 1889
[8] A Voz de Torres Vedras, 11 de Junho de 1889
[9] A Voz de Torres Vedras, 26 de Junho de 1889.
[10] A Semana, 6 de Junho de 1889.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

NO DIA DE S. PEDRO - Recordando a Feira de Outros Tempos

Hoje, dia de S.Pedro, que está na origem da medieval feira torriense, recordamos uma descrição dela dos anos 60:
“A feira está montada! Todos os anos, nesta mesma época, neste mesmo dia, nesta mesma hora, a feira existe cheia de sons, de cores, de vozes. O concelho está, em peso, na vila. Chapéu novo, fato novo, riso novo a bailar nos olhos vivos e abertos que seguem a roda sem fim dos cavalinhos.
“O campo da feira é uma densa nuvem de pó. Pó no ar, nos fatos, nos pés, nas bocas. Pó que vem em ondas e traz a música ruidosa e rodopiante dos recintos de diversão. Um mar de gente que come torrão de Alicante, puxa o cordão da sorte, ingere farturas, vai aos automóveis e cavalinhos, lê a sina e joga a argola de enfiar no gargalo da garrafa.
“Sai sempre, freguês!” A família, com os filhos em escada, olha a grelha da barraca onde se encontram expostas dezenas de estatuetas de barro. A vida de Nossa Senhora está escrita no taipal colorido. Lá dentro, centenas de bonecos pequeninos contam a história da Bíblia.
“Passa-se a manhã, vem a tarde. Um copo, farturas, uma sardinha, um copo mais. Vendem-se loiças, panos, colares de lindas fantasias.
“Um tirinho, freguês?!” Chapéus com flor na fita debruçam-se gulosos, sobre o cano da espingardas.
“A feira vive! Ás três horas da tarde ninguém se pode mexer. Além, a lâmina duma navalha abre-se, a coisa mete guarda. Gritos confundidos com o disco que se repete pela vigésima vez. E a tarde roda sem se dar por isso.
“Á noite, quando o povo da aldeia se retira para casa, a vila desce ao campo e dá as boas vindas á feira. Gira uma fauna diferente. Cumprimentos, acenos, sorrisos. Morreu a vivacidade viril que explodia das veias do homem da terra. Há um tom calmo e pachorrento.
“Todos os anos a feira chega e parte assim (…)”

(texto anónimo [da autoria de António Augusto Sales ou de Venerando Ferreira de Matos?] publicado no catálogo da Feira de S. Pedro de 1964)

sábado, 27 de junho de 2009

Numa Feira Torriense de há Cem Anos

Na sua obra "Pelos Suburbios e Vizinhanças de Lisboa", publicada em 1910, Gabrial Pereira descreve o ambiente de uma feira torriense, uma "Feira Franca", que decorreu em Agosto de 1904.
Não sabemos se ele se referia à chamada Feira Nova, que se realizava por essa altura,ou ao mercado mensal da então vila.
Contudo, o ambiente aí descrito não seria muito diferente do que se vivia na então Feira de S. Pedro.
É com o objectivo de perceber qual era o ambiente numa feira torriense há cem anos que transcrevemos de seguida:
"FEIRA FRANCA
“(21 de Agosto de 1904)

“Na grande várzea em parte arborisada faz-se esta feira muito concorrida pela gente d’aquelles sítios; a região de Torres Vedras é bastante povoada; aldeias e logarejos, boas quintas, casaes, matizam os campos accidentados, as collinas entremeadas de valles e várzeas férteis.
“Este rocio onde se faz a feira tem ao lado a casaria da villa, ao norte o monte onde se ergue ocastello, entre olivedo e paredões negros alveja a egreja de Santa Maria, muito caiada; mais longee mais alto o monte de S. Vicente; a poente do rocio a serra do Varatojo, vestida de vinhedos. Na parte arborisada enfileiram-se barracas e tendas, no rocio nú é a feira de gados e a corredoura.
“As barracas de ourivesaria agrupam-se com as dos utensílios de arame, cobre, ferro estanhado, latoaria. As dos vidros estão perto do grande estendal de louças brancas e vermelhas.
“A louça ordinária, popular, provém das differentes olarias do termo de Mafra, a branca vem de Alcobaça.
“A notar um especialistas de buzinas de moinhos de vento, aquellas vasilhas de barro, que assobiam e zumbem quando o vento apressa o movimento das quatro velas triangulares.
“Vende-se calçado grosso, bastante correaria, não faltando as sogas ornadas, bordadas a pita colorida.
“Pequenas quinquilherias, modestas roletas variadas formam uma rua, leiloeiros de varias qualidades chamam a grito a attenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo.
“Num espaço grande estão as madeiras; o que mais dá na vista é o material vinario; é natural, estamos numa grande região vinhateira.
“Cubas, tonéis, balseiros, barris, celhas, tinas em abundância; de castanho, as mais; algumas de pinho da terra, género barato. Carros para bois, e também de pequenas dimensões e de construcção mais leve para burricos. Há especialistas em arcos, e negociantes de varedo, assim como de crivos e peneiras.
“Menos importante a feira do gado; bastantes porcas com leitões, poucas juntas de bois, pouco inferior o gado cavallar e asinino.
“Pareceu-me em geral mal tratado o gado, tanto na feira como no que observei fora.
“É mais a pancada que a alimentação regular.
“Já se vê não faltavam as barracas de comer e beber, com os seus fritos alourados, e constante freguezia.
“Comia-se bem, bebia-se melhor; homens e mulheres espatifavam acerejadas gallinhas, consumiam patos com arroz cheirando que era uma delicia, e sorviam as talhadas dos sumarentos e aromáticos melões, atirando as cascas aos porcos e leitões grunhindo pela gulodice.
“A impressão geral é de atrazo, de educação nulla ou rudimentar; de trabalho mau com inferior alfaia, todavia gosto de ver o povo rural nestas feiras; é naturalmente são; um tanto brutal nos costumes, se ninguém trata d’elle! Mas de bom fundo
“Estamos longe d’aquelles campónios insolentes, trubulentos, cupidos, eivados d’alcoolismo, devastados por seitas ferozes, que preoccupam em Alemanha, na Itália, na França a gente que pensa e vê alguma cousa”

Gabrial Pereira, “Pelos Suburbios e visinhanças de Lisboa”,Livraria Clássica Editora, Lisboa,1910, pp.303 a 305

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Jornalistas do "Frente Oeste" com salários em atraso

"Jornalistas do “Frente Oeste” com salários em atraso

"1. Os jornalistas do semanário regional “Frente Oeste”, com sede em Torres Vedras, não recebem os salários desde Janeiro – o último liquidado – e não dispõem de qualquer informação sobre a previsão do seu pagamento.

"2. A empresa editora do jornal, que emprega cinco jornalistas, não apresentou qualquer justificação para o atraso, pelo que a situação se torna inaceitável perante a lei e os mais elementares princípios de respeito pelos direitos dos trabalhadores.

"3. O Sindicato dos Jornalistas (SJ) está a acompanhar a situação na empresa e a prestar apoio aos seus profissionais, estando a desencadear as necessárias diligências designadamente junto da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT).

"4. O jornal abrange os concelhos de Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Mafra, Óbidos, Peniche, Rio Maior, Sobral do Monte Agraço e Torres Vedras, estando também disponível online.

"Lisboa, 18 de Junho de 2009

"A Direcção do Sindicato dos Jornalistas".

O "Frente Oeste" e os seus jornalistas têm prestado um inestimável serviço a Torres Vedras e nas suas páginas têm sido publicadas muitas trabalhos de qualidade sobre a História Local de Torres Vedras, da autoria de vários colaboradores.
O "Frente Oeste" faz falta à região e a Torres Vedras, por isso é importante encontrar uma solução que salve esse projecto, um dos mais importantes na História do jornalismo torriense.
Como colaborador desse jornal, daqui manifo a minha profunda solidariedade para com os jornalistas desse prestigiado título local.

Feira de S.Pedro,uma feira com história

Data de 20 de Março de 1293, do reinado de D. Dinis, a doação da primeira carta de feira conhecida no concelho de Torres Vedras.
Foi a mais antiga doada no actual distrito de Lisboa. Era anual, realizando-se entre os dias 1 de Maio e 1 de Junho, sendo a de maior duração a sul de Santarém.
Foi ainda nesse reinado que se doou a T. Vedras uma nova carta de feira, datada de 28 de Abril de 1318, alterando, entre outras coisas, a data de realização daquela para os 30 dias que iam de 1 de Junho a 1 de Julho. [1]
Em nenhum desses dois documentos se refere a designação da feira, conhecida apenas pelo nome da localidade torriense. Contudo parece residir nesta segunda carta a criação da que é hoje conhecida como Feira de S. Pedro, pois a sua realização coincide com o dia de S. Pedro.
O período de realização desta feira manteve-se durante todo o século XIV e no século seguinte, conforme o comprovou o estudo de Ana Maria Rodrigues[2].
A primeira designação de uma feira de S. Pedro neste concelho data de 1456[3], mas parece referir-se á feira de Dois Portos, de acordo com a opinião daquela mesma autora[4].
A atribuição do nome de S. Pedro à feira da vila de Torres Vedras só se terá concretizado em 1521, quando D. Manuel, por carta de 16 de Agosto “ a requerimento dos Juízes e oficiais da Vila de Torres Vedras” ordenou que se fizesse “na dita Vila a feira” que todos os anos se fazia no seu termo, na Igreja de S. Pedro de Dois Portos “por seu dia”[5].
Esse pedido parece revelar alguma decadência da feira criada por D. Dinis, daí tanta preocupação em acabar com a concorrência daquela que tinha lugar em Dois Portos, situação que está na origem da designação da feira de Torres Vedras como Feira de S. Pedro.
Entramos então num período em que pouco se sabe sobre esta feira. Provavelmente acompanhou a decadência geral da economia do país entre os finais do século XVI e o início do século XVII.
A 6 de Abril de 1792, numa carta enviada a D.ª Maria I, o juiz de fora e os oficiais do município torriense, queixavam-se da decadência em que havia caído a feira de S. Pedro, solicitando que a sua realização se prolongasse por mais dois dias, de 29 de Junho a 1 de Julho, sugestão aceite pela soberana por provisão de 24 de Maio de 1792[6].
Contudo, pelo menos no final do século XIX, aquela feira continuava a realizar-se num único dia, situação que se manteve até 1912, data a partir da qual passou a efectuar-se, de forma contínua, durante três dias.
No início do século XIX, o local de realização da feira era junto à capela de Nª Snrª do Amial.
Após 1834 a sua localização foi mudada par o arvoredo junto à “fonte do Jardim”, lugar também conhecido por Varzea do Jardim, próxima do local do actual choupal[7].
Ainda nesse século, numa data não conhecida, algures entre 1869 e 1885, mudou-se para o local onde se manteria durante mais de um século, para a chamada alameda da Porta da Várzea.
A feira de S. Pedro atravessou quase todo o século XX sem grandes alterações..
Foi preciso aguardar pelo 25 de Abril para que ela iniciasse um caminho de radical transformação: de uma feira provinciana e caracteristicamente medieval, para a feira moderna e dinâmica dos nossos dias.
Numa reunião da Comissão Administrativa da Câmara , realizada a 16 de Julho de 1974, o vereador João Carlos propôs a formação de uma comissão que preparasse e planificasse uma proposta para transformar a tradicional feira de S. Pedro numa feira mais dinâmica e moderna, capaz de projectar a realidade económica da região. A proposta foi aprovada por unanimidade, formando-se uma comissão que desde logo começou a preparar a feira de 1975, a primeira de uma nova era.
Uma das novidades desta “nova” feira foi o alargamento do número de dias do certame, passando, dos tradicionais três dias, par nove dias, média que desde então se tem mantido até hoje. Foram construídos pavilhões temáticos e elaborou-se uma vasta programação cultural, desportiva e recreativa.
A partir de 1985 a feira conheceu um novo salto qualitativo, com o rejuvenescimento da comissão organizadora, dirigida agora pelo vereador António Carneiro, sendo então criada uma nova estrutura operacional, os “Serviço de Cultura e Turismo”, constituindo-se uma equipa permanente e polivalente de trabalhadores, nas áreas administrativa e operária, permitindo a realização, a partir de então, de um trabalho em continuidade.
A feira conheceu desde então um novo salto qualitativo, começando a falar-se da necessidade de se redefinir o espaço da sua realização.
Finalmente, na edição de 1999, a Feira de S. Pedro abre no então recém criado Parque Regional de Exposições, o seu espaço actual, numa área de 40 000 m2, onde foi implantada uma nave de exposições herdada da Expo 98 de Lisboa, e, poucos anos depois, um novo pavilhão multiusos. No inicio do século XXI a promoção e organização deste evento passou para a responsabilidade da empresa municipal Promotorres.
Nas palavras do actual presidente da Câmara, criaram-se “condições de qualidade para os expositores”, mantendo-se o lado lúdico e popular desta centenária feira[8].

[Para um conhecimento mais aprofundado do tema aconselha-se a consulta de: ROSA, António da Silva (coord.), Feiras do Concelho de Torres Vedras, 1989, Biblioteca Municipal; MATOS, Venerando Aspra de Feira de S. Pedro – 700 anos de História, ed. C.M.T.V., 1993.]


[1] RAU, Virgínia, Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Lx., Ed. Presença,1982.
[2] RODRIGUES, Ana Maria, Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média, Braga, ed. Universidade do Minho, 1992.
[3] SOUSA, J. M. Cordeiro de, Fontes Medievais de História Torreana, T. Vedras, Ed. Câmara Municipal de Torres Vedras, 1957.
[4] RODRIGUES (1992), p.246.
[5] SOUSA (1957),p.166.
[6] VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, T. Vedras 1926, p.213.
[7] ANOTADORES, op.cit.
[8] MIGUEL, Dr. Carlos, “Feira de S. Pedro: uma feira para miúdos e graúdos”, in boletim Feira de S. Pedro 07, 2007.

Feira de S.Pedro,uma feira com história

Fotografia antiga da feira de S. Pedro

Fotografia recente da mesma feira. O comércio tradicional é uma das suas imagens de marca.


Uma fotografia da Feira de S. Pedro, nos finais do século XIX

segunda-feira, 22 de junho de 2009

22 de Junho de 1924 - os "dias da rádio" chegam a Torres Vedras


Em 22 de Junho de 1924 tem lugar a primeira audição inaugural de rádio em Torres Vedras, promovida pelo “Rádio Club de Torres Vedras”, cujos estatutos tinham sido aprovados em 25 de Abril desse ano.
O bichinho pelo “som” e pela rádio “mexeu” desde muito cedo com os torrienses.
A existência de um grande número de bandas filarmónicas no concelho, durante a segunda metade do século XIX e o início do século XX, demonstram o interesse da gentes de então pela audição musical.
Também, desde muito cedo, foi introduzido em Torres Vedras o último grito em técnicas de divulgação sonora.
Logo no dia 2 de Dezembro de 1894 chegava a Torres Vedras o fonógrafo, inventado 16 anos antes por Edison.
Um jornal local da época anunciava esse acontecimento nos seguintes termos:
“O Aparelho que foi adquirido pelo sr. J.S.d’Oliveira Miranda na ocasião da exposição de Chicago, continua dando audição na sala do Grémio de Torres Vedras, onde o público pode ir ouvir mediante pequena quantia”.
Apenas 7 anos depois, em 25 de Fevereiro de 1901, tinha lugar a primeira audição do gramofone em Torres Vedras, por iniciativa de Cândido de Sousa Nascimento Vieira, que deu uma audição pública desse aparelho na sala do Casino.
O novo passo na evolução tecnológica da divulgação sonora deu-se, nesta terra, nos anos 20, quando “um grupo de rapazes” fundou na “vila uma sociedade para a vulgarisação da telefonia sem fios”.
Esse grupo adquiriu um “moderníssimo aparelho destinado à recepção de concertos musicais transmitidos pelas estações inglesas, francesas, americanas, italianas, etc.”[1].
No controle técnico dessa iniciativa encontravam-se “jovens” como António Hipólito ou Leonel Trindade.
Criado apenas 4 anos depois da primeira emissão regular de rádio a nível mundial, os responsáveis por esta iniciativa promoviam a audição pública de musica Jazz e Clássica.
O “Rádio Club” durou cerca de uma ano, tendo-se dissolvido em 1925, integrando-se no grupo fundador da Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras, fundada oficialmente em 9 de Abril de 1925.
Só na década de 60 surge a primeira rádio local, gerida por funcionários e doentes do sanatório do Barro.
Em 1976 surgiu um novo e efémero projecto, a Rádio Onda Livre.
Mais recentemente, na década de 80 do século passado, desde 1984, Torres Vedras conheceu um amplo movimento pela legalização das rádios locais, com a fundação da Rádio Onda Livre, da Rádio Estremadura e da Rádioeste, que começaram a emitir diariamente a partir de 1986, às quais se juntaria a Rádio Europa.
Só as duas últimas, Rádioeste e Rádio Europa, conseguiram ver reconhecida a sua legalização, mantendo-se ainda hoje em funcionamento.
Esta é uma história que ainda está por fazer, deixando aqui algumas pistas, neste dia em que se comemora a primeira audição pública da rádio em Torres Vedras.

[1] “A Nossa Terra”, 20 de Abril de 1924.

domingo, 21 de junho de 2009

No 80º Aniversário do Museu Municipal Leonel Trindade

Em 21 de Junho de 1929, há 80 anos, era aprovado pela Câmara de Torres o projecto de regulamento para a criação do Museu Municipal de Torres Vedras.
A ideia da criação de um museu municipal já vinha dos últimos anos da República, mas não teve o apoio necessário por parte da sua última Câmara, paradoxalmente lideradas pelos monárquicos locais.
Foi responsável pela sua criação Rafael Salinas Calado, tendo conhecido como primeira instalação a sala da Irmandade dos Clérigos Pobres, anexa à Igreja de S. Pedro.
Foram muitas as pessoas que cederam, alguns como empréstimo, as primeiras peças aí expostas, como os “primitivos” da Colegiada de Stª Maria do Castelo, graças à iniciativa do Padre Pio Sobreiro, o “bufete da Maceira”, cedido pelos descendentes do morgado daquela localidade, José da Cunha Santos Bernardes e esposa, vários objectos ligados à história municipal, cedidos pela Câmara.
Relata-nos Salinas Calado que a “abertura solene foi feita por João Luís de Moura”, então Governador Civil de Lisboa, “assistido de toda a Câmara a que presidia o grande animador, então Tenente França Borges, e o público, numa segunda-feira de descanso semanal, acorreu com curiosidade e apreciou com agrado e generosidade”.
A organização de um “Grupo dos Amigos do Museu”, permitiu a aquisição de muitos objectos, entre eles o célebre “bufete” acima referido, em troca de uma repica entregue aos seus proprietários[1].
Júlio de Sousa e Costa foi um dos primeiros visitantes do recém-criado Museu de Torres Vedras a descrever a importância do seu conteúdo:
“Quando há poucos dias estive no Museu Municipal de Torres Vedras enchi-me de funda satisfação por ver salvas das garras aduncas dos agentes rapinantes do espólio magnifico da bela região torreense, tanto objecto artístico e de merecimento.
“Aquela salinha azulejada com tanto esmero com o dossel das pinturas que não representam maravilhas da arte pictural, mas que são , indubitavelmente, um agrado à vista; aquela salinha que deve ser o ponto de partida para certame de vulto, carece de ser tão estimada como o sorriso de mulher que se adora… Aquela linda sala não envergonha quem a planisou, porquanto há lá exemplares que fariam já um catálogo útil e de valia.
“Há lá objectos de cerâmica que ainda não vi em museus categorisados, e isto bastará para calcular o recheio do termo de Torres Vedras”.[2]
Salinas Calado pediu a sua exoneração em 4 de Janeiro de 1932, sendo substituído pelo prestigiado arqueólogo local Aurélio Ricardo Belo[3].
Poucos anos depois, a partir de 16 de Março de 1944, o Museu mudou para novas e mais amplas instalações, no antigo Hospital da Misericórdia.
Uma das novidades desta segunda morada foi a criação de uma sala dedicada às “Guerras Peninsulares”, em 15 de Maio de 1955.
Entre 19 de Março de 1946 e 14 de Março de 1960, o Museu foi dirigido pelo dr. Augusto Maria Lopes da Cunha, sucedendo-lhe nessa data o eminente arqueólogo torriense Leonel Trindade, o último director oficial, até à sua morte em 1992[4].
Leonel Trindade desenvolveu uma outra importante vertente deste Museu, a divulgação do valioso espólio arqueológico da região, nomeadamente do Calcolítico e da época romana.
Em 1992 o Museu foi transferido par as suas actuais instalações, no antigo Convento da Graça, sendo-lhe atribuída, em 1999, a designação de Museu Municipal Leonel Trindade.
Actualmente o Museu aguarda a execução de um novo projecto de renovação e dinamização, apostando ultimamente em exposições anuais temáticas, como a que está a decorrer até Setembro, intitulada “Um pouco mais de azul, um pouco mais de vento – o património dos rios de Torres Vedras e do mar”, dedicado à história e etnografia dos rios Sizandro e Alcabrichel e da pesca marítima na região (Assenta, Santa Cruz e Porto Novo).

[1] CALADO, Rafael Salinas, “Torres Vedras e o seu Museu Municipal”, in Estremadura, nº 16 – 2ª série, 1947, pp. 365 a 367.
[2] COSTA, Júlio de Sousa e, “O Museu Municipal de Torres Vedras”, in Gazeta de Torres, 29 de Junho de 1930.
[3] “O sr. Dr. Salinas Calado pediu a sua exoneração de director do Museu Municipal”, in O Jornal de Torres Vedras, 31 de Janeiro de 1932.
[4] FORTES, Luís, “A propósito das I Jornadas de História e Cultura Torreenses – Da Fundação e Primeiros Passos do Museu de Torres Vedras”, in Frente Oeste, 26 de Novembro de 1992.

No 80º Aniversário do Museu Municipal Leonel Trindade

Uma exposição a visitar até Setembro

Uma reconstituição Histórica na sala da Guerra Peninsular.


Local das actuais instalações do Museu Leonel Trindade.


No antigo Hospital da Misericórdia funcionou durante a maior parte da sua História o Museu Municipal.



Aqui, na antiga sala da Irmandade dos Clérigos Pobres, teve lugar a primeira instalação do Museu Municiapal.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

18 de Junho de 1792 - inicio das obras do Hospital de Runa

No dia 18 de Junho de 1792 iniciava-se a construção do “Hospital dos Inválidos Militares de Runa”
Deveu-se a sua construção à Iniciativa da Princesa D. Maria Francisca Benedita, para perpetuar a memória do seu falecido marido, o príncipe D. José.
Para esse efeito comprou a Quinta de Alcobaça, junto a Runa, e outras propriedades anexas, como a quinta de S. Miguel, na Enxara do Bispo, e a quinta da Amora, em 11 de Agosto de 1790.
Custou tudo mais de quarenta contos de réis, uma quantia significativa para a época.
O edifício foi projectado pelo arquitecto José da Costa e Silva (1747-1819), o nome mais importante do neo-clássico português.
Na sua construção trabalharam mais de 300 operários, recrutados na região. Estas foram interrompidas quando da fuga da família real para o Brasil em 1807, embora as obras já estivessem então bastante adiantadas.
A partir do Brasil a princesa prosseguiu os seus esforços para completar a obra, enviando avultosas quantias em dinheiro para esse fim.
Durante a Guerra peninsular o edifício inacabado chegou a ser usado com hospital de campanha
Quando a família real regressou em 1821 o edifício estava quase concluído. Porém foi necessário esperar mais 6 anos pela sua conclusão.
Finalmente, em 25 de Julho de 1827, dia do 81º aniversário da princesa, realizava-se a sua faustosa inauguração.
O programa das festas incluiu uma parte religiosa “celebrada com grande solenidade”, tendo a própria princesa servido a primeira refeição aos 16 veteranos militares que ali deram entrada nesse dia, doze cabos e soldados e os seguintes oficiais: Cristóvão Tomás, tenente de artilharia, Félix de Valois, primeiro-sargento de infantaria, e Joaquim Maria Cordeiro e Joaquim Jorge Ervilheiro, segundo-sargento.
Essea militares tinham feito as guerras do Roussilon e Peninsular .
O edifício é um quadrilátero regular, com 99 metros de frente, 61 nos alçados laterais e 13 de altura na fachada.
“Ao centro do edifício, a notável entrada para a igreja, formando peristilo, é de uma arquitectura austera e nobre. O templo tem uma curta nave ou corpo e um grande transepto em que os topos são rematados em semicírculo. O conjunto é dominado por uma cúpula. É inegável que o revestimento de mármore dá certa riqueza ao interior, mas o ambiente é frio e o altar-mor, colocado ao centro, é pesado e fúnebre. De notar, contudo, os nichos com esculturas de mármore de Carrara ao estilo neoclássico (...). Pertence também a esta igreja uma alta e valiosa custódia de prata dourada cravejada de pedras preciosas.
“Como motivo de interesse para o visitante, deve-se mencionar ainda a Tribuna Real, de cujas janelas – no primeiro andar- se tem a melhor perspectiva sobre o interior da igreja. Hoje armada em sala, guarda várias pinturas de valor – portuguesas e estrangeiras. Sobressaem as três tábuas portuguesas da primeira metade do século XVI” [escola de Gregório Lopes?]”,representando São Luís, rei de França, S. João Baptista e S. Jerónimo, S. Bento e santo Ambrósio, e uma tela representando Santo António e o Menino, assinada por Vieira Lusitano (...).(No centro tem uma capela barroca forrada com mármores extraídos de pedreiras da região e ornada com estátuas de mármore de Carrara”.[1]
Em testamento deixou a princesa todos os seus bens a esta instituição.
Actualmente esse estabelecimento designa-se por Centro Social de Runa.
Mais informações sobre esse monumento, o seu funcionamento actual e as condições para o visitar, podem se consultadas no seguinte site:

http://www.iasfa.pt/runa.html

[1] Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35 1963.