terça-feira, 7 de julho de 2009

Nos primórdios do transporte automóvel em Torres Vedras


Uma das primeiras "camionetas" de João Henriques dos Santos (anos 20)

Camioneta de Ruy da Costa Lopes


Uma "paragem" frente ao Convento da Graça



Uma camioneta de passageiros em Stª Cruz - início do século XX

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Primeira Feira de S. Pedro, depois da chegada do caminho-de-ferro (1887)

No último dia de Dezembro de 1886 chegava a Torres Vedras a primeira locomotiva do caminho-de-ferro. Em Maio de 1887 iniciava-se o serviço regular de mercadorias e passageiros entre Lisboa e Torres Vedras, por via férrea.
Pouco mais de um mês depois tinha lugar na vila mais uma edição da tradicional Feira de S. Pedro.
Nesta primeira feira após a chegada do caminho-de-ferro fez-se notar, desde logo, o impacto desse novo meio de transporte, como referia a imprensa da época:
“De a verem tão concorrida, como este ano, não se lembram os moradores mais antigos daqui. Desde o amanhecer até à noite foi incessante a romaria até ao local da feira, que, sendo tão vasto, tornou-se naquele dia insuficiente para conter a multidão, que afluiu de todos os pontos, e o avultado numero de barracas de todos os géneros e feitios que ali estavam armadas. Em todas se fizeram vendas regulares. As de comes e bebes, as dos espectáculos variados, incluindo os cavallinhos, estiveram sempre cheios de apreciadores. Gado abundava, mas de qualidade inferior. Assim mesmo, os ciganos fizeram bom negocio.
“Permaneceram ainda na quinta feira algumas barracas, e dizem-nos que as das diversões ficam por alguns dias, por isso que continuam a atrair muita gente como as da empresa “Honorio & C.ª” que têem o pomposo titulo de “Corridas de cavallos”, e de Tiro ao alvo com magnificas espingardas alemãs, pelo que tem apanhado boa soma de vinténs.
“Pode dizer-se que reinou no recinto da feira a melhor ordem (…)”

(A Voz de Torres Vedras, 2 de Julho de 1887).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - (2) Junho de 1889

(Torres Vedras, numa gravura do Século XIX)

A comemoração dos Santos Populares foi um tema recorrente na imprensa torriense de há 120 anos.
O Santo António foi “festejado por algumas famílias. Na véspera houve illuminação e fogos de artificio no sitio da Costa do Castello. Algumas fogueiras n’outros pontos.
“No próprio dia fez-se, na forma dos mais annos, arraial no Varatojo”[1] .
O S. João teve as suas comemorações mais importantes em Runa:
“Realisou-se no dia 24, em Runa, a costumada festa de S. João Baptista, a qual teve o luzimento dos annos anteriores, achando-se a egreja bellamente adornada.
“Abrilhantou a festa a orchestra regida pelo maestro Lagrange, que foi como sempre correcto no seu desempenho. Orou o revº Conceição Vieira de Lisboa (…).
“O arraial, artisticamente ornamentado, esteve muito concorrido; á noite a illuminação produziu um bello efeito, e durante o fogo de artificio, que foi bastante vistoso, tocou variadas e escolhidas peças de musica a phylarmonica d’esta villa [de T. Vedras]”[2] .
Mas o S.Pedro foi sempre o ponto alto nos festejos dedicados aos Santos Populares em Torres Vedras, graças à realização da secular que lhe é dedicada, descrita de forma pitoresca por um jornalista local:
“O sol de Verão, que andava a modo com maleitas, dignou-se apparecer em toda a sua plenitude coruscante, e animar o grande quadro da feira, estendida em todo o vasto recinto da Porta da Várzea, rematando ao sul com a passagem typica do acampamento da ciganagem, com as suas tendas improvisadas, os seus montões de farrapagens, os seus vestuários sujos e garridos, os seus rostos acobreados, com molduras de cabello desgrenhado. A caravana, dividida em grupos, sobre a alfombra da relva, e no fresco abrigo do arvoredo copado, por ali relaçava(sic), entre a récua de cavalgaduras, que teem faltado aos respectivos donos, e que os ciganos vão trocando e vendendo, conseguindo sempre augmentar-lhe o numero, sem os comprarem.
“#
“A concorrência de expositores e feirantes foi enorme. No dia de S. Pedro, desde a madrugada, que um enorme concurso de povo afflui ao mercado, e às 10 horas dois comboios, chegados successivamente, trouxeram mais umas 600 pessoas que fizeram da Porta da Várzea um mar de cabeças humanas.
“Há quem diga que a feira foi mais concorrida do que no anno passado, e com referencia a commercio, todos a suppõem mais vantajosa. Appareceram muitos gados, e realisaram-se algumas transacções em gado cavallar. O gado bovino, próprio para trabalho, estava mais caro do que na feira chamada das fructas novas, em Santo Quintino [Sobral de Monte Agraço], por isso quem desejava comprara bois, resolveu-se a esperar. Comtudo houve algumas transacções, especialmente em gado para abater.
“O commercio nas lojas da villa esteve animado. Muitos touristas vieram, por mero passeio, visitar Torres Vedras, muitos d’elles eram nossos antigos amigos, que tivemos o gosto de abarcar. Não lhes enumeramos aqui nomes, com receio de incorrer n’alguma omissão.
“#
“Hoje apenas resta da feira uma ou outra bancada nua e retardatária; e d’aquelle bulício atroador, apenas accorda ainda os ecos das encostas circundantes da vasta alameda, o zambuar da barraca dos fantoches, que ahi se demoraram, fabricando gargalhadas, com as suas peripécias burlescas” [3].
Para aproveitar o público dessa feira , estabeleceu-se na vila um teatro ambulante, o “Theatro Club”.[4]
Outras festas de carácter religioso tiveram lugar no concelho esse mês como a Festa de Santa Catarina na Ribaldeira, Domingo 2 de Junho [5], ou a “Procissão de Corpus Christi”, realizada a 20 de Junho, que decorreu “ com a solemnidade dos mais annos, saindo da collegiada de Santa Maria do Castello, e percorrendo algumas ruas da villa” [6].
O início do Verão trazia a Torres Vedras, a caminho de Santa Cruz para “banhos”, um grupo de 60 crianças, vindas “de Lisboa no comboio da manhã de quarta-feira, (…) acompanhadas de três irmãs de caridade, e dos respectivos professores, ou regentes, do Collegio de Campolide”, sendo depois conduzidos em “trens” para a “referida praia”[7].
Os primeiros anos do comboio a passar por Torres Vedras foram essenciais para marcar uma nova dinâmica na actividade da vila.
Embora queixando-se da “ por ora diminuta (…) concorrência de passageiros de Lisboa a esta vila e seus subúrbios”, a imprensa local fazia notar que, ainda “assim no serviço dos hotéis conhece-se diferença para mais do que o costume; e é de presumir que, continuando o belo tempo dos últimos dias, haja afluência de visitantes nos próximos dias santificados. Oxalá ”[8].
A maior afluência de forasteiros a Torres Vedras e as possibilidades de expansão comercial, por causa do caminho-de-ferro, obrigou a várias obras de melhoramentos nas estradas do concelho.
Foi o que aconteceu com a “estrada de S. Pedro da Cadeira”, tomando-se conhecimento esse mês, por “telegramma recebido no dia 27 pelo sr. Administrador do concelho, e expedido pelo deputado d’este círculo, o sr. Dr. Casal Ribeiro” de “ haver sido concedida a estrada de S. Pedro da Cadeira, cuja construcção, que será feita por empreitadas parciaes, começará brevemente”[9].
Actividade que conhecia igualmente grande expansão, a vinicultura, atraia a Torres Vedras vários comerciantes do ramo, como o “ mr. A de Pomarède, accreditado negociante de vinhos, e membro da câmara do commercio de Bordéus”[10] .
Decorreram assim os dias desse mês de Junho de 1889, cujos ecos distantes chegaram até nós em descrições intensas e coloridas, publicadas na imprensa local da época.

[1] A Voz de Torres Vedras, 15 de Junho de 1889.
[2] A Voz de Torres Vedras, 29 de Junho de 1889.
[3] A Semana, 4 de Julho de 1889.
[4] A Semana, 27 de Junho 1889.
[5] A Semana, 30 de Maio de 1889.
[6] A Voz de Torres Vedras, 22 de Junho de 1889.
[7] A Voz de Torres Vedras, 8 de Junho de 1889
[8] A Voz de Torres Vedras, 11 de Junho de 1889
[9] A Voz de Torres Vedras, 26 de Junho de 1889.
[10] A Semana, 6 de Junho de 1889.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

NO DIA DE S. PEDRO - Recordando a Feira de Outros Tempos

Hoje, dia de S.Pedro, que está na origem da medieval feira torriense, recordamos uma descrição dela dos anos 60:
“A feira está montada! Todos os anos, nesta mesma época, neste mesmo dia, nesta mesma hora, a feira existe cheia de sons, de cores, de vozes. O concelho está, em peso, na vila. Chapéu novo, fato novo, riso novo a bailar nos olhos vivos e abertos que seguem a roda sem fim dos cavalinhos.
“O campo da feira é uma densa nuvem de pó. Pó no ar, nos fatos, nos pés, nas bocas. Pó que vem em ondas e traz a música ruidosa e rodopiante dos recintos de diversão. Um mar de gente que come torrão de Alicante, puxa o cordão da sorte, ingere farturas, vai aos automóveis e cavalinhos, lê a sina e joga a argola de enfiar no gargalo da garrafa.
“Sai sempre, freguês!” A família, com os filhos em escada, olha a grelha da barraca onde se encontram expostas dezenas de estatuetas de barro. A vida de Nossa Senhora está escrita no taipal colorido. Lá dentro, centenas de bonecos pequeninos contam a história da Bíblia.
“Passa-se a manhã, vem a tarde. Um copo, farturas, uma sardinha, um copo mais. Vendem-se loiças, panos, colares de lindas fantasias.
“Um tirinho, freguês?!” Chapéus com flor na fita debruçam-se gulosos, sobre o cano da espingardas.
“A feira vive! Ás três horas da tarde ninguém se pode mexer. Além, a lâmina duma navalha abre-se, a coisa mete guarda. Gritos confundidos com o disco que se repete pela vigésima vez. E a tarde roda sem se dar por isso.
“Á noite, quando o povo da aldeia se retira para casa, a vila desce ao campo e dá as boas vindas á feira. Gira uma fauna diferente. Cumprimentos, acenos, sorrisos. Morreu a vivacidade viril que explodia das veias do homem da terra. Há um tom calmo e pachorrento.
“Todos os anos a feira chega e parte assim (…)”

(texto anónimo [da autoria de António Augusto Sales ou de Venerando Ferreira de Matos?] publicado no catálogo da Feira de S. Pedro de 1964)

sábado, 27 de junho de 2009

Numa Feira Torriense de há Cem Anos

Na sua obra "Pelos Suburbios e Vizinhanças de Lisboa", publicada em 1910, Gabrial Pereira descreve o ambiente de uma feira torriense, uma "Feira Franca", que decorreu em Agosto de 1904.
Não sabemos se ele se referia à chamada Feira Nova, que se realizava por essa altura,ou ao mercado mensal da então vila.
Contudo, o ambiente aí descrito não seria muito diferente do que se vivia na então Feira de S. Pedro.
É com o objectivo de perceber qual era o ambiente numa feira torriense há cem anos que transcrevemos de seguida:
"FEIRA FRANCA
“(21 de Agosto de 1904)

“Na grande várzea em parte arborisada faz-se esta feira muito concorrida pela gente d’aquelles sítios; a região de Torres Vedras é bastante povoada; aldeias e logarejos, boas quintas, casaes, matizam os campos accidentados, as collinas entremeadas de valles e várzeas férteis.
“Este rocio onde se faz a feira tem ao lado a casaria da villa, ao norte o monte onde se ergue ocastello, entre olivedo e paredões negros alveja a egreja de Santa Maria, muito caiada; mais longee mais alto o monte de S. Vicente; a poente do rocio a serra do Varatojo, vestida de vinhedos. Na parte arborisada enfileiram-se barracas e tendas, no rocio nú é a feira de gados e a corredoura.
“As barracas de ourivesaria agrupam-se com as dos utensílios de arame, cobre, ferro estanhado, latoaria. As dos vidros estão perto do grande estendal de louças brancas e vermelhas.
“A louça ordinária, popular, provém das differentes olarias do termo de Mafra, a branca vem de Alcobaça.
“A notar um especialistas de buzinas de moinhos de vento, aquellas vasilhas de barro, que assobiam e zumbem quando o vento apressa o movimento das quatro velas triangulares.
“Vende-se calçado grosso, bastante correaria, não faltando as sogas ornadas, bordadas a pita colorida.
“Pequenas quinquilherias, modestas roletas variadas formam uma rua, leiloeiros de varias qualidades chamam a grito a attenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo.
“Num espaço grande estão as madeiras; o que mais dá na vista é o material vinario; é natural, estamos numa grande região vinhateira.
“Cubas, tonéis, balseiros, barris, celhas, tinas em abundância; de castanho, as mais; algumas de pinho da terra, género barato. Carros para bois, e também de pequenas dimensões e de construcção mais leve para burricos. Há especialistas em arcos, e negociantes de varedo, assim como de crivos e peneiras.
“Menos importante a feira do gado; bastantes porcas com leitões, poucas juntas de bois, pouco inferior o gado cavallar e asinino.
“Pareceu-me em geral mal tratado o gado, tanto na feira como no que observei fora.
“É mais a pancada que a alimentação regular.
“Já se vê não faltavam as barracas de comer e beber, com os seus fritos alourados, e constante freguezia.
“Comia-se bem, bebia-se melhor; homens e mulheres espatifavam acerejadas gallinhas, consumiam patos com arroz cheirando que era uma delicia, e sorviam as talhadas dos sumarentos e aromáticos melões, atirando as cascas aos porcos e leitões grunhindo pela gulodice.
“A impressão geral é de atrazo, de educação nulla ou rudimentar; de trabalho mau com inferior alfaia, todavia gosto de ver o povo rural nestas feiras; é naturalmente são; um tanto brutal nos costumes, se ninguém trata d’elle! Mas de bom fundo
“Estamos longe d’aquelles campónios insolentes, trubulentos, cupidos, eivados d’alcoolismo, devastados por seitas ferozes, que preoccupam em Alemanha, na Itália, na França a gente que pensa e vê alguma cousa”

Gabrial Pereira, “Pelos Suburbios e visinhanças de Lisboa”,Livraria Clássica Editora, Lisboa,1910, pp.303 a 305

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Jornalistas do "Frente Oeste" com salários em atraso

"Jornalistas do “Frente Oeste” com salários em atraso

"1. Os jornalistas do semanário regional “Frente Oeste”, com sede em Torres Vedras, não recebem os salários desde Janeiro – o último liquidado – e não dispõem de qualquer informação sobre a previsão do seu pagamento.

"2. A empresa editora do jornal, que emprega cinco jornalistas, não apresentou qualquer justificação para o atraso, pelo que a situação se torna inaceitável perante a lei e os mais elementares princípios de respeito pelos direitos dos trabalhadores.

"3. O Sindicato dos Jornalistas (SJ) está a acompanhar a situação na empresa e a prestar apoio aos seus profissionais, estando a desencadear as necessárias diligências designadamente junto da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT).

"4. O jornal abrange os concelhos de Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Mafra, Óbidos, Peniche, Rio Maior, Sobral do Monte Agraço e Torres Vedras, estando também disponível online.

"Lisboa, 18 de Junho de 2009

"A Direcção do Sindicato dos Jornalistas".

O "Frente Oeste" e os seus jornalistas têm prestado um inestimável serviço a Torres Vedras e nas suas páginas têm sido publicadas muitas trabalhos de qualidade sobre a História Local de Torres Vedras, da autoria de vários colaboradores.
O "Frente Oeste" faz falta à região e a Torres Vedras, por isso é importante encontrar uma solução que salve esse projecto, um dos mais importantes na História do jornalismo torriense.
Como colaborador desse jornal, daqui manifo a minha profunda solidariedade para com os jornalistas desse prestigiado título local.

Feira de S.Pedro,uma feira com história

Data de 20 de Março de 1293, do reinado de D. Dinis, a doação da primeira carta de feira conhecida no concelho de Torres Vedras.
Foi a mais antiga doada no actual distrito de Lisboa. Era anual, realizando-se entre os dias 1 de Maio e 1 de Junho, sendo a de maior duração a sul de Santarém.
Foi ainda nesse reinado que se doou a T. Vedras uma nova carta de feira, datada de 28 de Abril de 1318, alterando, entre outras coisas, a data de realização daquela para os 30 dias que iam de 1 de Junho a 1 de Julho. [1]
Em nenhum desses dois documentos se refere a designação da feira, conhecida apenas pelo nome da localidade torriense. Contudo parece residir nesta segunda carta a criação da que é hoje conhecida como Feira de S. Pedro, pois a sua realização coincide com o dia de S. Pedro.
O período de realização desta feira manteve-se durante todo o século XIV e no século seguinte, conforme o comprovou o estudo de Ana Maria Rodrigues[2].
A primeira designação de uma feira de S. Pedro neste concelho data de 1456[3], mas parece referir-se á feira de Dois Portos, de acordo com a opinião daquela mesma autora[4].
A atribuição do nome de S. Pedro à feira da vila de Torres Vedras só se terá concretizado em 1521, quando D. Manuel, por carta de 16 de Agosto “ a requerimento dos Juízes e oficiais da Vila de Torres Vedras” ordenou que se fizesse “na dita Vila a feira” que todos os anos se fazia no seu termo, na Igreja de S. Pedro de Dois Portos “por seu dia”[5].
Esse pedido parece revelar alguma decadência da feira criada por D. Dinis, daí tanta preocupação em acabar com a concorrência daquela que tinha lugar em Dois Portos, situação que está na origem da designação da feira de Torres Vedras como Feira de S. Pedro.
Entramos então num período em que pouco se sabe sobre esta feira. Provavelmente acompanhou a decadência geral da economia do país entre os finais do século XVI e o início do século XVII.
A 6 de Abril de 1792, numa carta enviada a D.ª Maria I, o juiz de fora e os oficiais do município torriense, queixavam-se da decadência em que havia caído a feira de S. Pedro, solicitando que a sua realização se prolongasse por mais dois dias, de 29 de Junho a 1 de Julho, sugestão aceite pela soberana por provisão de 24 de Maio de 1792[6].
Contudo, pelo menos no final do século XIX, aquela feira continuava a realizar-se num único dia, situação que se manteve até 1912, data a partir da qual passou a efectuar-se, de forma contínua, durante três dias.
No início do século XIX, o local de realização da feira era junto à capela de Nª Snrª do Amial.
Após 1834 a sua localização foi mudada par o arvoredo junto à “fonte do Jardim”, lugar também conhecido por Varzea do Jardim, próxima do local do actual choupal[7].
Ainda nesse século, numa data não conhecida, algures entre 1869 e 1885, mudou-se para o local onde se manteria durante mais de um século, para a chamada alameda da Porta da Várzea.
A feira de S. Pedro atravessou quase todo o século XX sem grandes alterações..
Foi preciso aguardar pelo 25 de Abril para que ela iniciasse um caminho de radical transformação: de uma feira provinciana e caracteristicamente medieval, para a feira moderna e dinâmica dos nossos dias.
Numa reunião da Comissão Administrativa da Câmara , realizada a 16 de Julho de 1974, o vereador João Carlos propôs a formação de uma comissão que preparasse e planificasse uma proposta para transformar a tradicional feira de S. Pedro numa feira mais dinâmica e moderna, capaz de projectar a realidade económica da região. A proposta foi aprovada por unanimidade, formando-se uma comissão que desde logo começou a preparar a feira de 1975, a primeira de uma nova era.
Uma das novidades desta “nova” feira foi o alargamento do número de dias do certame, passando, dos tradicionais três dias, par nove dias, média que desde então se tem mantido até hoje. Foram construídos pavilhões temáticos e elaborou-se uma vasta programação cultural, desportiva e recreativa.
A partir de 1985 a feira conheceu um novo salto qualitativo, com o rejuvenescimento da comissão organizadora, dirigida agora pelo vereador António Carneiro, sendo então criada uma nova estrutura operacional, os “Serviço de Cultura e Turismo”, constituindo-se uma equipa permanente e polivalente de trabalhadores, nas áreas administrativa e operária, permitindo a realização, a partir de então, de um trabalho em continuidade.
A feira conheceu desde então um novo salto qualitativo, começando a falar-se da necessidade de se redefinir o espaço da sua realização.
Finalmente, na edição de 1999, a Feira de S. Pedro abre no então recém criado Parque Regional de Exposições, o seu espaço actual, numa área de 40 000 m2, onde foi implantada uma nave de exposições herdada da Expo 98 de Lisboa, e, poucos anos depois, um novo pavilhão multiusos. No inicio do século XXI a promoção e organização deste evento passou para a responsabilidade da empresa municipal Promotorres.
Nas palavras do actual presidente da Câmara, criaram-se “condições de qualidade para os expositores”, mantendo-se o lado lúdico e popular desta centenária feira[8].

[Para um conhecimento mais aprofundado do tema aconselha-se a consulta de: ROSA, António da Silva (coord.), Feiras do Concelho de Torres Vedras, 1989, Biblioteca Municipal; MATOS, Venerando Aspra de Feira de S. Pedro – 700 anos de História, ed. C.M.T.V., 1993.]


[1] RAU, Virgínia, Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Lx., Ed. Presença,1982.
[2] RODRIGUES, Ana Maria, Torres Vedras – A vila e o termo nos finais da Idade Média, Braga, ed. Universidade do Minho, 1992.
[3] SOUSA, J. M. Cordeiro de, Fontes Medievais de História Torreana, T. Vedras, Ed. Câmara Municipal de Torres Vedras, 1957.
[4] RODRIGUES (1992), p.246.
[5] SOUSA (1957),p.166.
[6] VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, T. Vedras 1926, p.213.
[7] ANOTADORES, op.cit.
[8] MIGUEL, Dr. Carlos, “Feira de S. Pedro: uma feira para miúdos e graúdos”, in boletim Feira de S. Pedro 07, 2007.

Feira de S.Pedro,uma feira com história

Fotografia antiga da feira de S. Pedro

Fotografia recente da mesma feira. O comércio tradicional é uma das suas imagens de marca.


Uma fotografia da Feira de S. Pedro, nos finais do século XIX

segunda-feira, 22 de junho de 2009

22 de Junho de 1924 - os "dias da rádio" chegam a Torres Vedras


Em 22 de Junho de 1924 tem lugar a primeira audição inaugural de rádio em Torres Vedras, promovida pelo “Rádio Club de Torres Vedras”, cujos estatutos tinham sido aprovados em 25 de Abril desse ano.
O bichinho pelo “som” e pela rádio “mexeu” desde muito cedo com os torrienses.
A existência de um grande número de bandas filarmónicas no concelho, durante a segunda metade do século XIX e o início do século XX, demonstram o interesse da gentes de então pela audição musical.
Também, desde muito cedo, foi introduzido em Torres Vedras o último grito em técnicas de divulgação sonora.
Logo no dia 2 de Dezembro de 1894 chegava a Torres Vedras o fonógrafo, inventado 16 anos antes por Edison.
Um jornal local da época anunciava esse acontecimento nos seguintes termos:
“O Aparelho que foi adquirido pelo sr. J.S.d’Oliveira Miranda na ocasião da exposição de Chicago, continua dando audição na sala do Grémio de Torres Vedras, onde o público pode ir ouvir mediante pequena quantia”.
Apenas 7 anos depois, em 25 de Fevereiro de 1901, tinha lugar a primeira audição do gramofone em Torres Vedras, por iniciativa de Cândido de Sousa Nascimento Vieira, que deu uma audição pública desse aparelho na sala do Casino.
O novo passo na evolução tecnológica da divulgação sonora deu-se, nesta terra, nos anos 20, quando “um grupo de rapazes” fundou na “vila uma sociedade para a vulgarisação da telefonia sem fios”.
Esse grupo adquiriu um “moderníssimo aparelho destinado à recepção de concertos musicais transmitidos pelas estações inglesas, francesas, americanas, italianas, etc.”[1].
No controle técnico dessa iniciativa encontravam-se “jovens” como António Hipólito ou Leonel Trindade.
Criado apenas 4 anos depois da primeira emissão regular de rádio a nível mundial, os responsáveis por esta iniciativa promoviam a audição pública de musica Jazz e Clássica.
O “Rádio Club” durou cerca de uma ano, tendo-se dissolvido em 1925, integrando-se no grupo fundador da Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras, fundada oficialmente em 9 de Abril de 1925.
Só na década de 60 surge a primeira rádio local, gerida por funcionários e doentes do sanatório do Barro.
Em 1976 surgiu um novo e efémero projecto, a Rádio Onda Livre.
Mais recentemente, na década de 80 do século passado, desde 1984, Torres Vedras conheceu um amplo movimento pela legalização das rádios locais, com a fundação da Rádio Onda Livre, da Rádio Estremadura e da Rádioeste, que começaram a emitir diariamente a partir de 1986, às quais se juntaria a Rádio Europa.
Só as duas últimas, Rádioeste e Rádio Europa, conseguiram ver reconhecida a sua legalização, mantendo-se ainda hoje em funcionamento.
Esta é uma história que ainda está por fazer, deixando aqui algumas pistas, neste dia em que se comemora a primeira audição pública da rádio em Torres Vedras.

[1] “A Nossa Terra”, 20 de Abril de 1924.

domingo, 21 de junho de 2009

No 80º Aniversário do Museu Municipal Leonel Trindade

Em 21 de Junho de 1929, há 80 anos, era aprovado pela Câmara de Torres o projecto de regulamento para a criação do Museu Municipal de Torres Vedras.
A ideia da criação de um museu municipal já vinha dos últimos anos da República, mas não teve o apoio necessário por parte da sua última Câmara, paradoxalmente lideradas pelos monárquicos locais.
Foi responsável pela sua criação Rafael Salinas Calado, tendo conhecido como primeira instalação a sala da Irmandade dos Clérigos Pobres, anexa à Igreja de S. Pedro.
Foram muitas as pessoas que cederam, alguns como empréstimo, as primeiras peças aí expostas, como os “primitivos” da Colegiada de Stª Maria do Castelo, graças à iniciativa do Padre Pio Sobreiro, o “bufete da Maceira”, cedido pelos descendentes do morgado daquela localidade, José da Cunha Santos Bernardes e esposa, vários objectos ligados à história municipal, cedidos pela Câmara.
Relata-nos Salinas Calado que a “abertura solene foi feita por João Luís de Moura”, então Governador Civil de Lisboa, “assistido de toda a Câmara a que presidia o grande animador, então Tenente França Borges, e o público, numa segunda-feira de descanso semanal, acorreu com curiosidade e apreciou com agrado e generosidade”.
A organização de um “Grupo dos Amigos do Museu”, permitiu a aquisição de muitos objectos, entre eles o célebre “bufete” acima referido, em troca de uma repica entregue aos seus proprietários[1].
Júlio de Sousa e Costa foi um dos primeiros visitantes do recém-criado Museu de Torres Vedras a descrever a importância do seu conteúdo:
“Quando há poucos dias estive no Museu Municipal de Torres Vedras enchi-me de funda satisfação por ver salvas das garras aduncas dos agentes rapinantes do espólio magnifico da bela região torreense, tanto objecto artístico e de merecimento.
“Aquela salinha azulejada com tanto esmero com o dossel das pinturas que não representam maravilhas da arte pictural, mas que são , indubitavelmente, um agrado à vista; aquela salinha que deve ser o ponto de partida para certame de vulto, carece de ser tão estimada como o sorriso de mulher que se adora… Aquela linda sala não envergonha quem a planisou, porquanto há lá exemplares que fariam já um catálogo útil e de valia.
“Há lá objectos de cerâmica que ainda não vi em museus categorisados, e isto bastará para calcular o recheio do termo de Torres Vedras”.[2]
Salinas Calado pediu a sua exoneração em 4 de Janeiro de 1932, sendo substituído pelo prestigiado arqueólogo local Aurélio Ricardo Belo[3].
Poucos anos depois, a partir de 16 de Março de 1944, o Museu mudou para novas e mais amplas instalações, no antigo Hospital da Misericórdia.
Uma das novidades desta segunda morada foi a criação de uma sala dedicada às “Guerras Peninsulares”, em 15 de Maio de 1955.
Entre 19 de Março de 1946 e 14 de Março de 1960, o Museu foi dirigido pelo dr. Augusto Maria Lopes da Cunha, sucedendo-lhe nessa data o eminente arqueólogo torriense Leonel Trindade, o último director oficial, até à sua morte em 1992[4].
Leonel Trindade desenvolveu uma outra importante vertente deste Museu, a divulgação do valioso espólio arqueológico da região, nomeadamente do Calcolítico e da época romana.
Em 1992 o Museu foi transferido par as suas actuais instalações, no antigo Convento da Graça, sendo-lhe atribuída, em 1999, a designação de Museu Municipal Leonel Trindade.
Actualmente o Museu aguarda a execução de um novo projecto de renovação e dinamização, apostando ultimamente em exposições anuais temáticas, como a que está a decorrer até Setembro, intitulada “Um pouco mais de azul, um pouco mais de vento – o património dos rios de Torres Vedras e do mar”, dedicado à história e etnografia dos rios Sizandro e Alcabrichel e da pesca marítima na região (Assenta, Santa Cruz e Porto Novo).

[1] CALADO, Rafael Salinas, “Torres Vedras e o seu Museu Municipal”, in Estremadura, nº 16 – 2ª série, 1947, pp. 365 a 367.
[2] COSTA, Júlio de Sousa e, “O Museu Municipal de Torres Vedras”, in Gazeta de Torres, 29 de Junho de 1930.
[3] “O sr. Dr. Salinas Calado pediu a sua exoneração de director do Museu Municipal”, in O Jornal de Torres Vedras, 31 de Janeiro de 1932.
[4] FORTES, Luís, “A propósito das I Jornadas de História e Cultura Torreenses – Da Fundação e Primeiros Passos do Museu de Torres Vedras”, in Frente Oeste, 26 de Novembro de 1992.

No 80º Aniversário do Museu Municipal Leonel Trindade

Uma exposição a visitar até Setembro

Uma reconstituição Histórica na sala da Guerra Peninsular.


Local das actuais instalações do Museu Leonel Trindade.


No antigo Hospital da Misericórdia funcionou durante a maior parte da sua História o Museu Municipal.



Aqui, na antiga sala da Irmandade dos Clérigos Pobres, teve lugar a primeira instalação do Museu Municiapal.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

18 de Junho de 1792 - inicio das obras do Hospital de Runa

No dia 18 de Junho de 1792 iniciava-se a construção do “Hospital dos Inválidos Militares de Runa”
Deveu-se a sua construção à Iniciativa da Princesa D. Maria Francisca Benedita, para perpetuar a memória do seu falecido marido, o príncipe D. José.
Para esse efeito comprou a Quinta de Alcobaça, junto a Runa, e outras propriedades anexas, como a quinta de S. Miguel, na Enxara do Bispo, e a quinta da Amora, em 11 de Agosto de 1790.
Custou tudo mais de quarenta contos de réis, uma quantia significativa para a época.
O edifício foi projectado pelo arquitecto José da Costa e Silva (1747-1819), o nome mais importante do neo-clássico português.
Na sua construção trabalharam mais de 300 operários, recrutados na região. Estas foram interrompidas quando da fuga da família real para o Brasil em 1807, embora as obras já estivessem então bastante adiantadas.
A partir do Brasil a princesa prosseguiu os seus esforços para completar a obra, enviando avultosas quantias em dinheiro para esse fim.
Durante a Guerra peninsular o edifício inacabado chegou a ser usado com hospital de campanha
Quando a família real regressou em 1821 o edifício estava quase concluído. Porém foi necessário esperar mais 6 anos pela sua conclusão.
Finalmente, em 25 de Julho de 1827, dia do 81º aniversário da princesa, realizava-se a sua faustosa inauguração.
O programa das festas incluiu uma parte religiosa “celebrada com grande solenidade”, tendo a própria princesa servido a primeira refeição aos 16 veteranos militares que ali deram entrada nesse dia, doze cabos e soldados e os seguintes oficiais: Cristóvão Tomás, tenente de artilharia, Félix de Valois, primeiro-sargento de infantaria, e Joaquim Maria Cordeiro e Joaquim Jorge Ervilheiro, segundo-sargento.
Essea militares tinham feito as guerras do Roussilon e Peninsular .
O edifício é um quadrilátero regular, com 99 metros de frente, 61 nos alçados laterais e 13 de altura na fachada.
“Ao centro do edifício, a notável entrada para a igreja, formando peristilo, é de uma arquitectura austera e nobre. O templo tem uma curta nave ou corpo e um grande transepto em que os topos são rematados em semicírculo. O conjunto é dominado por uma cúpula. É inegável que o revestimento de mármore dá certa riqueza ao interior, mas o ambiente é frio e o altar-mor, colocado ao centro, é pesado e fúnebre. De notar, contudo, os nichos com esculturas de mármore de Carrara ao estilo neoclássico (...). Pertence também a esta igreja uma alta e valiosa custódia de prata dourada cravejada de pedras preciosas.
“Como motivo de interesse para o visitante, deve-se mencionar ainda a Tribuna Real, de cujas janelas – no primeiro andar- se tem a melhor perspectiva sobre o interior da igreja. Hoje armada em sala, guarda várias pinturas de valor – portuguesas e estrangeiras. Sobressaem as três tábuas portuguesas da primeira metade do século XVI” [escola de Gregório Lopes?]”,representando São Luís, rei de França, S. João Baptista e S. Jerónimo, S. Bento e santo Ambrósio, e uma tela representando Santo António e o Menino, assinada por Vieira Lusitano (...).(No centro tem uma capela barroca forrada com mármores extraídos de pedreiras da região e ornada com estátuas de mármore de Carrara”.[1]
Em testamento deixou a princesa todos os seus bens a esta instituição.
Actualmente esse estabelecimento designa-se por Centro Social de Runa.
Mais informações sobre esse monumento, o seu funcionamento actual e as condições para o visitar, podem se consultadas no seguinte site:

http://www.iasfa.pt/runa.html

[1] Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol IV, pp. 34-35 1963.

18 de Junho de 1792 - inicio das obras do Hospital de Runa




18 de Junho de 1792 - inicio das obras do Hospital de Runa - o local de Runa

O nome do topónimo Runa ainda está por esclarecer. Pode ter o significado de “barranco” ou “vala” , relacionando-o com a situação topográfica. Talvez tenha origem no latim ruina, que quer dizer “queda” ou “ruína” ou no gótico runa, que tem o significado de “segredo” , “escrita secreta” ou mesmo de “pedras mágicas”.
Existe ocupação humana, arqueologicamente documentada, desde o calcolítico (cerca do IIIº milénio antes de Cristo), na povoação do Penedo.
Junto aos actuais limites da freguesia de Runa existem vários vestígios da época romana : foram descobertas moedas dessa época no Figueiredo, em Runa, em Marvila, na Quinta da Granja e na Qtª da Pederneira. O Penedo era então um importante povoado e no Casal Bucículos foi descoberta um necrópole . A vizinha Qtª da Portucheira era uma importante “vila” (exploração agrícola).
Por Runa passava então uma das mais importantes vias romanas da região que bifurcava em Dois Portos para Lisboa e para o Tejo, sendo esta a via comercial mais importante de Torres Vedras até ao século XIX.
No documento mais antigo onde se referem os lugares existentes no concelho de T. Vedras, datado de 1309, prova-se a existência, já então, de Runa, do Penedo, da Almagreira, de Tamugem, de Monte Rei, bem como das quintas de Casa Boa e de Cascavelos.
A velha ermida de Runa era administrada pela matriz de S. Pedro de Torres Vedras até meados do século XVI.
Segundo Madeira Torres , a antiga ermida de S. João Baptista foi elevada a curato em 10 de Agosto de 1523, embora só em 1553 exista uma Bula elevando-a à categoria de Paróquia .
O pároco era cura apresentado anualmente pelo prior de S. Pedro de Torres Vedras, até ao século XIX.
Do ponto de vista administrativo, desde o século XVI que Runa tinha Juíz de Vintena . A fundação da freguesia, tal como hoje é conhecida, resultou da implantação do liberalismo em 1833.
Duas outras obras marcaram fortemente a vida desta freguesia: a fundação do actual Centro de Apoio Social de Runa, inaugurado em 1827 como Hospital Real dos Inválidos Militares, obra iniciada em 1792, por iniciativa da Princesa Maria Francisca Benedita, filha de D. José e irmã de D. Maria I; e a inauguração da estação de caminho-de-ferro em 1887.

domingo, 14 de junho de 2009

14 de Junho de 1585 - É enforcado o falso "rei da Ericeira"

No dia 14 de Junho de 1585 conheceu triste fim o chamado “rei da Ericeira”. Conta Júlio Vieira que o “algoz cortou-lhe a mão direita e em seguida enforcou-o”.
Foi o culminar de uma rebelião popular que agitou a região em 1585, numa tentativa de depor a autoridade castelhana.
Aconteceu que um ermitão da Ericeira, Mateus Alvares, se fez passar por D. Sebastião, apoiado por um lavrador da zona, um tal Pedro Afonso, que conseguiu armar uma guerrinha de 800 homens da região da Ericeira e Torres Vedras.
Pedro Afonso tomou o nome de D. Pedro de Menezes, apelido dos condes da Ericeira, proclamando-se Conde de Torres Vedras.
Casou uma das suas filhas com o falso rei, sendo esta “nova rainha” coroada com uma coroa tirada de uma imagem da virgem, de uma ermida local.
O falso rei agraciou o seu sogro com o título de Marquês de Torres Vedras.
Quando o corregedor de Torres Vedras, a mando do governo de Lisboa, se deslocou à Ericeira para se inteirar dos acontecimentos, foi preso, juntamente com o seu escrivão, e ambos foram lançados ao mar.
Foram igualmente enforcadas muitas pessoas que desobedeceram ao falso rei.
Finalmente, o governo de Lisboa, enviando uma força bem armada, conseguiu prender o falso rei, que acabou condenado à forca.
Pedro Afonso conseguiu fugir, mas por pouco tempo, acabando igualmente enforcado.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Santo António na tradição torriense

As festas de Stº António têm longa tradição no concelho de Torres Vedras.
Ainda sou do tempo em que cada rua, bairro ou praceta da então vila de Torres Vedras rivalizavam entre si para apresentar as melhores decorações, apresentar o melhor baile, ou oferecer as melhores sardinhas e o melhor vinho da região.
Na Praceta Afonso Vilela, onde vivi a minha infância, todos os anos se formava uma comissão entre os moradores, que recortava o papel colorido para as bandeirinhas, com cola de farinha e água e rolos de cordel onde elas eram coladas e penduradas, entre candeeiros, árvores e varandas.
Íamos aos Cucos buscar folhas de palmeira para enfeitar o bar, abastecíamo-nos no Venceslau e recolhíamos madeira das obras para a fogueira.
Depois era arranjar uma boa aparelhagem e musica gravada ou em vinil e contar com a presença dos moradores e dos visitantes que percorriam as várias festas à procura das sardinhas, do vinho e de uma noite de diversão.
Hoje, na cidade de Torres Vedras, esta tradição, que tinha como festas de referência as que se realizavam na Rua Conde Tarouca, no “Bairro Salazar” ou no Castelo, resiste apenas no Largo de Stº António.
Mas onde a festa continua a manter o brilho de séculos é no Varatojo, onde a tradição “antonina” está muito arreigada, graças à presença secular dos frades do seu convento franciscano, dedicado ao Santo lisboeta.
Hoje à noite, no Varatojo, vai haver festa em grande, e amanhã, ao final da tarde, decorrerá a tradicional procissão, da qual recordamos algumas imagens, “tiradas” em 2007.
O foguetório, um dos mais prolongados da região, encerrará essa procissão.

Stº António - Procissão no Varatojo (2007)




Stº António - Procissão no Varatojo (2007)





Stº António - Procissão no Varatojo (2007)





Stº António - Procissão no Varatojo (2007)





quinta-feira, 11 de junho de 2009

No primeiro dia da pandemia - recordando a pnaumónica de 1918 no concelho de Torres Vedras

A “pneumónica” de 1918 no Concelho de Torres Vedras

Segundo Oliveira Marques[1] um dos motivos para a eclosão das grandes epidemias de 1918-1919, com destaque para a pneumónica, foi o “estado débil dos organismos entre as classes pobres”, as “mais afligidas pela escassez e penúrias dos géneros de primeira necessidade”.
A primeira vaga de epidemias registou-se entre Junho e Julho de 1918, entrando rapidamente em declínio e tendo um impacto pequeno. Mas uma segunda vaga iniciou-se nos arredores do Porto em Agosto, disseminando-se lentamente durante os meses seguintes, atingindo o sul e o seu clímax em Outubro, continuando a fazer sentir o seu efeito até Dezembro de 1919.
Em Torres Vedras a doença “começou a fazer-se sentir nos lugares situados ao norte do concelho”, propagando-se “assustadoramente” a todo o concelho, provocando “grande miséria” nos lugares “onde a epidemia tem feito mais estragos”, pelo que se aguardava “a vinda de algum açúcar, cuja falta é enorme”, ao que parece por ser necessário para o fabrico de remédios farmacêuticos. Foi igualmente criado um hospital provisório “para os doentes atacados de epidemia”.[2]
Neste concelho o período mais crítico decorreu entre 27 de Setembro e 31 de Outubro de 1918, obrigando ao encerramento de estabelecimentos e paralisando momentaneamente a vida política, social e económica de Torres Vedras.
Durante esse período morreram no país 31785 pessoas, sendo a região de Lisboa uma das mais atingidas. Em Torres Vedras morreram 861 pessoas, numa percentagem de 2,2% da sua população, tomando como referência os censos de 1911, percentagem ligeiramente inferior, 2,1%, se a base de referência for a população do concelho em 1916 segundo dados não oficiais.
Em termos nacionais e apenas em relação àquele período, a epidemia matou cerca de 0,6% da população nacional.
Torres Vedras registou assim uma mortalidade quase quatro vezes superior à média nacional.
O impacto da pneumónica não foi o mesmo em todas as freguesias do concelho.
Como é óbvio, a vila foi das mais afectadas pela propagação da doença e pelo seu efeito, contando 226 mortes, 2,73% da população das freguesias urbanas, situação que se ficou a dever, não só à facilidade de propagação num meio urbano, servido de transportes, com uma actividade comercial assinalável, mas também porque nele estavam centralizados os principais serviços de saúde (hospital, lares, etc.).
Outras três freguesias destacaram-se pela elevada mortalidade, quer em termos numéricos quer em termos percentuais:
- Ramalhal, com 67 mortos, 3,71% da sua população;
- Maxial, com 69 mortos, 2,62% da sua população;
- Dois Portos, com 82 mortos, 2,08% da sua população.
A freguesia de Ponte do Rol, embora tivesse contado com um reduzido número de óbitos, 26, mercê da sua reduzida base demográfica, obteve uma percentagem elevada, 2%.
Pelo contrário, a freguesia de S. Pedro da Cadeira, apesar de ter registado o maior número de falecimentos a seguir à vila, 91 mortos, registou uma percentagem baixa, devido á sua enorme base demográfica.
As freguesias que no concelho registaram a mais baixa percentagem de mortalidade foram as freguesias da Carvoeira (0,87%), Matacães (0,94%) e Ventosa (1,01%).
Não deixa de ser significativo o facto de três das quatro freguesias rurais onde existiam estações ferroviárias terem sido das mais atingidas (Ramalhal, Maxial – estação do Outeiro da Cabeça -, e Dois Portos).
A situação nestas três freguesias mereceu mesmo a atenção da imprensa nacional. Para o Ramalhal e o Maxial (designado “Ameixial”) a “Obra de Assistência 5 de Dezembro” enviou, em finais de Outubro, açúcar, arroz e medicamentos “para as famílias atacadas pela gripe pneumónica”.[3]
Referindo-se à situação em Dois Portos, podia ler-se que aí grassava a epidemia com “terrível intensidade”, morrendo muitos dos seus habitantes “sem assistência médica e à míngua de recursos de toda a natureza, pois que tudo falta, pão, arroz, açúcar, petróleo, medicamentos”.[4]
Quanto àquelas que registaram uma mortalidade mais baixa tinham em comum o facto de o consumo médio de trigo, por parte dos seus habitantes, ser sempre superior ao consumo de milho, rondando o consumo daquele cereal mais de 900 litros por habitante (995 litros na Ventosa, 1196 na Carvoeira e 1482 em Matacães).
Curiosamente e por contraste, as freguesias onde se registou uma maior percentagem de óbitos em relação à sua população eram as que apresentavam os níveis mais baixos de consumo de trigo por família, abaixo dos 800 litros (Ramalhal, 299 litros; Dois Portos, 713; Maxial, 728).
Os outros dois casos que referimos, Ponte do Rol e S. Pedro da Cadeira, estavam igualmente entre as freguesias que registavam menores níveis de consumo de trigo (S. Pedro da Cadeira com 321 litros e Ponte do Rol com 569 litros).

[1] MARQUES, A . H. de Oliveira Marques, História da 1ª República Portuguesa – As Estruturas de Base, Iniciativas Editoriais, [1978], Capítulo I – “A População”, pp. 1 a 48.
[2] O Século, 10 de Outubro de 1918.
[3] O Século, de 23 de Outubro de 1918.
[4] O Século, 30 de Outubro de 1918.