segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Na tarde de 17 de Agosto de 1808, os habitantes de Torres Vedras tomaram conhecimento da derrota francesa na batalha da Roliça, nesse mesmo dia, ao passarem pela vila soldados franceses feridos e “ alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia."
O grosso do corpo da tropa comandada por Delaborde, abandonou o campo da batalha, aproveitando-se do cair da noite, tomando “a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça [de Montachique]”.
Pela vila de Torres Vedras continuaram a passar, ao longo de toda essa noite, “soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo”.
Tomando conhecimento da derrota das suas tropas na Roliça, e prevendo que as tropas inglesas comandadas por Wellesley avançassem pela estrada de Torres Vedras em direcção a Lisboa, Junot decidiu “fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras, entrando nesta vila “com a divisão de Loison no dia 18, mandando ordem a Delaborde, que estava em Montachique, para se lhe ir reunir. Este general chegou a Torres no dia 19.
“Emquanto á columna, que seguia sob o commando de Thiébault, marchava mui lentamente, porque a estrada era pessima, (…), dando logar a um alongamento consideravel, de forma que só a hora adiantada da noite de 17 attingiu Otta.
“(...) Na manha de 20 entrava Thiébault em Torres, mas os diversos elementos da columna foram chegando pouco a pouco.
“Na tarde 20 de Agosto reunia Junot em Torres todas as forças disponiveis”.
A entrada das tropas francesas em Torres Vedras foi descrita em pormenor por Madeira Torres:
“Quando se pensava, que no seguinte dia 18 d’Agosto entraria[em Torres Vedras] o Exercito alliado, esperado com tanto alvoroço, aconteceo ao contrario espalhar-se o susto, e perturbação, pela noticia de que vinha proximo todo o Exercito Francez, e na frente d’elle o mesmo General em chefe [Junot], e que com rigorosas ordens se mandavam apromptar quarteis, viveres, e forragens. (…) Este General entrou com o seu Estado-Maior pelas tres horas da tarde do indicado dia 18, rodeado dos Generaes quasi todos, e de uma forte escolta de cavallaria, a qual se dividio, e occupou logo as entradas da Villa, não se permittindo a sahida d’alguem, sem guia ou passaporte do Commandante da Praça, que então foi o Chefe dos Gens d’armes. Sómente os Officiaes do Estado-Maior tiveram alojamentos, porque os dos corpos ficaram com os mesmos sobre os campos visinhos. Concorreram aqui muitos individuos não militares, uns por empregados, e unidos ao Exercito nas suas diversas repartições, e outros meramente por buscarem o seu abrigo, receosos de serem sacrificados ao seu furor nas pequenas povoações. Ainda que nos armazens existissem alguns sobrecellentes do antigo fornecimento, nada eram para supprir ás urgencias de um Exercito, que se computava em 20$000 sem contar os seus aggregados: por isso foram indispensaveis as requisições violentas para a entrega dos generos necessarios; as quaes para mais prompto effeito se faziam por pregões, ameaçando-se os habitantes que se subtrahissem, com as penas de morte, e do incendio das suas casas, que seriam examinadas”.
As divisões Delaborde e Loisson tomaram posição na vila, ocupando a sua vanguarda o alto de S. Vicente e o alto da forca, enquanto a reserva de Kellerman se estabelecia na rectaguarda .
A cavalaria “explorou activamente, nos dias 19 e 20, todo o terreno para a frente, até estabelecer o contacto com o inimigo”
No dia 20 de Agosto Torres Vedras conheceu as agruras da ocupação por um exército inimigo, registando-se vários desacatos e excessos cometidos pelos franceses nesta vila, descrito mais uma vez por Madeira Torres:
“Na manhã d’este dia” [20 de Agosto de 1808] “alguns soldados extraviados haviam roubado o Convento dos Religiosos Arrabidos do Barro, penetrando até ao Sacrario, e espalhando as sagradas Particulas sobre o pavimento da Capella Mór. Em quanto se commettia este horroroso desacato, tinha o General Junot mandado matar dois mendigos desconhecidos, um d’elles Hespanhol idozo, o outro Asiatico coxo, que foram prêsos como suspeitos de espiões: outro miseravel da mesma fortuna, residente n’esta Villa,” [de Torres Vedras] “ e quasi cego, que estava junctamente prêso, escapou de experimentar igual sorte pela liberdade e vehemencia, com que fallou em sua defeza o Desembargador Vigario da Vara” [Madeira Torres] “chamado por ordem positiva de Junot para interrogar os prêsos, e depôr da sua conducta, e para ser expectador da injusta e barbara morte, que tiveram, sem que fossem convencidos do crime imputado, nem admittidos a algum preparo christão, e nem de modo algum tractados como homens, mas antes como féras pela indifferença e avidez de matal-os: bem facil é de ver, que esta crueldade foi commetida para exemplo, que indicasse como seria castigada qualquer communicação com o Exercito alliado(...)”.
Na tarde desse dia 20, depois de no dia anterior se ter deslocado pela estrada da Lourinhã para avistar a posição e situação do exército aliado, e depois de reunir com os seus generais, Junot decidiu avançar ao encontro do exército britânico “e o resultado foi levantar-se rapidamente a tropa, e começar a marchar depois das cinco horas pela mesma estrada da Lourinhã” .
Enquanto os habitantes da vila de Torres Vedras testemunhavam as movimentações militares do exército francês, entre os dias 17 e 20 de Agosto, noutra zona do concelho, mais a norte e junto do litoral, era o exército inglês que tomava as suas posições:
“Sir Wellesley convergia para a Lourinhã, por saber que as divisões do general Anstruther e Ackland se achavam á vista da costa, alem de uma consideravel frota de navios carregados de provisões, e como aquellas paragens são bastante perigosas, julgou-se obrigado a proteger o desembarque dos recem-chegados, indo para este fim no dia 19 tomar posição no logar do Vimeiro, emquanto o dito desembarque se effeituava a uma legua de distancia do referido logar, na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel” (sic).“ No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”.
Entusiasmado pelo êxito da Roliça, Wellesley palaneou avançar sobre Lisboa “julgando que Junot não tomaria a offensiva e se limitaria a defender o desfiladeiro de Torres Vedras” torneando esta posição, “seguindo uma columna pela Fonte Grada, atravessando a Bordinheira entre S. Mamede da Ventosa e S. Pedro da Cadeira, seguindo pela Freiria e Picanceira, emquanto a mais importante iria pelas Secarias, Coutada, S. Pedro da Cadeira e a Murgeira, onde deixaria uma forte guarda da retaguarda, emquanto que com as restantes forças iria tomar uma posição que impedisse a retirada de Junot por Cabeça de Montachique. Todo este plano tinha sido esboçado em presença da carta que Wellesley possuia dos arredores de Lisboa, e que julgava excellente, assim como das indicações topographicas fornecidas pelo tenente-general C.Stuart”.
Tomando conhecimento da presença de Harry Burrard “a bordo da fragata Brazen nas proximidades de Porto Novo” no dia 20, “foi Wellesley conferenciar com o novo commandante do exercito inglês e expoz-lhe o seu plano” que desaprovou tal plano por considerar “que as forças de John Moore eram insufficientes para fazerem frente a Junot, caso este retirasse por Santarem, e accrescentou que aquelle general já tinha recebido ordem para vir desembarcar as suas forças na Maceira, e que só depois de reunidas todas as tropas é que marcharia sobre Lisboa. Foi em vão que Wellesley se esforçou por convencer Burrard da grande vantagem que havia em tomar immediatamente a offensiva, aproveitando o estado moral das tropas, animadas sobremaneira com o bom resultado do combate da Roliça.
“Burrard não accedeu e Wellesley voltou para o acampamento muito exasperado, increpando violentamente a fraqueza do seu chefe.
“O plano de Wellesley tem sido apreciado de diversas maneiras.
“(...) Tudo nos leva (...) a crêr que a marcha de Wellesley seria muito a tempo descoberta pela cavallaria inimiga e que Junot tomaria as disposições necessárias para ir atacar as tropas inglêsas durante a sua marcha de flanco.
“A columna da esquerda seria facilmente repellida e bastava occupar a posição de S .Pedro da Cadeira, para deter a marcha da columna da direita, que correria o risco de ser lançada sobre o mar.
“O plano de Wellesley era pois temerario e injustificavel, visto que assentava na hypothese do inimigo não conhecer a tempo um tal movimento, e collocava o exercito, no caso d’um ataque, n’uma situação critica tal que, uma derrota importaria a sua perda total”.
A proximidade do exército britânico encorajou os habitantes de A-Dos-Cunhados a terem sido os primeiros do concelho a aclamar o príncipe regente, dois dias antes da Batalha do Vimeiro, como se comprova pela inscrição de uma tábua existente actualmente no Museu Municipal Leonel Trindade, que diz o seguinte:
“ NESTE LVGAR DOS CV-/ CNADOS COM GRANDE/PRAZER E GOSTO FOI O PRIN-/CIPE ACLAMADO EM/19 D AGOSTO/1808 ERA/O ANO QVE CORIA/ SACODIOCE O JVGO/ FRANCES RESTAV/ROVSE A MONAR/QVIA.”.
Entretanto, para não dar tempo a que a divisão Moore desembarcasse em Porto Novo e se juntasse ao exército britânico, Junot saiu de Torres Vedras na tarde do dia 20, como já vimos, “e, transpondo, de noite, o desfiladeiro entre Torres e Vila Facaia, mandou fazer alto ás suas tropas junto desta povoação, na margem direita da ribeira de Alcabrichel, com o fim de lhes dar descanço e permitir-lhes que cosinhassem a refeição da manhã.
“Ás 7 horas, devisava-se, ao longe, das alturas do Vimeiro, uma densa nuvem de poeira, e, ás 8 horas, via-se já distinctamente, apesar do terreno ser coberto de arvoredo, a vanguarda da cavalaria francêsa, que marchava na direcção da Carrasqueira, seguida de infantaria. Ia dar-se a memoravel batalha na qual se decidiu a sorte de Portugal”.
Não é objectivo deste texto a descrição da batalha do Vimeiro, cujo desfecho é conhecido, mas o impacto destes acontecimentos em Torres Vedras, pelo que recorremos mais uma vez à inesgotável fonte que á a obra de Madeira Torres:
“No dia 21 d’Agosto pelas 9 horas da manhãa começou a ouvir-se o estrondo d’Artilharia: no primeiro tempo do combate vieram noticias agradaveis aos Francezes: mas não tardou muito, que lhes chegassem outras, com que se mostraram descontentes, posto que ainda alentados, ao menos apparentemente; enfim correram os boatos d’uma derrota completa, que se viam verificados pelos estragos, e até depois pela propria confissão, dos que se recolhiam do campo. A tropa entrou de noite, [em Torres Vedras] e buscou acampar-se, como antes de ir para a batalha. No dia seguinte viam-se companhias commandadas por um cabo d’esquadra (tal havia sido a carnagem na officialidade): e todo o grande trem d’Artilharia reduzido a tres carretas. Apezar de ser tão vizivel, e avultado o destroço, ainda Junot se occupava com a impostura de fazer illuminar a Villa em aplauso da victoria, e seguindo igual rutina se occupava o impodente La Garde em remetter ao Juiz pela Ordenação , que então servia, um Officio enviando-lhe junctamente o Boletim do Exercito, e recommendando-lhe, que só acreditasse o que elle lhe dizia. No meio de imposturas tão ridicula, não se occultava o temor, confusão e impaciencia de Junot. Elle logo na manhãa do dia 22 chamou ao seu quartel os Generaes, e lhe propoz pedir capitulação, o que foi adoptado (...)”.
A negociação do armistício levou algum tempo, com avanços e recuos de ambos os lados, até a assinatura do incorrectamente designada Convenção de Sintra (seria mais correcto chamá-la de Convenção do Vimeiro-Lisboa-Ramalhal).
“Nos preliminares da capitulação foi o rio Sizandro constituido linha de separação do terreno, em que deviam conter-se os dois Exercitos, e Torres Vedras ficou neutral; assim tanto que o Exercito Inglez se adiantou para as alturas d’aquem Amial (fixando os Generaes os seus quarteis n’esse logar, e ainda mais no do Ramalhal) começou a ser innundada de gente annexa ao Exercito, recebida com vivissimo enthusiasmo, e prazer; e apezar da supposta neutralidade, houve sem demora sinceras, e voluntarias demonstrações de contentamento pela victoria, e communicação dos allidos. As auctoridades da Villa foram logo comprimentar os Generaes Inglezes, e de todas as visinhanças concorriam numerosos ranchos de pessoas, até do sexo feminino a observar o campo da batalha, o admiravel espectaculo do Comboio estacionado defronte do Porto Novo, e a brilhante linha e revista do Exercito alliado.
“No segundo dia em que se disfructava tanto prazer, houve um incidente, que o perturbou, e foi o rumor de que retrocedia o Exercito inimigo, e já se viam as suas avançadas; por cujo motivo as familias receosas das crueldades, que de certo experimentariam, procuraram precipitadamente ao menos a segurança das vidas com a fuga para a retaguarda da linha ingleza. Isto aconteceo perto da noite, tempo ainda mais opportuno para soffrerem saque as casas abandonadas; porém felizmente desvaneceo-se este rebate, e até se escapou do menor roubo, sem que se fizessem por isso muito sensiveis os incommodos de marchar a pé uma grande legoa,e de pernoitar no campo em uma tão bella estação.
“No intervallo em que se arranjavam diffinitivamente os artigos da capitulação, adiantou-se mais o Exercito Inglez a occupar as alturas situadas ao norte da Villa, desde o logar de Sarges até adiante do do Paul, e os Generaes tomaram quarteis nas casas mais proporcionadas. (...) Pelo que temos dicto fica manifesto, que sôbre esta Villa, e seus contornos carregou por dias o pêso de tres Exercitos (contando-se o Nacional por duas vezes, sendo a segunda quando se retirou para as Provincias); e apezar dos estragos causados nos fructos, que ainda se recolhiam, e estavam pendentes, tal é a fertilidade do terreno, e tal foi a particular abundancia d’aquelle anno, que se supprio ao fornecimento da tropa, e não padeceram falta os habitantes.”
O exército francês retirou-se definitivamente de Lisboa no dia 15 de Setembro de 1808, registando-se grandes festejos emTorres Vedras pela restauração do reino “com muitos dias de luminarias, e em seguida a Camara fez celebrar uma solemne Festividade em acção de graças na Matriz de Sanctiago, com mais tres dias de luminarias, prestito pelas ruas com o seu Estandarte (que já dias antes se tinha arvorado nos Paços do Concelho) dando vivas a S.A.R. o Principe Regente”.

Passou mais um aniversário da Batalha do Vimeiro

terça-feira, 28 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "Guia das Aguas Mineraes dos Cucos"


Título: Guia das Aguas Mineraes dos Cucos.
Autor: vários.

Ano: 1892.
Edição:Typ. Da Companhia Nacional Editora.
Local: Lisboa.
Preço: 300 réis.
Nº de páginas: 168.
Tiragem: não indica.

Gravuras: “Planta Chorographica dos Cucos…”; “Vista do edifício balnear e annexos” ; “Planta das Piscinas…”; “Planta do 1º Andar”; “Vista geral do Valle dos Cucos”; “Rede Ferroviária de Portugal”;
Fotografias: Nenhuma.
Gráficos: “Composição das aguas do Valle dos Cucos”(pág 33).

Tema: Trata-se de um guia das Termas dos Cucos, com referência às suas qualidades terapêuticas, uma descrição histórico-patrimonial do lugar, depoimentos de doentes , e regulamento dos serviços.
Capítulos: Iª parte – Relatório Médico [da autoria do Dr. António Manoel da Cunha Bellem e Dr. Guilherme José Ennes]: “As Aguas Minero-Medicinaes dos Cucos” – I – No local; II – Natureza das àguas; III – Acção das águas e das lamas; IV – “Analyse Chimica”; V – Indicações VI – “O que é certo e o que há a esperar” (com referência ao efeito sobre várias doenças); VIII – Lamas; VIII – “Transportabilidade”; X- Estação de Inverno; Conclusão.
IIª parte – “Os Cucos Descriptivo” [da autoria de António Jorge Freire]: Os Cucos – Sua situação e natureza do solo: história; Nascentes; Os edifícios; Descripção dos Pisos; Reservatórios; “Os Cucos, considerados como estação de saúde e recreio”; cidades e vilas [da região]; Torres Vedras.
IIIª parte – Abonações: Alguns doentes que têm feito uso das aguas e resultados obtidos; Cartas, attestados e declarações.
IVª parte – Regulamento [por José Gonçalves Dias Neiva].
Tabella de Preços .

Gravuras antigas dos Cucos - "Guia das Aguas Mineraes dos Cucos"





segunda-feira, 20 de julho de 2009

A História das Termas dos Cucos





A História das Termas dos Cucos

1 - O Dia da Inauguração

Quando, em 15 de Maio de 1893, teve lugar a inauguração solene do Estabelecimento Termal dos Cucos, virava-se uma página decisiva na história do Termalismo português e concretizava-se um sonho de gerações de torrienses. Essa cerimónia marcaria ainda a realização da última obra arquitectónica de vulto de toda a história do Concelho de Torres Vedras.
Nesse dia "despontava a aurora aos sons da magnífica philarmonica de Torres, celebrando em Machêa, residência do sr. Neiva, o alvorecer d'este memorável dia, que se marcava uma data importante nos fastos do Concelho com uma obra arrojada de verdadeiro interesse público, devido à iniciativa de um só homem, mais gloriosamente assignalava um facto humanitário, destinado a levar o alívio e a saude há humanidade que sofre. “Resolvera o sr. Neiva não festejar a inauguração, limitando esta a uma pequena festa familiar, reduzindo o programma à benção da lapide commemorativa, e levantamento da bandeira do estabelecimento.
“Por seu lado a villa de Torres preparava-se, ja ha muitos dias, para solemnizar não só a abertura das Thermas, mas para dar áquelle cavalheiro um público testemunho de consideração pelo assignalado serviço, que vinha de fazer ao concelho. “(...). "O primeiro acto foi a benção relegiosa das Thermas, dada (...) pelo reverendo prior de Matacães(...)."A benção celebrou-se às 5 horas da manhã.
"Ás 9 horas voltava o sr. Neiva, acompanhado dos seus amigos particulares, os srs. António Diogo da Silva e José António Ferreira. Já então se achavam na praça das Thermas muitos cavalheiros de Torres, entre elles o digno presidente da camara, a philarmonica, que acolheu o humanitario proprietario com um hymno expressamente composto em sua honra, e muito povo. Todo o pessoal graduado e menor do estabelecimento recebeu aquele cavalheiro ao fundo da escada principal, e seguindo-o até à sala da copa onde elle descobriu a lapide commemorativa, occulta com uma coberta de damasco. Depois executou-se a ultima parte do programa , içando-se a bandeira do estabelecimento, saudada por enthusiasticos palmas de toda a multidão presente, pela musica e por uma grande girandola de foguetes. Findou esta cerimónia com a leitura do auto [da benção e da inauguração do estabelecimento dos Cucos] em seguida assignada pelos cavalheiros que d'elle constam (...).
"Em todo o dia 15 se conservaram abertas aos visitantes as portas do edificio, sendo necessario, durante seis horas consecutivas, estabelecer a visita por turmas de 50 individuos para a facilitar, (...).
"Em Torres o contentamento e a alegria eram geraes, e á noite, quando sr, Neiva ahi foi para assistir á recita e baile, que os cavaleiros da nobre villa lhe dedicaram, esperava-o uma das mais solemnes e imponentes manifestações, que temos presenceado. Tudo quanto esta terra tem de distinto o aguardava á entrada com archotes acessos, acompanhando-o com a música atravez das ruas de transito do cortejo, todos illuminados, até ao club. Mas, não foram sómente estas ruas, até ás mais modestas habitações se estendeu esta manifestação de regosijo!" [1].
António Jorge Freire, o entusiasta autor destas linhas, foi o responsável pelo estudo, traça e direcção das obras das Termas dos Cucos, a ele se deve o estilo característico dos edifícios aí construídos. A João José Alves foi confiado o cargo de mestre de obras. Mas esse 15 de Maio de 1983 foi o culminar de uma longa história de ocupação humana e aproveitamento termal de uma das mais belas zonas naturais do concelho de Torres Vedras.

[1] FREIRE, António Jorge, in Annaes das Thermas dos Cucos – Relatório da Época Balnear de 1893, T. Vedras, 1893, pp. 68 a 73.

A História das Termas dos Cucos





A História das Termas dos Cucos

2 - Os “Cucos” na História

Perto do sítio onde se localizam as Termas dos Cucos, junto à Quinta da Macheia, centro das propriedades que englobam aquelas termas, foram descobertos em 1959 vestígios de ocupação romana "quando se procedia à surriba de um terreno para plantação de vinha, e a uma profundidade de um metro e meio, apareceu a superfície quadrada de uma pedra, que depois de convenientemente descavada e retirada se revelou um cipo rectangular com 1, 25 m de altura, sob o qual se encontraram tejolos de fabrico romano e ossos humanos"[1], lápide funerária e ossos humanos que parecem revelar a existência no local de um cemitério romano pertencente a alguma povoação próxima.
Vasco Gil Mantas[2] , ao decifrar a leitura dessa lápide, atribui a origem desse monumento à primeira metade do século I. Aquele mesmo investigador, citado por Pedro Barbosa[3], refere que a via romana do Oeste entrava no litoral passando por Runa e Dois Portos, bem perto, se não mesmo ao lado, do local dos Cucos.
É provável, portanto, que as águas dos Cucos e as suas capacidades terapêuticas fossem conhecidas dos romanos, tanto mais que se trata de um fenómeno geológico muito anterior à existência humana e observável à superfície, como se percebe pela seguinte descrição de José António Neiva Vieira:
"Estas nascentes dos Cucos são nascentes artesianas e a sua existência deve-se aos deslocamentos da área tifónica [terreno confinado por séries de falhas e com fundo levantado através dos terrenos mais recentes] de Matacães. Água meteóricas infiltram-se através dos calcáreos do Jurássico médio [mais ou menos há 150 milhões de anos] da Serra de Montejunto (666 metros de altitude no cimo), descem com as camadas impermeáveis a grandes profundidades, onde elevam a sua temperatura, que na emergência atinge 40,1 graus para Cucos Modernos (Choffat diz descerem a cerca de 720 metros de profundidade), atravessam depósitos de salgema e outros depósitos, adquirindo assim a sua mineralização e radioactividade, e é no vale dos Cucos que encontram as falhas que lhes permitem atingir a superfície."[4]
Com as poucas provas acima referidas e sabendo-se a importância que os romanos atribuíam ao termalismo, não seria de estranhar terem sido eles os primeiros banhistas dos Cucos.
Para os períodos posteriores à ocupação romana continuam a rarear referências àquela região. Sabe-se, por um documento de 1242, da existência de um “moinho do carpinteiro”, um topónimo ligado à área envolvente dos Cucos, e que então pertencia ao património do Mosteiro de Alcobaça.[5]
Por sua vez, a existência da Macheia é referida pela primeira vez em 1309, com 2 “fogos” e no primeiro numeramento nacional de 1527, feito, para a região de Torres Vedras, em 15 de Setembro desse ano por Jorge Fernandes. Nesta data, a então “Aldêa da Macheia com casaes d´arredor” possuía 18 “vizinhos”, sendo um dos lugares mais povoados do concelho.É preciso esperar pelo século XVIII para se encontrarem as primeiras referências conhecidas às águas dos Cucos, nas respostas dadas pelos párocos das freguesias de Stª Maria, S. Miguel e S. Pedro ao inquérito paroquial, realizado a nível nacional em 1758. Escrevia o padre António Ribeiro, cura de Santa Maria, com a data de 7 de Maio de 1758: "Ha poucos anos se descobrirão huns olhos de agoa calidas, que nascem na margem do rio Sizandro e ficão em distância desta villa a parte da nascente por espaço de hum quarto de legoa, junto ao Moinho do Carpinteiro, em que se tem experimentado especial virtude para o figado" [6].
Num português peculiar, o Padre Izidoro de Abreu Machado, pároco de S. Miguel, procurava uma explicação mais científica para a utilidade dessas águas: "Tem tambem o districto desta freguezia no sítio chamada do carpinteiro distancia desta villa de hum quarto de legoa huma [907] agua termal participante de muntas partes sulfuricas, e nitrozas, dotada de muitas virtudes; Para estupores espurios, gotas artetticas, inchassois edematozas; outras muntas queixas, para as medicassois das quais concorrem pessoas de muntas partes, e legoas principalmente no veram por cauza do in commodo que esta tem para o uzo, por nascer na margem do Rio chamado Sizandro contigua a agua do mesmo Rio, e se lhe nam ter feito a diressam medicinal para o abafo, e Rigimento. E nam obstante este muntos se tem achado inteiramente saos de queixas que padessiam, nam consta sem ambargo do uzo desta ser de munto poucos annos he ao presente fosse nossiva". Mais completa foi a descrição feita no mesmo inquérito pelo prior de S. Pedro, António José de Faria, em 17 de Junho de 1758:
"Na distancia de huma milha ao nacente desta villa na margem do mesmo rio Sizandro, estao varios olhos de agoa huns contiguos, outros distantes, mas todos prodzidos de huma vea subterranea que corre transversalmente por baixo do mesmo rio, como se colhe dos vestigios nitrozos que a superficie da terra estão patentes tem esta agoa bastante calor o qual se conserva por muitas horas fora do seu nacimento. Os minaraes que nella se alcansão são muito nitro, e não pouco inxofre, e tambem se presume passara por mineraes de ferro, porem ao certo se não sabe com evidencia.
"Esteve esta agoa sempre incognita athe que hum grande cirurgião do partido da camara desta villa pella observar no ano de 1716 [ou 1746] a pos em uzo na medicina, chamado o dtº cirurgião Maximo Monis de Carvalho, e tem alcansado esta agoa notaveis efeitos, em desterrar Sarnas, Lepras, Caquechias, inchações, e de curar chagas sordidas, goats arteticas, convulcôns, Parllezias, e obestrucoens de olhos, servindo algumas vezes de remedio paleatico a chagas cancrozas, e podera servir pª remedio de outras muitas queixas se o pio zelo lhe mandase por algum reparo, para assim comodamente se uzar dos banhos como convem; pois não he menos para ademirar o grande nomero de enfermos que ali de diversas partes tem concorrido a tomar banhos nos toscos lagos que com sua industria fazem na terra, expostos ao ar, e sem reparo algum, e a maior parte sem concelho de medico, e nem regimento, ja tomandoos a toda a hora, e por dilatado tempo, sendo agoa tão activa não consta athe o prezente que rezultase de tantas dezordens e videntes perigos, mas antes tem sucedido acharem alguns enfermos alivio total nas suas queixas, tomando os ditos banhos depois de terem uzado os das Caldas da Raynha tão celabrados sem utilidade alguma. Restringeçe apena nesta breve noticia para assim de algum modo não dar sentimento aos coracons zellozes da utilidade publica os quaes se por extenço tiveçem anotº desta agoa quazi ancora sagrada que com suas vertudes maravilhozas segura a vida nas procellozas tromentas de tantos males, e não sem grande magoa se ve desprezada e abatida"[7] .
Pode-se assim afirmar que só no século XVIII surgem as primeiras referências às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, assinalando-se igualmente a precariedade das instalações e a necessidade de as melhorar. O século XVIII conhecia, aliás, um pouco por todo o país, a proliferação de construções balneares para a utilização de nascentes. A primeira análise científica da qualidade das nascentes dos Cucos foi feita pelo Visconde de Balsemão, numa comunicação apresentada em 1813 na Academia Real de Ciências, intitulada "Análise das Àguas Minerais dos Cucos e Descrição Física do Sítio". Madeira Torres, na parte económica da sua "Descrição Histórica e Económica da Vila e Termo de Torres Vedras", publicada em 1835 no tomo XI, parte II da 1ª série das "memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa", mas escrita entre 1818 e 1820, é o autor de outra das mais antigas referências às águas dos Cucos:
"(...) no sítio denominado dos Cucos, sobre a margem direita do Sisandro, se acha a célebre agoa Thermal, conhecida com o nome da situação (...) ninguém que conheça esta preciosidade, deixa de lamentar, que apezar dos dispendiosos esforços do benemerito dono dos banhos, estes se acham expostos às inundações, que os entulhão, e destroem. Ninguém deixa de reconhecer, que este estabelecimento devidamente reformado, alêm de tornar-se então mais interessante à saude pública, seria capaz de conciliar vantagens económicas para a nossa villa, chamando hum concurso, que deixasse nella, e seus contornos, espalhada huma parte do numerário, cujo giro tem feito povoar, faz subsistir à Villa de caldas, e suas visinhanças”.
Ao mesmo Madeira Torres se deve a primeira referência a uma outra nascente, a "Dos Coxos": "Em meia distancia entre aquelle sitio dos Cucos e a Villa, sobre o alveo, e junto a margem esquerda do Sisandro, no sitio denominado = Dos Coxos = se acha um copioso nascente, aos lados do qual se levantão algumas barracas, onde assentão tanques, ou caixas de madeira, em que corre, e se deposita a agoa na maior pureza, e se tomão banhos, muito proveitosos para remediar as erupções da pele (...)" .
Ao longo do séc. XIX surgem vários estudos e referências a estas águas. Vivia-se um período de expansão do termalismo, revelando-se uma maior preocupação com a saúde de cada um.

[1] VIEIRA, José António Neiva, História das Termas do Vale dos Cucos, Porto 1964, pág.6.
[2] MANTAS, Vasco Gil, Inscrições Romanas no Museu Municipal de Torres Vedras, Coimbra, 1982, pp. 42 a 49.
[3] BARBOSA, Pedro Gomes, Povoamento e Estrutura Agrícola na Estremadura Central, Lisboa, 1992, pp. 254 e 292.
[4] VIEIRA, ob.cit.
[5] BARBOSA, ob. Cit. Pág. 264.
[6] Memórias Paroquiais de 1758, Paróquia de Stª Maria, A.N.T.T.
[7] Memórias Paroquiais de 1758, S.Pedro, A.N.T.T.

A História das Termas dos Cucos





A História das Termas dos Cucos

3 – De Peres a Neiva

O lugar dos Cucos faz parte, desde à longa data, das propriedades da Quinta da Macheia e a esta parece ter estado sempre ligada.
Algumas das propriedades da Quinta pertenciam, nos primeiros tempos do reino, ao mosteiro de Alcobaça e sabe-se, por um documento de doação do século XVI, que Dom Rodrigo de Menezes, do conselho de D. Manuel, recebia, entre outras rendas, o direito do pão de então "Reguengo de Machêa".
A partir do século XVII começa a dar-se um fenómeno raro, que foi a transformação de uma aldeia, a da Machea, que em 1527 era uma das mais povoadas do concelho, numa quinta de um único proprietário, um processo longo e que só se completaria na segunda metade do sec. XIX.
Essa "concentração dos edifícios e das terras na mão de um único senhor começa a produzir-se (...) quando Domingos Fernandes Monteiro, "que vivia por sua fazenda" na dita aldeia, compra numerosas propriedades na serra de Machêa e ribieira de Machêa e casas no lugar da Machêa", de acordo com vários escrituras e documentos desde o princípio do sec. XVII existentes na posse da família de José António Neiva Vieira[1] .
Em finais do século XVIII, após falecer o Dr. António de Matos Pereira, que era o proprietário da Quinta da Machêa, Miguel Lourenço Peres vai herdar essa propriedade e vai mandar fazer um mapa das suas propriedades em 1787, cujo original se encontra naquela quinta e intitulado "Mapa da Quinta denominada de Machêa com todas as suas pertenças de casas, pomar, horta, vinhas, olivais, terras lavradios e matos, tudo conjunto, desde o referido lugar, até ao sítio da Ribeira de Machea, indo pelo de Santo Amaro, calçada que vai para a vila de Torres Vedras, e da dos Cucos, sítio do carpinteiro e outeiro fronteiro ao da Boiaca (...)"[2] .
Miguel Peres foi o primeiro a procurar realizar alguns melhoramentos na captação e nas instalações do lugar dos Cucos: "Constavam de três barracas de madeira: a primeira com um banho, uma bomba para 'choques parciais' e um depósito que alimentava a bomba. Encontravam-se a nível inferior ao do leito do Sisandro e descia-se até aos banhos por degraus feitos na terra. Levavam cinco horas a encher, dado o pequeno débito das nascentes, e rem despejados à mão" [3].
O falecimento, ainda jovem, de Miguel Lourenço Peres provocaria um arrastado processo Judicial pela posse do lugar entre o herdeiro deste, Jose Lourenço Peres, e uma parente do Dr. António de Matos Pereira, que contestava a herança dos Peres, processo esse que se arrastaria de 1782 a 1830, ganho finalmente por José Lourenço Peres, o último Capitão-Mor de Torres Vedras.
Os juros dos empréstimos também estavam sujeitos então ao pagamento da décima e nesse documento encontramos uma referência à divida de Jose Lourenço Peres e "sua mulher" a "João Gonsalves Dias de Lisboa", no valor, altíssimo
Através do livro de décimas de 1831, existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras, e porque os juros dos empréstimos também estavam sujeitos ao pagamento daquele imposto , ficamos a saber que, nessa data, José Lourenço Peres e "sua mulher", deviam a "João Gonsalves Dias de Lisboa", o valor, altíssimo para a época, de ...11.515$545 ! Este "João Gonçalves Dias Neiva e a dívida enorme que lhe era devida por Jose Lourenço Peres talvez explique que mais tarde a Quinta da Macheia viesse a passar para a família "Neiva". No recenseamento eleitoral de 10 de Novembro de 1836, documento existente na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, surge pela primeira vez uma referência à morada de João Gonçalves Neiva no lugar de Macheia, profissionalmente identificado como "capitalista".
João Gonçalves Dias Neiva iniciou então uma nova “dinastia” na posse da Quinta da Macheia e que alteraria profundamente a importância do lugar.

[1] VIEIRA, ob.cit.p.10.
[2] VIEIRA, ob.cit, Pág. 9
[3] VIEIRA,ob. cit. pág.11.

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4 – Um documento de Propriedade do Século XVIII

“Compra amigavel .Miguel Lourenço Peres da cidade de Lisboa ao Dr. Antonio de Mattos Prª da Q.ta da Machea ,a mesma quinta por 3:200$000

“Ao primeiro dia do mês de Janeiro de mil e sette centos e outenta e douis annos , nesta villa de Torres Vedras lançou em verba de siza Miguel Lourenço Peres morador na cidade de Lisboa , a compra que fes amigavel ao Dr.Antonio de Mattos Pereira morador em Maxea deste termo,de huma morada de cazas Nobres no ditto citio de Maxea ,que consta de dous lagares de vinho ,e hum de Azeite ,e adegas e mais pertenças ,e todos os mais predios Rusticos e Urbanos sejão vinhas ,terras , olivais ,Mattas,Pumar ,Horta ,Corrâes ,que athe o dia de hoje possuhia , exceptuando o ditto vendedor as propriedades de que se paga foro, e huma propriedade de cazas a Ruinadas citas no sobreditto Lugar de Maxea, foreiras do Ex.mo Marques do Lavradio , e huma terra chamada o Paûl junto a Ponte do cordeiro ,tudo pella refferida forma , pella quantia de três contos e duzentos mil reis , entrando digo a Ponte do cordeiro compriendendo tambem nesta compra o Prazo chamado do Mosteiro foreiro às Rellegiozas de Côz ,com a Rezerva de todos os Rendimentos ,uzos // f.2 // e fructos durante a vida do ditto vendedor ,cuja compra fas pella referida forma , pella quantia três contos e duzentos mil reis ,de que o mesmo comprador pagou de Siza dobrada pella sua parte e do vendedor a quantidade de seis centos e quarenta mil reis que Recebeu o Dr.Joaquim Jose de Almeida e Carvalho thezoureiro dos bens de Raiz e assinou como Juiz Veriador e das Sizas e (...?) Gregorio Jose dos Santos (...) Escrivão que a escreveu”

(Documento existente no livro “Bens de Rais do Anno de 1782” ,existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras , folha 1 ,verso , e folha 2 )

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5 – Os Cucos em 1831

Através de um documento inédito existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras é possivel reconstruir a vida sócio-económica dessas propriedades em 1831[1] . Assim no lugar da Ordasqueira (sic) o "Capitão Môr José Lourenço Peres tem a Quinta de machea e mais fazenda e vinha à Madre da Fonte que produz 51 Pipas de vinho e 136 alqueires de pão meado e 18 cantaros de Azeite (...)", enquanto no lugar da macheia pagavam de Décima por "prédios rústicos": - Custodio Jose Rodrigues "que tem fazenda que produz 6 pipas de vinho" - "A viuva de thimotio Nunes tem fazenda que produz meio almude de vinho e 20 alqueires de pão meado" - Estevão Sardinha "tem fazenda 3ª à Quinta Nova" - Thomás Alves "tem Azenha da Boiaca foreira a hum homem de Lisboa em 28:8oo réis" - O Benificiado Carvalho "tem da Quinta da Machêa de baixo que produz 24 alqueires de pão meado e 16 pipas de vinho" - "João do Cazal dos Cucos tem o dito Cazal de renda ao Doutor Tavares em 60 alqueires de pão meado" e "mais fazenda foreira ao Convento da Graça em 7 alqueires de trigo" - António Vieira "tem cazal do trigozo foreiro à Quinta Nova em 60 alqueires de pão meado" e mais uma "fazenda foreira a Medeiros em 6 alqueires de pão meado". - Francisco de Lima "tem fazenda foreira a São Tiago e ao capitão Môr Jose Lourenço Peres em 3 alqueires de trigo". - Francisco "Forneiro desta villa tem fazenda foreira a Medeiros em 8000 reis". - Jose Antunes Cabaço "tem fazenda foreira a Medeiros em 19 alqueires de trigo" - Os Herdeiros de Jose de Lima Falcão "tem fazenda de sua Quinta e anexos que produz 26 pipas de vinho, 200 alqueires de pão meado, 8 cantaros de Azeite, frutos Hortaliças que podem produzir 6:000 reis". - Os Herdeiros de Francisco Xavier da Cruz "tem o Cazal de Fonte Nabóa foreira ao Barão de Quintella em 60 alqueires de trigo". Vemos por este documento, não só a importância produtiva do local, como uma certa dispersão de terras por vários proprietários. No registo do pagamento da décima referente às propriedades "urbanas" são registadas 22 propriedades entre as quais se destacam as seguintes: - A Quinta da Macheia, do Capitão Jose Lourenço Peres avaliada então em 30.000 reis (o edifício "urbano"). - Um Moinho de "vento orgeiro e alveiro" pertencente a Jose Antunes "moleiro". - Um segundo moinho pertencente a Sebastião Velozo de Matacães "que produz 20 alqueires de pão meado" e o segundo "Moinho de Vento que pode vender 3 alqueires de milho". - São ainda referidas entre aquelas propriedades urbanas, três azenhas: - "Jose maria Molleiro tras de renda a Azenha do cabaço do capitão Mor por 40 alqueires de pão meado". - "(...) Azenha da Boiaca de Thomas da Urjariça que pode vender 20 alqueires de pão meado". - "(...) Azenha do Carpinteiro arrendada a Jose Antunes Cabaço por 60 alqueires de pão meado".

[1] “Décima de 1831 – Vintena de Matacães”, Arquivo Municipal de Torres Vedras.

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6– A Mudança

O ano de 1851 foi um ano que marcou a mudança. Nesse ano João Vitorino Pereira da Costa, cirurgião da Câmara e do Hospital Civil de Torres Vedras, publicava "Breves notícias das águas termais dos Cucos, seguido de uma relação da maior parte dos doentes que delas fizeram uso nos meses de verão de 1850", nas páginas do "Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana". Nessa obra "apontava a necessidade de mudar o álveo do rio Sizandro de forma a retirá-lo da proximidade imediata dos banhos e de captar melhor as nascentes"[1], recomendação que sensibilizaria João Gonçalves Neiva, que se havia tornado proprietário da Quinta da Macheia e dos banhos dos Cucos nesse ano.
Com o novo proprietário inicia-se uma nova etapa na história dos Cucos. Devem-se a João Neiva as primeiras obras de vulto no local:
" (...) melhorou as modestas instalações balneares, mandou fazer uma muralha para segurar as águas do rio nas suas arremetidas invernais e fez construir uma série de nove pequenas casas para habitação, comunicando entre si e com cavalariças ao fundo - as ainda existentes casinhas dos Cucos. tais instalações já permitiram que o Marquês do Lavradio, da Quinta da Conceição, aí se instalasse para com mais comodidade e repouso fazer tratamento" [2].
Os anotadores de Madeira Torres, na segunda edição, inédita até hoje, da parte económica da monografia de Madeira Torres, cujo original se encontra na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, escreviam, por volta de 1862, sobre os Cucos:
"A concorrência dos enfermos a estes banhos tem sido grande n'estes ultimos annos, não só das Comarcas visinhas, mas também da Capital e Províncias (...).
"O numero dos banhos tomados nos ultimos 10 annos foi de mil em cada ano; e paga-se por cada hum 120 reis, dando-se porem d'esmolla a quem os pede, huma vez que apresente attestação de pobreza passada pelo respectivo Parocho, e de Facultativo sobre a necessidade, que d'elles tem; mas o numero d'estes não entra na conta assima dita, e calcula-se em huma quinta parte em relação ao numero dos pagos. Talvez tenha concorrido para a maior frequencia d'estes banhos, alem do annuncio mandado fazer todos os annos nos jornaes pelo actual proprietário d'elles João Gonçalves Dias Neiva, o outro publicado pelo pharmaceutico Francisco Fortunato d'Assis, assistente em Lisboa na rua do Alecrim nº 51e 52 , pelo qual tem anunciado não só venda na sua Pharmacia d'esta agoa engarrafada, mas tambem em resumo as suas virtudes (...).
" Para uso dos banhos das pessoas que residem, ou vem residir nesta villa há desde o anno de 1860, a comodidade das carroagens, que a Companhia da Diligencia da mesma villa para a Alhandra alluga para esse fim".
João Dias Neiva faleceu a 20 de Fevereiro de 1868, mas a sua acção em prol da melhoria das instalações nos Cucos contribuiu, de forma decisiva, para chamar a atenção de muitos especialistas para o valor daquelas águas.
Na década de 70 do século XIX surgem vários estudos sobre as águas minerais do reino e de propaganda ao termalismo, então em plena expansão. É dessa altura a publicação de uma obra fundamental de divulgação, da autoria de Ramalho Ortigão, publicada em 1875 e intitulada "Banhos de Caldas e Água Minerais", onde tece grandes elogios às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, chamando a atenção para a necessidade de melhorar as condições de alojamento deste lugar.
O aparecimento em 1885 do primeiro orgão de comunicação social de Torres Vedras, "O Jornal de Torres Vedras" contribuiu para alertar a opinião pública local e principalmente os responsáveis locais, para a importância do aproveitamento convenientemente do local. Logo a 26 de Março desse ano o citado periódico publicava um extenso artigo sobre as "Thermas dos Cucos", chamando a atenção para os frequentes "resultados maravilhosos obtidos pelo uso d'estas águas thermaes no tratamento das diversas formas de rheumatismo" mas queixando-se o articulista de, apesar desses resultados, "aos banhos dos Cucos recorrem relativamente mui poucos doentes" em comparação com outras termas então mais famosos (Caldas da Rainha, Taipas, Vizela, Moledo, S. Pedro do Sul), mas onde os doentes não encontravam os mesmos resultados que podiam obter nos Cucos. E o articulista procurava as causas para essa baixa frequência das águas dos Cucos, em primeiro lugar no facto de alguns médicos e cientistas desvalorizarem aquelas águas e em segundo lugar "no desfavor da apresentação".
Nos periódicos locais, herdeiros de "O Jornal de Torres Vedras", vamos continuar a encontrar várias referências á necessidade de melhorar a propaganda e as instalações daquele sítio.
O Jornal "A Semana" foi dos que mais se bateu por esses melhoramentos. Em 12 de Julho de 1888 esse jornal chamava a atenção para a "grande conveniencia e maior necessidade que há de construir um edíficio, apropriado e decente, onde os doentes de rheumatismo gottoso possam vir receber, com commodidades e asseio, os manifestos benefícios das nossas especialissimas águas dos Cucos.
"Aquillo que hoje lá existe, considerado como estabelecimento Thermal, é um péssimo documento da nossa orientação económica, que estamos apresentando aos forasteiros, deixando abandonado um precioso elemento de vida commercial de Torres Vedras (...). "As toscas locandas estão apinhadas de gente; as pessoas que se installaram pelas hospedarias da villa, quando vão tomar o banho, ao sair, não teem um quarto confortável onde demorem, acontecendo que nos dias inconstantes que tem corrido sugeitam-se até apanhar chuva, na volta ! Este é positivamente o reverso da medalha.
"Vamos, meus senhores, que tendes o nome aureolado com o fastigio da vossa fortuna: dispendei mais alguma coisa da vossa iniciativa própria, e imponde-vos á gratidão dos vossos conterraneos, porque essa gratidão é como o esmalte azul sobre o ouro". Para o crescente afluxo de forasteiros ao lugar dos Cucos terá contribuido a inauguração da linha férrea Lisboa-Torres em 1886, aberta ao serviço público em 1887. A esta situação e ao desafio lançado pela opinião pública local, o novo proprietário dos Cucos, José Gonçalves Dias Neiva, sobrinho do anterior, "decidiu-se a proceder ás obras de valorização desta estância termal. Pesaram no seu espírito, ao tomar esta decisão, vários factos. A região atravessava uma grande crise económica, devido á destruição dos vinhos pela filóxera, e tais obras dariam trabalho a muita gente. Ao seu ânimo agradava esta obra de benemerência, criar melhores condições para dar saúde. Receava, por outro lado, que o débito da água termal não fosse sufeciente para um grande balneário e não acreditava nas vantagens económicas deste empreendimento.
“O desaterro do poço soterrado mostrou que os vários olhos de água que lacrimijavam á superfície e alimentavam os antigos banhos provinham duma única e poderosa nascente, com um débito de 259.000 litros por dia. Tal observação convenceu-o da possibilidade duma exploração termal noutra escala de grandeza, e decidiu-o a iniciar as obras"[3] .
Essas obras, que incluíram o desvio do leito do rio Sizandro mais para a sua esquerda, junto ao monte do Cabrito, foram dirigidas por António Jorge Freire e pelo mestre João José Alves, e iniciaram-se a 26 de Novembro de 1890.
O Estabelecimento termal foi aberto ao público, provisoriamente, a 11 de Julho de 1892 e a sua inauguração oficial teve lugar, como já referimos, a 15 de Maio de 1893. Dias Neiva, entusiasmado com o êxito da obra, idealizou uma vila termal que, num ofício à Câmara definia como uma "nova povoação junto do estabelecimento balnear, subordinada a um plano maduramente estudado em que se observem rigorosamente todos os princípios higiénicos tanto nos arruamentos e esgotos como nas casas de habitação"[4] .Chamar-se-ia "Vila Neiva dos Cucos" e António Jorge Freire foi encarregue de elaborar o plano. Incluía "40 moradias iguais aos actuais chalets que marginam a Avenida das Termas, albergaria com casas mais modestas, um hotel com 300 quartos, hospital termal, capela, mercado, casino, a Avenida de Torres que, vinda da Praça do Mercado cruza-a a actual Avenida das Termas, desembocar na Praça da Capela, atravessa-a o Sizandro e, depois de ladear o contraforte do Casal Cabrito, passaria por cima do túnel, para se dirigir à estação de caminho de Ferro da vila; no alto da serra de Machêa instalava-se um solário para crianças e no morro dos Cucos um pequeno chalet para repouso dos doentes; a serra seria intensamente arborizada e um parque arborizado ligava a Praça das termas a um grande lago, no sitio da antiga Azenha dos Cucos, por trás do actual Buvette" .
Deste arrojado plano "apenas" se concretizaram a construção dos balneários, da Praça das Termas e da Avenida das Termas. O Casino foi construído em 1896 e, das 40 moradias previstas, apenas se concluíram duas vivendas: "D. Feliciana" (1895) e "D. Maria" (1896). De qualquer modo aquilo que se construiu foi de tal modo importante que mereceu a visita de personagens tão ilustres como o rei D. Carlos, em 1902, e que, por essa ocasião, agraciou José Dias Neiva com o título de Conde de Machêa, como o rei D. Manuel II, por ocasião das comemorações do centenário da Batalha do Vimeiro, em 1908, como Egas Moniz, o prémio Nobel Português, que frequentou os Cucos em 1902, 1903, 1905, 1906 e 1907, ou como, em 1920, o Presidente da República António José de Almeida.
Para além de José Gonçalves Dias Neiva, proprietário do estabelecimento, e de A. Jorge Freire, engenheiro responsável pela obra, é de destacar ainda o Dr. Justino Xavier da Silva Freire, director clínico das Termas, e autor de importantes relatórios médicos entre 1893 e 1913. A esse "triunvirato" se ficou a dever tão importante iniciativa.
A José Gonçalves Dias Neiva, falecido em Fevereiro de 1929, sucedeu-lhe, à frente dos destinos das Termas, um seu sobrinho, José António Vieira, que viria a falecer em 1962 e que dirigiria as termas numa fase de certa estagnação do local. Sucedeu-lhe José António Neiva Vieira, que procurou dar um novo dinamismo ao local, apesar das dificuldades acrescidas pela poluição do rio Sizandro. A este, enquanto director clínico da Estância Termal dos Cucos, se deve o primeiro relatório entregue aos serviços técnicos de Salubridade da Direcção Geral de Saúde, em 1969, sobre os inconvenientes das descargas da indústria Calhaus e Ferreira, Ldª no rio Sizandro.
Mas o local não se ficara por aqui no que toca a atentados ao meio ambiente. Recentemente uma pedreira destruiu uma área envolvente da zona dos Cucos e em 1983 foram imensos os estragos provocados pelas cheias.
Nestas condições foi difícil a José António Neiva Vieira melhorar as termas dos Cucos. Deve-se a ele a melhor monografia sobre o local, "História das Termas do Vale dos Cucos", editada em 1964, da qual temos vindo a citar algumas passagens.
Infelizmente, numa altura em que as Termas dos Cucos começavam novamente a conhecer algum desenvolvimento, o Dr. Neiva Vieira veio a encontrar a morte de forma trágica em 28 de Agosto de 1987 na passagem de nível de Runa.


[1] VIEIRA, ob. cit. pág.16.
[2] VIEIRA, ob. cit. pág. 17.
[3] VIEIRA, ob.cit. pp. 23-24.
[4] Citado por VIEIRA, ob. cit, p. 26.