quarta-feira, 10 de março de 2010

Em defesa do "sr. Vinho"

(Fotografia de Teresa Lamy)

A Lusa já tinha dado a notícia no passado dia 12 de Fevereiro: “Um garrafão de vinho em ferro forjado com cinco metros de altura” ía “receber os visitantes do Museu Colecção Berardo”, onde foi inaugurada no passado dia 1 de Março uma grande exposição da artista plástica Joana Vasconcelos.


Já então a mesma agência anunciava que a “peça, intitulada "Sr. Vinho",” tinha sido adquirida pela Câmara Municipal de Torres Vedras para instalar na cidade” e ía “ser mostrada pela primeira vez ao público no Jardim das Oliveiras, no Centro Cultural de Belém, onde está situado o Museu Berardo”.

Dizia ainda a mesma notícia que, de “acordo com o atelier da artista, as grades de ferro que dão a forma ao garrafão possuem padrões de vedações e guardas de varandas tradicionais, enfatizando o papel social, económico e religioso do vinho na sociedade portuguesa”.

Infelizmente o ambiente político em que se vive não é muito propício ao investimento em arte, caindo-se facilmente na demagogia economicista.

E foi assim que esta questão, que devia ser entendida como um enriquecimento cultural, se tornou polémica. Eu próprio cai na esparrela de assinar uma petição contra a aquisição da obra, desconhecendo então a sua origem e a sua qualidade.

Digo-o agora que essa aquisição devia ser aplaudida por todos os torrienses, e, se não houver dinheiro para a mesma, então que se abra uma subscrição pública para a adquirir.

A obra, merece ser apreciada como deve ser, reproduzindo-se neste blogue as fotografias que sobre a mesma foram realizadas pela Teresa Lamy para melhor se aferir sobre a sua qualidade.

A cultura e a arte, que têm sido tão mal tratadas por políticos e economistas merecem todos os apoios, principalmente quando são de grande qualidade e estão relacionadas com a identidade de uma região.

(Fotografias de Teresa Lamy)

Entretanto, na sua edição de hoje, o jornal Público noticia a polémica sobre o assunto

(Fotografia do Público)

Garrafão de Joana Vasconcelos divide opiniões em Torres Vedras

Por Ana Rita Faria

Câmara comprou escultura gigante para colocar no mercado municipal. Oposição contesta "despesa supérflua"
Desta vez não é um lustre feito com tampões higiénicos, nem um sapato gigante feito com tachos. É apenas um garrafão de vinho de cinco metros de altura, em ferro forjado, também da artista Joana Vasconcelos, mas nem por isso menos digno de causar polémica, pelo menos no círculo político de Torres Vedras. A oposição no executivo camarário está a contestar a compra por parte da autarquia da obra Senhor Vinho, de Joana Vasconcelos, dizendo tratar-se de uma "despesa supérflua" para o contexto de crise que o país atravessa.
"Não faz sentido gastar 300 mil euros numa obra de arte, num momento em que Portugal está em contenção de gastos, em que a própria câmara deve milhões a fornecedores e, sobretudo, quando há prioridades muito maiores no concelho em termos de melhoria da qualidade de vida das pessoas", disse ao PÚBLICO Paulo Bento, vereador e cabeça de lista à câmara pela coligação PSD/CDS-PP nas últimas eleições autárquicas.
A oposição vai levar o tema à próxima reunião de câmara, no dia 16, e exigir ao presidente da autarquia que revele o real valor da compra e qual a comparticipação dos mecenas. Em declarações ao jornal local Badaladas, o presidente da câmara, Carlos Miguel, disse que o valor de mercado da peça era de 300 mil euros. Contudo, segundo o site das contratações públicas, a obra foi adquirida pela autarquia por 149 mil euros. O restante poderá ser agora pago por mecenas (entre os quais deverão estar o Santan- der Totta e a Fundação EDP).
A oposição critica ainda o facto de a compra da peça, que estava encomendada desde Janeiro e que será colocada na praça do mercado municipal, não ter sido discutida com os restantes vereadores. Porém, o valor da aquisição permitia que a contratação fosse efectuada por ajuste directo, sem deliberação do executivo, justificou o presidente à Lusa".

in Público, 10 de Março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulher e Feitiço - um caso em Torres Vedras no século XV


Neste dia internacional da Mulher, parece-me bastante interessante reproduzir este texto, publicado na net (ver indicação no final) e que tem como tema de base os actos de uma feiticeira no concelho de Torres Vedras em 1492.
A situação das mulheres, mas também dos judeus na região de Torres Vedras no século XV tem aqui um valioso documento de estudo:


“Aviziboa: a feiticeira judia de Torres Vedras em 1492

Por Reuven Faingold*

1. Magia e herança medieval

"A crença em forças ocultas e a possibilidade de acioná-las através da magia e dos feitiços foi uma herança medieval que penetrou com intensidade em diferentes círculos judaicos. Essas atividades, quase sempre proibidas, geraram movimentos no mundo mediterrâneo em geral e nos países ibéricos em particular, atingindo dimensões pouco comuns no final do século 14 e durante os séculos posteriores.

Na história do Ocidente, particularmente na Idade Média e durante o Renascimento, não se distinguia magia, feitiços e ciências naturais. A filosofia e a teologia, por exemplo, focavam a sua atenção separando a “magia natural” da “magia popular”; esta última relacionada com forças demoníacas.

Seguindo essa linha de pensamento, a alquimia era vista como sinônimo de “magia natural” enquanto o “feitiço” era tido como crime, um verdadeiro pecado contra Deus e contra o próprio homem. Em outras palavras, a magia era entendida como uma transgressão grave que devia ser punida com todo rigor.

Nas pequenas vilas e aldeias distanciadas dos grandes centros urbanos, nas quais moravam pessoas simples e carentes de recursos, esse tipo de crença popular se expandiu com extrema facilidade.

O período 1470-1570 apresenta uma guinada no desenvolvimento da magia entre os intelectuais europeus, e, consequentemente, entre os judeus. Nesses anos, a magia e os magos foram alvos de fortes polêmicas; especialmente no Renascimento italiano e suas áreas de influência.

No fim da Idade Média, a Igreja cristã se encontra numa verdadeira encruzilhada, mostrando-se totalmente contrária a atos de feitiçaria, argumentando que estes não fazem nenhum sentido, pois nunca poderão superar as forças que emanam de Deus. Tudo indica que as duras perseguições aos culpados de feitiços e magia, estavam sustentadas por superstições, crenças populares e tradições transmitidas por via oral de geração em geração.

Os primeiros historiadores que estudaram a relação do Cristianismo para com a magia, concluíram que esta religião, apesar de contar com uma maioria absoluta na Europa, se opôs drasticamente a essa atividade supersticiosa. Por isso, a Inquisição perseguiu essa heresia até seu desaparecimento. Nos últimos anos vem surgindo trabalhos de pesquisa que propõem uma nova leitura da magia, chegando-se a conclusões contrárias: não só a Igreja fez vista grossa à magia e feitiços, como também utilizou essas crenças para impor sua superioridade sobre as heresias.

Para realizar as referidas pesquisas, os historiadores penetraram profundamente no complexo universo das classes populares; a rigor uma população geralmente marginalizada do processo histórico majoritário. Afinal, o registro dos acontecimentos foi sempre obra das classes privilegiadas e urbanas, que sabiam ler e escrever.

É notório também que, nas últimas décadas do Renascimento, tenham sido publicadas obras de cunho cabalísticomágico como o Sêfer Há-Meshiv (Livro das Respostas), abordando com detalhes o tema da magia e a caça às bruxas. Cabe destacar, nesse contexto, a repercussão que teve o movimento de repressão à bruxaria na cidade de Logronho, território vasco, ao norte da Espanha.

No acervo documental da chancelaria do rei D. João II de Portugal (1481-1495), preservado no ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo), descobri e decifrei um curioso documento que relata atos de magia e feitiços acontecidos na vila de Torres Vedras, ao nordeste de Lisboa.

Nele tomamos conhecimento da realização de uma cerimônia de “magia negra”, envolvendo um casal local e uma judia. A seguir, tentarei incorporar novos elementos à história da magia em Portugal.

2. A magia no Judaísmo

"No Judaísmo, o termo “magia” é atribuído a atos que desde tempos remotos eram considerados abomináveis, pecaminosos e totalmente proibidos. Estes eram tidos como atos relacionados aos antigos cultos pagãos. O versículo bíblico “Não deixarás viver uma feiticeira” (Ex 22:18) ensina claramente que as mulheres apareciam, com maior freqüência, envolvidas em feitiços. Um antigo ditado da autoria do rabino Meir Aldabi esclarece: “Muitas mulheres representam muitos feitiços” (heb. Harbé nashim, harbé kshafim). Há outros documentos em que judeus testemunham uma variedade de atos mágicos, cultos da morte e leitura de augúrios ou do zodíaco. No entanto, a Bíblia não especifica a essência da magia, a força em que age, sua relação com os diferentes deuses, entre outros.

O Talmude, a Lei Oral judaica, está repleta de contos sobre magia, feitiços e superstição em geral, mas estes atos são concebidos como uma forma de cegueira e desvio de comportamento. No Judaísmo um desvio de atitude e de caráter pode ser interpretado como esperteza, trambique ou enganação.

Embora exista um significado negativo nas concepções bíblicas e talmúdicas, tudo indica que no universo medieval essas idéias eram comuns, carregando uma aura de negativismo. Geralmente, toda feiticeira era associada a uma mulher não-judia, e apenas algumas vezes encontramos uma judia ganhando sua vida com essa atividade.

Contrário a pensamentos averroistas (filosofia de Averroes), Maimônides rejeitou a idéia de que feitiços e magia fazem parte do cotidiano. Já o rabino de Barcelona Moisés ben Nachman (Nachmânides), revendo afirmações do primeiro, acha extremamente necessário conhecer fatos vinculados com magia e feitiços, para fazer a eles oposição.

Para os judeus, magia e feitiços são quase sempre encarados como uma atividade satânica. Nesse sentido, as atividades desenvolvidas em Portugal não foram menos diabólicas e macabras das registradas em outras partes da Europa como no leste da França, sul-oeste da Alemanha, centro da Inglaterra e Países Baixos.

Portugal nos legou menos casos de feitiços e magia, mas o tema foi tratado de forma marcante nas palavras do médico luso Teixeira de Aragão (1823-1903) que teria afirmado que: As feiticeiras levam muito longe as suas crueldades pelas sugestões do diabo no seu intestino de ódio. Chegam a fazer bonequinhos de cera, barro ou trapo, figurando a pessoa que pretendem martyrisar (sic), e, conforme a aversão que lhes tem, com instrumentos, quase sempre agulhas ou alfinetes, vão picando o coração, os olhos, os rins e outras partes do boneco, invocando sempre o demônio”. Cf. Diaburas, Santidades e Prophecias, 1894, p. 43.

Que podemos extrair desse culto macabro? As terríveis dores ocasionadas à boneca são transferidas ininterruptamente ao corpo do homem que deseja ser enfeitiçado. Mesmo que na Idade Média e no Renascimento ficasse difícil distinguir feitiços de outras tantas áreas científicas como a medicina; a dor provocada aparece inúmeras vezes em descrições citadas pela literatura médica. Uma fonte sobre este tipo de procedimento é o tratado “De Praxi Medica” (livro III, p. 139) do sábio judeu português Abrão Zacuto.

Uma sensação de medo se apoderou das mulheres portuguesas no final do século 15. Por diversos motivos elas temiam perder seus maridos. Então, para retornar seus amados ao convívio diário, optavam pelos caminhos da magia e da superstição. Algumas fontes testemunham essas antigas crenças.

Exemplos:

1. Em 18/03/1435, Maria Secco e sua irmã Catarina, filhas de Pedro Secco, não acreditavam em Deus e, por isso, faziam feitiços; como meretrizes, deitavam com homens casados, padres, etc.;

2. Em 24/11/1441, Beatriz de Sousa fez atos de feiticeira a mulheres casadas ou prestes a casar, para que seusesposos “possam saciar suas vontades”;

3. Em 04/07/1442, Leonor Affonso deitou com seu marido Martins Queixada causando nele feitiços;

4. Em 27/02/1486, Beatriz Roiz, mulher de Pedro Gonçalves fez feitiços na mulher de Rui Gonçalves, para que esta melhore o trato de seu marido;

5. Em 15/07/1486, Isabel Pires era tida como “feiticeira pública” realizando feitiços e magia em alguns homens “para que amassem mais as respectivas mulheres”. Assim, ela teria enfeitiçado o serralheiro João Fernandes e o procurador Rui Gomes, ambos moradores de Lisboa;

6. Em 09/02/1487, Maria Eanes teria dito ao tribunal que Catarina Esteves era uma feiticeira pública que enfeitiçou seu marido, ao ser pego em flagrante com uma amante;

7. Em 29/08/1487, Maria Affonso teria feito feitiços contra o marido de Joana Gomes, pois este a teria desapontado;

8. Em 02/07/1488, Isabel Martins foi acusada de realizar feitiços em Affonso Camagueiro e em Pedro Martins, “para que os dois amassem mais suas respectivas mulheres”;

9. Em 23/10/1490, Inês, mulher solteira, filha de Catalina Affonso, fez magia em Lopo Fernandes. Ela o advertiu para que se cuidasse por onde andava, já que era visto como “uma pessoa desonesta e falta de credibilidade diante das mulheres”;

10. Em 11/08/1491, dona Beatriz Eanes, moradora da ilha de Madeira, realizava feitiços com cera e água. Corria o rumor que era amante do clérigo de missa João Gonçalves, também habi-tante da ilha. Na hora em que foi pega no “pecado mortal” ela decidiu distanciar-se dele.

Esse breve levantamento prova que quando um homem não honra a sua mulher ou descumpre suas promessas em relação a sua parceira, quando a desaponta em seus relacionamentos sexuais ou quando a trai com amantes, era comum que este fosse enfeitiçado pelas feiticeiras da aldeia. Essa era a fórmula mais freqüente de afastar os maus espíritos que corrompem o interior do ser humano.

3. Atos de magia em Portugal

"Em 10 de maio de 1492, ano da descoberta do Novo Mundo e da expulsão dos judeus da Espanha, a Chancelaria Real Portuguesa se dirigiu ao rei D. João II, para que este emitisse sua opinião sobre um episódio de feitiços acontecido na vila de Torres Vedras, envolvendo uma judia.

Esse pedido, enviado ao monarca, documentado no Livro de Chancellaria V, fol. 34v, teria partido de uma moradora da região chamada Lianor Pires, que denunciou a “hua judia [Aviziboa] que hordenara feitiços ao dito seu marido [Pero Nunes]”. Da leitura do documento surge, então, a pergunta: Quais seriam os feitiços atribuídos a essa mulher judia?

Revisando os textos, vemos que os feitiços efetuados na vila de Torres Vedras divergem das cerimônias mencionadas acima na lista cronológica. Há nesse culto mágico duas etapas distintas:

1. Aviziboa prepara “hum bollo para lhe dar a comer e elle lhe querer bem e outras cousas, na[m] declarando que cousas eram...”

2. Aviziboa “tomava chumbo derretjdo com terra e lançava-o em aguoa, e fazia hua fegura [figura] de homem e outra de molher de barro, e que lhes dava com hum cordell e dizia sobresto [sobre isto] suas horações e pallavras, e que per esta via o dito seu maridolhe querrya grande bem e não seria sallvo o que ella sopricamte quisesse...”.

O costume de assar um bolo para os maridos aparece com muita freqüência em Portugal. Tudo indica que era um culto essencial para o sucesso dos feitiços. Mas, nem sempre os preparativos ajudavam a enfeitiçar.

Assim, em 10 de abril de 1490, “huma Maria Álvares fizera hum bollo, e que fizera feitiços e o dera a comer a hum homem seu amigo... etc” (Liv. XII, fol. 115). Desse bolo não teriam surgido seus feitiços, como o bolo da judia Aviziboa tampouco teria ajudado a enfeitiçar Pedro Nunes.

Então, o que fazer quando o bolo não ajuda na hora dos feitiços? Num momento como esse, para obter êxito, a feiticeira deve passar a um outro culto. Ela prepara uma escultura ou um desenho de boneca que represente a figura à qual estariam direcionados os feitiços.

Os elementos que possibilitam feitiços são de vários tipos e cada um deles tem uma função específica, a saber: feitiços através do ar são denominados aerimância; por meio de água hydromância e por ação do fogo pyromância. Feitiços através da terra ou barro são conhecidos como feitiços de geomância.

O caso de magia acontecido em Torres Vedras com Aviziboa enquadra-se, portanto, nessa última categoria.

De que forma entender os atos de magia relatados no trecho citado? Primeiramente, devemos dizer que modelar uma figura de chumbo ou de qualquer outro material sólido é um fenômeno aceito e inclusive “permitido” no Judaísmo. Rash”ba (R. Shelomo ben Aderet), um dos maiores exegetas sefaraditas, permitia essa atividade em consultas incluídas na sua literatura de Responsa. Da mesma forma, proferir preces, salmos ou apenas palavras sagradas com pedidos especiais eram freqüentes nos círculos hispano-judaicos medievais.

O Judaísmo recebeu essas influências externas das sociedades em que os judeus participavam, dentre elas, sociedades em que se estudava a Cabalá.

Os judeus do século 19 que condenavam a Cabalá representada pelo Chassidismo, aceitavam a superstição com facilidade. Porém, um estudo detalhado do perfil dos feiticeiros ou das feiticeiras nos revela que estes não sabiam quase nada acerca de mística, pois nela não havia sequer vestígios de uma literatura ocultista ou das Sefirot.

O Zohar serviu como texto de magia tanto quanto o “Livro dos Salmos”. Para os judeus ibéricos, a força dos nomes, das letras, das palavras e dos números, poderia ajudar a preconizar o futuro, decifrar enigmas e preparar o homem para uma determinada situação. Essa força é basicamente celestial e aparece na época do Talmude como literatura da charrete ou merkavá.

Não há como afirmar que Portugal tenha desenvolvido uma tradição cabalística própria, similar daquela encontrada na vizinha Espanha. Pelo contrário, no decorrer do profícuo século 16 os textos lusitanos não lembram o uso da literatura mística e/ou cabalística nos diversos círculos de cristãos novos. O silêncio das fontes é total e basta lembrar que somente em 1724 aparecerá em Lisboa o primeiro texto de um cabalista de nome Francisco Manuel de Mello.

Em seu Tratado da Ciência Cabala ou notícia de Arte Cabalística, ele registra, como meta principal, mesmo que resumidamente, ensinar ao leitor lusitano os rudimentos da Cabalá. Já no início do seu texto, explica o conceito “cabalá” a partir de pensamentos expressos pelos próprios rabinos: "Est enim cabala, divinae revelationis ad salutiferam Dei et formarum separatarum contemplationem traditae symbolica receptio, quam qui coelesti afflatur sequuntur recto nomine Cabalici dicuntur” (Tratado da Ciência Cabala, 1724, cap. VI, p. 35).

Em relação aos feitiços aplicados num homem casado, encontramos na literatura duas situações contrárias nas quais é permitido realiza-los: primeiro, quando o homem “não ama sua mulher”, e, em segundo lugar, quando o homem “ama demais sua mulher” servindo, nesse caso, para atender a todas suas carências, vontades e/ou necessidades.

A seguir, apresento uma breve análise de um documento da Chancelaria Real Portuguesa que descreve atos de feitiçaria.

4. Quem era Aviziboa?

"Quem era essa enigmática figura de nome Aviziboa? Quais eram seus atributos e qualidades?

A primeira leitura não permite obter maiores informações da judia Aviziboa. Não há referências a idade, inserção social nem aos seus hábitos ou estilo de vida. Não obstante, há três possibilidades para identificá-la:

1. É plausível que seja uma figura de carne e osso, que tenha realmente existido e habitado na antiga vila de Torres Vedras, porém, com o seu nome não foi possível identificar nos arquivos da cidade, perdidos no tempo;

2. O documento descreve os fatos acontecidos com uma mulher que habita na periferia de Torres Vedras e visitou o lugar por um período relativamente curto. Também aqui não há certeza alguma;

3. É possível que Aviziboa seja um personagem imaginário, uma figura fictícia, uma mulher que legitime imputar sérias culpas à população judaica local.

Uma vez que a documentação está incompleta, as duas primeiras possibilidades não fazem nenhum sentido, restando apenas acreditar que a terceira possibilidade, mesmo especulativa, possa elucidar.

Por que seria, pois, Aviziboa um personagem imaginário?

Primeiramente, o nome Aviziboa desperta perplexidade. Numa revista sistemática de nomes, sobrenomes e toponímicos portugueses do século 15, não consta o nome. Parece difícil também acreditar que possa ser um nome de uso comum entre judeus. Sobre o significado filológico do nome há lugar para várias interpretações. Encontramos a forma Avi-ziboa que na tradução ao árabe seria “Ibn Ziboa”, da mesma forma que Avi-cena aceitaria o árabe “Ibn Sina”, ou Avi-zohr seria a tradução para o árabe da forma “Ibn Zohr”. Seja como for, todas essas variações são apenas hipóteses do significado e da grafia da forma Aviziboa.

Em segundo lugar, em relação aos nomes do casal Pires e Nunes, não há motivo para especulações. Ambos são nomes ou sobrenomes bastante difundidos que aparecem com freqüência também entre os judeus, antes e depois da conversão forçada de 1497, decretada pelo édito do rei D. Manuel I de Portugal.

O nome Pires aparece em vilas de judeus como Torre de Moncorvo, Trancoso, Barcelos, Fundão, Covilã e Lamego. Vale lembrar que Diogo Pires, um personagem cujos poderes mágicos o fizeram centro das atrações na História de Portugal e na História Judaica, era Salomão Molcho (Shelomó Molko), um dos mais importantes falsos messias, discípulo de David Reuveni, o judeu responsável por uma forte onda messiânica entre cristãos novos portugueses do século 16.

O sobrenome Nunes aparece difundido especialmente entre judeus e conversos. Basta mencionar o nome de Heitor Nunes, judeu que migrou para Inglaterra na segunda metade do século 16, ou o célebre geógrafo e matemático Pedro Nunes, autor do Tratado da Esfera. Este último lecionou na Universidade de Coimbra e em 1529 foi agraciado com o título de “Cosmógrafo da Corte”. Mas, após as perseguições terem atingido também numerosos cientistas,

Pedro Nunes e seus familiares foram presos e processados pelo Santo Ofício da Inquisição.

Terceiro, os feitiços de Aviziboa não permitem determinar se eles eram aplicados num espaço aberto ou fechado. Na Idade Média, era freqüente observar atos de magia ao ar livre, em meio a natureza. Vejamos alguns exemplos:

1. Em 13/11/1453, Gil Lourenço costumava fazer feitiços e magia nos caminhos e cruzamentos de caminhos;

2. Em 21/07/1462, Elvira de Ribeiro fazia feitiços causando danos graves à terra, atingindo [com seus atos] moinhos de farinha e máquinas para triturar cereais.

A leitura do documento referente aos feitiços de Aviziboa, no entanto, permite concluir que seus atos teriam sido realizados em lugares fechados longe do grande público.

5. A magia na legislação portuguesa

"Nos diferentes sistemas legislativos vigentes na Europa medieval e nos países mediterrâneos, foram fixados processos e punições para todos aqueles que foram acusados por feitiços e/ou magia. As penas aplicadas variavam desde reclusão perpétua para casos leves, até morte na fogueira, para casos mais graves. Nas leis bíblicas (depois, talmúdicas) os castigos aplicados aos feiticeiros (I Sm 28) também incluíam a morte.

Na Espanha cristã, as penas aplicadas àqueles que realizassem atos de magia e/ou feitiços, ficaram registradas no Livro de las Siete Partidas, compiladas por Alfonso X, “O Sábio”. Outras penas podem ser encontradas nos protocolos dos Conselhos das cortes medievais.

O sistema jurídico lusitano foi solidamente representado nas “Ordenações Manuelinas” compiladas pelo rei Manuel I em 1516. Ali foram publicadas as penas que deveriam ser aplicadas a todos aqueles que realizam curas com feitiços.

Diz o texto: "se for piam ou di pera bayxo, seja pubricamente açoutado com baraço e preguam pola villa, e mais pague dous mil reaes pera quem o acusar. E se for vassallo ou escudeiro ou di pera cima, ou molher de cada hum destes, seja degradado pera cada hum dos lugares dalém [= d’além] em África por dous annos, e mais pague quatro mil reaes pera que[m] o acussar. Pero esto nom [h]averá lugar os astrologos que por sciencia e arte de astrologia”. (Ordenações Manuelinas, Liv. V, fol. 33).

Emitir uma opinião definitiva sobre o grau de rigor das penas aplicadas é impossível. Tampouco sobre o conceito de justiça existente naquela época. Pela documentação sabemos apenas que Aviziboa não foi punida por seus atos, e isso gera dúvidas e suspeitas; ainda mais no século 15, quando magia e feitiços eram punidos rigorosamente com cárcere, expulsão da cidade ou do distrito, açoites em público, multas, e uma série de “medidas educativas” destinadas a ensinar o que é proibido e o que é permitido.

A falta de um castigo diante dos feitiços reforça a idéia de que estes foram feitos num recinto fechado longe do público. Talvez seja por isso que esse episódio não teve repercussão geral. É possível também que nos documentos de chancelaria achados em Portugal não era costume registrar as medidas judiciais aplicadas aos transgressores da lei. Era comum, pois, colocar as penalidades em outros documentos jurídicos. Portanto, as penas aplicadas a Aviziboa ficarão como um verdadeiro enigma.

6. Palavras finais

"Mesmo existindo uma total proibição nas fontes judaicas, os atos que envolviam tanto feitiços como também magia negra, conquistaram espaços significativos na vida judaica medieval, principalmente entre os judeus portugueses.

Contrariando as afirmações do historiador Pedro de Azevedo, que afirmava existir “uma supremacia intelectual entre os judeus e era de certo que entre eles se recrutavam os feiticeiros mais famosos”, a nossa opinião é bastante diferente: Não existe relação alguma entre o nível intelectual dos judeus com a cura através da magia ou dos feitiços.

Até por que a magia nunca foi uma atividade das elites. Pelo contrário, a história de Aviziboa representa um episódio único dessa natureza. Ele nos ensina também que crenças e superstições populares penetraram de forma profunda na tradição judeu-portuguesa no medievo. Concluímos este estudo com a célebre frase do inquisidor espanhol D. Alonso de Salazar, o homem que reprimiu o forte movimento de bruxaria em Logronho, na região dos vascos, entre 1609 e 1614: “No hubo brujos ni embrujados en el lugar hasta que se comenzó a tratar y escribir de ellos”.
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* Reuven Faingold é Doutor em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor no

Departamento de História da Arte da FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto.

Referências

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Itinerante" - "Por Trilhos das Invasões Francesas"

Foi recentemente editada uma nova revista, “Itenerante”, cujo primeiro número, relativo ao período de Nov. 2009 – Fevereiro de 2010, é integralmente dedicado às “Invasões Francesas”.

É uma revista de pedestrianismo e caminheiros que destaca, como tema desta edição, o título genérico “Por trilhos das Invasões Francesas”.

Começa com uma excelente selecção fotográfica de lugares e sítios relacionados como tema, entre os quais a Serra do Socorro. Vários textos abordam assuntos sobre o tema, como um sobre o sistema de comunicações usado na época ( o célebre “telegrafo de bolas”), texto este baseado no estudo de Henrique Vieira s, outro sobre o tipo de fardamento do soldado português de então, um outro sobre o papel das invasões francesas “na génese do Portugal Contemporâneo” (acompanhado por uma cronologia exaustiva sobre os acontecimento de então) e uma proposta de visita aos “campos de batalha da guerra peninsular” da autoria de António Ventura.

Uma reportagem sobre a ligação da Quinta da Póvoa àqueles acontecimentos e uma entrevista com Maria Zulmira Castanheira, que dedicou um estudo de investigação sobre os testemunhos ingleses da época, um texto do embaixador inglês em Portugal sobre a actualidade do tema, e uma reportagem sobre as localidades da região a norte de Lisboa na actualidade, completam o essencial dos artigos.

Como não podia faltar numa revista de caminheiros, são propostos vários roteiros pelas regiões referidas, com destaque para dois trilhos no concelho de Torres Vedras, um “da foz do Sizandro a Torres Vedras” e outro da “Enxara do Bispo à Serra do Socorro”. Os outros trilhos propostos são um “da Serra do Pilar à Ribeira” do Porto, outro “do Luso á Serra do Buçaco”, um “da Roliça ao Monte do Picoto” , outro “de Sobral de Monte Agraço a Pero Negro” e ainda outro de “S. Julião ao Zambujal”. É ainda sugerido um “micro trilho” em Almeida.

Entre outros temas de interesse, destaca-se ainda um espaço dedicado à gastronomia da região e sugestões de leitura de obras sobre as invasões e a sua época.

O tema da próxima edição da revista, a sair em Março, é sobre os Faróis.

Para saber mais sobre essa revista, podem consultar o seu site AQUI.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

TORRES VEDRAS HÁ 120 ANOS NA IMPRENSA LOCAL

NOVEMBRO 1889
(Largo da Estação)

Festas populares e caçadas eram algumas das poucas distracções desse tempo.

No primeiro domingo do mês tinha lugar “na Ermida da Casa e Quinta do Juncal, em Matacães, festa ao Sagrado Coração de Jesus” (A Semana, 7-11-1889).

A caça era uma actividade mais burguesa, realizando-se a meio da semana, como se pode ler na seguinte notícia, interessante também pela descrição que faz do lugar de Porto Novo:

“Na terça-feira, 5 do corrente, o sr. Dr. Justino Xavier da Silva Freire convidou alguns dos seus amigos (…) para uma caçada nas suas propriedades da Maceira.

“Foi escolhido o sítio do cazal do Porto Novo junto à Foz, nos mattos que em grande vastidão se estendem até ao alto do Seixo. D’este ultimo ponto começaram-se a bater os pinhaes até à enseada da Foz, tendo começado os exercícios às 10 horas da manhã e terminando às 5 da tarde, matando-se 38 coelhos e uma lebre” (A Semana, 7-11-1889).

Torres Vedras conhecia um assinalável crescimento urbano, mercê da chegada do caminho-de-ferro à então vila. A notícia do nascimento da futura Avenida Tenente Valadim, então designada por “Rua Nova”, era uma das notícias do mês:

“Já se anda preparando o solo para collocar a tubagem de ferro que substituirá o acqueducto de pedra por onde corriam as aguas, na parte contigua à Commenda, e que foi preciso demolir para fazer uma rua nova que seguirá do começo da Avenida do Caminho de ferro, do lado do nascente, e que virá desembocar à rua da Cerca, contigua ao largo do Rosário.

“Esta nova rua que será somente para transito de peões, é uma excellente serventia da estação do caminho de ferro para a parte baixa da villa”. (A Semana, 14-11-1889)

Outras obras acompanharam essa expansão urbana :“Vae ser reparada por conta da Companhia dos Caminhos de Ferro o largo em frente das portas da estação, que, quando chove, é um grande lameiro. As obras a fazer-se é terraplanar as covas, e dar escoante às aguas. Depois será bom também que os dois lampiões que ornam a fachada da estação não sirvam só para vista (A Semana, 28 de Novembro 1889).

Um dos monumentos mais emblemáticos da vila era igualmente alvo de reparações :“Estão-se fazendo obras nos telhados da egreja da Graça, que tanto careciam de ser reparados” (A Semana, 21-11-1889).

Curiosa é ainda uma notícia sobre o valor das “Jornas” dos trabalhadores rurais:

“(…) os trabalhadores estão-se actualmente pagando aqui 360 a 400 réis diários” (A Semana, 14-11-1889).

A importância da actividade vinícola era ainda patente numa outra notícia onde se referia o movimento comercial da região de Torres:

“A procura existe, e as offertas attingem para os vinhos de 1888, entre 10 e 12 libras por tonnel. Para os vinhos novos os preços variam, não nos constando vendas por valor inferior a 8 libras por tonnel, e sempre d’ahi para cima conforme a qualidade; os vinhos brancos vendem-se de 500 a 600 réis o almude, conforme a sua riqueza alcoólica” (A Semana, 21 de Novembro de 1889).

DEZEMBRO DE 1889

A vida religiosa marcava o quotidiano torriense :“No domingo, 8 do corrente, fez-se no templo da Collegiada de S.Pedro, com a devida solemnidade, a festa a Nossa Senhora da Conceição, a expensas da irmandade do mesmo titulo, instituída em 25 de Outubro de 1820.” (A Semana, 12-12- 1889).

Mas o profano ganhava terreno através do associativismo, como se percebe pela seguinte notícia:

“Theatro Chalet

“No CLUB d’esta villa houve no sabbado uma reunião de differentes pessoas, d’onde se apurou mais uma tentativa para a construcção d’uma casa de espectáculos de edificação ligeira e moderna.

“Para dirigir os trabalhos preliminares foram acclamados os sr.s dr. Luís António Martins, Manoel Francisco Marques e Augusto dos Santos Ferreira” (A Semana, 12-12-1889).

As obras no Convento da Graça prosseguiam a bom ritmo:

“O templo pertencente à Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, vae apparecer com as gallas que dão o aceio e o cuidado. O telhado foi todo reparado; o interior e o exterior do templo será caiado e a cantaria lavada.

“Da torre foi apeiado o sino grande que estava fendido, e serão gateiadas as cantarias.

“O sino vae ser vendido para com o donnativo Luiz de Abreu occorrer às despezas que alli se andam fazendo.

“Será bom pensar em seguida em realizar n’aquelle vasto templo os officios do culto Divino, aproveitando a sua excellente localisação, e offerecendo grande commodidade aos moradores da villa” (A Semana, 26 de Dezembro de 1889).

Sobre o tal sino “ apeado da torre da egreja da Graça (…) tem a nota de fabricado em 1787 nas officinas de um tal Oliveira. Pesa 978, 800 kilos” ( A Voz de Torres Vedras, 28-12-1889).

JANEIRO 1890

Preocupações com o estado sanitário da vila marcaram as primeiras notícias do ano:

“É rara a casa em Torres Vedras onde não haja um doente, e em algumas acontece que estão de cama todas as pessoas de família.

“Pelos diversos logares das freguezias do concelho há egualmente uma sensível alteração no estado sanitário, que accusa indiscutivelmente uma corrente, se não epidémica, pelo menos endémica.

“O carácter das doenças dominantes são: as bronchites e as tracheites, em casos exporadicos; a grippe e a influenza atacando com tenacidade.

“A provação dos doentes não é, porem, para desesperar. Os ataques, posto sejam intensos, são logo succedidos de melhora. As crises fabris não se fazem demorar, e é notável a declinação no período agudo da doença, que deixa, comtudo, demorados estragos no organismo.

“Nas pharmacias teem-se vendido arrobas de flor de borragem, e milheiros de sinapismos Rigollot.

“Os arsenais da therapeutica teem soffrido ataques medolhos nas seivas de pinheiro, nos xaropes de lactucario, nas antipyrinas e aconittus” (A Semana, 9-1-1890).

Nesse mês teve lugar o tradicional mercado de S. Vicente

“Não foi das mais concorridas, mas com tudo o gado suíno vendeu-se quasi todo.

“O preço da carne começou a 2$800 e chegou a 3$100” (A Semana, 23-1-1890).

Frequentemente, muitas vezes acompanhando a realização de festas ou feiras, a vila era visitada por artistas ambulantes:

“Em uma casa na rua dos Celleiros d’esta villa, está uma pequena troupe d’artistas dramáticos dando uns espectáculos que são limitadamente concorridos, porque,infelizmente, ao presente em Torres Vedras, tudo quanto se apura é para pharmacos” (A Semana, 23-1-1890).

Este mês de Janeiro foi igualmente marcado pela decisão de se iniciar a constituição de uma nova associação, tendo por base uma mais antiga, que deu origem ao ainda hoje existente Clube Artístico e Comercial, a mais antiga em funcionamento:

“Na segunda-feira [27 de Janeiro], a requerimento de precioso numero de sócios reuniu a assembleia geral do Club Torrense para tomar conhecimento do desejo por elles manifestado de que fosse substituído aquella antiga denominação pelo de Grémio de Torres Vedras.

“Assim foi resolvido por unanimidade” (A Semana, 30-1-1890).

As edições de Janeiro dão conta dos “protestos patrióticos” (A Semana de 23 de Janeiro), contra o Ultimato britânico, publicando mesmo, na sua edição de 30 de Janeiro, um texto de Jayme Batalha Reis intitulado “O Movimento Patriótico”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

valter hugo mãe em Torres Vedras

Mão amiga fez-me chegar a seguinte notícia:

"valter hugo mãe vem a Torres Vedras para apresentar o seu mais recente livro, a máquina de fazer espanhóis.
Este livro transporta-nos para um lar de terceira idade onde os seus habitantes lutam contra o destino que lhes prometem, procuram respostas para a sua vida, ainda querem descobrir o que é o amor e a identidade.
valter hugo mãe nasceu em 1971, em Angola, é autor de vários livros de poesia e este é o seu quarto romance. Com uma das suas obras anteriores, o remorso de baltasar serapião, ganhou o Prémio José Saramago.

Na Livrododia, em Torres Vedras, na próxima quarta-feira, 3 de Março, às 18 horas".

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA DO CARNAVAL DE TORRES - Breve Apontamento

Os primórdios

(A Primeira Fotografia do carnaval de Torres - 1911)

A primeira referência a brincadeiras de carnaval em Torres Vedras data do tempo de D. Sebastião, num documento datado de 1574.Trata-se de uma queixa de Jerónimo de Miranda, morador na Vila de Torres Vedras contra uns "moços folgando com um galo” no dia do Entrudo e que provocaram uma briga.

Só com o aparecimento da imprensa local, em 1885, surgem as primeiras referências ao Carnaval de Torres, geralmente referido como “desengraçado” e “sem espírito”. Durante anos o carnaval de Torres limitou-se aos bailes e récitas nas colectividades e em casas particulares, quase sem nenhuma animação de rua, excluindo um ou outro grupo de mascarados desfilando numa ou noutra carruagem enfeitada.

No início do século XX o carnaval continuou a viver apenas da animação nas colectividades.

Nesta ocasião as colectividades realizavam-se "cançonetas",comédias, revistas teatrais e récitas, com temas adequados à quadra e bailes de máscaras.

Em 1901 o carnaval incluiu uma novidade, a primeira exibição do "animatógrafo" em Torres Vedras, no Grémio, segunda feira de carnaval, dia 25 de Fevereiro .

Não foi o assassinato de D. Carlos, em 1 de Fevereiro de 1908, que impediu o carnaval desse ano, realizado menos de um mês após a tragédia, de ter sido o mais animado e mais político dos até então festejados em Torres Vedras, o que talvez revele a influência dos republicanos na recuperação do carnaval de rua.

Com o advento da Republica o carnaval de rua, em Torres Vedras, começa a adquirir maior animação.

1912 parece ter sido um ano crucial, referindo-se “A Folha de Torres Vedras” à importância do programa então elaborado pelas colectividades da terra (Casino, Grémio, Tuna e “Salão-avenida animatographo”),que deu ao carnaval desse ano uma animação “extraordinária, superior à dos anteriores (...)”,tendo-se até formado uma comissão para animar as ruas que, acompanhado da filarmónica ("Torreense"?), o fez pedindo donativos “para distribuir na terça-feira um bodo aos pobres”.Também para os dois dias de carnaval foi organizada, pela classe dos tanoeiros, uma aparatosa mascarada, executando"graciosas danças", sendo ainda muito comentado um grupo de mascarados que surgiu na terça-feira parodiando as tropas contra-revolucionárias de Paiva Couceiro(que no ano anterior tinha ensaiado uma primeira tentativa de restauração da monarquia) “arrancando as gargalhadas a toda a gente, pela graça e sobretudo pela cópia fiel dos aguerridos paivantes de mantas às costas e marmitas e entre os quais se viam policias, guardas municipais, muitos padres e jesuítas”.

Quem sabe se não terão sido estes os antepassados das “tropas” que ainda hoje costumam acompanhar o cortejo "real","ministros" e"matrafonas".

Esta manifestação chegou mesmo a merecer destaque nas páginas da "Ilustração Portuguesa", onde se publicou aquela que é a mais antiga fotografia conhecida do Carnaval de Torres.

Até aos anos 20,o carnaval torriense continuou em dispersas, variadas e espontâneas actividades: enfarinhar o cabelo das raparigas, atirar saquinhos de grainha, tremoço seco e farinha,"assaltos" em grupo a casas particulares, alguns grupos de rapazes percorrendo as ruas em trens abertos, carroças e galeras (de tracção animal), umas burricadas e a visitas a colectividades locais.

A invenção do Carnaval de Torres (1922/23 – 1926)

Em 1922, um grupo de mascarados percorreu as várias colectividades da então vila de Torres Vedras, fazendo a ligação entre o tradicional carnaval das colectividades e o carnaval de rua.

O êxito dessa iniciativa levou à formação, no ano seguinte, de uma comissão para estruturar melhor o carnaval de 1923. Neste, imitando o que se fazia em Coimbra e em Lisboa, realizou-se a primeira recepção, na estação ferroviária, ao Rei do Carnaval, então ainda sem a companhia da “rainha. Seguiu-se um cortejo carnavalesco que, saindo do pátio de Francisco Alves, percorreu todas as colectividades da vila.

“Nascia” assim o carnaval de Torres.

No ano seguinte, o rei "D.Carnaval II" foi esperado na estação do caminho de ferro, recebido por um "esquadrão de cavalaria e burraria" e por um "batalhão de marinheiros de água doce", "ministros" e "embaixadores". Foi ainda recebido por vários coches, de entre os quais se destacou um com os "altos dignatários", como o "cardeal", "o bispo", o "cónego", e o "acólito". Esta paródia a elementos da Igreja foi posteriormente abandonada, quer devido a pressões políticas, quer pelo facto de, em dois anos sucessivos, aqueles que se disfarçaram de cardeais terem falecido, o que contribuiu para a superstição, todos se recusando, daí para a frente, assumir essa máscara.

O cortejo seguiu depois em visita às sociedades de recreio, tendo lugar um banquete de gala no Hotel Natividade. À tarde realizou-se um desafio de futebol na Porta da Várzea. As festas terminaram no "Grémio Artistico e Comercial" com o baptismo do príncipe real e a presença, pela primeira vez da "rainha", desde logo representada por um homem, Jaime Alves, costume que se manteve até aos nossos dias.

Este torriense foi “ a rainha” que reinou durante mais anos, até ao início dos anos 50, acompanhado no trono, durante as três primeiras décadas de Carnaval de Torres, pelo “rei” Álvaro André de Brito. Este “reinado” foi apenas interrompido em 1940, fazendo de rainha Gil Lopes.


É neste período que surgem as célebres “matrafonas”, ainda hoje imagem de marca do Carnaval de Torres.

Anos 30 e 40


Durante os anos de 1927 a 1929 o carnaval de rua organizado conheceu a sua primeira interrupção. Estávamos nos primeiros anos da Ditadura Militar do 28 de Maio, facto que não terá sido alheio a esse interregno.

Em 1930 o Carnaval de Torres regressa às ruas e, no ano seguinte, tem lugar a primeira “batalha de flores”, em recinto fechado e pago, realizando-se o cortejo num único dia, na segunda-feira de carnaval, com desfile de carros alegóricos particulares e de firmas comerciais

O ano de 1933 foi o da afirmação e projecção a nível nacional do Carnaval de Torres, com participação financeira da câmara municipal e uma vasta campanha de propaganda na imprensa nacional, alargando-se o desfile para dois dias e às ruas Tenente Valadim e 9 de Abril. Estiveram presentes mais de 20 mil pessoas. Também pela primeira vez foi atribuído um prémio para o carro de carnaval mais original.

Neste ano, os "reis" chegaram de comboio, na manhã de 2º-feira, lendo-se, na ocasião, um discurso de recepção real, da autoria de Domingos Lino. Para os saudar, as janelas foram engalanadas com colchas.

A Segunda Guerra provocou um novo interregno destes festejos a partir de 1940.

Nesse ano de 1940 estavam proibidos os festejos de carnaval, por causa da guerra. Para tornear mais esse obstáculo, constitui-se uma comissão formada por um representante de cada colectividade (Tuna, Grémio, Operário, Casino e Sporting Club de Torres) que pediu ao presidente da Câmara para autorizar a realização do tradicional carnaval de Torres. Este autorizou-o, desde que não se fizesse propaganda, para não chegar ao conhecimento das autoridades de Lisboa, e foi assim que o carnaval de Torres ainda se realizou esse ano.

No ano seguinte, 1941,ensaiou-se o mesmo estratagema, desta vez sem êxito, devido à pressão das autoridades, mantendo-se a proibição no ano seguinte.

Em 1943, apesar da proibição do carnaval de rua, este regressou às colectividades, no Grémio, no Operário, na Tuna e no Casino. Nestas duas últimas colectividades exibiu-se a "Orquestra Sulfidrofónica", diversão musical formada por alunos da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras. No Casino chegou mesmo a realizar-se uma recepção ao rei carnaval e reviveu-se o célebre corso, com desfile de “carros” e o tradicional discurso de carnaval..

Anos 60 – O Carnaval de Torres afirma-se


Logo em 1946 retomou-se a tradição do carnaval de rua, constituindo-se uma comissão que levou a efeito a evocação da Iª Visita do Rei Carnaval a Torres Vedras. Os Reis de Carnaval foram recebidos e aclamados quando da sua chegada à estação de caminho de ferro, organizando-se um vistoso cortejo, que, percorrendo as ruas da vila, visitou as colectividades recreativas, a cujas direcções SS.MM. apresentaram os seus desejos de muita alegria, durante os três dias que lhe eram consagrados.

Mas foi só em 1950 que se organizou um cortejo com as dimensões da fase anterior. Em 1951 tomaram posse os novos "reis" do carnaval, Levy Miguel dos Santos (o "rei") e António Agostinho ("a rainha").

Contudo, em 1953 o carnaval sofreu nova interrupção e, apesar de se ter realizado em 1955, só a partir de 1960 conhece um novo alento.

Realizando-se em 1959 uma reunião magna no Teatro-Cine para relançar o Carnaval de Torres, formou-se uma comissão que, apoiada na estrutura organizativa da Física de Torres, recuperou, em 1960, o cortejo de rua que teve lugar durante dois dias, agora ao Domingo e à terça-feira.

Nos anos 60, a chegada dos reis do carnaval passou a efectuar-se no Domingo de manhã, na estação de comboios, sendo recebidos com o discurso do “primeiro-ministro”. Nos anos 90 acrescentou-se a essa cerimónia a entrega, pelo Presidente da Câmara, da chave da cidade à comitiva real.

Os discursos de carnaval, proferidos pelos sucessivos “primeiros-ministros” em honra à comitiva real, como acto de abertura oficial do Carnaval de Torres, tornou-se uma ocasião especial para fazer crítica social e política, especialmente interessante nos anos 60, quando a censura ainda dominava.

É neste período que surgem os “Zés Pereiras”, os quais, acompanhados dos gigantones e dos cabeçudos, se tornaram uma presença obrigatória no Carnaval de Torres até aos nossos dias. É então também que surge a “Pandilha”, presente pela primeira vez em 1948, que, percorrendo as colectividades locais, aproveitava a ocasião para fazer crítica social e política, o que lhes acarretou alguns problemas com as autoridades.

Facto inédito foi a visita feita ao "rei" do carnaval de Torres, no carnaval de 1970, por um segundo "rei" ("D.Rachadinho I", rei da "Brejenjolândia" d` àlém sizandro) que, chegando ao aero-clube de Santa Cruz com a sua corte, se encontrou com o de Torres para a "Assembleia ANU" (Assembleia dos Naturais do Universo), que teve lugar no Campo do S.C.U.T. no Sábado Gordo.

Deste período, nas décadas de 60 e 70, há que recordar João Maria Brandão de Melo, rei do carnaval durante 25 anos, desde 1966, e que "abdicou", em 1990, a favor de seu filho Bruno Brandão de Melo, representando o primeiro caso de sucessão dentro da mesma família, ou José Manuel Abrantes, "rainha" durante 19 anos, até 1991, "a" "rainha" mais bonita de sempre", tendo enganado muitos incautos , que "a" perseguiam julgando que era mesmo uma mulher. Ao abdicar a favor de António Manuel dos Reis (Mima), tornou-se na primeira “rainha mãe” da história do Carnaval de Torres.

Até 1974 o carnaval só conheceu uma interrupção em 1963 e 1964, por imposição das autoridades, por causa da “guerra colonial”.

Luís Brandão Pereira de Melo foi um dos principais responsáveis pelo relançamento do carnaval nos anos 60, período no qual se destacou a arte de um Luís Faria.

Finalmente a Liberdade


As liberdades conquistadas a 25 de Abril prometiam uma nova expansão do Carnaval, pois esta quadra sempre se deu mal com ditaduras e autoritarismo.

Lamentavelmente, as lutas políticas que se seguiram àquela data e a afirmação de um novo tipo de “ditadura”, a económica, quase acabaram com o Carnaval de Torres.

Este não se realizou em 1975, e só em 1978, com a formação de uma comissão de carnaval, patrocinada pela Câmara Municipal e pela respectiva comissão de turismo, regressou às ruas de Torres.

Em 1983 e 1984 o carnaval passou por um novo período difícil, sofrendo um grave rombo orçamental em 1983 e interrompendo a sua realização em 1984, devido às graves consequências, para a região, das inundações do inverno de 1983.

É então que a vereação da cultura e turismo, presidida por António Carneiro, tomou nas suas mãos a decisão de se responsabilizar pela organização do evento, transformando-o num dos principais cartazes turísticos da região.

O carnaval de 1985 marcou assim um novo e definitivo arranque do Carnaval de Torres, iniciando-se aí aquela que é a sua fase actual. A partir de 1988 a sua organização passou a obedecer a uma temática unificadora, que, ao longo dos anos, foi passando do recinto do corso para todas as entidades envolvidas na animação daquela quadra : bares, desfile das escolas, grupos espontâneos de mascarados.

A partir dos anos 90 o desfile de todos os alunos das escolas do concelho mascarados, na Sexta-feira antes do Carnaval, tornou-se num dos pontos altos da festa, generalizando-se a formação de grandes grupos de mascarados que percorrem colectividades, discotecas e bares durante esses dias, e que animam ainda os corsos diurnos e, desde 1995, o corso nocturno de Sábado.

Mais polémico foi a criação, neste ano, do carnaval de Verão, que se realiza em Santa Cruz.

Actualmente a sua organização é da responsabilidade de uma empresa municipal.

Este período mais recente fiou marcado pela qualidade dos carros alegóricos imposta pela arte de José Pedro Sobreiro, que fez escola e teve excelentes seguidores em vários artistas locais que colaboram na imagem iconográfica do Carnaval, com destaque para António Trindade, António Travanca e Sarzedas. Actualmente deve-se à empresa Gulliver a responsabilidade pela arte oficial do carnaval.

O Carnaval e a Máscara


O uso de máscaras é um dos elementos mais característicos do Carnaval. As máscaras tradicionais eram feitas de vários materiais, tais como a madeira, o couro, a lata, a cortiça, o cartão, materiais recentemente substituídos pelo plástico ou pela fibra de vidro.

Contudo, um mascarado não se esgota no disfarce do rosto, antes completa-se com um traje, mais ou menos adequado.

A notícia mais antiga sobre o uso de máscaras carnavalescas em Portugal data de um alvará de 20 de agosto de 1649, que proibia ”andar a pé pelas ruas, embuçado, com chapéu ou sem ele e assistir com bioco nas igrejas”. Diz-se que esse costume seria mais antigo, pois rezam as crónicas que D. JoãoII teria comparecido ao casamento do filho mascarado.Com a Inquisição, usar máscaras tornou-se uma heresia e atirou muita gente para a fogueira. Só nos finais do séc. XVIII as máscaras voltaram a fazer a sua aparição, principalmente nos majestosos bailes da corte absolutista de D. João V.

Uma das mais famosas máscaras do carnaval português foi o “Xéxé", surgido em Lisboa, após a vitória liberal, cuja máscara ridicularizava os miguelistas, também conhecido por “peralta”, ”salsa” ou “pisa-flores”, o “xéxé” envergava, invariavelmente, uma casaca de muitas cores, sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição mais ou menos obscena. Usava, além disto, um bastão rematado por um chavelho, uma faca enorme e uma luneta”.

As Máscaras no carnaval de Torres


Na sua já longa história, houve máscaras que se distinguiram no Carnaval de Torres, umas assumidas individualmente, outras em grupo.

De entre as primeiras destacou-se a imaginação de Edmundo Carnide que, nos anos 30, vestido de bôbo, percorria o país a fazer propaganda ao carnaval ou, mais recentemente um Stélio que, vestido de polícia, “desorganizava” o trânsito das ruas do côrso, máscara que continua a aparecer por iniciativa de um neto seu.

De entre as segundas, o destaque vai para as “Matrafonas”, imagem de marca do Carnaval de Torres, homens mascarados de mulheres. Esses grupos de “matrafonas” surgiram por iniciativa de “indivíduos que vestiam um fato de mulher - mas que não ficava bem a senhora nenhuma. Procuravam era vestir um fato que lhes ficasse horrivelmente mal e feio. Por exemplo, não se usavam colares encarnados, pois ele procurava era arranjar um colar encarnado; não se usavam toucas na cabeça, pois ele procurava era arranjar uma touca horrivelmente mal feita para ir para a rua”.

O costume de os homens se mascararem de mulheres já existia nalgumas aldeias do concelho, onde os homens do campo, com poucas posses, recorriam às roupas velhas das mulheres e a caraças feitas de caixas de sapato para se mascararem, de forma barata, durante o entrudo.

Aparecem referenciadas pela primeira vez em 1900, integradas numa “dança vinda de Runa e em que figuravam em travesti de bailarinas uns perfeitos mocetões, um dos quais” comentava a imprensa da época, “até impressionou vivamente dois amigos nossos”.

O "travesti" é uma das máscaras mais características e populares do carnaval. Época de transgressão, de violação das fronteiras e regras sociais, a inversão de papéis tradicionais, nomeadamente os domésticos, entre homem e mulher, é dos mais comuns.

Nas primeiras descrições conhecidas do carnaval de rua em Torres Vedras aparecem sempre referências a outros grupos de mascarados, que se têm mantido até aos nossos dias, como os “ministros” ou os “militares” que acompanham o cortejo real.

Outro grupo que integrou os festejos carnavalescos ao longo de muitos anos foi a " Pandilha". Criado provavelmente em 1948 e, tomando o nome de um outro agrupamento mais antigo, manteve-se em actividade até 1990, sempre com a mesma composição do início, sendo um bom exemplo das tradicionais cégadas. Em todas as noites das segundas feiras de carnaval , este grupo percorria as colectividades locais, onde se realizavam os bailes de carnaval e criticava ou gozava com as situações que marcavam a vida torriense, através das suas rábulas : “eram para aí uns 20 ou 30 que deliciaram as mentes pérfidas torreenses que adoram gozar com a desgraça alheia”. Kropotkine Vicente dos Santos foi o grande dinamizador da "Pandilha", da qual se destacaram também Jucelino Batalha, Stélio Justino Batalha, Francisco Porfírio (o "Chico da Bola"), Fernando Leiria, Augusto Cândido, Carlos Alberto Miranda, Jorge Ferraz, Pedro Calado e Luís Manuel Correia ("Corneta"),entre outros.


Actualmente, um dos momentos altos do carnaval torriense tem lugar na Sexta-feira que antecede o Entrudo com o desfile de máscaras pelas ruas da cidade, onde participam milhares de alunos das escolas e jardins de infância do concelho, costume que se iniciou em 1991, quando a Escola Secundária Madeira Torres promoveu um concurso de máscaras por turmas, para desfilarem pelas ruas da cidade naquele dia da semana.

CABEÇUDOS; GIGANTONES E ZÉS PEREIRAS


Carnaval sem cabeçudos, gigantones e “zés pereiras”, não é carnaval, povoando o imaginário infantil de muitas gerações de torrienses, que provam os seus medos pela forma como, durante o carnaval, enfrentam tão ilustres personagens.

Inicialmente apenas desfilavam os gigantones e cabeçudos, como aconteceu em 1935, quando desfilaram pelas ruas 50 cabeçudos e gigantones, da autoria do artista Celestino Muñoz.

A construção de tão simpáticos personagens foi um dos meios onde se revelou a imaginação dos artistas torrienses, sendo inicialmente fabricados em papelão e gesso.

Quanto à temática dessas figuras tradicionais do carnaval torriense, tem havido a preocupação de abranger um leque variado de temas desde a fantasia pura e simples à crítica social e política, passando pelos temas clássicos (mitologia).

Desde os anos 60 que desfilam acompanhados pelos "Zés Pereiras", com os seus bombos e gaitas-de-fole.

Sexta-feira à noite costuma ter lugar, no largo da estação , a recepção aos "Zés Pereiras" que, acompanhando com os seus bombos os cabeçudos e os gigantones , iniciam o seu desfile pelas ruas da cidade, tarefa que executam incansavelmente até ao início da noite da Terça-Feira Gorda.

OS CARROS DE CARNAVAL


Até aos anos 20, o carnaval torriense consistia em dispersas, variadas e espontâneas actividades como enfarinhar o cabelo das raparigas; atirar saquinhos de grainha, tremoço seco e farinha, "assaltos" em grupo a casas particulares, umas burricadas e a visitas a colectividades locais. Alguns grupos de rapazes percorrendo as ruas em trens abertos, carroças e galeras (de tracção animal) estão na origem da construção dos carros que hoje constituem o atractivo principal do côrso carnavalesco.

Durante os primeiros desfiles de rua organizados, os carros alegóricos eram de particulares ou de casas comerciais. Alguns dos mais criativos carros de carnaval de Torres foram os que desfilaram nos anos 30.

Em 1931, num dos primeiros desfiles em recinto fechado, destacaram-se no desfile alegórico desse ano o carro de Raul Rocha, de reclame à sua casa fotográfica, o carro de Rocha Peixeiro e Miguel Mendes, o carro de João Rufino dos Santos, um grande sapato propagandeando a sua Sapataria 1º de Dezembro, o carro das ceifeiras, o carro de Souza e Manarte, um enorme bacalhau, o carro de João Henriques dos Santos com os cinco diabos, o carro do vinho, o carro da casa Leão. Alguns desses carros foram da responsabilidade de Amílcar Guerreiro

Em 1932 ficaram famosos carros como “A Concha”, ”O Golfinho", ”a Lira”, ou o carro real, da autoria de Celestino Muñoz, uma“Quadriga Romana”.

Uma das novidades do desfile de 1933 foi a atribuição de um prémio para o carro mais original ganho pelo carro “Taça de Champagne”. Aliás, nesse ano apareceram alguns dos carros mais originais de sempre, como o“Ovo", da autoria de Faustino Antolin, o “Penedo do Guincho”, feito por Luís Faria e propriedade de José Joaquim Miranda ou o célebre “Elefante” como carro do rei, ou ainda o"Couraçado", o "Moinho Holandez", "O Peixe" de A.Rocha, o "Campo de Aviação de S.tº Cruz" de Raul Rocha, "o Cesto" de do Dr. José de Bastos, o "Cesto de Flores" de Jacinto Custódio Rodrigues, o "Barco de Pesca", o da "Festa na Aldeia", o "Comboio Mistério", todo particulares, bem como carros de cariz publicitário, como o carro da Casa Hipólito, "minhotas", o carro reclama da "Horta Nova", de J.A.Lopes junior (um grande garrafão) ou o carro reclame de produtos "banacáo", sendo ainda de destacar o expontâneo grupo de bicicletas “mascaradas”. Muitos dos temas dos carros deste ano marcaram, durante anos, o estilo de outros desfiles.

Dos carros alegóricos de 1935 é de recordar a "quadriga romana", carro dos reis, feito por Celestino Muñoz, coadjuvado por José de Castro Marvão," a concha" puxada por golfinhos que era o carro dos príncipes, tal como existiam os carros das damas de honor ,dos jornalistas e da aviação. De recordar também o "ninho de cegonhas", a “lira” da Tuna, o "circo Malcheiroff”, o "cantar da sereia", o "carro dos pirolitos", o "ferro de engomar", a "banheira e bacio ",carro de reclame das "baterias philco", o " carro das borboletas", ou a "Tôrre de Belém", entre muitos outros carros.

Em 1936 foram introduzidas algumas novidades: pela primeira vez é proposta a participação das freguesias do concelho, que podiam apresentar um carro de carnaval cada uma. Por outro lado, a comissão dos festejos comprometia-se a comparticipar em 30% das despesas para os carros particulares, e estava disposta, no caso da receita chegar, em elevar o subsidio até 50%.

Em 1951 apareceram sete carros da comissão e vários particulares ou comerciais , destacando-se os seguintes : "Astrólogos e fadas", "Marroquinos", "A Torre de Belém", "A Galé do Pirata", "A Arca de Noé", "Os Cegonhas", "O Mafarrico", "O Coreto de saudosa memória", "A lanterna da incandescência a iluminar o mundo"(da Casa Hipólito) , "a bomba da trasfega"(da casa "FAS"), "A Cerâmica do Outeiro", "O Carro eléctrico" da "Companhia dos carrinhos de Linha de Torres" e o "Trenó", carro real

Para o carnaval de 1966 realizou-se pela primeira vez um concurso público de desenhos de carros alegóricos ,com o objectivo de "elevar o nível artístico dos carros participantes no corso, de modo a situá-lo mais de harmonia com a extraordinária projecção já atingida", e, ao longo dos anos 60, a confecção dos carros tornou-se mais profissionalizada, dispondo a comissão de carnaval de umas oficinas gerais na Fonte Nova, sob a direcção técnica do mestre Heitor e do construtor José Moleiro .

Os carros alegóricos passaram a ser fabricados nos estaleiros de "Arenes" desde 1981.Actualmente os carros oficiais são fabricados pela empresa Guliver, mas têm aparecido vários carros elaborados por espontâneos, freguesias ou escolas

O material de base , para construção dos carros passou então a ser constituído por madeira de pinho, esferovite, gesso, aglomerados e tinta. Antigamente a estrutura dos carros assentava em galeras de rodado de madeira. Actualmente e desde 1987, assentam em chassis feitos de propósito.

Os primeiros carros eram puxados por juntas de bois. Hoje é destacada uma frota de tractores para os puxarem pelas ruas do côrso.

ICONOGRAFIA

 
Quase oito décadas de Carnaval torriense contribuíram para a criação de registos iconográficos de grande valor artístico que infelizmente nunca foram conservado convenientemente.

Cartazes, folhetos, esboços, para propaganda ou de apoio à actividade criativa ligada ao carnaval (decorações, carros, cabeçudos...), revelam-nos a faceta de grandes artistas locais que sempre deram o seu contributo para tornar o Carnaval de Torres uma arte.

Nesta arte distinguiram-se, nos anos 30, artistas como Amílcar Guerreiro ou Celestino Muñoz

Talvez o mais famoso de todos, Amílcar Guerreiro, natural de Torres Vedras, onde nasceu em 1907, falecido em Lisboa em 1982 , artista plástico, foi o autor de vários carros, decorações e do logotipo do carnaval de Torres. Profissional ligado à fotografia, trabalhou no Brasil durante a segunda guerra, tendo aí colaborado com escolas de samba.

Mestre Heitor, Luís Faria e José Afonso Torres foram os artistas que marcaram os anos 60.

Destes, destacou-se o pintor Luís Faria. Nascido em Lisboa em 1899 e falecido em Torres Vedras em 1966, era o artista responsável pelo restauro de igrejas e capelas do concelho de Torres Vedras e esteve ligado ao Carnaval torriense desde os anos 30, sendo o responsável pela criação de alguns dos mais fabulosos carros do carnaval de Torres.


Nas décadas mais recente têm-se destacado artistas como José Pedro Sobreiro, António Trindade, Travanca da Costa, Efrem Faria ou os irmãos Sarzedas.

O ENTERRO DO ENTRUDO

A "Quarta-feira de Cinzas" marca o final do Entrudo e o início da Quaresma e a esta ocasião estão ligadas várias cerimónias, entre elas a do o “enterro do Entrudo

Ainda no século XIX este dia era ocupado, em Torres Vedras, com a Procissão das Cinzas, organizada pela Ordem Terceira de S. Francisco que a isso se obrigava por compromisso declarado no "breve" dessa instituição , datado de 21 de Novembro de 1676.

Com 9 andores, muitos "irmãos", uma filarmónica (durante anos a "Phylarmonica Torreense"), gente da vila e arredores, e uma guarda de honra com forças militares destacada para Torres Vedras, todos os anos, por essa ocasião, a procissão percorria o Largo de S.Tiago, a "rua da olaria", a do "Espírito Santo", a praça municipal, a rua de S.Pedro , a "travessa dos canos", as ruas "de trás do Açougue" e dos "celeiros”.

Bem diferente é a "procissão" que actualmente tem lugar em Quarta-Feira de cinzas.

Com origem nos tradicionais "enterro do entrudo" e "serração" da velha” muito referenciados na região Oeste, o enterro do carnaval já por cá se fazia pelo menos desde 1908.

Este costume realizava-se regularmente nos anos 30, quando se fazia um desfile pelas ruas da então vila, à luz de archotes, terminando no Largo de S. Pedro com a leitura do testamento do "defunto", realizando-se depois o "auto de fé" onde se queimava um boneco que o representava.

Hoje o enterro do carnaval, mantendo as mesmas características, conta com um maior aparato pirotécnico, realizando-se na Várzea, acompanhado da respectiva "viúva" e da leitura do testamento, com referências jocosas à vida social e política do concelho.

RECORDAÇÕES DO CARNAVAL


Isto começou mal.
A chuva e o frio levaram à anulação de um dos momentos altos do nosso Carnaval, o DESFILE DAS ESCOLAS:
Para atenuar o cizentismo do dia podem consultar Texto e Fotos sobre outros Carnavais de Torres AQUI (Carnaval de 2009), e AQUI (outros "carnavais") e AQUI.