terça-feira, 8 de setembro de 2009

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 1ª parte

Em 1836 acontecia a primeira grande crise do liberalismo português,pouco mais de 2 ano após a derrota dos absolutistas.

Ficou esse período conhecido por "Setembrismo", por ter acontecido de 9 para 10 de Setembro de 1836 uma revolução que, de modo dramático, revelou as profundas divisões político-sociais no seio do liberalismo.

A Torres Vedras também chegaram os ecos dessa conjuntura.
Breve descrição da conjuntura
A 9 de Setembro de 1836 deu-se uma das mais importantes revoluções populares do nosso país, conhecida por "Revolução de Setembro".
Pouco mais de dois anos após a vitória dos liberais sobre os miguelistas, aquela revolta culminou o acentuar de tensões no seio dos liberais vitoriosos, que, "grosso modo", se dividiam entre os defensores da restauração da Constituição de 1822, mais "progressista" e restritiva do poder real, e aqueles outros que defendiam a manutenção da Carta Constitucional de 1826, reposta em vigor após a vitória liberal de 1834, mais "conservadora", defendendo um poder régio forte.
As tensões entre essas duas facções liberais, que ficaram conhecidas por "setembristas" e "cartistas", acentuaram-se em 1836, com a formação do governo presidido pelo duque da Terceira, em Abril, acusado pelos opositores de corrupto, situação política agudizada pela grave crise económica e social que então se vivia.
Vitoriosa em 10 de Setembro, a revolução teve como consequências imediatas a abolição da Carta Constitucional de 1826, substituída pela Constituição de 1822 e a demissão do governo do duque da Terceira dando lugar a um outro presidido pelo visconde Sá da Bandeira, mas dominado por Passos Manuel.
Foi a contra gosto que a rainha, D. Maria II, aceitou tais alterações e à sua volta reuniram-se todos aqueles que, desde logo, começaram a conspirar contra a revolução de Setembro. A 3 de Novembro a rainha ensaiou um golpe de estado, a "Belenzada", proclamando a restauração da "Carta". Essa intentona acabaria por falhar graças à rápida resistência popular e da Guarda Nacional. Sá da Bandeira e Passos Manuel, por sua vez, comprometeram-se com a rainha na elaboração de uma nova Constituição, conciliando a Constituição de 1822 com a Carta Constitucional, marcando assim a afirmação da tendência moderada e menos popular do "setembrismo". Mais grave foi a chamada "Revolta dos Marechais" (Duque da Terceira e Saldanha),que lançou algumas regiões do país em autêntica guerra civil, de Julho a Setembro de 1837.
Preso nas suas próprias contradições o "Setembrismo" terminaria com a restauração da Carta em Janeiro de 1842. (Quem quiser conhecer um pouco melhor este período histórico, recomenda-se a leitura da obra de Victor de Sá, A Revolução de Setembro, (3º edição 1978,Livros Horizonte).
Reflexos da crise em Torres Vedras.
Temos por objectivo neste artigo registar o modo como este acontecimento se reflectiu em Torres Vedras entre o poder político local, tendo por base as informações contidas nos livros de acordãos, durante o período do chamado "Setembrismo", que durou até Janeiro de 1842.
A Câmara de Torres Vedras tomou posição sobre os acontecimentos na sua reunião de 14 de Setembro de 1836: "A camara, em execução do officio que lhe foi transmetido pello Governador Civil por via do Administrador deste concelho sobre os acontecimentos que tiverão lugar na cidade de Lisboa em o dia 10 do corrente em o qual S.Magestade a Rainha adoptou a Constituição promulgada em o anno de 1822 em consequencia dos Sentimentos manifestados pellos habitantes da capital. Deliberou que se passasem editaes com a copia do mesmo officio fazendo saber aos povos deste concelho o refferido acontecimento para seu regozijo e satisfação reservando se a camara para todas as mais solemnidades, esperar as ulteriores determinaçoes que do governo de Sua Magestade a Rainha se devem receber e determinou que hoje se fizessem luminarias na casa da camara para signal do regosijo que lhe cauzou tão agradavel noticia" ( Livro 27 de Acordãos da Câmara de Torres Vedras, 14 de Setembro de 1836, folha 87 verso, Arquivo Municipal de Torres Vedras (A.M.T.V.).
A posição da Câmara de T. Vedras foi bastante cautelosa, mantendo uma certa distância perante os acontecimentos, frisando que a Constituição de 1822 tinha sido adoptada por pressão dos habitantes de Lisboa. Note-se ainda a respeitosa reverência perante a rainha.
A 20 de Setembro tem lugar uma vereação extraordinária para aclamação da Constituição, cuja acta se encontra trancada por deliberação tomada em 20 de Agosto de 1837, quando a Câmara em funções adere à revolta dos Marechais e proclama a restauração da Carta.
A 26 de Outubro de 1836 a vereação volta a jurar a Constituição de 1822, ao que parece por pressão da Guarda Nacional de Torres Vedras:
"(...) na mesma vereação sendo presentes os commandantes das companhias, secçoens avulsas e Esquadras da Guarda Nacional deste concelho o Presidente da Camara em cumprimento do officio do Ex.mo Ademnistrador deste Distrito (...) manda lavrar o seguinte juramento: (...) de guardarem e fazer guardar a Constituição Política da Monarquia de (...) 1822 (...)"(Livro 27 de Acordãos da Câmara de Torres Vedras ,26 de Outubro de 1836. folha 90 verso).

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 2ª parte

A Revolução de Setembro de 1836 é geralmente apontada como uma afirmação da burguesia industrial e urbana, aliada à classe média dos comerciantes e apoiada pelas classes baixas, sobre os grandes proprietários rurais e a alta burguesia, defensores da Carta Constitucional de 1826.

Contudo, em Torres Vedras, não se revela muito evidente o domínio do primeiro grupo social sobre o segundo, tendo em conta a constituição social dos elencos camarários em exercício durante o chamado "setembrismo".
Entre a aclamação da Constituição de 1822 em Torres Vedras, a 20 de Setembro de 1836, e a proclamação da Carta pela Câmara local, a 13 de Fevereiro de 1842, existiram12 elencos camarários, por onde passaram 43 cidadãos, dos quais 24 eram "proprietários", maioritariamente rurais. Além destes, registam-se ainda 6 "fazendeiros" e 2 "lavradores". Entre os 11 restantes distribuem-se pelas seguintes profissões: 2 "mercieiros", 2 "advogados", 1 "médico", 1 "tabelião", 1 "professor", 1 "boticário", 1"logista e proprietário", 1 "cirurgião" e 1 "mercador".
Alguns desses cidadãos participaram em vários elencos camarários, ao longo de vários anos, outros apenas num, ou nem sequer tomaram posse.
As Câmaras eram formadas por 7 membros, nem sempre os mesmos ao longo do mandato, pois frequentemente pediam "escusa" do seu cargo.
Elaborámos um quadro, que por razões técnicas não conseguimos inserir no blog, mas que está disponível numa edição do jornal “Frente Oeste” de Setembro de 1996, onde podemos observar o peso dos vários grupos profissionais em cada elenco camarário.
Pela observação do quadro comprova-se o predominio dos "proprietários", que podemos considerar "rurais", tendo em conta o cruzamento de informações biográficas dos mesmos, contidas em diversos documentos do Arquivo Municipal de Torres Vedras, nomeadamente censos eleitorais, documentos fiscais e livros de acordãos. Aqueles, conjuntamente com os "lavradores e "fazendeiros", mantêm a maioria absoluta da burguesia rural no seio do elenco municipal .
É curioso observar também que a Câmara "cartista", em funções antes da "revolução de Setembro", se manteve em funções até 13 de Março de 1837, numa altura em que a ala conservadora do Setembrismo já dominava a situação, assim como a ultima Câmara "setembrista" se manteve em funções até quase um ano após a restauração da Carta.
Mais curioso será notar que nesses dois elencos camarários encontramos dois vereadores comuns, enquanto os presidentes dessas duas Câmaras tinham afinidades familiares.
O ano de 1837 foi aquele que se revelou mais conturbado, tendo conhecido cinco elencos camarários ao longo de 12 meses, dois dos quais nomeados interinamente e um deles dissolvido por irregularidades eleitorais.

 
Os Rostos do Poder
Ao longo do "Setembrismo" presidiram à Câmara de Torres Vedras as seguintes personalidades:
-De 20 de Setembro de 1836 a 13 de Março de 1837, em funções desde 15 de Janeiro de 1836: António Pedro Ferreira Campelo, Lavrador (alguns anos depois já era proprietário).
-De 13 de Março de 1837 a 19 de Setembro de 1837: Estevão José da Silva, Proprietário.
-De 19 de Setembro de 1837 a 15 de Outubro do mesmo ano: António Agostinho Ferreira de Carvalho, Proprietário (Presidente interino).
-De 15 de Outubro a 18 de Novembro de 1837: Estevão José da Silva.
-De 18 de Novembro de 1837 a 1 de Janeiro de 1838: António Agostinho Ferreira de Carvalho (Presidente interino).
-De 1 a 27 de Janeiro de 1838: Estevão José da Silva. Abandonou o cargo por ter sido nomeado Administrados Substituto do Concelho. Em 1 de Janeiro de 1839 tornou-se Administrador do Concelho de Torres Vedras, posição que ocuparia pelo menos até Fevereiro de 1842, quando da restauração da Carta. Este cargo era de nomeação governamental e politicamente mais importante que o de presidente da Câmara.
-De 27 de Janeiro de 1838 a 1 de Janeiro de 1839: Dr.José Eduardo Cezar , Proprietário da Quinta da Marinha, em substituição do anterior nomeado para novo cargo.
-De 1 de Janeiro a 18 de Abril de 1839: João Victorino Pereira de Castro, Cirurgião.
-De 19 de Abril a 2 de Maio de 1839: Dr.José Eduardo Cezar (nomeado interinamente).
-De 2 de Maio de 1939 a 1 de Janeiro de 1840: António Pedro Ferreira Campelo,
-De 1 de Janeiro de 1840 a 2 de Setembro de 1841: João Tavares de Macedo, Proprietário.
-De 2 de Setembro de 1840 a 2 de Janeiro de 1843: Ignacio Ferreira Campelo, Advogado. Foi esta Câmara que proclamou em Torres Vedras a restauração da Carta em 13 de Fevereiro de 1842.
Como se observa, também na presidência do município predominam os proprietários.
Existem contudo outras personalidades que, ocupando ou não tais cargos, nunca deixaram de exercer a sua influência ao longos dos mais de 5 anos e 4 meses em que o Setembrismo vigorou neste concelho, participando em vários dos elencos camarários.
Foram eles:
-José Miguel Franco, Proprietário da Quinta do Infesto, vereador em 7 Câmaras, num total de 4 anos, 2 meses e 4 dias de serviço;
-Boaventura dos Santos Franco de Carvalho, Proprietário da vila, exercendo cargos municipais em 6 Câmaras, num total de 3 anos e 6 meses de serviço;
-Amancio António Xavier de Buitrago, Proprietário do Turcifal, servindo 5 vereações, num total de 3 anos e 9 dias;
-João Felix Gomes de Azevedo, Lavrador da vila, ao serviço de 4 elencos camarários, num total de 2 anos, 4 meses e 24 dias.
Tendo em conta todo o conjunto de dados atrás referidos, bem como o facto de encontrarmos entre as várias vereações deste período os então proprietários de 6 das mais importantes quintas do concelho, (Calvel, Macheia, Marinha, Infesto, Juncal e Póvoa), reforça-se a ideia de que, ao contrário do que aconteceu em Lisboa e noutros pontos do país, o "Setembrismo", em Torres Vedras, pouco terá beliscado a influência política e o poder da grande e média burguesia rural local.

TORRES VEDRAS E A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836 - 3ª parte

Uma das primeiras medidas legais dos vencedores da "Revolução de Setembro" foi a publicação de uma nova legislação eleitoral, datada de 8 de Outubro.

A lei eleitoral de 8 de 0utubro de 1836 destinou-se a preparar as eleições de Dezembro desse ano para eleger os representantes às Cortes Constituintes.

Com base nos cadernos eleitorais da maioria das freguesias de Torres Vedras, elaborados com base nessa lei, procurámos obter uma aproximação à realidade social e profissional deste concelho em 1836.


A legislação "cartista", anteriormente em vigor, restringia o eleitorado a "uma minoria de nível económico elevado", preconizando a eleição indirecta e mantendo um sistema de divisão de círculos eleitorais que favorecia "o caciquismo, o suborno e a preponderância dos grandes proprietários rurais". Pelo contrário, a nova legislação setembrista suprimiu o voto censitário, tornando-o práticamente universal, sendo extensivel a todos os homens maiores de 25 anos ou, sendo casados, oficiais militares, bacharéis ou clérigos, maiores de 20 anos.. Além disso, a eleição passou a ser directa, e "as novas divisões eleitorais introduzidas pelo setembrismo" tenderam"a efectuar uma descentralização que" favoreceu "uma maior independência dos eleitores e" facilitou "a participação no acto eleitoral"( in A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO DE 1836-Geografia eleitoral, de Sacuntala de Miranda, ed. Livros Horizonte, 1982, pp.18 e 19)..
A lei eleitoral de 8 de 0utubro de 1836 destinou-se a preparar as eleições de Dezembro desse ano para eleger os representantes às Cortes Constituintes. O voto censitário (voto censitário: a condição de eleitor ou eleito depende do rendimento de cada um) voltou a ser reposto pela lei de 9 de Abril de 1838, mantendo-se em vigôr até ao final da monarquia(Para se conhecer a evolução do sistema eleitoral português, recomendamos a leitura da síntese, sobre o assunto, escrita por António Lopes Cardoso, intitulada OS SISTEMAS ELEITORAIS, edições Salamandra, 1993).
Embora o Arquivo Municipal de Torres Vedras (A.M.T.V.) não nos revele o resultado dessas eleições neste concelho, em contra partida existem nesse arquivo os cadernos eleitorais de quase todas as freguesias, elaborados tendo por base a lei de 8 de Outubro.
Com base neles podemos obter uma visão muito próxima da realidade sobre o peso dos vários grupos sociais e profissionais deste concelho, tendo em conta a excepcional abrangência eleitoral dessa lei, quase única no século XIX.
Contudo faltam os cadernos eleitorais de cinco importantes freguesias, Turcifal , Freiria, S.Pedro da vila, Dois Portos e Carmões. Estas duas útimas não surgem porque pertenciam então ao concelho da Ribaldeira. Pelo contrário existem os cadernos eleitorais da freguesia de Fanga da Fé (Encarnação) e Sobral da Abelheira então pertencentes ao concelho de Torres Vedras e hoje integradas no de Mafra. Não se encontra qualquer registo sobre os eleitores da freguesia da Azueira, também actualmente pertencente ao concelho de Mafra, mas que integrava então a administração de Torres Vedras.

Uma aproximação à sociedade Torriense em 1836.
Elaborámos, com base nesses cadernos eleitorais, um Quadro, o qual não podemos incluir neste blog por razões técnicas, mas que, tal como o anterior, pode ser consultado nas páginas do “Frente Oeste” de Setembro/Outubro de 1996. Arriscamos, mesmo assim, fazer a leitura dos seus dados. Esse quadro inclui o total de fogos, o número de eleitores registados, a relação percentual entre eleitores e "fogos" e a sua distribuição percentual pelos três sectores de actividade em todas as freguesias do concelho.
O número de fogos baseia-se nos dados publicados em anexo ao decreto eleitoral de 8 de Outubro de 1836, que tinham por base o recenseamento de 1828. Um "fogo" corresponde a uma habitação familiar. Os restantes dados baseiam-se nos já mencionados cadernos eleitorais do A.M.T.V. Quanto aos totais concelhios, entre (...) registamos a soma de todas as freguesias, enquanto os restantes totais se referem apenas ao total das freguesias para as quais obtivemos dados eleitorais.
Tendo em conta que, a cada "fogo" correspondia uma família e que as mulheres e menores não tinham direitos eleitorais, a relação percentual entre "fogos" e eleitores mostra-nos que, tomando aquele critério como válido, estavam representadas eleitoralmente cerca de 2/3 das famílias do concelho, chegando esse índice a ultrapassar os 80% em A-Dos-Cunhados, Sobral da Abelheira e Stª Maria.
Pelo contrário, em freguesias como o Maxial, S.Pedro da Cadeira, Ponte do Rol e mesmo Ventosa, cerca de metade das famílias não estavam eleitoralmente representadas.
Mesmo assim podemos considerar que, para a época, o corpo eleitoral era significativamente representativo.
Observando agora os dados referentes aos sectores de actividade, não é de admirar o peso então representado pelo sector primário, com um peso médio de 76,6%, ultrapassando os 80% em 6 freguesias. Esta percentagem devia ser ainda mais significativa se fossem incluídos os menores de 25 anos não casados, pois o trabalho rural começava em idades muito mais baixas.
Também não espanta que os eleitores do sector primário, residentes na vila, repartidos pelas freguesias de Stª Maria, S.Miguel e Santiago, não cheguem a representar 50%. A falta de dados sobre a freguesia de S.Pedro distorce de algum modo este resultado, pois era nesta que se concentrava a maior parte da população urbana, e por isso esta percentagem devia ser ainda menor. O resultado da freguesia de S.Tiago reflecte o facto de ser nesta que se concentra a maior parte da população da vila entre os eleitores conhecidos. O índice abaixo do normal registado em Ponte de Rol é pouco representativo, dado o número reduzido de eleitores que serve de amostra. Já em relação à freguesia de Runa , situação idêntica parece dever-se ao peso do sector terciário, nomeadamente aos militares do então Asilo Militar.
A maior parte, mais de metade, dos eleitores do sector primário do concelho, era constituído por trabalhadores assalariados, enquanto 1/3 era de "fazendeiros" e "lavradores" e só menos de 2% do total desse sector por "proprietários".
Quanto ao sector secundário era formado, maioritariamente, por actividades artesanais para consumo local, não se registando qualquer concentração significativa que revelasse qualquer industria de tipo capitalista. O grosso deste sector era representado pelos "sapateiros", actividade registada em todas as freguesias e que representava mais de 1/4 deste sector. Seguia-se a actividade de "carpinteiro", representando cerca de 1/6 do sector, seguida muito de perto pelos "moleiros" .
Quanto ao sector terciário revela-se muito pouco representativo no total de eleitores, concentrando-se quase 1/3 na vila. A profissão de "Almocreve" é a a mais referenciada neste sector, representando cerca de 20% , profissão que se acha disseminada por 10 freguesias e por várias localidades. A maioria concentrava-se nas freguesias da Ventosa e de A-dos-Cunhados, respectivamente nos lugares de Fernandinho e Póvoa, em número idêntico aos existentes na vila. Estes "almocreves" tinham uma importante função comercial, fornecendo as populações com produtos essenciais nos intervalos dos mercados. A sua concentração em zonas rurais leva-nos a colocar a hipótese de terem um papel importante no comércio da produção agrícola no concelho e arredores.
Sem pretendermos esgotar o tema, até por razões de espaço, e deixando ainda muita informação por tratar, pretendemos apenas traçar algumas tendências sobre o peso dos vários grupos sociais e profissionais no concelho de Torres Vedras em 1836.

Nota Final
Por razões técnicas, não conseguimos inserir notas de rodapé com as referências bibliográficas e de fontes, pelo que as referimos junto do texto. Pelo facto pedimos desculpa aos nossos leitores.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ESCLARECIMENTO SOBRE O TEXTO "TORRES VEDRAS DURANTE A 2ª GUERRA"

O texto por nós publicado sob aquele título tem, só por si, uma longa história.
Foi escrito em 1995, a pedido de Andrade Santos para ser publicado numa edição da “Torres Cultural”, comemorando os 50 anos do final da guerra.
Deparando-me com uma grande falta de fontes locais tradicionais para elaborar esse trabalho, recorri à ajuda de testemunhas orais, de pessoas que eu conhecia e tinham vivido esse período: o Sr. Pedro Fernandes, o sr. Adão de Carvalho, ambos entretanto já falecidos, e à minha mãe, Maria Helena Costa Aspra de Matos, que, durante a infância, me tinha contado muitas histórias desses tempos conturbados.
Entretanto alarguei o meu estudo para a recolha de dados sócio-económicos sobre a região.
Uma versão resumida do resultado dessa investigação, acabou por ser a publicada no nº 7 da “Torres Cultural”, edição de 1996.
Como tinha recolhido e escrito muito material que não pôde ser publicada por razões de espaço, acalentei a ideia de publicar um pequeno livro sobre o assunto.
Esse objectivo ficou-se pela elaboração de uma maqueta, cujo exemplar é o único documento original que possuo desse texto.
Tal texto tinha sido escrito no meu primeiro computador, um Macintosh, copiado posteriormente para uma disquete quando me desfiz desse computador para comprar um mais recente, entretanto também já desaparecido.
Resumindo e concluindo, desse texto, em formato digital, apenas consegui salvar para o meu actual computador uma parte. Tem-me faltado tempo para passar o que falta para o computador, a partir daquela maqueta (cujo exemplar só hoje descobri).
Entretanto comemorava-se, no passado dia 1 de Setembro, o 60º aniversário do início da Segunda Guerra e lembrei-me que talvez pudesse publicar esse texto no blog Vedrografias, mesmo com o texto incompleto, sem conseguir reproduzir os gráficos (já agora, alguém me ensina como é que posso reproduzir gráficos para um blog?), e sem a bibliografia incluída.
Só tinha duas opções, ou deixava passar a efeméride, à espera de aperfeiçoar o texto (cuja publicação ficava mais uma vez adiada) ou publicava-o mesmo assim, com o objectivo de divulgar o que era essencial.
Encaro este blog como um espaço de divulgação e ensaio e não o confundo com uma tese de Mestrado ou uma edição em livro.
Não me pareceu que o texto perdesse qualidade ou importância sem estar tecnicamente perfeito.
A própria leitura do texto que tinha digitalizado, era esclarecedor sobre as fontes utilizadas. Implícita ou explicitamente estavam lá as indicações bibliográficas fundamentais.
Por isso não percebo a boca anónima que me foi enviada.
Aliás, tenho pouca consideração pelo anonimato, e esta será a última vez que respondo a um leitor anónimo, mais porque penso que os meus leitores têm direito a um esclarecimento do que por qualquer consideração pelo anonimato.
Sendo assim, e de modo resumido, passo a esmiuçar as fontes utilizadas, sem preocupação em seguir os cânones, como mera indicação (que, repito, estão implícitas ou explícitas no texto, um texto inacabado e de mera divulgação):
Fontes Orais (as principais para a elaboração deste texto):
- Adão de Carvalho;
-Maria Helena Costa Aspra de Matos;
- Pedro Fernandes.
Fontes Manuscritas:
- Livros de Acordãos da Câmara Municipal de Torres Vedras, nº 47 e nº 48,Arquivo Municipal de Torres Vedras (nomeadamente os acórdãos de 10 de Maio de 1945, ff. 194V e 195, e de 16 de Agosto de 1945, f. 14);
Fontes Impressas:
- Anuários Demográficos de 1938 a 1947, ed. INE.
- “Notícias de Torres”, de 1942 e 1943.
- OLIVEIRA, Rogério V. de “O custo de produção do vinho no concelho de Torres Vedras”, in Anais da Junta Nacional do Vinho, vol. III, 1951, pp. 185 a 289.
- Recenseamentos Gerais da População, 1930, 1940 e 1950, ed. INE (actualmente estão disponíveis na internet no site do INE – Instituto Nacional de Estatísticas).
- Regulamento Interno da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras, ed. Sociedade Progresso Industrial de Torres Vedras, Outubro de 1944.
- “A Voz do Concelho”, 1942.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Torres Vedras Durante a IIª Guerra

Passam hoje 70 anos sobre o início da Segunda Guerra Mundial. Portugal, país neutral, não deixou de sentir os efeitos dessa tragédia mundial.
E em Torres Vedras? Como se vivia então? De que modo chegavam os ecos do conflito? Como é que os seus habitantes sentiam tão grave acontecimento?
Questões que, pese embora a falta de documentos escritos, nos propomos tentar esclarecer, mesmo que modesta e parcialmente. À falta de documentos tradicionais, recorremos também à recolha de testemunhos orais, mercê principalmente, da colaboração e boa vontade de Pedro Fernandes, de Adão de Carvalho, ambos infelizmente já falecidos, e de Maria Helena Matos, testemunhos presenciais desse conturbado período da história do século XX.
Por razões técnicas não podemos reproduzir aqui alguns gráficos essências, pelo que os comentaremos de forma mais clara que seja possível.
A População e a Sociedade de Torres Vedras
Em 1945 a população do concelho de Torres Vedras rondaria entre os 52 143 habitantes (pelo censo de 1940) e os 56 514 (pelo censo de 1950). Destes, só pouco menos de 10% não eram naturais do concelho (assim acontecia tanto em 1940 como em 1950).
Tendo sido o censo de 1940, o segundo onde se publicaram os dados sobre a distribuição da população por lugares, (o primeiro foi o de 1911, e tal só voltaria a acontecer em 1960), sabe-se que viviam nessa altura 4890 pessoas no centro urbano de Torres Vedras, correspondendo a 9,3% da população do concelho.
Analisando a evolução demográfica conjuntural, no período de 10 anos, entre 1938, o ano anterior ao início da guerra, e 1947,vemos que a tendência geral foi para a descida lenta do número de nascimentos, quebra fortemente acentuada em 1941, talvez por acção psicológica da guerra, no mesmo ano em que se registou um número anormal de casamentos, muito acima da média normal, quer em anos anteriores, quer em datas posteriores. Este caso deverá estar intimamente ligado ao agravamento do conflito, observado esse ano, e à então eventual possibilidade do envolvimento militar de Portugal, visto que o casamento permitia, no mínimo, adiar a incorporação militar.
Quanto ao número de óbitos não existe nenhum dado significativo a registar nos anos da guerra, a não ser a sua lenta e normal descida estabilizada.
Segundo o censo de 1940, a população masculina activa era de 17086, dos quais 13250 estavam ocupados na agricultura, isto é 77,5% dos activos, percentagem só ultrapassada por Arruda dos Vinhos no Distrito de Lisboa.
Infelizmente o censo de 1940 não nos esclarece sobre o tipo de ocupação da restante população activa. O censo de 1930 é o mais próximo a revelar esse tipo de dados. Neste, para a distribuição profissional, onde também se contavam as mulheres activas, a percentagem de activos na agricultura é igualmente elevado, ocupando 75,8% . O grupo profissional que se seguia ocupava apenas 3,5% dos activos, e surgia intitulada como “industrias relativas à construção civil”. Seguiam-se , citando apenas as mais significativas:
- “criados e criadas” com 2,3% dos activos
- “industria de vestuário e calçado” com 2,1% .
- “industrias relativas ao fabrico de géneros alimentares” com 1,5%.
- “saúde publica” com 1,2%.
- “industria metalurgica” com 1,1%.
A Vida Económica
De entre todos os produtos agrícolas produzidos na região, o vinho era então, não só o que ocupava a maior parte da área cultivada, como aquele que mais produzia e maiores rendimentos dava.
Rogério Oliveira considerava que “cerca de 95% da população agrícola está ligada à vitivinicultura (...).Este facto ,aliado à circunstância de se tratar de uma cultura que absorve mão de obra durante quase todo o ano ,diz bem da enorme importância social ,a acrecentar-se ao domínio económico ,da vinha e do vinho na região.”.(ob.cit. ,pág.205).
De salientar também o facto de o trigo, apesar de ocupar a segunda maior área de cultivo ,ser ultrapassado, em termos de produtividade, pela produção de batata.
De qualquer modo este concelho manteve uma produtividade significativa, do ponto de vista agrícola durante os anos de guerra, facto confirmado pelas testemunhas coêvas que consultámos e que nos informaram não ter esta terra sofrido grandes carências alimentares, nomeadamente quanto ao fornecimento de pão, graças, em grande parte, ao esforço da Moagem Clemente, que chegava a laborar para além do seu horário para poder responder à procura da população. Segundo esses mesmos testemunhos, o concelho de Torres Vedras chegava mesmo a fornecer produtos agrícolas e pecuários para Lisboa e concelhos vizinhos.
Contudo, com o prolongamento da guerra, a situação agravou-se, mesmo neste concelho, como se parece deduzir de uma notícia publicada nas páginas do “Notícias de Torres”, em 1 de Agosto de 1944, dando conta duma resolução da Intendência Geral dos Abastecimentos, enviada à “Comissão Reguladora do Comércio Local”,tendo por objectivo o racionamento do pão, mandando realizar, por freguesia, uma relação de padarias, obrigando à distribuição equitativa por cliente “distinguindo o trabalhador rural a quem se deve distribuir 500 gramas de pão por dia”, fornecendo aos hotéis e pensões apenas pão de 1ª e onde só se podia servir 46 gramas de pão por pessoa “ao almoço e jantar e 93 gramas ao pequeno-almoço”.
O racionamento na venda de determinados produtos é uma das recordações mais fortes de quem viveu essa época. Regularmente, cada família tinha de levantar as senhas de racionamento necessárias, distribuídas no edifício onde funcionou a Biblioteca Municipal, pertencente à Misericórdia, situado no cimo da Rua Paiva de Andrada.
A alternativa para obter determinados produtos era o recurso à candonga. Tal situação mereceria mesmo a reprovação pública nas páginas do “Notícias de Torres”: “Embora se venha acentuando a falta de géneros alimentícios, inegável consequência da angustiosa situação internacional, este concelho não é dos que mais tem sofrido.
“A Comissão Reguladora do Comércio Local, sob a presidência do ilustre presidente da Câmara Municipal, sr. Eng.D. Jose Telles da Silva , tem sabido vencer sérias dificuldades.
“É de lastimar que nem todos compreendam que não é fazendo comércio ilícito que se adquire um bem estar solido.
“O inimigo da civilização cristã, sem preconceitos e sem amor ao seu semelhante reage na treva ,servindo-se da intriga para fazer valer a sua criminosa acção especuladora.
“Todos os que anceiam a paz, a verdadeira alegria na vida,devem participar no sacrifício imposto pela anormal situação.
“Os que assim não procedem são ignobeis fragmentos humanos, torna-se ,por isso indispensavel, deter enérgicamente a sua barbara ambição”.
Tais reparos não evitaram o enriquecimento imoral de muita gente, tendo-se mesmo construído um bairro a sul da vila, na continuação poente da rua Carlos França, que ficou popularmente conhecido por “Bairro da Candonga”, cujas habitações teriam sido feitas à custa dos lucros dessa actividade ilegal.
Houve mesmo um episódio relacionado com essa situação, ainda hoje recordado por muitos torrienses com mais de 75 anos: Certo dia, talvez no ano de 1942, um cliente deslocou-se ao estabelecimento “Fonseca & Lisboa”, na rua Dias Neiva, para levantar os seus artigos do racionamento. Os armazéns daquele estabelecimento encontravam-se em frente e alguém reparou que um dos empregados aí se deslocou e retirou barras de sabão para entregar ao cliente, mas que não vinham no seu racionamento. Então os ânimos exaltaram-se, acusando-se os armazenistas de esconderem o sabão ilegalmente, constatando-se que este era vendido por alto preço a quem o pudesse pagar, quando se declarava aos outros clientes a inexistência daquele bem. Houve quem corresse para a Igreja de S. Pedro e tocasse os sinos a rebate, registando-se o assalto aos armazéns ,principalmente por parte dos moradores da Rua da Corredoura, os mais pobres e, por isso, mais prejudicados com a situação. Várias pessoas foram presas, 2 mulheres e 4 homens.
O sabão era mesmo um dos produtos cuja falta mais se fazia sentir. Havia até quem o fabricasse em casa artesanalmente e o vendesse. Comprava-se sebo no talho ,misturava-se com potássio e outros produtos químicos, adquiridos na farmácia , secando-se ao sol em caixas de madeira .
As dificuldades provocadas pela guerra podem ser também exemplarmente observadas através da evolução dos preços tabelados, anualmente , pela câmara municipal, em Agosto ou Setembro de cada ano. Até 1942 os preços permanecem estáveis, com prejuizo para os produtores , situação que ,contudo, se torna insustentável a partir de 1942 ,ano em que ,talvez para responder ao mercado negro, e uma maior carência dos produtos, os preços subiram em flecha.
Mas nem todos os efeitos foram negativos. É conhecido o caso da “Casa Hipólito” que ficou a dever em grande parte a sua expansão à guerra, nomeadamente nas relações privilegiadas que, pelo menos desde 1938, mantinha com a Alemanha, fabricando invólucros de granada, pelo que o nome dessa empresa chegou a constar de uma “lista negra” elaborada pelos aliados, com os nomes de empresas que haviam colaborado com os alemães, divulgada aos microfones da BBC, e envolvendo outras empresas da região, entre elas uma serralharia de Runa. Só a diplomacia de um Vasco Parreira, bem relacionado com o delegado comercial da embaixada Norte-Americana, conseguiu livrar a empresa de sofrer as consequências dessa situação.
Alguns dados sobre a vida cultural
No censo de 1940 69,85% dos habitantes do concelho de Torres Vedras eram analfabetos, percentagem que se reduziu para 57,13% no censo de 1950. O ensino conheceu então algum incremento com a fundação, em finais de 1944, da Escola Comercial Augusto Cabral.
Da população recenseada em 1940, 94,01% declarava-se católica, percentagem que, curiosamente, aumentaria para 97,24% dos recenseados em 1950.
A imprensa era então, conjuntamente com a rádio, um dos principais meios de difusão cultural. Contudo, apesar da tradição jornalística de Torres Vedras, os anos 30 e 40 foram marcados pela redução drástica de edições.
Os piores anos para a imprensa local foram os de 1937,1938,1939 e 1940. A saída definitiva deste período negro na história do jornalismo torriense só teria lugar em 1948 com a fundação do jornal “Badaladas”. A censura, o domínio quase absoluto do jornalismo por propagandistas do regime e as próprias dificuldades económicas inerentes ao período de guerra, terão contribuído para essa fase decadente. Daí também a dificuldade em obter informações documentais escritas sobre o período de guerra.
Muitas das notícias da guerra chegavam a Torres Vedras de comboio, vendendo-se aos balcões da estação os principais títulos da imprensa nacional de então.
Mas outro meio, não menos importante e de certeza mais espectacular, era o cinema , exibindo o Teatro Cine Ferreira da Silva as “actualidades” da guerra.
A rádio era ainda o meio de informação mais rápido, e dela chegavam as notícias mais frescas. Alguns arriscavam mesmo a audição proibida e clandestina da B.B.C., onde se destacava a locução irreverente de um Fernando Pessa, emissões frequentemente sujeitas a interferências, atribuídas em Torres Vedras aos germanófilos locais.
Os cafés eram o principal ponto de encontro dos homens da vila, já que então o lugar da mulher era em casa, e a sua presença, a não ser que acompanhada, era muito mal vista pela sociedade de então. Aí se discutiam as últimas da guerra, muias vezes acompanhando-se os movimentos militares com mapas sobre as mesas.
Periodicamente tinham lugar os bailes, as sessões teatrais ou musicais nas várias colectividades da vila, pelas quais os torrienses se distribuíam segundo as classes sociais: as classes “altas” frequentavam o seu “Casino”, as classes “médias” dividiam-se pelo “Clube Artístico e Comercial” e pela “Tuna Comercial”, e o operariado, em crescimento, mercê da prosperidade industrial, que a guerra terá acelerado, divertia-se na “Sociedade Recreativa Operária”.
Em finais de 1944 era fundada uma nova colectividade, “A Banda Recreativa Torreense”, também conhecida por “Banda Nova”.
Propaganda e Política
Torres Vedras não estava alheada da guerra propagandística desencadeada em Portugal pelos dois blocos em confronto.
Em Torres Vedras a propaganda das forças do “Eixo” era distribuída no estabelecimento situado no “chalé” onde hoje está o novo e remodelado Café Império. Alguns torrienses estavam inscritos no “Clube Alemão”, deslocando-se regularmente a Lisboa, em excursões organizadas à sede desse clube, para assistirem a sessões cinematográficas de propaganda alemã. Ao que parece, esta associação terá tido alguma aceitação e actividade até 1942, ano em que se inicia a viragem na guerra, entrando desde aí em declínio.
Quase em frente ao estabelecimento que centralizava a propaganda alemã, situava-se a Papelaria e Livraria Progresso, de Victor Cesário da Fonseca, responsável pela distribuição da propaganda aliada, à volta da qual se reunia a oposição republicana ao “Estado Novo”.
Sinais da guerra chegavam também pela presença de crianças adoptadas, refugiadas de guerra, residindo no seio de algumas famílias da vila e do concelho.
Não são conhecidos, contudo, casos de espionagem, a não ser numa situação nunca esclarecida de um dinamarquês, provavelmente judeu, residindo durante algum tempo numa pensão da terra e que apareceria misteriosamente morto a tiro numa estrada do concelho, poucos dias depois de ter chegado uma ordem governamental para exilar todos os estrangeiros em Caldas da Rainha.
Durante os anos de guerra foi presidente da câmara o Engenheiro D. José Teles da Silva (Tarouca), cargo que exerceu até ao final de 1945.
O Presidente da Câmara era então nomeado pelo governo.
Vivia-se em plena vigência da Constituição de 1933, e vigorava a lei eleitoral de 27 de Dezembro de 1933, aperfeiçoada pelo Decreto-lei de 6 de Novembro de 1934.Só se podiam recensear os homens, maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou, não o sabendo , pagando no mínimo 100$00 de imposto. As mulheres só tinham capacidade eleitoral se, para além de maiores e emancipadas, tivessem cursos do ensino secundário ou superior. Obviamente que, no tipo de regime então em vigor, os presos políticos não possuíam capacidade eleitoral.
O recenseamento era feito pelos orgãos do Estado, sem fiscalização externa. Durante a guerra, só em Novembro de 1942 houve eleições para deputado à Assembleia Nacional, à qual apenas concorreram os candidatos do partido único, União Nacional.
É conhecido o resultado desse escrutínio eleitoral, referente a Torres Vedras e às suas freguesias, publicado nas páginas do “Noticias de Torres” de 18 de Novembro de 1942.
O número total de eleitores do concelho correspondia, praticamente, ao máximo legalmente possível, tendo apenas em conta, e como termo de comparação, o número de habitantes do concelho que, no censo de 1940, sendo do sexo masculino, tinham 21 anos ou mais e sabiam ler e escrever, perfazendo um total de 4446, aos quais podemos somar o número de mulheres, com 21 ou mais anos, possuindo ensino secundário ou superior, em número de 73, o que, tudo somado, corresponde a 4819 potenciais eleitores. Contudo não é possível detectar o número de habitantes que, não sabendo ler e escrever, pagassem o imposto mínimo exigido. Mesmo tendo em conta o modo geralmente fraudulento como decorriam então os recenseamentos eleitorais, podemos ver que mais de 90% da população do concelho estava arredada de qualquer participação política.
Todavia, é de registar o facto de, nas freguesias de Carvoeira, Matacães, Maxial e, principalmente, em Monte Redondo e Runa, a percentagem de eleitores ser bastante superior à média concelhia.
A Freiria, a Silveira e a Ventosa registam o mais baixo índice de eleitores.
Quanto ao acto eleitoral, mesmo tendo em conta apenas concorrer o partido único, o controle das assembleias eleitorais pelos fiéis do regime e o facto de, em muitos casos até os mortos contarem, bem como os votos nulos e brancos, a favor da União Nacional, é possível detectar as freguesias menos controladas pelo regime, e onde os eleitores manifestavam o seu desinteresse ou oposição através de uma abstenção superior à média concelhia, como aconteceu, e por ordem decrescente quanto à abstenção, com Dois Portos,Runa, 1º assembleia das freguesias de SªMaria e S.Pedro, e ,de forma menos evidente, Ventosa, Matacães, Freiria e Turcifal.
Pelo contrário, nas assembleias de Carmões, Silveira, Monte Redondo, Outeiro, Ponte do Rol, Maxial, Campelos e Ramalhal, o eleitorado mostrou-se mais empenhado em manifestar o seu apoio ao regime, votando em “massa” no partido único.
Claro que esta leitura dos resultados é discutível, tendo em conta os condicionalismos do acto eleitoral, mas é uma aproximação possível para um ensaio de caracterização geográfica dos apoios e oposições que a política do Estado Novo podia então encontrar no concelho.
...E A Guerra Acabou.
A partir de 1944,com o rápido avanço do exército russo e, principalmente com o desembarque das forças aliadas na Normandia a 6 de Junho, começava a ser evidente que a derrota alemã era uma questão de tempo, e renascia a esperança que o final da guerra trouxesse o fim do regime salazarista.
Em Torres Vedras, Raimundo Portas, conjuntamente com outro oposicionista, preparou uma armação de fogo armado para lançar uma salva de 21 tiros, a ser colocada no Castelo assim que os soviéticos entrassem em Berlim. Até lá, o material pirotécnico foi escondido no “Tavares Ferro-Velho”, enquanto no castelo já tinham sido preparados os buracos para colocar a armação. Até que um dia Raimundo Portas que diariamente se deslocava à estação de caminho de ferro, para comprar o jornal “República”, ao passar na “Ginjinha” ouviu pela rádio que os soviéticos tinham entrado em Berlim.”Nem comprou o jornal, foi a correr avisar os outros, montaram tudo no Castelo, acenderam aquilo. Estava tudo preparado para terem um certo tempo para fugirem para o Forte. Quando estavam a subir, começou a ouvir-se o início da salva de 21 tiros de canhão”(Pedro Fernandes). A polícia em Torres desatou a correr castelo acima, mas quando lá chegou já tinha acabado a salva.
Foi a 2 de Maio de 1945 que os soviéticos entraram em Berlim. A vitória dos aliados seria proclamada a 8 de Maio.
Assim que a paz na Europa foi oficialmente anunciada, as pessoas saíram para a rua para se manifestarem, num grande movimento popular e espontâneo. Contou-nos Adão de Carvalho que se lembrava nesse dia de acompanhar o padre Joaquim Maria de Sousa a casa, quando depararam com alguma agitação frente ao posto da polícia. Várias pessoas insistiam junto do chefe da polícia para que autorizasse uma manifestação pelas ruas da vila para comemorar a paz. Este mostrava-se renitente, alegando não ter ordens superiores. Ainda segundo o testemunho de Adão de Carvalho, terá sido o padre Joaquim a convencer o chefe da polícia a permitir a manifestação, responsabilizando-se pessoalmente pela mesma, tendo mesmo mandado tocar os sinos das igrejas para assinalar a paz.
A manifestação percorreu as principais ruas da vila, e em vários locais alguns dos manifestantes discursavam espontaneamente. Dois grandes cartazes acompanhavam os manifestantes, um com os dizeres “Paz, Pão, Liberdade e Trabalho” e outro “Viva Portugal”. Bandeiras inglesas e americanas eram entusiasticamente acenadas pelos manifestantes.
O ponto alto da manifestação teve lugar no largo da câmara, onde os manifestantes se dirigiram para serem recebidos pelo executivo camarário. Mas esta encontrava-se fechada e ninguém compareceu para receber os populares. Foi aí que o republicano Dr.Graça, da varanda do seu escritório, situado frente à Câmara, dirigiu um improviso que muito sensibilizou todos os presentes.
Pouco entusiástica parece ter sido assim a reacção do executivo camarário ao resultado da guerra, como se confirma pelo conteúdo das actas camarárias. Assim , a 10 de Maio ,surge, no meio de requerimentos e propostas várias ,uma formal e envergonhada deliberação de se telegrafar “a Sua Exª o Presidente do Concelho, agradecendo e felicitando-o vivamente pela forma digna, inteligente e altamente patriótica como conduziu a politica interna e externa de Portugal assegurando a todos os portugueses uma Paz inestimável”(Livro nº 47 dos Acordãos da Câmara ,10 de Maio de 1945 ,194 v e 195).Apenas uma outra reduzida e lacónica frase volta a referir-se à paz definitiva, após a derrota japonesa, num outro acordão de 16 de Agosto de 1945, onde se dava conta da decisão de “exarar na acta um voto de congratulação da Camara pelo fim da guerra mundial” (Livro nº48 dos Acordãos f.14)
Victor Cesário da Fonseca, que durante a guerra havia feito da sua livraria o centro de divulgação da propaganda aliada, decorou a sua montra com as bandeiras de todos os aliados, ao lado das quais colocou um pau sem bandeira, onde deveria estar a da União Soviética, cuja exibição pública estava proibida pelo Estado Novo.
O fim da guerra foi um período de esperança para muita gente, infelizmente logo desfeita, internamente com o intensificar da repressão política, externamente com o início da chamada “Guerra Fria”.Mas, apesar disso, tanto para o mundo, como para Torres Vedras, iniciava-se aqui um novo capítulo da sua História.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

De Regresso

Estamos de regresso.
Começamos com a publicação das célebres gravuras das Invasões francesas e com um texto, editado por nós no ano passado, sobre mais um aniversário da Batalha do Vimeiro.
Boa leitura.

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Há 201 Anos: TORRES VEDRAS E A BATALHA DO VIMEIRO

Na tarde de 17 de Agosto de 1808, os habitantes de Torres Vedras tomaram conhecimento da derrota francesa na batalha da Roliça, nesse mesmo dia, ao passarem pela vila soldados franceses feridos e “ alguns prisioneiros, que aqui vieram pernoitar, escoltados por uma patrulha commandada pelo Capitão Picton do Corpo da Polícia."
O grosso do corpo da tropa comandada por Delaborde, abandonou o campo da batalha, aproveitando-se do cair da noite, tomando “a estrada, que diante da quinta da Bogalheira se dirige a Runa, onde descançou poucas horas, prosseguindo a marcha pelo Caminho da Cabeça [de Montachique]”.
Pela vila de Torres Vedras continuaram a passar, ao longo de toda essa noite, “soldados dispersos, que eram outras tantas testemunhas evidentes da victoria dos nossos alliados: pedio ella sem duvida publicos applausos, porém houve a necessaria prudencia em suffocal-os, o que servio para livrar a Villa d’algum severo castigo”.
Tomando conhecimento da derrota das suas tropas na Roliça, e prevendo que as tropas inglesas comandadas por Wellesley avançassem pela estrada de Torres Vedras em direcção a Lisboa, Junot decidiu “fazer a concentração de todas as suas forças em Torres Vedras, entrando nesta vila “com a divisão de Loison no dia 18, mandando ordem a Delaborde, que estava em Montachique, para se lhe ir reunir. Este general chegou a Torres no dia 19.
“Emquanto á columna, que seguia sob o commando de Thiébault, marchava mui lentamente, porque a estrada era pessima, (…), dando logar a um alongamento consideravel, de forma que só a hora adiantada da noite de 17 attingiu Otta.
“(...) Na manha de 20 entrava Thiébault em Torres, mas os diversos elementos da columna foram chegando pouco a pouco.
“Na tarde 20 de Agosto reunia Junot em Torres todas as forças disponiveis”.
A entrada das tropas francesas em Torres Vedras foi descrita em pormenor por Madeira Torres:
“Quando se pensava, que no seguinte dia 18 d’Agosto entraria[em Torres Vedras] o Exercito alliado, esperado com tanto alvoroço, aconteceo ao contrario espalhar-se o susto, e perturbação, pela noticia de que vinha proximo todo o Exercito Francez, e na frente d’elle o mesmo General em chefe [Junot], e que com rigorosas ordens se mandavam apromptar quarteis, viveres, e forragens. (…) Este General entrou com o seu Estado-Maior pelas tres horas da tarde do indicado dia 18, rodeado dos Generaes quasi todos, e de uma forte escolta de cavallaria, a qual se dividio, e occupou logo as entradas da Villa, não se permittindo a sahida d’alguem, sem guia ou passaporte do Commandante da Praça, que então foi o Chefe dos Gens d’armes. Sómente os Officiaes do Estado-Maior tiveram alojamentos, porque os dos corpos ficaram com os mesmos sobre os campos visinhos. Concorreram aqui muitos individuos não militares, uns por empregados, e unidos ao Exercito nas suas diversas repartições, e outros meramente por buscarem o seu abrigo, receosos de serem sacrificados ao seu furor nas pequenas povoações. Ainda que nos armazens existissem alguns sobrecellentes do antigo fornecimento, nada eram para supprir ás urgencias de um Exercito, que se computava em 20$000 sem contar os seus aggregados: por isso foram indispensaveis as requisições violentas para a entrega dos generos necessarios; as quaes para mais prompto effeito se faziam por pregões, ameaçando-se os habitantes que se subtrahissem, com as penas de morte, e do incendio das suas casas, que seriam examinadas”.
As divisões Delaborde e Loisson tomaram posição na vila, ocupando a sua vanguarda o alto de S. Vicente e o alto da forca, enquanto a reserva de Kellerman se estabelecia na rectaguarda .
A cavalaria “explorou activamente, nos dias 19 e 20, todo o terreno para a frente, até estabelecer o contacto com o inimigo”
No dia 20 de Agosto Torres Vedras conheceu as agruras da ocupação por um exército inimigo, registando-se vários desacatos e excessos cometidos pelos franceses nesta vila, descrito mais uma vez por Madeira Torres:
“Na manhã d’este dia” [20 de Agosto de 1808] “alguns soldados extraviados haviam roubado o Convento dos Religiosos Arrabidos do Barro, penetrando até ao Sacrario, e espalhando as sagradas Particulas sobre o pavimento da Capella Mór. Em quanto se commettia este horroroso desacato, tinha o General Junot mandado matar dois mendigos desconhecidos, um d’elles Hespanhol idozo, o outro Asiatico coxo, que foram prêsos como suspeitos de espiões: outro miseravel da mesma fortuna, residente n’esta Villa,” [de Torres Vedras] “ e quasi cego, que estava junctamente prêso, escapou de experimentar igual sorte pela liberdade e vehemencia, com que fallou em sua defeza o Desembargador Vigario da Vara” [Madeira Torres] “chamado por ordem positiva de Junot para interrogar os prêsos, e depôr da sua conducta, e para ser expectador da injusta e barbara morte, que tiveram, sem que fossem convencidos do crime imputado, nem admittidos a algum preparo christão, e nem de modo algum tractados como homens, mas antes como féras pela indifferença e avidez de matal-os: bem facil é de ver, que esta crueldade foi commetida para exemplo, que indicasse como seria castigada qualquer communicação com o Exercito alliado(...)”.
Na tarde desse dia 20, depois de no dia anterior se ter deslocado pela estrada da Lourinhã para avistar a posição e situação do exército aliado, e depois de reunir com os seus generais, Junot decidiu avançar ao encontro do exército britânico “e o resultado foi levantar-se rapidamente a tropa, e começar a marchar depois das cinco horas pela mesma estrada da Lourinhã” .
Enquanto os habitantes da vila de Torres Vedras testemunhavam as movimentações militares do exército francês, entre os dias 17 e 20 de Agosto, noutra zona do concelho, mais a norte e junto do litoral, era o exército inglês que tomava as suas posições:
“Sir Wellesley convergia para a Lourinhã, por saber que as divisões do general Anstruther e Ackland se achavam á vista da costa, alem de uma consideravel frota de navios carregados de provisões, e como aquellas paragens são bastante perigosas, julgou-se obrigado a proteger o desembarque dos recem-chegados, indo para este fim no dia 19 tomar posição no logar do Vimeiro, emquanto o dito desembarque se effeituava a uma legua de distancia do referido logar, na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel” (sic).“ No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”.
Entusiasmado pelo êxito da Roliça, Wellesley palaneou avançar sobre Lisboa “julgando que Junot não tomaria a offensiva e se limitaria a defender o desfiladeiro de Torres Vedras” torneando esta posição, “seguindo uma columna pela Fonte Grada, atravessando a Bordinheira entre S. Mamede da Ventosa e S. Pedro da Cadeira, seguindo pela Freiria e Picanceira, emquanto a mais importante iria pelas Secarias, Coutada, S. Pedro da Cadeira e a Murgeira, onde deixaria uma forte guarda da retaguarda, emquanto que com as restantes forças iria tomar uma posição que impedisse a retirada de Junot por Cabeça de Montachique. Todo este plano tinha sido esboçado em presença da carta que Wellesley possuia dos arredores de Lisboa, e que julgava excellente, assim como das indicações topographicas fornecidas pelo tenente-general C.Stuart”.
Tomando conhecimento da presença de Harry Burrard “a bordo da fragata Brazen nas proximidades de Porto Novo” no dia 20, “foi Wellesley conferenciar com o novo commandante do exercito inglês e expoz-lhe o seu plano” que desaprovou tal plano por considerar “que as forças de John Moore eram insufficientes para fazerem frente a Junot, caso este retirasse por Santarem, e accrescentou que aquelle general já tinha recebido ordem para vir desembarcar as suas forças na Maceira, e que só depois de reunidas todas as tropas é que marcharia sobre Lisboa. Foi em vão que Wellesley se esforçou por convencer Burrard da grande vantagem que havia em tomar immediatamente a offensiva, aproveitando o estado moral das tropas, animadas sobremaneira com o bom resultado do combate da Roliça.
“Burrard não accedeu e Wellesley voltou para o acampamento muito exasperado, increpando violentamente a fraqueza do seu chefe.
“O plano de Wellesley tem sido apreciado de diversas maneiras.
“(...) Tudo nos leva (...) a crêr que a marcha de Wellesley seria muito a tempo descoberta pela cavallaria inimiga e que Junot tomaria as disposições necessárias para ir atacar as tropas inglêsas durante a sua marcha de flanco.
“A columna da esquerda seria facilmente repellida e bastava occupar a posição de S .Pedro da Cadeira, para deter a marcha da columna da direita, que correria o risco de ser lançada sobre o mar.
“O plano de Wellesley era pois temerario e injustificavel, visto que assentava na hypothese do inimigo não conhecer a tempo um tal movimento, e collocava o exercito, no caso d’um ataque, n’uma situação critica tal que, uma derrota importaria a sua perda total”.
A proximidade do exército britânico encorajou os habitantes de A-Dos-Cunhados a terem sido os primeiros do concelho a aclamar o príncipe regente, dois dias antes da Batalha do Vimeiro, como se comprova pela inscrição de uma tábua existente actualmente no Museu Municipal Leonel Trindade, que diz o seguinte:
“ NESTE LVGAR DOS CV-/ CNADOS COM GRANDE/PRAZER E GOSTO FOI O PRIN-/CIPE ACLAMADO EM/19 D AGOSTO/1808 ERA/O ANO QVE CORIA/ SACODIOCE O JVGO/ FRANCES RESTAV/ROVSE A MONAR/QVIA.”.
Entretanto, para não dar tempo a que a divisão Moore desembarcasse em Porto Novo e se juntasse ao exército britânico, Junot saiu de Torres Vedras na tarde do dia 20, como já vimos, “e, transpondo, de noite, o desfiladeiro entre Torres e Vila Facaia, mandou fazer alto ás suas tropas junto desta povoação, na margem direita da ribeira de Alcabrichel, com o fim de lhes dar descanço e permitir-lhes que cosinhassem a refeição da manhã.
“Ás 7 horas, devisava-se, ao longe, das alturas do Vimeiro, uma densa nuvem de poeira, e, ás 8 horas, via-se já distinctamente, apesar do terreno ser coberto de arvoredo, a vanguarda da cavalaria francêsa, que marchava na direcção da Carrasqueira, seguida de infantaria. Ia dar-se a memoravel batalha na qual se decidiu a sorte de Portugal”.
Não é objectivo deste texto a descrição da batalha do Vimeiro, cujo desfecho é conhecido, mas o impacto destes acontecimentos em Torres Vedras, pelo que recorremos mais uma vez à inesgotável fonte que á a obra de Madeira Torres:
“No dia 21 d’Agosto pelas 9 horas da manhãa começou a ouvir-se o estrondo d’Artilharia: no primeiro tempo do combate vieram noticias agradaveis aos Francezes: mas não tardou muito, que lhes chegassem outras, com que se mostraram descontentes, posto que ainda alentados, ao menos apparentemente; enfim correram os boatos d’uma derrota completa, que se viam verificados pelos estragos, e até depois pela propria confissão, dos que se recolhiam do campo. A tropa entrou de noite, [em Torres Vedras] e buscou acampar-se, como antes de ir para a batalha. No dia seguinte viam-se companhias commandadas por um cabo d’esquadra (tal havia sido a carnagem na officialidade): e todo o grande trem d’Artilharia reduzido a tres carretas. Apezar de ser tão vizivel, e avultado o destroço, ainda Junot se occupava com a impostura de fazer illuminar a Villa em aplauso da victoria, e seguindo igual rutina se occupava o impodente La Garde em remetter ao Juiz pela Ordenação , que então servia, um Officio enviando-lhe junctamente o Boletim do Exercito, e recommendando-lhe, que só acreditasse o que elle lhe dizia. No meio de imposturas tão ridicula, não se occultava o temor, confusão e impaciencia de Junot. Elle logo na manhãa do dia 22 chamou ao seu quartel os Generaes, e lhe propoz pedir capitulação, o que foi adoptado (...)”.
A negociação do armistício levou algum tempo, com avanços e recuos de ambos os lados, até a assinatura do incorrectamente designada Convenção de Sintra (seria mais correcto chamá-la de Convenção do Vimeiro-Lisboa-Ramalhal).
“Nos preliminares da capitulação foi o rio Sizandro constituido linha de separação do terreno, em que deviam conter-se os dois Exercitos, e Torres Vedras ficou neutral; assim tanto que o Exercito Inglez se adiantou para as alturas d’aquem Amial (fixando os Generaes os seus quarteis n’esse logar, e ainda mais no do Ramalhal) começou a ser innundada de gente annexa ao Exercito, recebida com vivissimo enthusiasmo, e prazer; e apezar da supposta neutralidade, houve sem demora sinceras, e voluntarias demonstrações de contentamento pela victoria, e communicação dos allidos. As auctoridades da Villa foram logo comprimentar os Generaes Inglezes, e de todas as visinhanças concorriam numerosos ranchos de pessoas, até do sexo feminino a observar o campo da batalha, o admiravel espectaculo do Comboio estacionado defronte do Porto Novo, e a brilhante linha e revista do Exercito alliado.
“No segundo dia em que se disfructava tanto prazer, houve um incidente, que o perturbou, e foi o rumor de que retrocedia o Exercito inimigo, e já se viam as suas avançadas; por cujo motivo as familias receosas das crueldades, que de certo experimentariam, procuraram precipitadamente ao menos a segurança das vidas com a fuga para a retaguarda da linha ingleza. Isto aconteceo perto da noite, tempo ainda mais opportuno para soffrerem saque as casas abandonadas; porém felizmente desvaneceo-se este rebate, e até se escapou do menor roubo, sem que se fizessem por isso muito sensiveis os incommodos de marchar a pé uma grande legoa,e de pernoitar no campo em uma tão bella estação.
“No intervallo em que se arranjavam diffinitivamente os artigos da capitulação, adiantou-se mais o Exercito Inglez a occupar as alturas situadas ao norte da Villa, desde o logar de Sarges até adiante do do Paul, e os Generaes tomaram quarteis nas casas mais proporcionadas. (...) Pelo que temos dicto fica manifesto, que sôbre esta Villa, e seus contornos carregou por dias o pêso de tres Exercitos (contando-se o Nacional por duas vezes, sendo a segunda quando se retirou para as Provincias); e apezar dos estragos causados nos fructos, que ainda se recolhiam, e estavam pendentes, tal é a fertilidade do terreno, e tal foi a particular abundancia d’aquelle anno, que se supprio ao fornecimento da tropa, e não padeceram falta os habitantes.”
O exército francês retirou-se definitivamente de Lisboa no dia 15 de Setembro de 1808, registando-se grandes festejos emTorres Vedras pela restauração do reino “com muitos dias de luminarias, e em seguida a Camara fez celebrar uma solemne Festividade em acção de graças na Matriz de Sanctiago, com mais tres dias de luminarias, prestito pelas ruas com o seu Estandarte (que já dias antes se tinha arvorado nos Paços do Concelho) dando vivas a S.A.R. o Principe Regente”.

Passou mais um aniversário da Batalha do Vimeiro

terça-feira, 28 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

FICHAS DE BIBLIOGRAFIA VEDROGRÁFICA - "Guia das Aguas Mineraes dos Cucos"


Título: Guia das Aguas Mineraes dos Cucos.
Autor: vários.

Ano: 1892.
Edição:Typ. Da Companhia Nacional Editora.
Local: Lisboa.
Preço: 300 réis.
Nº de páginas: 168.
Tiragem: não indica.

Gravuras: “Planta Chorographica dos Cucos…”; “Vista do edifício balnear e annexos” ; “Planta das Piscinas…”; “Planta do 1º Andar”; “Vista geral do Valle dos Cucos”; “Rede Ferroviária de Portugal”;
Fotografias: Nenhuma.
Gráficos: “Composição das aguas do Valle dos Cucos”(pág 33).

Tema: Trata-se de um guia das Termas dos Cucos, com referência às suas qualidades terapêuticas, uma descrição histórico-patrimonial do lugar, depoimentos de doentes , e regulamento dos serviços.
Capítulos: Iª parte – Relatório Médico [da autoria do Dr. António Manoel da Cunha Bellem e Dr. Guilherme José Ennes]: “As Aguas Minero-Medicinaes dos Cucos” – I – No local; II – Natureza das àguas; III – Acção das águas e das lamas; IV – “Analyse Chimica”; V – Indicações VI – “O que é certo e o que há a esperar” (com referência ao efeito sobre várias doenças); VIII – Lamas; VIII – “Transportabilidade”; X- Estação de Inverno; Conclusão.
IIª parte – “Os Cucos Descriptivo” [da autoria de António Jorge Freire]: Os Cucos – Sua situação e natureza do solo: história; Nascentes; Os edifícios; Descripção dos Pisos; Reservatórios; “Os Cucos, considerados como estação de saúde e recreio”; cidades e vilas [da região]; Torres Vedras.
IIIª parte – Abonações: Alguns doentes que têm feito uso das aguas e resultados obtidos; Cartas, attestados e declarações.
IVª parte – Regulamento [por José Gonçalves Dias Neiva].
Tabella de Preços .

Gravuras antigas dos Cucos - "Guia das Aguas Mineraes dos Cucos"





segunda-feira, 20 de julho de 2009

A História das Termas dos Cucos





A História das Termas dos Cucos

1 - O Dia da Inauguração

Quando, em 15 de Maio de 1893, teve lugar a inauguração solene do Estabelecimento Termal dos Cucos, virava-se uma página decisiva na história do Termalismo português e concretizava-se um sonho de gerações de torrienses. Essa cerimónia marcaria ainda a realização da última obra arquitectónica de vulto de toda a história do Concelho de Torres Vedras.
Nesse dia "despontava a aurora aos sons da magnífica philarmonica de Torres, celebrando em Machêa, residência do sr. Neiva, o alvorecer d'este memorável dia, que se marcava uma data importante nos fastos do Concelho com uma obra arrojada de verdadeiro interesse público, devido à iniciativa de um só homem, mais gloriosamente assignalava um facto humanitário, destinado a levar o alívio e a saude há humanidade que sofre. “Resolvera o sr. Neiva não festejar a inauguração, limitando esta a uma pequena festa familiar, reduzindo o programma à benção da lapide commemorativa, e levantamento da bandeira do estabelecimento.
“Por seu lado a villa de Torres preparava-se, ja ha muitos dias, para solemnizar não só a abertura das Thermas, mas para dar áquelle cavalheiro um público testemunho de consideração pelo assignalado serviço, que vinha de fazer ao concelho. “(...). "O primeiro acto foi a benção relegiosa das Thermas, dada (...) pelo reverendo prior de Matacães(...)."A benção celebrou-se às 5 horas da manhã.
"Ás 9 horas voltava o sr. Neiva, acompanhado dos seus amigos particulares, os srs. António Diogo da Silva e José António Ferreira. Já então se achavam na praça das Thermas muitos cavalheiros de Torres, entre elles o digno presidente da camara, a philarmonica, que acolheu o humanitario proprietario com um hymno expressamente composto em sua honra, e muito povo. Todo o pessoal graduado e menor do estabelecimento recebeu aquele cavalheiro ao fundo da escada principal, e seguindo-o até à sala da copa onde elle descobriu a lapide commemorativa, occulta com uma coberta de damasco. Depois executou-se a ultima parte do programa , içando-se a bandeira do estabelecimento, saudada por enthusiasticos palmas de toda a multidão presente, pela musica e por uma grande girandola de foguetes. Findou esta cerimónia com a leitura do auto [da benção e da inauguração do estabelecimento dos Cucos] em seguida assignada pelos cavalheiros que d'elle constam (...).
"Em todo o dia 15 se conservaram abertas aos visitantes as portas do edificio, sendo necessario, durante seis horas consecutivas, estabelecer a visita por turmas de 50 individuos para a facilitar, (...).
"Em Torres o contentamento e a alegria eram geraes, e á noite, quando sr, Neiva ahi foi para assistir á recita e baile, que os cavaleiros da nobre villa lhe dedicaram, esperava-o uma das mais solemnes e imponentes manifestações, que temos presenceado. Tudo quanto esta terra tem de distinto o aguardava á entrada com archotes acessos, acompanhando-o com a música atravez das ruas de transito do cortejo, todos illuminados, até ao club. Mas, não foram sómente estas ruas, até ás mais modestas habitações se estendeu esta manifestação de regosijo!" [1].
António Jorge Freire, o entusiasta autor destas linhas, foi o responsável pelo estudo, traça e direcção das obras das Termas dos Cucos, a ele se deve o estilo característico dos edifícios aí construídos. A João José Alves foi confiado o cargo de mestre de obras. Mas esse 15 de Maio de 1983 foi o culminar de uma longa história de ocupação humana e aproveitamento termal de uma das mais belas zonas naturais do concelho de Torres Vedras.

[1] FREIRE, António Jorge, in Annaes das Thermas dos Cucos – Relatório da Época Balnear de 1893, T. Vedras, 1893, pp. 68 a 73.

A História das Termas dos Cucos





A História das Termas dos Cucos

2 - Os “Cucos” na História

Perto do sítio onde se localizam as Termas dos Cucos, junto à Quinta da Macheia, centro das propriedades que englobam aquelas termas, foram descobertos em 1959 vestígios de ocupação romana "quando se procedia à surriba de um terreno para plantação de vinha, e a uma profundidade de um metro e meio, apareceu a superfície quadrada de uma pedra, que depois de convenientemente descavada e retirada se revelou um cipo rectangular com 1, 25 m de altura, sob o qual se encontraram tejolos de fabrico romano e ossos humanos"[1], lápide funerária e ossos humanos que parecem revelar a existência no local de um cemitério romano pertencente a alguma povoação próxima.
Vasco Gil Mantas[2] , ao decifrar a leitura dessa lápide, atribui a origem desse monumento à primeira metade do século I. Aquele mesmo investigador, citado por Pedro Barbosa[3], refere que a via romana do Oeste entrava no litoral passando por Runa e Dois Portos, bem perto, se não mesmo ao lado, do local dos Cucos.
É provável, portanto, que as águas dos Cucos e as suas capacidades terapêuticas fossem conhecidas dos romanos, tanto mais que se trata de um fenómeno geológico muito anterior à existência humana e observável à superfície, como se percebe pela seguinte descrição de José António Neiva Vieira:
"Estas nascentes dos Cucos são nascentes artesianas e a sua existência deve-se aos deslocamentos da área tifónica [terreno confinado por séries de falhas e com fundo levantado através dos terrenos mais recentes] de Matacães. Água meteóricas infiltram-se através dos calcáreos do Jurássico médio [mais ou menos há 150 milhões de anos] da Serra de Montejunto (666 metros de altitude no cimo), descem com as camadas impermeáveis a grandes profundidades, onde elevam a sua temperatura, que na emergência atinge 40,1 graus para Cucos Modernos (Choffat diz descerem a cerca de 720 metros de profundidade), atravessam depósitos de salgema e outros depósitos, adquirindo assim a sua mineralização e radioactividade, e é no vale dos Cucos que encontram as falhas que lhes permitem atingir a superfície."[4]
Com as poucas provas acima referidas e sabendo-se a importância que os romanos atribuíam ao termalismo, não seria de estranhar terem sido eles os primeiros banhistas dos Cucos.
Para os períodos posteriores à ocupação romana continuam a rarear referências àquela região. Sabe-se, por um documento de 1242, da existência de um “moinho do carpinteiro”, um topónimo ligado à área envolvente dos Cucos, e que então pertencia ao património do Mosteiro de Alcobaça.[5]
Por sua vez, a existência da Macheia é referida pela primeira vez em 1309, com 2 “fogos” e no primeiro numeramento nacional de 1527, feito, para a região de Torres Vedras, em 15 de Setembro desse ano por Jorge Fernandes. Nesta data, a então “Aldêa da Macheia com casaes d´arredor” possuía 18 “vizinhos”, sendo um dos lugares mais povoados do concelho.É preciso esperar pelo século XVIII para se encontrarem as primeiras referências conhecidas às águas dos Cucos, nas respostas dadas pelos párocos das freguesias de Stª Maria, S. Miguel e S. Pedro ao inquérito paroquial, realizado a nível nacional em 1758. Escrevia o padre António Ribeiro, cura de Santa Maria, com a data de 7 de Maio de 1758: "Ha poucos anos se descobrirão huns olhos de agoa calidas, que nascem na margem do rio Sizandro e ficão em distância desta villa a parte da nascente por espaço de hum quarto de legoa, junto ao Moinho do Carpinteiro, em que se tem experimentado especial virtude para o figado" [6].
Num português peculiar, o Padre Izidoro de Abreu Machado, pároco de S. Miguel, procurava uma explicação mais científica para a utilidade dessas águas: "Tem tambem o districto desta freguezia no sítio chamada do carpinteiro distancia desta villa de hum quarto de legoa huma [907] agua termal participante de muntas partes sulfuricas, e nitrozas, dotada de muitas virtudes; Para estupores espurios, gotas artetticas, inchassois edematozas; outras muntas queixas, para as medicassois das quais concorrem pessoas de muntas partes, e legoas principalmente no veram por cauza do in commodo que esta tem para o uzo, por nascer na margem do Rio chamado Sizandro contigua a agua do mesmo Rio, e se lhe nam ter feito a diressam medicinal para o abafo, e Rigimento. E nam obstante este muntos se tem achado inteiramente saos de queixas que padessiam, nam consta sem ambargo do uzo desta ser de munto poucos annos he ao presente fosse nossiva". Mais completa foi a descrição feita no mesmo inquérito pelo prior de S. Pedro, António José de Faria, em 17 de Junho de 1758:
"Na distancia de huma milha ao nacente desta villa na margem do mesmo rio Sizandro, estao varios olhos de agoa huns contiguos, outros distantes, mas todos prodzidos de huma vea subterranea que corre transversalmente por baixo do mesmo rio, como se colhe dos vestigios nitrozos que a superficie da terra estão patentes tem esta agoa bastante calor o qual se conserva por muitas horas fora do seu nacimento. Os minaraes que nella se alcansão são muito nitro, e não pouco inxofre, e tambem se presume passara por mineraes de ferro, porem ao certo se não sabe com evidencia.
"Esteve esta agoa sempre incognita athe que hum grande cirurgião do partido da camara desta villa pella observar no ano de 1716 [ou 1746] a pos em uzo na medicina, chamado o dtº cirurgião Maximo Monis de Carvalho, e tem alcansado esta agoa notaveis efeitos, em desterrar Sarnas, Lepras, Caquechias, inchações, e de curar chagas sordidas, goats arteticas, convulcôns, Parllezias, e obestrucoens de olhos, servindo algumas vezes de remedio paleatico a chagas cancrozas, e podera servir pª remedio de outras muitas queixas se o pio zelo lhe mandase por algum reparo, para assim comodamente se uzar dos banhos como convem; pois não he menos para ademirar o grande nomero de enfermos que ali de diversas partes tem concorrido a tomar banhos nos toscos lagos que com sua industria fazem na terra, expostos ao ar, e sem reparo algum, e a maior parte sem concelho de medico, e nem regimento, ja tomandoos a toda a hora, e por dilatado tempo, sendo agoa tão activa não consta athe o prezente que rezultase de tantas dezordens e videntes perigos, mas antes tem sucedido acharem alguns enfermos alivio total nas suas queixas, tomando os ditos banhos depois de terem uzado os das Caldas da Raynha tão celabrados sem utilidade alguma. Restringeçe apena nesta breve noticia para assim de algum modo não dar sentimento aos coracons zellozes da utilidade publica os quaes se por extenço tiveçem anotº desta agoa quazi ancora sagrada que com suas vertudes maravilhozas segura a vida nas procellozas tromentas de tantos males, e não sem grande magoa se ve desprezada e abatida"[7] .
Pode-se assim afirmar que só no século XVIII surgem as primeiras referências às qualidades terapêuticas das águas dos Cucos, assinalando-se igualmente a precariedade das instalações e a necessidade de as melhorar. O século XVIII conhecia, aliás, um pouco por todo o país, a proliferação de construções balneares para a utilização de nascentes. A primeira análise científica da qualidade das nascentes dos Cucos foi feita pelo Visconde de Balsemão, numa comunicação apresentada em 1813 na Academia Real de Ciências, intitulada "Análise das Àguas Minerais dos Cucos e Descrição Física do Sítio". Madeira Torres, na parte económica da sua "Descrição Histórica e Económica da Vila e Termo de Torres Vedras", publicada em 1835 no tomo XI, parte II da 1ª série das "memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa", mas escrita entre 1818 e 1820, é o autor de outra das mais antigas referências às águas dos Cucos:
"(...) no sítio denominado dos Cucos, sobre a margem direita do Sisandro, se acha a célebre agoa Thermal, conhecida com o nome da situação (...) ninguém que conheça esta preciosidade, deixa de lamentar, que apezar dos dispendiosos esforços do benemerito dono dos banhos, estes se acham expostos às inundações, que os entulhão, e destroem. Ninguém deixa de reconhecer, que este estabelecimento devidamente reformado, alêm de tornar-se então mais interessante à saude pública, seria capaz de conciliar vantagens económicas para a nossa villa, chamando hum concurso, que deixasse nella, e seus contornos, espalhada huma parte do numerário, cujo giro tem feito povoar, faz subsistir à Villa de caldas, e suas visinhanças”.
Ao mesmo Madeira Torres se deve a primeira referência a uma outra nascente, a "Dos Coxos": "Em meia distancia entre aquelle sitio dos Cucos e a Villa, sobre o alveo, e junto a margem esquerda do Sisandro, no sitio denominado = Dos Coxos = se acha um copioso nascente, aos lados do qual se levantão algumas barracas, onde assentão tanques, ou caixas de madeira, em que corre, e se deposita a agoa na maior pureza, e se tomão banhos, muito proveitosos para remediar as erupções da pele (...)" .
Ao longo do séc. XIX surgem vários estudos e referências a estas águas. Vivia-se um período de expansão do termalismo, revelando-se uma maior preocupação com a saúde de cada um.

[1] VIEIRA, José António Neiva, História das Termas do Vale dos Cucos, Porto 1964, pág.6.
[2] MANTAS, Vasco Gil, Inscrições Romanas no Museu Municipal de Torres Vedras, Coimbra, 1982, pp. 42 a 49.
[3] BARBOSA, Pedro Gomes, Povoamento e Estrutura Agrícola na Estremadura Central, Lisboa, 1992, pp. 254 e 292.
[4] VIEIRA, ob.cit.
[5] BARBOSA, ob. Cit. Pág. 264.
[6] Memórias Paroquiais de 1758, Paróquia de Stª Maria, A.N.T.T.
[7] Memórias Paroquiais de 1758, S.Pedro, A.N.T.T.

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