quinta-feira, 29 de abril de 2010

O "ruivaco-do-oeste" nos rios torrienses.

A edição de hoje do Público, integra uma reportagem sobre o perigo de estinção em que se encontra uma das poucas espécies ainda existentes nos rios torrienses, alertando também para o estado ambiental do Sizandro e do Alcabrichel.
Já noutra ocasião aqui divulgámos um outro trabalho sobre as espécies ameaçadas dos rios do Oeste, que pode ser revista AQUI
Será ainda interessante consultar a lista de espécies de àgua doce que ainda vivem nos rios portugueses AQUI.
Sobre o que se pode fazer ou está a ser feito para salvar o ruivaco-do-oeste aconselhamos ainda a consulta deste site AQUI.
reproduzimos em baixo o artigo do Público:

"Quatro tanques separam o ruivaco-do-oeste da extinção

Por Nicolau Ferreira

In “Público” de 29 de Abril de 2010

O ruivaco-do-oeste integra um projecto para a conservação de peixes fluviais que estão a desaparecer. Nos tanques, a reprodução em cativeiro está a ser um sucesso, só falta poder trazê-los de volta para os rios.

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“À saída de Torres Vedras o rio Sizandro já está morto. É um canal de cor acastanhada que se precipita para o oceano Atlântico com rapidez.

Tínhamos sido avisados por Carla Santos-Sousa, uma bióloga de 32 anos. Vinte minutos antes, na estrada que serpenteia o Sizandro a caminho da cidade, entre a passagem de vilarejos, suiniculturas, campos verdes e cooperativas de vinho, a investigadora foi directa: "Querem ver o rio antes ou depois de Torres Vedras? Mau ou mesmo mau?" Mesmo mau.

Não é só o rio poluído, a paisagem é desoladora porque estéril de ideias. É estéril o declive artificial das margens com uma vegetação rudimentar, são inconsequentes as pedras que tentam segurar as margens do rio por baixo de uma ponte. A imaginação dos homens que não consegue fazer melhor.

"É ridículo. Já temos as ferramentas, conhecimento académico e há experiências feitas noutras partes do mundo que se podem aplicar na reabilitação deste rio", desabafa a investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que estuda há quase dez anos peixes fluviais, enquanto olha para a água incessante a passar. Carla Santos-Sousa é uma das muitas pessoas envolvidas no Projecto de Conservação Ex-situ de Organismos Fluviais em risco de extinção. O ruivaco-do-oeste, das cinco espécies de peixes que estão criticamente em perigo escolhidas para este projecto, é o caso mais preocupante.

O peixe só existe em Portugal, em três rios do Oeste: o Alcabrichel, o Sizandro e o Safarujo. Só em 2005 é que a equipa do ISPA, liderada pelo professor Vítor Almada, compreendeu com ajuda da genética que estas três populações pertenciam a uma espécie que está individualizada do outro ruivaco que existe mais a norte.

Mais cedo no mesmo dia, a montante de Torres Vedras, perto da aldeia Dois Portos, quando Carla nos mostra um Achondrostoma occidentale nas suas mãos, o que ela vê é "uma linhagem independente com cinco milhões de anos de evolução". E tudo se perderá se não for feita a reabilitação dos rios.

O Sizandro que passa em Dois Portos ainda é outro - mais calmo, selvagem e mais limpo, apesar dos canos de esgotos vindos das habitações. A paragem reservou boas surpresas à bióloga, que repete a técnica que já aplicou em dezenas de rios portugueses, de norte a sul. Da bagageira do carro saem umas jardineiras de borracha com botas incorporadas e uma mochila com uma bateria de carro ligada a um aparelho eléctrico. A investigadora vai à caça.


Liga o aparelho a um camaroeiro e solta um fio directamente para a água. Escolhe um fundão à esquerda para fazer a primeira tentativa. "Ninguém toca na água", avisa. Descarga eléctrica. Salta uma enguia para a rede que acaba num balde preto com água. Mais descargas. No fundão, onde normalmente os peixes se protegem no Inverno contra a velocidade do rio e sobrevivem no Verão às secas, nada. "Não há peixes", diz a bióloga, enquanto se ouve uma ovelha a balir para os lados do amieiro que está do outro lado da margem.

Mas não desiste, anda uns metros para baixo e instala-se a seguir a uns mini-rápidos para voltar a fazer uso dos 16 quilos que leva às costas na mochila. Desta vez é diferente e quando olhamos já Carla tem vários ruivacos-do-oeste na rede. "Quando dei o primeiro choque, vieram logo uns 50!" No balde contamos 13, três não aguentaram a descarga e morreram.

A bióloga segura um exemplar e faz-nos uma descrição física da espécie: um adulto alcança uns nove centímetros, tem nas costas um padrão oliváceo que é muito diferente da barriga branca e manchas laranjas na base de todas as barbatanas.

Abril é época de reprodução e só agora é possível distinguir os machos das fêmeas. Carla diz-nos para passarmos o dedo pela cabeça do macho e confirmamos a existência de tubérculos: pontos rijos que aparecem agora e servem para estimular a fêmea. "Aqui está outra fêmea bastante cheia", mostra-nos a bióloga, acrescentando que largam centenas de ovos.

Perguntamos se está contente com o número de peixes que encontrou: "É muito bom, não estava à espera."

Cada curso tem um ecossistema próprio e vive em isolamento. Do ponto de vista biológico, mesmo falando da mesma espécie, quando se perde uma população de um rio, perde-se uma riqueza genética única, que teve uma evolução distinta de tudo o resto.

Projecto com quatro anos

"Cada rio é uma ilha, os princípios biológicos que se aplicam a uma ilha aplicam-se aqui a um rio", explica a investigadora, enquanto devolve ao rio os ruivacos-do-oeste, a enguia e a água do balde e depois de ter medido o oxigénio, o pH, a temperatura, a condutividade e a concentração de oxigénio no rio. Os parâmetros estão bons. "Temos grande disponibilidade de água, daqui a um mês as condições mudam radicalmente." E é tempo de deixar o Sizandro.

Além da poluição, a seca é outro problema que afecta estes rios e a sobrevivência deste peixe. Desde a seca de 2005 que não se encontra o ruivaco no rio Safarujo, que com os seus 20 quilómetros é o mais pequeno dos três cursos de água onde vive a espécie.

Vítor Almada arrancou com a ideia do projecto na sequência da famosa seca de 2005. "O projecto surgiu porque havia espécies que estavam muito em perigo", explica Vítor Almada por telefone, que reuniu à equipa do ISPA o Aquário Vasco da Gama e a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.

O primeiro passo era garantir a conservação das espécies através da reprodução em cativeiro e garantir a reintrodução no habitat natural, depois de os rios serem recuperados. Além do ruivaco-do-oeste, a boga- portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum), a boga- do-sudoeste (Iberochondrostoma almacai) e duas espécies de escalo que só existem em Portugal, o Squalius torgalensis e o Squalius aradensis.

O primeiro protocolo foi feito em 2006. Às três instituições juntaram-se a Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, a Câmara de Figueiró dos Vinhos e a EDP - a empresa termina a sua ligação com o projecto a 1 de Junho depois de um apoio de três anos. "Temos dinheiro até ao final do ano", disse Paulo Lucas, da Quercus; a partir daí continuam com fundos próprios da associação. "Uma eventual extensão do projecto está dependente de uma candidatura ao Fundo EDP para a Biodiversidade", disse por email Gilda Sousa, do departamento de comunicação da EDP.

Luz no cativeiro

No Aquário Vasco da Gama, subimos até ao terraço do edifício que recicla a água salgada, de onde se avista o Tejo e ao fundo Lisboa. Às 10h30 da manhã, o sol aquece a água dos vários tanques cheios de peixinhos.

Onde é que está o ruivaco-do-oeste? Do lado do rio, no tanque mais à direita, 265 indivíduos nadam num espaço com plantas que filtram a água, lugares para se esconderem feitos de rede e tijolos, vasos cheios de seixos para as fêmeas colocarem os ovos. O habitat mais natural possível dentro de um tanque rectangular com cerca de três metros quadrados.

Fátima Gil está colada ao tanque e remexe as pedrinhas dos vasos. "Uma forma de se dar com os ovos do ruivaco-do-oeste é apalpar as coisas", explica a bióloga, que trabalha no museu há 22 anos. Encontra primeiro um ovo com um aspecto envelhecido, já morto. Procura mais e anos de experiência com a reprodução de peixes em cativeiro não a deixam ficar mal. Colado a um seixo está um ovo pequenino, de um branco translúcido, com um ar decididamente vivo. "Vêem-se dois pontos pretos brilhantes que são os olhos do embrião. Se utilizássemos uma lupa, até se conseguia ver o coração a bater."

O Aquário Vasco da Gama também serviu para Alexandrina Pipa aprender as bases da reprodução em cativeiro, durante o mês que esteve em Lisboa, antes de voltar à aldeia de Campelo, perto de Figueiró dos Vinhos. É aí que ficam as instalações onde se fará a reprodução a longo prazo do ruivaco-do-oeste. Com a ajuda da câmara, que cedeu as instalações, o projecto investiu 35 mil euros para recuperar os tanques da Estação Aquícola de Campelo.

Mais de 500

Encontramos Alexandrina, que é voluntária da Quercus há 12 anos, na estação de comboio da Caxarias. No caminho até Campelo, vai explicando as espécies vegetais da paisagem. Vêem-se muitos Quercus faginea, o carvalho-português que nos últimos 20 anos tem vindo a substituir antigas zonas de cultivo. Mas existem também azinheiras, medronheiros, pilriteiros, além do tradicional pinhal e das manchas de eucalipto, onde Alexandrina diz que já viu veados e javalis.

A ribeira do Alge, que passa por Campelo, uma aldeia com menos de 30 habitantes, alimenta continuamente os viveiros. Na estação, só se ouve a água a correr. "Apostámos mais na recuperação dos tanques do que no edifício", explica a técnica.

Cá fora, há vários tanques muito maiores do que os do Aquário Vasco da Gama. Um deles, com cerca de nove metros de comprimento e três de largura, está pronto para receber a boga-portuguesa que vem do aquário de Lisboa. Só falta a temperatura da água subir mais um pouco.

Os moradores de dois dos nove tanques são ruivacos-do-oeste, um com exemplares do rio Sizandro, o outro do Alcabrichel, que chegaram a 31 de Março de 2009. Já desovaram no ano passado. Há 400 jovens de Alcabrichel e entre 150 e 200 do Sizandro, que ainda não se conseguiram contar. "Eu espero que, se não for este ano, seja para o próximo que se faça a reintrodução destes peixes na natureza", explica Alexandrina Pipa. "Não faz sentido fazer reintrodução, se o local ficar com as mesmas condições que existiam", defende.

À espera do Alcabrichel

Voltámos para o concelho de Torres Vedras, mas agora estamos a torrar ao sol, junto à margem do rio Alcabrichel, um calor insuportável. À nossa frente está parte do troço de 1500 metros do rio que corre por baixo da ponte do Ramalhal, a norte de Torres Vedras, até à ponte da A8.

Paulo Lucas, o responsável da Quercus pelo projecto, aponta para o cano do esgoto de onde corre um risco viscoso e castanho, tira fotografias e desabafa: "Isto é inacreditável."

O projecto da Quercus para a reabilitação do rio Alcabrichel ainda tem que ser aprovado pela Administração da Região Hidrográfica do Tejo, mas deverá avançar.

O futuro do ruivaco-do-oeste vai começar aqui - é esta fatia de 300 metros do rio que vai sofrer uma intervenção de reabilitação.

Mas o líquido castanho que corre constantemente do esgoto e se dissolve no ribeiro, com o cheiro indiscutível de uma suinicultura, compromete tudo. "Há alguma decantação dos materiais sólidos, mas a carga poluente é elevadíssima", explica o ambientalista de 41 anos que trabalha na Câmara Municipal de Ourém. O esgoto é uma fonte de matéria orgânica, faz explodir o crescimento de microrganismos que consomem o oxigénio e tornam inviável a existência do ruivaco. "Já pedimos uma solução para esta suinicultura. Só colocamos aqui os peixes quando o problema estiver resolvido."

Antes disso, contudo, há muito trabalho a fazer. O Alcabrichel é mais um exemplo de um rio encanado. O início dos trabalhos será em Junho: alargar as margens entre seis a sete metros para cada lado; retirar o canavial com cinco metros de altura; plantar salgueiros, choupos-negros, espécies autóctones que criam raízes, filtram o rio e dão sombra aos fundões, que no Verão são a salvação das populações de peixes. No final de Novembro, Paulo Lucas espera ter a primeira fase terminada. Os 300 metros de reabilitação vão custar 50 mil euros e o ambientalista calcula que vão ser necessários mais cinco anos de trabalho e 200 mil euros por ano para o Alcabrichel voltar ao que era, quando se podia tomar banho no rio.

Peixes no lago

O Sizandro vai ter que esperar. Apesar da melhoria da cobertura da rede de esgotos domésticos que passou de cerca de 50 por cento em 2000 para 75 por cento em 2010, só no final de 2011 o vereador Carlos Bernardes, vice-presidente da Câmara de Torres Vedras, espera ter 90 por cento das casas do concelho com os esgotos tratados. Mesmo assim, o tratamento dos resíduos da indústria agro-pecuária continua a léguas do necessário e em 2009 o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos lançou um relatório onde o Sizandro, com leituras feitas já perto da foz, era dos rios mais poluídos do país.

Junto à entrada do rio em Torres Vedras, onde o leito está cimentado, há quem diga que o Sizandro está mais limpo do que era, depois do encerramento da destilaria de Runa, há uns anos. José Anselmo Gregório, um ferroviário de 59 anos, lembra-se de outro rio: "Dantes não estava cimentado, havia fundões onde a malta apanhava peixe. Tomava-se banho no rio." Já voltou a ver peixes na cidade, diz sentado num banco da estação de comboios.

Mostra-nos um pequeno lago ao lado do muro da estação. A água tem uma película de algas verdes. Com uma mangueira afasta as algas e aponta. Um peixe-vermelho grande passa. Ao lado, mais pequenos, com uma cor escura no dorso e brancos na barriga, ruivacos-do-oeste. Estão lá.”

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Vedrografias - 1º aniversário

Foi há um ao que iniciámos a publicação deste blog dedicado a Torres Vedras, aos seus acontecimentos, à sua cultura, ao seu património e à sua história.
Hoje este é um espaço razoávelmente consolidado entre os mil blogs portugueses mais visitados, tendo até chegado em certas ocasiões aos trezentos mais vistos.
Tendo iniciado a contagem de visitas apenas um mês depois, calculamos que já fomos visitados por quase sete mil leitores.
Esperamos continuara a corresponder às expectativas iniciais e continuar a contar com a compreensão e a companhia de todos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Santa Cruz - o que o mar modificou.

(Noutros anos uma pequena praia, este ano a Praia Formosa surge com um areal enorme, trazido pelo mar das praias do norte, estas agora quase sem areia)


Este ano as praias de Santa Cruz estão diferentes, pouca areia a Norte, muita mais a Sul.
Dessa situação dá-nos conta uma reportagem do Público deste Domingo, na qual, a propósito da situação em toda a costa do Oeste, refere o seguinte sobre Santa Cruz:

"Oeste  - Praias feridas onde nunca se viu "nada assim"

A areia costuma fugir no Inverno e voltar no Verão. Mas este ano o mau tempo deixou estragos muito profundos
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Este Inverno, o mar zangou-se com as gentes de Santa Cruz. É comum que a areia fuja nos meses mais frios, mas depois, quando o calor regressa e ela faz falta, as praias voltam a compor-se. A esperança é a última a morrer, mas aqui, como noutros locais da costa da região Oeste, começa a duvidar-se de que a Primavera possa remediar as cicatrizes do mau tempo.

Ludovina Solipa, 61 anos, está sentada no muro do passeio marítimo. Há 30 anos que frequenta as praias de Santa Cruz, onde tem uma casa de férias. Mas 2010 não está a ser um ano como os outros. "Tenho a impressão de que nunca vi nada assim", confessa, estendendo o olhar pelas rochas descobertas. "A Praia do Centro era enorme, larga. Veja agora..."

Vê-se que algo não está certo. Para começar, uma ravina de mais de dois metros, cavada a pouca distância das estacarias que delimitam o areal, marca os limites do avanço da maré. José Ferreira, 59 anos, está a pescar no meio das pedras. Há três anos que vive na terra e também ele nunca viu "nada assim". A paisagem mudou radicalmente: "Isto aqui", diz, apontando para a laje de pedra que se estende até ao mar, "costuma ser tudo barracas e toldos, no Verão...".

Neste cenário, onde poderão os concessionários colocar as tão procuradas sombras? Um pouco mais a norte, na Praia do Navio, Miguel Fortunato, 37 anos, proprietário do restaurante O Navio, não consegue deixar de pensar nisso. "O mar está a levar a areia para as praias não concessionadas, que se estendem para norte. Há gente a alugar-me barracas, mas eu, se calhar, não vou poder montá-las."

O mar já chegou muito perto do edifício. "Às vezes, nas noites de temporal, venho para aqui. Nunca vi nada assim. Ainda faltam duas grandes marés, pode ser que o mar ainda reponha, só que isso começou a acontecer e agora já está a tirar outra vez. Cheguei a ver pescadores a parar de pescar para apanharem moedas. E um até já tinha um gorro bem fornecido..."

O resto da reportagem pode ser lida AQUI.

Santa Cruz nem sempre foi como a conhecemos. Algumas imagens antigas, abaixo reproduzidas, dão conta disso mesmo:













domingo, 25 de abril de 2010

Torres Vedras e o 25 de Abril - "O Morto era outro"

“1974 cá está aberto em leque, repleto de interrogações, dúvidas, medos, mas sobretudo cheio de verdes esperanças”. Com estas proféticas palavras iniciava o meu pai, Venerando Ferreira de Matos, a primeira crónica publicada no jornal “Badaladas” nesse ano de 1974.

Vivia-se ainda a ressaca frustrante das eleições de 1973, onde mais uma vez a oposição democrática, toda unida à volta do MDP/CDE, tinha sido impedida de, livremente, expor as seus projectos para a construção do país, numa campanha eleitoral onde estava proibido debater a guerra ultramarina, motivo pelo qual aquele movimento acabou por desistir de ir às urnas.

Do lado do governo, a ANP tinha regressado aos “bons velhos tempos” expurgada da incómoda “ala liberal”. Era o fim da chamada “Primavera Marcelista”.

1974 iniciava-se sob o signo da crise política e económica que se reflectia em Torres Vedras, a primeira sob a crise interna do executivo camarário, publicamente evidente pela demissão de um dos seus vereadores, a segunda pela referência subtilmente críticas ao racionamento da gasolina e ao preço elevado desta, motivando até queixas públicas dos choferes de praça.

Contudo, quase sem se dar por isso, apareciam pequenos “sinais” reveladores de que algo estava a mudar.

Pela primeira vez, em várias décadas, surgia propaganda clandestina nas escolas do concelho. As muito participadas e agitadas sessões eleitorais da oposição em Torres Vedras, em 1973, tinham deixado sementes e, regularmente, realizavam-se reuniões clandestinas, cada vez mais alargadas e organizadas.

Em colectividades locais, como no Clube Artístico e Comercial ou no renascido Cine Clube de Torres Vedras, vivia-se um clima de dinamismo e entusiasmo pela criação de alternativas culturais aos limites impostos pela censura e às bolorentas actividades da Mocidade Portuguesa e da Câmara.

Nas páginas do “Badaladas” eram cada vez mais frequentes os textos que, utilizando a necessária subtileza para escapar à censura, iam revelando os “podres” do regime:

“Espectador (não comparsa) das Ténues mudanças que se vão operando nesta terra parada no tempo, sobretudo no campo ainda inexplorado do sócio-político (nota que deixo de lado o económico) olho à minha volta num desencanto quase doentio. A manta de retalhos que é Torres Vedras moderna vai crescendo caoticamente sem rei nem roque, desenquadrada dum plano de urbanização inexistente. Creio que já te disse por outras palavras esta mesmíssima coisa.

“A cegueira dos homens, os interesses de alguns grupos, a tenacidade doentia e repetida de certos nomes que hão-de passar à história local como os coveiros de uma terra que merecia melhor sorte, cheira-se, apalpa-se, sente-se no ar que se respira, discute-se em surdina às mesas dos cafés” (Venerando Ferreira de Matos, in “Cartas a um amigo de longe… - XVI”, “Badaladas” de 19 de Janeiro de 1974).

Nomes como o autor das palavras acima transcritas, mas também um João Carlos, um António Augusto Sales, um Andrade Santos, um Ruy de Moura Guedes, um António Leal d’ Ascensão, um Victor Cesário da Fonseca, sempre incentivados pelo Padre Joaquim Maria de Sousa, director e fundador do “Badaladas”, estavam cada vez menos solitários nesse ano de 1974 no uso dessa arma que era a escrita, para enfrentarem o regime.

Chegados ao mês de Março, o Dr. António de Sousa Dias transcrevia para as páginas do “Badaladas” algumas linhas do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”, grande tema de discussão nesses últimos meses de vida do velho regime, livro cuja edição mereceu, se bem me recordo, uma montra especial na Galeria 70, livraria dirigida por Cristina e Armando Pedro Lopes, local muito frequentado por oposicionistas e onde se realizavam regularmente colóquios, exposições e outras actividades de cariz cultural.

Nesse ambiente, foi sem grandes surpresas que, numa reunião clandestina do núcleo local do CDE, realizada em casa do Francisco Manuel Fernandes, tivemos conhecimento e acompanhámos os acontecimentos do falhado golpe militar das Caldas da Rainha, nesse sábado 16 de Março.

Para quem estivesse atento ao que se passava à sua volta era evidente, a partir daí, que o derrube do Estado Novo era uma questão de (pouco) tempo.

Contudo, quando na noite de 24 de Abril alguns de nós regressávamos a casa, depois de mais uma sessão do Cine-Clube no Teatro-Cine, que costumava ter lugar às 4.as feiras, estávamos longe de imaginar que àquela hora estava já em marcha a tão desejada madrugada.

Só a título de curiosidade, o último filme que vimos durante a vigência do Estado Novo chamava-se “O Morto era Outro”, de Jerry Lewis.

Ver Mais AQUI.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Passam hoje 40 anos sobre a inauguração da actual Escola Henriques Nogueira

No 40 º aniversário da Inauguração do actual edifício da antiga “Escola Técnica e Comercial” de Torres Vedras, hoje Escola Secundária Henriques Nogueira – um percurso histórico pelo ensino “técnico-comercial”


O nascimento de uma ideia

A ideia de criar uma escola técnica e comercial em Torres Vedras surgiu entre a dinâmica classe comercial de região, então agrupada na “Associação Comercial”, quando, numa Assembleia Geral desta associação, realizada em 23 de Março de 1929, a sua direcção propôs a elevação da cota dos associados para se criar um “curso comercial” (CABRAL, Raul , “A Fundação da Escola Comercial (...)”, in Badaladas, 1/10/19529).
Em 1932 concluía-se o regulamento desse curso, mas, devido a várias dificuldades tal iniciativa não vingou, acabando por ser uma outra associação, a “Tuna Comercial Torreense”, a ter o privilégio de, pela primeira vez, instalar um curso com essas características em Torres Vedras.

A Primeira Tentativa

Em Outubro de 1936 a direcção da “Tuna Comercial Torreense” iniciou, na sua sede, o funcionamento de um Curso Comercial de 6 meses onde se ensinavam as disciplinas de “escrituração comercial”, “contabilidade”, “cálculo comercial” e “caligrafia”. As aulas eram nocturnas e foram inicialmente frequentadas por 30 alunos que pagavam uma mensalidade de 60$00. Esta iniciativa teve um percurso algo irregular e, com o tempo, deixou de corresponder às necessidades da época (O Jornal de Torres Vedras, 15/11/1936)..

A Escola Comercial António Augusto Cabral


(edifício onde se localizava a Escola Comercial António Augusto Cabral)

O crescente desenvolvimento comercial e industrial da região deu um novo alento à associação pioneira na idealização deste tipo de ensino, para voltar a relançar os alicerces de uma Escola Comercial, de acordo com as novas necessidades da educação nacional.

Coube à antiga “Associação Comercial”, agora designada de “Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço”, a responsabilidade pela abertura, em definitivo, de uma escola comercial, criada por alvará de 10 de Outubro de 1944 (CABRAL, Raul, ob.cit.) .

Foi baptizada como Escola Comercial António Augusto Cabral, em homenagem ao homem que, à frente do município torriense em 1919, tinha sido responsável pela instalação da Escola Secundária e, como dirigente da associação comercial local, dos que mais pugnou na defesa da criação de uma escola comercial em Torres Vedras.

As aulas iniciaram-se em 14 de Outubro de 1944, sendo a escola dirigida pelo Dr. Albarran Grilo.

Em sessão solene de abertura desse primeiro ano lectivo, o professor José Carvalho Mesquita, também docente nessa escola, justificava essa iniciativa e a importância desse novo estabelecimento de ensino, pela necessidade de, num “meio comercial, como o é Torres Vedras” se puder oferecer aos seus filhos o ensino da “técnica comercial”, sem que o concelho “tivesse necessidade de importar os seus contabilistas e guarda-livros”.

Essa escola era então “uma promessa, em betão” que funcionava em “acanhadas instalações”, cedidas pela Escola Secundária Municipal, apenas com “um curso nocturno frequentado por 26 alunos e alguns ouvintes”.

Por isso, e porque os “pedidos de matrícula dariam (...) para abrir duas turmas no 1º ano”, prometia-se para o próximo ano lectivo “novas e mais amplas instalações” e aulas diurnas (MESQUITA, José Carvalho, História do Ensino secundário em Torres Vedras, ed. 1969) .

Iniciam-se aulas diurnas

No ano lectivo de 1945/1946, inicia-se um curso comercial diurno com a duração de 4 anos, tendo-se inscrito 101 alunos, inscrevendo-se, no ano lectivo seguinte, 165 alunos. Os filhos dos associados do “Grémio comercial” pagavam uma propina mensal de 80$00, enquanto os restantes pagavam 120$00.

A reforma de 1948 desdobrou esse curso num Curso Geral de Comércio e noutro Curso de Esteno-Dactilografia. Qualquer destes passou a compor-se de dois ciclos, o primeiro com a duração de dois anos e o segundo de três.

A oficialização da escola comercial

Em 31 de Julho de 1952 a Escola Comercial António Augusto Cabral, até então uma escola particular, foi oficializada, de acordo com a nova lei em vigor, tornando-se Torres Vedras a primeira localidade do país a possuir uma escola particular oficializada, o que permitia aos seus alunos que realizassem os exames na sua escola (Badaladas, 15/08/1952) .

Uma nova valência – O Ensino Técnico

Por essa altura, no início da década de 50, inicia-se um debate nas páginas do jornal “Badaladas” com o objectivo de se criar um curso industrial que completasse o ensino comercial e correspondesse às novas necessidades económicas da região, chamando-se a atenção para o Decreto-Lei nº 36409 de 11 de Julho de 1947 que previa a criação de uma escola técnica em Torres Vedras.

Pressionada pela opinião pública, a Câmara Municipal inicia uma série de diligências par conseguir esse objectivo e, em Setembro de 1956, enviava ao Ministério da Educação um bem fundamentado memorando em defesa da criação de uma “escola técnica” em Torres Vedras.

Propunha-se o município subsidiar com 50.000$00 anuais a formação de uma Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, criada a partir da Escola dirigida pelo Grémio do Comércio.

Propunha para essa escola o seguinte “plano de estudos”:

“1º - Ciclo Preparatório;

“2º - Curso Complementar de aprendizagem e electricidade;

“3º - Curso de formação : - de serralheiro; - Geral do Comércio” (Relatório de Gerência da Câmara no ano de 1956, CMTV) .

A Fundação da Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras


(edifício onde foi instalada a "Escola Técnica")

Acedendo ao pedido do município torriense, o Ministério da Educação, através do decreto nº 41258 de 10 de Setembro de 1957, criava a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, substituindo a Escola Comercial António Augusto Cabral, entretanto encerrada, da qual herdou alunos, professores e respectivos processos.

De imediato se iniciaram as obras de ampliação do edifício municipal situado na Av. 5 de Outubro, onde se localizavam as instalações da “Física” e das “escolas primárias” da vila.

Acrescentado de um andar, aí vieram a ser instaladas, a nascente a Escola Secundária Municipal e a poente a nova “Escola Técnica” , enquanto as escolas do ensino primário eram instaladas nos novos edifícios a sul daquelas instalações.

No ano lectivo de 1958/1959 iniciaram-se as aulas da Escola Industrial e Comercial nas suas novas instalações com 261 alunos, número que quase duplicou no ano lectivo seguinte.

O Actual edifício (actual “Henriques Nogueira”) – do projecto à inauguração.



O rápido crescimento do número de alunos matriculados na “Escola Técnica”, bem como as crescentes necessidades de recursos educativos para desenvolver o projecto desta escola, rapidamente levaram a que se colocasse a questão da urgência em construir um edifício de raiz para o seu funcionamento.

No dia 1 de Fevereiro de 1962 foi apresentado, em sessão camarária, um projecto para as novas instalações, da autoria do professor do ensino técnico Luís Manuel Paulo Ferreira, exposto publicamente no ano seguinte.

Contudo, o início da construção desse novo edifício escolar só teve lugar nos finais dessa década.

Finalmente, no dia 20 de Abril de 1970, era solenemente inaugurado, com a presença do então Presidente da República Américo Tomás, o edifício onde funciona actualmente a Escola Secundária Henriques Nogueira, assim baptizada desde 2 de Abril de 1987 (Portaria nº 261/87, de 2 de Abril de 1987).

Recordamos assim a data que hoje se comemora.

domingo, 18 de abril de 2010

Um roteiro por "monumentos e sítios" da cidade de Torres Vedras

Hoje, Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, deixamos aqui uma sugestão de um roteiro pelos mais emblemáticos monumentos e sítios da cidade de Torres Vedras:

TORRES VEDRAS  - PROPOSTA PARA UM ROTEIRO URBANO HISTÓRICO

CASTELO

À sombra da sua muralha nasceu e cresceu o burgo medieval de Torres Vedras. Conquistado (ou negociado) aos mouros por volta de 1148 por D. Afonso Henriques, foi palco de vários episódios da nossa história .

No século XIV, segundo a descrição do cronista Fernão Lopes, Torres Vedras era então “uma fortaleza assentada em cima de uma formosa mota, a qual natureza criou em tão ordenada igualdade como se à mão fosse feita artificialmente” . A vila tinha “uma cerca arredor do monte e na maior alteza dele está o castelo”.

A sua estrutura actual data em grande parte das obras de reconstrução ordenadas pelo rei D. Manuel, situação testemunhada pela porta gótica ogival, datada de 1516, encimada por esferas armilares manuelinas

Já em parte arruinado, mas ainda habitado, o castelo sofreu graves danos com o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Apesar da ruína, voltaria o velho castelo a recuperar a sua importância militar quando, em 1810, foi integrado no sistema defensivo das “Linhas de Torres”.

IGREJA DE STª MARIA DO CASTELO

Sede da mais antiga paróquia da vila, edificada no século XII. Assenta sobre ruínas romanas e visigóticas, sucedendo a uma mesquita .

Da antiga fundação podem ver-se as colunas com capitéis românicos, com símbolos do “cântico dos cânticos”.

Toda a actual estrutura da igreja remonta a obras de restauro de 1662. Tem duas torres de traça seiscentista. Antigamente uma era municipal ( a do relógio) e outra era paroquial (a sineira). Ruiram durante o terramoto de 1755.

PAÇOS DA RAINHA

Foi mandado edificar pela a rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso III, no século XIII. Nele teve lugar do conselho régio de 1414 (24 Julho 1414 ?) onde se decidiu a Conquista de Ceuta que iniciou a expansão marítima portuguesa.

TRAVESSA DO QUEBRA COSTAS

Rua de características medievais, destacando-se o “arco” que une uma casa aos dois lados da rua.

JUDIARIA

Em Portugal D. Dinis, (século XIII), no seguimento dos seus conflitos com o clero, comprometeu-se a obrigar os judeus a morar “apartadamente”.

Em Torres Vedras tal promessa ter-se-á realizado já no reinado do seu sucessor, D. Afonso IV. Os judeus foram expulsos de Torres Vedras em 1499.

IGREJA DE S.TIAGO

Foi reconstruída nos séculos XVI e XVII.

Tem pórtico Manuelino.

Pensa-se que esteve ligada às peregrinações a Santiago de Compostela

IGREJA DE S. PEDRO

Sede de paróquia desde a fundação da nacionalidade foi reconstruída no séc. XVI, datando desta época a sua traça actual.

O seu pórtico manuelino, encimado pelas armas reais (armas com símbolos de Portugal e Castela) atribuídas à rainha D. Maria (2ª mulher de D. Manuel entre 1510 e 1517), é um dos ex-libris de Torres Vedras.

No seu interior merece destaque o túmulo quinhentista de João Lopes Perestrelo e esposa, D.ª Filipa (vinculou a Quinta do Espanhol em 1542, acompanhou Vasco da Gama na sua segunda viagem à Índia em 1502, comandando um navio, e era primo da mulher de Cristovão Colombo).

De destacar ainda o seu rico e variado património de azulejos

Anexa à igreja existe a Casa da Irmandade dos Clérigos Pobres construída entre 1737 e 1769. No seu tecto podem ver-se 4 telas dos Evangelistas (S. Marcos, S. Mateus, S. Lucas e S. João) da autoria de Bernardo de Oliveira Góis e silhar de azulejos do século XVIII, com assuntos tirados da gravuras de Cláudio Coelho .

CHAFARIZ DOS CANOS

Situava-se à entrada da mais importante porta da vila. Dessedentava as montadas, pelo que aí se concentravam várias actividades profissionais como as de ferrador, correeiro e albardeiro.

Data de 1322 o primeiro documento que se refere à sua existência.

Este Chafariz foi reconstruído em 1561 pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel.

Esta fonte é um monumento onde se encontram elementos de diferentes épocas, mas onde domina a arte gótica.

Existem nas faces das colunas do monumento um conjunto de quatro escudos: “ os da frente ostentando o brasão real que remonta ao século XIII, sendo com toda a probabilidade do reinado de D. Afonso III, e os dois laterais da mesma época, representando em três castelos de linhas severas, sóbrias de atavios, o velho brasão da antiga Turribus Veteribus.” ( SALINAS CALADO).


Destaque ainda para o interessante conjunto de gárgulas góticas que decoram este monumento.


CONVENTO E IGREJA DA GRAÇA

A sua construção teve lugar ao longo do século XVI para substituir o velho convento dos eremitas calçados de S. tº Agostinho.

No lugar onde foi construído este segundo mosteiro existia a gafaria de St.º André, cujo terreno foi doado à ordem agostiniana de Torres Vedras, por alvará de D. João III, datado de 26 de Setembro de 1542, para aí se construir este novo convento.

Em 1588 foi prior deste convento Frei Aleixo de Menezes, cuja vida está documentada nos azulejos do século XVIII do claustro.

Por decreto de 30 de Maio de 1834 foi extinto o convento da Graça e os seus frades foram expulsos.

De estilo renascentista, existem no seu interior várias capelas

Na parede da Capela-mor existe um nicho com o primitivo túmulo de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de T: Vedras, que foi prior do primitivo convento desde 1412 e falecido em T. Vedras em Outubro de 1422.


... um Bom Passeio!

domingo, 28 de março de 2010

Recordar um texto de Alexandre herculano sobre Runa, no dia do seu bicentenário

Passando hoje o bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano, um dos primeiros historiadores a interessar-se pelo estudo e divulgação da História Local, em parte devido à importância que deu ao municipalismo na consolidação da nação portuguesa, resolvemos, em memória desse grande vulto da cultura e da historiografia portuguesa, recordar aqui um texto da sua autoria publicado na revista “O Panorama”.

“O Panorama”, revista dirigida por Alexandre Herculano e que se publicou entre 1837 e 1844, publicou no seu número 72 de 15 de Setembro de 1838 um interessante texto, da autoria desse historiador, sobre o então denominado Asilo de Runa (actual Centro Social de Runa), cujas páginas, consultáveis no site da Hemeroteca de Lisboa, reproduzimos em baixo.

(clicar sobre as páginas para ler emtamanho grande)

terça-feira, 23 de março de 2010

Petição contra o pagamento de portagens na "Auto-estrada do Horror"

Depois de terem destruido a Linha do Oeste, parece que agora se procura tornar a única ligação entre Torres Vedras e Lisboa, a A8, num autêntico safari, pejado de armadinhas e perigos, onde se sucedem quase diáriamente os acidentes graves.
Na sua origem aquela auto estrada já revelava grandes problemas de segurança, mas agora, com as obras, viajar nela, ainda por cima tendo em conta a falta de civismo de muitos condutores e a autêntica corrida em que se lançam o imenso número de carros de grande cilindrada que existem nesta região, circular nela, única alternativa para chegar com tempo a Lisboa, torna-se uma imensa aventura à Indiana Jones.
O pior é que continuamos a pagar o mesmo, quando, em determinadas horas do dia, é impossível andar a mais de 40 km hora, principalmente entre a Malveira e Loures.
Em boa hora o PSD de Torres Vedras lançou uma petição para pedir a suspensão do pagamento das portagens enquanto durarem as obra.
A reportagem vem hoje no Público e pode ser lida AQUI.
Quanto à petição, ela pode ser assinada AQUI .

Descendente de Wellington visita as Linhas de Torres Vedras.

(Duque de Wellington, aliás Lord Douro, regressa às Linhas de Torres - Foto Público)

Decorreu este fim de semana um raid hipico, percorrendo as Linhas de Torres Vedras, que contou com a presença do descendente do Duque de Wellington.
O Público de hoje inclui uma grande reportagem sobre mais esse acontecimento comemorativo das "Linhas de Torres", cuja reprodução integral incluimos em baixo, como mais um documento importante para este ano do bicentenário:

"A cavalo pelas linhas onde começou a derrota de Napoleão



Lord Douro é descendente directo de Arthur Wellesley, o general britânico que entrou para a história como herói das guerras napoleónicas. No sábado, montou a cavalo e visitou as Linhas de Torres, o palco onde começou a derrota final de Napoleão. Foi uma viagem no tempo. Por Luís Francisco (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
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Um general inglês, tropas portuguesas e inglesas, mão-de-obra lusitana. A mais antiga aliança militar da Europa produziu os efeitos gloriosos há exactamente dois séculos, quando a terceira invasão francesa partiu os dentes às portas de Lisboa. Em apenas um ano, a visão de Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington) e o suor dos portugueses criaram uma das mais notáveis linhas de defesa da História. Para comemorar o feito, decorre um extenso programa de celebrações, que no sábado passado incluiu a visita de Lord Douro, o descendente directo do homem que travou Napoleão. Tal como o seu antepassado, o nobre britânico montou um cavalo castanho (emprestado por um criador português de cavalos de raça árabe). Ao peito tinha o número 33, exactamente o mesmo do regimento do seu tetravô. E foi assim que largou para o Raid dos 200 Anos das Linhas de Torres Vedras, prova de resistência hípica que juntou algumas dezenas de participantes num percurso pelas fortificações erguidas no início do século XIX e que agora vão sendo recuperadas.

É uma viagem no tempo, um relance sobre o passado que em muito deve às tecnologias do futuro. "Os moinhos dão um jeitão", explica Clive Gilbert, vice-presidente da Bitish Historical Society of Portugal. A paisagem explica o resto: nas ventosas cumeeiras das serras do Oeste alinham-se os ciclópicos moinhos da era moderna, os geradores eólicos. Para os colocar no local e garantir a sua manutenção, os proprietários construíram estradas que rendilham os pontos mais elevados. E foi exactamente aqui que Wellington mandou construir as fortificações das Linhas de Torres.

São, na sua esmagadora maioria, redutos escavados nos pontos mais elevados, protegidos por fossos e parapeitos e munidos de seteiras para permitir a instalação de peças de artilharia. Foram construídos às dezenas (152 no total) num curto lapso de tempo e travaram as tropas napoleónicas lideradas pelo general francês Massena.

As invasões francesas

Um pouco de enquadramento. As ambições territoriais de Napoleão Bonaparte levaram-no a assinar um pacto com Espanha (em Outubro de 1807) e a invadir Portugal, cujo destino seria ser dividido pelas nações conquistadoras. A ideia era isolar ainda mais a Grã-Bretanha, histórica aliada dos portugueses. O primeiro acto foi pouco heróico para as cores lusas: os franceses chegaram, a família real fugiu para o Brasil (levando 15 mil pessoas consigo) e o general Junot tomou as rédeas do país.

Mas então a história começou a mudar. Os franceses não respeitaram a autoridade real de Carlos IV de Espanha e, perante a insatisfação popular, tiveram de concentrar forças no país vizinho. O desembarque em Portugal de Arthur Wellesley e 10 mil soldados britânicos permitiu expulsar os franceses, entretanto já acossados por vários focos de rebelião popular. Era o fim da 1.ª Invasão e a segunda, menos de ano e meio depois, quase não teve história.

Mas em 1810 os franceses voltaram à carga. Desta vez, porém, havia um plano específico para os travar antes de chegarem à capital. Wellington decidiu que as populações das Beiras retirariam das suas casas e propriedades, recolhendo-se a sul das Linhas de Torres. Para trás não deixaram nada que pudesse sustentar as tropas de Massena. A política da "terra queimada" era apenas um dos pormenores da estratégia. Outros eram a formação de linhas sucessivas de fortificações e o estabelecimento de sistemas de comunicação que permitiam saber rapidamente o que fazia o inimigo e movimentar as tropas para fazer face à ameaça.

Começou aqui a ideia de que a informação é poder, um princípio basilar da guerra moderna. O primeiro correspondente de guerra, no sentido mais actual do termo, foi Henry Crabb Robinson, que exerceu a sua actividade para o jornal The Times, primeiro na Alemanha e depois na península Ibérica, incluindo Portugal. Diz-se mesmo que, desconfiando dos relatos que lhe eram fornecidos pelos seus generais, Napoleão tinha espiões em Londres cuja missão era ler os jornais ingleses e reportar ao imperador o que realmente se passava no teatro de guerra...

A história a cavalo

Em Portugal, nos idos de 1810, o que se passava era um jogo de xadrez militar. Wellington organizou a defesa nas Linhas de Torres de forma exemplar. "Era um homem extraordinário", explica Clive Gilbert. "Capaz de ver o quadro geral, mas também de estar atento aos pequenos detalhes."

Clive, um inglês nascido em Lisboa - "sou alfacinha, da freguesia de Santa Isabel" -, fala durante o périplo por várias das fortificações instaladas na região. Mostra como as defesas estavam organizadas em duas linhas sucessivas, mas com alguns fortins pelo meio. "Neste [o número 28, tal como o 29], havia forças preparadas para retardar o inimigo se a primeira linha cedesse, permitindo o reagrupamento das milícias na segunda."

O corpo principal do Exército estacionava por perto, pronto a intervir nos pontos críticos. "As Linhas de Torres eram dinâmicas e essa foi a grande diferença", explica Gilbert. Os generais sabiam sempre o que se passava, porque os postos de observação comunicavam entre si através de um sistema de telégrafo visual (com balões e bandeiras) que utilizava os códigos da Marinha britânica. Um código ainda hoje tão secreto que, ao pedir informações para replicar o sistema no alto da serra do Socorro, as equipas portuguesas receberam apenas dois ou três exemplos concretos de mensagens.

Por esta altura, claro, o descendente de Wellington já não vai a cavalo. Ele cumpriu apenas o sector curto da prova, 20 km por montes e vales, menos de metade do que o grande general palmilhava todos os dias durante a guerra. "Já tinha visitado as Linhas, mas fazê-lo a cavalo é muito especial", assume Lord Douro, enquanto petisca qualquer coisa após a chegada. É por esta altura que lhe dizem que foi o vencedor da competição curta, uma vez que o seu cavalo era o que apresentava melhores índices físicos no final do percurso.

É claro que os outros dois "competidores" se limitaram a fazer-lhe escolta e o ilustre visitante não esconde isso. "Mas eu nem corri... Quem quer que tenha visto a velocidade a que passei percebe logo que não se pode usar essa palavra", graceja. Contou com um cavalo de excelente nível, cujo destino será agora o Qatar. "E era da mesma cor do do meu antepassado, o Copenhagen!"

Uma guerra moderna

"Foi uma sensação fantástica, cavalgar pelos locais onde o meu tetravô andou. Ele não deixou memórias, mas era muito prolífico em relatórios e cartas. Por isso, ao ver esta paisagem, foi como se estivesse a reviver o que ele contava." Bom, com algumas limitações... "Não gostei de ver tantos moinhos; sou a favor das energias renováveis, mas não em paisagens belas e históricas como esta. Na Escócia, acontece o mesmo..."

A boa disposição de Lord Douro (nome que adoptou entre os vários títulos honoríficos da família, retirando o "do" da denominação portuguesa) percebe-se. Quando lhe perguntam se a memória de um herói de guerra como Wellington é um fardo ou uma honra, não hesita: "Não pude escolher de quem descendo. Fiz a minha vida independente disso, nos negócios, na política [foi eurodeputado durante dez anos]. Mas a verdade é que me tem sido proporcionada a possibilidade de visitar e conhecer sítios fantásticos, por causa das homenagens ao meu antepassado."

Sempre com um sorriso para as objectivas dos fotógrafos, o herdeiro de Wellington não se coibiu de brincar com os espectadores que se aglomeravam junto de uma descida particularmente íngreme: "Portanto, vieram até aqui só para me verem cair!" Apesar de já não ser um jovem (fará 65 anos em Agosto), não só não caiu como cumpriu aqueles exigentes (e escorregadios) metros na sela, ao contrário de outros participantes, que desmontaram e levaram o cavalo pela arreata.

É tempo de regressar aos carros e continuar o périplo pelas Linhas de Torres, sempre encontrando pelo caminho alguns dos participantes da prova equestre. Entramos no forte do Alqueidão, onde escavações recentes começam a dar melhor uma ideia do que era este grande reduto a mais de 430 metros de altitude, em linha de vista com a serra do Socorro (395 metros), onde, horas depois, se inaugurou uma réplica do telégrafo visual que tanto ajudou no tempo das invasões francesas. "Belo trabalho dos engenheiros portugueses", realça Lord Douro, perante a velha calçada da estrada militar.

Foi neste e noutros cenários, como as quintas onde se instalavam os generais, que se decidiu a batalha que marcou o fim das ambições napoleónicas de dominar a Europa. Era uma guerra de antigamente. Uma guerra que parava no Inverno. Nessas alturas, os piquetes luso-britânicos e franceses encontravam-se. "Os franceses queriam jornais, os britânicos brandy...", ri-se Clive Gilbert. Já os generais ofereciam-se outros requintes. "Os franceses convidavam os britânicos para assistirem a peças de Moliére em Santarém; os britânicos recebiam os franceses para corridas de cavalos e jogos de futebol [um futebol arcaico, antecessor do actual]."

Era, de facto, uma guerra à antiga. Mas que lançou muitas das bases da guerra moderna. E o seu testemunho jaz, em tantos casos ainda escondido, nas serranias do Oeste. À espera que os portugueses o descubram".

segunda-feira, 22 de março de 2010

...Ainda o Sr. Vinho!

Chegados aqui talvez valha a pena fazer um balanço sobre o modo como se tem debatido a aquisição do “Sr. Vinho” pela Câmara de Torres Vedras.

Parece-me a mim que o debate chegou a um impasse, sem que se tenha discutido o essencial.

Neste momento o “debate” começa a variar entre a demagogia economicista e a mera partidarite, começando já a entrar, aqui e ali, pelo mero ataque pessoal.

Para mim a discussão essencial devia passar pelo debate sobre as seguintes questões:

Até que ponto a arte é um bem público?;

Qual o seu papel na identidade de uma comunidade urbana moderna? ;

Até onde estamos dispostos a gastar financeiramente para valorizarmos culturalmente o meio onde vivemos?;

A obra em questão, de Joana Vasconcelos, será ou não digna de integrar a valorização de um espaço público em Torres Vedras?

Em relação à primeira questão, penso que muito do debate tem estado inquinado exactamente por estarmos a falar de arte e cultura, uma actividade ainda menorizada e considerada como um bem supérfluo por muita gente, lamentavelmente gente com responsabilidades políticas e sociais. Tivéssemos nós a falar de grandes superfícies comerciais, de vias rápidas ou de futebol e provavelmente os números avançados não incomodavam tanta gente!

Quanto à segunda questão, basta olhar à nossa volta, e percebermos a importância da arte para a identidade de Torres Vedras. Se os nossos antepassados pensassem apenas com cifrões não nos teriam dado um Chafariz dos Canos, um Convento do Varatojo, uma capela do Sirol, um rico e vasto património de imagens sacras, pintura, azulejaria, uma edifício como o de Runa, umas Termas dos Cucos… e Torres Vedras seria pouco mais que um dormitório sem identidade.

Claro que valorizar o nosso património e a nossa identidade passa por não ficar parado no tempo e para isso são necessários meios financeiros. Não deixa de ser curioso que a opinião de parte da oposição política local sobre o assunto seja coincidente com a estreiteza de vistas do governo de José Sócrates em termos de investimento e no estafado discurso da crise para justificar todo o radicalismo economicista que ele tem posto em prática.

Continuo a considerar que os meios financeiros em jogo não comprometem outros investimentos nem alteram os valores da dívida aos fornecedores que são apontados. Os nossos políticos locais, mais do que ninguém, deviam saber que não podem misturar alhos com bugalhos.

Eventualmente a divergência podia passar por se considerar Joana Vasconcelos uma artista menor, pouco digna de receber por uma obra sua o valor em jogo. (Para sossegar a mesquinhez de alguns, convém recordar que Joana Vasconcelos não trabalha sozinha, tem à sua volta uma vasta equipa de artesãos e por isso aquele valor não vai todo para o seu bolso).

Contudo não vejo opiniões fundamentadas que ponham em causa essa obra, do ponto de vista artístico-cultural.

Para aqueles que gostam muito de falar, olhando apenas para a camisola política do “adversário”, convidava-os a visitar a obra de Joana Vasconcelos no Centro Cultural de Belém, perceber o significado da sua obra e fazerem a leitura de alguns textos sobre a história da arte nos últimos cem anos, para poderem aferir da sua importância cultural.

A ignorância, e, ainda pior, o fazer jus dessa ignorância, não costuma ser boa conselheira nestas questões.

Bem sei , comparativamente com Caldas da Rainha e Mafra, que os níveis de analfabetismo e de iliteracia neste concelho eram bastante elevados no ultimo censo, o de 2001, mas acredito que eles hoje sejam ligeiramente diferentes e as pessoas já tenham outras exigências que passam, entre outras, por poderem usufruir de uma cidade que faça da arte e da cultura, e cada vez mais, a sua imagem de marca.

quinta-feira, 18 de março de 2010

SIM, SR. VINHO!

A exposição de Joana Vasconcelos é o tema central da edição do Jornal de Letras desta quinzena, que mostra na capa a artista junto do "Sr. Vinho"


A polémica sobre a aquisição, pelo município torriense, da obra “sr. Vinho” , da artista plástica Joana Vasconcelos, continua acesa.

Pelo que tenho lido quase ninguém questiona a qualidade artística da obra.

A questão tem sido mais discutida na perspectiva política e económica.

Politicamente penso ter havido um erro de estratégia, ao fazer-se tabu sobre a sua aquisição, que só foi conhecida após o facto consumado. Acredito que se se tivesse apresentado a proposta publicamente, antes da aquisição, o ruído seria tanto que nunca a veríamos concretizada. O provincianismo ainda tem muito peso nesta terra. Penso que foi um risco calculado, embora …pouco “democrático”.

Infelizmente a polémica também não tem fugido à “partidarite”, como se estar a favor ou contra a aquisição da obra fosse o mesmo que estar a favor ou contra o presidente da Câmara.

Esta questão é muito mais que uma mera questão partidária. É uma questão de opções culturais e de valorização do espaço urbano torriense.

Sobre a perspectiva económica, grande parte das intervenções contestando o preço da obra roçam a mais imbecil demagogia economicista.

O facto de se gastar dinheiro numa obra de arte não impede que continue a haver dinheiro para outras actividades ou necessidades. Claro que, também aqui, se pecou por falta de informação. Afinal quem são e qual o valor do apoio dado pelos mecenas? Quanto vai ser pago pelo município e de onde vêm esses fundos? Estas questões têm de ser respondidas, de forma clara e frontal, pela vereação.

Seja como for o valor avançado não é excessivo para o orçamento de um município como o de Torres Vedras.

Nada disto deve impedir que os torrienses se esforcem para que se concretize a aquisição do “Sr. Vinho”, pois será sempre uma mais-valia para valorizar esta cidade.

Se têm tantos problemas com o dinheiro a gastar, então encontrem uma solução alternativa que pode passar, por exemplo, por uma subscrição pública, mas, por favor, não criem obstáculos á viabilização dessa aquisição. Não repitam aquilo que outros “políticos” torrienses fizeram no século XVI , impedindo a instalação da Universidade em Torres Vedras.

Podem ler mais sobre o “sr. Vinho” e a exposição de Joana Vasconcelos AQUI.



sexta-feira, 12 de março de 2010

Ainda o O Sr. Vinho...achegas para uma polémica.



Este é o artigo que deu início à polémica:

“Senhor Vinho custa 300 mil euros”

A praça em frente ao futuro Mercado Municipal de Torres Vedras receberá a partir de Maio próximo uma obra d’arte de Joana Vasconcelos. A Câmara torriense vem “namorando” há alguns meses com a artista portuguesa, nascida em Paris no ano de 1971, tendo chegado já ao nível negocial do dito artefacto.

Em causa está a aquisição do “Senhor Vinho”, um garrafão em ferro forjado de dimensões gigantescas (5m x 3,5m), como é aliás apanágio das obras d’arte criadas pela artista de renome e pergaminhos internacionais.

O presidente da Câmara, Carlos Miguel, confessou ao Badaladas na noite da passada segunda-feira durante a abertura da exposição onde está integrada a citada peça, no Museu Berardo do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, que o garrafão tem um custo real de ateliê de 300 mil euros (60 mil contos na moeda antiga).

Todavia, o autarca adiantou que há ainda outros dois preços a ter em linha de conta, a saber: um fixado pela própria artista e outro a cobrar à Câmara no acto da compra, sem contudo revelar os respectivos números. Tudo porque o edil está neste momento a negociar o apoio para a aquisição da obra através de dois conhecidos mecenas.

O primeiro deles, garantido desde já, é o banco Santander Totta, e o outro, ainda em fase preliminar de negociações, é a Fundação EDP.

Carlos Miguel, um reconhecido “amante da Cultura e da Arte”, justificou entretanto que a compra do “Senhor Vinho” não é nenhuma “aquisição casuística”, porquanto se enquadra dentro duma vontade assumida em dotar os novos equipamentos municipais com obras de valor artístico reconhecido.

Aliás, “esse percurso coerente”, como adiantou, vem desde os tempos do Estado Novo, em que existia uma norma que obrigava todos os edifícios e equipamentos públicos a exibirem uma obra de arte. “Coisa que ao longo dos tempos foi caindo em desuso”, lembrou o presidente da Câmara.

Ao ressuscitar agora precisamente uma ideia do “tempo da ditadura”, o edil torriense promete que a veia artística vai continuar a ser alimentada em Torres Vedras e a percorrer os trilhos de todo o concelho, anunciando que, a titulo de exemplo, o futuro Centro Educativo da Ventosa tem uma dotação de cerca de 30 mil euros para esse fim.

Recorde-se que já no final do consolado do presidente Jacinto Leandro, o então vereador Carlos Miguel, liderou a aquisição de outras duas obras de arte de renome que foram muito “contestadas” na altura, nomeadamente de mestre Charrua e de Fernando Conduto, hoje localizadas em duas rotundas da conhecida Avenida Poente.

Entretanto, o famoso garrafão gigante, depois de terminada a exposição no lisboeta CCB, viajará até França onde, em Paris, integrará uma mostra de arte internacional. Só depois virá a ser instalado na praça do novo Mercado Municipal torriense, após sofrer algumas transformações de última hora, fazendo jus ao rendilhado das varandas da zona histórica da cidade.

A título de curiosidade, refira-se ainda que o próprio Joe Berardo se mostrou interessado na aquisição da peça, mas já foi tarde pois a Câmara de Torres Vedras adiantou-se ao negócio.

Memória descritiva do “Senhor Vinho”

Uma enorme estrutura em ferro forjado adopta a forma de um garrafão de vinho. A estrutura é percorrida e assim decorada com videiras, impondo a sua presença monumental no exterior do novo Mercado Municipal de Torres Vedras.

Nas grades em ferro que dão forma ao garrafão reconhecemos os padrões característicos de vedações e guardas de varandas. A relação aparentemente distante entre o objecto representado e o elemento que o estrutura é contrariada pela especificidade da zona de implantação da obra.

“Senhor Vinho” assume-se como uma autêntica escultura-caramanchão, onde o elemento industrial e o elemento natural se conjugam numa simbiose perfeita, em clara comunhão e complemento com a malha circundante.

O ferro forjado, material arquitectónico simultaneamente funcional e decorativo, surge investido de importância estrutural na construção do objecto, cuja domesticidade é negada pela hiperbolização da sua escala. A estrutura alusiva ao garrafão e sobretudo as videiras que o envolvem, constituem um micro universo rural transportado para a realidade urbana, contrariando a tradicional incompatibilidade entre esses dois mundos.

Fortemente enraizado na sociedade portuguesa, o vinho assume inegável importância em diversos contextos – social, económico, religioso –, mas a universalidade que se lhe reconhece excede a especificidade única de um país ou região, conferindo à obra uma leitura transfronteiriça e a possibilidade de um diálogo enriquecedor, complexo e estimulante com outras culturas, regiões e países.

Assertivas referências históricas e culturais, e alusões relativas à realidade urbana e ao ambiente doméstico, colaboram numa estratégia de apropriação, descontextualização e subversão da banalidade, transportando o observador para um universo desafiador das rotinas programadas do quotidiano, um mundo estranho e simultaneamente familiar”.

Fernando Miguel ,in  Badaladas 5-3-2010

… e esta foi a resposta do presidente do município à polémica desencadeada:

“Sr. Vinho - DESINFORMAÇÃO

“Na sequência da notícia publicada na edição de 05/03/10 do Jornal Badaladas, cumpre-me esclarecer:

Pela mão do seu Director, o Badaladas, na sua edição de 05/03/10, deu notícia sobre a aquisição pela Câmara Municipal, de uma obra de arte de Joana Vasconcelos, sob o título “Senhor Vinho custa 300 mil euros”.

Não querendo pôr em causa o conteúdo da informação, não posso deixar passar em claro a desinformação que o título contém, pois é falso e o Sr. Director sabe que é falso.

É bom que se diga que os órgãos de comunicação social regionais foram convidados a estarem presentes na inauguração da exposição retrospectiva da artista plástica Joana Vasconcelos, que ocorreu no dia 01/03/10, no Centro Cultural de Belém, tendo o Badaladas enviado o próprio Director do Jornal.

Na declaração aos jornalistas ocorrida no local, à primeira e única pergunta feita pelo Badaladas, “quanto é que custa?”, por mim foi dito que teríamos que equacionar três valores: o valor da obra atribuído pela Artista que é de € 300.000,00, o valor de aquisição pela Câmara Municipal que não estava em condições de revelar, a pedido da Autora, mas que é muito inferior ao valor da obra e, ainda, o valor dispendido pela Autarquia que será inferior ao valor da aquisição, pois estamos a negociar o patrocínio da peça com duas instituições nacionais.

Fácil é concluir ser errada e falsa a informação que “Senhor Vinho custa 300 mil euros”.

Mais grave ainda, é não se tratar de um lapso ou de um erro de interpretação, pois o Sr. Director tem consciência que esse não é o valor de custo da escultura para a Câmara Municipal, tendo agido e escrito de forma deliberada.

Lamento que o “Badaladas”, neste caso, e por intermédio do Sr. Director, não tenha cumprido a sua função de informar as pessoas, nomeadamente os torrienses.

Por último, um reparo, uma informação e uma sugestão.

O reparo pelo facto do Sr. Director tendo estado na inauguração da exposição da Joana Vasconcelos, que será certamente um dos acontecimentos do ano no mundo das artes plásticas em Portugal, não tenha dedicado uma palavra, uma letra sequer, ao currículo da Artista e ao seu percurso internacional, o que revela o espírito e propósito da peça (des)informativa.

A informação, é que ao contrário do que é dito no artigo, a Câmara Municipal não se adiantou a ninguém na aquisição do “Sr. Vinho”.

A Câmara Municipal convidou a Joana Vasconcelos a apresentar proposta de uma obra de arte para o Mercado Municipal, tendo a mesma respondido através de dois projectos, onde se incluía o “Sr. Vinho”, sobre o qual recolheu a escolha.

Depois de negociado o valor da aquisição, em condições verdadeiramente excepcionais para a Câmara Municipal, a escultura foi produzida para Torres Vedras, ficando prevista a possibilidade de vigorar na exposição do CCB, caso ficasse pronta a tempo.

A sugestão, é que visitem a exposição da Joana Vasconcelos no Centro Cultural de Belém, onde encontrarão um percurso muito coerente e quase sempre divertido pelas obras da Artista e, à entrada e/ou à saída, vejam o “Sr. Vinho” que está no Jardim das Oliveiras, sendo já um pedaço de Torres Vedras em Lisboa.

Numa altura em que a pressão sobre os órgãos de comunicação social está na ordem do dia, faço questão de pessoal e publicamente dar conta do que considero uma desinformação, não para pressionar quem quer que seja, mas tão só para repor a verdade.

Ao “nosso” Badaladas, mas muito especialmente ao Sr. Director, apresento os meus votos sinceros de melhor (in)formação".

Carlos Manuel Soares Miguel
(Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras)
5 de Março de 2010.

Entretanto surgiram no facebook dois movimentos:
Um contra aquela iniciativa , intitulado “300 Mil Euros por um Garrafão … não”e que justifica a sua iniciativa com os seguintes argumentos:

"Num cenário de profunda recessão em Portugal, motivada por uma crise económica que fez a taxa de desemprego e o défice dispararem para níveis históricos, e onde cada dia mais Portugueses e Portuguesas ficam sem emprego, esta tende fazer verdadeiros milagres para assegurar a sua subsistência, onde também deve ser dado um exemplo por parte dos nossos governantes, que incentive a recuperação económica e ponha fim ao despesismo, o Presidente da CMTV propõe-se a gastar mais de 300 mil euros num garrafão. Não pondo em causa a qualidade artística do mesmo, e verdade é que existem muitas outras prioridades neste nosso concelho.
O Presidente da Câmara não colocou o assunto à consideração da vereação, nem sequer o referiu em Assembleia Municipal, optando, antes, por agir por sua livre iniciativa".

… outro de apoio, intitulado “Eu sou fão do garrafão”.
Deste último transcrevemos um “post” da autoria de Alfredo Reis:

2Grande polémica que anda aí por Torres!
Só me apercebi disso ontem (o Badaladas chega-me à 3ª feira).
Tentei, através dos grupos de fãs do Facebook perceber o que se passava.
Pelo que me parece, o que está em causa não é a qualidade artística da peça ou a capacidade da sua autora. Não tenho sequer conhecimento ou sensibilidade suficientes para poder dar uma opinião definitiva sobre qualquer uma delas (obra e autora).
Não sou daqueles que, pelo facto do país se encontrar na complicada situação que todos conhecem e reconhecem, acha que não se deve investir em mais nada e que não há mais vida para além do combate à crise.
Não! O investimento em arte é pedagógico e aconselhável”.

A polémica continua…