sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA DO CARNAVAL DE TORRES - Breve Apontamento

Os primórdios

(A Primeira Fotografia do carnaval de Torres - 1911)

A primeira referência a brincadeiras de carnaval em Torres Vedras data do tempo de D. Sebastião, num documento datado de 1574.Trata-se de uma queixa de Jerónimo de Miranda, morador na Vila de Torres Vedras contra uns "moços folgando com um galo” no dia do Entrudo e que provocaram uma briga.

Só com o aparecimento da imprensa local, em 1885, surgem as primeiras referências ao Carnaval de Torres, geralmente referido como “desengraçado” e “sem espírito”. Durante anos o carnaval de Torres limitou-se aos bailes e récitas nas colectividades e em casas particulares, quase sem nenhuma animação de rua, excluindo um ou outro grupo de mascarados desfilando numa ou noutra carruagem enfeitada.

No início do século XX o carnaval continuou a viver apenas da animação nas colectividades.

Nesta ocasião as colectividades realizavam-se "cançonetas",comédias, revistas teatrais e récitas, com temas adequados à quadra e bailes de máscaras.

Em 1901 o carnaval incluiu uma novidade, a primeira exibição do "animatógrafo" em Torres Vedras, no Grémio, segunda feira de carnaval, dia 25 de Fevereiro .

Não foi o assassinato de D. Carlos, em 1 de Fevereiro de 1908, que impediu o carnaval desse ano, realizado menos de um mês após a tragédia, de ter sido o mais animado e mais político dos até então festejados em Torres Vedras, o que talvez revele a influência dos republicanos na recuperação do carnaval de rua.

Com o advento da Republica o carnaval de rua, em Torres Vedras, começa a adquirir maior animação.

1912 parece ter sido um ano crucial, referindo-se “A Folha de Torres Vedras” à importância do programa então elaborado pelas colectividades da terra (Casino, Grémio, Tuna e “Salão-avenida animatographo”),que deu ao carnaval desse ano uma animação “extraordinária, superior à dos anteriores (...)”,tendo-se até formado uma comissão para animar as ruas que, acompanhado da filarmónica ("Torreense"?), o fez pedindo donativos “para distribuir na terça-feira um bodo aos pobres”.Também para os dois dias de carnaval foi organizada, pela classe dos tanoeiros, uma aparatosa mascarada, executando"graciosas danças", sendo ainda muito comentado um grupo de mascarados que surgiu na terça-feira parodiando as tropas contra-revolucionárias de Paiva Couceiro(que no ano anterior tinha ensaiado uma primeira tentativa de restauração da monarquia) “arrancando as gargalhadas a toda a gente, pela graça e sobretudo pela cópia fiel dos aguerridos paivantes de mantas às costas e marmitas e entre os quais se viam policias, guardas municipais, muitos padres e jesuítas”.

Quem sabe se não terão sido estes os antepassados das “tropas” que ainda hoje costumam acompanhar o cortejo "real","ministros" e"matrafonas".

Esta manifestação chegou mesmo a merecer destaque nas páginas da "Ilustração Portuguesa", onde se publicou aquela que é a mais antiga fotografia conhecida do Carnaval de Torres.

Até aos anos 20,o carnaval torriense continuou em dispersas, variadas e espontâneas actividades: enfarinhar o cabelo das raparigas, atirar saquinhos de grainha, tremoço seco e farinha,"assaltos" em grupo a casas particulares, alguns grupos de rapazes percorrendo as ruas em trens abertos, carroças e galeras (de tracção animal), umas burricadas e a visitas a colectividades locais.

A invenção do Carnaval de Torres (1922/23 – 1926)

Em 1922, um grupo de mascarados percorreu as várias colectividades da então vila de Torres Vedras, fazendo a ligação entre o tradicional carnaval das colectividades e o carnaval de rua.

O êxito dessa iniciativa levou à formação, no ano seguinte, de uma comissão para estruturar melhor o carnaval de 1923. Neste, imitando o que se fazia em Coimbra e em Lisboa, realizou-se a primeira recepção, na estação ferroviária, ao Rei do Carnaval, então ainda sem a companhia da “rainha. Seguiu-se um cortejo carnavalesco que, saindo do pátio de Francisco Alves, percorreu todas as colectividades da vila.

“Nascia” assim o carnaval de Torres.

No ano seguinte, o rei "D.Carnaval II" foi esperado na estação do caminho de ferro, recebido por um "esquadrão de cavalaria e burraria" e por um "batalhão de marinheiros de água doce", "ministros" e "embaixadores". Foi ainda recebido por vários coches, de entre os quais se destacou um com os "altos dignatários", como o "cardeal", "o bispo", o "cónego", e o "acólito". Esta paródia a elementos da Igreja foi posteriormente abandonada, quer devido a pressões políticas, quer pelo facto de, em dois anos sucessivos, aqueles que se disfarçaram de cardeais terem falecido, o que contribuiu para a superstição, todos se recusando, daí para a frente, assumir essa máscara.

O cortejo seguiu depois em visita às sociedades de recreio, tendo lugar um banquete de gala no Hotel Natividade. À tarde realizou-se um desafio de futebol na Porta da Várzea. As festas terminaram no "Grémio Artistico e Comercial" com o baptismo do príncipe real e a presença, pela primeira vez da "rainha", desde logo representada por um homem, Jaime Alves, costume que se manteve até aos nossos dias.

Este torriense foi “ a rainha” que reinou durante mais anos, até ao início dos anos 50, acompanhado no trono, durante as três primeiras décadas de Carnaval de Torres, pelo “rei” Álvaro André de Brito. Este “reinado” foi apenas interrompido em 1940, fazendo de rainha Gil Lopes.


É neste período que surgem as célebres “matrafonas”, ainda hoje imagem de marca do Carnaval de Torres.

Anos 30 e 40


Durante os anos de 1927 a 1929 o carnaval de rua organizado conheceu a sua primeira interrupção. Estávamos nos primeiros anos da Ditadura Militar do 28 de Maio, facto que não terá sido alheio a esse interregno.

Em 1930 o Carnaval de Torres regressa às ruas e, no ano seguinte, tem lugar a primeira “batalha de flores”, em recinto fechado e pago, realizando-se o cortejo num único dia, na segunda-feira de carnaval, com desfile de carros alegóricos particulares e de firmas comerciais

O ano de 1933 foi o da afirmação e projecção a nível nacional do Carnaval de Torres, com participação financeira da câmara municipal e uma vasta campanha de propaganda na imprensa nacional, alargando-se o desfile para dois dias e às ruas Tenente Valadim e 9 de Abril. Estiveram presentes mais de 20 mil pessoas. Também pela primeira vez foi atribuído um prémio para o carro de carnaval mais original.

Neste ano, os "reis" chegaram de comboio, na manhã de 2º-feira, lendo-se, na ocasião, um discurso de recepção real, da autoria de Domingos Lino. Para os saudar, as janelas foram engalanadas com colchas.

A Segunda Guerra provocou um novo interregno destes festejos a partir de 1940.

Nesse ano de 1940 estavam proibidos os festejos de carnaval, por causa da guerra. Para tornear mais esse obstáculo, constitui-se uma comissão formada por um representante de cada colectividade (Tuna, Grémio, Operário, Casino e Sporting Club de Torres) que pediu ao presidente da Câmara para autorizar a realização do tradicional carnaval de Torres. Este autorizou-o, desde que não se fizesse propaganda, para não chegar ao conhecimento das autoridades de Lisboa, e foi assim que o carnaval de Torres ainda se realizou esse ano.

No ano seguinte, 1941,ensaiou-se o mesmo estratagema, desta vez sem êxito, devido à pressão das autoridades, mantendo-se a proibição no ano seguinte.

Em 1943, apesar da proibição do carnaval de rua, este regressou às colectividades, no Grémio, no Operário, na Tuna e no Casino. Nestas duas últimas colectividades exibiu-se a "Orquestra Sulfidrofónica", diversão musical formada por alunos da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras. No Casino chegou mesmo a realizar-se uma recepção ao rei carnaval e reviveu-se o célebre corso, com desfile de “carros” e o tradicional discurso de carnaval..

Anos 60 – O Carnaval de Torres afirma-se


Logo em 1946 retomou-se a tradição do carnaval de rua, constituindo-se uma comissão que levou a efeito a evocação da Iª Visita do Rei Carnaval a Torres Vedras. Os Reis de Carnaval foram recebidos e aclamados quando da sua chegada à estação de caminho de ferro, organizando-se um vistoso cortejo, que, percorrendo as ruas da vila, visitou as colectividades recreativas, a cujas direcções SS.MM. apresentaram os seus desejos de muita alegria, durante os três dias que lhe eram consagrados.

Mas foi só em 1950 que se organizou um cortejo com as dimensões da fase anterior. Em 1951 tomaram posse os novos "reis" do carnaval, Levy Miguel dos Santos (o "rei") e António Agostinho ("a rainha").

Contudo, em 1953 o carnaval sofreu nova interrupção e, apesar de se ter realizado em 1955, só a partir de 1960 conhece um novo alento.

Realizando-se em 1959 uma reunião magna no Teatro-Cine para relançar o Carnaval de Torres, formou-se uma comissão que, apoiada na estrutura organizativa da Física de Torres, recuperou, em 1960, o cortejo de rua que teve lugar durante dois dias, agora ao Domingo e à terça-feira.

Nos anos 60, a chegada dos reis do carnaval passou a efectuar-se no Domingo de manhã, na estação de comboios, sendo recebidos com o discurso do “primeiro-ministro”. Nos anos 90 acrescentou-se a essa cerimónia a entrega, pelo Presidente da Câmara, da chave da cidade à comitiva real.

Os discursos de carnaval, proferidos pelos sucessivos “primeiros-ministros” em honra à comitiva real, como acto de abertura oficial do Carnaval de Torres, tornou-se uma ocasião especial para fazer crítica social e política, especialmente interessante nos anos 60, quando a censura ainda dominava.

É neste período que surgem os “Zés Pereiras”, os quais, acompanhados dos gigantones e dos cabeçudos, se tornaram uma presença obrigatória no Carnaval de Torres até aos nossos dias. É então também que surge a “Pandilha”, presente pela primeira vez em 1948, que, percorrendo as colectividades locais, aproveitava a ocasião para fazer crítica social e política, o que lhes acarretou alguns problemas com as autoridades.

Facto inédito foi a visita feita ao "rei" do carnaval de Torres, no carnaval de 1970, por um segundo "rei" ("D.Rachadinho I", rei da "Brejenjolândia" d` àlém sizandro) que, chegando ao aero-clube de Santa Cruz com a sua corte, se encontrou com o de Torres para a "Assembleia ANU" (Assembleia dos Naturais do Universo), que teve lugar no Campo do S.C.U.T. no Sábado Gordo.

Deste período, nas décadas de 60 e 70, há que recordar João Maria Brandão de Melo, rei do carnaval durante 25 anos, desde 1966, e que "abdicou", em 1990, a favor de seu filho Bruno Brandão de Melo, representando o primeiro caso de sucessão dentro da mesma família, ou José Manuel Abrantes, "rainha" durante 19 anos, até 1991, "a" "rainha" mais bonita de sempre", tendo enganado muitos incautos , que "a" perseguiam julgando que era mesmo uma mulher. Ao abdicar a favor de António Manuel dos Reis (Mima), tornou-se na primeira “rainha mãe” da história do Carnaval de Torres.

Até 1974 o carnaval só conheceu uma interrupção em 1963 e 1964, por imposição das autoridades, por causa da “guerra colonial”.

Luís Brandão Pereira de Melo foi um dos principais responsáveis pelo relançamento do carnaval nos anos 60, período no qual se destacou a arte de um Luís Faria.

Finalmente a Liberdade


As liberdades conquistadas a 25 de Abril prometiam uma nova expansão do Carnaval, pois esta quadra sempre se deu mal com ditaduras e autoritarismo.

Lamentavelmente, as lutas políticas que se seguiram àquela data e a afirmação de um novo tipo de “ditadura”, a económica, quase acabaram com o Carnaval de Torres.

Este não se realizou em 1975, e só em 1978, com a formação de uma comissão de carnaval, patrocinada pela Câmara Municipal e pela respectiva comissão de turismo, regressou às ruas de Torres.

Em 1983 e 1984 o carnaval passou por um novo período difícil, sofrendo um grave rombo orçamental em 1983 e interrompendo a sua realização em 1984, devido às graves consequências, para a região, das inundações do inverno de 1983.

É então que a vereação da cultura e turismo, presidida por António Carneiro, tomou nas suas mãos a decisão de se responsabilizar pela organização do evento, transformando-o num dos principais cartazes turísticos da região.

O carnaval de 1985 marcou assim um novo e definitivo arranque do Carnaval de Torres, iniciando-se aí aquela que é a sua fase actual. A partir de 1988 a sua organização passou a obedecer a uma temática unificadora, que, ao longo dos anos, foi passando do recinto do corso para todas as entidades envolvidas na animação daquela quadra : bares, desfile das escolas, grupos espontâneos de mascarados.

A partir dos anos 90 o desfile de todos os alunos das escolas do concelho mascarados, na Sexta-feira antes do Carnaval, tornou-se num dos pontos altos da festa, generalizando-se a formação de grandes grupos de mascarados que percorrem colectividades, discotecas e bares durante esses dias, e que animam ainda os corsos diurnos e, desde 1995, o corso nocturno de Sábado.

Mais polémico foi a criação, neste ano, do carnaval de Verão, que se realiza em Santa Cruz.

Actualmente a sua organização é da responsabilidade de uma empresa municipal.

Este período mais recente fiou marcado pela qualidade dos carros alegóricos imposta pela arte de José Pedro Sobreiro, que fez escola e teve excelentes seguidores em vários artistas locais que colaboram na imagem iconográfica do Carnaval, com destaque para António Trindade, António Travanca e Sarzedas. Actualmente deve-se à empresa Gulliver a responsabilidade pela arte oficial do carnaval.

O Carnaval e a Máscara


O uso de máscaras é um dos elementos mais característicos do Carnaval. As máscaras tradicionais eram feitas de vários materiais, tais como a madeira, o couro, a lata, a cortiça, o cartão, materiais recentemente substituídos pelo plástico ou pela fibra de vidro.

Contudo, um mascarado não se esgota no disfarce do rosto, antes completa-se com um traje, mais ou menos adequado.

A notícia mais antiga sobre o uso de máscaras carnavalescas em Portugal data de um alvará de 20 de agosto de 1649, que proibia ”andar a pé pelas ruas, embuçado, com chapéu ou sem ele e assistir com bioco nas igrejas”. Diz-se que esse costume seria mais antigo, pois rezam as crónicas que D. JoãoII teria comparecido ao casamento do filho mascarado.Com a Inquisição, usar máscaras tornou-se uma heresia e atirou muita gente para a fogueira. Só nos finais do séc. XVIII as máscaras voltaram a fazer a sua aparição, principalmente nos majestosos bailes da corte absolutista de D. João V.

Uma das mais famosas máscaras do carnaval português foi o “Xéxé", surgido em Lisboa, após a vitória liberal, cuja máscara ridicularizava os miguelistas, também conhecido por “peralta”, ”salsa” ou “pisa-flores”, o “xéxé” envergava, invariavelmente, uma casaca de muitas cores, sapato de fivela, cabeleira de estopa, punhos de renda e um imenso chapéu bicorne com uma inscrição mais ou menos obscena. Usava, além disto, um bastão rematado por um chavelho, uma faca enorme e uma luneta”.

As Máscaras no carnaval de Torres


Na sua já longa história, houve máscaras que se distinguiram no Carnaval de Torres, umas assumidas individualmente, outras em grupo.

De entre as primeiras destacou-se a imaginação de Edmundo Carnide que, nos anos 30, vestido de bôbo, percorria o país a fazer propaganda ao carnaval ou, mais recentemente um Stélio que, vestido de polícia, “desorganizava” o trânsito das ruas do côrso, máscara que continua a aparecer por iniciativa de um neto seu.

De entre as segundas, o destaque vai para as “Matrafonas”, imagem de marca do Carnaval de Torres, homens mascarados de mulheres. Esses grupos de “matrafonas” surgiram por iniciativa de “indivíduos que vestiam um fato de mulher - mas que não ficava bem a senhora nenhuma. Procuravam era vestir um fato que lhes ficasse horrivelmente mal e feio. Por exemplo, não se usavam colares encarnados, pois ele procurava era arranjar um colar encarnado; não se usavam toucas na cabeça, pois ele procurava era arranjar uma touca horrivelmente mal feita para ir para a rua”.

O costume de os homens se mascararem de mulheres já existia nalgumas aldeias do concelho, onde os homens do campo, com poucas posses, recorriam às roupas velhas das mulheres e a caraças feitas de caixas de sapato para se mascararem, de forma barata, durante o entrudo.

Aparecem referenciadas pela primeira vez em 1900, integradas numa “dança vinda de Runa e em que figuravam em travesti de bailarinas uns perfeitos mocetões, um dos quais” comentava a imprensa da época, “até impressionou vivamente dois amigos nossos”.

O "travesti" é uma das máscaras mais características e populares do carnaval. Época de transgressão, de violação das fronteiras e regras sociais, a inversão de papéis tradicionais, nomeadamente os domésticos, entre homem e mulher, é dos mais comuns.

Nas primeiras descrições conhecidas do carnaval de rua em Torres Vedras aparecem sempre referências a outros grupos de mascarados, que se têm mantido até aos nossos dias, como os “ministros” ou os “militares” que acompanham o cortejo real.

Outro grupo que integrou os festejos carnavalescos ao longo de muitos anos foi a " Pandilha". Criado provavelmente em 1948 e, tomando o nome de um outro agrupamento mais antigo, manteve-se em actividade até 1990, sempre com a mesma composição do início, sendo um bom exemplo das tradicionais cégadas. Em todas as noites das segundas feiras de carnaval , este grupo percorria as colectividades locais, onde se realizavam os bailes de carnaval e criticava ou gozava com as situações que marcavam a vida torriense, através das suas rábulas : “eram para aí uns 20 ou 30 que deliciaram as mentes pérfidas torreenses que adoram gozar com a desgraça alheia”. Kropotkine Vicente dos Santos foi o grande dinamizador da "Pandilha", da qual se destacaram também Jucelino Batalha, Stélio Justino Batalha, Francisco Porfírio (o "Chico da Bola"), Fernando Leiria, Augusto Cândido, Carlos Alberto Miranda, Jorge Ferraz, Pedro Calado e Luís Manuel Correia ("Corneta"),entre outros.


Actualmente, um dos momentos altos do carnaval torriense tem lugar na Sexta-feira que antecede o Entrudo com o desfile de máscaras pelas ruas da cidade, onde participam milhares de alunos das escolas e jardins de infância do concelho, costume que se iniciou em 1991, quando a Escola Secundária Madeira Torres promoveu um concurso de máscaras por turmas, para desfilarem pelas ruas da cidade naquele dia da semana.

CABEÇUDOS; GIGANTONES E ZÉS PEREIRAS


Carnaval sem cabeçudos, gigantones e “zés pereiras”, não é carnaval, povoando o imaginário infantil de muitas gerações de torrienses, que provam os seus medos pela forma como, durante o carnaval, enfrentam tão ilustres personagens.

Inicialmente apenas desfilavam os gigantones e cabeçudos, como aconteceu em 1935, quando desfilaram pelas ruas 50 cabeçudos e gigantones, da autoria do artista Celestino Muñoz.

A construção de tão simpáticos personagens foi um dos meios onde se revelou a imaginação dos artistas torrienses, sendo inicialmente fabricados em papelão e gesso.

Quanto à temática dessas figuras tradicionais do carnaval torriense, tem havido a preocupação de abranger um leque variado de temas desde a fantasia pura e simples à crítica social e política, passando pelos temas clássicos (mitologia).

Desde os anos 60 que desfilam acompanhados pelos "Zés Pereiras", com os seus bombos e gaitas-de-fole.

Sexta-feira à noite costuma ter lugar, no largo da estação , a recepção aos "Zés Pereiras" que, acompanhando com os seus bombos os cabeçudos e os gigantones , iniciam o seu desfile pelas ruas da cidade, tarefa que executam incansavelmente até ao início da noite da Terça-Feira Gorda.

OS CARROS DE CARNAVAL


Até aos anos 20, o carnaval torriense consistia em dispersas, variadas e espontâneas actividades como enfarinhar o cabelo das raparigas; atirar saquinhos de grainha, tremoço seco e farinha, "assaltos" em grupo a casas particulares, umas burricadas e a visitas a colectividades locais. Alguns grupos de rapazes percorrendo as ruas em trens abertos, carroças e galeras (de tracção animal) estão na origem da construção dos carros que hoje constituem o atractivo principal do côrso carnavalesco.

Durante os primeiros desfiles de rua organizados, os carros alegóricos eram de particulares ou de casas comerciais. Alguns dos mais criativos carros de carnaval de Torres foram os que desfilaram nos anos 30.

Em 1931, num dos primeiros desfiles em recinto fechado, destacaram-se no desfile alegórico desse ano o carro de Raul Rocha, de reclame à sua casa fotográfica, o carro de Rocha Peixeiro e Miguel Mendes, o carro de João Rufino dos Santos, um grande sapato propagandeando a sua Sapataria 1º de Dezembro, o carro das ceifeiras, o carro de Souza e Manarte, um enorme bacalhau, o carro de João Henriques dos Santos com os cinco diabos, o carro do vinho, o carro da casa Leão. Alguns desses carros foram da responsabilidade de Amílcar Guerreiro

Em 1932 ficaram famosos carros como “A Concha”, ”O Golfinho", ”a Lira”, ou o carro real, da autoria de Celestino Muñoz, uma“Quadriga Romana”.

Uma das novidades do desfile de 1933 foi a atribuição de um prémio para o carro mais original ganho pelo carro “Taça de Champagne”. Aliás, nesse ano apareceram alguns dos carros mais originais de sempre, como o“Ovo", da autoria de Faustino Antolin, o “Penedo do Guincho”, feito por Luís Faria e propriedade de José Joaquim Miranda ou o célebre “Elefante” como carro do rei, ou ainda o"Couraçado", o "Moinho Holandez", "O Peixe" de A.Rocha, o "Campo de Aviação de S.tº Cruz" de Raul Rocha, "o Cesto" de do Dr. José de Bastos, o "Cesto de Flores" de Jacinto Custódio Rodrigues, o "Barco de Pesca", o da "Festa na Aldeia", o "Comboio Mistério", todo particulares, bem como carros de cariz publicitário, como o carro da Casa Hipólito, "minhotas", o carro reclama da "Horta Nova", de J.A.Lopes junior (um grande garrafão) ou o carro reclame de produtos "banacáo", sendo ainda de destacar o expontâneo grupo de bicicletas “mascaradas”. Muitos dos temas dos carros deste ano marcaram, durante anos, o estilo de outros desfiles.

Dos carros alegóricos de 1935 é de recordar a "quadriga romana", carro dos reis, feito por Celestino Muñoz, coadjuvado por José de Castro Marvão," a concha" puxada por golfinhos que era o carro dos príncipes, tal como existiam os carros das damas de honor ,dos jornalistas e da aviação. De recordar também o "ninho de cegonhas", a “lira” da Tuna, o "circo Malcheiroff”, o "cantar da sereia", o "carro dos pirolitos", o "ferro de engomar", a "banheira e bacio ",carro de reclame das "baterias philco", o " carro das borboletas", ou a "Tôrre de Belém", entre muitos outros carros.

Em 1936 foram introduzidas algumas novidades: pela primeira vez é proposta a participação das freguesias do concelho, que podiam apresentar um carro de carnaval cada uma. Por outro lado, a comissão dos festejos comprometia-se a comparticipar em 30% das despesas para os carros particulares, e estava disposta, no caso da receita chegar, em elevar o subsidio até 50%.

Em 1951 apareceram sete carros da comissão e vários particulares ou comerciais , destacando-se os seguintes : "Astrólogos e fadas", "Marroquinos", "A Torre de Belém", "A Galé do Pirata", "A Arca de Noé", "Os Cegonhas", "O Mafarrico", "O Coreto de saudosa memória", "A lanterna da incandescência a iluminar o mundo"(da Casa Hipólito) , "a bomba da trasfega"(da casa "FAS"), "A Cerâmica do Outeiro", "O Carro eléctrico" da "Companhia dos carrinhos de Linha de Torres" e o "Trenó", carro real

Para o carnaval de 1966 realizou-se pela primeira vez um concurso público de desenhos de carros alegóricos ,com o objectivo de "elevar o nível artístico dos carros participantes no corso, de modo a situá-lo mais de harmonia com a extraordinária projecção já atingida", e, ao longo dos anos 60, a confecção dos carros tornou-se mais profissionalizada, dispondo a comissão de carnaval de umas oficinas gerais na Fonte Nova, sob a direcção técnica do mestre Heitor e do construtor José Moleiro .

Os carros alegóricos passaram a ser fabricados nos estaleiros de "Arenes" desde 1981.Actualmente os carros oficiais são fabricados pela empresa Guliver, mas têm aparecido vários carros elaborados por espontâneos, freguesias ou escolas

O material de base , para construção dos carros passou então a ser constituído por madeira de pinho, esferovite, gesso, aglomerados e tinta. Antigamente a estrutura dos carros assentava em galeras de rodado de madeira. Actualmente e desde 1987, assentam em chassis feitos de propósito.

Os primeiros carros eram puxados por juntas de bois. Hoje é destacada uma frota de tractores para os puxarem pelas ruas do côrso.

ICONOGRAFIA

 
Quase oito décadas de Carnaval torriense contribuíram para a criação de registos iconográficos de grande valor artístico que infelizmente nunca foram conservado convenientemente.

Cartazes, folhetos, esboços, para propaganda ou de apoio à actividade criativa ligada ao carnaval (decorações, carros, cabeçudos...), revelam-nos a faceta de grandes artistas locais que sempre deram o seu contributo para tornar o Carnaval de Torres uma arte.

Nesta arte distinguiram-se, nos anos 30, artistas como Amílcar Guerreiro ou Celestino Muñoz

Talvez o mais famoso de todos, Amílcar Guerreiro, natural de Torres Vedras, onde nasceu em 1907, falecido em Lisboa em 1982 , artista plástico, foi o autor de vários carros, decorações e do logotipo do carnaval de Torres. Profissional ligado à fotografia, trabalhou no Brasil durante a segunda guerra, tendo aí colaborado com escolas de samba.

Mestre Heitor, Luís Faria e José Afonso Torres foram os artistas que marcaram os anos 60.

Destes, destacou-se o pintor Luís Faria. Nascido em Lisboa em 1899 e falecido em Torres Vedras em 1966, era o artista responsável pelo restauro de igrejas e capelas do concelho de Torres Vedras e esteve ligado ao Carnaval torriense desde os anos 30, sendo o responsável pela criação de alguns dos mais fabulosos carros do carnaval de Torres.


Nas décadas mais recente têm-se destacado artistas como José Pedro Sobreiro, António Trindade, Travanca da Costa, Efrem Faria ou os irmãos Sarzedas.

O ENTERRO DO ENTRUDO

A "Quarta-feira de Cinzas" marca o final do Entrudo e o início da Quaresma e a esta ocasião estão ligadas várias cerimónias, entre elas a do o “enterro do Entrudo

Ainda no século XIX este dia era ocupado, em Torres Vedras, com a Procissão das Cinzas, organizada pela Ordem Terceira de S. Francisco que a isso se obrigava por compromisso declarado no "breve" dessa instituição , datado de 21 de Novembro de 1676.

Com 9 andores, muitos "irmãos", uma filarmónica (durante anos a "Phylarmonica Torreense"), gente da vila e arredores, e uma guarda de honra com forças militares destacada para Torres Vedras, todos os anos, por essa ocasião, a procissão percorria o Largo de S.Tiago, a "rua da olaria", a do "Espírito Santo", a praça municipal, a rua de S.Pedro , a "travessa dos canos", as ruas "de trás do Açougue" e dos "celeiros”.

Bem diferente é a "procissão" que actualmente tem lugar em Quarta-Feira de cinzas.

Com origem nos tradicionais "enterro do entrudo" e "serração" da velha” muito referenciados na região Oeste, o enterro do carnaval já por cá se fazia pelo menos desde 1908.

Este costume realizava-se regularmente nos anos 30, quando se fazia um desfile pelas ruas da então vila, à luz de archotes, terminando no Largo de S. Pedro com a leitura do testamento do "defunto", realizando-se depois o "auto de fé" onde se queimava um boneco que o representava.

Hoje o enterro do carnaval, mantendo as mesmas características, conta com um maior aparato pirotécnico, realizando-se na Várzea, acompanhado da respectiva "viúva" e da leitura do testamento, com referências jocosas à vida social e política do concelho.

RECORDAÇÕES DO CARNAVAL


Isto começou mal.
A chuva e o frio levaram à anulação de um dos momentos altos do nosso Carnaval, o DESFILE DAS ESCOLAS:
Para atenuar o cizentismo do dia podem consultar Texto e Fotos sobre outros Carnavais de Torres AQUI (Carnaval de 2009), e AQUI (outros "carnavais") e AQUI.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Origem dos Gigantones

Transcrevo aqui um artigo que descobri, publicado em 2005 no Diário de Notícias, sobre a origem da utilização dos gigantones nas festas populares, e que são uma das imagens de marca do Carnaval de Torres.
Com este artigo, acompanhado por fotografias da minha autoria, dou início à publicação de alguns documentos com interesse para a história do nosso Carnaval.


TRADIÇÃO QUE VEIO PARA FICAR
por
Paulo Julião, Diário de Notícias 03 Julho 2005

"Com quatro metros de altura, um peso que varia entre os vinte e os trinta quilos e uma enorme cabeça de pasta de papel, os gigantones não passam de figuras humanas de grandes dimensões suportadas por uma estrutura com a forma de um corpo e onde o homem que o manuseia se introduz, carregando o boneco apoiado nos seus ombros. Os movimentos, claro está, são dificultados por causa do peso e equilíbrio, mas procuram andar (ou balancear) ao som do ritmo, sempre de forma solene.

À volta destes apresenta-se o conjunto oposto qual grupo de "bobos da corte", os cabeçudos são personificados por rapazes vestidos de forma desleixada que, num bailado quase tresloucado onde sobressai a enorme cabeça usada como máscara, fazem a animação popular. Representam uma pequena corte, ou mais simplesmente um rancho de filhos, que dançam, rodopiam e provocam, contagiando todos com o seu ritmo e alegria. Dado o seu carácter folião, os cabeçudos, segundo a tradição, assumem por vezes formas não humanas de diabos ou monstros de língua de fora.

A introdução dos gigantones e cabeçudos nas festas e romarias portuguesas, directa ou indirectamente, foi feita através da região espanhola da Galiza, com a importação do costume, em 1893, para a Romaria d'Agonia, em Viana do Castelo. Como explicou ao DN o historiador Alberto Abreu, o gigantone português deriva da tradição galega em que era promovida uma exibição de gigantones e cabeçudos junto ao túmulo de Santiago. "Um vianense achou muita graça àquilo e resolveu trazê-la para as festas de Viana do Castelo, no século XIX, quando se estava a criar o figurino da romaria. Na altura foi mais um número, mas depois acabou por ficar como número".

Popularizada em Viana do Castelo, onde se assumiu no decorrer do século passado como símbolo da "rainha das romarias de Portugal", a tradição vingou, já que se "encaixou na memória colectiva" do povo que ainda recordava mitos antigos, desaparecidos no tempo. Também conhecidos como "gigantes de cor-tejo", o povo acabaria por importar da cultura galega não só o número em si mas o nome de gigantone.

A tradição é, contudo, bem mais antiga, e para Alberto Abreu tem a sua origem nos contos de bons e maus gigantes inspirados na mitologia germânica, mais tarde popularizados em histórias infantis. De facto, o primeiro gigante de cortejo conhecido na Europa foi identificado em Antuérpia, Bélgica, em 1389, havendo ainda importantes registos históricos na Idade Média, em França, Alemanha e Itália.

Aparecendo sempre indissociáveis das figuras gigantes, os cabeçudos representam também uma deformidade, neste caso na cabeça, e são inspirados, essencialmente, nos gnomos da floresta, "normalmente génios bons".

Sendo a Romaria d'Agonia - que se realiza a 20 de Agosto - o expoente máximo da aparição em Portugal dos gigantones e cabeçudos, os primeiros bonecos gigantes, seis em 1893, retratavam nomeadamente "o parolo", "o doutor", "a vianeza" e "a senhora". Apesar da complexidade da estrutura, a sua confecção chegava a pormenores como ramos de flores ou carteiras na mão, no caso feminino, ou fartos bigodes, suíças e chapéu alto, nos bonecos masculinos. Já os cabeçudos eram, na altura, 25, com figuras inspiradas em diabos e macacos.

A completar qualquer desfile não pode faltar o grupo de zabumbas ou zés-pereiras, que fazem o acompanhamento musical, anunciando e marcando de forma estridente o ritmo da festa. Alguns compostos por dezenas de elementos, cada um com um bombo à sua dimensão, os zés-pereiras são também acompanhados de gaitas-de-foles. À frente do grupo segue o chamado "regente" com o tradicional pau comprido, conhecido por moquinha, enfeitado na extremidade com uma cabeça esculpida e fitas, que marca e incita os restantes tocadores.

Este conjunto está já bem enraizado na cultura popular portuguesa, podendo ser apreciado em grande parte das grandes romarias espalhadas pelo Norte do País, como forma de assinalar o início das festividades tradicionais".






terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

domingo, 31 de janeiro de 2010

Antecedentes da afirmação republicana em Torres Vedras

A propósito do início oficial das comemorações do centenário da Primeira República, que hoje tiveram início, recordamos aqui um excerto do nosso livro Republicanos de Torres Vedras (ed.Colibri), sobre os primórdios do republicanismo nesta localidade.
Aproveitamos também para vos recomendar a visita a um blog dedicado ao centenário da República AQUI.


Os Antecedentes da afirmação dos Republicana em Torres Vedras

Data de 1901 o primeiro apelo público local à votação nos republicanos, numa carta publicada na primeira página d' "A Vinha de Torres Vedras", jornal do Partido Progressista, mas que então parecia atravessar um momento de algum descontentamento face à política oficial desse partido. Nessa carta, assinada por José Joaquim Rodrigues, da Ribaldeira, datada de 6 de Setembro de 1901, este entendia "que todos nós, viticultores, devemos ir á urna protestar, para mostrarmos ao governo e á tal benefica real associação," ( refere-se à "Real Associação Central de Agricultura Portuguesa”, defensora dos interesses dos grandes proprietários e de medidas proteccionistas na agricultura) "(...) É necessario irmos todos á urna, não pelos progressistas, que, quando governo, nada fizeram a nosso favor, nem tão pouco pelos francaceos," (apoiantes de João Franco) "pois é tudo a mesma família, mas sim pelos republicanos que o governo teme e odeia.
"Os viticultores de todos os concelhos pódem dar uma severa lição ao governo votando na lista republicana como signal de protesto." (1).
Esta não foi uma opinião isolada, pois o próprio jornal apelou a que se votasse "como protesto" na lista republicana (2).Contudo foi apenas uma atitude de protesto pontual.
Só em Novembro de 1905 temos notícia da existência de alguma organização republicana local, mas ainda longe da formalidade de uma comissão republicana, como se conclui do conteúdo da seguinte notícia publicada pelo órgão local dos "progressistas", insurgindo-se contra a candidatura municipal dos "regeneradores-liberais":
"Estrangeiros revoltados lembraram-se d'uma lista camararia alcunhada de regeneradora-liberal.Para apresentar a publico eram precisos quatorze nomes de respeitabilidade, impossiveis de recrutar no vespeiro. Apezar de terem andado de barretinho na mão, de prometterem este mundo e o outro, a resposta era sempre:
"Deus os favoreça"(...). Ferteis em expedientes, desorientados, imploraram o auxilio dos republicanos! Estes, mais finos do que elles, querendo-se vingar da lei de 13 de fevereiro, e como pirraça, exigiram-lhe representação. A condição, além de humilhante, era dura de roer!
"Convocou-se o vespeiro. Foram presentes todos os zangões. Ordem da noite, o acinte dos republicanos. Uns queriam, outros não. A abstenção ganhou terreno. Por ultimo, para salvarem a honra do convento, foi approvado por unanimidade de votos a colligação com o partido republicano, o unico meio de obterem alguns votos!..." (3).
Contudo, observando a lista proposta à câmara pelos "franquistas", apenas encontramos um nome que veio a estar ligado à organização local do Partido Republicano, o de Júlio Vieira, como suplente da lista candidata. A esmagadora maioria dos candidatos,10 entre 14, pertencia ao Partido Regenerador-Liberal, dois, um como efectivo e outro como suplente, ao Partido Progressista, e um outro, também suplente, sem opção política possível de confirmar, embora o encontremos como efectivo numa comissão paroquial republicana, mas já em 1911.
Mesmo se limitada, esta parece ter sido a primeira intervenção política local conhecida dos republicanos torrienses.
A primeira informação sobre a criação de um comissão republicana, data de Dezembro de 1905 e teve lugar, não na sede do concelho, mas na freguesia rural de Dois Portos, "devido à iniciativa do nosso amigo Faustino Polycarpo Thimoteo, commerciante"(4).O mesmo jornal inclui o nome de 15 dos aderentes, dos quais um deles, Alberto Maria de Magalhães, "mui illustre pharmaceutico e professor ", no número seguinte daquele jornal, vem desmentir a sua adesão à causa republicana, declarando que não fazia parte da "Commissão Parochial Republicana", que se está organisando n'esta freguezia, tendo-se inscripto sim a principio, quando foi convidado, mas para uma commissão de melhoramentos locaes, desistindo porem da sua cooperação, visto predominar a politica, de que a sua vida laboriosa, lhe não permitte occupar-se" (5).
Desta notícia pode concluir-se que uma táctica para cativar aderentes terá sido usar a capa de uma associação com vista à defesa de interesses locais ("commissão de melhoramentos locaes"), e por último que determinadas actividades profissionais, se dependentes do poder, como a de professor, podiam coarctar a participação política activa em organizações marginais ao sistema monárquico.
Quanto aos restantes membros desta comissão paroquial, conseguimos identificar 12, cruzando os seus nomes com os cadernos eleitorais daquela freguesia de 1895 e 1908, pelo que detectamos entre eles 4 comerciantes (ou lojistas), 3 barbeiros, 1 proprietário, 1 taberneiro, 1 carpinteiro, 1 empregado do caminho de ferro (Dois Portos era servida por estação ferroviária), e 1 músico, regente da "Real Philarmonica da Ribaldeira". 8 deles residiam na sede de freguesia, 3 na Ribaldeira e 1 na Caixaria.
Durante a campanha eleitoral para as eleições de Abril de 1906 realizam-se no concelho de Torres Vedras vários comícios de propaganda republicana, denotando um crescendo de organização republicana a nível local.
Dois Portos, assumindo-se mais uma vez como um importante centro republicano, recebe a 12 de Abril "o illustre candidato republicano sr. dr. João de Menezes " , para participar num comício ao "qual assistiram mais de 300 pessoas" (6).
Dias depois, em notícia de primeira página, a "Folha de Torres Vedras" anunciava a realização, a 15 de Abril, "pelas 2 e meia horas da tarde (...) n'esta villa" de "um comicio para apresentação de alguns dos candidatos republicanos e no qual" falariam ", entre outros, os illustres oradores João Duarte de Menezes, Alexandre Braga e Heliodoro Salgado", a realizar "no recinto dos armazens dos srs.A.Galrão & Cª, proximo à estação do caminho de ferro d'esta villa"(7), informação que denota mais uma vez uma certa colaboração entre republicanos e "franquistas", já que esses armazéns pertenciam a um dos líderes franquistas locais.
Estava-se já em pleno "consulado" de João Franco, iniciado em Maio, quando, a 21 de Agosto, António José d' Almeida chegou de comboio a Torres Vedras de "passagem para a praia de Santa Cruz, onde foi exercer os seus serviços clínicos", regressando a Lisboa nesse mesmo dia. "Vários correligionarios de sª exª foram esperal-o á estrada dos Casalinhos em trens, acompanhando-o no seu regresso á estação, onde se achava a Fanfarra União Torreense que tocou varias peças . S.ex.ª teve na gare uma despedida deveras affectuosa" (8).
Este ano parece ter marcando o arranque local da organização republicana culminando, em 16 de Dezembro, com o anuncio de que uma comissão republicana da vila estava a organizar o partido republicano em Torres Vedras, tencionando "preparar um comicio no proximo mez de Janeiro no dia em que se effectua a eleição da commissão municipal republicana d'este concelho", publicitando-se a provável presença de Bernardino Machado e António José d' Almeida (9), assim como a tentativa de fundar uma nova comissão paroquial republicana, desta vez na freguesia de S. Domingos de Carmões, vizinha da de Dois Portos .
Curiosamente estas duas freguesia tinham sido a base da constituição do extinto, em 1855, concelho da Ribaldeira, e eram aquelas que mais próximas estavam do vizinho concelho de Sobral de Monte Agraço, terra natal de França Borges, director d' "O Mundo", onde existia, nas vésperas da implantação da República, um forte núcleo da maçonaria, e onde os republicanos obtiveram maiorias em eleições anteriores ao 5 de Outubro.
Só a Abril de 1907 será constituída a comissão republicana paroquial de Carmões, formada por 1 farmacêutico, 1 "proprietário e comerciante", 1 "industrial e comerciante", 1 "comerciante" (taberneiro), 1 "industrial"(ferrador), e 1 "proprietário", sendo mais uma vez notório o domínio de comerciantes e lojistas(10) .
Por sua vez, o grupo organizador da comissão municipal teve a sua primeira reunião em 31 de Janeiro de 1907, uma data que talvez não tenha sido casual, pelo seu simbolismo para a causa republicana, tendo-se na ocasião decidido organizar para Fevereiro um comício republicano.
A mesma comissão decidiu dirigir-se à Ribaldeira par convidar pessoalmente Maximo Brou, "illustre médico municipal, para fazer parte da lista da commissão municipal" (11).Essa notícia refere apenas um outro nome de um membro dessa comissão, o do seu tesoureiro José Anjos da Fonseca.
Por sugestão de António José de Almeida, devido a compromissos pessoais vários, aquele comício republicano apenas se realizou a 21 de Abril de 1907, naquela que foi a primeira grande acção pública dos republicanos em Torres Vedras: "o comicio foi uma manifestação imponente de sympathia ao ideal republicano que já hoje vae deixando de ser olhado com desconfiança pelo camponez ignaro e que está já sendo abraçado por todos aquelles que, um pouco mais instruido, vae comprehendendo os seus legitimos e racionaes principios, compativeis com a epocha de liberdade e de conquistas que a humanidade vae atravessando e que nenhuma mão tyranica poderá fazer affrouxar na sua carreira vertiginosa.
"A anciedade de ouvir o soberbo tribuno da democracia que se chama António José d'Almeida e todos os outros oradores, arrastaram ao local do comício, um vastissimo recinto, junto á Avenida Casal Ribeiro, alguns milhares de pessoas". Segundo a mesma notícia, vieram pessoas de Mafra, Sobral de Monte Agraço e Arruda dos Vinhos assistir ao comício.
À partida do comboio que transportou de regresso a Lisboa os oradores republicanos, "a multidão que enchia a gare rompeu em estridentes vivas ao partido republicano, aos deputados republicanos, directorio, imprensa, etc.". O mesmo jornal insurgiu-se contra o facto de, quer nesta ocasião, quer durante a passagem do comboio pela estação de Dois Portos, respectivamente a Tuna Comercial e a Filarmónica da Ribaldeira terem sido impedidas de tocar, denunciando ainda o facto de terem sido requisitadas para Torres Vedras "12 policias de Lisboa pelo sr. Administrador interino, para reforçar a polícia que aqui existe e mais destacamento de infantaria. Dias antes, a mesma auctoridade, conversando com dois republicanos em evidencia d'esta villa, affiançára-lhes que não requisitaria policia alguma"(12).
Em correspondência enviada pelo administrador do concelho ao governador civil era este informado que aquele comício republicano tinha decorrido "em boa ordem e em harmonia com a lei", acrescentando "que me consta ter havido dentro da gare da estação, alguns vivas a republica, á partida do comboio, manifestando-se os empregados da mesma por uma forma inequivoca a favor do partido republicano, por meio de vivas e palmas"(13).
Nessa mesma data foi eleita a primeira Comissão Municipal Republicana de Torres Vedras, formalizando-se deste modo a intervenção do Partido Republicano na política local.
Presidia a essa comissão Júlio Vieira, sendo vice-presidente o dr. Arthur Maximo Brou, secretários Joaquim Marques Trindade e Manuel Augusto Baptista, tesoureiro José Anjos da Fonseca e vogais Rufino de Carvalho e Estevão Xavier de Menezes Feio, podendo considerar-se este grupo o núcleo fundador do Partido Republicano "histórico" de Torres Vedras. Cinco deles viviam na vila de Torres Vedras, só dois fora do centro urbano, um na Ribaldeira e outro na Maceira. Em termos sócio-profissionais o grupo repartia-se por 3 proprietários e 3 comerciantes, mais um médico.
Logo em Maio aquela comissão decidiu realizar uma série de conferências de propaganda na vila, tendo convidado para o efeito Bernardino Machado, Alexandre Braga, João de Menezes, Magalhães Lima, Agostinho Fortes e Botto Machado.
Organizada a Comissão Municipal e alargando a sua influência às freguesias do concelho, onde se inicia uma intensa campanha de propaganda, quer através da realização de conferências, quer passando a dominar abertamente um órgão de informação local, "Folha de Torres Vedras", o Partido Republicano torna-se uma força importante na vida política local nos três últimos anos do regime monárquico.

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(1) A Vinha de Torres Vedras, 12 de Setembro de 1901.
(2) A Vinha de Torres Vedras, 3 de Outubro de1901.
(3) A Vinha de Torres Vedras, 23 de Novembro de 1905.
(4) Folha de Torres Vedras , 10 de Dezembro de1905.
(5)Folha de Torres Vedras, 17 de Dezembro de1905.
(6)Folha de Torres Vedras, 12 de Abril de1906.
(7) Folha de Torres Vedras, 15 de Abril de1906.
(8) Folha de Torres Vedras, 26 de Agosto de1906.
(9) Folha de Torres Vedras, 16 de Dezembro de 1906.
(10) Folha de Torres Vedras, 28 de Abril de 1907.
(11)Folha de Torres Vedras,3 de Fevereiro de1907.
(12)Folha de Torres Vedras, 28 de Abril de1907.
(13)Registo de Correspondência - Governo Civil (do Administrador do Concelho)(1905-1910),nº81, de 22 de Abril de 1907, AMTV.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Café com Filmes


Tem hoje lugar no Teatro-Cine Ferreira da Silva mais uma sessão do ciclo Café Com Filmes.

Promovido pelo Académico de Torres Vedras, em co-produção com o Teatro-Cine, este ciclo procura recuperar o espírito do cineclubismo, com a exibição de filmes documentais, acompanhados de debate, 5ªs feiras, de quinze em quinze dias, a partir das 21.30.

Hoje será exibido o clássico de Dziga Vertov “O homem da câmara de filmar”, filme soviético de 1929, considerado um clássico do cinema documental.

A entrada é livre e, antes do filme, realiza-se uma intervenção artística estará a cargo de Rui Gato.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Recordando Jaime Batalha Reis


Por cá pasou quase despercebido o 75º aniversário da morte de Jaime Batalha Reis, que ocoreu no passado dia 24 de Janeiro, uma das figuras mais importantes da vida cultural e política portuguesa com ligação a Torres Vedras.
Aqui possuia uma Quinta, a Quinta da Viscondessa, junto ao Turcifal, onde veio a viver os seus últimos anos de vida, estando sepultado no cemitério daquela vila, e foi o responsável pela visita efectuada por Antero de Quental à praia de Santa Cruz.
Em sua memória transcrevemos uma breve biografia da autoria da investigadora do Instituto Camões Maria José Marinho:

Jaime Batalha Reis: sua vida e obra

Por Maria José Marinho
(Instituto Camões)

"Jaime Batalha Reis nasceu em 24 de Dezembro de 1847, numa família da burguesa lisboeta, de pai liberal com alguns teres e haveres, proprietário no Turcifal, onde era um conhecido produtor de vinhos. Depois de frequentar, em regime de internato, o colégio alemão Roeder, matriculou-se no Instituto Geral de Agricultura onde, depois de um brilhante percurso escolar, se formou em agronomia.
"Uma noite, prestes a acabar o curso, tendo ido à redacção da Gazeta de Portugal, encontrou Eça de Queirós, com quem se travou de amizade para a vida inteira. Essa relação ampliou-lhe o círculo de amigos, e a sua casa, na Travessa do Guarda-Mór, em pleno Bairro Alto, passou a ser o local de encontro de uma juventude intelectual e boémia, o núcleo do que viria a ser a “Geração de 70”. Mas foi principalmente o encontro com Antero de Quental, por volta de 1868, que lhe veio permitir colmatar algumas fragilidades culturais e desenvolver os conhecimentos filosóficos.
"O brilho da carreira estudantil, durante a qual arrancara vários prémios, e o interesse dos professores, principalmente Ferreira Lapa e Andrade Corvo, haviam-lhe alimentado a esperança de ser convidado para a carreira docente. Mas isso não iria acontecer, pelo menos nessa altura, talvez pelas opiniões expressas numa dissertação em que defendera as teorias de Darwin. No entanto os seus conhecimentos profissionais vão a pouco e pouco permitindo-lhe movimentar-se nessa área, sendo convidado para integrar júris que avaliavam a qualidade da produção agrícola e fazer prelecções aos agricultores. Especializou-se no estudo da nova moléstia da vinha - a filoxera - e começou a colaborar em revistas e jornais. Esta actividade, porém, não o afastava das suas preocupações literárias e artísticas. Foi em 1869 que Eça, Antero e Batalha Reis inventaram, num delírio criativo, “o poeta satânico” Carlos Fradique Mendes; e das poesias publicadas uma, “Velhinha”, era da autoria de Jaime Batalha Reis.
"Já por essa altura encontrara o amor da sua vida, com quem viria a casar, depois de um longo e atribulado namoro. Chamava-se ela Celeste Cinatti e era filha de um dos mais célebres cenógrafos da época – José Cinatti. A necessidade de conseguir a estabilidade económica para “noivar” e casar acicataram-no na procura de emprego, e depois de várias tentativas infrutíferas – administrador de uma propriedade da Casa de Bragança, deputado, agrónomo em Viseu, professor no Brasil - resolveu concorrer à carreira consular. Apesar das esperanças que alimentara, não conseguiu provimento, pois ficou em terceiro lugar. Voltou por isso a intensificar a sua actividade profissional.
"Entretanto Antero e Batalha Reis, tornados inseparáveis, tinham ido morar para uma sobreloja em S. Pedro de Alcântara, lugar que sendo frequentado, na época, pela burguesia lisboeta, se tornara muito barulhento, incomodando Antero. Mudaram-se e no início de 1871 já estavam instalados numa casa na Rua dos Prazeres, sítio sossegado, onde passaram a vir os conviventes habituais – Eça de Queirós, José Fontana, Augusto Fuschini, Manuel de Arriaga, Oliveira Martins, Augusto Machado, Guerra Junqueiro. Foi aqui que se gizou o programa das “Conferências Democráticas do Casino Lisbonense” ou, mais simplesmente, as “Conferências do Casino”. Depois das intervenções de Antero, Augusto Soromenho, Eça de Queirós e Adolfo Coelho, a continuação das palestras foi proibida por uma portaria assinada pelo Marquês de Ávila e Bolama, então presidente do conselho de ministros. Esta interrupção não permitiu que Jaime Batalha Reis fizesse a sua prelecção que versava sobre o “Socialismo”. A atitude do governo, verberada pela opinião pública, seria reforçada pela publicação de dois folhetos dirigidos a Ávila e Bolama, um de Antero de Quental e outro de Jaime Batalha Reis, que começando por afirmar “Eu sou socialista” terminava dizendo: “O que V. Exª fez obriga-me a descrer ou da sua ilustração ou da sua probidade. Eu descri da ilustração. Todos os actos da vida de V.Exª me autorizavam a fazê-lo.”
"Em fins de 1871, depois de se haver esfumado a possibilidade de um consulado itinerante, projecto que não chegou a ser apresentado na Câmara dos Deputados, Jaime Batalha Reis acabou por ser convidado para chefe do Serviço Agrícola do Instituto Geral de Agricultura, cargo administrativo que ocupou em Fevereiro de 1872. Não que fosse o lugar desejado, mas permitia-lhe a entrada para a instituição onde fora um brilhante aluno e a possibilidade de casamento com Celeste Cinatti, que se realizou em Setembro desse mesmo ano. Logo no Outono viria a ser designado para substituir Andrade Corvo nas cadeiras de Botânica, Economia Rural e Florestal, e continuando a carreira docente ocupou, muito mais tarde, depois do respectivo concurso, em 1882, o lugar de lente de Microscopia e Nosologia Vegetal.
"O ano de 1874 e parte de 1875 vai ser preenchido pela elaboração de um projecto também muito caro a Antero de Quental e Oliveira Martins: a publicação de uma revista que reunisse a colaboração de intelectuais portugueses e espanhóis. Depois de muitos contratempos, que Batalha Reis ultrapassou com a habitual tenacidade, o 1º número da Revista Ocidental saiu em Fevereiro 1875, e foi nas suas colunas que Eça de Queirós publicou a 1ª versão de “O Crime do Padre Amaro”. Além de Eça, nela colaboraram Batalha Reis, Antero, Oliveira Martins, Adolfo Coelho, Sousa Martins, Maria Amália Vaz de Carvalho, intelectuais e políticos espanhóis como Pi y Margall, Fernandez de los Rios, Rafael de Labra, Canovas del Castillo. Porém, as dificuldades de coordenar a colaboração, e a falta de financiamento, situação crónica neste tipo de publicações, derrotou o projecto, que não ultrapassou o mês de Julho.
"No ano seguinte, em 1876, recebeu a nomeação para comissário do sector agrícola da Exposição de Filadélfia, que comemorava o centenário da independência dos Estados Unidos da América. A essa missão a portaria acrescentava a incumbência de estudar a cultura da vinha, do algodão e do tabaco. Porém, uma mudança de ministério obrigou-o a um regresso precipitado sem haver concluído as necessárias pesquisas.
"A par da actividade profissional, nunca descurou o interesse pela cultura portuguesa colaborando em jornais e revistas com crónicas sobre ópera, pintura e literatura. Nesse âmbito participou na comissão executiva do centenário de Camões e foi delegado da Sociedade de Geografia nas comemorações de Calderón de la Barca.
"Mas em 1882, quando já era professor catedrático de Microscopia e Nosologia Vegetal no Instituto Geral de Agricultura, viu-se finalmente provido na carreira consular, recebendo a nomeação para 1º cônsul em Newcastle, onde estivera Eça de Queirós que, entretanto, passara para a cidade de Bristol. Jaime Batalha Reis, abandonando o percurso docente e a agronomia, partiu em Agosto do ano seguinte, com a família, para o novo posto, mantendo-se na carreira diplomática perto de trinta anos, até se aposentar em 1921.
"A actividade como cônsul em Inglaterra centrou-se na defesa dos nossos interesses em África, estudando a fundo, para o bom desempenho dessa função, história e geografia. O reconhecimento, a nível oficial, do domínio dessa problemática valeu-lhe a nomeação, como perito, para a Conferência Anti-Esclavagista, que se realizou em Berlim de 1889 a 1891. O seu mérito como diplomata levou-o a desempenhar missões confidenciais em Berlim e Paris ligadas a dois problemas cruciais nesta época para Portugal – as negociações com a Inglaterra sobre África e a situação do nosso crédito na Europa. É no meio desta frenética actividade que recebe a notícia do suicídio de Antero. O texto que escreveu para o In Memoriam do seu amigo - “Anos de Lisboa: algumas lembranças” - será uma peça fundamental para a biografia do poeta e um importante testemunho sobre a geração a que pertenceu, enviado de Newcastle quatro dias antes da morte do seu outro amigo Oliveira Martins. Supomos que foi principalmente graças a esse texto e ao que veio a escrever sobre Eça, prefaciando as Prosas Bárbaras, que o nome de Jaime Batalha Reis voltou a ser reconhecido como um dos activos elementos desta Geração. E no ano em que representava Portugal na Conferência Internacional para a Protecção da Fauna Africana, com onze dias de intervalo, morreu-lhe a mulher e o seu companheiro de muitos anos, Eça de Queirós.
"Até à implantação da República continuou a manter uma intensa actividade. Já fellow da Royal Geographical Society, apresentou em 1895 uma comunicação “On The Definition of Geography as a Science [...]” que teve grande repercussão nos meios científicos. Na reunião da Association Scientifique Internationale d’Agronomie propôs um estudo sobre o trabalho agrícola e o emprego indígena nos países tropicais, sendo relator principal. Como ele próprio explicou, não se pretendia quantificar a mão de obra agrícola, mas estudar as condições da sua existência e o destino dos trabalhadores agrícolas na colónias e países tropicais.
"Depois da implantação da República, Bernardino Machado chamou-o a Lisboa para participar na remodelação do ministério. Em Julho é enviado como ministro plenipotenciário a S. Petersburgo, onde apresentou as credenciais a Nicolau II. Mas logo no mês seguinte regressou para desempenhar comissões em Paris e Londres. No fim do ano de 1813 é enviado de novo à Rússia como representante de Portugal nas comemorações da dinastia Romanov, levando consigo duas das filhas, Celeste e Beatriz. Foi assim apanhado no vórtice da Revolução de 1917 e envolvido nos acontecimentos diplomáticos que então ocorreram. Só em 1818 conseguiu sair por Murmansk.
"Nomeado delegado plenipotenciário à conferência de Paz em Paris, e a seguir representante de Portugal na comissão que iria elaborar o Pacto da Sociedade das Nações, multiplicou a sua actividade pelas comissões a que pertencia, enviando para o respectivo ministro português numerosos relatórios sobre as matérias aí tratadas. No regresso a Portugal criou o Secretariado da Sociedade das Nações e lançou as bases da Associação Portuguesa para a Sociedade das Nações, de que viria a ser vice-presidente.
"Só se aposentou em Agosto de 1821, depois de uma cirurgia aos dois olhos. Retirou-se para a Quinta da Viscondessa, no Turcifal, com as duas filhas solteiras, para se poder dedicar à sua “filosofia”, que no dizer do amigo Viana da Mota se chamaria Explicação do Universo. Mas a aterradora visão dos 19 armários da sua sala de trabalho, repletos de milhares de cartas e rascunhos, tornou-o incapaz de levar a tarefa a bom porto. Seria a filha Beatriz quem, após a sua morte, em 1935, organizou pacientemente o Espólio, oferecendo-o depois à Biblioteca Nacional.

Maria José Marinho

Fontes e Bibliografia

"Espólio Jaime Batalha Reis (Esp.E4) BN:ALPC.; Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis [...] (intr., coment. e notas de Beatriz Berrini), Lisboa: Ed. “O Jornal”, 1987; Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. (int., org. e notas de M. Staack) Lisboa: Assírio e Alvim, 1982; Costa, Fernando Marques da, "Sobre um possível Jaime Batalha Reis [...]", Revista da Biblio­teca Nacional, Lisboa, 3 (1-2), 1983; Cunha, Isabel Férin, "Sobre a estante de Jaime Batalha Reis: o homem e o seu círculo", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 8 (2) 1993; Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis: cartas e recordações do seu convívio. ( colig. e apres. por Beatriz C. Batalha Reis) Porto: Lello & Irmão Ed.,1966; Quental, Antero de, Cartas I e II. (org., int. e notas de Ana Maria Almeida Martins) Lisboa: Universidade dos Açores/Ed. Comunicação, 1989.

Espólio Jaime Batalha Reis (Esp.E4) BN:ALPC.; Antero de Quental: In Memoriam, Lisboa: Presença/Casa dos Açores, 1993, (facsimile); Batalha Reis na Rússia dos sovietes [...]. (análise crítica, recolha e notas de J. Palminha da Silva) Porto: Afrontamento, 1984 ; Carreiro, José Bruno, Antero de Quental, subsídeos para a sua biografia, Lisboa: Ed. do Inst.de Ponta-Delgada, 1948; Cartas Inéditas de Eça de Queiroz [...] (intr., coment. e notas de Beatriz Berrini), Lisboa: Ed. “O Jornal”, 1987; Correspondência entre Antero de Quental e Jaime Batalha Reis. (int., org. e notas de M. Staack) Lisboa: Assírio e Alvim, 1982; Correspondência de J. Batalha Reis para Barbosa Du Bocage. (int., org. e notas de Alice Godinho Rodrigues) Lisboa: INIC, 1990; Costa, Fernando Marques da, "Sobre um possível Jaime Batalha Reis [...]", Revista da Biblio­teca Nacional, Lisboa, 3 (1-2), 1983; Cunha, Isabel Férin, "Sobre a estante de Jaime Batalha Reis: o homem e o seu círculo", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 8 (2) 1993; Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis: cartas e recordações do seu convívio. ( colig. e apres. por Beatriz C. Batalha Reis) Porto: Lello & Irmão Ed.,1966; Garcia, João Carlos, "Jaime Batalha Reis, geógrafo esquecido", Finisterra, Lisboa, XX, 49, 1985; Marinho, Maria José, "A 'Revista Ocidental', 1875: um projecto da Geração de 70", Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, S.2, 7 (1) 1992; Queiroz, Eça de, Prosas Bárbaras. Porto: Liv. Char­dron, 1903; Quental, Antero de, Cartas I e II. (org., int. e notas de Ana Maria Almeida Martins) Lisboa: Universidade dos Açores/Ed. Comunicação, 1989, Reis, Jaime Batalha, Descobrimento do Brasil Intelectual pelos Portugueses do Século XIX. (org., pref. e notas de Elza Miné), Lisboa: Publ. D.Quixote, 1987, Exmo Snr. Marques d'Avila e Bolama, Porto, Tip.Comercial, 1871; Estudos Geográficos e Históricos, Lisboa: Agência. Geral das Colónias, 1941; Revista Inglesa: crónicas. (org., int. e notas de Maria José Marinho), Lisboa: Publ. D.Quixote/BN, 1988; Rodrigues, Alice Godinho, Jaime Batalha Reis geógrafo, historiador, político e diplomata, Porto: [s.n.], 1988; Santos, Andrade, Batalha Reis no Turcifal, Torres Vedras: Tip. A União; Serrão, Joel, O primeiro Fra­dique Mendes, Lisboa: Liv. Horizonte, 1985.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Carnaval de Torres está à porta...



De 12 a 17 de Fevereiro de 2010, em Torres Vedras.

Programa Oficial:

23 JANEIRO » Sábado
12h00 » Inauguração do Monumento do Carnaval 2010
Praça da República

11 FEVEREIRO » Quinta-Feira
22h00 » Entronização dos Reis do Carnaval 2010
Praça da República
Organização: Real Confraria do Carnaval de Torres

12 FEVEREIRO » Sexta-Feira
09h30 » Corso Escolar
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

22h00 » Chegada dos Reis do Carnaval
Largo da Estação até à Praça da República
Organização: Real Confraria do Carnaval de Torres

22h30 » Dj's Carnaval Party I
Palco 1 » Praça Machado Santos (Praça da Batata)
Palco 2 » Jardins de Santiago

13 FEVEREIRO » Sábado
16h00 » Um Cheirinho a Tócandar
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

21h00» Corso Nocturno (Concurso de Grupos de Mascarados + Tócandar)
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

22h30 » Dj's Carnaval Party II
Palco 1 » Praça Machado Santos (Praça da Batata)
Palco 2 » Jardins de Santiago
Palco 3 » Largo de S. Pedro

00h30 » Tócandar + Banda Baco
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

14 FEVEREIRO » Domingo
14h30» Corso Diurno
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

16h30 » Tócandar + Banda Baco
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

22h30 » Dj's Carnaval Party III
Palco 1 » Praça Machado Santos (Praça da Batata)
Palco 2 » Jardins de Santiago

15 FEVEREIRO » Segunda-Feira

15h00» Baile de Máscaras Tradição
Local a designar

21h00» Corso Trapalhão
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

22h30 » Dj's Carnaval Party IV
Palco 1 » Praça Machado Santos (Praça da Batata)
Palco 2 » Jardins de Santiago
Palco 3 » Largo de S. Pedro

00h00 » Tócandar + Banda Baco
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

16 FEVEREIRO » Terça-Feira
14h30» Corso Diurno
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

16h30 » Tócandar + Banda Baco
Centro da cidade (Rua Henriques Nogueira, Rua 5 Outubro, Rua Santos Bernardes e Rua José Augusto Lopes Júnior)

17 FEVEREIRO » Quarta-Feira
21h00 » Enterro do Entrudo e Fogo de Artifício
Praça da República até ao Tribunal


Outras Informações:

Entrada para o Corso : € 5/ Pessoa

Livre Trânsito para Corsos (Sábado, Domingo e Terça-feira): € 10/ Pessoa

Menores de 10 anos e restantes actividades: entrada livre.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A8 - A "Auto-estrada da Morte"?


O jornal "Público" publicou hoje, no seu suplemento "Cidades" um interessante artigo sobre o estado da A8, a principal via que liga Torres Vedras e a região Oeste a Lisboa.
Pela pertinência desse artigo resovemos inclui-lo na nosa página.
Ainda ontem, ao regressar de Lisboa à noite e debaixo de chuva, pude comprovar mais uma vez os perigos a que essa reportagem se refere.
A visibilidade das faixas é práticamente nula, e o perigo espreita a cada "muro" protector que se aproxima do veículo:

"Os riscos da auto-estrada que colocou uma região no mapa Oeste


Bela e perigosa, a Auto-estrada 8 recebe nota negativa do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades devido a violações de normas de construção, que colocam em perigo os automobilistas. Não deixa, porém, de ser uma ligação importante para a economia e a vida de milhares de pessoas e empresas do Oeste. PorLuís Filipe Sebastião(texto) e Daniel Rocha(fotos)


"A Auto-estrada 8 (A8) aproximou o Oeste de Lisboa. Há mesmo quem a prefira como alternativa à A1 para chegar ao Porto. Mas o Observatório de Segurança de Estradas e Cidades (OSEC) avaliou as condições de perigo rodoviário que subsistem nesta ligação entre a capital e Leiria e alerta para a necessidade de serem adoptadas medidas que atenuem o risco de acidentes provocados por hidroplanagem e reduzida visibilidade em curvas mais apertadas.
"Francisco Salpico, coordenador do levantamento realizado pelo OSEC, alerta que a auto-estrada do Oeste "está entre as mais perigosas do país". Este engenheiro, responsável pelo relatório preliminar da peritagem à A8, conclui que se impõe a execução de trabalhos "que reponham as condições de segurança rodoviária", que consistam na correcção do traçado, do pavimento e das ranhuras no piso para drenar com eficácia o excesso de água. E defende que devem ser desencadeadas intervenções urgentes "para modelar a velocidade de tráfego para níveis correctos".
"Instado há mais de uma semana a fornecer dados sobre acidentes na A8, e quais as zonas de maior acumulação de sinistros, o comando-geral da GNR prometeu disponibilizar as informações. Um dia depois, o gabinete de imprensa da força policial fez saber que não podia satisfazer o pedido, encaminhando para a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Este organismo, que coordena a política do Governo em matéria de segurança rodoviária, também não respondeu. Como frisava recentemente o ex-ministro Luís Campos e Cunha, sempre que percorre a A8 e tem de pagar como se fosse uma auto-estrada, "gostaria de chamar o gerente, mas não há ninguém para responder, ninguém é responsável".

A caminho do Oeste

"O quilómetro zero da A8 nasce ao fundo da Calçada de Carriche, nos limites dos concelhos de Lisboa e de Odivelas. Os pouco mais de 132 quilómetros até Leiria estão devidamente sinalizados nos pórticos que orientam para o caminho do Oeste.
"Na travessia da várzea de Loures, logo ao quilómetro dois, o anúncio de obras impõe a limitação de circulação para 80 quilómetros por hora, com estreitamento das vias de rodagem. A entrada a partir do Eixo Norte-Sul (através do túnel do Grilo), entupida a qualquer hora do dia, despeja na faixa da A8 uma fila compacta de viaturas ao longo de umas centenas de metros até à saída para Frielas e Santo António dos Cavaleiros. De um lado da estrada, densas urbanizações encavalitam-se em altura nos montes, numa mancha contínua que se espalha desde o concelho de Odivelas. No lado oposto, impõe-se o mastodôntico Loureshopping, um dos muitos centros comerciais plantados em terrenos outrora destinados à agricultura.
"Os trabalhos em curso, a cargo da empresa Auto-estradas do Atlântico, participada pela Brisa e que detém a concessão da A8, fazem parte da empreitada de reabilitação e alargamento do lanço CRIL (Circular Regional Interior de Lisboa)-Loures, numa extensão de 6,3 quilómetros. O investimento é de 34,1 milhões de euros, deve ficar concluído até ao final do ano.
"No traçado plano e com curvas pouco acentuadas até à saída para Loures e Bucelas, a generalidade dos automobilistas circula dezenas de quilómetros acima da velocidade permitida. Isto, apesar da redução da largura das vias e do mau estado do piso. E de existirem, segundo o tal estudo do OSEC às condições de segurança na A8, diversas zonas de risco de hidroplanagem (aquaplaning), ou seja, zonas de acumulação de água no pavimento, por deficiente escoamento, o que cria condições propícias a despistes.
"Só a aproximação à praça de portagem impõe algum abrandamento. Porém, mesmo aqui, há quem teime em quase colar-se ao carro da frente nos corredores da Via Verde.

As obras de Loures

"As três vias de circulação vão escoando o tráfego até à saída para a A9 (Circular Regional Exterior de Lisboa). Na subida íngreme, muitos sinais das obras de alargamento estão tombados. Presume-se que devido ao mau tempo. Neste lanço entre Loures e a Malveira, a concessionária está a investir 35 milhões de euros no alargamento para três vias (também no sentido norte-sul, onde agora só tem duas vias) ao longo de cerca de dez quilómetros. A empreitada, que deve ficar pronta durante 2010, inclui o aumento de mais uma via para lá da área de serviço de Loures (onde actualmente passa a duas), no sentido sul-norte, até à saída para Ericeira/Mafra/Malveira. A necessidade do alargamento é ditada pelo facto de o tráfego médio diário anual entre Loures e a Malveira já ultrapassar os 35 mil veículos.
"O piso irregular em betão, em notório mau estado, será substituído por uma mistura betuminosa modificada a partir de borracha reciclada de pneus. Esta solução permite reduzir o barulho provocado pela circulação de tráfego - além de aumentar o conforto para os utilizadores e, espera-se, assegurar também melhores condições da drenagem transversal e longitudinal à auto-estrada.
"A este nível, Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal, é taxativo: "É urgente acabar rapidamente com o alargamento, porque aquilo é um perigo assim." Barbosa admite utilizar a A8 como alternativa à A1 em deslocações ao Porto - através da ligação à A17 e à A29 "fica a 500 metros da Ponte da Arrábida". Reconhece, contudo, que o traçado inicial, "como foi feito à pressa", não reúne as condições de segurança para uma auto-estrada. No troço entre Loures e Torres Vedras, nota, "há sítios onde para se fazer a 120 [quilómetros por hora] é preciso ter-se cuidado".
"Nesta zona, o estudo do OSEC, organismo não governamental composto por magistrados, técnicos e autoridades de segurança, salienta a violação das normas técnicas relativas à inclinação excessiva da via, com descidas em distâncias muito superiores ao estabelecido. Além disso, há inúmeros pontos de risco de hidroplanagem, incumprimento dos raios para as curvas verticais (lombas) o que reduz "de forma grave" as distâncias de visibilidade e de paragem. Mais problemas detectados por aquele organismo: curvas em planta muito apertadas, geradoras de elevadas acelerações centrífugas, que potenciam a perda de controlo da direcção do veículo.
"Francisco Salpico destaca um caso entre as inúmeras situações de violação: uma curva, pouco antes do quilómetro 19, com um raio de 430 metros, onde a velocidade específica (factor que define até onde estão asseguradas condições mínimas de segurança) é de apenas 97 quilómetros/hora. Este valor é muito inferior à velocidade de tráfego (que se admite ser praticada por 85 por cento dos condutores) e que ronda os 145 quilómetros por hora. Mesmo circulando à velocidade máxima permitida na auto-estrada, o automobilista corre perigo de acidente muito acima do valor limite de segurança do traçado da via.

Torres queixa-se do preço

"Um condutor atento à estrada só de relance pode contemplar a paisagem que se estende desde o cabeço vulcânico de Montachique, ainda no concelho de Loures, até para lá de Torres Vedras. Isto porque a auto-estrada serpenteante possui apenas duas vias até à saída para Sobral de Monte Agraço, o que dificulta a vida a quem queira apreciar o contraste entre as encostas bucólicas pintalgadas com moinhos em ruínas e, do lado contrário, as modernas e gigantescas hélices de ferro das torres eólicas. Mais adiante, ainda se pode aproveitar durante uns quantos quilómetros o alargamento para três vias e deixar para trás os camiões de mercadorias. Isto, se toda a faixa de rodagem não ficar ocupada com pesados a ultrapassarem outros - como acontece frequente. Em Portugal, parece ser assim: quando não é a via que complica, são os condutores que insistem em colocar em risco a sua segurança e a dos outros...
"Em Torres Vedras, que conta com duas saídas (sul e centro), a auto-estrada motiva elogios e críticas. O presidente da câmara, Carlos Miguel (PS), disse ao Cidades, através de um assessor, "que não tem nada a dizer sobre o assunto [A8]". Fica por se saber se o autarca socialista mantém a opinião, expressa num relatório elaborado pela sua própria assembleia municipal e apresentado ao executivo em Março de 2009, de que, "subtraindo questões técnicas como a má qualidade do piso, partes do traçado com curvas demasiado pronunciadas e locais com mau escoamento de águas pluviais, a A8 tem servido muitíssimo bem Torres Vedras e o Oeste".
"Com a auto-estrada, a região ficou a meia hora da distânciade Lisboa, atraiu investimento estrangeiro, traduzido nomeadamente em empreendimentos turísticos.
"O que se passa na A8 é uma vergonha, quer ao nível da qualidade do piso, quer dos preços praticados", contrapõe, em declarações ao Cidades, o vereador Paulo Bento (PSD), da oposição em Torres Vedras. Este autarca apoia-se no relatório de avaliação das portagens para salientar que se trata da "mais cara" do país.
"A comissão da assembleia municipal concluiu que o troço Malveira-Torres Vedras Sul (17,9 km/1,45 euros), comparado com o troço Loures-Malveira (11,4 km/0,75 euros), "tem um valor de portagem substancialmente mais caro". A diferença resulta de contratos de concessão assinados em épocas distintas. Essa foi, aliás, a explicação avançada pelo presidente da Auto-estradas do Atlântico, José Costa Braga. Num ofício remetido à câmara, o responsável sustenta que "os sublanços com mais anos de serviço têm uma tarifa (euro/km) mais baixa, devido a coeficientes de actualização inferiores". O presidente da câmara recorreu da diferença de preços para a associação de defesa do consumidor Deco, mas em Torres desconhece-se o resultado dessa diligência.
"O recente temporal deixou marcas nas áreas de serviço de Torres Vedras. Os ventos dobraram os grossos ferros de uma protecção do parque de estacionamento (sentido norte) e deixaram meio tombada a placa informativa do acesso na direcção sul. A via nesta zona, para o OSCE, apresenta sobretudo deficientes condições de visibilidade, devido a curvas verticais e algumas planas e riscos de hidroplanagem, em diferentes pontos nos dois sentidos. O troço entre a saída para o Bombarral e Óbidos padece dos mesmos problemas. Esta última vila, cujo casario muralhado se avista da auto-estrada, tem sabido tirar partido desta ligação. O presidente da câmara, Telmo Faria (PSD), já lhe chamou mesmo "a coluna vertebral do Oeste".

A sorte das Caldas

"A saída da zona industrial é perigosa." Quem o admite é o presidente da Câmara das Caldas da Rainha, Fernando Costa (PSD), esclarecendo, por seu lado, que se trata de um acesso à A8 que foi projectado inicialmente para servir uma variante à cidade e que acabou por ser transformado em auto-estrada. O social-democrata não poupa nos elogios pelo que a via representa para a região. Os motivos para sorrir também se devem ao facto de os oito quilómetros (sem portagem), com quatro acessos à volta das Caldas, terem retirado "cerca de 60 por cento do trânsito do centro da cidade". E sublinha que a auto-estrada, além de aproximar o concelho de Lisboa e de Santarém, constitui uma alternativa a ter em conta na ligação ao Porto.
"O perfil a partir das Caldas da Rainha torna-se menos acidentado, para benefício do conforto.
"Jorge Barroso, presidente da Câmara da Nazaré, independente eleito pelo PSD, também aprova a infra-estrutura rodoviária, apesar de a vila piscatória não ficar logo à beira da A8. "As auto-estradas são boas para trazer, mas também levam mais facilmente", salienta o autarca numa alusão à necessidade de os municípios saberem tirar partido do dinamismo económico proporcionado pela melhoria das acessibilidades. "Não podemos dizer que não queremos pagar portagens e depois ter a estrada alcatifada. A A8 de hoje não é igual à de anteontem", afirma Jorge Barroso. Tal não o impede de lamentar que os valores praticados no troço após as Caldas da Rainha e a ligação ao seu município sejam dos "mais caros do país". Por isso, defende que, se "o preço fosse igual para todos, o pagamento seria mais justo". Em termos de segurança, o autarca destaca que "o traçado é bastante melhor", apesar dos riscos acrescidos de hidroplanagem na zona de Alfeizerão. Problema que também é assinalado pelo estudo do OSEC.
"A ligação à Marinha Grande é garantida através da A17, a via que depois permite continuar pela A29 até ao Porto. O socialista Raul Castro, presidente da Câmara de Leiria, onde termina a A8, realça que a via proporciona um "acesso mais rápido ao litoral do Oeste". O autarca da cidade do Lis salienta que esta acessibilidade tem sido um dos principais motores para a produtividade industrial da cidade, uma vez que "facilita muito a vida das empresas". Em termos de segurança, Raul Castro chama a atenção para "alguns pontos de maior acumulação de água", que aumentam o risco de acidentes provocados por aquaplaning, mas garante que "a própria concessionária tem mostrado preocupação em melhorar o pavimento e resolver estes problemas".

Observatório quer rever normas

Concessionária garante que o alargamento vai tornar a A8 "mais amigável"

"A segurança rodoviária, para Nuno Salpico, presidente do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades, "é sobretudo um problema de engenharia de transportes". O responsável deste organismo não governamental, criado em 2004, salienta sobre a A8 que, "na construção rodoviária em Portugal, com demasiada frequência a segurança é escandalosamente descurada".
"O relatório do OSEC defende a revisão da Norma de Traçado portuguesa, como aconselha o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, de forma a estimar correctamente a velocidade de tráfego, para evitar que se permita, "ilicitamente, a construção de estradas mais baratas à custa da insegurança". Nuno Salpico (na foto) sublinha que o levantamento efectuado na A8 detectou "elevados factores de risco proibido a que se sujeitam os condutores", perante uma "gama de violações técnicas muito graves" do traçado. As curvas de raio reduzido (dos 430 aos 600 metros), que deviam ultrapassar os mil metros, associadas à perda de atrito com pavimento molhado, "potenciam o despiste", para além de a introdução de diferenças de velocidade aumentarem o risco de colisões - o que acontece também na violação das normas para as lombas. O OSEC recomenda, por isso, a correcção dos defeitos estruturais da via e "medidas de redução da velocidade de tráfego nos locais mais perigosos" onde não seja possível avançar já com obras.
"A Auto-estradas do Atlântico explicou que a A8 foi construída em diversas épocas e que todos os projectos "tiveram de ser previamente aprovados pelas entidades fiscalizadoras". A empresa garante que o troço inicial, Loures-Torres Vedras, "cumpre todas as normas aplicáveis em termos de perfil exigido para as auto-estradas". O traçado resulta da orografia e as obras em curso entre Loures e a Venda do Pinheiro "irão nalguns casos corrigir o eixo da auto-estrada". No entanto, segundo a empresa, "essas correcções serão praticamente imperceptíveis aos condutores" e com o alargamento, apesar de condicionado pelo atravessamento de zonas urbanas, o traçado "parecerá mais amigável". Os sublanços com maior número de utilizadores situam-se na proximidade de Lisboa". L.F.S.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

THE FOX - A estreia de um grupo de musica rock de Torres Vedras


Os The Fox é um projecto de musica rock que se tem faz uma brilhante fusão entre o uso das novas tecnologias e o trabalho quase artesanal.
Além disso é um grupo de Torres Vedras, onde este tipo de projectos tem sido raro.

Este Natal fui surpreendido pela oferta que me foi feita por um dos membros desse grupo, amigo de longa data, e sempre ligado ao mundo da divulgação e produção musical, o Mário Fernandes (aliás “Neco” para os amigos), via Ana Isa, do primeiro CD dos The Fox.
Esse CD foi produzido pelo Tiago Gomes e remisturado em Londres. Além disso é uma pequena obra de arte, com cartões individuais, onde se reproduzem as letras do grupo, graficamente elaborados pela Catarina Sobreiro.

Conforme noticiam agora, é já amanhã, Sábado à noite, dia 16 de Janeiro, pelas 22 horas, que o grupo se revela ao público, na Tuna de Torres:
 “The Fox em parceria com a Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras têm o prazer de vos convidar para um momento muito especial: O lançamento do primeiro álbum da banda, "Hunting Grounds".
“O nosso desejo agora é fazer uma grande festa com todos os nossos amigos! Temos rock'n'roll, temos convidados especiais e temos uma grande vontade de fazer desta noite uma noite inesquecível para todos nós”.
Quem quiser conhecer melhor o grupo pode consultar o seu espaço de divulgação no Myspace AQUI.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mais uma "CHEIA GRANDE"



Depois do tremor de terra, do ciclone, do frio, hoje foi dia de chuva.

A estrada de Torres Vedras a Santa Cruz tem estado encerrada em vários troços por causa do Rio Sizandro que saltou das margens em muitos sítios.
Nesta fotografia, tirada esta tarde do Varatojo, pode-se ver o efeito das cheias junto ao lugar do Paúl, fazendo assim jus ao seu nome.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

UM FIM-DE-SEMANA CULTURAL EM TORRES VEDRAS

Este vai ser um fim-de-semana em cheio em Torres Vedras, no que respeita a eventos culturais.

Assim logo à noite a dificuldade vai ser de escolha.

Quando foram 21.30, nesta sexta-feira 8 de Janeiro, a dificuldade vai ser escolher entre a apresentação pública do GRUPO CORAL GAUDEMIS, que terá lugar na Igreja da Misericórdia para um concerto com “Canções Tradicionais de Natal e Janeiras” e a primeira sessão de “Imagens em Discussão”- CINEFORUM, organizado na sede do Académico de Torres Vedras (Largo frei Eugénio Trigueiros nº 7), que inclui “uma sessão, um tema, um filme”.


Amanhã, Sábado dia 9, a escolha volta a ser difícil, com a inauguração em simultâneo e em locais próximos, pelas 18 horas, de duas exposições, uma, “DIÁRIOS GRÁFICOS, DESENHOS EM CADERNOS”, na Galeria Municipal dos Paços do Concelho, comissariada por Eduardo Salavisa e Carlos Mendes, outra, uma exposição de pintura e Design de EVA GATO MOURA GUEDES e INÊS GATO, na Cooperativa de Comunicação e Cultura.



Finalmente, Domingo dia 10 decorrerá o já tradicional concerto de ano novo organizada pelo ENSEMBLE D’ARCOS, com vários convidados, destacando-se a Camarata du Rhone, que terá lugar no Teatro-Cine de Torres Vedras a partir das 18 horas.



É caso para dizer que não há fome que não dê em fartura.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um "Postal" Para Desejar Um BOM ANO NOVO

Com esta imagem, do Largo de S. Pedro, da autoria de Eduardo Salavisa, publicada no seu blog "Desenhador do Quotidiano", nos despedimos de 2009, desejando a todos um BOM ANO NOVO de 2010.
(Segundo o próprio autor, vai ser inaugurada no dia 9 de Janeiro em Torres Vedras uma exposição desse artista).



terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA PARA O TEMPORAL DO DIA 23


O Instituto de Meteorologia divulgou hoje a descrição científica daquilo que se passou em Torres Vedras e na região Oeste no passado dia 23:

“Na madrugada do dia 23 de Dezembro de 2009, a região do Oeste de Portugal Continental foi atravessada por uma depressão muito cavada, tendo sido registado um valor mínimo da pressão ao nível médio do mar de 969.4 hPa às 04:20 horas locais na estação do Cabo Carvoeiro.


De acordo com uma análise preliminar, no presente episódio e considerando a rede de estações do IM (cuja distância média entre estações é inferior a 30 km), verificou-se que foi também na mesma estação que se registaram os valores mais elevados da intensidade do vento. Em particular, o vento médio atingiu cerca de 90 km/h às 4:40 e a rajada 140 km/h às 4:50 de dia 23.

O cavamento da depressão, ou seja, a diminuição da pressão no seu centro, foi muito acentuado, em particular no momento da passagem sobre o território. Uma análise preliminar permite estimar um cavamento de cerca de 20 hPa num período de 24 horas, o que à latitude de Portugal Continental permite classificar este evento como um episódio extremo.

As observações efectuadas pelo sistema de radar Doppler de Coruche permitiram identificar e seguir o referido núcleo depressionário, à aproximação e passagem pela referida região. Na animação do produto MAXZ (ver Enciclopédia METEO.PT/Observação Remota/Radar) o núcleo depressionário começa a ser identificado pelas 3:10 UTC ainda sobre o mar, a sudoeste do Cabo Carvoeiro; pelas 4:20 UTC, no seu deslocamento para nordeste, o núcleo da depressão encontra-se já sobre o mesmo cabo, à hora a que foi observado na referida estação o valor mínimo de pressão atmosférica. Ao prosseguir o seu movimento para nordeste, para o interior do território, o núcleo depressionário foi enchendo (aumentando a presão no seu centro) e os ventos associados diminuíndo de intensidade.

O presente episódio é semelhante a outros que ocorreram em Portugal Continental no passado, como são exemplos os temporais de 5 a 6 de Novembro de 1997 no Alentejo e de 6 a 7 de Dezembro de 2000 no litoral Norte e Centro.

É importante clarificar que este fenómeno não se enquadra na classe de ciclones tropicais, cuja natureza é distinta da do fenómeno actual. Por exemplo, é de notar, que um ciclone tropical de categoria 1 apresenta vento médio superior a cerca de 120 km/h, valor que não foi registado em nenhuma das estações da rede do IM.”


ORDENS DO DIA DE BERESFORD


VER NO NOSSO BLOGUE PEDRAS ROLANTES MAIS UM RESUMO DAS ORDENS DO DIA DE BERESFORD, REFERENTES A DEZEMBRO DE 1809