(Fotografias tiradas com a minha pequena compcta da Ricoh R8 (A Canon e a Lumix ficaram em casa...))
Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
domingo, 4 de julho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Abertura da Feira de S. Pedro
Tem hoje lugar a abertura da tradicional e centenária Feira de S. Pedro.
Podem consultar AQUI o espaço que lhe dedicámos neste mesmo blogue por ocasião da sua abertura do ano passado.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010
Guta Moura Guedes - Uma torriense a recordar Saramago.
Belo o texto de Guta Moura Guedes sobre Saramago.
Está na sua página do facebook, e nós transcrevemo-lo em baixo.
(clicar sobre a imagem, para ler o texto)
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Venerando António Aspra de Matos
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
Recordar José Saramago em Torres Vedras
Faleceu hoje José Saramago, um dos maiores escritores portugueses de sempre e o único consagrado com o Prémio Nobel, em 8 de Outubro de 1998.
Foram várias as ocasiões em que José Saramago visitou Torres Vedras, mas talvez poucos conheçam o que ele escreveu sobre este concelho na sua obra “Viagem a Portugal”.
Como homenagem e recordação desse grande vulto da cultura portuguesa, transcrevemos aqui alguns excertos dessa visita, nomeadamente na parte relativa ao Chafariz dos Canos, ao Castelo de Torres Vedras e ao Turcifal:
Saramago no Chafariz dos Canos:
“Em Torres Vedras, o viajante começou por ver a Fonte dos Canos.Estava mesmo no caminho, mal parecia desprezá-la. Muito estimavam a água os construtores do século XIV para desta maneira a preitearem, arcos ogivais de bom desenho e talhe, capitéis que não são mera fórmula estrutural, gárgulas imaginosas. Não corria hoje a água, esgotou-se talvez o caudal, ou, tendo sido integrado no abastecimento público, não cuidaram de o reencaminhar para a secular saída. Lastima o viajante : fonte que não corre, é mais triste que ruína.”
( José Saramago, Viagem a Portugal, ed. Caminho, 10ª edição, 1995, p.256)
Saramago no Castelo e na Igreja de Stª Maria do Castelo
“Como a tarde vai chegando ao fim, o viajante quer dar uma última vista de olhos à paisagem donde veio. Sobe ao castelo, admira até onde os olhos alcançam, e, estando ali a Igreja de Santa Maria do Castelo, erro seria não aproveitar (...). No alto da vila, e metida entre as muralhas, a igreja está silenciosa, não zumbe mosca, nem os pássaros se ouvem lá fora. O viajante repara numa porta que ali há, empurra-a e encontra-se numa pequena divisão nua de móveis ou outra decoração. Dá três passos e quando, movendo ao mesmo tempo o corpo, passa os olhos em redor, tem um violento sobressalto : julgou ter visto uma enorme cara a espreitá-lo pela frincha doutra porta. Confessa antes que lhe perguntem: teve medo. Mas enfim, um viajante é um homem: se não há ali ninguém que lhe admire a coragem, prove-a a si próprio.
“Aproximou-se da porta misteriosa e abriu-a de repelão. Ajoelhado no pavimento de tijoleira, estava um enorme S.José de pasta, já esfarrapadas as vestimentas, todo ele papelão moldado, velhinho mais que o natural na brancura de cabelo, barba, bigode e sobrancelhas, mas muito jovem de pele. Era uma figura de presépio, claro está”.
(In José Saramago, Viagem a Portugal,ed. Caminho, 10º edição, 1995,p.257).
Saramago no Turcifal
Por último, da mesma edição, a visita ao Turcifal
“Foi o caso de no Turcifal ter visto o viajante uma altíssima igreja erguida sobre um terreiro a que por tesos lances de escadaria se chegaria, havendo boa perna. Buliu o avantajado edifício com a curiosidade do viajante, que se lançou ao habitual jogo da chave. (...) O viajante bateu uma vez, bateu duas vezes, e depois de bater três vezes entreabriu-se uma frincha zelosa, e uma cara de mulher velha apareceu, severa: “Que deseja?” Dá o viajante o seu habitual recado, veio de longe, anda a visitar, seria um grande favor, etc. Responde a frincha da porta: “Não estou autorizada. Não dou a chave. Vá pedir ao padre.” (...) Já pensa que no limiar da povoação fará o teatral gesto de sacudir a poeira das botas, mas então lembra-se do bom modo da primeira mulher, e vai ao padre. Pasmemos todos. A velha já lá está, em grandes demonstrações explicativas, de palavra e gesto, com a ama do padre, ou talvez parente. (...) E tudo vem a explicar-se. Esta pobre mulher, mostrando a igreja a visitantes, foi por duas vezes vítima de ataques. Uma das vezes até lhe deitaram as mãos ao pescoço, um horror. O viajante fora confundido.”
quinta-feira, 17 de junho de 2010
O "Sr. Vinho" já está, finalmente, em Torres Vedras
Depois de tanta polémica, o “sr. Vinho” de Joana Vasconcelos já está em Torres Vedras.
Julgo que muita gente vai mudar de opinião quando o vir no local.
Colocado na madrugada de ontem, contou com a presença de Joana Vasconcelos logo pela manhã.
O enquadramento é bastante bonito e o “garrafão”, como já foi popularmente baptizado, fica muito melhor naquele local do que no local onde estava no Centro Cultural de Belém, ganhando outra dimensão.
Agora é aguardar pela abertura da nova Praça Municipal para que os torrienses possam usufruir dessa interessante peça artística.
As fotografias aqui incluídas foram-me gentilmente cedidas pela minha colega e amiga Ana Isabel Miguel.
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quinta-feira, 27 de maio de 2010
Quando o verdadeiro Rally de Portugal, que ainda era da TAP, passava por Torres Vedras
Nos anos 60-70, numa pequena vila como Torres Vedras, em que os ritmos dos dias eram marcados pela regularidade dos acontecimentos anuais (como a passagem do ano numa colectividade local (Operário, Grémio ou Tuna, conforme o estrato social de cada um), o Carnaval, a Procissão do Senhor dos Passos, o Festival da Canção na RTP, as fogueiras de Stº António nos vários bairros da vila, a Feira de S.Pedro, as Férias de Verão em Santa Cruz, o Natal… ), a passagem dos “bólides” do Rally TAP pelas ruas da vila era aguardado com excitação e expectativa .
Nas noites do Rally TAP, enchiam-se as duas principais artérias da vila, a Av. 5 de Outubro e a Rua Santos Bernardes.
O local mais “espectacular” era a curva de ligação entre aquelas duas artérias, frente ao Café Império, onde eram frequentes as derrapagens.
Quem quisesse um bom lugar tinha de se posicionar algumas horas antes da passagem prevista. Depois era esperar. A multidão começava a agitar-se quando se começavam a ouvir ao longe os roncos dos potentes motores, acabados de sair de Montejunto.
Era o tempo dos Lancia Fulvia, dos Morris Mini Cooper, dos Alpine Renault, dos Fiat 124 Abarth ou dos primeiros Datsuns e Toyotas.
Todos procuravam ver um Tony Fall, um Jean –Pierre Nicolas, um Bjorn Waldegaard, um Sandro Munari ou o português Francisco Romãozinho.
Havia mesmo quem procurasse entre as fabulosas máquinas que por cá passavam o carro do Michel Vaillant!
De facto o misticismo do rally tinha levado a que Jean Graton tivesse incluído numa aventura dessa personagem de Banda Desenhada o Rally TAP.
Com um pouco de sorte, um daqueles bólides parava para se abastecer numa das bombas de gasolina existentes dentro da vila, uma no final da Avenida, frente ao “Napoleão”, onde hoje fica o stand da Fiat, a outra a meio da Santos Bernardes, no local da Caixa de Crédito Agrícola, e então era a corrida para rodear o carro e conhecer os pilotos, muitas vezes estrangeiros, uma possibilidade de se contactar com um outro mundo no Portugal fechado de então, e pedir autógrafos àqueles verdadeiros deuses da miudagem.
A passagem por Torres Vedras não era uma classificativa, apenas um local de passagem entre as míticas classificativas de Montejunto e as do Gradil ou Sintra.
Mas a velocidade era vertiginosa, para os hábitos dos poucos automóveis que, em dias normais, atravessavam as pacatas ruas da vila. Existia então o chamado circuito de manutenção com controle do horário de passagem entre dois troços, e os pilotos tinham de se manter velozes para não chegarem atrasados a esse controle.
Depois o Rally, que passou a ser “de Portugal”, deixou de passar por Torres Vedras. Com um pouco de sorte podíamos ir vê-lo em Montejunto ou ao Gradil. Ainda consegui assistir a uma classificativa em Sintra, um ano antes dos trágicos acontecimentos que acabaram com essa mítica prova.
Hoje o Rally de Portugal é cada vez mais um Rally regional, longe desses tempos “heróicos”.
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domingo, 23 de maio de 2010
Um Adeus a Beto.
Só o conhecia de vista, conhecia melhor a sua esposa, mas era uma figura que contribuía para valorizar artisticamente a cidade de Torres Vedras.
Também não era um grande admirador do tipo de musica que ele interpretava, mas o Beto era um cantor com uma grande força e uma voz original e peculiar.
A morte do cantor Beto é uma grande perda para Torres Vedras e para o mundo da musica ligeira portuguesa em geral.
Até sempre Beto e prometo que vou ouvir com mais atenção a tua obra musical.
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sexta-feira, 21 de maio de 2010
Até Sempre José Almendro
Sem Plavras
O amigo José Luis Silveira Almendro deixou-nos.
O amigo José Luis Silveira Almendro deixou-nos.
Fiquei a sabê-lo há pouco AQUI.
Foi um dos pioneiros do aeroclube e grande entusiasta pela cultura e património de Torres Vedras.
Colaborou activamente em campanhas arqueológicas, uma das quais a do Castro do Zambujal de 1994. Por esta colaboração mereceu mesmo um rasgado elogio e agradecimento por parte dos arqueólogos que lideraram essas escavações, nesta publicação, AQUI reproduzida, e que é a nossa modesta homenagem a esse torriense.
Até Sempre amigo Almendro!
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terça-feira, 18 de maio de 2010
A propósito do dia Internacional dos Museus - O Museu Municipal Leonel Trindade na internet
A propósito da comemoração hoje do Dia Internacional dos Museus, indicamos hoje algumas páginas existentes na internet sobre o Museu Municipal Leonel Trindade.
Começamos por recordar um estudo,penso que pouco conhecido, da autoria da Drº Isabel Luna, publicado pelo ISCTE, sobre a história e os públicos frequentadores do museu torriense, e que pode ser consultado AQUI.
Também recomendamos a página da Wikipédia, AQUI, sobre o museu, escrita em alemão,mas que pode ser percorrida usando o "tradutor".
Existem ainda várias páginas sobre peças existentes no museu, sobre achados da Idade do Bronze no Barro, AQUI, sobre cerâmica romana AQUI, ou sobre as peças de cerâmica de Sacavém AQUI.
A figura de Leonel Trindade é merecedora de alguma atenção AQUI, mas continua a ser fundamental a leitura da sua biografia escrita por Cecília Travanca.
Recorde-se que hoje, durante todo o dia, está programado um vasto programa de animação do espaço do Museu Leonel Trindade. coma colaboração da Escola Secundária Henriques Nogueira.
Leonel Trindade (1903-1992) (anos 50)
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domingo, 9 de maio de 2010
Turres Veteras XIII - 14 a 15 de Maio
A não perder no próximo fim-de-semana mais uma edição de "TURRES VETERAS", que já vai na sua 13ª edição.
O tema deste ano é "A Vida Quotidiana nas Linhas de Torres Vedras", realizando-se nos Paços do Concelho com o seguinte programa:
(Clicar na imagem para ver em ponto grande)
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terça-feira, 4 de maio de 2010
Um Comboio de Letras e Memórias
Nesta 4ª feira , 5 de Maio, a Linha do Oeste vai voltar a viver a confusão e a algazarra dos seus bons velhos tempos.
A propósito da divulgação dos trabalhos concorrentes à 2ª edição do Concurso de Fotografia “Ando a Ler”, organizada pela Escola Secundária Henriques Nogueira, as estações de Torres Vedras e Caldas da Rainha voltam a recuperar a confusão desses tempos, quando era por aqui que o mundo entrava pela região Oeste a dentro.
Na estação de Torres Vedras será instalada uma parte da exposição dos trabalhos concorrentes ao concurso que este ano foi dedicado ao tema “Ler nas entrelinhas”, anunciando-se ao mesmo tempo os vencedores.
Depois será a vez de se viajar no tempo, numa ligação por comboio entre as estações das duas cidades do Oeste, uma viagem especial, com leituras, aprendizagens várias e recuperando essa capacidade única que só o comboio permite, que é o de se aproveitar uma viagem para longas conversar ou para desfrutar com calma a bonita paisagem oestina.
Antes das auto-estradas, a identidade desta região foi-se consolidando ao longo da linha do comboio, onde a diferença entre o crescimento e a decadência estava à distância da sua passagem.
Amizades e paixões, conspirações e revoluções, mortes trágicas e descobertas de outros mundos, fizeram a história de gerações de passageiros que frequentaram regularmente os lentos comboios do Oeste, sem índios na paisagem, mas cercados de vinhas, florestas e misteriosos túneis.
Hoje sabe-se que o comboio é o futuro, se todos quisermos ter futuro, por isso esperamos que para muitos este seja apenas o início de um novo caminho pelos carris da Linha do Oeste.
A propósito, recordamos aqui como foi a primeira viagem de comboio a partir de Torres Vedras que teve lugar em 25 de Maios de 1887, ligando esta então vila a Lisboa:
"Era immenso o enthusiasmo que desde a tarde de terça feira animava os moradores d'esta villa, quando souberam que iam definitivamente estreitar-se as suas relações com a capital (...) grande a animação com que era aguardado o primeiro comboio de Lisboa na quarta 25, dia esplendido, de bello sol, que, batendo em cheio nos vinhedos que aformoseiam as encostas que se desfructam do vasto e desafogado recinto da estação(...).
"Pouco depois das nove horas e meia da manhã começou a afluir à gare grande numero de pessoas das diversas classes socias. Às 10 e 40 surgiu do tunnel da Certã a machina nº 127, comboiando quatro carruagens e dois wagonetes.
"N'esta ocasião subiram ao ar muitos foguetes, e a philarmonica Torreense tocou o hynno da Carta e seguidamente outras peças do seu reportório, dando assim ao acto um carácter de festa inteiramente popular, nem por isso de menos valor das outras.
"No comboio chegaram cerca de 100 pessoas, satisfeitas com os panoramas que gosaram em toda a linha (...)
"O primeiro comboio, que de Torres saiu às 6 horas e 15 minutos da manhã, conduziu limitado numero de passageiros para Lisboa. Iam n'elle alguns comerciantes da localidade, aproveitando já o enorme benefício que o progresso lhes facilita." (Voz de Torres Vedras de 28 de Maio de 1887).
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quinta-feira, 29 de abril de 2010
O "ruivaco-do-oeste" nos rios torrienses.
A edição de hoje do Público, integra uma reportagem sobre o perigo de estinção em que se encontra uma das poucas espécies ainda existentes nos rios torrienses, alertando também para o estado ambiental do Sizandro e do Alcabrichel.
Já noutra ocasião aqui divulgámos um outro trabalho sobre as espécies ameaçadas dos rios do Oeste, que pode ser revista AQUI.
Será ainda interessante consultar a lista de espécies de àgua doce que ainda vivem nos rios portugueses AQUI.
Sobre o que se pode fazer ou está a ser feito para salvar o ruivaco-do-oeste aconselhamos ainda a consulta deste site AQUI.
reproduzimos em baixo o artigo do Público:
"Quatro tanques separam o ruivaco-do-oeste da extinção
Por Nicolau Ferreira
In “Público” de 29 de Abril de 2010
“O ruivaco-do-oeste integra um projecto para a conservação de peixes fluviais que estão a desaparecer. Nos tanques, a reprodução em cativeiro está a ser um sucesso, só falta poder trazê-los de volta para os rios.
________________________________________
“À saída de Torres Vedras o rio Sizandro já está morto. É um canal de cor acastanhada que se precipita para o oceano Atlântico com rapidez.
Tínhamos sido avisados por Carla Santos-Sousa, uma bióloga de 32 anos. Vinte minutos antes, na estrada que serpenteia o Sizandro a caminho da cidade, entre a passagem de vilarejos, suiniculturas, campos verdes e cooperativas de vinho, a investigadora foi directa: "Querem ver o rio antes ou depois de Torres Vedras? Mau ou mesmo mau?" Mesmo mau.
Não é só o rio poluído, a paisagem é desoladora porque estéril de ideias. É estéril o declive artificial das margens com uma vegetação rudimentar, são inconsequentes as pedras que tentam segurar as margens do rio por baixo de uma ponte. A imaginação dos homens que não consegue fazer melhor.
"É ridículo. Já temos as ferramentas, conhecimento académico e há experiências feitas noutras partes do mundo que se podem aplicar na reabilitação deste rio", desabafa a investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que estuda há quase dez anos peixes fluviais, enquanto olha para a água incessante a passar. Carla Santos-Sousa é uma das muitas pessoas envolvidas no Projecto de Conservação Ex-situ de Organismos Fluviais em risco de extinção. O ruivaco-do-oeste, das cinco espécies de peixes que estão criticamente em perigo escolhidas para este projecto, é o caso mais preocupante.
O peixe só existe em Portugal, em três rios do Oeste: o Alcabrichel, o Sizandro e o Safarujo. Só em 2005 é que a equipa do ISPA, liderada pelo professor Vítor Almada, compreendeu com ajuda da genética que estas três populações pertenciam a uma espécie que está individualizada do outro ruivaco que existe mais a norte.
Mais cedo no mesmo dia, a montante de Torres Vedras, perto da aldeia Dois Portos, quando Carla nos mostra um Achondrostoma occidentale nas suas mãos, o que ela vê é "uma linhagem independente com cinco milhões de anos de evolução". E tudo se perderá se não for feita a reabilitação dos rios.
O Sizandro que passa em Dois Portos ainda é outro - mais calmo, selvagem e mais limpo, apesar dos canos de esgotos vindos das habitações. A paragem reservou boas surpresas à bióloga, que repete a técnica que já aplicou em dezenas de rios portugueses, de norte a sul. Da bagageira do carro saem umas jardineiras de borracha com botas incorporadas e uma mochila com uma bateria de carro ligada a um aparelho eléctrico. A investigadora vai à caça.
Liga o aparelho a um camaroeiro e solta um fio directamente para a água. Escolhe um fundão à esquerda para fazer a primeira tentativa. "Ninguém toca na água", avisa. Descarga eléctrica. Salta uma enguia para a rede que acaba num balde preto com água. Mais descargas. No fundão, onde normalmente os peixes se protegem no Inverno contra a velocidade do rio e sobrevivem no Verão às secas, nada. "Não há peixes", diz a bióloga, enquanto se ouve uma ovelha a balir para os lados do amieiro que está do outro lado da margem.
Mas não desiste, anda uns metros para baixo e instala-se a seguir a uns mini-rápidos para voltar a fazer uso dos 16 quilos que leva às costas na mochila. Desta vez é diferente e quando olhamos já Carla tem vários ruivacos-do-oeste na rede. "Quando dei o primeiro choque, vieram logo uns 50!" No balde contamos 13, três não aguentaram a descarga e morreram.
A bióloga segura um exemplar e faz-nos uma descrição física da espécie: um adulto alcança uns nove centímetros, tem nas costas um padrão oliváceo que é muito diferente da barriga branca e manchas laranjas na base de todas as barbatanas.
Abril é época de reprodução e só agora é possível distinguir os machos das fêmeas. Carla diz-nos para passarmos o dedo pela cabeça do macho e confirmamos a existência de tubérculos: pontos rijos que aparecem agora e servem para estimular a fêmea. "Aqui está outra fêmea bastante cheia", mostra-nos a bióloga, acrescentando que largam centenas de ovos.
Perguntamos se está contente com o número de peixes que encontrou: "É muito bom, não estava à espera."
Cada curso tem um ecossistema próprio e vive em isolamento. Do ponto de vista biológico, mesmo falando da mesma espécie, quando se perde uma população de um rio, perde-se uma riqueza genética única, que teve uma evolução distinta de tudo o resto.
Projecto com quatro anos
"Cada rio é uma ilha, os princípios biológicos que se aplicam a uma ilha aplicam-se aqui a um rio", explica a investigadora, enquanto devolve ao rio os ruivacos-do-oeste, a enguia e a água do balde e depois de ter medido o oxigénio, o pH, a temperatura, a condutividade e a concentração de oxigénio no rio. Os parâmetros estão bons. "Temos grande disponibilidade de água, daqui a um mês as condições mudam radicalmente." E é tempo de deixar o Sizandro.
Além da poluição, a seca é outro problema que afecta estes rios e a sobrevivência deste peixe. Desde a seca de 2005 que não se encontra o ruivaco no rio Safarujo, que com os seus 20 quilómetros é o mais pequeno dos três cursos de água onde vive a espécie.
Vítor Almada arrancou com a ideia do projecto na sequência da famosa seca de 2005. "O projecto surgiu porque havia espécies que estavam muito em perigo", explica Vítor Almada por telefone, que reuniu à equipa do ISPA o Aquário Vasco da Gama e a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.
O primeiro passo era garantir a conservação das espécies através da reprodução em cativeiro e garantir a reintrodução no habitat natural, depois de os rios serem recuperados. Além do ruivaco-do-oeste, a boga- portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum), a boga- do-sudoeste (Iberochondrostoma almacai) e duas espécies de escalo que só existem em Portugal, o Squalius torgalensis e o Squalius aradensis.
O primeiro protocolo foi feito em 2006. Às três instituições juntaram-se a Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, a Câmara de Figueiró dos Vinhos e a EDP - a empresa termina a sua ligação com o projecto a 1 de Junho depois de um apoio de três anos. "Temos dinheiro até ao final do ano", disse Paulo Lucas, da Quercus; a partir daí continuam com fundos próprios da associação. "Uma eventual extensão do projecto está dependente de uma candidatura ao Fundo EDP para a Biodiversidade", disse por email Gilda Sousa, do departamento de comunicação da EDP.
Luz no cativeiro
No Aquário Vasco da Gama, subimos até ao terraço do edifício que recicla a água salgada, de onde se avista o Tejo e ao fundo Lisboa. Às 10h30 da manhã, o sol aquece a água dos vários tanques cheios de peixinhos.
Onde é que está o ruivaco-do-oeste? Do lado do rio, no tanque mais à direita, 265 indivíduos nadam num espaço com plantas que filtram a água, lugares para se esconderem feitos de rede e tijolos, vasos cheios de seixos para as fêmeas colocarem os ovos. O habitat mais natural possível dentro de um tanque rectangular com cerca de três metros quadrados.
Fátima Gil está colada ao tanque e remexe as pedrinhas dos vasos. "Uma forma de se dar com os ovos do ruivaco-do-oeste é apalpar as coisas", explica a bióloga, que trabalha no museu há 22 anos. Encontra primeiro um ovo com um aspecto envelhecido, já morto. Procura mais e anos de experiência com a reprodução de peixes em cativeiro não a deixam ficar mal. Colado a um seixo está um ovo pequenino, de um branco translúcido, com um ar decididamente vivo. "Vêem-se dois pontos pretos brilhantes que são os olhos do embrião. Se utilizássemos uma lupa, até se conseguia ver o coração a bater."
O Aquário Vasco da Gama também serviu para Alexandrina Pipa aprender as bases da reprodução em cativeiro, durante o mês que esteve em Lisboa, antes de voltar à aldeia de Campelo, perto de Figueiró dos Vinhos. É aí que ficam as instalações onde se fará a reprodução a longo prazo do ruivaco-do-oeste. Com a ajuda da câmara, que cedeu as instalações, o projecto investiu 35 mil euros para recuperar os tanques da Estação Aquícola de Campelo.
Mais de 500
Encontramos Alexandrina, que é voluntária da Quercus há 12 anos, na estação de comboio da Caxarias. No caminho até Campelo, vai explicando as espécies vegetais da paisagem. Vêem-se muitos Quercus faginea, o carvalho-português que nos últimos 20 anos tem vindo a substituir antigas zonas de cultivo. Mas existem também azinheiras, medronheiros, pilriteiros, além do tradicional pinhal e das manchas de eucalipto, onde Alexandrina diz que já viu veados e javalis.
A ribeira do Alge, que passa por Campelo, uma aldeia com menos de 30 habitantes, alimenta continuamente os viveiros. Na estação, só se ouve a água a correr. "Apostámos mais na recuperação dos tanques do que no edifício", explica a técnica.
Cá fora, há vários tanques muito maiores do que os do Aquário Vasco da Gama. Um deles, com cerca de nove metros de comprimento e três de largura, está pronto para receber a boga-portuguesa que vem do aquário de Lisboa. Só falta a temperatura da água subir mais um pouco.
Os moradores de dois dos nove tanques são ruivacos-do-oeste, um com exemplares do rio Sizandro, o outro do Alcabrichel, que chegaram a 31 de Março de 2009. Já desovaram no ano passado. Há 400 jovens de Alcabrichel e entre 150 e 200 do Sizandro, que ainda não se conseguiram contar. "Eu espero que, se não for este ano, seja para o próximo que se faça a reintrodução destes peixes na natureza", explica Alexandrina Pipa. "Não faz sentido fazer reintrodução, se o local ficar com as mesmas condições que existiam", defende.
À espera do Alcabrichel
Voltámos para o concelho de Torres Vedras, mas agora estamos a torrar ao sol, junto à margem do rio Alcabrichel, um calor insuportável. À nossa frente está parte do troço de 1500 metros do rio que corre por baixo da ponte do Ramalhal, a norte de Torres Vedras, até à ponte da A8.
Paulo Lucas, o responsável da Quercus pelo projecto, aponta para o cano do esgoto de onde corre um risco viscoso e castanho, tira fotografias e desabafa: "Isto é inacreditável."
O projecto da Quercus para a reabilitação do rio Alcabrichel ainda tem que ser aprovado pela Administração da Região Hidrográfica do Tejo, mas deverá avançar.
O futuro do ruivaco-do-oeste vai começar aqui - é esta fatia de 300 metros do rio que vai sofrer uma intervenção de reabilitação.
Mas o líquido castanho que corre constantemente do esgoto e se dissolve no ribeiro, com o cheiro indiscutível de uma suinicultura, compromete tudo. "Há alguma decantação dos materiais sólidos, mas a carga poluente é elevadíssima", explica o ambientalista de 41 anos que trabalha na Câmara Municipal de Ourém. O esgoto é uma fonte de matéria orgânica, faz explodir o crescimento de microrganismos que consomem o oxigénio e tornam inviável a existência do ruivaco. "Já pedimos uma solução para esta suinicultura. Só colocamos aqui os peixes quando o problema estiver resolvido."
Antes disso, contudo, há muito trabalho a fazer. O Alcabrichel é mais um exemplo de um rio encanado. O início dos trabalhos será em Junho: alargar as margens entre seis a sete metros para cada lado; retirar o canavial com cinco metros de altura; plantar salgueiros, choupos-negros, espécies autóctones que criam raízes, filtram o rio e dão sombra aos fundões, que no Verão são a salvação das populações de peixes. No final de Novembro, Paulo Lucas espera ter a primeira fase terminada. Os 300 metros de reabilitação vão custar 50 mil euros e o ambientalista calcula que vão ser necessários mais cinco anos de trabalho e 200 mil euros por ano para o Alcabrichel voltar ao que era, quando se podia tomar banho no rio.
Peixes no lago
O Sizandro vai ter que esperar. Apesar da melhoria da cobertura da rede de esgotos domésticos que passou de cerca de 50 por cento em 2000 para 75 por cento em 2010, só no final de 2011 o vereador Carlos Bernardes, vice-presidente da Câmara de Torres Vedras, espera ter 90 por cento das casas do concelho com os esgotos tratados. Mesmo assim, o tratamento dos resíduos da indústria agro-pecuária continua a léguas do necessário e em 2009 o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos lançou um relatório onde o Sizandro, com leituras feitas já perto da foz, era dos rios mais poluídos do país.
Junto à entrada do rio em Torres Vedras, onde o leito está cimentado, há quem diga que o Sizandro está mais limpo do que era, depois do encerramento da destilaria de Runa, há uns anos. José Anselmo Gregório, um ferroviário de 59 anos, lembra-se de outro rio: "Dantes não estava cimentado, havia fundões onde a malta apanhava peixe. Tomava-se banho no rio." Já voltou a ver peixes na cidade, diz sentado num banco da estação de comboios.
Mostra-nos um pequeno lago ao lado do muro da estação. A água tem uma película de algas verdes. Com uma mangueira afasta as algas e aponta. Um peixe-vermelho grande passa. Ao lado, mais pequenos, com uma cor escura no dorso e brancos na barriga, ruivacos-do-oeste. Estão lá.”
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quarta-feira, 28 de abril de 2010
Vedrografias - 1º aniversário
Foi há um ao que iniciámos a publicação deste blog dedicado a Torres Vedras, aos seus acontecimentos, à sua cultura, ao seu património e à sua história.
Hoje este é um espaço razoávelmente consolidado entre os mil blogs portugueses mais visitados, tendo até chegado em certas ocasiões aos trezentos mais vistos.
Tendo iniciado a contagem de visitas apenas um mês depois, calculamos que já fomos visitados por quase sete mil leitores.
Esperamos continuara a corresponder às expectativas iniciais e continuar a contar com a compreensão e a companhia de todos.
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Venerando António Aspra de Matos
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terça-feira, 27 de abril de 2010
Santa Cruz - o que o mar modificou.
(Noutros anos uma pequena praia, este ano a Praia Formosa surge com um areal enorme, trazido pelo mar das praias do norte, estas agora quase sem areia)
Este ano as praias de Santa Cruz estão diferentes, pouca areia a Norte, muita mais a Sul.
Dessa situação dá-nos conta uma reportagem do Público deste Domingo, na qual, a propósito da situação em toda a costa do Oeste, refere o seguinte sobre Santa Cruz:
"Oeste - Praias feridas onde nunca se viu "nada assim"
A areia costuma fugir no Inverno e voltar no Verão. Mas este ano o mau tempo deixou estragos muito profundos
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Este Inverno, o mar zangou-se com as gentes de Santa Cruz. É comum que a areia fuja nos meses mais frios, mas depois, quando o calor regressa e ela faz falta, as praias voltam a compor-se. A esperança é a última a morrer, mas aqui, como noutros locais da costa da região Oeste, começa a duvidar-se de que a Primavera possa remediar as cicatrizes do mau tempo.
Ludovina Solipa, 61 anos, está sentada no muro do passeio marítimo. Há 30 anos que frequenta as praias de Santa Cruz, onde tem uma casa de férias. Mas 2010 não está a ser um ano como os outros. "Tenho a impressão de que nunca vi nada assim", confessa, estendendo o olhar pelas rochas descobertas. "A Praia do Centro era enorme, larga. Veja agora..."
Vê-se que algo não está certo. Para começar, uma ravina de mais de dois metros, cavada a pouca distância das estacarias que delimitam o areal, marca os limites do avanço da maré. José Ferreira, 59 anos, está a pescar no meio das pedras. Há três anos que vive na terra e também ele nunca viu "nada assim". A paisagem mudou radicalmente: "Isto aqui", diz, apontando para a laje de pedra que se estende até ao mar, "costuma ser tudo barracas e toldos, no Verão...".
Neste cenário, onde poderão os concessionários colocar as tão procuradas sombras? Um pouco mais a norte, na Praia do Navio, Miguel Fortunato, 37 anos, proprietário do restaurante O Navio, não consegue deixar de pensar nisso. "O mar está a levar a areia para as praias não concessionadas, que se estendem para norte. Há gente a alugar-me barracas, mas eu, se calhar, não vou poder montá-las."
O mar já chegou muito perto do edifício. "Às vezes, nas noites de temporal, venho para aqui. Nunca vi nada assim. Ainda faltam duas grandes marés, pode ser que o mar ainda reponha, só que isso começou a acontecer e agora já está a tirar outra vez. Cheguei a ver pescadores a parar de pescar para apanharem moedas. E um até já tinha um gorro bem fornecido..."
O resto da reportagem pode ser lida AQUI.
Santa Cruz nem sempre foi como a conhecemos. Algumas imagens antigas, abaixo reproduzidas, dão conta disso mesmo:
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Venerando António Aspra de Matos
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domingo, 25 de abril de 2010
Torres Vedras e o 25 de Abril - "O Morto era outro"
“1974 cá está aberto em leque, repleto de interrogações, dúvidas, medos, mas sobretudo cheio de verdes esperanças”. Com estas proféticas palavras iniciava o meu pai, Venerando Ferreira de Matos, a primeira crónica publicada no jornal “Badaladas” nesse ano de 1974.
Vivia-se ainda a ressaca frustrante das eleições de 1973, onde mais uma vez a oposição democrática, toda unida à volta do MDP/CDE, tinha sido impedida de, livremente, expor as seus projectos para a construção do país, numa campanha eleitoral onde estava proibido debater a guerra ultramarina, motivo pelo qual aquele movimento acabou por desistir de ir às urnas.
Do lado do governo, a ANP tinha regressado aos “bons velhos tempos” expurgada da incómoda “ala liberal”. Era o fim da chamada “Primavera Marcelista”.
1974 iniciava-se sob o signo da crise política e económica que se reflectia em Torres Vedras, a primeira sob a crise interna do executivo camarário, publicamente evidente pela demissão de um dos seus vereadores, a segunda pela referência subtilmente críticas ao racionamento da gasolina e ao preço elevado desta, motivando até queixas públicas dos choferes de praça.
Contudo, quase sem se dar por isso, apareciam pequenos “sinais” reveladores de que algo estava a mudar.
Pela primeira vez, em várias décadas, surgia propaganda clandestina nas escolas do concelho. As muito participadas e agitadas sessões eleitorais da oposição em Torres Vedras, em 1973, tinham deixado sementes e, regularmente, realizavam-se reuniões clandestinas, cada vez mais alargadas e organizadas.
Em colectividades locais, como no Clube Artístico e Comercial ou no renascido Cine Clube de Torres Vedras, vivia-se um clima de dinamismo e entusiasmo pela criação de alternativas culturais aos limites impostos pela censura e às bolorentas actividades da Mocidade Portuguesa e da Câmara.
Nas páginas do “Badaladas” eram cada vez mais frequentes os textos que, utilizando a necessária subtileza para escapar à censura, iam revelando os “podres” do regime:
“Espectador (não comparsa) das Ténues mudanças que se vão operando nesta terra parada no tempo, sobretudo no campo ainda inexplorado do sócio-político (nota que deixo de lado o económico) olho à minha volta num desencanto quase doentio. A manta de retalhos que é Torres Vedras moderna vai crescendo caoticamente sem rei nem roque, desenquadrada dum plano de urbanização inexistente. Creio que já te disse por outras palavras esta mesmíssima coisa.
“A cegueira dos homens, os interesses de alguns grupos, a tenacidade doentia e repetida de certos nomes que hão-de passar à história local como os coveiros de uma terra que merecia melhor sorte, cheira-se, apalpa-se, sente-se no ar que se respira, discute-se em surdina às mesas dos cafés” (Venerando Ferreira de Matos, in “Cartas a um amigo de longe… - XVI”, “Badaladas” de 19 de Janeiro de 1974).
Nomes como o autor das palavras acima transcritas, mas também um João Carlos, um António Augusto Sales, um Andrade Santos, um Ruy de Moura Guedes, um António Leal d’ Ascensão, um Victor Cesário da Fonseca, sempre incentivados pelo Padre Joaquim Maria de Sousa, director e fundador do “Badaladas”, estavam cada vez menos solitários nesse ano de 1974 no uso dessa arma que era a escrita, para enfrentarem o regime.
Chegados ao mês de Março, o Dr. António de Sousa Dias transcrevia para as páginas do “Badaladas” algumas linhas do livro do General Spínola “Portugal e o Futuro”, grande tema de discussão nesses últimos meses de vida do velho regime, livro cuja edição mereceu, se bem me recordo, uma montra especial na Galeria 70, livraria dirigida por Cristina e Armando Pedro Lopes, local muito frequentado por oposicionistas e onde se realizavam regularmente colóquios, exposições e outras actividades de cariz cultural.
Nesse ambiente, foi sem grandes surpresas que, numa reunião clandestina do núcleo local do CDE, realizada em casa do Francisco Manuel Fernandes, tivemos conhecimento e acompanhámos os acontecimentos do falhado golpe militar das Caldas da Rainha, nesse sábado 16 de Março.
Para quem estivesse atento ao que se passava à sua volta era evidente, a partir daí, que o derrube do Estado Novo era uma questão de (pouco) tempo.
Contudo, quando na noite de 24 de Abril alguns de nós regressávamos a casa, depois de mais uma sessão do Cine-Clube no Teatro-Cine, que costumava ter lugar às 4.as feiras, estávamos longe de imaginar que àquela hora estava já em marcha a tão desejada madrugada.
Só a título de curiosidade, o último filme que vimos durante a vigência do Estado Novo chamava-se “O Morto era Outro”, de Jerry Lewis.
Ver Mais AQUI.
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Venerando António Aspra de Matos
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terça-feira, 20 de abril de 2010
Passam hoje 40 anos sobre a inauguração da actual Escola Henriques Nogueira
No 40 º aniversário da Inauguração do actual edifício da antiga “Escola Técnica e Comercial” de Torres Vedras, hoje Escola Secundária Henriques Nogueira – um percurso histórico pelo ensino “técnico-comercial”
O nascimento de uma ideia
A ideia de criar uma escola técnica e comercial em Torres Vedras surgiu entre a dinâmica classe comercial de região, então agrupada na “Associação Comercial”, quando, numa Assembleia Geral desta associação, realizada em 23 de Março de 1929, a sua direcção propôs a elevação da cota dos associados para se criar um “curso comercial” (CABRAL, Raul , “A Fundação da Escola Comercial (...)”, in Badaladas, 1/10/19529).
Em 1932 concluía-se o regulamento desse curso, mas, devido a várias dificuldades tal iniciativa não vingou, acabando por ser uma outra associação, a “Tuna Comercial Torreense”, a ter o privilégio de, pela primeira vez, instalar um curso com essas características em Torres Vedras.
A Primeira Tentativa
Em Outubro de 1936 a direcção da “Tuna Comercial Torreense” iniciou, na sua sede, o funcionamento de um Curso Comercial de 6 meses onde se ensinavam as disciplinas de “escrituração comercial”, “contabilidade”, “cálculo comercial” e “caligrafia”. As aulas eram nocturnas e foram inicialmente frequentadas por 30 alunos que pagavam uma mensalidade de 60$00. Esta iniciativa teve um percurso algo irregular e, com o tempo, deixou de corresponder às necessidades da época (O Jornal de Torres Vedras, 15/11/1936)..
A Escola Comercial António Augusto Cabral
(edifício onde se localizava a Escola Comercial António Augusto Cabral)
O crescente desenvolvimento comercial e industrial da região deu um novo alento à associação pioneira na idealização deste tipo de ensino, para voltar a relançar os alicerces de uma Escola Comercial, de acordo com as novas necessidades da educação nacional.
Coube à antiga “Associação Comercial”, agora designada de “Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço”, a responsabilidade pela abertura, em definitivo, de uma escola comercial, criada por alvará de 10 de Outubro de 1944 (CABRAL, Raul, ob.cit.) .
Foi baptizada como Escola Comercial António Augusto Cabral, em homenagem ao homem que, à frente do município torriense em 1919, tinha sido responsável pela instalação da Escola Secundária e, como dirigente da associação comercial local, dos que mais pugnou na defesa da criação de uma escola comercial em Torres Vedras.
As aulas iniciaram-se em 14 de Outubro de 1944, sendo a escola dirigida pelo Dr. Albarran Grilo.
Em sessão solene de abertura desse primeiro ano lectivo, o professor José Carvalho Mesquita, também docente nessa escola, justificava essa iniciativa e a importância desse novo estabelecimento de ensino, pela necessidade de, num “meio comercial, como o é Torres Vedras” se puder oferecer aos seus filhos o ensino da “técnica comercial”, sem que o concelho “tivesse necessidade de importar os seus contabilistas e guarda-livros”.
Essa escola era então “uma promessa, em betão” que funcionava em “acanhadas instalações”, cedidas pela Escola Secundária Municipal, apenas com “um curso nocturno frequentado por 26 alunos e alguns ouvintes”.
Por isso, e porque os “pedidos de matrícula dariam (...) para abrir duas turmas no 1º ano”, prometia-se para o próximo ano lectivo “novas e mais amplas instalações” e aulas diurnas (MESQUITA, José Carvalho, História do Ensino secundário em Torres Vedras, ed. 1969) .
Iniciam-se aulas diurnas
No ano lectivo de 1945/1946, inicia-se um curso comercial diurno com a duração de 4 anos, tendo-se inscrito 101 alunos, inscrevendo-se, no ano lectivo seguinte, 165 alunos. Os filhos dos associados do “Grémio comercial” pagavam uma propina mensal de 80$00, enquanto os restantes pagavam 120$00.
A reforma de 1948 desdobrou esse curso num Curso Geral de Comércio e noutro Curso de Esteno-Dactilografia. Qualquer destes passou a compor-se de dois ciclos, o primeiro com a duração de dois anos e o segundo de três.
A oficialização da escola comercial
Em 31 de Julho de 1952 a Escola Comercial António Augusto Cabral, até então uma escola particular, foi oficializada, de acordo com a nova lei em vigor, tornando-se Torres Vedras a primeira localidade do país a possuir uma escola particular oficializada, o que permitia aos seus alunos que realizassem os exames na sua escola (Badaladas, 15/08/1952) .
Uma nova valência – O Ensino Técnico
Por essa altura, no início da década de 50, inicia-se um debate nas páginas do jornal “Badaladas” com o objectivo de se criar um curso industrial que completasse o ensino comercial e correspondesse às novas necessidades económicas da região, chamando-se a atenção para o Decreto-Lei nº 36409 de 11 de Julho de 1947 que previa a criação de uma escola técnica em Torres Vedras.
Pressionada pela opinião pública, a Câmara Municipal inicia uma série de diligências par conseguir esse objectivo e, em Setembro de 1956, enviava ao Ministério da Educação um bem fundamentado memorando em defesa da criação de uma “escola técnica” em Torres Vedras.
Propunha-se o município subsidiar com 50.000$00 anuais a formação de uma Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, criada a partir da Escola dirigida pelo Grémio do Comércio.
Propunha para essa escola o seguinte “plano de estudos”:
“1º - Ciclo Preparatório;
“2º - Curso Complementar de aprendizagem e electricidade;
“3º - Curso de formação : - de serralheiro; - Geral do Comércio” (Relatório de Gerência da Câmara no ano de 1956, CMTV) .
A Fundação da Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras
(edifício onde foi instalada a "Escola Técnica")
Acedendo ao pedido do município torriense, o Ministério da Educação, através do decreto nº 41258 de 10 de Setembro de 1957, criava a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, substituindo a Escola Comercial António Augusto Cabral, entretanto encerrada, da qual herdou alunos, professores e respectivos processos.
De imediato se iniciaram as obras de ampliação do edifício municipal situado na Av. 5 de Outubro, onde se localizavam as instalações da “Física” e das “escolas primárias” da vila.
Acrescentado de um andar, aí vieram a ser instaladas, a nascente a Escola Secundária Municipal e a poente a nova “Escola Técnica” , enquanto as escolas do ensino primário eram instaladas nos novos edifícios a sul daquelas instalações.
No ano lectivo de 1958/1959 iniciaram-se as aulas da Escola Industrial e Comercial nas suas novas instalações com 261 alunos, número que quase duplicou no ano lectivo seguinte.
O Actual edifício (actual “Henriques Nogueira”) – do projecto à inauguração.
O rápido crescimento do número de alunos matriculados na “Escola Técnica”, bem como as crescentes necessidades de recursos educativos para desenvolver o projecto desta escola, rapidamente levaram a que se colocasse a questão da urgência em construir um edifício de raiz para o seu funcionamento.
No dia 1 de Fevereiro de 1962 foi apresentado, em sessão camarária, um projecto para as novas instalações, da autoria do professor do ensino técnico Luís Manuel Paulo Ferreira, exposto publicamente no ano seguinte.
Contudo, o início da construção desse novo edifício escolar só teve lugar nos finais dessa década.
Finalmente, no dia 20 de Abril de 1970, era solenemente inaugurado, com a presença do então Presidente da República Américo Tomás, o edifício onde funciona actualmente a Escola Secundária Henriques Nogueira, assim baptizada desde 2 de Abril de 1987 (Portaria nº 261/87, de 2 de Abril de 1987).
Recordamos assim a data que hoje se comemora.
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