quarta-feira, 27 de maio de 2026

Homenagem a António Augusto Sales


No próximo Sábado, 30 de Maio, pelas 16 horas, nos Paços do Concelho, terá lugar uma sessão de homenagem a António Augusto Sales, que inclui o lançamento de uma nova obra da sua autorias

António Augusto Sales completou 90 anos de vida no passado dia 29 de Abril.

Nascido em Torres Vedras em 1936,  António Augusto Sales “estudou e viveu na sua terra natal até 1964. Exerceu a sua atividade profissional nas áreas da comunicação, marketing e publicidade. Foi fundador do Cineclube de Torres Vedras (1956) e do Suplemento Cultural do jornal «Badaladas» (1961). Escreveu contos, novelas e romances”. Em 1964 foi viver para Algueirão, onde vive actualmente, mas mantendo-se sempre ligado à sua terra natal

Foi autor  da biografia de António Botto, e de obras como “A Primeira Manhã”, contos, (1964;) “Uma longa e estranha pausa” romance, (1970) “Barcelona, cidade na Catalunha” crónicas, (1972), “Requiem pelos fieis defuntos”(1976) e “Corpo Enigmático”(1993), entre outros,

Publicou textos nos blogues «A Viagem dos Argonautas» e «Estrolábio». “Exerceu durante bastante tempo o papel de crítico de cinema em revistas da especialidade. Tem colaboração espalhada por diversos órgãos da imprensa nacional e regional, sobretudo crónicas de carácter político e social”.

Segundo o próprio, cometeu “um erro na juventude que infelizmente nunca mais o largou:levar a vida a sério.

Em sua homenagem, aqui recordamos o que na altura escrevemos sobre uma das suas obras mais emblemáticas, “Os Guardadores do Tempo”, as crónicas contemporâneas da cidade de Torres Vedras contadas à boa maneira de um Fernão Lopes

 


“OS GUARDADORES DO TEMPO”, de António Augusto Sales é uma daquelas obras que se lê de um fôlego, como se de um romance histórico se tratasse, cruzando personagens inventadas (ou talvez não), com personagens reais, enquadrando devidamente acontecimentos locais nas tendências sociais e culturais que marcaram o País e o mundo nos últimos cem anos.

Torres Vedras e a sua cultura, ao longo de um século, serve de fio condutor a este livro que é muito mais que um livro de História Local, que um Livro de Memórias ou um Romance Histórico, mas é tudo isto no seu melhor.

Historicamente o autor revela um exaustivo e rigoroso levantamento de fontes, cruzando fontes tradicionais com fontes menos ortodoxas como o são as notícias publicadas na imprensa, as fontes orais e a própria memória do autor.

O autor fez um levantamento exaustivo de tudo o que nesta terra marcou a cultura ao longo do último século, não esquecendo mesmo os acontecimentos aparentemente mais insignificantes, mas marcantes naquilo que revelaram de inovador e criativo, ou de fundamental para traçar a identidade desta cidade, fosse de forma meramente  conjuntural ou a um nível mais estrutural.

Tendo o livro nascido do interesse do autor em escrever a história do teatro torriense, acabou por ultrapassar esse âmbito, abordando todos os campos da cultura, das artes e das ideias que marcaram a realidade contemporânea de T. Vedras. Deixa mesmo algumas pistas incontornáveis para quem, por exemplo, tencione fazer a história da rádio, a história da fotografia ou das páginas culturais desta localidade, temáticas ainda pouco exploradas na historiografia local.

Enquanto memória, esta obra está mais próxima da memória colectiva desta cidade do que da mera autobiografia.

A memória, para António Augusto Sales, é, neste livro, mais um instrumento de trabalho, literariamente esculpida ao estilo vivo, divertido e impressionista que caracteriza a sua obra.

Esse mesmo estilo impressionista da escrita de Augusto Sales dispensa qualquer ilustração ou fotografia porque, ao lê-la, conseguimos “ver”, “ouvir” e “cheirar” cada um dos  momento da vida torriense ao longo de um século.

O autor, nesta obra, veste o papel clássico do cronista que, numa linguagem elegante, historicamente bem documentado, não disfarça a sua própria subjectividade, dando-nos, a nós torrienses, o raro privilégio de desfrutar um magnífico fresco histórico sobre esta nossa cidade.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Torreense" no Final da Taça em 1956 - 70 anos depois, a história repete-se


O “Torrense” volta a estar no final da Taça de Portugal, exactamente 70 anos depois da sua primeira participação numa final dessa prova.

Essa foi a época áurea da equipa de Torres Vedras, campeão da 2ª Divisão na época de 1954/1955 e presente pela primeira vez no campeonato nacional da 1ª Divisão na época de 1955/1956, tendo terminado no 7º lugar entre 14 equipas.

As equipas da 1ª Divisão só entraram na disputa da Taça nos 16 avos de final, prova que se disputava numa única mão, por eliminatórias.

Os jogos, a partir dessa eliminatória, realizaram-se todos ao longo do mês de Maio de 1956, depois de terminado o campeonato da 1ª Divisão, ganho nessa época pelo Futebol Clube do Porto.

Na realidade nos 16 avos de final apenas se realizaram 14 jogos, já que, nos quartos de final, seria incluída a equipa apurada numa fase de eliminatórias entre as equipas das ilhas, da qual o Marítimo foi o vencedor, com direito a disputar a Taça a partir dessa fase da prova.

Mas voltamos ao Torreense e à sua participação nessa prova.

A primeira eliminatória foi disputada pelo Torreense em casa, como ditou o concurso, batendo o Desportivo de Beja, da 2ª divisão, por 2-0 no jogo disputado em 2 de Maio.

Foi um jogo “algo difícil e enervante”, como intitulava Rui de Belchior nas páginas do “Jornal do Torreense” na sua edição nº 17 de Maio de 1956.

O único golo da equipa torriense foi marcado apenas aos 40 minutos: “na marcação dum canto, a bola é repelida para perto por um defesa contrário, permitindo a João Mendonça, com um toque subtil, encaminhá-la para a baliza”. João Mendonça era, então, uma das estrelas da equipa de Torres Vedras, tendo sido o 13º melhor marcador do campeonato da 1ª Divisão.

Aos 18 minutos do segundo-tempo o Torreense passou um mau bocado, quando sofreu a marcação de uma grande penalidade contra si, mas que foi desperdiçada pela equipa alentejana. Até que, a 3 minutos do fim, o “Torreense” viu confirmada a vitória na eliminatória com um golo de Carlos Alberto.


Nos oitavos de Final, disputados em 7 jogos, no dia 6 de Maio, aconteceu a primeira surpresa com o Torreense a eliminar, em jogo disputado em casa, o Sporting, por 1-0.

O primeiro tempo terminou com uma igualdade a zero, mas aos 10 minutos do recomeço, “Carlos Alberto quando corria pelo seu corredor foi carregado irregularmente” (relato de Fernando Monteiro nas mesmas páginas do jornal acima citado) por um jogador do Sporting e, na marcação do livre feita por aquele jogador a bola foi interceptada por Forneri que marcou de cabeça o golo decisivo para o Torreense fazer a surpresa e passar mais uma eliminatória.






Nos quartos de final, disputados agora por 8 equipas, com a entrada, como dissemos, do Marítimo, o Torreense voltou a jogar em casa, eliminando o Sporting de Braga por 2-0, em jogo realizado em 13 de Maio. O Braga não era ainda a equipa que é hoje, tinha ficado em último lugar no campeonato nacional da 1ª Divisão dessa época.

O jogo terminou empatado a zero golos no final do primeiro tempo. Foi no recomeço do jogo que o resultado funcionou a favor da equipa torriense, logo no primeiro minuto, com a marcação de um golo de cabeça pelo já citado João Mendonça. O Torreense consolidou o resultado aos 12 minutos com um novo golo de cabeça do mesmo João Mendonça, fixando o resultado final nos 2-0.




O Torreense chegou assim às meias-finais, o que, já por si, era um feito histórico. O jogo realizou-se em 20 de Maio no Estádio do Belenenses, que tinha sido o terceiro classificado do campeonato. Ao lado do Benfica, do Sporting e do Porto, o Belenenses era então um dos “grandes”. Para surpresa geral, a equipa de Torres Vedras obrigou o Belenenses, a jogar em casa, a ir a prolongamento e…venceu o jogo por 3-2, sendo apurado para o final no Jamor contra o “Porto”, campeão nacional.

O jogo não começou bem para a equipa de Torres Vedras, que sofreu um golo aos 24 minutos, marcado pelo célebre Matateu. Mas o Torreense não se ficou e, aos 32 minutos um “remate forte e bem colocado” de João Mendonça restabeleceu a igualdade (seguimos o relato de Rui Belchior no citado jornal).

Na segunda parte da partida o Belenenses voltou a aumentar a vantagem com  um golo de Di Pace. Foi já perto do final da partida que a equipa torriense voltou a igualar a partida com um golo de cabeça marcado por Fernandes, na sequência de um canto bem marcado por José da Costa.

Terminado empatado tempo regulamentar, procedeu-se a um prolongamento de meia-hora. Quando tudo parecia apontar para a manutenção do empate e para necessidade de se repetir o jogo, a 2 minutos do fim o jogador torriense Gonçalves marcou o golo da vitória que colocou a equipa de Torres Vedras no final da Taça.



A final realizou-se no Estádio Nacional no dia 27 de Maio. O Porto marcou cedo e, no inicio da segunda parte, foi marcado um penalti, muito duvidoso, contra o Torrense, encerrando cedo as hipóteses para a equipa de Torres Vedras, que perdeu por 2-0. Para o Porto foi a primeira Taça de Portugal conquistada e também a primeira dobradinha.

O Porto marcou logo aos 3 minutos após o início : o jogador portista Perdigão “num lançamento de linha lateral” enviou “a bola para Jaburu que, por sua vez, a lança para a frente da baliza de Gama. A nossa defesa ficou parada, consentindo que Hernani cabeceasse com êxito” (seguimos o relato de Fernando Monteiro no citado jornal)”.

Foi aos 12 minutos do segundo tempo que “tudo terminou” para as ambições do Torreense com a marcação de um contestado penalti a favor do Porto, convertido por Hernani, fixando o resultado final de 2-0 a favor da equipa do norte.

Um acontecimento curioso desta final foi a iniciativa dos adeptos do Torreense que espalharam pelas bancadas “milhares de barretes de papel – encarnados e azuis”.

O Torreense teve de esperar mais 70 anos para repetir a proeza, desta vez a jogar uma nova final da Taça de Portugal contra o Sporting, equipa que, naquele ano distante de 1956, foi eliminada pelo “pequeno” Torreense.

A final disputa-se no próximo dia 24 de Maio.













Venerando Aspra de Matos