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quinta-feira, 17 de maio de 2012

TEM HOJE INÍCIO A 15ª EDIÇÃO DO ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA "TURRES VETERAS":


O tema deste ano do Turres Veteras é "Judiarias, Judeus e Judaísmo".
As conferências vão decorrer até Sábado, realizando-se no auditório dos Paços do Concelho de Torres Vedras, mas a cerimónia de inauguração tem lugar esta noite no Teatro-Cine Ferreira da Silva, antecedendo a actuação da cantora israelita Mor Karbasi.
O Programa oficial é o seguinte:

Dia 17 de Maio de 2012
(quinta-feira)
21h.00 – Cerimónia de Inauguração
21h.30 - A linguagem antiga e a música dos judeus exilados de Espanha
Mor Karbasi
(Jerusalém)

Dia 18 de Maio de 2012
(Sexta-Feira)
10h.00 – Comunicação "Horizontes do Judaísmo,
no olhar português de Isaac Abravanel" por José Augusto Ramos (Universidade de Lisboa)
10h.30 – Comunicação "Diásporas judaicas no tempo de Jesus" por Nuno Simões Rodrigues (Universidade de Lisboa)
11h.00 – Comunicação "As sinagogas no mundo romano" por Vasco Gil Mantas (Universidade de Coimbra)
11h.30 – Debate
11h.45 - Intervalo
12h.00 – Comunicação "Os Judeus na legislação visigoda" por Pedro Gomes Barbosa (Universidade de Lisboa)
12h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Tomar" por Manuel Sílvio Conde (Universidade dos Açores)
13h.00 – Debate
13h.15 – Almoço
15h.00 – Comunicação "A judiaria medieval da Guarda" por  Rita Costa Gomes (Towson University)
15h.30 – Comunicação "A presença judia na Estremadura medieval portuguesa" por Saul António Gomes (Universidade de Coimbra)
16h.00 – Comunicação "Arqueologia dos judeus peninsulares: o exemplo do Alentejo e da estremadura espanhola" por Carmen Ballesteros (Centro de Investigação em História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora; Escola Secundária Gabriel Pereira - Évora)
16h.30 – Debate
16h.45 – Intervalo
17h.00 – Comunicação "A judiaria medieval de Óbidos" por Manuela Santos Silva (Universidade de Lisboa)
17h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Freixo de Espada à Cinta" por António Balcão Vicente (Universidade de Lisboa)
18h.00 – Comunicação "Comunidade Judaica de Belmonte: esquecimento e memória" por Maria Antonieta Garcia (Universidade da Beira Interior)
18h.30 – Debate.

Dia 19 de Maio de 2012
(Sábado)
10h.00 – Comunicação "A comunidade judaica de Lisboa na Idade Média" por Carlos Guardado da Silva (Município de Torres Vedras e Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
10h.30 – Comunicação "A judiaria medieval de Lagos" por José António de Jesus Martins (Município de Lagos)
11h.00 – Comunicação "As comunidades judaicas da Beira Interior na Idade Média" por Isaura Cabral Miguel
11h.30 – Debate
11h.45 - Intervalo
12h.00 – Comunicação (Rua da Antiga Judiaria) "Os judeus e a judiaria de Torres Vedras até à expulsão de 1496" por Ana Maria Rodrigues (Universidade de Lisboa)
12h.30 – Cerimónia alusiva à presença da comunidade judaica torriense
13h.00 – Almoço
15h.00 – Comunicação "A presença judaica em Alcácer" por Maria Teresa Lopes Pereira (IEM - FCSH da Universidade Nova de Lisboa)
15h.30 – Comunicação "Cristãos-Novos e Movimentações Monetárias: Emprestar, Fiar, Penhorar e Hipotecar" por Isabel Drumond Braga (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
16h.00 – Debate
16h.15 – Intervalo
16h.30 – Comunicação "1912-2012: o centenário da legalização da Comunidade Israelita de Lisboa" por Jorge Martins (Centro de História Contemporânea do ISCTE)
17h.00 – Comunicação "Entre a história e a lenda: A memória judaica em Portugal ou o desconhecido Portugal judaico" por Maria José Ferro Tavares (Universidade Aberta)
17h.30 – Debate
18h.00 - Encerramento: Lançamento das Actas "Turres Veteras XIV - História da saúde e das doenças".

COMISSÃO DE HONRA
O Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras : Carlos Manuel Soares Miguel
O Presidente da República : Aníbal Cavaco Silva
O Secretário de Estado da Cultura : Francisco José Viegas
O Embaixador de Israel : Ehud Gol
O Presidente dos Conselhos Directivo e Científico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa: António Maria Maciel de Castro Feijó
A Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras: Ana Umbelino
O Presidente da Turismo Oeste: António Carneiro
Secretário Geral da Rede Judiarias de Portugal: Jorge Patrão

COMISSÃO EXECUTIVA
 Pedro Gomes Barbosa (Presidente)
António Balcão Vicente
Carlos Guardado da Silva
Cecília Travanca
Célia Reis
Maria Manuela Catarino
Pedro Marujo do Canto
Sandra Rodrigues Silva
Vasco Gil Mantas
Venerando Aspra de Matos

Organização
 Câmara Municipal de Torres Vedras & Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Parceria
 Rede Judiarias de Portugal
 Cátedra de Estudos Sefarditas

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Torres Vedras na Rede de Judiarias de Portugal



 



A Rede de Judiarias de Portugal lançou o sítio na Internet onde vai promover as actividades e património judaico português em três línguas, incluindo o hebraico.
A Rede de Judiarias de Portugal é constituída pelos municípios de Freixo de Espada a Cinta, Lamego, Trancoso, Guarda, Belmonte, Penamacor, Castelo de Vide, Tomar e Torres Vedras. Fazem ainda parte do organismo as entidades de turismo do Algarve, Alentejo, Oeste, Lisboa e Vale do Tejo, Serra da Estrela e Douro, assim como a Comunidade Judaica de Belmonte.

 www.redejudiariasportugal.com

domingo, 18 de abril de 2010

Um roteiro por "monumentos e sítios" da cidade de Torres Vedras

Hoje, Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, deixamos aqui uma sugestão de um roteiro pelos mais emblemáticos monumentos e sítios da cidade de Torres Vedras:

TORRES VEDRAS  - PROPOSTA PARA UM ROTEIRO URBANO HISTÓRICO

CASTELO

À sombra da sua muralha nasceu e cresceu o burgo medieval de Torres Vedras. Conquistado (ou negociado) aos mouros por volta de 1148 por D. Afonso Henriques, foi palco de vários episódios da nossa história .

No século XIV, segundo a descrição do cronista Fernão Lopes, Torres Vedras era então “uma fortaleza assentada em cima de uma formosa mota, a qual natureza criou em tão ordenada igualdade como se à mão fosse feita artificialmente” . A vila tinha “uma cerca arredor do monte e na maior alteza dele está o castelo”.

A sua estrutura actual data em grande parte das obras de reconstrução ordenadas pelo rei D. Manuel, situação testemunhada pela porta gótica ogival, datada de 1516, encimada por esferas armilares manuelinas

Já em parte arruinado, mas ainda habitado, o castelo sofreu graves danos com o terramoto de 1 de Novembro de 1755.

Apesar da ruína, voltaria o velho castelo a recuperar a sua importância militar quando, em 1810, foi integrado no sistema defensivo das “Linhas de Torres”.

IGREJA DE STª MARIA DO CASTELO

Sede da mais antiga paróquia da vila, edificada no século XII. Assenta sobre ruínas romanas e visigóticas, sucedendo a uma mesquita .

Da antiga fundação podem ver-se as colunas com capitéis românicos, com símbolos do “cântico dos cânticos”.

Toda a actual estrutura da igreja remonta a obras de restauro de 1662. Tem duas torres de traça seiscentista. Antigamente uma era municipal ( a do relógio) e outra era paroquial (a sineira). Ruiram durante o terramoto de 1755.

PAÇOS DA RAINHA

Foi mandado edificar pela a rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso III, no século XIII. Nele teve lugar do conselho régio de 1414 (24 Julho 1414 ?) onde se decidiu a Conquista de Ceuta que iniciou a expansão marítima portuguesa.

TRAVESSA DO QUEBRA COSTAS

Rua de características medievais, destacando-se o “arco” que une uma casa aos dois lados da rua.

JUDIARIA

Em Portugal D. Dinis, (século XIII), no seguimento dos seus conflitos com o clero, comprometeu-se a obrigar os judeus a morar “apartadamente”.

Em Torres Vedras tal promessa ter-se-á realizado já no reinado do seu sucessor, D. Afonso IV. Os judeus foram expulsos de Torres Vedras em 1499.

IGREJA DE S.TIAGO

Foi reconstruída nos séculos XVI e XVII.

Tem pórtico Manuelino.

Pensa-se que esteve ligada às peregrinações a Santiago de Compostela

IGREJA DE S. PEDRO

Sede de paróquia desde a fundação da nacionalidade foi reconstruída no séc. XVI, datando desta época a sua traça actual.

O seu pórtico manuelino, encimado pelas armas reais (armas com símbolos de Portugal e Castela) atribuídas à rainha D. Maria (2ª mulher de D. Manuel entre 1510 e 1517), é um dos ex-libris de Torres Vedras.

No seu interior merece destaque o túmulo quinhentista de João Lopes Perestrelo e esposa, D.ª Filipa (vinculou a Quinta do Espanhol em 1542, acompanhou Vasco da Gama na sua segunda viagem à Índia em 1502, comandando um navio, e era primo da mulher de Cristovão Colombo).

De destacar ainda o seu rico e variado património de azulejos

Anexa à igreja existe a Casa da Irmandade dos Clérigos Pobres construída entre 1737 e 1769. No seu tecto podem ver-se 4 telas dos Evangelistas (S. Marcos, S. Mateus, S. Lucas e S. João) da autoria de Bernardo de Oliveira Góis e silhar de azulejos do século XVIII, com assuntos tirados da gravuras de Cláudio Coelho .

CHAFARIZ DOS CANOS

Situava-se à entrada da mais importante porta da vila. Dessedentava as montadas, pelo que aí se concentravam várias actividades profissionais como as de ferrador, correeiro e albardeiro.

Data de 1322 o primeiro documento que se refere à sua existência.

Este Chafariz foi reconstruído em 1561 pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel.

Esta fonte é um monumento onde se encontram elementos de diferentes épocas, mas onde domina a arte gótica.

Existem nas faces das colunas do monumento um conjunto de quatro escudos: “ os da frente ostentando o brasão real que remonta ao século XIII, sendo com toda a probabilidade do reinado de D. Afonso III, e os dois laterais da mesma época, representando em três castelos de linhas severas, sóbrias de atavios, o velho brasão da antiga Turribus Veteribus.” ( SALINAS CALADO).


Destaque ainda para o interessante conjunto de gárgulas góticas que decoram este monumento.


CONVENTO E IGREJA DA GRAÇA

A sua construção teve lugar ao longo do século XVI para substituir o velho convento dos eremitas calçados de S. tº Agostinho.

No lugar onde foi construído este segundo mosteiro existia a gafaria de St.º André, cujo terreno foi doado à ordem agostiniana de Torres Vedras, por alvará de D. João III, datado de 26 de Setembro de 1542, para aí se construir este novo convento.

Em 1588 foi prior deste convento Frei Aleixo de Menezes, cuja vida está documentada nos azulejos do século XVIII do claustro.

Por decreto de 30 de Maio de 1834 foi extinto o convento da Graça e os seus frades foram expulsos.

De estilo renascentista, existem no seu interior várias capelas

Na parede da Capela-mor existe um nicho com o primitivo túmulo de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de T: Vedras, que foi prior do primitivo convento desde 1412 e falecido em T. Vedras em Outubro de 1422.


... um Bom Passeio!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulher e Feitiço - um caso em Torres Vedras no século XV


Neste dia internacional da Mulher, parece-me bastante interessante reproduzir este texto, publicado na net (ver indicação no final) e que tem como tema de base os actos de uma feiticeira no concelho de Torres Vedras em 1492.
A situação das mulheres, mas também dos judeus na região de Torres Vedras no século XV tem aqui um valioso documento de estudo:


“Aviziboa: a feiticeira judia de Torres Vedras em 1492

Por Reuven Faingold*

1. Magia e herança medieval

"A crença em forças ocultas e a possibilidade de acioná-las através da magia e dos feitiços foi uma herança medieval que penetrou com intensidade em diferentes círculos judaicos. Essas atividades, quase sempre proibidas, geraram movimentos no mundo mediterrâneo em geral e nos países ibéricos em particular, atingindo dimensões pouco comuns no final do século 14 e durante os séculos posteriores.

Na história do Ocidente, particularmente na Idade Média e durante o Renascimento, não se distinguia magia, feitiços e ciências naturais. A filosofia e a teologia, por exemplo, focavam a sua atenção separando a “magia natural” da “magia popular”; esta última relacionada com forças demoníacas.

Seguindo essa linha de pensamento, a alquimia era vista como sinônimo de “magia natural” enquanto o “feitiço” era tido como crime, um verdadeiro pecado contra Deus e contra o próprio homem. Em outras palavras, a magia era entendida como uma transgressão grave que devia ser punida com todo rigor.

Nas pequenas vilas e aldeias distanciadas dos grandes centros urbanos, nas quais moravam pessoas simples e carentes de recursos, esse tipo de crença popular se expandiu com extrema facilidade.

O período 1470-1570 apresenta uma guinada no desenvolvimento da magia entre os intelectuais europeus, e, consequentemente, entre os judeus. Nesses anos, a magia e os magos foram alvos de fortes polêmicas; especialmente no Renascimento italiano e suas áreas de influência.

No fim da Idade Média, a Igreja cristã se encontra numa verdadeira encruzilhada, mostrando-se totalmente contrária a atos de feitiçaria, argumentando que estes não fazem nenhum sentido, pois nunca poderão superar as forças que emanam de Deus. Tudo indica que as duras perseguições aos culpados de feitiços e magia, estavam sustentadas por superstições, crenças populares e tradições transmitidas por via oral de geração em geração.

Os primeiros historiadores que estudaram a relação do Cristianismo para com a magia, concluíram que esta religião, apesar de contar com uma maioria absoluta na Europa, se opôs drasticamente a essa atividade supersticiosa. Por isso, a Inquisição perseguiu essa heresia até seu desaparecimento. Nos últimos anos vem surgindo trabalhos de pesquisa que propõem uma nova leitura da magia, chegando-se a conclusões contrárias: não só a Igreja fez vista grossa à magia e feitiços, como também utilizou essas crenças para impor sua superioridade sobre as heresias.

Para realizar as referidas pesquisas, os historiadores penetraram profundamente no complexo universo das classes populares; a rigor uma população geralmente marginalizada do processo histórico majoritário. Afinal, o registro dos acontecimentos foi sempre obra das classes privilegiadas e urbanas, que sabiam ler e escrever.

É notório também que, nas últimas décadas do Renascimento, tenham sido publicadas obras de cunho cabalísticomágico como o Sêfer Há-Meshiv (Livro das Respostas), abordando com detalhes o tema da magia e a caça às bruxas. Cabe destacar, nesse contexto, a repercussão que teve o movimento de repressão à bruxaria na cidade de Logronho, território vasco, ao norte da Espanha.

No acervo documental da chancelaria do rei D. João II de Portugal (1481-1495), preservado no ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo), descobri e decifrei um curioso documento que relata atos de magia e feitiços acontecidos na vila de Torres Vedras, ao nordeste de Lisboa.

Nele tomamos conhecimento da realização de uma cerimônia de “magia negra”, envolvendo um casal local e uma judia. A seguir, tentarei incorporar novos elementos à história da magia em Portugal.

2. A magia no Judaísmo

"No Judaísmo, o termo “magia” é atribuído a atos que desde tempos remotos eram considerados abomináveis, pecaminosos e totalmente proibidos. Estes eram tidos como atos relacionados aos antigos cultos pagãos. O versículo bíblico “Não deixarás viver uma feiticeira” (Ex 22:18) ensina claramente que as mulheres apareciam, com maior freqüência, envolvidas em feitiços. Um antigo ditado da autoria do rabino Meir Aldabi esclarece: “Muitas mulheres representam muitos feitiços” (heb. Harbé nashim, harbé kshafim). Há outros documentos em que judeus testemunham uma variedade de atos mágicos, cultos da morte e leitura de augúrios ou do zodíaco. No entanto, a Bíblia não especifica a essência da magia, a força em que age, sua relação com os diferentes deuses, entre outros.

O Talmude, a Lei Oral judaica, está repleta de contos sobre magia, feitiços e superstição em geral, mas estes atos são concebidos como uma forma de cegueira e desvio de comportamento. No Judaísmo um desvio de atitude e de caráter pode ser interpretado como esperteza, trambique ou enganação.

Embora exista um significado negativo nas concepções bíblicas e talmúdicas, tudo indica que no universo medieval essas idéias eram comuns, carregando uma aura de negativismo. Geralmente, toda feiticeira era associada a uma mulher não-judia, e apenas algumas vezes encontramos uma judia ganhando sua vida com essa atividade.

Contrário a pensamentos averroistas (filosofia de Averroes), Maimônides rejeitou a idéia de que feitiços e magia fazem parte do cotidiano. Já o rabino de Barcelona Moisés ben Nachman (Nachmânides), revendo afirmações do primeiro, acha extremamente necessário conhecer fatos vinculados com magia e feitiços, para fazer a eles oposição.

Para os judeus, magia e feitiços são quase sempre encarados como uma atividade satânica. Nesse sentido, as atividades desenvolvidas em Portugal não foram menos diabólicas e macabras das registradas em outras partes da Europa como no leste da França, sul-oeste da Alemanha, centro da Inglaterra e Países Baixos.

Portugal nos legou menos casos de feitiços e magia, mas o tema foi tratado de forma marcante nas palavras do médico luso Teixeira de Aragão (1823-1903) que teria afirmado que: As feiticeiras levam muito longe as suas crueldades pelas sugestões do diabo no seu intestino de ódio. Chegam a fazer bonequinhos de cera, barro ou trapo, figurando a pessoa que pretendem martyrisar (sic), e, conforme a aversão que lhes tem, com instrumentos, quase sempre agulhas ou alfinetes, vão picando o coração, os olhos, os rins e outras partes do boneco, invocando sempre o demônio”. Cf. Diaburas, Santidades e Prophecias, 1894, p. 43.

Que podemos extrair desse culto macabro? As terríveis dores ocasionadas à boneca são transferidas ininterruptamente ao corpo do homem que deseja ser enfeitiçado. Mesmo que na Idade Média e no Renascimento ficasse difícil distinguir feitiços de outras tantas áreas científicas como a medicina; a dor provocada aparece inúmeras vezes em descrições citadas pela literatura médica. Uma fonte sobre este tipo de procedimento é o tratado “De Praxi Medica” (livro III, p. 139) do sábio judeu português Abrão Zacuto.

Uma sensação de medo se apoderou das mulheres portuguesas no final do século 15. Por diversos motivos elas temiam perder seus maridos. Então, para retornar seus amados ao convívio diário, optavam pelos caminhos da magia e da superstição. Algumas fontes testemunham essas antigas crenças.

Exemplos:

1. Em 18/03/1435, Maria Secco e sua irmã Catarina, filhas de Pedro Secco, não acreditavam em Deus e, por isso, faziam feitiços; como meretrizes, deitavam com homens casados, padres, etc.;

2. Em 24/11/1441, Beatriz de Sousa fez atos de feiticeira a mulheres casadas ou prestes a casar, para que seusesposos “possam saciar suas vontades”;

3. Em 04/07/1442, Leonor Affonso deitou com seu marido Martins Queixada causando nele feitiços;

4. Em 27/02/1486, Beatriz Roiz, mulher de Pedro Gonçalves fez feitiços na mulher de Rui Gonçalves, para que esta melhore o trato de seu marido;

5. Em 15/07/1486, Isabel Pires era tida como “feiticeira pública” realizando feitiços e magia em alguns homens “para que amassem mais as respectivas mulheres”. Assim, ela teria enfeitiçado o serralheiro João Fernandes e o procurador Rui Gomes, ambos moradores de Lisboa;

6. Em 09/02/1487, Maria Eanes teria dito ao tribunal que Catarina Esteves era uma feiticeira pública que enfeitiçou seu marido, ao ser pego em flagrante com uma amante;

7. Em 29/08/1487, Maria Affonso teria feito feitiços contra o marido de Joana Gomes, pois este a teria desapontado;

8. Em 02/07/1488, Isabel Martins foi acusada de realizar feitiços em Affonso Camagueiro e em Pedro Martins, “para que os dois amassem mais suas respectivas mulheres”;

9. Em 23/10/1490, Inês, mulher solteira, filha de Catalina Affonso, fez magia em Lopo Fernandes. Ela o advertiu para que se cuidasse por onde andava, já que era visto como “uma pessoa desonesta e falta de credibilidade diante das mulheres”;

10. Em 11/08/1491, dona Beatriz Eanes, moradora da ilha de Madeira, realizava feitiços com cera e água. Corria o rumor que era amante do clérigo de missa João Gonçalves, também habi-tante da ilha. Na hora em que foi pega no “pecado mortal” ela decidiu distanciar-se dele.

Esse breve levantamento prova que quando um homem não honra a sua mulher ou descumpre suas promessas em relação a sua parceira, quando a desaponta em seus relacionamentos sexuais ou quando a trai com amantes, era comum que este fosse enfeitiçado pelas feiticeiras da aldeia. Essa era a fórmula mais freqüente de afastar os maus espíritos que corrompem o interior do ser humano.

3. Atos de magia em Portugal

"Em 10 de maio de 1492, ano da descoberta do Novo Mundo e da expulsão dos judeus da Espanha, a Chancelaria Real Portuguesa se dirigiu ao rei D. João II, para que este emitisse sua opinião sobre um episódio de feitiços acontecido na vila de Torres Vedras, envolvendo uma judia.

Esse pedido, enviado ao monarca, documentado no Livro de Chancellaria V, fol. 34v, teria partido de uma moradora da região chamada Lianor Pires, que denunciou a “hua judia [Aviziboa] que hordenara feitiços ao dito seu marido [Pero Nunes]”. Da leitura do documento surge, então, a pergunta: Quais seriam os feitiços atribuídos a essa mulher judia?

Revisando os textos, vemos que os feitiços efetuados na vila de Torres Vedras divergem das cerimônias mencionadas acima na lista cronológica. Há nesse culto mágico duas etapas distintas:

1. Aviziboa prepara “hum bollo para lhe dar a comer e elle lhe querer bem e outras cousas, na[m] declarando que cousas eram...”

2. Aviziboa “tomava chumbo derretjdo com terra e lançava-o em aguoa, e fazia hua fegura [figura] de homem e outra de molher de barro, e que lhes dava com hum cordell e dizia sobresto [sobre isto] suas horações e pallavras, e que per esta via o dito seu maridolhe querrya grande bem e não seria sallvo o que ella sopricamte quisesse...”.

O costume de assar um bolo para os maridos aparece com muita freqüência em Portugal. Tudo indica que era um culto essencial para o sucesso dos feitiços. Mas, nem sempre os preparativos ajudavam a enfeitiçar.

Assim, em 10 de abril de 1490, “huma Maria Álvares fizera hum bollo, e que fizera feitiços e o dera a comer a hum homem seu amigo... etc” (Liv. XII, fol. 115). Desse bolo não teriam surgido seus feitiços, como o bolo da judia Aviziboa tampouco teria ajudado a enfeitiçar Pedro Nunes.

Então, o que fazer quando o bolo não ajuda na hora dos feitiços? Num momento como esse, para obter êxito, a feiticeira deve passar a um outro culto. Ela prepara uma escultura ou um desenho de boneca que represente a figura à qual estariam direcionados os feitiços.

Os elementos que possibilitam feitiços são de vários tipos e cada um deles tem uma função específica, a saber: feitiços através do ar são denominados aerimância; por meio de água hydromância e por ação do fogo pyromância. Feitiços através da terra ou barro são conhecidos como feitiços de geomância.

O caso de magia acontecido em Torres Vedras com Aviziboa enquadra-se, portanto, nessa última categoria.

De que forma entender os atos de magia relatados no trecho citado? Primeiramente, devemos dizer que modelar uma figura de chumbo ou de qualquer outro material sólido é um fenômeno aceito e inclusive “permitido” no Judaísmo. Rash”ba (R. Shelomo ben Aderet), um dos maiores exegetas sefaraditas, permitia essa atividade em consultas incluídas na sua literatura de Responsa. Da mesma forma, proferir preces, salmos ou apenas palavras sagradas com pedidos especiais eram freqüentes nos círculos hispano-judaicos medievais.

O Judaísmo recebeu essas influências externas das sociedades em que os judeus participavam, dentre elas, sociedades em que se estudava a Cabalá.

Os judeus do século 19 que condenavam a Cabalá representada pelo Chassidismo, aceitavam a superstição com facilidade. Porém, um estudo detalhado do perfil dos feiticeiros ou das feiticeiras nos revela que estes não sabiam quase nada acerca de mística, pois nela não havia sequer vestígios de uma literatura ocultista ou das Sefirot.

O Zohar serviu como texto de magia tanto quanto o “Livro dos Salmos”. Para os judeus ibéricos, a força dos nomes, das letras, das palavras e dos números, poderia ajudar a preconizar o futuro, decifrar enigmas e preparar o homem para uma determinada situação. Essa força é basicamente celestial e aparece na época do Talmude como literatura da charrete ou merkavá.

Não há como afirmar que Portugal tenha desenvolvido uma tradição cabalística própria, similar daquela encontrada na vizinha Espanha. Pelo contrário, no decorrer do profícuo século 16 os textos lusitanos não lembram o uso da literatura mística e/ou cabalística nos diversos círculos de cristãos novos. O silêncio das fontes é total e basta lembrar que somente em 1724 aparecerá em Lisboa o primeiro texto de um cabalista de nome Francisco Manuel de Mello.

Em seu Tratado da Ciência Cabala ou notícia de Arte Cabalística, ele registra, como meta principal, mesmo que resumidamente, ensinar ao leitor lusitano os rudimentos da Cabalá. Já no início do seu texto, explica o conceito “cabalá” a partir de pensamentos expressos pelos próprios rabinos: "Est enim cabala, divinae revelationis ad salutiferam Dei et formarum separatarum contemplationem traditae symbolica receptio, quam qui coelesti afflatur sequuntur recto nomine Cabalici dicuntur” (Tratado da Ciência Cabala, 1724, cap. VI, p. 35).

Em relação aos feitiços aplicados num homem casado, encontramos na literatura duas situações contrárias nas quais é permitido realiza-los: primeiro, quando o homem “não ama sua mulher”, e, em segundo lugar, quando o homem “ama demais sua mulher” servindo, nesse caso, para atender a todas suas carências, vontades e/ou necessidades.

A seguir, apresento uma breve análise de um documento da Chancelaria Real Portuguesa que descreve atos de feitiçaria.

4. Quem era Aviziboa?

"Quem era essa enigmática figura de nome Aviziboa? Quais eram seus atributos e qualidades?

A primeira leitura não permite obter maiores informações da judia Aviziboa. Não há referências a idade, inserção social nem aos seus hábitos ou estilo de vida. Não obstante, há três possibilidades para identificá-la:

1. É plausível que seja uma figura de carne e osso, que tenha realmente existido e habitado na antiga vila de Torres Vedras, porém, com o seu nome não foi possível identificar nos arquivos da cidade, perdidos no tempo;

2. O documento descreve os fatos acontecidos com uma mulher que habita na periferia de Torres Vedras e visitou o lugar por um período relativamente curto. Também aqui não há certeza alguma;

3. É possível que Aviziboa seja um personagem imaginário, uma figura fictícia, uma mulher que legitime imputar sérias culpas à população judaica local.

Uma vez que a documentação está incompleta, as duas primeiras possibilidades não fazem nenhum sentido, restando apenas acreditar que a terceira possibilidade, mesmo especulativa, possa elucidar.

Por que seria, pois, Aviziboa um personagem imaginário?

Primeiramente, o nome Aviziboa desperta perplexidade. Numa revista sistemática de nomes, sobrenomes e toponímicos portugueses do século 15, não consta o nome. Parece difícil também acreditar que possa ser um nome de uso comum entre judeus. Sobre o significado filológico do nome há lugar para várias interpretações. Encontramos a forma Avi-ziboa que na tradução ao árabe seria “Ibn Ziboa”, da mesma forma que Avi-cena aceitaria o árabe “Ibn Sina”, ou Avi-zohr seria a tradução para o árabe da forma “Ibn Zohr”. Seja como for, todas essas variações são apenas hipóteses do significado e da grafia da forma Aviziboa.

Em segundo lugar, em relação aos nomes do casal Pires e Nunes, não há motivo para especulações. Ambos são nomes ou sobrenomes bastante difundidos que aparecem com freqüência também entre os judeus, antes e depois da conversão forçada de 1497, decretada pelo édito do rei D. Manuel I de Portugal.

O nome Pires aparece em vilas de judeus como Torre de Moncorvo, Trancoso, Barcelos, Fundão, Covilã e Lamego. Vale lembrar que Diogo Pires, um personagem cujos poderes mágicos o fizeram centro das atrações na História de Portugal e na História Judaica, era Salomão Molcho (Shelomó Molko), um dos mais importantes falsos messias, discípulo de David Reuveni, o judeu responsável por uma forte onda messiânica entre cristãos novos portugueses do século 16.

O sobrenome Nunes aparece difundido especialmente entre judeus e conversos. Basta mencionar o nome de Heitor Nunes, judeu que migrou para Inglaterra na segunda metade do século 16, ou o célebre geógrafo e matemático Pedro Nunes, autor do Tratado da Esfera. Este último lecionou na Universidade de Coimbra e em 1529 foi agraciado com o título de “Cosmógrafo da Corte”. Mas, após as perseguições terem atingido também numerosos cientistas,

Pedro Nunes e seus familiares foram presos e processados pelo Santo Ofício da Inquisição.

Terceiro, os feitiços de Aviziboa não permitem determinar se eles eram aplicados num espaço aberto ou fechado. Na Idade Média, era freqüente observar atos de magia ao ar livre, em meio a natureza. Vejamos alguns exemplos:

1. Em 13/11/1453, Gil Lourenço costumava fazer feitiços e magia nos caminhos e cruzamentos de caminhos;

2. Em 21/07/1462, Elvira de Ribeiro fazia feitiços causando danos graves à terra, atingindo [com seus atos] moinhos de farinha e máquinas para triturar cereais.

A leitura do documento referente aos feitiços de Aviziboa, no entanto, permite concluir que seus atos teriam sido realizados em lugares fechados longe do grande público.

5. A magia na legislação portuguesa

"Nos diferentes sistemas legislativos vigentes na Europa medieval e nos países mediterrâneos, foram fixados processos e punições para todos aqueles que foram acusados por feitiços e/ou magia. As penas aplicadas variavam desde reclusão perpétua para casos leves, até morte na fogueira, para casos mais graves. Nas leis bíblicas (depois, talmúdicas) os castigos aplicados aos feiticeiros (I Sm 28) também incluíam a morte.

Na Espanha cristã, as penas aplicadas àqueles que realizassem atos de magia e/ou feitiços, ficaram registradas no Livro de las Siete Partidas, compiladas por Alfonso X, “O Sábio”. Outras penas podem ser encontradas nos protocolos dos Conselhos das cortes medievais.

O sistema jurídico lusitano foi solidamente representado nas “Ordenações Manuelinas” compiladas pelo rei Manuel I em 1516. Ali foram publicadas as penas que deveriam ser aplicadas a todos aqueles que realizam curas com feitiços.

Diz o texto: "se for piam ou di pera bayxo, seja pubricamente açoutado com baraço e preguam pola villa, e mais pague dous mil reaes pera quem o acusar. E se for vassallo ou escudeiro ou di pera cima, ou molher de cada hum destes, seja degradado pera cada hum dos lugares dalém [= d’além] em África por dous annos, e mais pague quatro mil reaes pera que[m] o acussar. Pero esto nom [h]averá lugar os astrologos que por sciencia e arte de astrologia”. (Ordenações Manuelinas, Liv. V, fol. 33).

Emitir uma opinião definitiva sobre o grau de rigor das penas aplicadas é impossível. Tampouco sobre o conceito de justiça existente naquela época. Pela documentação sabemos apenas que Aviziboa não foi punida por seus atos, e isso gera dúvidas e suspeitas; ainda mais no século 15, quando magia e feitiços eram punidos rigorosamente com cárcere, expulsão da cidade ou do distrito, açoites em público, multas, e uma série de “medidas educativas” destinadas a ensinar o que é proibido e o que é permitido.

A falta de um castigo diante dos feitiços reforça a idéia de que estes foram feitos num recinto fechado longe do público. Talvez seja por isso que esse episódio não teve repercussão geral. É possível também que nos documentos de chancelaria achados em Portugal não era costume registrar as medidas judiciais aplicadas aos transgressores da lei. Era comum, pois, colocar as penalidades em outros documentos jurídicos. Portanto, as penas aplicadas a Aviziboa ficarão como um verdadeiro enigma.

6. Palavras finais

"Mesmo existindo uma total proibição nas fontes judaicas, os atos que envolviam tanto feitiços como também magia negra, conquistaram espaços significativos na vida judaica medieval, principalmente entre os judeus portugueses.

Contrariando as afirmações do historiador Pedro de Azevedo, que afirmava existir “uma supremacia intelectual entre os judeus e era de certo que entre eles se recrutavam os feiticeiros mais famosos”, a nossa opinião é bastante diferente: Não existe relação alguma entre o nível intelectual dos judeus com a cura através da magia ou dos feitiços.

Até por que a magia nunca foi uma atividade das elites. Pelo contrário, a história de Aviziboa representa um episódio único dessa natureza. Ele nos ensina também que crenças e superstições populares penetraram de forma profunda na tradição judeu-portuguesa no medievo. Concluímos este estudo com a célebre frase do inquisidor espanhol D. Alonso de Salazar, o homem que reprimiu o forte movimento de bruxaria em Logronho, na região dos vascos, entre 1609 e 1614: “No hubo brujos ni embrujados en el lugar hasta que se comenzó a tratar y escribir de ellos”.
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* Reuven Faingold é Doutor em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor no

Departamento de História da Arte da FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto.

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