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sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os “Largos” de Torres Vedras


À volta dos “largos”  têm lugar festas, procissões, encontros, mercados, feiras, movimentos sociais e neles concentram-se os lugares nobres e as principais instituições da vida urbana.

Muitas vezes são os “largos”, “praças” ou “adros” que definem a malha urbana e a direcção das ruas de uma vila ou cidade.

No caso torriense, a primeira referência à malha urbana surge nos finais do século XIV, pela pena de Fernão Lopes, descrevendo Torres Vedras como um lugar que “he hua fortalleza aseemtada em çima dhua fremosa mota, a quall natureza criou em tam hordenada igualdade, como sse a maão fosse feita artefiçialmente (…). A villa tem sua çerca arredor do monte, e na mayor alteza delle esta o castello; e emtre a villa e o castello moravam tam poucos (…) e toda sua poboraçom era em huu gramde arravalde de muitas e boas casas, em bem hordenadas rruas ao pee do monte” (1). Contudo, essa descrição, demasiado genérica, não faz referência à possível existência de “praças” ou “largos”

A partir do século XV, já existem vários estudos que documentam a realidade urbana de Torres Vedras, nomeadamente o da autoria de Ana Maria Rodrigues (2).

Nesse estudo são referidos vários adros, praças e largos na malha urbana de Torres Vedras: o “adro de Santa Maria”, em frente à entrada principal do Castelo, o “terreirinho”, no cruzamento da antiga rua da judiaria  com a “rua do cano real” ( a parte norte do actual “estacionamento de S.Tiago”), o “adro de Santiago”, em frente à Igreja do mesmo nome, o “Outeirinho”, no actual “largo da Havaneza”, junto à porta de Santana, o adro de S. Pedro, frente à igreja do mesmo nome e o largo da “praça de víveres”, actual praça do município.

Com as característica de “largo” também se podem referir o espaço frente ao Chafariz dos Canos e, fora das “muralhas”, o campo da feira perto da ermida de Nossa Senhora do Amial ou de Nª Srª de Rocamador.

Esses “largos” situavam-se junto das Igrejas paroquiais, das ermidas, das fontes e das “portas” da vila.

Escreve Ana Maria Rodrigues sobre o centro urbano de Torres Vedras que, situadas “na confluência de várias ruas, as praças constituíam, na densa malha urbana, espaços abertos, ainda que geralmente não muito amplos, cuja função se consubstanciava em dois tipos principais, por vezes unidos no mesmo lugar: a praça da igreja e a do mercado” (3)

Do primeiro tipo, a autora inclui os “adros das três matrizes intra-muros”, a saber, os de Stª Maria, S. Pedro e S. Tiago, embora refira que apenas encontrou testemunhos coevos sobre o de S. Pedro, demonstrando a importância comercial do largo em frente desta Igreja, com referências à existência no local de tendas de ferreiro e oleiro, de um forno e de um sapateiro.

A autora encontrou também documentação sobre outra “praça”, na “Corredoira”, junto ao Chafariz dos Canos.

Quanto ao segundo tipo, refere a Praça dos víveres ou do Município, local de realização do “mercado diário”, onde existiam o Paço do Concelho e o Pelourinho, a zona “mais animada e concorrida da vila” (4).

Com rara referência documental anterior ao século XIX, há que recordar outros dois Largos ou Praças muito antigos, o Largo dos Pelomes, ou dos “ferradores”, a norte da vila, e o Largo do Rosário, nas traseiras da Igreja de S. Pedro, onde existiu a praça do peixe.

Existe também referência ao Largo do Espírito Santo, a norte do “Outeirinho”, no adro da Igreja da Misericórdia.

Já no início do século XIX, num dos documentos mais completos existentes no Arquivo Municipal sobre a toponímia da vila, o Livro de Registo do Pagamento de Sizas do ano de 1821, são referidas, como praças ou largos existentes na zona urbana, o Largo da Graça, o Largo de Sant Ana, o Largo do Rosário e o Largo de São Pedro. As novidades , neste caso, são a referência ao Largo da Graça e, mais a norte, ao Largo de Santa Ana, na zona do antigo “outeirinho”, e a “primeira” (?) referência ao “Largo do Rosário”.

Para a segunda metade do século XIX é possível confirmar, não só a existência daqueles largos, praças e adros, como alargar a referência aos que existiam na vila, com base num documento manuscrito, existe no Arquivo Municipal, da autoria de Gama Leal, datado de 1864, e que serviu de base para delimitar administrativamente o concelho.

Neste documento registava-se, na área urbana da freguesia de S. Pedro, os Largos de Santana, da Graça, de S. Pedro, do Rosário, da Praça e dos Canos, na da freguesia de Santiago, o Largo de Santiago e a Praça de Stª Maria, na da freguesia de Stª Maria, o Largo do Serieiro, e na da Freguesia de S. Miguel, o Largo de S. Miguel.

Ainda no final do século XIX, com a inauguração do caminho-de-ferro, surgiu o chamado Largo da estação, de onde partiu “nova” avenida Casal Ribeiro, actual 5 de Outubro.

A agitada vida política do século XX reflectiu-se na alteração da toponímia de alguns daqueles largos e praças.

Durante a primeira República, o Largo de Santana, que tinha mudado a designação para Largo D. Carlos I no final do século XIX, foi baptizado como Largo da República;  o Largo de Santiago foi rebaptizado como Praça Machado dos Santos, embora continuasse popularizada como “praça da batata” e outro Largo próximo, mas em frente à fachada da Igreja de Santiago, foi baptizado como Largo Dr. Justino Xavier da Silva Freira. O popularmente conhecido Largo de Santo António, foi baptizado como Largo Estevam Feyo.

Durante o Estado Novo o Largo da República foi “dividido”, mantendo o “largo da Havaneza”, o antigo Outeirinho, a designação e passando o lado sul, antigo Largo de Santana, a designar-se por Praça do Império, incluindo o jardim da antiga cerca do Convento da Graça.

Também terá sido nessa época que o Largo do Rosário foi rebaptizado com Largo Wellington.

Com o 25 de Abril a Praça do Império passou a designar-se Praça 25 de Abril.

Com o acentuado crescimento urbano, a partir da 2º metade do século XX as antigas praças e largos  perderam muito da sua centralidade para as novas  pracetas, sendo a  mais antiga de todas a Praceta Dr. Afonso Vilela, inaugurada na década de 60 do século XX.

Actualmente, no centro histórico, ainda se mantêm muitos dos largos referenciados desde a Idade Média, embora, na maior parte dos casos, com topónimos e dimensões diferentes, alterados pelo crescimento urbano e pelas várias alterações registadas ao longo do tempo.

O largo de S. Pedro é o único que mantem o nome original e foi, até meados do século XX, o “centro cívico” da “vila”. Nas traseiras da Igreja de S.Pedro existe o Largo Wellington, antigo Largo do Rosário. No extremo norte dos antigos limites da “vila”, junto das medievais “ferrarias”, fica o Largo dos Pelomes, ocupando uma área muito atrofiada e incaracterística . O “adro de Santa Maria”, frente à entrada do Castelo, é o actual Largo Coronel Morais Sarmento. O antigo Largo de Santiago está hoje dividido em dois Largos, a “Praça Machado dos Santos”, a sul, e o Largo Dr. Justino Freire, a poente. Também no antigo “Outeirinho”, que marcava o limite urbano a sul da vila, existem hoje dois largos, a “praça da República”, também popularemente designado por “Largo da Havaneza” e, na sua continuidade, para sul, ocupando a zona da antiga cerca do Convento, a “praça 25 de Abril”, popularmente designada por “Largo da Graça”, local hoje considerado por muitos como o “centro” da cidade. Por sua vez, a medieval “praça de víveres” tem hoje a designação de Praça do Município. O Largo que já existira junto ao centenário Chafariz do Canos tem hoje a designação de “Largo Infante D. Henrique”. Ainda nos limites do antigo centro histórico surgiu recentemente a Praça Dr. Alberto Avelino, muito próxima do antigo Largo de S. Miguel. O Largo de Stª António mantem a sua designação popular.

Não se pretendeu fazer neste texto a História das praças e largos torrienses, pretendendo-se apenas alertar para a importância em dinamizar e recuperar esses espaços, muitos deles em risco de desertificação humana.

Se as “ruas” são as “veias” dum centro urbano, os seus largos são os “corações” que medem a vivência palpitantes dos seus habitantes.

(1)    LOPES, Fernão, Cronica del Rei Dom Joham I de Boa Memoria (…), ed de Anselmo Braamcamp Freire, Lisboa, 1973, p. 318;

(2)    RODRIGUES; Ana Maria, Torres Vedras – a vila e o termo nos finais da Idade Média, ed. Fundação Calouste Gulbenkian e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1995;

(3)    RODRIGUES, ob. cit, pp.146-147;

(4)    RODRIGUES, ob.cit. pp. 147-148;

domingo, 3 de janeiro de 2021

PARA A HISTÓRIA DO LARGO DA GRAÇA


A propósito das obras de requalificação a decorrer no velho Largo da Graça, aqui recordamos um pouco da história desse espaço.

Na sua origem esteve a parte norte da antiga cerca do Convento da Graça.

Neste local existiu a antiga  Gafaria de Stº André, já documentada em 1309 e, segundo Madeira Torres rodeada de uma “larga cêrca” (1).

Quando a gafaria foi doada aos eremitas de Stº Agostinho em 1544, que para aí se mudaram em 30 de Novembro desse ano, retirando-se do antigo convento na “Várzea Grande”, herdaram também a referida “cerca”.

A  primeira pedra do novo convento foi colocada em 7 de Setembro de 1578, e a obra foi concluída por volta de 1580 (2).

 “O edifício estava rodeado a norte, poente e sul pela sua cerca, onde os agostinhos tinham uma vinha, muitas árvores de fruto, oliveiras, parreiras, uma horta e um poço” (3).

 A parte norte dessa “cerca”, devido à proximidade em relação ao centro da vila, foi muitas vezes palco de desentendimentos entre a Câmara e os eremitas.

Em 1736 a Câmara tentou mudar o mercado semanal, que se realizava às 3ªs feiras, para o Largo da Graça, mas sem êxito, por oposição dos frades.

Anos depois, em 1794, a Câmara contactou os frades para se colocar um chafariz a construir pelo município no “Largo do Convento”. “O chafariz de facto se construiu em forma de repuxo, mas nunca serviu, porque nunca se encanou a água “, tendo sido, “não há muitos annos[por volta de 1863]” demolido por inútil, e estorvar o tráfego do mercado que ali se faz mensalmente” (4).

Gravura Inglesa dos tempos da Guerra Peninsular, vendo-se o Convento a partir da Várzea(poente)

Em 1815 a Câmara voltou a designar o Largo da Graça para a realização do mercado mensal, por acórdão de 20 de Maio, “mandando também fazer barracas encostadas ao muro da Cerca do Convento e intimar todos os logistas para ali pôrem as suas lojas (…). As barracas chegaram com efeito a fazer-se mas n’ellas apenas os tendeiros, ou vendilhões  avulsos, hião por suas fazendas, e por fim foram mandados demolir por sentença, que os padres da Graça lançarão contra a Câmara, por serem feitas em terreno seu, e sem licença sua” (5).

Segundo Paula Silva os frades ainda chegaram a aceitar esse pedido da Câmara, mas na condição de as barracas se sustentarem por si “para evitar que o seu peso e balanço destruíssem o muro”, ao mesmo tempo que exigiram “que ficasse registado que aquele terreno lhes pertencia”. Ao que parece a Câmara não cumpriu o contrato e em 1824 os frades instauraram um processo contra a Câmara (6).

Em 20 de Março de 1832 a cerca foi arrendada por um período de 3 anos a Francisco de Assis e Silva e, depois da extinção do Convento em 1834, foi novamente arrendada em 21 de Julho deste ano, sendo finalmente vendida em hasta pública, juntamente com o Convento, em 1842, a Inácio Ferreira Campelo, pela quantia de 4 433$500 réis (7).

Gravura do Século XIX, vendo-se o sitio onde nasceu o jardim. Nota-se à esquerda, um aqueduto que transportava àgua a partir da "Fonte Nova" para o Convento e uma figura, no lado direito, junto de um poço.

Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área norte da antiga cerca do Convento da Graça, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

Em 1863 a  Câmara deliberou e efectuou vários melhoramentos no Largo da Graça “na parte que faz frente para aquella rua [da Olaria] , e a parte que encabeça com a estrada de Lisboa, e dá entrada para a entrada para a Igreja da mesma Graça, aterrando-se de novo a parte maior do Largo, que não hé calçado, e ficando assim mais livres de lama, que por ocasião do Mercado ali se formava, e tirando-lhe as agoas por meio de grandes valetas calçadas do lado do Nascente e Poente” (8).

Em 1885 foi nesse largo instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885.Este coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado (9).

O Convento, tendo passado por várias mãos após a sua extinção, veio a ser comparado pela Câmara em 21 de Abril de 1887, instalando aí vários serviços e repartições públicas, tendo incluído na compra parte da cerca, onde está o jardim actual (10), embora, como vimos anteriormente, parte dela já tivesse sido expropriada em 1857. O resto da cerca, a que rodeava o Convento a sul e a poente, conhecida por “cerca do Doutor Freire”, foi comprada em 16 de junho de 1926 pela Câmara aos herdeiros do Dr. Justino Freire para construir abegoarias, logradouros, novas ruas municipais e as novas cocheiras da Guarda Nacional Repúblicana”(11).

Fotografia de meados do Século XIX, do lugar onde foi construído o Jardim, vendo-se a cerca norte do Convento.


Em
Janeiro de 1886 o largo da Graça foi notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (12).

Finalmente, em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


Terá sido aquele cidadão, de origem italiana e então a viver em Torres Vedras, falecido em São Tomé e Príncipe, que “a 29 de Junho (…) falou em que era bonito dar ao Largo da Graça o aspecto de um passeio público, terraplanando-o, colocando-lhe bancos e candeeiros, e pondo-lhe ao centro um coreto de alvenaria e ferro, para a musica ali se fazer ouvir”. Previa um gasto de 2:000$000 réis e por isso “dias depois, em começos de Julho, principiava a pôr em prática o seu plano com tenacidade, abrindo a subscrição pública, e andando de porta em porta a solicitar donativos para o melhoramento público”, contando com o apoio do semanário local “A Semana” (13).

A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Junho de 1892, sendo inaugurado em 21 de Agosto, com festa e Kermesse.

Excertos da planta do Coreto (AMTV)

Raphael Bordallo Pinheiro desenhou a “barraca” do jornal “A Semana” colocado nessa ocasião no recinto da Kermesse (14).

Esse espaço foi baptizado com o nome do monarca que então reinava, D. Carlos . Em 1818 era conhecido por Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde funcionou a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome. Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada. Popularmente já era conhecido por Largo da Graça, nome que tem sobrevivido a todas as mudanças toponímicas desse lugar, muito marcadas pela conjuntura política (foi rebaptizado como Largo da República em 1911 e chegou a ser proposta a designação de Largo Sidónio Pais em 1919, intenção que não vingou. Como veremos mais à frente, essas mudanças toponímicas não se ficaram por aqui.


Duas fotografias da Ermida de Santana.


Em 12 de Maio de 1902 este largo foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.

visita da Rainha D. Amélia.


Várias vistas, em fotos e postais antigos, do Largo no tempo do Coreto

A decisão da Direcção Geral de Viação de instalar junto ao Jardim um posto fixo de fiscalização de trânsito, pelo ofício de 17 de Abril de 1934, (igual ao que hoje existe junto à capela de Nª Srª do Amial) provocou acesa polémica entre duas facções no seio da vereação camarária, alegando uns que aquele posto não ía colidir com o equilíbrio do Jardim, até porque, junto do mesmo, já existia um posto de abastecimento de gasolina (que aí esteve até há poucas décadas, como se recorda ainda o autor deste texto) e outros invocavam motivos estéticos para criticarem essa decisão, como foi o caso do Dr. Moura Guedes.

Esse posto acabaria mesmo por ser aí instalado, sendo visível nalguns postais de meio do século XX e foi retirado anos mais tarde (15).

postais onde se vê o posto de gasolina e o o posto da Direcção Geral de Trânsito.
O Largo da Graça visto a partir do sul, ainda com o cruzeiro que existiu junto à Igreja da Graça

A mais radical transformação daquele espaço, desde 1892, teve lugar em 1954.

Em 10 de Outubro de 1954, depois de grandes obras, que culminaram com a colocação no lugar do velho coreto de um obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, foi oficialmente inaugurado o novo jardim, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte (“Outeirinho”) a designação de Praça da República (Com o 25 de Abril foi o Largo da Graça rebaptizada como Praça 25 de Abril).

O "novo" jardim, ainda sem o Obelisco

As festas de inauguração do Obelisco e desse espaço, totalmente remodelado,  foram revestidas da pompa característica da época, iniciando-se com “toque de alvorada, às oito horas, pelo terno de clarins da Legião Portuguesa, seguida de uma salva de vinte e um morteiros”. Às 10 horas teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o descerramento do retrato do Presidente da República de então, Craveiro Lopes.

Depois desse acto, as “entidades oficias” dirigiram-se para a Freixofeira, limite norte do concelho para receber os “ilustres convidados” para a inauguração, com destaque para a “mais alta individualidade” a estar presente, o sub-secretário de Estado do Exército o tenente-coronel Sá Viana Rebelo, “que vinha presidir às cerimónias”.

O cortejo, com cerca de 200 automóveis, saiu então da Freixofeira a caminho da então vila onde chegou ao largo dos Paços do Concelho por volta das 12 horas. Aqui estavam formados “o Corpo dos Bombeiros Voluntários, com bandeira e banda de música, o Terço da Legião Portuguesa, a Banda Recreativa Torreense, a Mocidade Portuguesa, deputações das várias colectividades locais, com seus estandartes e grande concurso de povo que vitoriou os recém-chegados, enquanto o ilustre membro do Governo passava, em revista, a guarda de honra e as músicas faziam ouvir os acordes da “Maria da Fonte”.

Seguiu-se a cerimónia oficial, com os discursos das autoridades no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

A cerimónia prosseguiu com um “Te-Deum” na Igreja de S.Pedro, seguindo-se um almoço no salão da Tuna Comercial.

Ás 15 horas procedeu-se ao acto de inauguração do Obelisco “junto do qual formavam, em guarda de honra, uma companhia do regimento de infantaria nº1, e um grupo de soldados com os fardamentos usados na época das Guerras Peninsulares, vendo-se ainda, no local, uma peça de artilharia, que nessas guerras serviu, vindo expressamente do Buçaco”.

Foi então lido o auto de inauguração:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

Seguiu-se um desfile militar junto à tribuna de honra montada numa das ruas próximas do jardim.

A cerimónia terminou com a inauguração no “Museu e Biblioteca Municipal” da exposição histórico-biblio-iconográfica dedicada às Linhas de Torres (16).




Cerimónias de inauguração do Obelisco

Vivendo-se em ditadura e em regime de censura, não se encontra registada qualquer crítica pública àquele que foi, ainda hoje, para uns, um atentado ao património, retirando o único corêto existente dentro da cidade, para outros, uma obra inovadora e de referência.

O silêncio sobre reacções criticas não quer dizer que não tivessem existido manifestações de desagrado.

António Augusto Sales, jovem nessa época, refere-se às criticas então manifestadas nas mesas dos cafés, a “rede social” da época:

“Quando José Figueiroa Rêgo, no último ciclo do seu mandato de quatorze anos como presidente da Câmara decidiu derrubar o velho coreto e arrasar o antigo jardim para construir o actual colocando no meio um enorme obelisco em memória da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres, muito e apaixonadamente se discutiu a deliberação. Técnicos que por  o serem entendiam as suas opiniões acima de qualquer critica, idosos que sentiam o desaparecimento do velho jardim como perca da sua identidade geracional, intelectuais, que viam monumento uma manifestação da arquitectura fascista, estetas da ironia que lhe vislumbravam uma grandeza fálica, assanhados conservadores incapazes de aceitar o bulir de uma pedra, músicos das bandas que sem o coreto perdiam o mais simbólico palco para a exibição da sua arte, gente nova fazendo parte de uma geração voltada decididamente para um novo conceito de jardim que introduzia na vila modernidade, todos discutiam o assunto e lançavam “bocas de bancada” pelos cafés que naquele tempo, eram os templos por onde passava qualquer iniciativa, escândalo público ou privado. No meio de uma guerra de opiniões a obra foi em frente (…)” (17).

Várias vistas do Jardim após a inauguração do Obelisco.

É preciso esperar por 1970 e por alguma “abertura” da “Primavera marcelista” para encontrarmos a publicação pública de um texto crítico sobre o jardim:

“Se me perguntarem o que penso daquele mini-jardim, responderei que é o único local aprazível da parte urbanística da vila. Mas não posso deixar de dizer que tem ali verdadeiras aberrações (…).

“Já repararam que as árvores que o circundam escondem a fachada da Graça, ofuscando-lhe toda a graça e austeridade que são uma mensagem da fé dos nossos antepassados?

“Já repararam que essas mesmas árvores escondem também o belo obelisco (…)?

“Já repararam que, por sua vez, o referido obelisco não se enquadra bem no mini-espaço que o circunda e donde só é visível?

“Contudo, benditas sejam aquelas árvores que protegem com a sua sombra os que procuram aquele local porque outro não há onde se possa ter a sensação de frescura nos dias de calmaria ou onde se possa refazer o corpo das fadigas que o dia a dia acarreta.

“Quando um dia houver jardins com árvores (…) talvez possam ficar ali só arbustos que não ofusquem a graça da Graça que serve de fundo àquele largo.

“Talvez que o obelisco se apresente, então, com toda a sua beleza, e bem enquadrado (18). Nas décadas de 70 e 80, período em que a vila, tornada cidade em 1979, conheceu um grande crescimento urbano, o jardim perdeu importância e tornou-se quase um “saguão” gigante no meio de uma urbanização caótica que cresceu à sua volta, rompendo-se o diálogo visual entre a fachada do velho Convento e o Castelo, um equilíbrio que devia ter sido garantia de preservação da identidade da terra.

O próprio Obelisco, obra polémica, perdeu fulgor no meio do caos urbano à sua volta, atarracado pelo arvoredo cada vez mais denso.

Em 2002 gerou-se nova “ronda” polémica, devido à publicação de uma sugestão de requalificação defendida pelo então vereador do planeamento Carlos Miguel, propondo a retirada do Obelisco daquele espaço e substituir as árvores de grande porte por outras de dimensões mais reduzidas, com o objectivo de alargar a zona pedonal e realçar a fachada do velho Convento.

A ideia acabou por não ira para a frente, devido à reacção popular e da imprensa, ficando-se por alguns arranjos na parte norte do jardim(19).

Ficou-se também a saber que a remoção do Obelisco era tecnicamente impossível sem destruir por completo o monumento.

Hoje, as obras de requalificação que estão a decorrer, mantêm o Obelisco, passam pelo alargamento da zona pedonal à custa do estreitamento da faixa rodoviária, embora se tema pelo futuro do arvoredo.

Desta vez as reacções públicas tem sido moderadas, talvez devido às preocupações com a actual situação pandémica. Destaque-se, contudo, um dos raros textos críticos sobre essa obra, da autoria de Jorge Ralha(20).

Pela nossa parte…esperemos que o popular Largo da Graça volte a ganhar…alguma graça!

 

(1)    - TORRES, Madeira, parte histórica da sua conhecida monografia, 2ª edição, página 126;

(2)    - SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras, a comunidade eremítica e o património, Livro do Dia/CMTV, Abril 2007, capítulo “A segunda fundação”, pp.34 a 36.Esta é a melhor e mais completa e actualizada obra sobre o dito Convento;

(3)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.38;

(4)    – anotadores de Madeira Torres, parte económica, manuscrita, 5º caderno, f.6, AMTV;

(5)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 8º caderno, f.7, AMTV;

(6)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.65;

(7)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.114;

(8)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 2º caderno f.6, AMTV;

(9)    – in  Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885;

(10) – SILVA, Maria Manuela Gonçalves Silva, Convento da Graça - Torres Vedras, parte 1, tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997, dactilografada;

(11)  – SILVA, Paula Correia, ob.cit.,, pág.115;

(12)   – in Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886;

(13) - in A Semana, número comemorativo da Kermesse de abertura do novo jardim,  Domingo 21 de Agosto de 1892. Ver também o suplemento do nº 46 de  “Toitorres Notícias” de Maio/Junho de 1998, coordenado por António Rodrigues e Adão de Carvalho;

(14)  CARVALHO, Adão de e PAULO, Joaquim, “Ontem e Hoje – Rafael Bordallo Pinheiro e o Coreto da Graça”, in Badaladas de 27 de Março de 1992;

(15) – leia-se, sobre o tema,  o texto assinado por Moura Guedes, “O Jardim do Largo da Graça – uma “nota” oficiosa”, in Alta Extremadura, 20 de Março de 1935;

(16)– CUNHA, Augusto M. Lopes da, Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra peninsular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954;

(17) – SALES, António Augusto, “Um referendo para o Jardim da Graça e o seu Obelisco”, in Frente Oeste de 2 de Maio de 2002;

(18)  – DIOGO, A., “As tarimbas do mini-jardim da Praça do Império”, in Badaladas de 27 de Junho de 1970;

(19)   – ver Badaladas de 12 de Abril de 2002 e Torres Vedras em Revista, nº1, Março de 2002;

(20)   – RALHA, Jorge, “A desgraça da Graça”, in Badaladas de 20 de Novembro de 2020.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

As mais antigas fotos de cheias em Torres Vedras (1904)

 



Na sua edição de 15 de Fevereiro de 1904 a revista "Ilustração Portuguesa" publicou aquelas que são, até ao momento, as mais antigas fotografias de umas cheias em Torres Vedras.

As cheias tiveram lugar no fim-de-semana do Carnaval desse ano e essas fotografias ilustram, juntamente com uma outra do vale de Santarém, o resultados das grandes chuvadas desses dias.

O artigo onde se inclui essas fotografias e a legenda acima transcrita, é assinado por um tal João Paulo, desconhecendo-se se é ele o autor dessas fotografias.

No dia em que se comemora mais um ano passado sobre as maiores cheias registadas no concelho nos últimos 50 anos, as cheias de 19 de Novembro de 1983, aqui recordamos as mais antigas fotos de um fenómeno constante ao longo dos séculos, o transbordar das águas do rio Sizandro para as ruas baixas da então vila.

A partir de 1983 foram efectaudas várias obras de regularização do rio, pelo que deixou de haver as tradicionais e destruidoras inundações no centro urbano

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Largo Jaime Batista da Costa – o “Centro” da Praia de Santa Cruz

A actual localidade da Praia de Santa Cruz nasceu, em grande parte, à volta do actual Largo Jaime Baptista da Costa, mais conhecido pelo Largo da Havaneza.

Esse largo ocupa o centro da área maior de uma “plataforma” avançada, no topo de uma arriba, espécie de promontório, centro do cruzamento de várias ruas e edifícios icónicos dessa praia.

Está confinado, a oeste, pelo conhecido edifício da “Havaneza” e pela capela de Santa Helena, a sul pela azenha, existente já no século XV, a norte pelo “pisão” ou “ribeira da Estacada”, que recebia a água do casal dos Feros e que pertencia aos domínios do Convento de Penafirme, actual limite entre as freguesias de A-Dos-Cunhados  e Silveira, e a leste por uma vasta zona de dunas, hoje reduzida pela urbanização e pela abertura de uma extensa rua que segue para o Parque de Campismo.

Até ao século XIX, fazia-se a distinção entre a “Azenha”, o “Pisão” e  “Santa Cruz de Ribamar”, designação esta desde o século XVI, pois no século XV é referida com “S. Gião de Ribamar” .

Aquela distinção manteve-se ainda, pelo menos até 1862 (1). Só nos finais desse século é que aqueles três sítios distintos passaram a ser designados, no seu conjunto, por “Santa Cruz”.

Deve-se a Jaime Batalha Reis uma das primeiras descrições, datada de 1870, da “moderna” Santa Cruz: “A povoação reduzia-se a poucas casas espalhadas sobre as ribas (…) muito pitorescas, altas e de estratos vivamente coloridos” (2).

Essa descrição refere-se a uma estadia de Batalha Reis, na companhia de Antero de Quental, comprovando-se por ela ter sido à volta daquele largo que se desenvolveu o núcleo urbano de Santa Cruz: “morávamos n’uma casinhola térrea, das últimas habitações, ao sul, que voltava as costas a todas as outras”, isto é, as situadas à volta do largo.

A referida “casinhola” a “sul” situava-se na rua que desce para a praia, por detrás do demolido “casino” e que termina junto da “Torre”.

Grande parte desse núcleo urbano cresceu, de forma desordenado, à volta dessa plataforma natural:

“As habitações rebellaram-se contra as symetrias modernas e foram-se construindo ao acaso, trepadas nas alturas.

“Os proprietários, respigando ainda umas noções do Bello nos destroços das theorias realistas, foram escolhendo os bons sítios e d’ahi os bons panoramas que de todas ellas se disfructam” (3).

Ligada por estrada a Torres Vedras a partir de 1902, aquela praia atraiu cada vez mais as elites da vila, que aí construíram segundas habitações para passar o verão em Santa Cruz.

Entre as primeiras famílias referenciadas como proprietários de algumas dessas habitações encontravam-se as de apelido Bacelar, Miranda, Vilela, Roque Pedreira, Santos Bernardes, Bastos e Sousa Machado (4).

Pela sua centralidade, foi esse largo escolhido para ponto de chegada e partida das primeiras “carreiras” automóvel para a Praia de Santa Cruz, iniciadas no Verão de 1911 pela empresa de António Capote.


Outras empresas vão surgir ao longo do século XX para transportar veraneantes para Santa Cruz, escolhendo aquele Largo ou as sua proximidade como ponto de largada ou recolha de passageiros: João Henriques dos Santos a partir de 1923;  Empresa Sociedade Progresso de Santa Cruz a partir de 1925, tendo como sócios Joaquim Morais de Castro, Guimarães Júnior e José Duarte Capote sobrinho, cujos direito foram adquiridos por Ruy da Costa Lopes em 1928, sendo este o único operador em 1941, ano em que este, por sua vez, cede os direitos à empresa Capristanos da Caldas da Rainha, mais tarde adquirida pela empresa Claras, que operou esta linha de camionagem até 1975 (5).


Em 1917 António Batista da Costa referia-se ao crescimento da localidade:

“No século passado [XIX], à semelhança que as respectivas populações se iam pouco a pouco desenvolvendo, alguns indivíduos de Lisboa e Torres Vedras mandaram ali construir alguns prédios. Actualmente está um lugar grande e bonito com seu elegante salão onde se faz musica e dança, pertença do snr. Fernando Bacelar; um Hotel, propriedade do popular Maria Sabe Tudo [Hotel Miramar], mercearias, etc.

“Quasi todos os indivíduos mais ou menos abastados de Torres Vedras, ali tem mandado edificar a sua casa ou o seu chalet” (6).

Só nos anos 20 do século XX é que se tentou começar a planificar o crescimento urbano dessa localidade.

Em 1921 foi criada a “Comissão de Iniciativas das termas dos Cucos e Praia de Santa Cruz”, pela Lei nº 1152 de 23 de Abril .

Aquela Comissão nomeou, em 12 de Abril de 1923, para a “comissão de Iniciativas da Estância da Praia de Santa Cruz” um conjunto de notáveis para elaborarem, entre outros “melhoramentos”, um plano de urbanização para essa localidade, apresentado em 1924 (7).

Essa comissão durou até 1934, embora só tenha sido extinta oficialmente em 1936, passando as suas funções para a Comissão Municipal de Turismo, criada em 1937.

Faziam parte dessa comissão o Dr. Justino Xavier da Silva Freire, como presidente, José António Baptista Ribeiro, como vice-presidente, José Lobo Mendes, como 1º secretário, José Pedro Veríssimo, como 2º secretário, José Pedro Lopes, como tesoureiro, e José Joaquim de Miranda, como administrador delegado. Essa comissão sofre uma ligeira remodelação, por falecimento do Dr. Freire, passando a ser presidida pelo Dr. Afonso Vilela, entrando também para ela José Duarte Capote Sobrinho. Dela fizeram parte, ao longo da sua duração, figuras como Victor Cesário da Fonseca ou Júlio Vieira, entre outras.

A planta desse plano de urbanização acima referiso, actualmente existente na Área de Planeamento da Câmara Municipal de Torres Vedras, confirma a centralidade do Largo no conjunto do núcleo urbano de Santa Cruz nos anos de 1920 (8).



Deve-se a essa comissão a renovação do largo, decidida numa reunião em 2 de Março de 1926 para tratar “da reforma do Largo principal de Santa Cruz que a Camara Municipal, com um muro que ali mandou construir, transformou para pior”, enviando-se um pedido à Câmara, feito “pelos proprietários e frequentadores da Praia”  para que se processem as obras necessárias para dar ao largo “um aspecto melhor do que tem desde que ali se construiu um muro de suporte de terras” (9).

Em 25 de  Novembro  desse ano, o livro de actas dessa Comissão refere a apresentação do “projecto da obra da muralha de Santa Cruz, feita pelo vogal desta comissão, senhor João dos Santos Ghira, engenheiro e vereador da Câmara”, projecto aprovado nessa sessão, obra adjudicada a “José Miguel Tigelinha” (10).

Em sessão de 21 de Maio 1930 essa comissão resolveu “adquirir duas pequenas casas abarracadas na praia de Santa Cruz, para serem demolidas, a fim de tornar mais ampla a entrada para o Largo principal” (11).

Em Agosto desse mesmo ano surgiu a primeira sugestão para a toponímia de Santa Cruz, onde se propõe batizar o referido Largo com o nome de Jaime Batista da Costa.

Essa proposta foi apresentada pelo tenente António Victorino França Borges em sessão ordinária da Comissão Executiva da Câmara Municipal de 1 de Agosto de 1930, para homenagear personalidades que tinham contribuído para a instalação da iluminação eléctrica nessa praia.

Foram assim aprovados, nessa sessão, os seguintes topónimos:

Rua nº 7 – José Guimarães Pinheiro;

Rua nº A – José Joaquim de Miranda;

Rua nº 4 – José Pedro Lopes;

Largo nº 3 – Jaime Batista da Costa;

Rua nº 14 – António Palha Figueirôa Rego;

Rua nº 8 – Júlio Vieira.

Em sessão de 22 de Agosto foi acrescentado:

Largo nº 4 – Francisco Maria Bacellar;

A justificação para a dar àquele Largo o nome de Jaime Batista da Costa foi por ter sido ele “o iniciador da iluminação e do saneamento da referida praia, sendo a sua morte em parte devido à sua dedicação por aquela povoação” (12).

Jayme Augusto Baptista da Costa foi secretário da Câmara Municipal entre 8 de Agosto de 1901 e 16 de Setembro de 1909, tendo falecido em Outubro deste ano.

Terá sido o técnico camarário responsável pala execução da instalação da iluminação pública na Praia de Santa Cruz, iluminação a gaz acetileno, com 8 candeeiros obtidos por subscrição pública, inaugurada em 27 de Setembro de 1909, poucos dias antes seu do falecimento (13).

Ainda nos anos 30 foram executadas várias obras naquele largo.

Em sessão camarária de 13 de Outubro de 1934 o concessionário da iluminação eléctrica da Praia de Santa Cruz informou que podia “fornecer iluminação pública ao Largo Jaime Baptista da Costa (…) com uma lâmpada de 50 velas, de 1 de Novembro a 30 de Junho, pela quantia de 100$00 mensais” (14).

No ano seguinte, em reunião de 17 de Julho de 1935, a Comissão de Iniciativas apreciou “o projecto da pavimentação e esgotos do Largo Baptista da Costa”, enviado à Câmara para aprovação. Contudo, dois anos depois, como se lê nas actas daquela Comissão, essa obra continuava por executar.

Hoje podemos apreciar, à volta desse Largo, alguns dos edifícios mais antigos e icónicos da localidade, raros sobreviventes do caos urbanístico das décadas de 70 e 80 do século passado que tanto descaracterizou muitas praias do litoral.

Como sobreviventes de uma Santa Cruz doutros tempos restam, à volta ou nas proximidades desse largo, edifícios como a capela de Stª Helena, o café Havaneza e a Pensão Mar Lindo, o chamado edifício Miranda, a casa do “alpendre”, a casa da “famílias Mota” , a Pensão Perpétua e, embora oficialmente fora dos limites troponómicos do largo, mas fisicamente integrada no mesmo, a casa da família “Santos Bernardes”.


A actual ermida de Stª Helena é de segunda fundação, já que existe referência a uma mais antiga, mais junto das arribas, que terá ruido por efeito da erosão, possuindo tombo feito em 1507 e reformado em 1540 (15).

A Ermida, junto à entrada sul do Largo, foi construída no século XVIII, sofrendo algumas alterações já no século XX, tendo sido pela mesma altura construídas as habitações que estão encostadas ao monumento.

Deve-se, aliás, à evocação de Santa Helena o nome do lugar.

Segundo a lenda, foi descoberta uma imagem de Santa Helena, por baixo de uma rocha na praia da Amoeira. A santa era mãe do Imperador Constantino, primeiro imperador cristão de Roma e a lenda atribui-lhe a descoberta, em Jerusalém da Cruz onde Cristo foi crucificado.

Junto dessa capela costumava-se realizar a Festa da Santa, em 3 de Maio, com círio saído de Torres Vedras, tendo como momento alto a bênção do gado.

Durante esse dia realizava-se festa junto à capela e a “a população comemorava a “Bela Cruz” colocando cruzes de flores nas portas e levava os animais para o adro da capela para serem benzidos” (16);


Outro edifício a delimitar o Largo pelo oeste, é o “Hotel Havaneza”, inaugurado em 1905, com salão de chá no 1º andar, conhecido mais tarde por “Mar-Lindo”, e onde existiu, nas suas traseira, o primeiro casino de Santa Cruz inaugurado em 5 de Agosto de 1925 (17).

No “Mar-Lindo” hospedou-se durante muitos anos, na décadas de 50, o poeta e escritor João de Barros, aí recebendo muitas vezes o seu genro, Marcelo Caetano, último presidente do conselho do Estado Novo.






No rés-do chão desse edifico, no lado esquerdo, existiu o edifício “A Veneza” de José Duarte Capote (18),  tendo funcionado nas traseira, viradas para o oceano, durante muitos anos, o posto de correios da localidade.

Por volta nos de 1950 foi o edifício aumentado com um andar.

Pelos anos de 1930 foi construído outro edifício icónico junto à “Havaneza”, o chamado Prédio Miranda, com fachada virada para norte decorada com 6 azulejos com vistas de Santa Cruz e Torres Vedras da autoria de Luís de Campos e encimada por uma estatueta, Nossa Senhora da Esperança (19).

A norte do largo está a “casa do alpendre”, da “família Loureiro”, com um original alpendre de 10 colunas e com azulejos nas paredes laterais da autoria de “R. Santos” produzidos na Fábrica Viúva Lamego, datados de 1927, um deles dedicado a Santa Margarida.

Virados para sul desse alpendre, temos, à nossa esquerda duas casas térreas, uma que pertenceu à família Miranda e outra, geminada, mais comprida, hoje de três portas viradas para o mar, a chamada casa “Mota”, já referenciada no século XIX, construída por João Pinto Mendes que a deixou a umas primas, uma delas avó de Joaquim Alberto Mota, falecido em 1995 com 87 anos (20).


Numa planta de Santa Cruz de 1940 a casa “Mota” está assinalada como “teatro”, mas é um conjunto de pinturas a fresco existentes no interior dessa casa que a tornam mais característica.

Os frescos são da autoria de Francisco Maria Peres (1847-1910), autor de muitas pinturas decorativas em vários edifícios civis e religiosos da região e discípulo de José Malhoa.


Existem trabalhos seus referenciados na Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, no Convento do Varatojo, no Convento de S. Bernardino, na Igreja de Moita dos Ferreiros, no Lar de S. José e em várias residências particulares, como a do padre Sousa em S. Bernardino, a de Barros e Cunha em Runa, a residência de verão de José Gonçalves Dias Neiva na Azenha dos Cucos, esta infelizmente já destruída, representando um comboio (21).

A de Santa Cruz, na casa “Mota”  é uma “decoração a óleo” composta por “sete medalhões elípticos”, seis dos quais “representam aspectos fiéis e ingénuas perspectivas da velha Santa Cruz de Ribamar, preciosas para o estudo do seu desenvolvimento urbano”.

Um desses medalhões “representa uma sátira ao (…) Francisco Banheiro, em cuja casinha térrea se hospedaram Antero e Batalha Reis”, outro o Penedo do Guincho, tendo colaborado na execução os próprios Batalha Reis e Antero de Quental, quando estiveram nesta praia em 1870 (22).


Outro edifício icónico do Largo é o da antiga “Pensão Perpétua”, da Maria do Rosário Perpétua, localizado a sul, do lado contrário do quarteirão da ermida de Stª Helena, lugar de encontro de pescadores, caçadores e veraneantes, para apreciarem a sua galinha caseira e, como sobremesa, a especialidade da casa, os “sonhos” (23). 

Do lado oposto ao edifício da Havaneza, a leste do largo, ainda existe um dos edifícios mais antigos, documentado nalguns dos primeiros postais de santa Cruz, edifício de 1º andar, ao lado do qual um postal antigo localiza um antigo “Hotel”, numa casa térrea vizinha, assim designado em 1923, talvez a “casa de hospedes” de José Maria dos santos Menau, referida no Annuário da Folha de Torres Vedras  de 1907.

O edifício de primeiro andar, ainda existente, teve um alpendre, visível no postal, e foi construído por Francisco dos Santos Bernardes, conhecido por “Alfazema”, dono da antiga Fonte Nova em Torres Vedras. Aquele edifício ainda hoje pertence aos herdeiros de Santos Bernardes (24).



Já fora do Largo, mais a norte do edifício acima referido, existem duas casas térreas, das mais antigas da povoação, conhecidas pelas “casas do jogo de “criquet”, por causa de um postal de 1923 que mostra um grupo de senhoras a praticar esse jogo junto dessas casas.


O largo foi alvo de uma intervenção de requalificação urbanística no início deste século, cujo projecto, da autoria do atelier “Cinco sentidos”, foi apresentado pelo vereador Jorge Ralha em sessão camarária de 15 de Dezembro de 1998, motivando alguma contestação.

O projecto foi muito criticado nas páginas do “Badaladas”, merecendo destaque um artigo da autoria de Andrade Santos onde se apontavam como principais pontos da discórdia, o facto do projecto assumir “uma ruptura perigosíssima com o lugar”, atentar “contra a história desse lugar”, desfigurar “o espaço e (…) desconcentrar o tempo do Largo e a sua envolvência”(25).

Essa contestação motivou também um abaixo-assinado subscrito por 90 habitantes, entregue no posto de turismo de Santa Cruz,  defendendo a manutenção de, pelo menos, dois pontos: “um canteiro que sempre existiu ali, e que já permanece há pelo menos três gerações” e “os toldos com os bancos que não estavam contemplados no projecto” (26).

Esse projecto integrava o plano de reconversão da orla costeira de Santa Cruz e da área urbana adjacente.

A execução desse projecto, no Largo Jaime Batista da Costa, foi da responsabilidade dos arquitectos Bruno Ferreira e Carlos Tomás e, integrando algumas das recomendações, as obras de reconversão foram assinaladas com uma lápide no centro do Largo, inaugurada em 1 de Julho de 2007.

Hoje esse Largo é um dos mais concorridos da praia de Santa Cruz, centro de alguns dos eventos mais marcantes dessa localidade, e um dos poucos locais a manter as característica da memória urbana e histórica do lugar (27).

(1)    - ver “relação por ordem alfabética dos lugares (…) que há no termo da villa de Torres Vedras (…) feita em 1862”, apêndice nº 9 elaborada pelos anotadores de Madeira Torrespara a 2ª edição, inédita, da parte económica da monografia desse autor, existente em manuscrito no arquivo municipal [AMTV];

(2)    - texto transcrito no jornal “Gazeta de Torres” em 5 de Maio de 1926;

(3)    – texto de Carlos Velloso publicado na “Voz de Torres Vedras” em 8 de Setembro de 1888;

(4)    - REIS, Célia, Cenas da Vida de Torres Vedras, ed.CMTV, 1999, p.95;

(5)    - CARVALHO, Adão e RODRIGUES, António, “A Praia de Santa Cruz em Tempos Idos”, suplemento especial de Toitorres Notícias, Janeiro/Fevereiro de 1999;

(6)    – António Batista da Costa, “Memórias de Torres Vedras”, obra inédita, manuscrita, escrita por volta de 1917, existente no AMTV;

(7)    – seguimos as indicações das actas dessa comissão, existentes no Arquivo Municipal;

(8)    – agradecemos ao sr. arquitecto Nuno Patrício a cedência de cópias dessa e doutras plantas de Santa Cruz;

(9)    – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(10)   – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(11)    – Livro de Actas da Comissão de Iniciativas, AMTV;

(12)  – Sessão camarária de 1 de Agosto de 1930, Livro de Actas da Câmara, Livrº 41, fl. 81v e 82, AMTV;

(13)   – ver “A Vinha de Torres Vedras” de 9 e 30 de Setembro e de 14 de Outubro de 1909;

(14)  - Livro de Actas da Câmara de 1934, AMTV;

(15)   – anotadores da parte histórica da monografia de Madeira Torres, 2ª edição, p.110:

(16)    - LUÍS, Maria dos Anjos, in Vários Autores,  Azenha de Santa Cruz- o Espaço, a História e as Gentes, ed. CMTV, 2006;, p.22;

(17)    – in “A Nossa Terra” de 16 de Agosto de 1925;

(18)  - CALLIXTO, Vasco, “Toponímia de Santa Cruz”, in “Badaladas” de 20 de março de 2009;

(19)   – CALLIXTO, Vasco in Badaladas de 22 de Agosto de 2008;

(20)  - MOEDAS DUARTE, Joaquim, “Memórias de Santa Cruz –as pinturas do mestre Peres na casa dos Motas”, in “Lugar Onde”, jornal Badaladas de 24 de Setembro de 2010;

(21) - CARVALHO, Adão de , “Francisco Maria Peres, pintor torriense, condiscípulo de José Malhoa nas Belas Artes”, in Badaladas de 9 de Junho de 1995;

(22) – SALINAS CALADO, Raphael, “Um Pintor Contemporâneo” in Boletim da Junta Distrital de Lisboa, nº 10, 2º semestre de 1945, pp. 399-402;

(23) – Adão de Carvalho, “Um Burro Caçador”, in Badaladas, 17 de Junho de 1994, e Vasco Callixto, “Adeus Perpétua – mais um crime urbanístico em Santa Cruz”, in Badaladas de 16 de Abril de 2004;

(24) – Agradeço as informações prestadas sobre este edifício, bem como sobre a outra “casa do alpendre”,  pela srª Maria Luísa dos Santos da Costa Bastos Bouza Serrano, em comunicação envida pelo chat do facebook em 23 e 24 de Julho de 2020;

(25) – SANTOS, Andrade “As opções urbanísticas em Torres Vedras – Análise a um estudo Prévio para a reestruturação do “Largo da Havaneza” em Santa Cruz”, in Badaladas de 15 de Outubro de 1999;

(26)  – ver Badaladas de 29 de Outubro de 1999;

(27)  – Para além dos textos e documentos referidos nas notas anteriores, também nos baseámos na leitura de outras obras fundamentais para conhecer a história de santa Cruz: Azenha de Santa Cruz – o espaço, a História e as gentes, obra colectiva, ed. CMTV, 2006; ;LINO, Artur da Silva, Uma Ermida Histórica na Praia de Santa Cruz, in Estremadura – Boletim Cultural, nº 55-56, de 1961, pp. 137-142;