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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Um colóquio da SEDES em Torres Vedras em 1973: à vigilância da PIDE, nem a SEDES escapava:


 Informação da Legião Portuguesa à PIDE-DGS, relativa a colóquio da SEDES em Torres Vedras. A informação faz referência à presença de Magalhães Mota. Fonte: ANTT, Legião Portuguesa.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

As “Festas” de Torres Vedras de 1929 -Inauguração do Mueu Municipal e rede telefónica

 

Inauguração da Linha Telefónica em T. Vedras - (Fonte: Torre do Tombo)

“Dois dias duraram elas.

“E se a função não foi de espavento, nem coisa de encher o olho (…) aos mais exigentes, foi, no entanto, qualquer coisa decente e compostinha, que não deixou em mal o bom nome da vila”(1).

Essas “festas”, realizadas em 28 e 29 de Julho de 1929, foram as da inauguração da rede telefónica urbana e do Museu Municipal de Torres Vedras, incluindo uma visita às obras do novo Hospital e a realização do 1º Concurso Hípico de Torres Vedras, contando com a presença do Governador Civil de Lisboa, o coronel Morais Sarmento, e do major João Luís de Moura, entre outras “altas individualidades.

Esse evento deu continuidade à inauguração da ligação telefónica entre Torres Vedras e Lisboa que ocorreu em 4 de Março, ocasião para a qual chegou a estar anunciada a presença do Presidente da República, o general Óscar Carmona, que acabou por faltar por “razões de saúde (2).

Vivia-se então o terceiro ano da  Ditadura Militar iniciada em 28 de Maio de 1926.

Esta enfrentava então um momento de encruzilhada quanto ao seu futuro, digladiando-se várias facções e várias tendências.

Uns viam no modelo da ditadura espanhola, liderada por Primo de Rivera, apoiada pelo rei Afonso XIII, uma possibilidade de restaurar a monarquia mantendo a ditadura, outros desejavam o regresso a uma República conservadora e democrática “regenerada” pela ditadura, mas o modelo cada vez mais presente era o de adaptar a realidade portuguesa ao fascismo italiano de Mussolini.

Ainda no início desse mês de Julho de 1929 tinha tomado posse o 6º governo da Ditadura, liderado pelo general Ivens Ferraz, fruto de mais uma crise política provocada por essa “guerra” surda entre fações da ditadura, da qual saiu mais reforçada a figura de Salazar.

Mas voltando às “Festas” de Torres Vedras, estas tiveram inicio pelas 11 da manhã do Domingo 28 de Julho, com a chegada dos “ilustres convidados”, o coronel Morais Sarmento, antigo Ministro da Guerra, ocupando nesta data o cargo de Governador Civil de Lisboa, e o major João Luís de Moura, “que fizeram a viagem de automóvel”, deslocando-se aos Paços do Concelho para uma sessão solene, onde aqueles dois militares do 28 de Maio receberam o título de cidadãos honorários de Torres Vedras.

No primeiro discurso dessa sessão, proferido pelo vice-presidente da Câmara, o Dr. António Freire, este recordou a acção de Morais Sarmento a favor da vila de Torres Vedras, quando ocupou o cargo de Ministro da Guerra, destacando a entrega “aos cuidados do Município do vetusto Castelo da Vila, cedendo ainda importantes parcelas de terreno” dependentes daquele ministério, enaltecendo o facto de, como Governador Civil, ter também beneficiando, com vários donativos, a Associação de Educação Física, os Bombeiros Voluntários e a sua Banda, a “Cantina Escolar”, o “hospital em construção” e a escola primária da freguesia do Maxial, entre outros apoios.

Após essa sessão solene, pautada por vários discursos de elogio aos convidados e aos feitos da Ditadura Militar, “os visitantes subiram ao segundo piso do edifício camarário a fim de ser inaugurada a rêde telefonica dentro da vila. E que conta com 65 subscritores”.

A primeira chamada foi efectuada, simbolicamente, por Morais Sarmento para o Hotel dos Cucos, para o “sr. General Trindade, presidente da Junta Autónoma das Estradas, aproveitando para “ lhe pedir “a conclusão da estrada de Vilar” para Torres Vedras.

Depois o Governador Civil efectuou um segundo telefonema para “o sr. General Ivens Ferraz”, o recém empossado Presidente do Concelho de Ministros do 6º governo da ditadura.

Recorde-se que estamos a falar da inauguração da rede pública telefónica. Em Março deste ano, como referimos, foi efectuada a primeira ligação simbólica entre Torres Vedras e Lisboa. Já existiam telefones em Tores Vedras, mas eram particulares, tendo  a primeira ligação sido  efectuada em 24 de Dezembro de 1885, ligando o casal das Lapas, em A-Dos-Cunhados, à vila. Antes já existia um sistema de comunicação por telégrafo inaugurado em 23 de Junho de 1865, ligando Torres Vedras a Caldas da Rainha e a Mafra, com uma estação provisória instalada no Largo do Terreirinho.

Continuando com as “festas”, por volta do meio-dia aquelas individualidades deslocaram-se à sala Irmandade dos Clérigos Pobres, anexa à Igreja de S. Pedro, para inaugurar o Museu Municipal, dirigido por Salinas Calado, destacando a citada reportagem do jornal Gazeta de Torres os principais objectos expostos ao público, como o bufete da Maceira, o foral manuelino de Torres Vedras, vários objectos de arte sacra, uma imagem em marfim, colecções arqueológicas de várias épocas e os oito quadros quinhentistas, então ainda atribuídos a Gregório Lopes.

Após essa inauguração, os “ilustres hospedes visitaram (…) as obras do novo edifício hospitalar, em construção, e cujo corpo central se encontra já bastante adiantado”, sendo recebidos “pelo sr. Joaquim dos Santos Vaquinhas, presidente da comissão edificadora e uma das pessoas que mais se tem esforçado para dotar a vila com uma instituição hospitalar digna, e que possa satisfazer as crescentes necessidades da população”. Contudo, esta obra só foi concluída e inaugurada em 1943.

Após essas visitas e inaugurações, seguiu-se um almoço no Hotel dos Cucos, que terminou com mais uma ronda de “uso da palavra” para enaltecer os convidados e a obra da Ditadura.

O programa de festas desse dia culminou com a realização do Primeiro Concurso Hípico de Torres Vedras, ao qual concorreram 40 cavaleiros, realizado em terrenos pertencentes ao proprietário das Termas dos Cucos, José António Vieira, e próximos desse empreendimento.

“Três escassas semanas atraz estava o campo ainda em cultura de grão. E os pinheiros ainda firmes e erectos em seu enraizado.

“Na altura devida, porem, as pistas estavam prontas, os obstáculos em seus sítios próprios, as vedações e ripados devidamente colocados”, tudo graças à “boa vontade” daquele proprietário e ao “esforço e trabalho incansável do capitão sr. José Lúcio Nunes”.

No dia seguinte teve lugar o programa religioso das “festas”, dedicadas a “S. Gonçalo, padroeiro da vila”, iniciando-se este segundo dia com uma missa solene, pelas 13 horas, e uma procissão a partir das 19 horas, que “percorreu as principais ruas da vila, sempre no meio do maior respeito, repicando os sinos festivamente e estralejando no ar constantes girandolas de foguetes.

“Muitas das janelas do percurso encontravam-se engalanadas com ricas colchas de seda e damasco”.

As “festas” terminaram à noite com iluminações no Largo da República “aonde os extensos relvados se coalhavam de tigelinhas minhotas e o arvoredo ostentava centenas de balões multicores”, com as bandas dos Bombeiros de Torres Vedras e de Infantaria 5 das Caldas da Rainha a tocarem alternadamente.

A encerrar, um “magnifico fogo de artifício fornecido pelo pirotécnico local sr. José de Oliveira Nunes” e “bouquets” coloridos “lançados do alto do Castelo de Torres Vedras”.

Ao longo dos dois dias a vila foi invadida “por muitos milhares de forasteiros vindos de toda a parte” e que, ao alvorecer da madrugada de terça-feira ainda deambulavam pelo Largo da República, antes de apanharem as “varias careiras de camioneta não só para Lisboa, como para outras terras”.

Este foi um dos primeiros casos, ocorridos em Torres Vedras, de uma prática comum ao longo do regime surgido no 28 de Maio, a das inaugurações de vários “melhoramentos locais”, com a presença de “altas individualidades” do regime, uma constante da propaganda política junto das populações da “província”, ao mesmo tempo que servia para demonstrar a fidelidade a esse mesmo regime, por parte das “elites” e autoridades locais.

(1)    – “AS festas em Torres Vedras”, in Gazeta de Torres, 4 de Agosto de 1928. A maior parte as citações deste artigo têm origem nessa reportagem;

(2)    - Ver edições de 4 e 14 de Março de 1929 de “O Jornal de Torres Vedras”;

quarta-feira, 8 de março de 2023

Mulheres Torrienses presas pela PIDE (documentos)

                                                 

O conjunto de documentos aqui revelados mostra as fichas da PIDE de 4 mulheres torrienses, ou ligadas a Torres Vedras, presas pela polícia política entre 1933 e 1974 (antes desta data ainda não havia PIDE, mas já existia policia politica, por isso não existem as fichas entre 1926 e 1932, como aconteceu com a nossa conhecida Maria "Cachucha" da Purificação, presa numa das primeiras revoltas populares contra a ditadura em T. Vedras).

É apenas uma pequena amostra, retirada do Arquivo da Torre do Tombo, que disponibilizou na internet mais de 30 mil fichas de presos políticos.

Uma homenagem às mulheres que, em Torres Vedras, lutaram pela liberdade.





segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Agosto de 1931 - Uma Revolução que terminou em Torres Vedras


O ano de 1931 foi um ano decisivo para a consolidação da Ditadura Militar do 28 de Maio e para o fortalecimento de Salazar na liderança política do novo regime.

Foi também um ano marcado pela agitação política, registando a última grande revolta militar contra a Ditadura liderada pelos republicanos.

1931 ficou assim conhecido como o  “ano de todas as revoltas” (ver FARINHA, Luís, O Reviralho – Revoltas Republicanas contra a Ditadura e o Estado Novo – 1926-1940, Lisboa, ed. Estampa, 1998, em especial o capítulo “IV.1931 – O Ano de Todas as Revoltas”, pp. 127 a 208), com destaque para a “Revolta da Madeira”  (ver REIS, Célia , A Revolta da Madeira e Açores, Lisboa,  Livros Horizonte, 1990) iniciada em 4 de Abril e liderada por vários oposicionistas aí deportados, entre eles o General Sousa Dias, conseguindo ocupar e dominar a ilha durante alguns dias, seguida de vários pronunciamentos militares em várias ilhas do arquipélago dos Açores, entre 7 e 10 de Abril,  e na Guiné em 17 de Abril , falhando uma mesma tentativa em São Tomé em 12 de Abril.

O regime da ditadura militar enviou reforços militares para recuperarem as ilhas, começando por dominar a revolta açoriana entre 17 e 20 de Abril, e desembarcando depois na Madeira em 27 de Abril, conseguindo dominar os revoltosos, após confrontos violentos, em 2 de Maio, rendendo-se os insurrectos da Guiné em 6 de Maio.

Animados pelo impacto desses pronunciamentos da oposição, mas também pela proclamação da República em Espanha em 14 de Abril, a agitação política alargou-se ao continente, com a greve universitária iniciada em 25 de Abril, como protesto pela morte de um estudante, e com a crescente agitação nas ruas de Lisboa e Porto a partir do  1º de Maio, prolongando-se até ao fim do mês, , com confrontos violentos entre os manifestantes, maioritariamente comunistas e anarco-sindicalistas,  e a GNR.

Em 26 de Agosto estalou nova revolta militar, desta vez no Continente, mas que acabou por falhar, em parte pela divisão dos republicanos, entre os exilados na Galiza e os “Budas” de Paris, para além de alguma hesitação dos republicanos do continente, ainda abalados pelo fracasso da revolta da Madeira e anestesiados pela promessa de poderem concorrer a eleições municipais prometidas para finais desse ano.

A revolta iniciou-se pelas 7 da manhã dessa 4ª feira com a ocupação, por parte de grupos de civis e militares, dos quartéis de Metralhadoras nº 1, de Artilharia nº 3 e da Penitenciária, em Lisboa, e os quartéis de sapadores mineiros de Queluz e da Pontinha . A partir desses quartéis saíram vários militares, acompanhados de civis, para tomar posição em vários lugares da capital. A reacção das forças fiéis ao governo permitiu dominar a revolta em Lisboa a partir do final da manhã, acções que se prolongaram pela tarde desse dia. Cercados por tropas fiéis ao governo, aqueles quartéis acabariam por se render ao fim de algumas horas de sangrenta resistência.

Por outro lado, coube ao tenente coronel da aviação Sarmento de Beires, na clandestinidade desde 1928, ocupar e assumir o comando do campo de aviação de Alverca, tendo os militares revoltosos ocupado a estação local de caminho de ferro, revistando todos os comboios que por aí passavam a caminho de Lisboa.

Desse campo de aviação partiram dois aviões que bombardearam as peças de artilharia de Almada, fiéis ao governo, e o Castelo de S. Jorge, onde estavam outras forças governamentais. A falta de pontaria desses bombardeamentos causaria muitas mortes entre os civis, principalmente em Almada e no bairro lisboeta de Alfama.

Devido à ofensiva das tropas governamentais, que bombardearam aquelas instalações de Alverca com uma peça de artilharia de Sacavém, Sarmento de Beires e os revoltosos sob o seu comando retiraram-se a caminho de Lisboa no início da tarde, mas tomando conhecimento de que a revolta já tinha sido dominada em Lisboa, dirigiram-se por Bucelas para Loures, onde chegaram por volta das 11 e 30 da manhã, sendo recebidos pelos seus apoiantes locais, demitindo a câmara e requisitando mantimentos.

Apanhada de surpresa, a população de Loures “sofreu momento de verdadeiro pânico, ao contemplar as manobras militares. Imediatamente foram estabelecidas vedetas em todos os pontos da vila, ao mesmo tempo que era tomada a estação telégrafo-postal, a Associação de Bombeiros Voluntários e a Câmara Municipal e cortadas, exteriormente, as linhas da estação telefónica”. Sarmento de Beires tomou os Paços do Concelho, dando ordem de prisão ao administrador do concelho e a vários funcionários municipais, içando a bandeira nacional na fachada do edifício, onde se reuniram vários populares “trocando-se nesse momento muitos “vivas” á Pátria e á República de mistura com morras á Ditadura”.

Muitos habitantes da vila, pelo contrário, fugiram para lugares vizinhos, temendo um confronto violento entre revoltoso e forças fiéis à ditadura (“O Século”, 28 de Agosto de 1931).

Perante a aproximação de forças da  infantaria e de cavalaria da GNR, fiéis ao governo, os revoltosos retiraram-se daquela localidade por volta das 2 da manhã do dia 27, a caminho de Torres Vedras, com o objectivo de rumarem a Caldas da Rainha.

Acompanhavam Sarmento de Beires cerca de 200 homens (outras fontes jornalísticas falam, ora em 150, ora em 250), transportados em cinco camionetas. (“Novidades” de 28 de Agosto de 1931).

Na madrugada do dia 27 de Agosto, uma 5ª feira, pelas 5 horas da madrugada, deu entrada na vila de Torres Vedras a coluna militar comandada pelo tenente-coronel Sarmento de Beires, que se posicionou com sentinelas nas principais entradas da vila, impedindo a entrada e saída de pessoas e veículos.

Segundo alguns relatos, aquelas tropas eram acompanhadas por civis armados, “estranhos a esta vila” de Torres Vedras (DN, 30 de Agosto de 1931).

Sabe-se, contudo, que os revoltosos contavam com apoio local (para um melhor enquadramento da situação política torriense nesse período leia-se RAMOS, Hélder Ribeiro , A Consolidação do Estado Novo em Torres Vedras – Poder e Oposição – 1926-1949, Ed. Colibri/CMTV, 2019). Num relatório da PVDE sobre a situação política em Torres Vedras, onde se registam aos acontecimento vividos nesta localidade, refere-se que a coluna de Sarmento de Beires “tomou rumo a Torres Vedras devido” ao compromisso de “levantamento revolucionário” nesta localidade e em Caldas da Rainha, assumidos, respectivamente, por Victor Cesário da Fonseca, “Negociante e director do jornal “Gazeta de Torres” e “elemento mais perigoso de Torres Vedras”, e por Maldonado de Freitas, encontrando-se este último na casa de Victor Cesário da Fonseca, em Torres Vedras, quando da chegada da coluna revoltosa a esta localidade.

Sarmento de Beires teria ainda contado com o apoio local de João Caldeira, professor primário, “braço direito do VICTOR CESARIO DA FONSECA” e Galileu da Silva, caixeiro-viajante na linha do Oeste, elemento de ligação com Lisboa e concelhos vizinhos. O mesmo relatório acusa, estranhamente quanto a nós, o Dr. Moura Guedes de ser elemento de ligação com vários “reviralhistas de Oeste”. Contaria ainda com o apoio de outros notáveis civis republicanos nos concelhos vizinhos da Lourinhã e do Bombarral (ANTT/PVDE, Proc. Nº 1483/SR- Sarmento de Beires).

A “coberto de um denso nevoeiro” (O Século, 28 de Agosto de 1931) começaram por tomar o quartel da GNR e a estação de correios e telégrafos.

Sarmento de Beires, “que apesar de ir fardado de tenente-coronel, levava sobre aos ombros uma capa alentejana” (O Século, 28 de Agosto 1931) notificou o comandante do posto da GNR, o então 2º sargento José da Silva Anacleto “que ficava daquele momento em diante sob o seu comando, assim como todo o posto”.

Segundo a versão do Diário de Notícias os rebelde prenderam os 14 soldados da GNR desse posto, que, à sua chegada dormiam na caserna, bem como o referido sargento que estava no seu quarto. “Os prisioneiros quiseram reagir, mas, perante a força numericamente superior, tiveram de desistir do seu intento” (Diário de Notícias, 28 de Agosto de 1931).

A estação “telegrafo-postal” foi ocupada, sem resistência por volta das 6 da manhã, “tendo a telefonista de serviço, Maria de Lourdes Albino, chamado o chefe, sr. Evaristo Silva, o qual, perante a força, foi obrigado a submerter-se” (“O Século”, 29 de Agosto de 1931).

De seguida mandou homens seus ao Hotel Central, situado na Avenida 5 de Outubro, para ordenar ao administrador do concelho, o tenente França Borges, que aí estava hospedado, para se apresentar naquele posto. (“A Revolução – Torres Vedras, assiste na passada quarta feira, ao desfazer da ultima coluna revolucionária, do comando de Sarmento de Beires”, in Jornal de Torres Vedras de 30 de Agosto de 1931, pág.3).


Segundo o relato do jornalista d’”O Século” (28 de Agosto 1931) coube ao sargento-ajudante Machado a responsabilidade de ir buscar o tenente França Borges, eram 10 horas da manhã. Este, contudo, conseguiu fugir, usando como estratagema, quando acompanhava os seus captores, a desculpa de se ter esquecido da sua carteira e relógio no hotel. “Ante a sinceridade das palavras do sr. tenente França Borges, o sargento ajudante Machado autorizou-o a ir sozinho, em procura de aqueles objectos, aproveitando o referido tenente a oportunidade para se pôr a salvo”.

França Borges aproveitou a fuga para se dirigir à estação de caminho-de-ferro “de onde conseguiu telegrafar para Lisboa e Caldas da Rainha, a prevenir do que se passava. Em seguida, afastou-se da vila até a saída dos revoltosos. Foi a sua comunicação telegráfica que serviu de aviso ao regimento de Infantaria 5, que desconhecia, por completo, o que se passava” (O Século, 29 de Agosto de 1931).

Segundo a reportagem do Diário de Notícias (28 de Agosto de 1931) a “população da vila, que só dera pela tropa rebelde quando começava os seus afazeres quotidianos, ficou surpreendida e alarmada com aquele aspecto bélico, tanto mais que nunca tinha presenciado ali qualquer revolta. A calma na população foi-se refazendo por não se ter disparado um único tiro”.

Eram já perto da 8 da noite (?), quando Sarmento de Beire, após conferenciar com um civil,  soube do fracasso da revolução, percebendo que estava isolado.

Por volta das 9 da noite (?) “reuniu os sargentos e comunicou-lhes a derrota, ordenando-lhes que se fossem entregar com os soldados à sua unidade, em Alverca, mas ocultando-lhes a situação. E em camiões lá foram a caminho.

“Libertos os soldados e o sargento do posto da G.N.R., este último imediatamente conseguiu comunicar com Caladas da Rainha, dando conta do sucedido.

“Algum tempo depois voavam sobre Torres Vedras e arredores dois aeroplanos da aviação militar, afim de fazerem observação” (DN, 28/8/1931).

O horário indicado pelo repórter do Diário de Notícia não corresponde com o referido no jornal torriense “Gazeta de Torres” de 30 de Agosto, que coloca o abandono de Sarmento de Beires de Torres Vedras pelas 10 horas da manhã desse dia, e não à noite, parecendo-nos aliás mais credível esta versão.

Seja qual tenha sido o momento, assim que se decidiu retirar da vila, Sarmento de Beires, acompanhado por um oficial, tomou um automóvel a caminho da Aldeia Grande (DN 30/8/ 1931).

Entretanto, acompanhado pelo sargento Anacleto, da GNR, foi a vez de França Borges partir de automóvel em perseguição de Sarmento de Beires (“O Século”, 28 de Agosto 1931).

Existe uma história curiosa, de tradição oral,  passada entre a fuga de França Borges, acima descrita,  e a fuga posterior  de Sarmento de Beires.

Depois de ter avisado o Regimento de Infantaria 5 de Caldas da Rainha e o Governador Civil de Lisboa, através do telegrafo do caminho de ferro, do que se passava em Torres Vedras, após ter escapado à voz de prisão, França Borges foi ajudado por um adversário político, mas que era seu amigo, António Vicente dos Santos, conhecido por “Mafalda”, e levado para o Ramalhal, escondendo-se na casa de José Antunes Martins, o “José Marujo”.

Entretanto, depois de abandonar a vila, num carro de praça, Sarmento de Beires teve a colaboração do mesmo “Mafalda”, que o levou também para o Ramalhal, para a casa do mesmo “José Marujo”.

Assim, durante alguns momentos ou horas, os dois adversários estiveram escondidos na mesma casa, em salas diferentes, sem saberem um do outro ( a história foi contada ao sr. Adão de Carvalho por Maria do Carmo C. da Silva, filha do José Marujo e referidos pelo mesmo Adão de Carvalho, numa crónica da sua autoria publicada no jornal “Badaladas” em 29 de Abril de 1994, “Recordando…Uma “revolução” que morreu em Torres Vedras).

Ao contrário do que se disse na altura, os revoltosos nunca ocuparam o edifício municipal, nem prenderam o Presidente da Câmara, nem, muito menos, se apoderaram do dinheiro do cofre do município, mentiras lançadas pelo “situacionista” jornal “A Voz” na sua edição de  28 de Agosto.

Coube ao próprio França Borges, em reunião da comissão administrativa da Câmara Municipal, realizada no dia 28, desmentir essa calúnia. (O Século 29 de Agosto 1931), o mesmo fazendo, de forma indignada, o jornal torriense “Gazeta de Torres” na sua edição de 30 de Agosto.

Sarmento de Beires foi avistado na noite do dia 27 em Óbidos, na companhia de um outro oficial, onde jantou numa pensão, deslocando-se depois para a zona de Leiria (“O Século” de 29 de Agosto de 1931 e “Novidades”, 30 de Agosto de 1931).

Segundo o acima mencionado relatório da PVDE, Sarmento de Beires ter-se-á refugiado na casa do engenheiro agrónomo Adolfo Bordalo na Lourinhã, para onde foi conduzido por Victor Cesário da Fonseca, tendo este subsidiado o líder revolucionário em fuga durante alguns meses “com mil escudos por mês”, tal como o fizeram um tal Vilhena da Quinta do Calvel, o referido engenheiro Adolfo Bordalo da Lourinhã e o já referido Maldonado de Freitas de Caldas da Rainha.


Sarmento de Beires conseguiu manter-se na clandestinidade durante mais dois anos, sendo localizado em Espanha. Só seria preso em 21 de Novembro de 1933 e deportado para Angra do Heroísmo. Após várias peripécias, transferências para as colónias e fugas, ainda participou na Guerra Civil espanhola ao lado das forças republicanas. Mais tarde passou pelo Brasil e por França, residindo em Paris em 1940, regressando ao Brasil após a ocupação da França pelos nazis. Em 1951 conciliou-se com o regime, regressando a Portugal, sendo reintegrado no posto de major . Faleceu poucos dias depois do 25 de Abril, em 9 de Junho de 1974.(Processo de Sarmento de Beires no arquivo da PIDE do ANTT e FARINHA, Luís, “Beires, José Manuel Sarmento de” Dicionário de História de Potugal, vol 7-suplemento, ed. Figueirinhas. 1999, pág.178).

A derrota do movimento revolucionário de 26 de Agosto de 1931 terminou com a esperança de uma transição da ditadura para um novo regresso à “normalidade” republicana e contribui para a consolidação dos sectores mais radicais da ditadura militar.

Foram efectuadas centenas de prisões entre oposicionistas, aceleraram-se os saneamentos políticos no exército e na função pública, envolvendo mesmo muita gente que nada teve a haver com aquela revolta, reorganizou-se a censura e a polícia política, consolidou-se a recém criada União Nacional e iniciaram-se os trabalhos para a promulgação da Constituição de 1933 que criou o Estado Novo, que seguiu de perto o modelo institucional do fascismo italiano.

Pouco menos de um ano após aqueles acontecimentos, o até então todo poderoso Ministro das Finanças e  líder da facção mais radical dos anteriores governos da ditadura militar, António de Oliveira Salazar, tornou-se Presidente do Conselho de Ministros, cargo do qual tomou posse em 5 de Julho de 1932, só o abandonando por doença súbita em 1968.

 

                                                                                                                                      

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Presos à Liberdade


Um Documentário realizado há 5 anos em Torres Vedras, com entrevistas a quatro antigos presos políticos torrienses (versão integral).

As entrevistas foram conduzidas por Carlos Guardado da Silva e Venerando António  Aspra de Matos, a produção foi da Câmara Municipal de Torres Vedras e a realização de Modelo Studio.

Os antigos presos políticos entrevistado forma Duarte Nuno Pinto, Firmino Rosa Santos, João Martins e Herculano Neto da Silva, alguns, entretanto, já falecidos:

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Há 50 anos: Inauguração do edifício da “Escola Técnica” na Rua Henriques Nogueira.



No dia 20 de Abril de 1970 era oficialmente inaugurado o novo edifício da Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, na rua Henriques Nogueira, pelo presidente da República de então, o almirante Américo Thomaz.

Era o culminar de uma história de décadas do chamado ensino técnico em Torres Vedras.

Aquela escola era herdeira da antiga Escola Comercial António Augusto Cabral, fundada e mantida, desde 1944, pelo Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, a designação oficial da antiga Associação Comercial que se batia por uma escola desse tipo desde 1929.

Em 31 de Julho de 1952 a Escola Comercial António Augusto Cabral, até então uma escola particular, foi oficializada, de acordo com a nova lei em vigor, tornando-se Torres Vedras a primeira localidade do país a possuir uma escola particular oficializada, o que permitia aos seus alunos que realizassem os exames na sua escola (1).

Por essa altura, no início da década de 50, iniciou-se um debate nas páginas do jornal “Badaladas” com o objectivo de se criar um curso industrial que completasse o ensino comercial e correspondesse às novas necessidades económicas da região, chamando-se a atenção para o Decreto-Lei nº 36409 de 11 de Julho de 1947 que previa a criação de uma escola técnica em Torres Vedras (2).

Em 21 de Dezembro de 1954 uma “Comissão de representantes das actividades económicas deste concelho (…) avistou-se com o Presidente da Câmara Municipal” para lhe solicitar “os seus bons ofícios junto do Ministério da Educação para que seja criada a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras” (3).

Pressionada pela opinião pública, a Câmara Municipal iniciou uma série de diligências par conseguir esse objectivo e, em Setembro de 1956, enviava ao Ministério da Educação um bem fundamentado memorando em defesa da criação de uma “escola técnica” em Torres Vedras.

Propunha-se o município subsidiar com 50.000$00 anuais a formação de uma Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, criada a partir da Escola dirigida pelo Grémio do Comércio.

Propunha para essa escola o seguinte “plano de estudos”:
“1º - Ciclo Preparatório;
“2º - Curso Complementar de aprendizagem e electricidade;
“3º - Curso de formação : - de serralheiro; -  Geral do Comércio” (4).

Acedendo ao pedido do município torriense, o Ministério da Educação, através do decreto nº 41258 de 10 de Setembro de 1957, criava a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras, substituindo a Escola Comercial António Augusto Cabral, entretanto encerrada, da qual herdou alunos, professores e respectivos processos.

De imediato se iniciaram as obras de ampliação do edifício municipal situado na Av. 5 de Outubro, onde se localizavam as instalações da “Física” e das “escolas primárias” da vila.

Acrescentado de um andar, aí vieram a ser instaladas, a nascente a Escola Secundária Municipal e a poente a nova “Ecola Técnica”, enquanto as escolas do ensino primário eram instaladas nos novos edifícios a sul daquelas instalações.

No ano lectivo de 1958/1959 iniciaram-se as aulas da Escola Industrial e Comercial nas suas novas instalações com 261 alunos, número que quase duplicou no ano lectivo seguinte.

O rápido crescimento do número de alunos matriculados na “Escola Técnica”, bem como as crescentes necessidades de recursos educativos para desenvolver o projecto desta escola, rapidamente levaram a que se colocasse a questão da urgência em construir um edifício de raiz para o seu funcionamento.

No dia 1 de Fevereiro de 1962 foi apresentado, em sessão camarária, um projecto para as novas instalações, da autoria do professor do ensino técnico Luís Manuel Paulo Ferreira, exposto publicamente no ano seguinte.

O tempo foi passando e aquele projecto foi caindo no esquecimento.

Foi mais uma vez nas páginas do “Badaladas” que o assunto volta a ser recordado, num artigo publicado em 12 de Fevereiro de 1966, assinado pelas iniciais R.M., com destaque de primeira página, e intitulado “Interesses Nossos – A Escola Nova”:

“(…) Lembramos hoje, um dos mais importantes [problemas de interesse regional] e que parece votado ao esquecimento: o da construção de um novo edifício para a Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras.
“(…) Continuando adiada por mais tempo, a construção do novo edifício, colabora-se na mutilação do desenvolvimento profissional, didáctico e educacional, de mais de um milhar de alunos que frequentam actualmente a Escola Industrial e Comercial.
“(…) Sem salas de aula em número suficiente, sem espaço para a montagem de oficinas e laboratórios, sem um parque de jogos para a cultura física orientada, sem salão de festas ou reuniões com encarregados de educação e outros fins, entre os quais o uso de meios audi-visuais no ensino, não pode haver verdadeira Escola.
“(…) A nova Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras é assunto que não pode nem deve continuar apenas no projecto e na miniatura que dela existe. (…) Que se iniciem diligencias para a erguer”.

O assunto voltou a ser abordado nas páginas do semanário torriense em 23 de Abril de 1966, num artigo não assinado e  intitulado “Interesses Nossos – Para quando a nova Escola Técnica de Torres Vedras”, onde se analisava, com dados, a dificuldade de funcionamento nas instalações da Avenida 5 de Outubro.

Em junho desse ano surge uma primeira boa noticia, a doação feita à Câmara, por José Nunes de Chaves “de uma área de terreno a ser ocupado pela futura escola industrial e comercial” (5).

No final desse ano, para reforçar a necessidade de iniciar a construção de um novo edifício para a escola, o jornal “Badaladas” publica um vasto dossier, baseado numa consulta aos alunos, completado com dados sobre o funcionamento da escola, traçando um interessante retracto da realidade social e pedagógica dessa escola no ano lectivo de 1965-1966 (6).  

Finalmente, na sua edição de 4 de Março de 1967 o “Badaladas” anuncia o lançamento de concurso para arrematação das obras de construção do novo edifício da “Escola Técnica”, marcado para “o dia 15 do corrente, na sede da Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário, em Lisboa, cuja base de licitação é de 13 991 571$00”.

O jornal “A Voz” , na sua edição de 20 de Abril de 1967 anuncia o inicio das obras para a construção da nova escola Técnica “dentro de algumas semanas”.

No folheto editado pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações, por ocasião da inauguração oficial da “Escola Industrial e Secundária de Torres Vedras” indica que as obras de “construção civil foram iniciadas em 31/10/1967 tendo ficado concluídas em 30/10/1969”

A empreitada foi entregue à Sociedade de Construções ERG, Lda.

O primeiro ano lectivo nas novas instalações teve início em Novembro de 1969.

Finalmente, no dia 20 de Abril de 1970, foi solenemente inaugurada essa escola, com a presença do então Presidente da República Américo Tomás.


A deslocação de Américo Tomás a Torres Vedras foi a segunda de um chefe de Estado a esta localidade durante o Estado Novo.

Apesar desta ser a primeira visita oficial de Tomaz a Torres Vedras, não era a primeira vez que visitava o concelho, já tendo anteriormente visitado o Lar dos Veteranos Militares de Runa e o Convento do Varatojo (7).

Na sua deslocação a este concelho fez-se acompanhar pelo Ministro das Obras Públicas e Comunicações, Rui Sanches, pelo subsecretário de Estado da Administração escolar, pelo Governador Civil de Lisboa e pelo almirante Henrique Tenreiro, na qualidade de presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, entre muitas outras individualidades.

Todos foram recebidos pelas autoridades locais pelas 15 horas desse dia 20 de Abril, à entrada da localidade da Freixofeira.

A inauguração da nova escola não foi o único motivo dessa visita. O outro foi a inauguração do sistema de abastecimento de água de Torres Vedras e Mafra.

Chagada à vila de Torres, a comitiva presidencial seguiu para os Paços do Concelho, para a sessão solene, antes de se deslocar às novas instalações da escola “Técnica”, inaugurada e visitada pelo presidente e sua comitiva, a partir das 16.30.

Referindo-nos apenas à cerimónia de inauguração da “Escola Técnica”, e seguindo a reportagem publicada no jornal “Badaladas” de (ironia do destino) 25 de Abril de 1970, a recepção de Américo Tomaz e da sua comitiva foi feita à entrada da escola, sendo recebido pelo director da escola, o Dr. Francisco  Quaresma de Almeida, “rodeado do corpo docente e dicente”, sendo descerrada uma “lápide alusiva ao acto”.

Seguiu-se uma visita “às suas principais dependências”, tendo o Presidente da República “entrado em diversas salas de aulas e oficinas, em funcionamento, onde travou animado diálogo com professores e alunos”.

Visitou também no último piso “o interessantíssimo museu, com curiosas peças naturais e humanas, desde a pré-história até ao presente”.

A visita terminou pelas 19.15 com a deslocação da comitiva à Serra da Vila, para a inauguração das instalações de abastecimento de água ao concelho.

(1)   – in Badaladas, 15/08/1952;
(2)   – “Escola Industrial e Comercial de Torres Vedras – Quando a teremos?”, in Badaladas, 15/12/1954;
(3)   – “Representantes do Comércio, da Indústria e da Agricultura pediram (…) a criação duma ESCOLA DE ENSINO TÉCNICO PROFISSIONAL nesta vila” in Badaladas, 1/1/1955;
(4)   - Relatório de Gerência da Câmara no ano de 1956, CMTV;
(5)   - Acta da reunião camarária de 28-6-1966, citada pelo Badaladas, 16/7/1966;
(6)   - “O Valor Social da Escola Técnica”, in Badaladas,  19/11/1966.
(7)    - Sobre essa visita, baseámo-nos das edições do jornal “Badaladas” de 18 e 25 de Abril de 1970.

ANEXO:
Reportagem fotográfica da visita de Américo Tomás a Torres Vedras em 20 de Abril de 1970 (Fonte: Biblioteca Municipal de Torres Vedras, a partir de fotografias tiradas e tratadas pelo autor aos originais): 



























sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

“Em Sentido Contrário – Venerando Ferreira de Matos (1926-1975) – um oposicionista na província”



Já está à venda em Torres Vedras, na Papelaria União, a biografia de Venerando Ferreira de Matos, figura activa no meio cultural, associativo e jornalístico desta cidade, durante os anos do pós-guerra até ao seu falecimento em 1975.

A biografia inclui uma vasta documentação, acompanhando os seu percurso de vida que atravessou todo o Estado Novo, iniciado em Coimbra e que incluiu o cumprimento de dois anos de prisão em Peniche no início da década de 1950.

O livro insere-se numa colecção editada pela Associação Ephemera, uma Associação que visa dinamizar, organizar e divulgar o vasto espólio do arquivo privado de José Pacheco Pereira.

Dessa coleção já foram publicados dois outros títulos, “em redor de uma palavra grega”, da autoria de Maria Mafalda Viana, sobre a origem da palavra “Ephemera”, e “A Esquerda Festiva do Técnico nos anos 60 – um testemunho” por Henrique Garcia Pereira, sobre o agitado momento político vivido pelos estudantes do Instituto Superior Técnico nos anos de 1960.



“EM Sentido Contrário” é  terceiro título dessa colecção, que vai ser oficialmente lançado no próximo dia 22 de Janeiro no Museu do Forte de Peniche, em hora ainda a designar, apresentado pelo Dr. Fernando Pereira Marques e pelo Dr. José Pacheco pereira, e em Torres Vedras, em 15 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal Leonel Trindade, pelas 18 horas.

Estão previstas ainda duas sessões de apresentação no Museu do Aljube, em Lisboa, em data a designar, e em Coimbra, em lugar e data a designar.

Como apresentação da biografia de Venerando Ferreira de Matos, aqui deixamos o prefácio desse livro, da autoria do Dr. José Pacheco Pereira:

“Em Sentido Contrário, é o primeiro dos Cadernos do Ephemera dedicado ao que chamamos “os oposicionistas na província”, aqueles que são mais facilmente esquecidos porque não viveram nos centros do poder, mas que deram dimensão nacional à resistência ao Estado Novo.

“Venerando Aspra de Matos, autor deste Caderno, nosso incansável amigo e associado fundador, escreve sobre Venerando Ferreira de Matos, seu Pai um desses muitos homens que, quase desconhecidos, por todo o país, dedicaram as suas vidas a fazer oposição ao regime salazarista. Sempre com um só objectivo, derrubar o regime, desenvolviam intensa actividade, nos jornais locais ou nacionais, nos seus empregos, nos cafés, nas associações, nos grupos de teatro, nas bibliotecas locais, a maioria das vezes com um informador da PIDE à distância de um olhar e com o risco permanente de prisão. Venerando Ferreira Matos pagou esse preço, ainda muito jovem, estando vários anos preso em Peniche.

“Da cadeia, escrevia à sua noiva cartas que nos descrevem a vida na prisão, as suas relações com os demais presos e com o Partido Comunista, a sua atenção aos sons do exterior, o cuidado com a sua permanente formação e informação, para que o tempo da prisão não fosse perdido. Algumas dessas cartas são aqui transcritas, transportando-nos de imediato para dentro do Forte prisão e para o espírito dos que lá se encontravam, sendo uma fonte até agora inédita do quotidiano numa das prisões mais importantes do regime salazarista.

“Libertado, continuou a sua luta cívica em Torres Vedras e naquela que foi uma constante da sua vida, a escrita em jornais. Podiam ser artigos sobre arte, ciência, desporto, ou com preocupações ambientais, numa luta muitas vezes subterrânea, contribuindo para a formação de um magma que algum dia havia de ver a luz do dia.  Venerando Ferreira de Matos ainda pode ver o dia “lustral” do 25 de Abril de 1974.

“Com estas biografias, pretendemos divulgar espólios do Arquivo Ephemera que podem servir ao trabalho dos investigadores e deixar memória útil a todos.

José Pacheco Pereira.”


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Da primeira Escola Secundária de Torres Vedras, inaugurada em 1890, à actual Escola Secundária, hoje Madeira Torres, inaugurada em 3 de Novembro de 1919.



1 - Breve história da primeira Escola do Ensino Secundário em Torres Vedras.

Local onde funcionou a primeira Escola Secundária de T.Vedras (1890 a 1903)

Foi em 1880 que se publicou uma reforma de ensino, da autoria de José Luciano de Castro, na qual era referida a criação de “escolas municipais secundárias”. Até então o ensino secundário era ministrado apenas nas capitais de distrito.

A partir de então passaram a existir três tipos de escolas desse tipo, “liceus nacionais centrais”, “liceus nacionais” e “escolas municipais secundárias”.

Os “Liceus nacionais centrais” estavam sediados em Lisboa, Porto e Coimbra e eram os únicos onde se leccionava  o curso complementar de seis anos ( quatro de curso geral, com oito disciplinas, duas por ano, e dois anos de curso complementar, com cinco disciplinas anuais). Os “liceus nacionais” estavam sedeados nas restantes capitais de distrito. Apenas leccionando  os quatro anos do curso geral. As “escolas municipais secundárias” leccionavam apenas os dois primeiros anos do Curso Geral (1).

Na sequência dessa reforma, a Câmara Municipal de Torres Vedras pediu autorização para criara um escola de ensino secundário, requerimento concedido por portaria de 6 de Fevereiro de 1890, nos seguintes termos:

“Attendendo ao que me representou a Câmara Municipal da villa de Torres Vedras, pedindo a creação de uma escola municipal secundária na sede do conselho, na qual se ensinem as línguas portuguesa, franceza e inglesa, geographia e desenho, regidas por dois professores, cada um como ordenado annual de 400$000 réis.
“Considerando que a câmara requerente se obriga a contribuir com 600$000 réis para os ordenados dos professores, além de 300$000 réis para acquisição de mobília e objectos de ensino, 50$000 réis para gratificação do professor que exercer as funções de director, e mais 90$000 réis para vencimento do porteiro da escola, perfazendo a quantia de 1.040$000 réis em cada ano.
“Considerando que a mesma Câmara offerece, para estabelecimento e exercício da mesma escola um edifício adequado ao fim que se destina e a mobília e utensílios necessários;
“(…) Hei por bem decretar o seguinte:
“1ª É creada na villa de Torres Vedras uma escola municipal secundária, nos termos requeridos pela câmara municipal da mesma villa.
“2ª O provimento dos lugares de professor será feito pelo Governo.
“3º As alunos que pretendem frequentar a escola pagarão, em cada anno, de propina de matricula e exame, a quantia de 2$500 réis.
“O presidente do conselho de ministros, ministro e secretário de estado de negócios do reino, assim o tenha entendido e faça executar. Paço de Belém, em 6 de Fevereiro de 1890 – Rei – António de Serpa Pimentel” (2).

Criada a escola, os preparativos para o lançamento do primeiro ano lectivo levaram ainda vários meses, quer pela necessidade de contactar professores, quer para preparar as instalações.

A escola ficou instalada nos paços do concelho “na sala onde estava o tribunal, no andar nobre dos paços do concelho, passando as sessões judiciaes a celebrar-se no seu novo aposento do edifício da Graça (…)” (3).

Por portaria de 30 de Junho de 1890 eram finalmente nomeados os dois professores para leccionar na escola: João José Esteves, nomeado director e professor nas disciplinas de língua portuguesa, geografia e desenho, e Jerónymo Martins Pamplona Corte Real, professor de língua francesa e inglesa.

As matriculas estiveram abertas aos jovens torrienses entre 20 de Setembro e 4 de Outubro de 1890.

Ainda segundo os dados do jornal “A Semana”, os alunos matriculados distribuíram-se do seguinte modo:

Português – 14 alunos;
Francês – 13 alunos;
Desenho – 10 alunos;
Geografia – 1 aluno;
Inglês – nenhum.

A sessão de abertura decorreu em 9 de Outubro de 1890 e as aulas começaram no dia seguinte.

Em finais de Janeiro de 1891 a Câmara Municipal aprovou por unanimidade um pedido ao governo para transformar a escola secundária em liceu. Contudo, o pedido não foi atendido, pois, quando do seu encerramento em 1903, continuavam a leccionar apenas dois professores, o doutor Silvino Simões, sacerdote formado em letras que tinha substituído o primeiro director, e o professor Pamplona Corte Real que se mantinha no seu posto desde a fundação da escola.

À data do encerramento desta primeira tentativa de estabelecer uma Escola Secundária em Torres Vedras, a escola era frequentada pelos seguintes alunos: Carlos Manuel das Neves Barateiro, Francisco Teixeira, Henrique Maria Pedreira Vilela, José Maria Fialho de Carvalho, Leandro Teófilo da Cunha, Afonso Avelino Pedreira Vilela, Alberto Gomes Pedreira, António Casimiro Roque, Asdrúbal José Rodrigues da Silva, César António Maximino de Sant’Ana, António do Patrocínio Martins, João Rodrigues, Joaquim Ferreira da Encarnação, Joaquim Augusto Santos, Virgílio da Conceição Costa, António Manuel Freira Nunes, Absinto Ramires Ferreira Nobre, António dos Santos Vaquinhas, Francisco José Cláudio júnior, Francisco Maria Fialho de Carvalho, Joaquim José Paiva, José Augusto Guimarães Pinheiro, José Augusto de Almeida Trigueiros, José Henriques dos Santos, Joaquim António Rodrigues, Raúl Avelino Cardoso, Sabino Galrão, Victor Cesário da Fonseca, José Manuel da Fonseca, Guilherme Elias das Chagas, José Joaquim Pinto Monteiro, José Tito dos Santos (4).

Quais as razões que levaram os vereadores da câmara de Torres Vedras a pedir, em 1903, a extinção desta primeira escola secundária do concelho? A mesma pergunta foi feita pelo professor José Carvalho Mesquita, numa palestra proferida na sessão solene comemorativa da abertura das aulas da escola comercial António Augusto Cabral em 13 de Novembro de 1944:

“Alegava-se que a escola tinha fraca frequência. Não era bastante o argumento. O que a câmara devia fazer era procurar aumentar o número dos seus alunos. Sempre o mesmo critério estreito da pretensa economia. É preciso atender, sempre, a que a seara do ensino é, de todas, a mais ingrata. Atira-se a semente à terra e só anos volvidos, consumidas as energias dos semeadores é que a semente germina e acaba por frutificar” (5).

Mais incisiva foi a explicação dada por Victor Cesário da Fonseca, uma das vítimas daquela polémica decisão. Para ele, tal atitude ficou a dever-se à “influência Vesga e retrograda dos políticos de então”, e recordava mesmo “um diálogo conversado entre dois “luminares” torreenses que, na vida política da terra, desempenhavam então lugares importantes (um era o presidente da câmara, outro o chefe político progressista).

“Conversavam os dois à porta da Farmácia Cézar Simões, e este diálogo foi ouvido por quem no-lo contou. Dizia um  : “NADA, NADA! É PRECISO ACABAR COM A ESCOLA ( a que fecharam em 1903) SE NÃO ELES DAQUI A POUCO SABEM MAIS DO QUE NÓS” . A que o outro respondeu: “E NÓS PARA GANHAR ALGUM VINTÉM NÃO PRECISAMOS DA ESCOLA”. Pudera, eram burros, egoístas e ignorantes (…)” (6).

E foi assim a curta história da primeira escola secundária de Torres Vedras.

Apesar de todas as contrariedade desses primeiros tempos, a semente ficou e, após o advento da República, voltou-se a relançar o ensino secundário no concelho, inaugurando-se em definitivo uma escola municipal secundária em 1919, há cem anos.

Esta foi oficialmente inaugurada em 3 de Novembro de 1919, funcionando na Travessa da Olaria, da qual é herdeira a actual Escola Secundária Madeira Torres.

Mas esta é outra história que ainda está por contar.

Deixamos aqui alguns apontamentos para a construção desta história:

2 - A segunda Fundação da Escola Secundária Municipal – Breves apontamentos.
(ao fundo à esquerda, edifício onde funcionou, entre 1921 e 1984,  a 2ª Escola Secundária de T.Vedras, inaugurada em 1919)


Em 1918 Victor Cesário da Fonseca, que tinha frequentado a escola encerrada em 1903, republicano activo, e que sempre responsabilizou os monárquicos locais pela decisão daquele encerramento, iniciou uma campanha, nas páginas do jornal “Ecos de Torres” em defesa de se retomar o funcionamento de uma Escola Secundária.

Em sessão camarária  de Abril de 1919 o vereador José Anjos da Fonseca  propôs o lançamento de um imposto de 5% sobre as contribuições pagas pelas freguesias do concelho, proposta aprovada apenas pela diferença de um voto (7) , constituindo-se uma comissão instaladora que levou o projecto a bom termo.

Dessa comissão fizeram parte Afonso Pedreira Vilela, João Fernandes Caldeira, Victor Cesário da Fonseca, Joaquim Rodrigues Cardoso e António Germano Marques de Carvalho.

A nova Escola Secundária foi inaugurada em 3 de Novembro de 1919, provisoriamente num edifico da Travessa da Olaria, mudando-se em definitivo para o edifício localizado na Avenida 5 de Outubro, onde funcionam actualmente os serviços camarários, em 1921, edifício que então tinha apenas um andar.

Foi nomeado como seu primeiro director o professor Augusto do Nascimento Gonçalves, até então director do Instituto Politécnico de Torres Vedras.

Até 1923 os alunos não pagavam propinas.

No primeiro ano lectivo, o de 1919/1920, inscreveram-se 56 alunos, 26 no 1º ano, 12 no 2º ano, 6 no terceiro, 4 no 4º ano e 8 no 5º ano, entre eles algumas alunas, 15 no 1º ano, 2 no 3º ano e uma no 5º ano.

Entre os inscritos encontramos nomes que vieram a ser figuras proeminentes na vida cultural, social, económica e política de Torres Vedras : Alberto Vieira Jerónimo ou Galileu Silva, inscritos no 1º ano; Amílcar Guerreiro, Hélder dos Santos Torres, Inácio do Nascimento Clemente, José Hipólito e Manuel Duarte Capote, no 2º ano ou Leonel Trindade no 5º ano (9).

Em 1970, por ocasião do cinquentenário, e após intensa campanha iniciada no ano anterior nas páginas do jornal “Badaladas”, a Escola Secundária, tornou-se secção do Liceu Nacional D. Pedro V, deixando de ser o município a suportar financeiramente essa escola, o que permitiu uma redução das propinas pagas pelos alunos.

Contava nessa data com 19 professores e cerca de 400 alunos.

Em 12 de Outubro de 1971 o Conselho de Ministros aprovou um decreto que criou 21 liceus nacionais, entre os quais o de Torres Vedras, passando a escola secundária a denominar-se desde 1972 Liceu Nacional de Torres Vedras, abrindo uma secção na Lourinhã (8).

 Foi assim, no início da década de 70 do século passado, que  o “liceu” deixou de ser a escola elitista que tinha sido, para se “democratizar” e abrir à população que até aí tinha como única saída para os seus filhos o ensino técnico ou comercial, muito também devido à chamada reforma Veiga Simão, situação que levou a um grande aumento do número de alunos a frequentá-la.

No ano lectivo de 1971/1972 era frequentada por cerca de 54º alunos. No ano lectivo de 1973/1974 já a frequentavam mais de 800 alunos, ultrapassando o número de mil alunos nos anos seguintes.

Depois do 25 de Abril de 1974, passou a designar-se Escola Secundária nº2 e , em 2 de Abril de 1987, passou a designar-se Escola Secundária Madeira Torres, três anos depois de ter mudado para novas instalações, aquelas onde ainda hoje funciona,  a sul do Hospital.

(NOTA: A primeira parte deste texto teve origem num conjunto de trabalhos da minha autoria, editados nas páginas do  Badaladas em 1990, com o objectivo de historiar a origem da Escola Secundária Henriques Nogueira. Neste caso baseá-mo-nos no texto “O Nascimento do Ensino Secundário em Torres Vedras”, publicado por nós neste semanário em 30 de Março de 1990. Em 1997 foi publicado um estudo mais elaborado, melhor documentado e mais completo da autoria  da Drª Cecília Travanca, nas páginas do nº 6 da revista “Torres Cultural” (pp.48 a 55), intitulado “Primórdios do Ensino Secundário em Torres Vedras”).

(1)    – CARVALHO, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986;
(2)    – A Semana, nº 155, 13 de Fevereiro de 1890;
(3)    – A Semana, nº 164, 17 de Abril de 1890;
(4)     [CUNHA, Dr. João Carlos],“Cinquentenário da Escola Secundária Municipal – Recordar é viver”, in Badaladas nº 706 de 5 de Julho de 1969;
(5)    – MESQUITA, José Carvalho, História do Ensino Secundário em Torres Vedras, 1969;
(6)    – FONSECA, Victor Cesário da . Retalhos Para a História de Torres Vedras, ed. Associação da Defesa do Património de Torres Vedras, 1979;
(7)    – PEREIRA, Dr. Paulino, “Porque se espera para planear a comemoração do cinquentenário da Escola Secundária ?”, in Badaladas, de 26 de Abril de 1969;
(8)    – in “Badaladas” de 16 de Outubro de 1971;
(9)    – Livros de Matriculas da Escola Secundária existentes no Arquivo Municipal de Torres Vedras.