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terça-feira, 26 de setembro de 2023

No Bicentenário do Nascimento de José Félix Henriques Nogueira

(Henriques Nogueira in Galeria Republicana-1882)

Passando este ano o bicentenário do nascimento de José Félix Henriques Nogueira, não podíamos deixar de invocar, nesta coluna, essa efeméride (1).

Nasceu na Bulegueira, aldeia da freguesia de Dois Portos, então pertencente ao julgado/concelho da Ribaldeira, em 15 de Janeiro de 1823.

Tendo ficado órfão de pai aos 7 anos,foi viver para Lisboa, na casa de um tio, onde começou a frequentar a escola secundária em 1835.

O seu primeiro acto político teve lugar aos 17 anos, em 1840, assinando um protesto contra a extinção do concelho da Ribaldeira (seria extinto em 1855).

Publicou o seu primeiro artigo em 1844 na revista Panorama, dirigida por Alexandre Herculano, uma evocação da Ericeira.

Nesse mesmo ano, na edição de 9 de Março dessa mesma revista, publica-se uma gravura da Ermida de Nª Srª do Socorro, da autoria de Henriques Nogueira, cumprindo a “promessa de outros desenhos seus, que estamparemos neste jornal”. Revela-se assim uma outra faceta de Henriques Nogueira, menos conhecida, a de desenhador.

O ano de 1851 foi crucial na sua biografia, editando nessa altura a sua primeira obra de fôlego, “Estudos Sobre a Reforma em Portugal”, obra em 2 volumes (o 2º Volume saiu em 1855),  iniciando uma actividade política mais consistente, editando uma “carta ao Centro Eleitoral Operário”, datada da Póvoa de Penafirme, onde incitou os operários a apresentarem uma candidatura própria às eleições para deputado, e candidatando-se, nesse mesmo ano, a deputado pelo Círculo de Alenquer, candidatura que repetiu no ano seguinte, desta vez pelo Círculo de Torres Vedras, mas sem êxito.

Em 1853, apenas com 30 anos, viajou para a Inglaterra, passando também pela Bélgica. Alemanha, França e Espanha. Em 1857 escreveu as suas recordações dessa viajem, embora referindo-se apenas à sua estadia no território britânico.

No jornal “O Progresso” começou a publicar, em 1855, um conjunto de crónicas intituladas “Estudos Políticos”, que vão dar origem à sua segunda obra de fôlego, “O Município do Século XIX”, obra editada em 1856.

No auge da sua actividade intelectual, morreu em Lisboa com uma doença do foro pulmonar, em 23 de Janeiro de 1858, apenas com 35 anos.

Henriques Nogueira está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, sepultura identificada com o seu busto, da autoria de Manuel Bordalo Pinheiro, pai de Bordalo e Columbano.

As suas obras foram pioneiras em muitas áreas do pensamento político e social, expressas em muitos artigos dispersos e, principalmente (2).

Nos “Estudos…”, no capítulo dedicado ao “Governo”, note-se a actualidade do que escreveu: “ Quando será que os destinos humanos se regularão pela força do direito, da justiça e da sabedoria, e não pelo abominável direito da força, do despotismo e da ignorância? Quando será que os graves negócios e pendências entre as nações se decidirão pelos princípios da equidade, sem o recurso bárbaro e estúpido da guerra?” (3).

Nessa obra defende muitas ideias que, se para altura eram inovadoras, hoje, sendo aceites, nem sempre são praticadas por esse mundo fora, como a defesa do voto livre e universal, do reforço do poder da Assembleia Legislativa, da valorização do trabalho e do direito ao trabalho através de um salário justo, reflectindo também sobre o trabalho feminino.

A defesa do mutualismo, da educação, da liberdade de imprensa, do reforço do poder municipal, são outros dos tópicos da sua reflexão. As preocupações com o papel da educação é, aliás, transversal a toda a sua obra (4).

Defensor do Iberismo, partindo do modelo federal da Suiça e dos Estados Unidos, revela-se um percursor, quase 10º anos antes, da idéia que esteve na base da construção da União Europeia e até da ONU, ideia que ele defende, com maior enfâse, em artigos publicados no Jornal “O Progresso”, em 1855, com os seguintes argumentos: “É tempo (…) que os povos se emancipem destes governos anacrónicos [baseados em fronteiras nacionais] que, pela compressão, pelo isolamento e pela miséria, obstam ao seu natural progresso. Um dos meios mais profícuos que com este santo fim têm sido lembrados é sem dúvida a formação de grandes nacionalidades que possam resistir com vantagem contra os estrangeiros que pretendam dominá-las. Estas nacionalidades serão depois outros tantos grupos de uma só família – o género humano. O que até hoje se decide pelo arbítrio de três ou quatro nações poderosas, será então resolvida num congresso geral, em que todos os povos terão representantes” (5). O que não é esta última frase, senão a defesa daquilo que se criou depois da 2ª Guerra, a ONU?

A outra sua obra fundamental, “O Município do Século XIX” é um esboço histórico pioneiro sobre a o municipalismo português, muito no seguimento dos estudos do seu amigo Alexandre Herculano.

Defendendo nessa obra a descentralização do poder, definiu nessa obra algumas das principais funções dessa instituição, que se devia basear em eleições democráticas, dando a cada freguesia o poder de eleger um vereador.

Entre essas funções, destaque  para a organização em cada município de um arquivo, de uma biblioteca, de um museu, de uma imprensa municipal, de uma escola municipal, de um teatro municipal, de um ginásio  e de associações municipais que representassem as várias áreas económicas ( agricultura, industria, comércio e as actividades artístico-literárias). Muitas dessas ideias só foram concretizadas no século XX, alguns mais de cem anos depois desse escrito.

Ficam aqui apenas alguns tópicos para quem queira continuara a explorar e conhecer a valiosa obra do autor torriense.

(1)    – Este texto baseou-se numa nossa comunicação apresentada em Janeiro deste ano, na Escola Secundária Henriques Nogueira. Sendo o nosso texto uma breve síntese, destacamos, entretanto, a publicação, nas páginas deste jornal, de três outros textos sobre Henriques Nogueira, abordando outras perspectivas, e com outra profundidade, da obra desse pensador: MATOS, Álvaro Costa de, “Henriques Nogueira: jornalista e publicista”, in Badaladas de 26 de Maio de 2023; CATARINO, Manuela, “Henriques Nogueira: defensor do Iberismo”, in Badaladas de 2 de Junho de 2023; DUARTE, Joaquim Moedas, “Henriques Nogueira : precursor do socialismo e do republicanismo”, in Badaladas de 16 de Junho de 2023 ;

(2)    – Toda a obra de Henriques Nogueira está reunida nas “Obras Completas” em 3 volumes, editadas em 1970, 1979 e 1980, pela INCM, sob orientação de António Carlos Leal da Silva, autor de um anexo com a cronologia da biografia do autor, editado em 1982. Entre muitos outros estudos sobre Henriques Nogueira, detacamos também a obra de Vitor Neto, As Ideias Políticas e Socias  de José Félix Henriques Nogueira, nº 6 da colecção H, editado pela Colibri e pela CMTV em 2005;

(3)    –“Estudos..” in Leal da Silva, Tomo I das “Obras Completas”, pág.29;

(4)    – Veja-se o nosso estudo sobre o papel da Educação na obra de Henriques Nogueira publicado na obra colectiva José Félix Henriques Nogueira, editada conjuntamente pela Escola Secundária Henriques Nogueira e pela Câmara Municipal de T. Vedras em 2008;

(5)    – in Leal da Silva, Tomo III das “Obras Completas”, pág.  83;

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Recordar Henriques Nogueira:

Em baixo recordamos uma das facetas de Henriques Nogueira, a sua preocupação com a educação e o modelo educativo proposto ao longo dos seus vários estudos, num artigo por nós escrito e já divulgado há uns anos atrás.

Podem ler mais sobre José Félix Henriques Nogueira, Num estudo sobre a conjuntura histórica em que viveu, intitulado "Henriques Nogueira e a Conjuntura Portuguesa - 1846-1851", da autoria de José Esteves Pereira, publicado na Revista de História das Idéias me 1977, AQUI e uma breve, mas bem elaborada biografia AQUI.

Recomendamos ainda a leitura da obra de Vitor Neto "AS Idéias Políticas e Sociais de José Félix Henriques Nogueira", editada em 1999 conjuntamente pela Câmara de Torres Vedras e pela editora Colibri.

Podem ainda ser consultadas AQUI as suas obras digitalizadas pela Biblioteca Nacional.

Henriques Nogueira e a Educação

Introdução

Com este ensaio pretende-se dar a conhecer a importância dada por Henriques Nogueira à Educação e as propostas que ele idealizou nessa área.

Baseámo-nos para isso nas opiniões que, sobre esse tema, ele exprimiu em várias obras, nomeadamente no segundo volume de “Estudos sobre a reforma em Portugal”, editado em 1855, (quatro anos depois da saída do primeiro volume), n’ “O Município do século XIX”, editado em 1856 e ainda em vários textos dispersos publicados ao longo da década de 50 do século XIX em jornais como “A Revolução de Setembro”, “O Scalabitano” ou no “Jornal da Associação Industrial Portuense”.

Todos esses documentos encontram-se publicados nas “obras completas” (OC) editadas sob a orientação de António Carlos Leal da Silva.

Neste texto procurámos “deixar Henriques Nogueira falar”, organizando as suas opiniões dispersas sobre este tema como se de um discurso directo se tratasse, limitando-nos nós a dar-lhe alguma lógica estrutural.

A importância da educação

Para Henriques Nogueira, só uma “política democrática”, “revolucionária” e “da liberdade” podia  fazer com que o povo beneficiasse das vantagens do liberalismo. Mas “esta política não virá, enquanto o povo a não quiser. Não a quererá, enquanto a não conhecer. Não a conhecerá, enquanto, ao menos, não souber ler. Daqui deriva a suprema necessidade de o instruir”.[1]

Apontava três causas principais para a falta de instrução entre os seus contemporâneos: em primeiro lugar e à maior parte da população, “a falta de mestres – ao pé da porta”; em segundo lugar , a “ outros a cobiça e a rudeza dos pais e amos”; em terceiro lugar, “a dificuldade e aridez do ensino” que a muitos “desgostou desde as primeiras lições”.[2]

Associando a falta de instrução à ignorância, indicava as principais consequências funestas desta :
Provocada pelo analfabetismo, a ignorância levava o povo a “desprezar os seus melhores e mais importantes direitos políticos”, mantinha “o povo num estado mui vizinho da barbaridade” e, “com ela, não” podia “haver progresso nas artes, nem na administração, nem nos costumes”.[3]

 Era para combater a ignorância que a educação, “o segundo baptismo do povo”, representava várias vantagens par o “homem de trabalho”: “Umas vezes lhe ensina meios de depender menos suor e menos tempo e colher maior proveito em sua arte.

“Outras lhe aconselha receitas para os seus alimentos, ou remédios para as suas enfermidades.

“Muitas o instrui nos seus direitos e deveres para consigo, a sua família, e a sociedade.

“Não raras o consola no meio das privações ou injustiças de que é vitima pela esperança de tempos melhores.

“Bastantes lhe proporciona o poder de educar seus filhos nos sentimentos generosos e honrados, que são os brasões da humanidade”.[4]

 Competia à família e à sociedade a responsabilidade na educação dos jovens. “Natural e justa”, a autoridade dos pais para com os filhos não se podia considerar “absoluta e independente”. A sociedade tinha “um direito inquestionável a velar pela boa educação de todos os seus membros e principalmente dos que” estavam “em tenra idade: porque dela depende a felicidade de cada indivíduo e a harmonia e prosperidade do corpo social”.

Daí derivava o dever que tinham “todos os chefes de família, de mandarem às escolas públicas, durante um certo período, os seus filhos ou subordinados”.[5]

Em defesa de uma “Educação Popular”.

Henriques Nogueira assentava o seu projecto educativo numa “educação popular”, que era para ele a melhor maneira de combater a ignorância:

O “homem ignorante (...) torna-se, quase sempre, instrumento brutal de violência e tiranias”.

Considerava que “a política obscurantista (...) do nosso e dos velhos tempos” tinha “deixado jazer e definhar na mais completa ignorância milhões e milhões de homens, entre os quais se perderam e se perdem ainda muitos que, aproveitados, seriam luminares de ciência e de génio” e, por isso, defendia uma “educação popular”. O trabalho era “mais fecundo sendo o operário instruído” e a moralidade crescia na “razão do desenvolvimento intelectual”, daí “a conveniência de se dar a todos, e em toda a parte, gratuitamente, comodamente, agradavelmente, a instrução necessária aos usos imediatos da vida”.[6] 

A Estrutura da “Educação Popular”

Na estrutura educativa proposta  por Henriques Nogueira (ver Quadro 1 [em anexo])  a “educação popular” assentava na “instrução primária” (que englobava as “escolas locais”, as “escolas de adultos” e as “escolas paroquiais”) e nas “escolas industriais”.

As “Escolas  Locais

Destinavam-se estas escolas a acolher, ensinar, moralizar, corrigir e sustentar, “ durante o dia, as crianças dos dois sexos”[7] , dos 5 aos 10 anos.

Deviam localizar-se estas escolas em “cada lugar nos campos” e “em cada rua ou grupo de ruas nas cidades ou vilas”.[8]

Estas escolas eram orientadas por “mestras, mães de família” porque tinham a “docilidade natural para lidarem com as crianças, aptidão para ensinarem as meninas nos lavores do seu sexo, e sobretudo possibilidade de viverem com uma retribuição mais diminuta”.[9]

Referindo-se a estas escolas, tanto n’os “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, como n’ ”O Município no Século XIX”, defendia três disciplinas para este nível de ensino, de estrutura ligeiramente diferente, “leitura”, “escrita” e “numeração” na primeira daquelas obras, “ler, escrever e contar as 4 operações”, “doutrina cristã e civilidade” e “coser e cozinhar” na segunda.
Defendia que, para além do trabalho intelectual, era útil reunir outros “puramente físicos”, tais como: “recreações ginásticas” e “pequenos trabalhos rústicos e oficinais”, pois não bastava ensinar às crianças “os rudimentos das letras e do cálculo”. Também era importante dar-lhes “desenvolvimento, criação e vigor aos órgãos  físicos, de as habituar às fadigas do trabalho, e de lhes insinuar os hábitos e cuidados de asseio, de precaução e de higiene”.[10]

O método usado era o de estudos “simplesmente intuitivos, de objectos da natureza e da arte, mostrados em galerias coloridas e pequenos trabalhos rurais e artísticos”.[11]

A responsabilidade pela manutenção destas escolas era do município.[12]

Junto de cada “Escola Local” funcionava um “Asilo Infantil” onde se “agasalhavam”, “durante o dia, as crianças de peito, e as que não” chegavam “a 5 anos”, sendo “inspeccionado” pela mesma mestra que regia a escola local.[13]

As “Escolas de Adultos”

 Em todas as povoações deviam funcionar “escolas de adultos” onde “os homens de trabalho” que desejassem “aprender a ler, escrever e contar” iam “à noite receber lições gratuitas de qualquer pessoa zelosa de bem público, que dessa tarefa se “ quisesse “ encarregar”.[14] Os cursos eram ministrados durante quatro ou cinco meses, durante o inverno, convidando Henriques Nogueira os trabalhadores a tirar “algumas horas ao sono ou à taberna”, aplicando-as ao estudo, pois o futuro lhes mostraria “a vantagem desta substituição”. As vantagens residiam no “indizível prazer de pegar num livro, ou duma carta e decifrar o que neles está escrito, e não só para sua utilidade e às vezes salvação extrema”.[15]

Em complemento destas escolas funcionariam “gabinetes de leitura”, pequenas “bibliotecas populares”.

Nelas, aqueles que “soubessem ler”, podiam “nas compridas noites de Inverno dar pasto à sua curiosidade”.[16]

Deve-se, aliás, a Henriques Nogueira a primeira referência em Portugal à criação de “Bibliotecas Populares” que têm hoje a sua correspondência na  Rede Nacional de Leitura Pública.

As “Escolas Paroquiais”

As “escolas paroquiais” ocupavam o lugar mais importante do “ensino popular” idealizado por Henriques Nogueira, nomeadamente no capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos sobre a Reforma em Portugal”[17]  e também, embora de forma menos aprofundada, em “O Município do século XIX”.[18] Funcionavam em cada paróquia,  e o seu curso tinha a duração de dois anos.[19]

De acordo com o capítulo “Instrução” dos “Estudos...”, os alunos dessas escolas aprendiam Gramática da Língua Materna [ ou Gramática Portuguesa, segundo a designação adoptada em “O Município...”], Aritmética, Geometria Prática [ em “O Município...” agrupava estas duas numa só disciplina: Aritmética e Geometria] , Geografia e História do País [ separada por três disciplinas em “ O Município...”: Geografia ; História e  Corografia Portuguesa], História Natural [ não referida em “O Município...”], Canto [Musica Vocal] e Moral Cristã [ Moral e Legislação Usual]. N’ “O Município...” acrescentava três outras disciplinas não referidas nos “Estudos...”: Física e Química, Agricultura e Caligrafia e desenho linear.

Em termos metodológicos, o ensino dessas matérias era auxiliado por “galerias pitorescas, quadros sinópticos, exercícios de desenho linear, experiências símplices de física, química e mecânica, modelos e exemplares do museu da escola”, actividades que davam “variedade ao ensino, falando à imaginação e gravando-se na memória”.

Os livros, “estampas e modelos” , necessários às lições, eram fornecidos pelo Estado.[20]

“Uma “biblioteca paroquial”, com obras fornecidas pela “Direcção de Instrução Pública” apoiava o estudo das matérias leccionadas.[21]

Os párocos eram os responsáveis  pela instrução nestas escolas para se aproveitar “ a intervenção oficiosa duma classe respeitável, cujos serviços, bem encaminhados, podiam ser altamente prestadios”. Para o auxiliar na sua tarefa, Henrique Nogueira propunha  que o professor instruísse “um pequeno número de meninos mais adiantados e mais inteligentes” a quem dava o nome de “monitores”, “que depois iam ensinar os mais atrasados”.[22]

 Escolas industriais

 No topo da chamada “educação popular” situava as Escolas Industriais e as Escolas Agrícolas.
Ás Escolas Industriais dedica o nosso autor algumas notas no já citado capítulo XVIII (“Instrução”) dos “Estudos...”.

Estas eram dirigidas aos operários e empreendedores agrícolas e fabris e funcionavam em dois lugares. Aos domingos na “escola paroquial” e, de semana, em noites intercaladas, na “escola local”.

Nestas aprendiam-se elementos de aritmética, geometria, mecânica aplicada, agricultura, tecnologia, e higiene e medicina do homem e dos animais.

A regência deste curso devia ser da responsabilidade do médico público da localidade, e os estudos das disciplinas deviam ser “mais práticos do que teóricos, acompanhados de experiências e demonstração de exemplares por um professor especial e dirigidas a melhorar a industria  local”.[23] 

Escola Agrícola

Este tipo de escola foi referenciado apenas uma vez por Henriques Nogueira, no capítulo dedicado á agricultura nos seus “Estudos...”.

Era um ensino prático, que tinha por objectivo dar aos agricultores “um certo número de verdades e de preceitos úteis” que existem “na arte de cultivar a terra, de manipular os seus produtos” e “de criar os animais de serviço”, cuja ignorância “muito prejudicava os agricultores”.[24]

Devia existir  uma escola destas em cada município, a funcionar numa “granja” modelo, onde se praticavam os melhores sistemas de cultura, se empregavam as máquinas e ferramentas mais perfeitas e se cultivavam as plantas úteis à localidade.

Em cada paróquia devia existir um “jardim” onde o pastor “aos domingos”, dava noções simples de agricultura e economia.

Finalmente, em cada lugar existia um pequeno “gabinete de leitura “ onde se reuniam os moradores para a “instrução comum”. 

A “Cúpula” do Edifício Educativo

Embora a “Educação Popular” fosse a parte mais importante e original do projecto de Henriques Nogueira para o sistema educativo em Portugal, ele não deixou de se preocupar com os níveis superiores de ensino, onde pontificavam as “Escolas Municipais”, as “Escolas Centrais” e o “Instituto das Ciências e Artes”.

Escolas Municipais

Uma primeira abordagem sobre estas escolas foi feita pelo autor nos “Estudos sobre a reforma em Portugal”.

Nessa obra referia que estas escolas tinham por objectivo dar “os conhecimentos preparatórios indispensáveis” àqueles que se destinavam “à ciência ou aos estudos superiores”, considerando a possibilidade de algumas das disciplinas serem leccionadas por empregados administrativos em acumulação, como forma de colmatar a falta de professores .

Aí considerava que as disciplinas a leccionar deviam ser as seguintes: gramática das línguas clássicas, latim, francês, alemão e inglês; elementos de filosofia geral; matemáticas puras; história natural; agricultura; geologia; mecânica industrial; legislação prática; higiene e medicina do homem e dos animais domésticos; arquitectura; construção civil; música vocal e instrumental.[25]

As suas ideias para este nível de ensino foram aprofundadas no capítulo VII (Instituições Municipais) de “O Município no século XIX”.

Aqui defendia que este nível de ensino era público e gratuito, que o curso completo durava 3 anos e  que cada disciplina tinha a duração de 3 meses, excepto a disciplina de aritmética, álgebra e geometria, que tinha a duração de 9 meses.

Apresentava uma estrutura de disciplinas ligeiramente diferente da apresentada anteriormente: aritmética, álgebra e geometria; história natural; medicina e veterinária; agricultura e economia rural; física e química; tecnologia e mecânica industrial; desenho e construção civil; história e legislação Pátria; língua francesa e inglesa; música.

As lições eram “teóricas e práticas”, ministradas pelos “delegados das direcções do ministério de Estado”, com a excepção da música, dada por um professor particular.

“Os compêndios” eram “feitos expressamente para o uso das escolas municipais” e cada um deles era “dividido em 50 lições, impresso economicamente e ilustrado, quando a matéria o pedir, com gravuras em madeira”.[26]

“Escolas Centrais” das Ciências e das Artes

Nestas escolas, situadas na capital, ensinavam-se “os ramos principais do saber humano”, preconizando o nosso autor que “o Estado deve por interesse seu e honra da humanidade, proteger e educar todas as grandes vocações para a ciência ou para a arte, que se manifestarem em indivíduos desprovidos de meios. À escola primária ou municipal ou a qualquer outra parte, onde aparecer um aluno ou indivíduo de esperanças, lá se deve ir buscar para as escolas superiores, como pensionista de mérito”.[27]

Instituto das Ciências e Artes

Este Instituto constituía o “remate do edifício literário, científico e artístico do País”.
Era um lugar onde os “homens de génio” faziam “prelecções” e se entregavam “ a estudos conscienciosos e profundos”, aquilo que hoje designaríamos como centros de investigação científica.[28] 

“Cursos Normais”

Em paralelo com os vários níveis de ensino acima analisados, realizar-se-iam “cursos normais”, durante “uma certa época do ano”, no “instituto” ou nas “escolas municipais”.
Destinavam-se aos funcionários públicos que, nesses “cursos normais”, recebiam lições e conselhos “que a ciência lhes puder dar em adiantamento ao que já sabiam”, algo que hoje designaríamos por “formação contínua”.

Os cursos aí ministrados incluíam  a medicina, a construção civil e a administração pública.[29]

Conclusão

O combate ao analfabetismo foi uma das principais razões que motivaram Henriques Nogueira a desenvolver as suas ideias no campo educativo, atitude que não é de estranhar num intelectual progressista do século XIX, se tivermos em conta que em Portugal, na década de 40 desse século, mais de 90% da sua população era analfabeta.

Tal situação explica a importância dada pelo nosso autor à defesa da difusão do ensino das primeiras letras através das suas “escolas locais” e “escolas de adultos”, como suporte dos outros níveis de ensino e do combate à ignorância.

Além disso, defendeu sempre um ensino popular, muito baseado na experiência prática.

Apresentou ainda, nem sempre de forma clara e insistente, algumas ideias inovadoras para a época e que, em muitos casos, só tiveram efeito prático mais de um século depois, a saber:

-          a defesa de um ensino nocturno para adultos. (As primeiras aulas de ensino nocturno em Portugal foram contemporâneas de Henriques Nogueira e tiveram lugar em 1858 em S. João da Pesqueira, mas só por portaria de 20 de Julho de 1866 foi oficializado esse tipo de ensino);

-          a defesa da criação de Bibliotecas e Museus como suporte do sistema educativo, ideia só agora institucionalizada;

-          a ideia pioneira da criação de “Bibliotecas Populares”;

-          a defesa de um sistema de ensino obrigatório e gratuito;

-          o primeiro a referir-se à criação de Jardins de Infância, por ele designados por “asilos infantis”;

-          a valorização de um ensino prático, como o “ensino industrial” e o “ensino agrícola”, com o objectivo de dar uma formação prática e básica aos que não quisessem  prosseguir estudos superiores;

-          a defesa da formação contínua, subjacente à ideia de “cursos normais”;

-          a importância que deu, em vários níveis de ensino, à educação física e à educação musical;

-          a ideia de usar todos os recursos existentes na sociedade para resolver a falta de professores em quantidade suficiente para pôr em prática a generalização do ensino: o recurso às mulheres, aos párocos, aos funcionários administrativos e até a “alunos monitores”.

Encerramos este nosso trabalho citando uma frase de Henriques Nogueira, tão actual como hoje : “estamos convencidos que a felicidade pública, de todos os indivíduos e de todas as classes, depende de um plano vasto de educação, que permita a  cada um o desenvolvimento das suas faculdades”.[30]

Venerando Aspra de Matos

Obras consultadas:

-     CARVALHO, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 1986.

-      REBELO, Carlos Alberto, A Difusão da Leitura Pública, ed. Campo de Letras, 2002.

-     SILVA, António Carlos Leal e (org.), Obras Completas de Henriques Nogueira, 3 tomos + 1 de biografia, INCM, 1979.




[1] “Instrução Primária” in O Scalabitano, 21 de Junho de 1857, OC, Vol. II, pp. 273 e 274.
[2] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 215.
[3] texto de “crítica literária” à 2º edição do “Método Castilho”, in A Revolução de Setembro, 6 de Julho de 1853, OC, Vol. II, p. 214.
[4] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito da leitura repentina”, in Jornal da Associação Industrial Portuense, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, p. 223.
[5] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XXV – Família, OC, Vol. I, p. 147.
[6] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, p. 112-113.
[7] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII – Instrução, OC, Vol. I, pp. 113-114.
[8] “O Município do século XIX”, editado em 1856, OC, Vol 2, p. 95.
[9] “Instrução Primária”, in “O Scalabitano”, 21 de  Junho de 1857, OC, Vol. 2, p. 274.
[10] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVI – Salubridade, OC, Vol. I, p.102.
[11] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.113 e 114.
[12] “O Município do século XIX”, Cap. VI – O Município Novo, OC, Vol 2, p. 74
[13] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 96.
[14]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[15] “Necessidade da instrução primária e vantagens do “Método Castilho”, dito de leitura repentina”, in “Jornal da Associação Industrial Portuense”, 15 de Dezembro de 1852, OC, Vol. II, pp. 222 e 223.
[16] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.  114.
[17] 2º volume, OC, Vol. I, pp. 114-115
[18] OC, Vol 2, pp. 94 e 95.
[19] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 94.
[20] Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[21] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, p. 95.
[22] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, pp.  114-115.
[23] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[24]  “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XII– Agricultura, OC, Vol. I, p.81.
[25] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.115.
[26] “O Município do século XIX”, OC, Vol 2, pp. 82-83.
[27] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.117.
[28] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[29] “Estudos sobre a Reforma em Portugal”, 2º volume, cap. XVIII– Instrução, OC, Vol. I, p.116.
[30] texto de crítica literária à 2ª edição do “Método Castilho ...”, publicado no “A Revolução de setembro”, de 6 de Setembro de 1853, in OC, 2º volume, p. 215

terça-feira, 1 de julho de 2014

5º edição dos "Chás de Pedra".


 O Tema das "Quintas" torrienses foi escolhido este ano para preencher as edições de "Sopa de Pedra" e "Chás de Pedra".

As "Sopas..." realizaram-se me Março com a apresentação de três comunicações, a primeira da autoria de Carlos Margaça da Veiga sobre "As Quintas [das comendas] das ordens militares e religiosas em Torres Vedras: séculos XVI e XVII", a segunda da autoria de Maria Natália da Silva sobre "A Quinta da Conceição, cabeça de um morgado Torriense: séculos XVI a XIX", e a terceira, da autoria de Cecília Travanca Rodrigues sobre "A Quinta do Infesto: um olhar no tempo...da inquirição de 1309 à actualidade".

Na próxima sexta-feira dia 6 de Julho tem início o segundo ciclo de conferências, integradas agora na edição dos "Chás de Pedra", sobre Quintas Torrienses.

Essa primeira comunicação terá por tema "As Quintas do Juncal e Nova de Matacães: um património dos Falcão Trigoso", e terá início pelas 21.30, na Azenha de Santa Cruz, com entrada livre.

Seguirse-ão mais duas conferências nos próximos dias 11 e 18 de Julho, outras duas sextas-feiras, no mesmo sítio e horário.

No dia 11 Joaquim Moedas Duarte falará da "Quinta das Lapas: da casa construida pelo 1º Marquês do Alegrete ao Jardim romântico/neoclássico do século XIX".

O ciclo de conferências sobre Quintas torrienses termina a 18 de Julho com a comunicação de Cacilda Costa sobre "A Granja de José Félix Henriques Nogueira".

Em baixo deixo algumas fotografias das Quintas ligadas às famílias Trigoso e Falcão, tema da minha conferência de 6ª feira:

QUINTA DO BELO JARDIM - Carmões (da família Trigoso)




QUINTA NOVA - Ordasqueira, Matacães (dos Aragão, depois deo Trigoso e finalmente dos Falcão Trigoso)





QUINTA DO JUNCAL - Matacães (dos Falcão e depois dos Falcão Trigoso)





ERMIDA DO SENHOR JESUS DO CALVÁRIO ( Pertencia aos Trigoso da Quinta Nova que a mandaram reedificar)