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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

TORRES VEDRAS HÁ 120 ANOS NA IMPRENSA LOCAL

NOVEMBRO 1889
(Largo da Estação)

Festas populares e caçadas eram algumas das poucas distracções desse tempo.

No primeiro domingo do mês tinha lugar “na Ermida da Casa e Quinta do Juncal, em Matacães, festa ao Sagrado Coração de Jesus” (A Semana, 7-11-1889).

A caça era uma actividade mais burguesa, realizando-se a meio da semana, como se pode ler na seguinte notícia, interessante também pela descrição que faz do lugar de Porto Novo:

“Na terça-feira, 5 do corrente, o sr. Dr. Justino Xavier da Silva Freire convidou alguns dos seus amigos (…) para uma caçada nas suas propriedades da Maceira.

“Foi escolhido o sítio do cazal do Porto Novo junto à Foz, nos mattos que em grande vastidão se estendem até ao alto do Seixo. D’este ultimo ponto começaram-se a bater os pinhaes até à enseada da Foz, tendo começado os exercícios às 10 horas da manhã e terminando às 5 da tarde, matando-se 38 coelhos e uma lebre” (A Semana, 7-11-1889).

Torres Vedras conhecia um assinalável crescimento urbano, mercê da chegada do caminho-de-ferro à então vila. A notícia do nascimento da futura Avenida Tenente Valadim, então designada por “Rua Nova”, era uma das notícias do mês:

“Já se anda preparando o solo para collocar a tubagem de ferro que substituirá o acqueducto de pedra por onde corriam as aguas, na parte contigua à Commenda, e que foi preciso demolir para fazer uma rua nova que seguirá do começo da Avenida do Caminho de ferro, do lado do nascente, e que virá desembocar à rua da Cerca, contigua ao largo do Rosário.

“Esta nova rua que será somente para transito de peões, é uma excellente serventia da estação do caminho de ferro para a parte baixa da villa”. (A Semana, 14-11-1889)

Outras obras acompanharam essa expansão urbana :“Vae ser reparada por conta da Companhia dos Caminhos de Ferro o largo em frente das portas da estação, que, quando chove, é um grande lameiro. As obras a fazer-se é terraplanar as covas, e dar escoante às aguas. Depois será bom também que os dois lampiões que ornam a fachada da estação não sirvam só para vista (A Semana, 28 de Novembro 1889).

Um dos monumentos mais emblemáticos da vila era igualmente alvo de reparações :“Estão-se fazendo obras nos telhados da egreja da Graça, que tanto careciam de ser reparados” (A Semana, 21-11-1889).

Curiosa é ainda uma notícia sobre o valor das “Jornas” dos trabalhadores rurais:

“(…) os trabalhadores estão-se actualmente pagando aqui 360 a 400 réis diários” (A Semana, 14-11-1889).

A importância da actividade vinícola era ainda patente numa outra notícia onde se referia o movimento comercial da região de Torres:

“A procura existe, e as offertas attingem para os vinhos de 1888, entre 10 e 12 libras por tonnel. Para os vinhos novos os preços variam, não nos constando vendas por valor inferior a 8 libras por tonnel, e sempre d’ahi para cima conforme a qualidade; os vinhos brancos vendem-se de 500 a 600 réis o almude, conforme a sua riqueza alcoólica” (A Semana, 21 de Novembro de 1889).

DEZEMBRO DE 1889

A vida religiosa marcava o quotidiano torriense :“No domingo, 8 do corrente, fez-se no templo da Collegiada de S.Pedro, com a devida solemnidade, a festa a Nossa Senhora da Conceição, a expensas da irmandade do mesmo titulo, instituída em 25 de Outubro de 1820.” (A Semana, 12-12- 1889).

Mas o profano ganhava terreno através do associativismo, como se percebe pela seguinte notícia:

“Theatro Chalet

“No CLUB d’esta villa houve no sabbado uma reunião de differentes pessoas, d’onde se apurou mais uma tentativa para a construcção d’uma casa de espectáculos de edificação ligeira e moderna.

“Para dirigir os trabalhos preliminares foram acclamados os sr.s dr. Luís António Martins, Manoel Francisco Marques e Augusto dos Santos Ferreira” (A Semana, 12-12-1889).

As obras no Convento da Graça prosseguiam a bom ritmo:

“O templo pertencente à Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, vae apparecer com as gallas que dão o aceio e o cuidado. O telhado foi todo reparado; o interior e o exterior do templo será caiado e a cantaria lavada.

“Da torre foi apeiado o sino grande que estava fendido, e serão gateiadas as cantarias.

“O sino vae ser vendido para com o donnativo Luiz de Abreu occorrer às despezas que alli se andam fazendo.

“Será bom pensar em seguida em realizar n’aquelle vasto templo os officios do culto Divino, aproveitando a sua excellente localisação, e offerecendo grande commodidade aos moradores da villa” (A Semana, 26 de Dezembro de 1889).

Sobre o tal sino “ apeado da torre da egreja da Graça (…) tem a nota de fabricado em 1787 nas officinas de um tal Oliveira. Pesa 978, 800 kilos” ( A Voz de Torres Vedras, 28-12-1889).

JANEIRO 1890

Preocupações com o estado sanitário da vila marcaram as primeiras notícias do ano:

“É rara a casa em Torres Vedras onde não haja um doente, e em algumas acontece que estão de cama todas as pessoas de família.

“Pelos diversos logares das freguezias do concelho há egualmente uma sensível alteração no estado sanitário, que accusa indiscutivelmente uma corrente, se não epidémica, pelo menos endémica.

“O carácter das doenças dominantes são: as bronchites e as tracheites, em casos exporadicos; a grippe e a influenza atacando com tenacidade.

“A provação dos doentes não é, porem, para desesperar. Os ataques, posto sejam intensos, são logo succedidos de melhora. As crises fabris não se fazem demorar, e é notável a declinação no período agudo da doença, que deixa, comtudo, demorados estragos no organismo.

“Nas pharmacias teem-se vendido arrobas de flor de borragem, e milheiros de sinapismos Rigollot.

“Os arsenais da therapeutica teem soffrido ataques medolhos nas seivas de pinheiro, nos xaropes de lactucario, nas antipyrinas e aconittus” (A Semana, 9-1-1890).

Nesse mês teve lugar o tradicional mercado de S. Vicente

“Não foi das mais concorridas, mas com tudo o gado suíno vendeu-se quasi todo.

“O preço da carne começou a 2$800 e chegou a 3$100” (A Semana, 23-1-1890).

Frequentemente, muitas vezes acompanhando a realização de festas ou feiras, a vila era visitada por artistas ambulantes:

“Em uma casa na rua dos Celleiros d’esta villa, está uma pequena troupe d’artistas dramáticos dando uns espectáculos que são limitadamente concorridos, porque,infelizmente, ao presente em Torres Vedras, tudo quanto se apura é para pharmacos” (A Semana, 23-1-1890).

Este mês de Janeiro foi igualmente marcado pela decisão de se iniciar a constituição de uma nova associação, tendo por base uma mais antiga, que deu origem ao ainda hoje existente Clube Artístico e Comercial, a mais antiga em funcionamento:

“Na segunda-feira [27 de Janeiro], a requerimento de precioso numero de sócios reuniu a assembleia geral do Club Torrense para tomar conhecimento do desejo por elles manifestado de que fosse substituído aquella antiga denominação pelo de Grémio de Torres Vedras.

“Assim foi resolvido por unanimidade” (A Semana, 30-1-1890).

As edições de Janeiro dão conta dos “protestos patrióticos” (A Semana de 23 de Janeiro), contra o Ultimato britânico, publicando mesmo, na sua edição de 30 de Janeiro, um texto de Jayme Batalha Reis intitulado “O Movimento Patriótico”.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Torres Vedras Há 120 anos, na Imprensa da Região - Outubro de 1889



Esse mês de Outubro de 1889 foi marcado pela morte do rei D. Luís, falecido no dia 19, sucedendo-lhe D. Carlos.

A notícia mereceu destaque nas páginas da imprensa local, A Semana, na sua edição nº 140 de 24 de Outubro e A Vinha de Torres Vedras , na sua edição de dia 26.
O mês foi igualmente marcado pelas eleições para o Parlamento, destacando a imprensa local os resultados do círculo de Torres Vedras, que elegia um representante:

Dr . Ignacio Emauz do Casal Ribeiro – 5783 votos;
Luciano Cordeiro – 740 votos;
José Abreu do Couto de Amorim Novaes - 131;
Caetano Pereira Sanches de Castro – 130;
Alberto António Moraes de Carvalho – 129;
Sebastião de Sousa Dantas Baracho – 97;
Dr. António Henriques da Silva – 52;
António Sousa Pinto Magalhães – 50;
Latino Coelho – 4;
Fuschini – 2.
(Fontes: A Semana nº 140 de 24 de Outubro de 1889 e Vinha de Torres Vedras, nº 143, de 26 de Outubro)

No total entraram 7 118 votos, pertencentes aos concelhos de Torres Vedras, onde votaram 5 047 eleitores, e do Sobral de Monte Agraço, onde votaram 2 071 eleitores, que formavam este círculo eleitoral.
Refere a Vinha… que a “opposição obteve votos: Na assembleia de Arruda e Cardosas 610, não dando nenhum voto ao dr. Casal Ribeiro; na de S. Thiago,da villa,251; no da Carvoeira, 171; na de S. Pedro da Cadeira, 91; no Maxial, 88; no Sobral e Arranhó, 79; no de S.Pedro, da villa, 35”
“Nas assembleias da Ribaldeira e Turcifal não houve opposição” ( Vinha de Torres Vedras, nº 143, de 26 de Outubro de 1889)
Comentava “A Semana” que a “votação do sr. Luciano Cordeiro, sobresae porque as assembleias da Arruda e Cardosas votaram de chapa esta lista, em número de 604” (A Semana, nº 140 de 24 de Outubro de 1889).
Luciano Cordeiro era o candidato pelo Partido Regenerador, então na oposição, enquanto Casal Ribeiro representava o Partido Progressista. Note-se ainda a votação em Latino Coelho, então representando os republicanos.
Num dos primeiros dias desse mês, no dia 8 de Outubro, abria o segundo ano de aulas da “Escola Pratica de Viticultura de Torres Vedras, instituída na Quinta da Viscondessa (Turcifal)” (A Semana, nº 138, 10 de Outubro de 1889).
A meio do mês as vindimas prosseguiam “ activamente em todo o nosso Concelho”, calculando-se “que a colheita é muito inferior à do anno passado, differença que se attribue não somente aos estragos produzidos pela phylloxera, mas a varias doenças, como o mildiú e outras, que atacaram as vinhas, e também às irregularidades do tempo” (Vinha de Torres Vedras, nº 141 de 12 de Outubro de 1889).
No Domingo 13 de Outubro teve lugar a “Festa de Nª Snrª do Rosário. Realizando-se na Igreja Matriz de S. Pedro, do seu programa constava, pelas “11 horas da manhã: missa e sermão, sendo orador o ver. Duarte do Rosário”. Pelas “4 horas da tarde” sermão e “Te-Deum”, sendo em seguida “ conduzida em procissão para a sua capella a Imagem de Nossa Senhora do Rosário”.
Para o efeito actuou um “Côro composto dos mais distinctos amadores da villa, e alguns d’outras localdades, é coadjuvado por artistas da capital, tendo por vozes os primeiros cantores da Sé, os sr.s Silva, Reis e Lisboa”.
À noite houve “illuminação com seis centos lumes e tijelinhas na fachada da Ermida do Rosário”, situada na “Praça Nova” “e o recinto da praça com balões à veneziana, executando a Fanfarra Recreativa Torreense, das 8 horas em diante” . (A Semana, nº 138 e nº 139, dos dias 10 e 17 de Outubro de 1889 e a Vinha de Torres Vedras de 12 e 19 de Outubro).

Na sua edição de 31 de Outubro de 1889, anunciava “A Semana” o regresso a Torres Vedras do “nosso hábil” fotografo Martinez Pozzal, que esperava “que lhe visitem o seu attelier” (A Semana, nº 141, de 31 de Outubro de 1889).

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Torres Vedras Há 120 anos, na Imprensa da Região - Julho, Agosto e Setembro de 1889

JULHO de 1889
No domingo 7 de Julho tiveram lugar as festas de S. Sebastião realizadas na Igreja Paroquial da Carvoeira, com missa “instrumental e vozes, sendo o coro executado por alguns músicos da phylarmonica da Aldeia Gavinha”.
A mesma filarmónica, “durante o dia como na Véspera à noite, abrilhantou a festa com varias peças do seu reportório”.
Pelas 6 horas da tarde desse Domingo, o lugar da Carvoeira foi percorrido pela “procissão que se compunha de quatro andores com imagens, conduzidos pelas respectivas irmandades. Após o pallio seguia a phyllarmonica e muito povo”. (A Vinha de Torres Vedras de 13 de Julho de 1889).
Também nesse mês, dia 21, celebrou-se na Igreja do Turcifal a festa do Senhor Jesus Morto, com missa “a grande instrumental, e sermão”, e , à tarde, teve lugar uma procissão com a imagem do “Senhor Jesus” (A Vinha de Torres Vedras de 20 de Julho de 1889)
Muitas pessoas hospedaram-se nesse mês nos dois principais Hotéis da vila de Torres Vedras, o Natividade e o Pimenta, para frequentarem os “banhos dos Cucos” (A Vinha de Torres Vedras de 20 de Julho de 1889).
Nas páginas do mesmo jornal fazia-se eco da queixa dos moradores do Ramalhal contra as “peiores condições de transito” do “caminho que dáquelle lugar vae à estação de caminho de ferro” que, a “continuar assim, será no próximo inverno um verdadeiro lamaçal”.
A situação na vila não era melhor, pedindo-se à Câmara Municipal, “a quem não regateâmos louvores pelas obras que ultimamente tem emprehendido na villa e em outras terras do concelho”, que olhasse “para o estado em que se encontram algumas ruas da villa, principalmente a da olaria, por onde é quasi impossível deixar a gente de tropeçar nas muitas covas que ali há, e passar um vehiculo sem que soffra enormes solavancos” (A Vinha de Torres Vedras, de 27 de Julho de 1889).
Igualmente alvo de queixas eram os serviços do Caminho de Ferro, fazendo-se o jornal Vinha de Torres Vedras eco de um artigo publicado no “Diário de Notícias” onde se referiam as “geraes e constantes queixas e reclamações do commercio e dos lavradores da zona atravessada pelas linhas férreas de Torres-Figueira-Alfarellos, contra o preço excessivo das tarifas em vigor, resultando d’este grave inconveniente continuarem quasi todas as mercadorias a ser transportadas em carroças e outros antigos meios de locomoção, o que é irrisório e extremamente prejudicial” (A Vinha de Torres Vedras de 27 de Julho de 1889).
A iluminação pública era igualmente alvo de críticas, sendo frequente as ruas da vila estarem à escuras “como breu, durante todo o serão”, ironizando-se que a “Lua tem pregado o calote ao município de se não prestar a substituir a illuminação publica”. “Por fim, convencidos de que o poético astro não se dignava projectar luz, resolveu-se accenderem-se os candieiros entre as dez e as onze” (A Semana de 4 de Julho de 1889).
No início desse mês de Julho a imprensa local fazia eco da aceitação pela Junta Distrital do pedido, feito em 27 de Junho último pelo município, de se criar em Torres Vedras uma “Escola Municipal de Instrucção Secundária” ( A Semana de 4 e de 11 de Julho de 1889).
AGOSTO de 1889
Uma notícia dava conta da que se iria proceder, no dia 3 de Agosto, “á expropriação dos prédios rústicos entre a Ponte do Rol e a Coutada, que tem de ser atravessados pela estrada de S. Pedro da Cadeira” (A Vinha de Torres Vedras de 3 de Agosto de 1889).
Em 10 de Agosto anunciava-se a chegada, prevista para esse dia, do deputado Casal Ribeiro, no comboio da manhã, “para onde vem com sua família demorar algum tempo em casa de seu tio, o sr. Administrador do concelho”, preparando-lhe os amigos uma “recepçãp condigna” (A Vinha de Torres Vedras de 10 de Agosto de 1889).
Já então se queixavam “os moradores da rua dos Balcões n’esta villa, de que por vezes acontece haver completo pejamento de transito n’aquella via publica, em consequência de descarregarem á porta de um forno que ali existe, carradas de matto, que se não dão pressa em recolher” (A Semana de 24 de Agosto de 1889).
Realizando-se em S. Domingos de Carmões, no dia 11 de Agosto, a festa anual do Santíssimo Sacramento, a ocasião foi escolhida para a inauguração pública da fanfarra da “Sociedade instrucção e recreio carmoense, fundada em 1 de Abril d’este annno”, que “acompanhará a procissão, e tocará á noite no seu coreto, sob a direcção do regente, o sr. Alberto Lança Galvão” (A Vinha de Torres Vedras de 10 de Agosto de 1889).
Também na mesma data teve lugar no Maxial a festa do Santíssimo Sacramento “ que é uso fazer-se no segundo domingo de Agosto desde o anno de 1671. Esteve bastante concorrida, e houve socego, fora do costume dos annos anteriores”, sendo a festa “abrilhantada” com “dois sermões, um ao evangelho e outro ao recolher da procissão”, pelo “padre António José de Almeida”(A Vinha de Torres Vedras de 17 de Agosto de 1889).
Agosto foi ainda mês da tradicional Feira do Mato, no Turcifal que nesse ano esteve “de pouco commercio (…) apezar de ser regularmente concorrida. Houve muito junco, vendendo-se a preço diminuto” (A Semana de 29 de Agosto de 1889)
Por fim, noticiava-se, esse ano, de que a “famosa” Praia de Santa Cruz estava pouco animada, registando-se algumas famílias que tinham partido para essa praia: “os snr. Belford e Augusto dos Santos Ferreira com suas famílias” (A Vinha de Torres Vedras de 31 de Agosto de 1889).
SETEMBRO de 1889
Na sua edição de 28 de Setembro de 1889 a “Vinha…” dava grande destaque da chegada à vila de Torres Vedras, no dia 26, e de onde era natural, de “Luís António de Abreu, que há bastantes annos reside em Buenos Ayres, onde é considerado como um dos mais abastados negociantes, e fundador de diversos estabelecimentos bancários, e outras emprezas de commercio e navegação.
“O sr. Abreu, que veiu com sua esposa e um cunhado, era esperado na gare do caminho de ferro por muitos dos seus conterrâneos e pela fanfarra Sociedade Recreativa Torrense, que acompanharam os recem chegados até casa do sr. Francisco José de Bastos e Silva, onde ficaram hospedados”, tencionando seguir depois para Caldas e regressar a Lisboa, de onde seguiria viagem por alguns países da Europa, voltando a Torres Vedras para “se demorar” dois meses, constando que “o sr. Abreu pensa em deixar assignalada com uma acção meritória a sua estada na terra natal” (A Vinha de Torres Vedras de 28 de Setembro de 1889).
Entretanto chegavam também a Torres Vedras dois torrienses, António Xavier de Rosa Bray, das Carreiras, e Candido do Nascimento Vieira, “conhecido industrial n’esta villa”, que tinham ido a Paris visitar a exposição universal, “tendo-se também demorado algum tempo em Bordéus e em Madrid” (A Vinha de Torres Vedras de 28 de Setembro de 1889).
Nessa Exposição de Paris, estiveram presentes expositores de viticultores do concelho de Torres Vedras, tendo sido premiados “com a medalha de ouro: César Vasconcellos” do Turcifal e “Custodio Miranda” da Ribaldeira.
“Com medalha de prata: Visconde da Silveira; dr .Sabino Galrão; dr. José Henriques Palma d’Almeida; Joaquim Belford; dr. António Maria de Carvalho; e João Garcez Palha” (A Semana de 26 de Setembro de 1889).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - (2) Junho de 1889

(Torres Vedras, numa gravura do Século XIX)

A comemoração dos Santos Populares foi um tema recorrente na imprensa torriense de há 120 anos.
O Santo António foi “festejado por algumas famílias. Na véspera houve illuminação e fogos de artificio no sitio da Costa do Castello. Algumas fogueiras n’outros pontos.
“No próprio dia fez-se, na forma dos mais annos, arraial no Varatojo”[1] .
O S. João teve as suas comemorações mais importantes em Runa:
“Realisou-se no dia 24, em Runa, a costumada festa de S. João Baptista, a qual teve o luzimento dos annos anteriores, achando-se a egreja bellamente adornada.
“Abrilhantou a festa a orchestra regida pelo maestro Lagrange, que foi como sempre correcto no seu desempenho. Orou o revº Conceição Vieira de Lisboa (…).
“O arraial, artisticamente ornamentado, esteve muito concorrido; á noite a illuminação produziu um bello efeito, e durante o fogo de artificio, que foi bastante vistoso, tocou variadas e escolhidas peças de musica a phylarmonica d’esta villa [de T. Vedras]”[2] .
Mas o S.Pedro foi sempre o ponto alto nos festejos dedicados aos Santos Populares em Torres Vedras, graças à realização da secular que lhe é dedicada, descrita de forma pitoresca por um jornalista local:
“O sol de Verão, que andava a modo com maleitas, dignou-se apparecer em toda a sua plenitude coruscante, e animar o grande quadro da feira, estendida em todo o vasto recinto da Porta da Várzea, rematando ao sul com a passagem typica do acampamento da ciganagem, com as suas tendas improvisadas, os seus montões de farrapagens, os seus vestuários sujos e garridos, os seus rostos acobreados, com molduras de cabello desgrenhado. A caravana, dividida em grupos, sobre a alfombra da relva, e no fresco abrigo do arvoredo copado, por ali relaçava(sic), entre a récua de cavalgaduras, que teem faltado aos respectivos donos, e que os ciganos vão trocando e vendendo, conseguindo sempre augmentar-lhe o numero, sem os comprarem.
“#
“A concorrência de expositores e feirantes foi enorme. No dia de S. Pedro, desde a madrugada, que um enorme concurso de povo afflui ao mercado, e às 10 horas dois comboios, chegados successivamente, trouxeram mais umas 600 pessoas que fizeram da Porta da Várzea um mar de cabeças humanas.
“Há quem diga que a feira foi mais concorrida do que no anno passado, e com referencia a commercio, todos a suppõem mais vantajosa. Appareceram muitos gados, e realisaram-se algumas transacções em gado cavallar. O gado bovino, próprio para trabalho, estava mais caro do que na feira chamada das fructas novas, em Santo Quintino [Sobral de Monte Agraço], por isso quem desejava comprara bois, resolveu-se a esperar. Comtudo houve algumas transacções, especialmente em gado para abater.
“O commercio nas lojas da villa esteve animado. Muitos touristas vieram, por mero passeio, visitar Torres Vedras, muitos d’elles eram nossos antigos amigos, que tivemos o gosto de abarcar. Não lhes enumeramos aqui nomes, com receio de incorrer n’alguma omissão.
“#
“Hoje apenas resta da feira uma ou outra bancada nua e retardatária; e d’aquelle bulício atroador, apenas accorda ainda os ecos das encostas circundantes da vasta alameda, o zambuar da barraca dos fantoches, que ahi se demoraram, fabricando gargalhadas, com as suas peripécias burlescas” [3].
Para aproveitar o público dessa feira , estabeleceu-se na vila um teatro ambulante, o “Theatro Club”.[4]
Outras festas de carácter religioso tiveram lugar no concelho esse mês como a Festa de Santa Catarina na Ribaldeira, Domingo 2 de Junho [5], ou a “Procissão de Corpus Christi”, realizada a 20 de Junho, que decorreu “ com a solemnidade dos mais annos, saindo da collegiada de Santa Maria do Castello, e percorrendo algumas ruas da villa” [6].
O início do Verão trazia a Torres Vedras, a caminho de Santa Cruz para “banhos”, um grupo de 60 crianças, vindas “de Lisboa no comboio da manhã de quarta-feira, (…) acompanhadas de três irmãs de caridade, e dos respectivos professores, ou regentes, do Collegio de Campolide”, sendo depois conduzidos em “trens” para a “referida praia”[7].
Os primeiros anos do comboio a passar por Torres Vedras foram essenciais para marcar uma nova dinâmica na actividade da vila.
Embora queixando-se da “ por ora diminuta (…) concorrência de passageiros de Lisboa a esta vila e seus subúrbios”, a imprensa local fazia notar que, ainda “assim no serviço dos hotéis conhece-se diferença para mais do que o costume; e é de presumir que, continuando o belo tempo dos últimos dias, haja afluência de visitantes nos próximos dias santificados. Oxalá ”[8].
A maior afluência de forasteiros a Torres Vedras e as possibilidades de expansão comercial, por causa do caminho-de-ferro, obrigou a várias obras de melhoramentos nas estradas do concelho.
Foi o que aconteceu com a “estrada de S. Pedro da Cadeira”, tomando-se conhecimento esse mês, por “telegramma recebido no dia 27 pelo sr. Administrador do concelho, e expedido pelo deputado d’este círculo, o sr. Dr. Casal Ribeiro” de “ haver sido concedida a estrada de S. Pedro da Cadeira, cuja construcção, que será feita por empreitadas parciaes, começará brevemente”[9].
Actividade que conhecia igualmente grande expansão, a vinicultura, atraia a Torres Vedras vários comerciantes do ramo, como o “ mr. A de Pomarède, accreditado negociante de vinhos, e membro da câmara do commercio de Bordéus”[10] .
Decorreram assim os dias desse mês de Junho de 1889, cujos ecos distantes chegaram até nós em descrições intensas e coloridas, publicadas na imprensa local da época.

[1] A Voz de Torres Vedras, 15 de Junho de 1889.
[2] A Voz de Torres Vedras, 29 de Junho de 1889.
[3] A Semana, 4 de Julho de 1889.
[4] A Semana, 27 de Junho 1889.
[5] A Semana, 30 de Maio de 1889.
[6] A Voz de Torres Vedras, 22 de Junho de 1889.
[7] A Voz de Torres Vedras, 8 de Junho de 1889
[8] A Voz de Torres Vedras, 11 de Junho de 1889
[9] A Voz de Torres Vedras, 26 de Junho de 1889.
[10] A Semana, 6 de Junho de 1889.

domingo, 31 de maio de 2009

Torres Vedras há 120 anos, na imprensa regional - Maio de 1889

O semanário “Voz de Torres Vedras” (VTV), na sua edição de 11 de Maio, anunciava várias “obras municipais”, empreendidas pela Câmara, consideradas de “bastante utilidade”. Para além “da arborisação nos terrenos adjacentes ao largo da Graça e Avenida, e de ter augmentado a já existente nas praças e alamedas, mandou calçar a viella mais immunda que havia na Porta da Várzea, e igualmente as ruas próximas, que no inverno eram verdadeiros lamaçaes”. Considerando estes melhoramentos “já muito, em relação ao costume”, achava, contudo, que não era ainda o suficiente, pois “a hygiene da villa está reclamando outras medidas.
Nessa mesma edição, onde se anunciava a edição em Portugal da obra de “Frederico Engelo” (sic), “o Socialismo utópico e o socialismo scientifico”, dava-se conta dos graves efeitos sociais da crise vinícola que então se vivia na região, informando-se que na Freguesia da Carvoeira e na vizinha Merceana, se estavam a retirar “para os arrabaldes de Lisboa muitos indivíduos em procura de trabalho, que n’aquelles logares escasseia”, sendo o pouco existente “mal retribuído (…), pois que é de 240 réis o salário que os proprietários estão pagando”.
Já na sua edição de 9 de Maio, o semanário “A Semana” dava conta do mesmo problemas, referindo que os “trabalhadores de enchada, que no anno passado venciam 400 réis, o mínimo, por dia, no presente pagam-se a 200 réis, e não há em que os empregue”.
Nesta mesma edição, referia-se como uma das principais causas da crise na região a falta de trabalho na viticultura, porque “os poucos vinhos que se recolhem nas adegas, não teem sahida, e quando a encontram é por preço tão baixo, que ficam os proprietários da mesma sorte desaremediados”, lamentando-se o articulista com a “crise medonha”, a vida caríssima e a paralisação do comércio.
Na sua edição de 25 de Maio, o mesmo semanário dava conta das queixas que lhe tinham chegado da “classe trabalhadora” do concelho que, recorrendo “ao seu importante jornal para a advogar na terrível crise de trabalho que estamos a atravessar”, e que a obrigaria a emigrar, “caso as obras públicas não abram trabalhos”. E exemplificava com as obras necessárias da estrada de S. Pedro da Cadeira, “que parece que mais uma vez ficou no esquecimento, e que podia na presente crise mitigar a fome a muitas famílias, se os influentes eleitoraes se lembrassem d’este triste povo, como se lembram quando precisam do seu voto para os arranjos”. Ontem, como Hoje…
S.Pedro da Cadeira era igualmente motivo de notícia noutra parte dessa edição, pelo facto de, por iniciativa dos taberneiros daquela aldeia, ter sido apresentado um abaixo assinado requerendo ao Cardeal Patriarca para ordenar “a transferência da missa conventual, para as 11 horas da manhã, isto é, pouco depois do almoço, visto que, como agora succede, sendo a missa pouco depois do sol nado, os devotos em jejum não fazem gasto” nas ditas tabernas, prejudicando o negócio.
Um anúncio publicado na edição de “A Semana” de 9 de Maio indicava a abertura, no Colégio de Nª Srª da Conceição, na Travessa da Olaria, nº 22, de uma classe infantil onde se leccionavam as primeiras letras pelo “methodo Simões Raposo”, ao preço de 500 réis.
Ainda na mesma edição, informava-se que constava que se ía estabelecer “uma escola municipal de instrucção secundária em Torres Vedras, onde se leccionará portuguez, francez, arithmetica, desenho e escripturação commercial”, a funcionar “na camerata do edifício da Graça”.
No mesmo edifício do antigo Convento da Graça foi deliberado, em reunião camarária desse mês que “se desse incremento aos trabalhos de adaptação da parte” desse edifício “destinado à cadeia civil, afim de serem para ali transferidos os presos, o mais depressa possível” (A Semana, 9 de Maio).
26 de Maio era dia de festa no Turcifal, dedicada a S. Sebastião, com arraial, “tocando a phylarmonica da Ermejeira, e subindo no ar innumeros foguetes de óptimo effeito” (VTV, de 25 de Maio).