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terça-feira, 19 de abril de 2022

Petróleo em Torres Vedras


Data de 1862 a primeira referência à existência de “óleo-petróleo” no território torriense, “junto aos banhos dos Cucos  e dos Coxos e no sítio dos Amiais” que “merecia ser explorado”. (1).

É preciso esperar pelo final do século XIX para surgirem os primeiros registos da descoberta de locais no concelho, com potencial na exploração de petróleo.

Foi em 1878 que um tal João José de Corpas registou a descoberta de uma mina de “calcário betuminoso” na Serra do Cabaço, na então freguesia de Matacães, cuja exploração foi concedida, por alvará do Diário do Governo de 23 de Novembro de 1880 à sociedade António Pinto & Companhia, constituída pelo descobridos e por João António Pinto, Joaquim Wagner Russel e Joaquim Maria de Oliveira Vale. Da exploração dessa “mina” pouco mais se sabe, a não ser que naquela serra, como ainda é visível actualmente, “se explorou durante alguns anos em pedreira a céu aberto” calcário e de onde se extraiu “matéria betuminosa que era depois utilizada e aplicada como asfalto”.

A mina da Serra do Cabaço foi declarada abandonada em Diário do Governo de 23 de Maio de 1898 e “em campo livre dois anos mais tarde” em Diário do Governo de 10 de Abril de 1900.

No relatório de reconhecimento dessa mina, feito no ano da sua descoberta, em 30 de Dezembro de 1878, da autoria do engenheiro Francisco Ferreira Roquette, chamava-se também a atenção para a “presença de numerosas e extensas galerias antigas praticadas nas rochas impregnadas de betume no sítio denominado da Cova da Moura” (2).

Por ocasião da abertura do túnel do Cabeço do Cabrito, em 1885, durante a construção do caminho-de-ferro, tanto nesse túnel com nas escavações efectuadas  junto do mesmo foram encontradas “fendas e geodes cheios de hidrocarboneto líquido, de que os operários se utilizavam como petróleo” (3).

Uma nova mina de “calcário Betuminoso” em Torres Vedras foi registada em 1900 com a designação de “Vale Escuro”, abrangendo uma área que “se sobrepunha, em grande parte, à da Serra do Cabaço” e integrada na freguesia de Santa Maria do Castelo.

Foi declarado “descobridor legal” um tal Rafael da Cruz Lezameta, tendo concedido os direitos de exploração dessa mina a uma companhia inglesa a “The Portuguese Petroleum Syndicate, Ltd.”,por alvará publicado em Diário do Governo de 28 de Abril de 1906.

A relação com aquela companhia inglesa teve origem no facto do tal Lezameta, que estava em tratamento nas Termas dos Cucos, ter conhecido um inglês, Coll Taylor que, conhecendo aquela descoberta “emitiu opinião de se tratar dum indício de petróleo em profundidade, pelo que fizeram em comum um manifesto de descoberta de petróleo” (4).

Segundo o autor que temos estado a citar, Fernando Macieira, “Lezameta e Coll Taylor se podem considerar os pioneiros do petróleo em Torres Vedras, e que o ano de 1901 em que, segundo Paul Choffat, se desenrolaram estes acontecimentos, é um marco na história do petróleo em Portugal” (5).

Em 1902 Lazameta pediu a Paul Choffat um relatório “sobre as condições geológicas de Torres Vedras, a fim de ser submetido a especialistas de pesquisa de petróleo” (6).

A notícia espalhou-se e “Torres Vedras atraiu a atenção dos pesquisadores. Local onde aparecesse presumível indício de petróleo logo era registado, e assim o País foi coberto de registos mineiros”, principalmente nos distritos de Lisboa e Leiria, estando registados em 1907, nestes distritos, 215 registos mineiros (7).

Contudo, não há notícias de se terem efectuado trabalhos e exploração no “Vale Escuro”, apenas a realização de duas sondagens, em 1905, as duas primeiras de pesquisa de petróleo na região, dirigidas pela concessionária inglesa, uma a nordeste do casal do Repelão, outra, depois de abandonarem aquela,  a sul da Quinta das Conquinhas.

A sondagem a nordeste do Repelão, dirigida pelo inglês William Calder,  foi “a primeira sondagem profunda para pesquisa de petróleo em Portugal”, tendo parado “ a uma profundidade vizinha dos 200 metros”, devido a uma avaria no “trépano”, mas tendo encontrado vestígios petróleo e de gás.

Abandonada aquela, iniciou-se nova sondagem, desta vez a sul da Quinta das Conquinhas e do actual Asilo de S. José, chegando à profundidade de 480 metros, sendo interrompida por novo acidente, “encravamento do trépano, hastes e tubagem”. Perante este fracasso, a companhia inglesa passou os seus direitos para a Sociedade Portuguesa de Terrenos Petrolíferos, a qual, “após ter resolvido o acidente, prosseguiu a perfuração até aos 518 metros, profundidade a que a sondagem parou definitivamente, em Dezembro de 1912, devido a novo acidente” (8).

Entretanto. aquela Sociedade, por fusão com outra, deu origem à Companhia Petrolífera Portuguesa, formada em 1908, que foi a responsável, a partir dessa data, pelas referidas prospecções e por novas perfurações, uma, realizada entre 1908 e 1910 até uma profundidade de 721 metros, perto da Quinta das Fontainhas e dos Cucos, e outra no Vale do Cabrito, junto à Quinta da Certã, realizada entre 1911 e 1912, até uma profundidade de 363 metros, interrompida devido a um acidente e por falta de capitais.

“Os resultados obtidos com estas sondagens não foram além da obtenção de indícios da existência de petróleo em profundidade, testemunhado pelo aparecimento de betuminosos na água de injecção da sondagem, acompanhados, por vezes, de emanações de gás” (9).

Foi necessário esperar pelo final da década de 1930 para se voltarem a realizar sondagens no concelho de Torres Vedras.

Por portaria de 7 de Abril de 1937 foi aberto concurso “para prospecção, pesquisa e concessão de hidrocarbonetos e substâncias betuminosas na área cativa” onde se incluíam as área de Torres Vedras, concurso esse ganho pelas companhias “Henry Joshua Pierce e Claude Hope Morley” e  “Anglo-Ecuadorian Oilfields, Lda.”, incumbindo os concessionários, à firma inglesa “A. Beeby Thompson & Partners” a realização de estudos geológicos no país, cujo resultado foi publicado em 1938, colocando em relevo, entre outras áreas do país a serem pesquisadas, “por entenderem que oferecem condições mais favoráveis à existência de petróleo”, o “Vale de Abadia”, em Torres Vedras (10).

Neste “Vale de Abadia”, a sul do actual Hospital de Torres, a oeste da estrada para Lisboa, na encosta do actual Bairro Vila Morena, realizaram-se duas sondagens.

A primeira sondagem teve início em 18 de Dezembro de 1939, parando a pouco mais de mil e cem metros, em 14 de Setembro, devido à “fraca potência da sonda”, mas, apesar “de não ter sido atingida a profundidade projectada, os resultados obtidos (…) foram bastante interessantes”, tendo encontrado “indicações de petróleo desde cerca de 96 metros” e de forma mais acentuada na profundidade entre os 581 e 630 metros.

Tendo interrompido aquela sondagem, e enquanto aguardava por material mais resistente para a prosseguir, foi efectuada uma segunda sondagem, a uns 400 metros a nordeste da primeira, que se iniciou em 23 de Janeiro de 1941, mas que teve de ser interrompida em 15 de Fevereiro dessa ano, quando já estava à profundidade de 160 metros, devido aos efeitos do ciclone que teve lugar nesta data, tempestade que danificou as torres de ambas as sondagens, bem como “a máquina de sonda  e outro material” (11).

Devido a esse facto e a outros problemas, aquela prospecção foi interrompida por mais de 6 anos, até a Repartição de Minas receber um requerimento, datado de 8 de Fevereiro de 1946, da Anglo-Portuguese Oil Company, Ltd.”solicitando autorização para efectuar trabalhos de prospecção geofísica na área da concessão”, autorização concedida de imediato, mas a título precário.

Os trabalhos de prospecção foram entregues por aquela companhia a uma empresa sueca especializada, tendo escolhido como primeira região escolhida para investigação, usando o método sísmico, o Vale da Abadia em Torres Vedras, começando os trabalhos em 26 de Março de 1946, os quais duraram até 19 de Julho desse ano.

Nesse período a companhia contratou um engenheiro inglês para iniciar a perfuração daquele local, aproveitando, depois de o reparar, o material que aí se encontrava, que tinha sido danificado pelo ciclone de 1941, trabalho iniciado em Julho de 1946, mas, não obtendo resultados, estes foram interrompidos em Outubro.

Esse mesmo engenheiro procedeu também “ a um reconhecimento geológico  em Torres Vedras, compreendendo as regiões de Runa, Matacães, Ordasqueira, Benfica, Gibraltar e Varatojo, durante o qual abriu 70 pequenos furos, num total de 250 metros”.

Com base nas suas investigações esse engenheiro, J.L. Mac Leod, aventou a teoria segundo a qual o “petróleo estaria muito mais à superfície” do que aquilo que sondagens anteriores revelavam. Baseado nessa teoria iniciou, em Maio de 1947, uma nova campanha de sondagens na zona do Varatojo, “campanha” que decorreu até Novembro, efectuando-se nove sondagens, revelando todas elas vestígios de petróleo.

No final desse ano os direitos dessa prospecção passaram para a Companhia dos Petróleos de Portugal que tinha sido fundada em 25 de Junho desse ano e que continuou a realizar sondagens (12).

Na década de 50 do século XX, continuaram a fazer-se prospecções, uma delas, realizada em 1951 no Vale da Abadia, “com profundidade de 2 340 metros produziu óleo nos testes” e, outras duas realizadas em 1954, uma “com 147 metros produziu (…) 170 400 litros durante 8 meses” e outra, a 190 metros, “produziu 4 000 m3/dia de gaz” (13).

A fraca rentabilidade económica dessa exploração levou ao abandono definitivo dessas estações de prospecção no final da década de 1950.

Foi preciso esperar mais de 50 anos para, já neste século XXI, se voltarem a fazer prospecções e sondagens, para procurar petróleo e gás neste concelho, duas em 2005, outras em 2011 nas freguesias de S. Pedro da Cadeira e Ventosa e, entre 2011 e 2012, em vários locais do concelho, usando a técnica de “propecção sísmica”, sob responsabilidade de uma companhia canadiana (14).

Numa altura de crise energética, mas também de crescentes preocupações ambientais, este é um tema que volta a ganhar actualidade, até porque essas prospecções não revelaram apenas a existência de petróleo, mas também de gás.

Como diria um amigo nosso, com preocupações ambientais e na defesa do nosso património, “só cá nos faltava o petróleo”!!

(1)    os editores de MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descrição Económica da Vila e Termo de Torres Vedras, (1ª edição em 1835, 2ª edição com notas dos editores, manuscrita, terminada em 1865, 3ª edição impressa em Dezembro de 2020 pela CMTV e ed. Colibri), nota 64 dos editores, pág. 117;

(2)    MACIEIRA; Fernando A. C. Gonçalves, Planificação Histórico- Cronológica das Pesquisas de Petróleo em Portugal, saparata do fasc. II do Vol. IV de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”, Porto 1948, págs.14-15;

(3)    MACIEIRA, ob. cit, pág.17;

(4)    MACIEIRA, ob. cit., pág.18;

(5)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(6)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(7)    MACEIRA, ob.cit., pág.19;

(8)    MACIEIRA, ob. cit., pág.25;

(9)    MACIEIRA, ob. cit. Pág.26; 

(10)  MACIEIRA, ob. cit., pp. 64 a 66;

(11) MACIEIRA, ob. cit. pp. 66 a 70;

(12) MACIEIRA, ob. cit. pp.70 a 74;

(13)PIRES; Pedro Miguel Paiva Trancha Correia, Estudo do Potencial Petrolífero de uma região no Onshore da Bacia Lusitânica : Sub-bacia Arruda, Vale da Abadia, Anticlinal de Montejunto, dissertação de Mestrado em Engenharia de Petróleos, Outubro de 2012, Instituto Superior Técnico, pág.5;

(14)PIRES, ob. cit.

ANEXO FOTOGRÁFICO (Fonte: MACIEIRA, ob. Cit.):













quinta-feira, 10 de março de 2022

1865 – Um “Carnaval torriense” que acabou à pancada.

São raras as notícias sobre o modo como o Carnaval era comemorado em Torres Vedras, antes do aparecimento da imprensa local, em 1885.

Existe uma referência, em 1574, à realização de brincadeiras de carnaval em Torres Vedras , uma queixa contra abusos cometidos numa dessas brincadeiras, comuns no resto do país. As referências, na imprensa local, a partir da segunda metade da década de 80 do século XIX, referem a falta de animação e de “graça, passada nesses dias, nesta localidade.

O carnaval de rua limitava-se ao desfile de uns raros grupos de mascarados. Onde a animação era maior era nos salões de baile, em casas particulares, em teatros improvisados ou no Clube Torreense, onde também se realizavam teatros e récitas humorísticas.

É provável que, na correspondência local de jornais lisboetas, seja possível encontrar referências à forma como se celebrava a época carnavalesca, em Torres Vedras, entes de 1885.

Contudo, recorrendo apenas à imprensa acessível na internet, encontra-se uma rara referência aos “festejos carnavalescos” em Torres Vedras antes dessa data, em 1865, não tanto motivada pelos festejos em si, mas pela forma como eles acabaram, em sessão de pancadaria.

Tudo aconteceu no Domingo 26 de Fevereiro de 1865, quando cerca de oitenta populares, vindos do Barro, do Varatojo e da Serra da Vila, armados (de varapaus?), assaltaram “o pequeno teatro de curiosos da villa de Torres Vedras” onde decorria uma récita carnavalesca (1).

Uma versão mais detalhada foi apresentada nas “Cortes” pelo deputado Barros e Cunha, onde este contou que, estando alguns habitantes de Torres Vedras no “teatro da vila”, nesse Domingo Gordo, “representando uma comedia inocente, das muitas que por ahi há, sem alusão alguma religiosa, e que não servem senão para fazer rir e passar tempo às pessoas do campo, nos dias destinados a estes folguedos nacionais”, no  “momento em que se achavam no teatro”, a vila foi invadida por “habitantes do Barro e Varatojo armados completamente em numero mais de oitenta gritando – mata, mata os casacas que estam a escarnecer Nosso Senhor Jesus Christo e a Santissima Virgem” (2).

Algumas pessoas que estavam dentro do teatro saíram do edifício e foram receber os manifestantes para tentar acalmar os ânimos, mas foram insultadas e agredidas, algumas com gravidade (3).

Entre os agredidos estava o presidente da Câmara, o vice-presidente e o “recebedor”, pondo os agressores em “debandada” os cabos de polícia. Só mais tarde, “depois de muita gente ferida e de grande perturbação no animo de todos aquelles povos, conseguiram po-los fôra da villa pelos meios que n’aquella ocasião poderam obter do socorro dos cidadãos, que generosa e denodadamente se arriscaram, sem distinção de classe ou de cor política” (4).

“Aquelles allucinados maltrataram homens respeitados da terra, que se dirigirão  eles para os convencerem a retirar-se e só a muito custo a autoridade pôde, reunindo cabos de polícia e outros auxiliares, faze-los sahir, e evitar grandes desgraças que estiverão iminentes” (5) .Correio Mercantil)

A razão da revolta das populações daquelas aldeias, próximas da vila, estava relacionada com o rumor, segundo o qual se ia representar, no teatro, uma paródia à acção local dos frades do Barro e que, “no fim da representação se fuzilariam as imagens de Christo e da Virgem” (6).

Recorde-se que, cinco anos antes desses acontecimentos, e depois de expulsos em 1834, os frades tinham voltado a ocupar os conventos do Barro e do Varatojo.

Segundo algumas notícias , dizia-se que os “frades do Barro não eram estranhos a esta scena de barbárie, excitando o fanatismo dos povos com intento de provocarem uma grave questão religiosa” (7).

Essa versão foi confirmada pelo deputado Barros e Cunha que alargava a acusação, na instigação desses actos, não apenas aos frades do Barro, mas também os do Varatojo, “dois ninhos onde se abriga uma reacção politica debaixo do manto da religião”, cujos “missionários, fanatizando o povo em nome da religião, têem o único fim de tomar conta das consciências, que não estão suficientemente illustradas  para conhecerem onde acaba e principia a autoridade da terra, a fim de poderem depois lança-las n’esta luta barbara” (8).

Os acontecimentos tiveram grande impacto na imprensa portuguesa, chegando mesmo a ser divulgados na imprensa brasileira, sendo também, como referimos,  tema   de uma intervenção nas “Cortes” do deputado João Gualberto de Barros e Cunha, na sessão de 1 de Março de 1865.

Barros e Cunha tinha sido eleito pelo círculo que representava Torres Vedras e pertencia ao Partido Progressista, oriundo do extinto Partido Histórico, apoiante do Duque de Loulé durante a Patuleia, chegando mesmo a ministro, era proprietário nascido em Runa, em 1827, local onde veio a falecer em 1882.

Barros e Cunha já havia denunciado antes, nas suas intervenções parlamentares, aquilo que ele considerava como sendo fanatismo doutrinário e religiosa dos frades do Barro, e apresentou este caso como prova das suas preocupações.

Nessa sessão, o referido deputado apresentou um voto de louvor aos cidadãos que “se distinguiram na ocasião dos perigos”, enfrentando os atacantes, “o nobre presidente da Camara, o sr. Luiz Augusto Martins, (…) o vice-presidente José Avellino Nunes de Carvalho, que se acha perigosamente ferido, (…) o sr. Tavares de Medeiros Junior, recebedor da Câmara; o dr. Ribeiro, advogado em Torres Vedras; o sr. Henrique Francisco Bizarro”, sendo estes os nomes que lhe foram indicados pelas autoridades, mas acrescentando que o “que já sei com certeza é que todo o povo, ricos e pobres, tudo se comportou de maneira que mereceu o louvor do representante do paiz” (9).

Outras versões não incriminavam directamente os frades do Barro nesses acontecimentos:

“Dizem outros que houve quem abusasse da influencia que os padres alcançaram no povo, empregando o nome deles para provocar o mesmo povo a estes excessos, a fim de os comprometerem”, acrescentando “que isto se confirma, porque as pessoas que se amotinaram maltratarão, não são desafeiçoadas aos frades” (10).

Para acalmar os animos foi enviada para Torres Vedras “uma força de caçadores 5 e um piquete de cavalaria da Guarda Nacional” (11).

Sobre as consequência penais desse acto, talvez só consultando as correspondência do Governo Civil de Lisboa, depositada na Torres do Tombo se possa saber algo mais, já que, infelizmente, todo o arquivo da administração do concelho de Torres Vedras, onde se publicavam os relatórios e se arquivava a correspondência sobre as ocorrências locais, foi destruído por ocasião da “Janeirinha”, em 1868, pelo que não existe, em Torres Vedras, esse tipo de documentação, anterior a essa data.

Em anexo publicamos uma reprodução daquela que é a mais antiga imagem sobre um acontecimento relacionado com o Carnaval em Torres Vedras.

Foi publicada no citado “Annuario do Archivo Pittoresco”, em primeira página, na edição nº15, de Março de 1865 (página 113 da edição anual, encadernada) e é da autoria de um dos mais consagrados desenhadores e gravadores da imprensa no século XIX, João Barbosa de Lima.

Essa gravura foi realizada por esse desenhador, a partir do esboço de uma testemunha dos factos, deslocando-se Barbosa de Lima a Torres Vedras para rectificar o desenho com tal testemunha.

A gravura revela um largo, ladeado à esquerda por uma parede, que parece a estrutura de uma Igreja, na qual está um candeeiro. O único largo que conhecemos, que se parece com o do desenho, é o Largo de Santiago. As figuras em confronto usam aquilo que parecem varapaus, uma “arma” muito popular por essa altura.

Esta é, assim, uma das mais antigas descrições de um acontecimento local, ocorrido durante um Carnaval, revelando, igualmente, que já, nessa altura, os habitantes da vila de Torres Vedras reuniam-se num espaço teatral, para assistir a récitas e representações humorísticas e satíricas.



(1)    – Annuario do Archivo Pittoresco [AAP], nº15, Março de 1865, pág.120;

(2)    – in Diário do Governo [DG]  – Cortes – Camara dos Senhores Deputados, sessão de 1 de Março de 1865, p. 575;

(3)    – [AAP], ob. cit.,  p. 120;

(4)    – [DG], ob. cit, p. 575;

(5)    – in Correio Mercantil [CM], Rio de Janeiro, 4 de Abril de 1865;

(6)    – [AAP], ob. cit., p. 120;

(7)    – [AAP], ob. cit., p. 120;

(8)    – [DG], ob. cit., p.576;

(9)    – [DG], ob. cit, p. 577;

(10)                       – [CM], ob. cit.;

(11)                        - [CM], ob. cit;

quarta-feira, 26 de maio de 2021

O “crime das Fontainhas” (1886).


Quem entrar no cemitério de S. João, talvez já tenha reparado na grande lápide, logo à esquerda, um paralelepípedo em pedra envelhecida, com uns dizeres gravados, onde ainda se consegue ler, em francês: “Ici Repose Abel Marty/ Né A Paris En 1840/ Decédé A Torres Vedras / Le 26 Avril 1886/ Souvenir des Siens” ( “Aqui repousa Abel Marty/ nascido em Paris em 1840/ morto em Torres Vedras/ em 26 de Abril de 1886/ Recordação dos seus”).

Muita gente talvez já tenha ouvido falar neste Abel Marty e no crime de que foi vítima, conhecido pelo “Crime das Fontainhas”, que muito impressionou as pessoas da época, assunto muito divulgado e discutido na imprensa da nacional e que ficou registado na memória de gerações de torrienses.

Um ano antes desse crime, já a imprensa local alertava para as graves tensões socias que se viviam entre os trabalhadores do caminho-de-ferro, sendo notícia, em Maio de 1885,  um motim dos operários que trabalhavam na construção dos túneis à entrada da vila.

Esses operário estavam a trabalhar às ordens do engenheiro Marty, os quais, “queixando-se de que não eram pagos conforme o ajuste, e que o mesmo empreiteiro lhes recusava os pagamentos”, dirigiram-se, na noite da 3ª feira 7 de Maio de 1885, à quinta das Fontainhas, onde Abel Marty  estava hospedado, assaltando-a “com grandes berratas sediciosas. Uma grande parte das vidraças foram feitas em pedaços”, obrigando à fuga do empreiteiro. Avisadas as autoridades da vila, “marchou immediatamente para as Fontainhas uma força de cavalaria 4 e caçadores 6” a qual, ao chegar à quinta, encontrou os ânimos mais serenados. Contudo, o articulista referia informações recolhidas, segundo as quais  “os operários têm tido bastante rasão de queixa quanto à pontualidade de pagamento”, avisando, de forma premonitória que, se “o caso assim continua, queira Deus que não tenhâmos a lamentar algum infausto sucesso”  ( Jornal de Torres Vedras de 7 de Maio de 1885).

Com base em várias descrições existente(1), traçamos uma breve síntese sobre esse trágico acontecimento.

Albert Marty, de 46 anos,  era engenheiro francês e tinha tomado de empreitada, em conjunto com outro engenheiro seu compatriota, Eugenio Béraud, a construção dos 3 túneis a sul da estação de caminho-de-ferro da vila.

Marty era um engenheiro experiente e conceituado, responsável pela construção de túneis em várias linhas férreas europeias, na Suíça, na Bélgica e na Alemanha.

Béraud vivia perto da vila, na quinta da Certã e Marty tinha alugado, para habitar, a quinta das Fontainhas, próxima do lugar dos Cucos, junto à estrada mais movimentada da altura, que ligava Torres Vedras a Alhandra, bifurcando para Lisboa junto a Dois Portos.

Junto com Marty habitavam a esposa, o filho, um criado e uma criada, e um casal de caseiros.

Dias antes do crime, em 20 de Abril, a esposa e o filho tinham partido para França.

Era a partir da quinta que Marty “superintendia nos trabalhos dos tunneis, em que andavam empregados algumas dezenas de operários, práticos n’aquelles perigosos serviços; a maior parte, porem, era gente indisciplinada, de péssimos costumes, dado à embriaguez e á crápula, e desordeira; e muitos, segundo constava, tinham tomado aquelle mister como um refugio contra as perseguições da justiça, com a qual tinham contas ainda não saldadas” (SOTTOMAYOR, p.96.).

Por esses dias Abel Marty tinha despedido, por motivos disciplinares, o operário Marcial Diaz, um galego da região de Orense que trabalhava no túnel da Boiaca, que, em surdina, terá proferido ameaças de vingança, mas desparecendo sem deixar rasto.

Alguns dias depois desse acontecimento, no domingo dia 25 de Abril, alguns operários cruzaram-se em Torres Vedras com o dito Marcial acompanhado por dois outros indivíduos desconhecidos destas bandas. Eram dois operários mineiros que Marcial “fôra desencaminhar aos trabalhos da via férrea do Algarve, onde andavam ocupados” (SOTTOMAYOR, p.96).

Chamavam-se José Valliño, alcunhado de “o Corunhez”, devido à sua origem, natural de uma aldeia próxima da cidade galega da Corunha, de 25 anos, e Juan Lopez, alcunhado o Barellas, de 23 anos, natural de uma aldeia da província de Lugo.

Em Torres Vedras, veio-se a saber depois, compraram as facas usadas no crime no estabelecimento de Cândida Rosa.

Avisado dessa presença, Marty recolheu a casa mais cedo e, na noite desse domingo, algumas testemunhas viram aqueles três trabalhadores e rondar a quinta das Fontainhas.

O dia 26 de Abril, uma segunda-feira, “foi um dia primaveril de sol radiante” e, nessa tarde, os muitos frequentadores da “estrada de Alhandra” não suspeitaram de três indivíduos “que em plena luz, ás 4 e meia da tarde, iam socegadamente pela estrada fóra, e chegando ao portão de ferro da quinta das Fontainhas, por ali penetraram e seguiram pela rua orlada de buxo em direcção à casa”.

Por essa altura, o engenheiro francês estava no seu escritório, a trabalhar no desenho de uma planta, encontrando-se na casa, para além dele, uma criada de 16 anos, Sofia da Conceição, preparando o jantar, já que o criado tinha ido em serviço a Torres Vedras. Noutra casa anexa estava a caseira a costurar (SOTTOMAYOR, p.97).

Os três criminosos separaram-se. Marcial dirigiu-se para o anexo onde estava a caseira, ameaçando-a e impondo-lhe o silêncio.

Os outros dois bateram à porta da casa principal, sendo recebidos pela criada que os indagou sobre o motivo da sua presença, tendo estes penetrado de imediato na casa e dizendo o “Corunhez” que estavam “ali para que mr.Marty lhe pagasse um dia e serviço que lhe estava devendo”, ao mesmo tempo que também entrava o segundo assaltante, o “Barellas”.

Dirigiram-se para o escritório, ficando o “Barella” junto da criada, do lado de fora dessa divisão, a quem ameaçou com  uma faca que este entretanto sacou, entrando o “Corunhez” no escritório, exigindo ao espantado engenheiro que este “lhe pagasse um dia de trabalho”, ao que Marty respondeu “ Eu não o conheço; mas se se lhe deve um dia, vá chamar o apontador, e já se lhe paga”.

Foram as últimas palavras do malogrado engenheiro pois que, de imediato o “Corunhez” se precipitou “sobre o infeliz Marty, vibrando-lhe a primeira facada que penetrou profundamente na virilha esquerda”, seguindo-se uma luta desigual, continuando o empreiteiro francês a ser esfaqueado pelo criminoso, mas a vítima ainda se conseguiu arrastar até ao quarto.

Em sua perseguição, acompanhado pelo segundo assaltante, que entretanto largou a criada, forçaram a entrada no quarto, à procura de bens, cabendo desta vez ao “Barellas” golpear no pescoço a vítima já moribunda, a quem roubaram o relógio de corrente, único bem que conseguiram obter do assalto.

Livre dos assaltantes a criada “precipitou-se pela porta fóra em corrida vertiginosa, gritando, louca de pavôr”, o que “desorientou os assassinos”, levando também a que o “Marcial” abandonasse a caseira que mantinha sob ameaça, desatando os três a fugir pelas traseiras da casa.

A criada refugiou-se na casa da caseira, permanecendo aí as duas por cerca de um quarto de hora, receando a volta dos criminosos. Só quando confirmaram a fuga dos assaltantes é que saíram, indo pedir auxilio à quinta da Certã, que fica próxima.

Alertadas as pessoas, logo ocorreu muita gente ao local do crime, chegando de seguida as autoridades concelhias, que apenas puderam confirmar o óbito de Marty e iniciar a perseguição dos criminosos, com uma força de cavalaria, que regressou de noite sem descobrir o seu rasto.

Estes tinham fugido pelas traseiras da casa. Passaram a primeira noite escondidos “n’um palheiro dashaditado na charneca da Bogalheira”, a caminho do Bombarral, onde também passaram o dia seguinte, continuando então “a caminhar em direcção á estrada, que foram seguindo sempre até Pombal”.

Só em meados de Maio os criminosos foram descobertos e detidos, numa taberna nas proximidades do Pombal, sendo antão conduzidos para Torres Vedras, onde chegaram na sexta-feira 7 de Maio, sendo aguardados por uma multidão silenciosa e  pelas autoridades locais.

Interrogados pelo juiz de direito, foram de seguida conduzidos cadeia, onde ficaram  a aguardar pelo julgamento. ( SOTTOMAYOR, p.98 a 101).

O julgamento teve lugar no dia 12 de Agosto, presidido pelo juiz Lucio Xavier de Lima com a presença de muito público e de 10 jurados, para além dos advogados de defesa e dos réus.

Por volta das 8 horas da noite foi lido o veredicto, sendo provado que o “Marcial” foi quem planeou o assalto, o “Corunhez” foi quem desferiu a maior parte dos golpes mortais e que o “Barellas” completou o crime cortando o pescoço da vitima, quando esta ainda estava viva.

Cada um dos réus foi condenado a 10 anos de prisão maior celular, seguida de 20 anos de degredo nas colónias, dos quais 2 em prisão ou, em alternativa, em 31 anos de degredo, 10 dos quais em prisão cumprida no degredo (D.João da Camara, Jornal de Torres-Vedras de 19 de Agosto de 1886).



O “Corunhez” e o “Barella” morreram na prisão, entes do cumprimento da pena, o primeiro, atacado de “alienação mental”  em 1892, falecido em 1894, e o segundo falecido na penitenciária em 1892.

Marcial Diaz, por sua vez,  com três louvores pelo seu bom comportamento na penitenciária, seguiu para África em 1894, para cumprir o resto da pena, desconhecendo-se o seu destino posterior.() SOTTOMAYOR, p.107.

Uma explosiva combinação, entre a falta de cumprimento nos pagamentos, as  péssimas condições de trabalho na via férrea, provocando muitos acidentes fatais referidos por várias vezes na imprensa loca,  a péssima relação de Marty com alguns dos seus trabalhadores, a concentração de dezenas de trabalhadores de várias origens e desenraizados, muitos de origem estrangeira, principalmente galegos, onde se misturavam , com mineiros e operários à procura de trabalho,  autênticos bandoleiros, alguns fugidos à justiça do país de origem, , culminou na tragédia que vitimou esse engenheiro francês  em 26 de Abril de 1886.

(1) seguimos principalmente a narrativa de Agostinho Barbosa Sottomayor, “O assassínio de Engenheiro Abel Marty em Torres Vedras”, in “O crime de Torres Vedras”, Galeria de Criminosos Célebres em Portugal, ed. António Palhares, Lisboa 1897, pp. 94 a 107. Esta mesma edição transcreve a reportagem do julgamento dos criminosos, da autoria de D. João da Câmara, publicado no “Jornal de Torres Vedras” em 19 de Agosto de 1886. Também recorremos ao relato dos acontecimentos feito pelo administrador do concelho de Torres Vedras, António Joaquim Gonçalves Rosa, em correspondência para o Governador Civil de Lisboa, registada no “Livro de correspondência da Administração do Concelho para o Governo Civil de Lisboa”, com a data de 14 de Maio de 1886, registo nº 90, ff. 2 a 9 verso, manuscrito existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras. Existem ainda várias outras referência aos acontecimentos, não só no já citado “Jornal de Torres Vedras”, mas em quase toda a imprensa nacional da época. Destacamos, contudo, a noticia publicada no “Diário Illustrado” que pode ser consultado na internet, no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

(excerto da correspondência do Administrador do Concelho para o Governador  Civil, com a descrição dos acontecimentos (AMTV).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Uma passagem de Joaquim Mouzinho de Albuquerque por Torres Vedras, em 1898


Figura controversa do colonialismo português do século XIX, mitificado pelo Estado Novo, Joaquim Mouzinho de Albuquerque ficou conhecido pelo episódio de Chaimite, em Moçambique, em Dezembro de 1895, que levou à prisão do célebre líder local Gungunhana.

Nomeado Governador-Geral de Moçambique em 1896, regressou a Portugal em Dezembro de 1897, sendo recebido com grandes manifestações calorosas por parte da população, fazendo depois uma digressão pelo país e pelo estrangeiro.

Numa dessas digressões, uma viagem de comboio até Leiria para homenagear a sua centenária avó, passou por Torres Vedras.

As autoridades locais prepararam uma recepção apoteótica, descrita nas páginas do jornal “A Vinha de Torres Vedras”, órgão de informação conotado com o chamado Partido Progressista, dominante no executivo municipal até à República, um dos partido do rotativismo da segunda metade do século XIX. O outro partido era o “regenerador”.

A passagem por Torres Vedras, a caminho de Leiria, de tão ilustre personagem, foi noticiada na edição de 30 de Dezembro de 1897 no jornal “A Vinha e Torres Vedras”, que, na sua edição de 6 de Janeiro de 1898, faz o relato detalhado dos principais momentos dessa visita.

Foi no dia 5 de Janeiro de 1898, uma 4ª feira, que Mouzinho passou pela então vila de Torres Vedras.

Mouzinho de Albuquerque foi acompanhado na viagem de comboio, desde a sua saída da estação do Rossio, pelo “sr. Alfredo Lecoq, deputado” pelo círculo eleitoral de Torres Vedras, pelo cunhado deste, “o sr. Joaquim Belford e pelos srs. Dr. Hermínio Duarte Ferreira e Dr. João Gualberto de Barros e Cunha”, este então redactor principal do jornal “A Vinha de Torres Vedras”, “como representantes do centro progressista d’esta villa e do syndicato agricola da região de Torres Vedras”. Mouzinho era também acompanhado pela esposa e pelo cunhado.

Todas aquelas personalidades “tomaram lugar no salão que a companhia real [do caminho-de-ferro] tinha posto à disposição do illustre official”.

Uma primeira paragem teve lugar na estação da Malveira para as saudações do comandante e oficiais da escola prática de infantaria e do executivo camarário de Mafra.

Nova cerimónia teve lugar quando o comboio chegou à primeira estação do concelho de Torres Vedras, a estação de Pêro Negro.

Recorde-se que, à data, o concelho torriense integrava o território do extinto concelho de Sobral de Monte Agraço, fruto de uma contestada decisão tomada pelo decreto de 26 de Setembro de 1895 que tinha extinto esse concelho e o de Arruda dos Vinhos, integrado-os no concelho de Torres Vedras, ao mesmo tempo que a freguesia torriense da Freiria era integrada nos limites de Mafra. Curiosamente, 10 dias depois da referida visita, em 15 de Janeiro de 1898, aqueles dois municípios voltaram a ganhar autonomia, ao mesmo tempo que a freguesia da Freiria foi reintegrada no concelho de Torres Vedras.

Esse foi o motivo de ter sido a estação de Pêro Negro, hoje pertencente ao Sobral, a escolhida pelo executivo torriense para receber o ilustre visitante, acompanhando-o a partir daí na viagem até Torres Vedras.

Um novo momento dessa viagem teve lugar na estação de Dois Portos, onde o comboio era aguardado pela “philarmónica da Ribaldeira, acompanhada de muito povo que recebeu com vivas e foguetes a chegada do comboio”.

Nessa estação, o visitante foi apresentado ao “sr. Silvério Botelho de Sequeira, secretario do syndicato agricola” e a “outros cavalheiros d’aquella freguesia”.

Na estação seguinte, a de Runa “estava na gare toda a officialidade do Asylo [militar], corpo de inválidos, e bastante povo”, sendo aí “Mousinho d’Albuquerque enthusiasticamente saudado”.

A maior recepção esperava-o na estação da vila:

“Renunciamos a descrever o aspecto verdadeiramente imponente que apresentava a gare d’esta villa, cuja ornamentação fôra dirigida pelo thesoureiro da commissão do Grémio Artístico Commercial, o sr. José Miranda, vistosamente embandeirada, e apinhada de povo a ponto de difficilmente se poder romper por entre a multidão compacta. A um lado da plataforma  via-se um numeroso pelotão dos soldados d’este concelho que hoje pertencem à reserva, e que tomaram parte nas batalhas de Moçambique. Eram ao todo 72 praças, de caçadores 7, cavallaria 2 e 4, e artilharia 1 e 6, todos uniformisados , tendo ao peito a medalha da Rainha D. Amélia, e commandados pelo sargento expedicionário de artilharia Luiz Augusto de Couto Lima.

“Ao centro via-se o Grémio Artístico Commercial, agrupado em volta do seu estandarte  hasteado pelo sócio José Cabral”.

Nessa ocasião Mouzinho recebeu “uma bonita pasta de pelluche azul e branca contendo o diploma de sócio honorário” concedido por essa colectividade.

“Três filarmónicas, duas d’esta villa e uma do Turcifal prestaram-se espontaneamente a abrilhantar a recepção”.

Depois de discursar o “sr. Lecoq, exaltando as vitorias militares do visitante”, subiram à carruagem salão, para o cumprimentarem, as “autoridades do concelho”, entre elas o administrador do concelho e o cónego António Francisco da Silva.

Agradecendo a recepção, Mouzinho não deixou de recordar a memória do seu avô, sepultado na Igreja de S. Pedro, falecido nesta vila na sequência de ferimentos sofridos na Batalha de Torres Vedras em 22 de Dezembro de 1846, um dos episódios mais dramáticos da guerra civil da Patuleia.

O comboio partiu depois a caminho de Leiria, juntando-se para o acompanhar até à última estação do concelho, a do Outeiro da Cabeça, várias personalidades locais e representantes de várias colectividades.

Os festejos continuaram em Torres Vedras, iluminando-se nessa noite o edifício da Câmara, a sede do Grémio Artístico e Comercial, a redacção do jornal “A Vinha de Torres Vedras”, a Associação 24 de Julho “e muitas casas particulares”.

“O Grémio Artístico mandou também illuminar o castelo com barricas d’alcatrão. Um grupo do Casino Torreense percorreu as ruas com archotes e acompanhado de uma filarmónica, dando vivas ao Mousinho de Albuquerque , ao executivo e à Pátria.

“O Casino deu também uma soirée  em honra” desse “nome glorioso”.

A pacatez habitual de uma vila de província do século XIX, muito marcada pelos ritmos agrícolas, foi assim marcada por um acontecimento incomum e que ficou na memória de muitos dos seus habitantes.

Incompatibilizado com os seus contemporâneos, desgostoso com a sua vida e a falta de reconhecimento , Mouzinho suicidou-se em 1902.

 

domingo, 3 de janeiro de 2021

PARA A HISTÓRIA DO LARGO DA GRAÇA


A propósito das obras de requalificação a decorrer no velho Largo da Graça, aqui recordamos um pouco da história desse espaço.

Na sua origem esteve a parte norte da antiga cerca do Convento da Graça.

Neste local existiu a antiga  Gafaria de Stº André, já documentada em 1309 e, segundo Madeira Torres rodeada de uma “larga cêrca” (1).

Quando a gafaria foi doada aos eremitas de Stº Agostinho em 1544, que para aí se mudaram em 30 de Novembro desse ano, retirando-se do antigo convento na “Várzea Grande”, herdaram também a referida “cerca”.

A  primeira pedra do novo convento foi colocada em 7 de Setembro de 1578, e a obra foi concluída por volta de 1580 (2).

 “O edifício estava rodeado a norte, poente e sul pela sua cerca, onde os agostinhos tinham uma vinha, muitas árvores de fruto, oliveiras, parreiras, uma horta e um poço” (3).

 A parte norte dessa “cerca”, devido à proximidade em relação ao centro da vila, foi muitas vezes palco de desentendimentos entre a Câmara e os eremitas.

Em 1736 a Câmara tentou mudar o mercado semanal, que se realizava às 3ªs feiras, para o Largo da Graça, mas sem êxito, por oposição dos frades.

Anos depois, em 1794, a Câmara contactou os frades para se colocar um chafariz a construir pelo município no “Largo do Convento”. “O chafariz de facto se construiu em forma de repuxo, mas nunca serviu, porque nunca se encanou a água “, tendo sido, “não há muitos annos[por volta de 1863]” demolido por inútil, e estorvar o tráfego do mercado que ali se faz mensalmente” (4).

Gravura Inglesa dos tempos da Guerra Peninsular, vendo-se o Convento a partir da Várzea(poente)

Em 1815 a Câmara voltou a designar o Largo da Graça para a realização do mercado mensal, por acórdão de 20 de Maio, “mandando também fazer barracas encostadas ao muro da Cerca do Convento e intimar todos os logistas para ali pôrem as suas lojas (…). As barracas chegaram com efeito a fazer-se mas n’ellas apenas os tendeiros, ou vendilhões  avulsos, hião por suas fazendas, e por fim foram mandados demolir por sentença, que os padres da Graça lançarão contra a Câmara, por serem feitas em terreno seu, e sem licença sua” (5).

Segundo Paula Silva os frades ainda chegaram a aceitar esse pedido da Câmara, mas na condição de as barracas se sustentarem por si “para evitar que o seu peso e balanço destruíssem o muro”, ao mesmo tempo que exigiram “que ficasse registado que aquele terreno lhes pertencia”. Ao que parece a Câmara não cumpriu o contrato e em 1824 os frades instauraram um processo contra a Câmara (6).

Em 20 de Março de 1832 a cerca foi arrendada por um período de 3 anos a Francisco de Assis e Silva e, depois da extinção do Convento em 1834, foi novamente arrendada em 21 de Julho deste ano, sendo finalmente vendida em hasta pública, juntamente com o Convento, em 1842, a Inácio Ferreira Campelo, pela quantia de 4 433$500 réis (7).

Gravura do Século XIX, vendo-se o sitio onde nasceu o jardim. Nota-se à esquerda, um aqueduto que transportava àgua a partir da "Fonte Nova" para o Convento e uma figura, no lado direito, junto de um poço.

Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área norte da antiga cerca do Convento da Graça, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

Em 1863 a  Câmara deliberou e efectuou vários melhoramentos no Largo da Graça “na parte que faz frente para aquella rua [da Olaria] , e a parte que encabeça com a estrada de Lisboa, e dá entrada para a entrada para a Igreja da mesma Graça, aterrando-se de novo a parte maior do Largo, que não hé calçado, e ficando assim mais livres de lama, que por ocasião do Mercado ali se formava, e tirando-lhe as agoas por meio de grandes valetas calçadas do lado do Nascente e Poente” (8).

Em 1885 foi nesse largo instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885.Este coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado (9).

O Convento, tendo passado por várias mãos após a sua extinção, veio a ser comparado pela Câmara em 21 de Abril de 1887, instalando aí vários serviços e repartições públicas, tendo incluído na compra parte da cerca, onde está o jardim actual (10), embora, como vimos anteriormente, parte dela já tivesse sido expropriada em 1857. O resto da cerca, a que rodeava o Convento a sul e a poente, conhecida por “cerca do Doutor Freire”, foi comprada em 16 de junho de 1926 pela Câmara aos herdeiros do Dr. Justino Freire para construir abegoarias, logradouros, novas ruas municipais e as novas cocheiras da Guarda Nacional Repúblicana”(11).

Fotografia de meados do Século XIX, do lugar onde foi construído o Jardim, vendo-se a cerca norte do Convento.


Em
Janeiro de 1886 o largo da Graça foi notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (12).

Finalmente, em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


Terá sido aquele cidadão, de origem italiana e então a viver em Torres Vedras, falecido em São Tomé e Príncipe, que “a 29 de Junho (…) falou em que era bonito dar ao Largo da Graça o aspecto de um passeio público, terraplanando-o, colocando-lhe bancos e candeeiros, e pondo-lhe ao centro um coreto de alvenaria e ferro, para a musica ali se fazer ouvir”. Previa um gasto de 2:000$000 réis e por isso “dias depois, em começos de Julho, principiava a pôr em prática o seu plano com tenacidade, abrindo a subscrição pública, e andando de porta em porta a solicitar donativos para o melhoramento público”, contando com o apoio do semanário local “A Semana” (13).

A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Junho de 1892, sendo inaugurado em 21 de Agosto, com festa e Kermesse.

Excertos da planta do Coreto (AMTV)

Raphael Bordallo Pinheiro desenhou a “barraca” do jornal “A Semana” colocado nessa ocasião no recinto da Kermesse (14).

Esse espaço foi baptizado com o nome do monarca que então reinava, D. Carlos . Em 1818 era conhecido por Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde funcionou a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome. Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada. Popularmente já era conhecido por Largo da Graça, nome que tem sobrevivido a todas as mudanças toponímicas desse lugar, muito marcadas pela conjuntura política (foi rebaptizado como Largo da República em 1911 e chegou a ser proposta a designação de Largo Sidónio Pais em 1919, intenção que não vingou. Como veremos mais à frente, essas mudanças toponímicas não se ficaram por aqui.


Duas fotografias da Ermida de Santana.


Em 12 de Maio de 1902 este largo foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.

visita da Rainha D. Amélia.


Várias vistas, em fotos e postais antigos, do Largo no tempo do Coreto

A decisão da Direcção Geral de Viação de instalar junto ao Jardim um posto fixo de fiscalização de trânsito, pelo ofício de 17 de Abril de 1934, (igual ao que hoje existe junto à capela de Nª Srª do Amial) provocou acesa polémica entre duas facções no seio da vereação camarária, alegando uns que aquele posto não ía colidir com o equilíbrio do Jardim, até porque, junto do mesmo, já existia um posto de abastecimento de gasolina (que aí esteve até há poucas décadas, como se recorda ainda o autor deste texto) e outros invocavam motivos estéticos para criticarem essa decisão, como foi o caso do Dr. Moura Guedes.

Esse posto acabaria mesmo por ser aí instalado, sendo visível nalguns postais de meio do século XX e foi retirado anos mais tarde (15).

postais onde se vê o posto de gasolina e o o posto da Direcção Geral de Trânsito.
O Largo da Graça visto a partir do sul, ainda com o cruzeiro que existiu junto à Igreja da Graça

A mais radical transformação daquele espaço, desde 1892, teve lugar em 1954.

Em 10 de Outubro de 1954, depois de grandes obras, que culminaram com a colocação no lugar do velho coreto de um obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, foi oficialmente inaugurado o novo jardim, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte (“Outeirinho”) a designação de Praça da República (Com o 25 de Abril foi o Largo da Graça rebaptizada como Praça 25 de Abril).

O "novo" jardim, ainda sem o Obelisco

As festas de inauguração do Obelisco e desse espaço, totalmente remodelado,  foram revestidas da pompa característica da época, iniciando-se com “toque de alvorada, às oito horas, pelo terno de clarins da Legião Portuguesa, seguida de uma salva de vinte e um morteiros”. Às 10 horas teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o descerramento do retrato do Presidente da República de então, Craveiro Lopes.

Depois desse acto, as “entidades oficias” dirigiram-se para a Freixofeira, limite norte do concelho para receber os “ilustres convidados” para a inauguração, com destaque para a “mais alta individualidade” a estar presente, o sub-secretário de Estado do Exército o tenente-coronel Sá Viana Rebelo, “que vinha presidir às cerimónias”.

O cortejo, com cerca de 200 automóveis, saiu então da Freixofeira a caminho da então vila onde chegou ao largo dos Paços do Concelho por volta das 12 horas. Aqui estavam formados “o Corpo dos Bombeiros Voluntários, com bandeira e banda de música, o Terço da Legião Portuguesa, a Banda Recreativa Torreense, a Mocidade Portuguesa, deputações das várias colectividades locais, com seus estandartes e grande concurso de povo que vitoriou os recém-chegados, enquanto o ilustre membro do Governo passava, em revista, a guarda de honra e as músicas faziam ouvir os acordes da “Maria da Fonte”.

Seguiu-se a cerimónia oficial, com os discursos das autoridades no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

A cerimónia prosseguiu com um “Te-Deum” na Igreja de S.Pedro, seguindo-se um almoço no salão da Tuna Comercial.

Ás 15 horas procedeu-se ao acto de inauguração do Obelisco “junto do qual formavam, em guarda de honra, uma companhia do regimento de infantaria nº1, e um grupo de soldados com os fardamentos usados na época das Guerras Peninsulares, vendo-se ainda, no local, uma peça de artilharia, que nessas guerras serviu, vindo expressamente do Buçaco”.

Foi então lido o auto de inauguração:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

Seguiu-se um desfile militar junto à tribuna de honra montada numa das ruas próximas do jardim.

A cerimónia terminou com a inauguração no “Museu e Biblioteca Municipal” da exposição histórico-biblio-iconográfica dedicada às Linhas de Torres (16).




Cerimónias de inauguração do Obelisco

Vivendo-se em ditadura e em regime de censura, não se encontra registada qualquer crítica pública àquele que foi, ainda hoje, para uns, um atentado ao património, retirando o único corêto existente dentro da cidade, para outros, uma obra inovadora e de referência.

O silêncio sobre reacções criticas não quer dizer que não tivessem existido manifestações de desagrado.

António Augusto Sales, jovem nessa época, refere-se às criticas então manifestadas nas mesas dos cafés, a “rede social” da época:

“Quando José Figueiroa Rêgo, no último ciclo do seu mandato de quatorze anos como presidente da Câmara decidiu derrubar o velho coreto e arrasar o antigo jardim para construir o actual colocando no meio um enorme obelisco em memória da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres, muito e apaixonadamente se discutiu a deliberação. Técnicos que por  o serem entendiam as suas opiniões acima de qualquer critica, idosos que sentiam o desaparecimento do velho jardim como perca da sua identidade geracional, intelectuais, que viam monumento uma manifestação da arquitectura fascista, estetas da ironia que lhe vislumbravam uma grandeza fálica, assanhados conservadores incapazes de aceitar o bulir de uma pedra, músicos das bandas que sem o coreto perdiam o mais simbólico palco para a exibição da sua arte, gente nova fazendo parte de uma geração voltada decididamente para um novo conceito de jardim que introduzia na vila modernidade, todos discutiam o assunto e lançavam “bocas de bancada” pelos cafés que naquele tempo, eram os templos por onde passava qualquer iniciativa, escândalo público ou privado. No meio de uma guerra de opiniões a obra foi em frente (…)” (17).

Várias vistas do Jardim após a inauguração do Obelisco.

É preciso esperar por 1970 e por alguma “abertura” da “Primavera marcelista” para encontrarmos a publicação pública de um texto crítico sobre o jardim:

“Se me perguntarem o que penso daquele mini-jardim, responderei que é o único local aprazível da parte urbanística da vila. Mas não posso deixar de dizer que tem ali verdadeiras aberrações (…).

“Já repararam que as árvores que o circundam escondem a fachada da Graça, ofuscando-lhe toda a graça e austeridade que são uma mensagem da fé dos nossos antepassados?

“Já repararam que essas mesmas árvores escondem também o belo obelisco (…)?

“Já repararam que, por sua vez, o referido obelisco não se enquadra bem no mini-espaço que o circunda e donde só é visível?

“Contudo, benditas sejam aquelas árvores que protegem com a sua sombra os que procuram aquele local porque outro não há onde se possa ter a sensação de frescura nos dias de calmaria ou onde se possa refazer o corpo das fadigas que o dia a dia acarreta.

“Quando um dia houver jardins com árvores (…) talvez possam ficar ali só arbustos que não ofusquem a graça da Graça que serve de fundo àquele largo.

“Talvez que o obelisco se apresente, então, com toda a sua beleza, e bem enquadrado (18). Nas décadas de 70 e 80, período em que a vila, tornada cidade em 1979, conheceu um grande crescimento urbano, o jardim perdeu importância e tornou-se quase um “saguão” gigante no meio de uma urbanização caótica que cresceu à sua volta, rompendo-se o diálogo visual entre a fachada do velho Convento e o Castelo, um equilíbrio que devia ter sido garantia de preservação da identidade da terra.

O próprio Obelisco, obra polémica, perdeu fulgor no meio do caos urbano à sua volta, atarracado pelo arvoredo cada vez mais denso.

Em 2002 gerou-se nova “ronda” polémica, devido à publicação de uma sugestão de requalificação defendida pelo então vereador do planeamento Carlos Miguel, propondo a retirada do Obelisco daquele espaço e substituir as árvores de grande porte por outras de dimensões mais reduzidas, com o objectivo de alargar a zona pedonal e realçar a fachada do velho Convento.

A ideia acabou por não ira para a frente, devido à reacção popular e da imprensa, ficando-se por alguns arranjos na parte norte do jardim(19).

Ficou-se também a saber que a remoção do Obelisco era tecnicamente impossível sem destruir por completo o monumento.

Hoje, as obras de requalificação que estão a decorrer, mantêm o Obelisco, passam pelo alargamento da zona pedonal à custa do estreitamento da faixa rodoviária, embora se tema pelo futuro do arvoredo.

Desta vez as reacções públicas tem sido moderadas, talvez devido às preocupações com a actual situação pandémica. Destaque-se, contudo, um dos raros textos críticos sobre essa obra, da autoria de Jorge Ralha(20).

Pela nossa parte…esperemos que o popular Largo da Graça volte a ganhar…alguma graça!

 

(1)    - TORRES, Madeira, parte histórica da sua conhecida monografia, 2ª edição, página 126;

(2)    - SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras, a comunidade eremítica e o património, Livro do Dia/CMTV, Abril 2007, capítulo “A segunda fundação”, pp.34 a 36.Esta é a melhor e mais completa e actualizada obra sobre o dito Convento;

(3)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.38;

(4)    – anotadores de Madeira Torres, parte económica, manuscrita, 5º caderno, f.6, AMTV;

(5)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 8º caderno, f.7, AMTV;

(6)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.65;

(7)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.114;

(8)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 2º caderno f.6, AMTV;

(9)    – in  Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885;

(10) – SILVA, Maria Manuela Gonçalves Silva, Convento da Graça - Torres Vedras, parte 1, tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997, dactilografada;

(11)  – SILVA, Paula Correia, ob.cit.,, pág.115;

(12)   – in Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886;

(13) - in A Semana, número comemorativo da Kermesse de abertura do novo jardim,  Domingo 21 de Agosto de 1892. Ver também o suplemento do nº 46 de  “Toitorres Notícias” de Maio/Junho de 1998, coordenado por António Rodrigues e Adão de Carvalho;

(14)  CARVALHO, Adão de e PAULO, Joaquim, “Ontem e Hoje – Rafael Bordallo Pinheiro e o Coreto da Graça”, in Badaladas de 27 de Março de 1992;

(15) – leia-se, sobre o tema,  o texto assinado por Moura Guedes, “O Jardim do Largo da Graça – uma “nota” oficiosa”, in Alta Extremadura, 20 de Março de 1935;

(16)– CUNHA, Augusto M. Lopes da, Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra peninsular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954;

(17) – SALES, António Augusto, “Um referendo para o Jardim da Graça e o seu Obelisco”, in Frente Oeste de 2 de Maio de 2002;

(18)  – DIOGO, A., “As tarimbas do mini-jardim da Praça do Império”, in Badaladas de 27 de Junho de 1970;

(19)   – ver Badaladas de 12 de Abril de 2002 e Torres Vedras em Revista, nº1, Março de 2002;

(20)   – RALHA, Jorge, “A desgraça da Graça”, in Badaladas de 20 de Novembro de 2020.