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sábado, 4 de novembro de 2023

A História trágico-marítima do litoral torriense

                              

Naufrágios na Costa Torriense

Torres Vedras é um concelho com cerca de 20 quilómetros de costa marítima, pelo que não é de estranhar a existência de muitas memórias de naufrágios nesta zona.

Numa área entre dois importantes portos de pesca, como Peniche e Ericeira, próxima do estuário do rio Tejo e fazendo parte do litoral que, durante séculos, ligou o Mar do Norte com o Mediterrâneo, pela costa deste concelho terão passado milhares de navios ao longo dos tempos.

Com uma costa de grandes arribas, cortadas pela foz de dois rios de dimensões razoáveis, como o Sizandro e o Alcabrichel, famosa pela agitação marítima e pelos temporais violentos, com a existência de três históricos, embora pequenos, portos de pesca, como Porto Novo, Cambelas e Assenta, não será de estranhar que aqui se tenham registado vários naufrágios ao longo dos séculos.

Tema ainda por estudar e investigar, aqui deixamos um pequeno registo para a construção da “história trágico-marítima” do litoral do concelho torriense.

O mais antigo naufrágio registado nessa costa data de 28 de Agosto de 1650, o “encalhe no areal de Penafirme, perto da Ericeira [?]” do galeão S. Francisco, acabado de sair dos estaleiros a caminho da Índia (1) pouco mais se sabendo sobre esse acontecimento.

Vai ser preciso espera mais um século e meio para voltarmos a encontra referência a outro naufrágio no litoral do concelho torriense, o do navio inglês London “na Praia Formosa, em Rendide” , ocorrido no início de 1801 (2)

Um dos aspectos curiosos dessa notícia parece ser a mais antiga referência à Praia Formosa.

No ano de 1823 ocorreram dois naufrágios, os mais trágicos ocorridos nesta região, o primeiro o da fragata da armada francesa “La Cornaline”, ocorrido em 2 de Fevereiro, frente a Cambelas,  que custou a vida a cerca de cem marinheiros, e o segundo, na madrugada de 10 para 11 de Julho, a norte do chamado Cabo Rendide, o paquete “Lusitano”, “um dos primeiros barcos a vapor (…) da carreira de Lisboa ao Porto”, morrendo mais de 60  pessoas, entre os seus 200 passageiros e 16 tripulantes (3).

Só em 1885 voltamos a encontrar notícias de novo naufrágio na costa torriense, ocorrido na Praia de Santa Cruz, no dia 31 de  Outubro, quando “um forte pé de vento deitou por terra as barracas dos banhistas, que fugiram apressados para terra; e quando os banheiros José Rosa e José Pisco estavam tratando de reunir as barracas desmantelladas, ouviram gritos de soccorro no mar, dados por seis homens que formavam a tripulação de um barco de pesca em imminente risco de soçobrar, o que de facto succedeu.

“Apenas dois dos tripulantes sabiam nadar, e portanto poderam conseguir alcançar a terra; aos outros quatro acudiram os valentes e benemeritos banheiros, que arrostaram com o embate das ondas, indo arremessar pelo mar dentro o cabo salva vidas, a que se agarraram os naufragos, conseguindo assim a sua salvação”(4).

No dia 12 de Abril de 1902 registou-se outra tragédia marítima quando o barco de pesca “Boa Viagem”, ao entrar no porto de Assenta, se virou com uma onda, morrendo dois pescadores, salvando-se o terceiro, o único que sabia nadar (5).

Apenas dois anos depois, em 13 de Junho de 1904, o vapor espanhol Aviles, encalhou, devido ao nevoeiro “no porto Chão ao sul da Foz da Areia”. O navio carregava carvão, com destino a Barcelona. A tripulação de “20 homens e mais 5 passageiros” conseguiu salvar-se, mas, ao chegarem a terra “foram assaltados por muitos indivíduos, verdadeiros piratas que lhes roubaram as roupas, os comestíveis e até os próprios remos da embarcação” (6).

Cenas idênticas passaram-se quando no dia 7 de Março de 1917 ocorreu nova tragédia perto da praia da Assenta com o lugre “Lusitano”, oriundo da Guiné portuguesa, naufragando com um carregamento destinado à C.U.F , falecendo 11 marinheiros, registando-se a pilhagem “dos salvados que deram à costa” (7).

Aquele que foi, talvez, o mais famoso naufrágio nas praias torrienses ocorreu em 5 de Fevereiro de 1930, famoso, não só porque ainda é possível, em certas ocasiões, observar um dos mastros do navio naufragado, como esse naufrágio deu nome a uma das principais praias de Santa Cruz, a “praia do Navio”.

Tratou-se do naufrágio do navio norueguês Hav (“Oceano” em português), vindo de Cardiff para o porto de Leixões, com um carregamento de carvão, um naufrágio que ocorreu após um conjunto de acontecimentos rocambolescos, quando era rebocado de Leixões para Lisboa, para ser reparado, tendo-se salvado toda a tripulação de 11 homens (8).

No dia 1 de Maio de 1947 um violento temporal apanhou de surpresa embarcações de pesca da Assenta. Uma delas, a lancha Olinda afundou-se à entrada do porto da Ericeira, para onde se pretendia refugiar, matando os três pescadores da Assenta (9).

Na madrugada do dia 2 de Outubro de 1970, quando se encontrava em dificuldades, o capitão do cargueiro holandês Shamrock Reefer conseguiu encalhar, propositadamente, esse grande navio na praia de Porto Chão, a sul da foz do Sizandro, conseguindo assim salvar toda a tripulação (10).



Um dos últimos naufrágios registado na costa torriense ocorreu no dia 15 de Fevereiro de 1978.

Foi o do cargueiro alemão Alchimist Emden que ocorreu junto à praia de Cambelas, um novo contributo para a fama dessa praia como “a praia dos naufrágios”.

Não se registando vítimas nesse naufrágio, temeu-se, contudo, um desastre de grandes dimensões “dada a quantidade e natureza da carga – 1150 toneladas de hidrocarbonetos”, situação que, felizmente, não se concretizou (11).

Deixamos, assim, este breve e limitado registo de alguns dos naufrágios ocorridos na costa torriense, esperando que contribua como ponto de partida para uma investigação mais aprofundada sobre o tema.

(Já com este artigo feito, ontem o mar de SantaCruz ceifou mais 4 vidas:)

(1)    - ESPARTEIRO, comandante António Marques, Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910), Centro de Estudos de Marinha, Lisboa 1976, pág. 7 (disponível na net);

(2)    - Ofício do Juiz de fora de Torres Vedras, José Pedro Quintela, ao secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, datado de 20 de Fevereiro de 1801, no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU CU Reino, Cx. 269, pasta 41);

(3)    - CUNHA, João Flores, “Estórias (especuladas) de Torres – Dois Naufrágios em 1823 junto ao Cabo Rendido”, in Badaladas de 5 de Abril de 2019. Sobre o naufrágio do Lusitano leia-se também CATARINO, Manuela, São Pedro da Cadeira – Histórias, Memórias e Património de uma freguesia torriense, ed. Junta de Freguesia de S. Pedro da Cadeira, Setembro de 2021, pág.143;

(4)    - in Jornal de Torres Vedras de 5 de Novembro de 1885;

(5)    - CATARINO, ob. Cit. pág. 143 e Folha de Torres Vedras de 20 de Abril de 1902;

(6)    - VIEIRA, Júlio, Torres Vedras Antiga e Moderna, 1926, pág.229;

(7)    - CATARINO, ob. Cit., pp. 143-144;

(8)    - ver uma interessante e completa reportagem sobre o assunto no site “Torres Vedras Antiga”, transcrita por Joaquim Ribeiro na reportagem “Pesquisa do blogue Torres Vedras Antiga revela novos dados – A História documentada da praia do Navio. Ver também a reportagem coeva do incidente nas páginas do jornal Gazeta de Torres de 9 de Fevereiro de 1930;

(9)    - CARÉ Jr., José, Memórias da Ericeira marítima e piscatória – séc. XIX-XX, pág. 43;

(10)                       - Ver Diário de Lisboa de 2 de Outubro de 1970. Baseei-me igualmente nas legendas de fotografias de Raul Guilherme, vendidas no site Delcampe;

(11)                       - CATARINO, ob. Cit, pág. 144.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Piratas na Costa Torriense

                                                 

(Actual Praia de Santa Rita, local de desembarque de piratas mouros)

Pirataria, corso ou…comércio marítimo?

Se cada uma dessas actividades é distinta, já não é tão fácil classificar quem a elas se dedicou ao longo da história. Por exemplo, o que dizer de Fernão Mendes Pinto? Pirata por conta própria nos mares asiáticos, corsário ao serviço da coroa portuguesa ou comerciante marítimo?

E que dizer da construção dos grandes Impérios Marítimos Europeus, como o Francês, o Holandês ou o Britânico, construídos com o recurso a corsários, meros piratas aos olhos de portugueses e espanhóis, detentores da exclusividade marítima pelo Tratado de Tordesilhas?

Passando por cima da controvérsia da designação, o que abordamos hoje aqui é a “pirataria” magrebina que assolou a costa deste concelho nos séculos XVII e XVIII (1).

A costa, junto ao velho convento de Penafirme, hoje em ruínas, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(2).

O próprio mosteiro antigo dos frades de Penafirme era alvo do ataque dos ditos piratas, não só para o roubarem, como “levarem os frades cativos” (3).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem : reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.

No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los (4).

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (5).

Mais do que o saque e a recolha de mantimentos, um dos principais objectivos desses ataques de piratas magrebinos era fazer cativos, actividade que alimentava um lucrativo negócio de resgate de cativos.

Embora com avanços e recuos, em relação à sua autonomia, desde o século XIII que a responsabilidade de recolher “esmolas” para resgatar cativos cabia à Ordem da Santíssima Trindade (6).

Do resgate de cativos efectuado por essa ordem, nas cidades muçulmanas do norte de África, existem vários “relações” acessíveis na net, disponibilizadas no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Ao contrário do que aconteceu na costa da Ericeira ou mesmo na região de Peniche, esta última próxima de um dos principais refúgios desses piratas, as Berlengas, de onde partiam para as suas incursões nesta costa, não existem muitas referências a cativos “torrienses”. Mas elas, apesar de raras, existem.

Em 1739 foram resgatadas da cidade de Argel Sebastianna João de 46 anos, “casada com Pascoal Ferreira”, natural de S. Pedro da Cadeira, cativa havia 2 anos e meio, pela quantia de 630$000 réis, juntamente com a sua filha Maria Ferreira, com 12 anos, pelo mesmo valor (7).

Numa outra lista, de 1754, encontramos, entre os resgatados da cidade de Argel, um Domingos João que “tem ofício”, natural da Assenta, casado com Helena Francisca, de 60 anos, com 14 anos de cativeiro, resgatado pela quantia de 284$000 réis (8).

João Flores da Cunha, investigador da história torriense, encontrou nas suas buscas, além dos acima mencionados, mais os seguintes cativos “torrienses” resgatados: em 1674, de Argel, Estevão Lourenço de 42 anos, marinheiro, com 3 anos de cativeiro, liberto por 110.000 reis; em 1729, de Marrocos, Domingos Jorge, de 48 anos com 22 de cativeiro.

Pela origem dos resgatados, ficamos a saber que não foi apenas a costa norte do concelho a ser atacada por piratas, mas também a zona da Assenta.

Refira-se também que, perante a continuação e frequência dos actos de pirataria junto à foz do Alcabrichel, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Contudo, essa construção, mais do que ter por objectivo defender a costa do ataque de piratas, visava integrar um conjunto de fortalezas marítimas, entre o Cabo Carvoeiro e o Cabo da Roca, que defendessem o território de um desembarque castelhano, num período de intensas guerras entre os dois reinos, na sequência da restauração portuguesa de 1640.

Ainda em 1810, João de Lemos Lima Falcão, coronel do regimento de milícias de Torres Vedras contribui com 46$130 réis em “metal” e 32$600 réis em “papel” para o resgate de cativos (9).

Tema ainda por estudar, aqui ficam algumas referências ao testemunho dessa actividade na costa do nosso concelho.

(1)    – Sobre este tema, mas referindo-se à costa vizinha da Ericeira, existe um interessante estudo, da autoria de Maria da Conceição Ramos: A Pirataria Argelina na Ericeira do Século XVIII, editado pela Mar de Letras em 1998;

(2)    - SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74;

(3)    - PURIFICAÇÃO, Frei António da, Chronica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho, parte I, Lx, 1642, Livro III, tit. VI, fl.348 v;

(4)    - leia-se o resumo desse episódio em Luís, Maria dos Anjos Santos Fernandes, “A Vigilância e defesa da Costa” em A dos Cunhados – Itinerário da memória, ed. Pró- Memória, 2002, pp.127-130, com base no mesmo PURIFICAÇÃO;

(5)    - SANTA MARIA, ob. cit., p.75;

(6)    – leia-se sobre esse assunto a excelente síntese na obra citada de Maria da Conceição Ramos, no capítulo intitulado “O resgate de cativos – intervenção central e local”, ob. Cit em (1), pp 27 e ss;

(7)    – “Relação dos Cativos que por ordem de (…) D. João V” foram resgatados da cidade de Argel em 1739 (site da BNL), nºs 2 e 3 da lista

(8)    – “Relação dos Cativos que por ordem do fidelíssimo rey Dom Joseph I” foram “resgatados na cidade de Argel (…)” (site da BNL), nº 69 da lista;

(9)    – “Donativos para Resgate – 1810”, no site da BNL. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PORTO NOVO NA HISTÓRIA

Diz a tradição que o nome de “Porto Novo” ficou a dever-se a “ter-se aberto para dar mais saída às águas e servir de foz ao rio Alcabrichel”, abandonando-se “a foz antiga, que descrevia uma grande volta” (1).

Uma bem documentada alegação judicial proferida no tribunal de Torres Vedras, em 1939 questionou essa tradição ao demonstrar que a actual localidade de Porto Novo já foi em tempos um ilhéu, formando o areal de Santa Rita uma imensa lagoa, situando-se a foz do Alcabrichel mais no interior, aproximadamente no sítio onde se iniciam os agora desactivados campos de golfe (2).

A primeira tentativa de fundação de um porto junto à foz do Alcabrichel ocorreu durante o reinado de D. Dinis que, para o efeito, mandou edificar uma Igreja sob invocação de S. Dinis, cuja primeira pedra foi benzida em 15 de Outubro de 1318, na presença do monarca, do infante D.Pedro e de muita nobreza, objectivo que, contudo  não se concretizou por divergências entre o concelho de Torres Vedras e os frades de Alcobaça quanto à posse do local, diferendo que se arrastou até 1322, e que acabou por ser decidido a favor o mosteiro(3).

Finalmente, por carta régia de 6 de Maio de 1436, sabe-se que D. Leonor, esposa do rei D. Duarte, mandou abrir naquele lugar um “porto novo” ao qual deu o nome de Porto Real “em direito de pena firme”, concedendo várias isenções aos seus 10 povoadores. Para Veríssimo Serrão, razões “de defesa marítima contribuíram para a criação desse povoado que servia uma zona agrícola importante. Mas o local nunca se transformou num grande centro piscatório, visto a pequena baía não dispor de condições nem área para desembarque, não tardando um século para o vizinho porto de Peniche se tornar no local predominante daquela zona costeira” (4).

Essa falta de condições daquele local para se desenvolver como grande porto de pesca confirma-se em 1758, na memória Paroquial referente à Paróquia de A Dos Cunhados onde se pode ler que esse “porto” não é capaz de “embarcar calois grandes; mas tão somente barcos piquenos que no verão fazem suas pescas”.

Contudo, em 7 de Maio de  1902, foi inaugurada em Porto Novo uma armação de pesca “valenciana”, para a pesca de sardinha, por iniciativa de uma “Sociedade Piscatória de Porto Novo”, cujo êxito inicial levou à inauguração de uma nova armação de pesca em 16 de Abril de 1906, pertencente a Rufino de Carvalho. Contudo tal iniciativa não terá durado muitos anos, embora tenha contribuído para dar a conhecer  a beleza natural daquela praia (5).

Mesmo assim regista-se alguma actividade regular de pesca nas primeiras décadas do século XX, actividade que terminou “em Janeiro de 1938, na sequência da crise das pescas iniciada em 1935” (6).


Já em relação às condições como local de defesa, Porto Novo revelou-se mais importante.

A costa da zona de Porto Novo e Santa Rita, junto do hoje arruinado convento quinhentista, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(7).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem: reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.
No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los.

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (8).

Perante a continuação e frequencia dos actos de pirataria naquele local, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Nessa fortificação foram instaladas cinco peças de artilharia, com uma pequena força militar, que ainda se mantinha artilhado e guarnecido em 1707 (9), mas terá sido totalmente destruído por ocasião do terramoto de 1755.

A costa de Porto Novo foi bastante assolada pelo maremoto que se seguiu a esse terremoto sendo deste local a única descrição desse fenómeno referente ao litoral do distrito de Lisboa.
Quando se deu o terramoto, o “mar estava acabando de encher”. O maremoto deu-se nesta costa cerca de 1 hora e 1/4 depois do abalo, por volta das 11 da manhã.

A descrição daquele padre confirma as descrições do que por essa altura se passou em Lisboa, registando-se três grandes fluxos de subida e descida da água: “o fluxo e refluxo extraordinário só foi por três vezes (…) porém, toda aquela tarde continuou enchendo e vazando, recolhendo as águas com tanta velocidade que ficava tudo enchuto até à distância em que se tinha levantado e mandando-as com a mesma velocidade para terras”, ou seja, para além daquelas três grandes ondas, outras ondas mais pequenos tiveram lugar nesse dia, calculando-se actualmente que se registaram ao todo 16 ondas de grandes dimensões, destacando-se, contudo, aqueles três momentos.

Observada a partir de Penafirme e Porto Novo, “a novidade que se viu do mar (…) foi o levantar-se esta coisa de meia légua |cerca de 2 quilómetros e meio| distante da terra em um grande monte em que algumas pessoas divisaram diversas cores nas águas, pondo esta novidade em tão grande pasmo e temor a toda aquela vizinhança, que quase toda, imaginando era chegado o tremendo dia do juízo, da mesma sorte que estavam, ou bem ou mal compostos, sem fecharem suas casas e sem cuidarem de seus bens, fugiram para este lugar e igreja”.

Continuando a relatar-nos o tsunami, refere o cura António Duarte: “esse grande monte de mar veio discorrendo com voracidade para terra e combateu as arribas na altura de nove ou dez braças (…) Em um vale que corre do Sul para o norte e desagua na praia de Porto Novo, passando-se naquele tempo a pé enchuto correu tão cheio de água que por algum tempo se não pôde passar, cuja enchente lhe procedeu dos muitos olhos de água que circunvizinhos rebentaram (…).

“Os palmos que cresceu mais do ordinário se pode conjecturar pela altura das nove ou dez braças |algures entre os 16 e 20 metros de altura| em que combateu as arribas (…) chegando pela terra dentro a distancia que não há tradição chegasse em tempo algum [de facto, terá entrado, na zona de Porto Novo, pelo menos até às proximidades da actual “fonte dos frades]”(10).

Porto Novo voltou a entrar na história por ocasião da Batalha do Vimeiro, por junto a esta localidade desembarcaram parte das tropas inglesas, as divisões dos generais Anstruther e Ackland.

Foi, aliás, para defender aquele desembarque que Arthur Wellesley, posicionou as tropas terrestres, sob seu comando,  entre o Vimeiro e a Maceira, na tarde de 19 de Agosto de 1808.

O desembarque daquelas divisões efectuou-se “a uma legua de distancia do” Vimeiro, “na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel (sic)”.

“No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”. (11).

Foi para tentar travar aqueles desembarques que Junot avançou sobre o Vimeiro, desencadeando a célebre batalha.

Já depois da Batalha do Vimeiro de 21 de Agosto de 1808, no dia 24, chegaram a Porto Novo as tropas de sir John .Moore que só fundearam  a 25.

“O desembarque das tropas de sir John Moore fez-se com grande difficuldade, pois levou 5 dias, e pereceram afogados bastantes marinheiros e soldados. Os transportes soffreram taes estragos que só 30 ficaram em condições de prestarem serviço (12)”.

Já mais perto de nós, durante a 2ª Guerra Mundial, há a noticia de no grande vale arenoso em frente à praia de Santa Rita, aí ter aterrado, em 31 de Março de 1943, um bombardeiro inglês, o “Consolidated Catalina IB da RAF com dez tripulantes”. Segundo o relato que seguimos, depois “ de várias tentativas foi possível desencalhá-lo da areia e levá-lo para o Centro de Aviação Naval de Lisboa, onde ficou a degradar-se” (13).


Porto Novo e a sua “irmã” Santa Rita, apesar de um passado histórico mais “rico”, perderam terreno, ao longo do século XX, para a praia de Santa Cruz, como lugar de destaque no litoral torriense.

Foi esse interessante passado que procurámos aqui destacar.

(1)   COSTA, António Baptista da, “Porto Novo” in Enciclopédia das Famílias, nº 259, ed. 1908;
(2)   SILVA, Dr. Augusto Paes de Almeida e, Em Defesa do Património Nacional (…), ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, ed. 1939;
(3)   FONTES, João Luís Inglês, in A Dos Cunhados – Itinerários da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág.88, e RODRIGUES, Ana Maria, “O Porto Novo de D. Dinis e o “Porto Carro” de D. Fernando”, comunicação apresentada ao IV Congresso sobre Monumentos Militares Portugueses, Santarém, 2 e 5 de Outubro de 1987;
(4)   SERRÃO, J. Veríssimo, História de Portugal, Vol. II, pág. 176;
(5)   Anuário da “Folha de Torres Vedras” para o ano de 1907;
(6)   CORDEIRO, Ana Sofia Nunes, in FONTES, João Luís Inglês (coord.), A Dos Cunhados – Itinerário da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág. 286;
(7)   SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74.
(8)   SANTA MARIA, ob. cit., p.75;
(9)   ANACLETO, Pedro Garcia, “Grandezas e desventuras na história de um pequeno porto do litoral de Torres Vedras”, in Panorama, nº 41, IV série, Março de 1972;
(10)DUARTE, padre António, cópia do manuscrito existente nos registos paroquiais de A-Dos-Cunhados (original de 1756, cópia de 1908).
(11)SORIANO, Simão José da Luz, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, p. 392
(12)CÉSAR, Victoriano J. Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143.
(13)OLIVEIRA, Hermínio de, in “Crónicas do meu pequeno mundo”, Gazeta das Caldas de 22 de Agosto de 2009.