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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Misericórdia de Torres Vedras


A história e a acção cívica da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras confunde-se com os últimos cinco séculos da História torriense.

Fundada  por alvará de 26 de Julho de 1520, revelou-se a mais marcante iniciativa tomada localmente durante o reinado de D. Manuel (nascido em 1469, reinou entre 1495 e 1521).

A sua fundação vem na sequência da  necessidade sentida, desde os finais do século XV, em ordenar e unificar a assistência, que se iniciou quando D. João II lançou a primeira pedra do Hospital de Todos os Santos, reunindo para esse fim os rendimentos de vários estabelecimentos pios, obra continuada por sua mulher D. Leonor, quando, já viúva, fundou a Misericórdia de Lisboa em Agosto de 1498.

A História dessa instituição em Torres Vedras, e da sua acção ao longo dos séculos, está suficientemente estudada, numa primeira síntese por Madeira Torres (1), aprofundada por Salinas Calado (2) e, mais recentemente, numa obra de fôlego e definitiva, por Célia Reis (3).

Registem-se ainda alguns estudos sobre aspectos mais particulares dessa instituição, como os de Manuela Catarino (4) e Joana Balsa de Pinho (5).

Registe-se ainda o volume dedicado às Misericórdias, numa visão global, incluído na edição de actas dos encontros Turres Veteras (6)

Neste texto, apenas pretendemos fazer uma breve evocação dessa instituição, remetendo um conhecimento mais aprofundado sobre a mesma  para a consulta das obras acima referida, em especial para o livro de Célia Reis.

A sede torriense dessa instituição foi instalada no Hospital do Santo Espírito, que já possuía os bens do Hospital de Santa Maria dos Farpados e do Hospital do Mostardeiro, juntando-se então a esses, os bens da Confraria das Ovelhas Pobres e os do Hospital de S. Gião, ou Confraria dos Sapateiros, aos quais se juntariam outros bens ao longo dos séculos.

A Misericórdia de Torres Vedras começou a sua vida “com duas salas para ambos os sexos  e uma capela, e segundo Madeira Torres, com um rendimento de : 6 moios de trigo, 3 de cevada, 36 almudes de vinho, 3 potes de azeite, 56 galinhas e frangos, um carneiro, 13.888 réis em dinheiro e 2 óvos, além dos sobejos de todos os outros Hospitais e Albergarias.

“Além destes rendimentos, estava a Santa Casa autorizada a ter Mamposteiros ou arrecadadores d’esmola em todas as freguesias do arciprestado, encarregados de pedirem para ela” (7).

Em 1767 foi aí construída uma enfermaria de mulheres e, em 1795, foi autorizada a criação de uma “botica” no hospital, só concretizada em 1814.

O edifício foi acrescentado em 1796 com a compra de uma casa nobre a sul, alargando as enfermarias para quatro.

O Hospital funcionou aí até à inauguração do Novo Hospital da Misericórdia, no local do actual Hospital Distrital, em 18 de Julho de 1943, com a presença do então Presidente da república Óscar Carmona.

As obras do novo hospital começaram em 1926, mas a inauguração só ocorreu nessa data.

O novo hospital foi “construído por contribuição do Estado e da Câmara Municipal”, e com a contribuição de vários beneméritos locais, homenageados numa lápide comemorativa descerrada na ocasião, no átrio do hospital”. Entre os beneméritos foram citados os “srs. Álvaro Galrão, dr. José Alberto Bastos, Joaquim Vaquinhas, dr. Júlio Lucas e D. Teresa de Jesus Pereira” (8).

Com a mudança das instalações do Hospital, no edifício então desocupado estiveram instalados o Museu Municipal e a Biblioteca Municipal de 1944 a 1989.

Em 19 de Maio de 1681 deu-se inicio à construção da Igreja da Misericórdia, contigua àquele hospital, obra concluída em 1710, ano em que foi benzida em  acto solene, realizado a 6 de Setembro desse ano, presidido pelo Bispo de Tagaste, o torriense D. Manuel da Silva Francês.

Entra-se para a Igreja pelo adro que serviu de cemitério onde se enterravam os pobres falecidos no Hospital, antes de a Santa Casa ter cemitério pegado para norte e, talvez, para poente.

O Pórtico tem as armas reais do século XVII, e a porta é datada de 1718.

A igreja é de uma nave coberta por abobada de berço, onde estão pintadas as armas reais, com a cruz da ordem de Cristo  (típico do século XVIII).

No altar mor existe, no centro, uma imagem de N.ª Senhora da Misericórdia com o menino (seiscentista) e, segundo Salinas Calado, à “mão direita da Senhora da Misericórdia, no seu altar de talha dourada, existe um pequeno esconderijo; ali escaparam, como protegidos pelo seu manto piedoso, às prisões de 22 de Dezembro” (de 1846) “alguns patuleias, torrienses de então”.

A sacristia foi construída em 1752, por ordem do provedor Nuno da Silva Teles (Tarouca e Alegrete).

Leia-se, a propósito desse monumento, o interessante estudo sobre a sua arquitectura da autoria da já citada Joana Balsa de Pinho.

Sobre o valioso património artístico dessa instituição, visite-se o pequeno museu instalado no espaço sede da instituição, baptizado com o nome de Manuel Rosado, um quase centenário e dedicado cidadão à causa pública e a essa instituição.

Em 1975 a instituição perdeu as suas funções hospitalares, passando o edifício do Hospital a ter gestão estatal. Em contrapartida a associação ganhou novas valências, com a criação de uma creche e jardim de infância em Outubro de 1980, a inauguração de uma nova sede e de um centro de dia em Maio de 1987, e, em Dezembro de 2002, a inauguração do lar de Nossa Senhora da Misericórdia no lugar do Sarge.

Entretanto, no edifício original, para além dos serviços administrativos, existe um bem organizado arquivo histórico, englobando quinhentos anos da história de uma instituição que se confunde com a História de Torres Vedras, bem como o já mencionado museu.

Esperamos , com esta modesta e sintética evocação dessa importante “associação” torriense, despertar o interesse pelo conhecimento da sua actividade e da sua importância histórica e social no concelho torriense.


(1) – MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho Madeira Torres, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, 2ª edição anotada, 1862, (1º edição em 1819), com nova edição fac-similada editada pele Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras;

(2) - CALADO, Rafael Salinas, Origens e Vida da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, ed. 1936;

(3) – REIS, Célia, A Misericórdia de Tores Vedras (1520-1975),  ed. Da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, 2016;

(4) – CATARINO, Manuela, “Assistência no século XIX”, in  Torres Vedras – Passado e Presente, Vol. I, obra colectiva, ed. Pala Câmara Municipal de Torres Vedras em 1996, pp. 299 a 316;

(5)- PINHO, Joana Balsa, “Persistência e atualidade de um modelo tipológico: a Casa da Misericórdia de Torres Vedras e a arquitetura das Misericórdias quinhentistas”, in A Misericórdia – História, Arte e Património, Turres Veteras XXIII, cord. Carlos Guardado Silva, ed. Colibri, CMTV, Universidade de Lisboa (…), ed.2022

(6) – SILVA, Carlos Guardado, (coord.), A Misericórdia – História, Arte e Património, Turres Veteras XXIII, ed. Colibri, CMTV, Universidade de Lisboa (…), ed.2022 ;

(7) – CALADO, ob. Cit., pág.6;

(8) - in Novidades de 19 de Julho de 1943;

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Piratas na Costa Torriense

                                                 

(Actual Praia de Santa Rita, local de desembarque de piratas mouros)

Pirataria, corso ou…comércio marítimo?

Se cada uma dessas actividades é distinta, já não é tão fácil classificar quem a elas se dedicou ao longo da história. Por exemplo, o que dizer de Fernão Mendes Pinto? Pirata por conta própria nos mares asiáticos, corsário ao serviço da coroa portuguesa ou comerciante marítimo?

E que dizer da construção dos grandes Impérios Marítimos Europeus, como o Francês, o Holandês ou o Britânico, construídos com o recurso a corsários, meros piratas aos olhos de portugueses e espanhóis, detentores da exclusividade marítima pelo Tratado de Tordesilhas?

Passando por cima da controvérsia da designação, o que abordamos hoje aqui é a “pirataria” magrebina que assolou a costa deste concelho nos séculos XVII e XVIII (1).

A costa, junto ao velho convento de Penafirme, hoje em ruínas, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(2).

O próprio mosteiro antigo dos frades de Penafirme era alvo do ataque dos ditos piratas, não só para o roubarem, como “levarem os frades cativos” (3).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem : reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.

No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los (4).

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (5).

Mais do que o saque e a recolha de mantimentos, um dos principais objectivos desses ataques de piratas magrebinos era fazer cativos, actividade que alimentava um lucrativo negócio de resgate de cativos.

Embora com avanços e recuos, em relação à sua autonomia, desde o século XIII que a responsabilidade de recolher “esmolas” para resgatar cativos cabia à Ordem da Santíssima Trindade (6).

Do resgate de cativos efectuado por essa ordem, nas cidades muçulmanas do norte de África, existem vários “relações” acessíveis na net, disponibilizadas no site da Biblioteca Nacional de Lisboa.

Ao contrário do que aconteceu na costa da Ericeira ou mesmo na região de Peniche, esta última próxima de um dos principais refúgios desses piratas, as Berlengas, de onde partiam para as suas incursões nesta costa, não existem muitas referências a cativos “torrienses”. Mas elas, apesar de raras, existem.

Em 1739 foram resgatadas da cidade de Argel Sebastianna João de 46 anos, “casada com Pascoal Ferreira”, natural de S. Pedro da Cadeira, cativa havia 2 anos e meio, pela quantia de 630$000 réis, juntamente com a sua filha Maria Ferreira, com 12 anos, pelo mesmo valor (7).

Numa outra lista, de 1754, encontramos, entre os resgatados da cidade de Argel, um Domingos João que “tem ofício”, natural da Assenta, casado com Helena Francisca, de 60 anos, com 14 anos de cativeiro, resgatado pela quantia de 284$000 réis (8).

João Flores da Cunha, investigador da história torriense, encontrou nas suas buscas, além dos acima mencionados, mais os seguintes cativos “torrienses” resgatados: em 1674, de Argel, Estevão Lourenço de 42 anos, marinheiro, com 3 anos de cativeiro, liberto por 110.000 reis; em 1729, de Marrocos, Domingos Jorge, de 48 anos com 22 de cativeiro.

Pela origem dos resgatados, ficamos a saber que não foi apenas a costa norte do concelho a ser atacada por piratas, mas também a zona da Assenta.

Refira-se também que, perante a continuação e frequência dos actos de pirataria junto à foz do Alcabrichel, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Contudo, essa construção, mais do que ter por objectivo defender a costa do ataque de piratas, visava integrar um conjunto de fortalezas marítimas, entre o Cabo Carvoeiro e o Cabo da Roca, que defendessem o território de um desembarque castelhano, num período de intensas guerras entre os dois reinos, na sequência da restauração portuguesa de 1640.

Ainda em 1810, João de Lemos Lima Falcão, coronel do regimento de milícias de Torres Vedras contribui com 46$130 réis em “metal” e 32$600 réis em “papel” para o resgate de cativos (9).

Tema ainda por estudar, aqui ficam algumas referências ao testemunho dessa actividade na costa do nosso concelho.

(1)    – Sobre este tema, mas referindo-se à costa vizinha da Ericeira, existe um interessante estudo, da autoria de Maria da Conceição Ramos: A Pirataria Argelina na Ericeira do Século XVIII, editado pela Mar de Letras em 1998;

(2)    - SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74;

(3)    - PURIFICAÇÃO, Frei António da, Chronica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho, parte I, Lx, 1642, Livro III, tit. VI, fl.348 v;

(4)    - leia-se o resumo desse episódio em Luís, Maria dos Anjos Santos Fernandes, “A Vigilância e defesa da Costa” em A dos Cunhados – Itinerário da memória, ed. Pró- Memória, 2002, pp.127-130, com base no mesmo PURIFICAÇÃO;

(5)    - SANTA MARIA, ob. cit., p.75;

(6)    – leia-se sobre esse assunto a excelente síntese na obra citada de Maria da Conceição Ramos, no capítulo intitulado “O resgate de cativos – intervenção central e local”, ob. Cit em (1), pp 27 e ss;

(7)    – “Relação dos Cativos que por ordem de (…) D. João V” foram resgatados da cidade de Argel em 1739 (site da BNL), nºs 2 e 3 da lista

(8)    – “Relação dos Cativos que por ordem do fidelíssimo rey Dom Joseph I” foram “resgatados na cidade de Argel (…)” (site da BNL), nº 69 da lista;

(9)    – “Donativos para Resgate – 1810”, no site da BNL. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Maceira – Das Fontes Termais às Piscinas do “Vimeiro”

Muitas foram as gerações torrienses que aprenderam a nadar nas piscinas do “Vimeiro”, para além das quantidades de água, com o mesmo nome, consumida pelas mesmas, ao longo dos anos.

A fama da qualidade das águas termais das quatro fontes, “distribuídas entre as duas margens do rio Alcabrichel” (1), já vem de longe.

Segundo a lenda e a tradição popular, a rainha Santa Isabel já tinha procurado cura nessas águas, no início do século XIV, o mesmo fazendo a infanta D. Leonor, a meio do século XV.

Sabe-se que, pelo menos no século XVII, a foz do Alcabrichel foi alvo frequente de assalto de “piratas” do norte de África que, entre outras coisas, aqui se abasteciam das águas dessas fontes.

A primeira referência à existência de fontes junto do Convento de Penafirme, que detinha os direitos sobre elas, data de 1726, na obra “Aquilégio Medicinal”, da autoria do “físico” Francisco da Fonseca Henriques, conhecido por “Dr. Mirandela”. Esta descrição é igualmente referida no inquérito paroquial de 1758, “respondido” pelo padre António Duarte de A-Dos-Cunhados.

Essas nascentes de água medicinal eram, então, popularmente designadas como “Fonte da Rainha Santa e Fonte dos Frades” (2).

É numa descrição de 1810, da autoria de Francisco Tavares, que essas fontes são pela primeira vez referenciadas como sendo do “Vimeiro” (3), erro em que volta a incorrer, em 1822, Adrien Balbi, referindo-se às “Águas Santas do Vimeiro” (4). A confusão dos lugares ficou a dever-se à proximidade do lugar do Vimeiro (no vizinho concelho da Lourinhã), famoso desde a Guerra Peninsular devido à célebre Batalha do Vimeiro de 1808, cujo campo de batalha ficava próximo da Maceira e da zona onde essas fontes se localizavam, sendo bom recordar que a movimentação das tropas britânicas, envolvidas naquela batalha, se estendeu entre Porto Novo e o Vimeiro, ao longo do rio Alcabrichel e passando pela Maceira, tendo-se provavelmente servido das fontes aí existentes.

A confusão dos nomes manteve-se até aos nossos dias, até porque, por razões de marketing, era mais fácil vender a “marca” “Vimeiro”, quando se iniciou, no século XX, a exploração industrial das águas e das piscinas localizadas junto da Maceira.

As águas do “Vimeiro” foram analisadas pela primeira vez em 1867 pelo Dr. Agostinho Vicente Lourenço, posteriormente, de forma mais detalhada em 1893, pelo professor Charles Lepierre, e, no ano seguinte, pelo Dr. Eugénio Dias, referindo este último a existência de três fontes.

João Pedro Cardoso foi a primeira pessoa a solicitar, em 1894,  a concessão de exploração comercial das águas dessas fontes, oficialmente concedida por  alvará de 30 de Janeiro de 1896, e designadas por “Águas Santas do Vimeiro”. Após o falecimento do concessionário, as termas foram vendidas à Empresa das Águas do Vimeiro (5), que, por alvará de 12 de Janeiro (ou 5 de Dezembro?)  de 1921, deu início à exploração das chamadas “Caldas Santas do Vimeiro”.

A “Empresa das Águas do Vimeiro”, sob gerência e propriedade de Joaquim Belchior desde 1945, inaugurou, em 24 de Junho de 1946, um balneário para os utentes da “Fonte Santa”, na Maceira, , o “Hotel das Termas da Maceira” em 12 de Junho de 1949 e, em 23 de Junho de 1954, as referidas “Piscinas do Vimeiro” (6), depois de efectuar grandes obras ao longo das margens do rio Alcabrichel. Uma segunda piscina, de maiores dimensões, foi concluída em 1956 (7). Recorde-se que o uso daquelas águas para banhos, com recurso a tanques, está documentado desde 1810.

Ao longo de décadas foram exploradas as duas fontes termais conhecidas, respectivamente, por “Fonte de Santa Isabel”, situada em frente das piscinas, do outro lado do rio, e a Fonte dos Frades, a meio caminho entre a Maceira e Porto Novo, percurso que era percorrido por um “comboio” puxado por um tractor que transportava os utentes dessas termas.

Pedro Garcia Anacleto, durante muitos anos o director clínico das termas, descreveu assim as indicações clinicas dessas águas:

“Fonte de Santa Isabel – doenças da pele, dos climas quentes, disfunção hepatobiliares, dispepsias quer hipoácidas, quer hiperácidas, colites átonas e espáticas, litíase renal  e vesical, e reumatismo por excesso de ácido úrico.

“Fonte dos Frades – doenças da pele, doenças hepáticas e, em especial a litíase biliar, doenças da nutrição, do foro ginecológico, dos intestinos, hemorroidal, afecções inflamatórias dos olhos, bronquite, sinusite, asma alérgica, catarros nasofaríngeos, laringites, rinites e anosmias” (8).

Ao longo das últimas décadas tem-se assistido ao declínio do uso dessas fontes e das piscinas.

Contudo, mantem-se em grande actividade a empresa de engarrafamento das “àguas do Vimeiro”, conhecendo actualmente um período de grande projecção e expansão (9).

(1)    MIRANDA, Guilherme, “Património e recursos naturais”, in A dos Cunhados- Itinerários da memória (obra colectiva coordenada por João Luís Inglês Fontes, ed. Pró-memória, 2002, pág.37;

(2)    Deve-se ao Dr. Pedro Garcia Anacleto três obras de síntese sobre o tema dessas fontes termais : “As fontes termais do Convento de Penafirme”, in “Badaladas” de 1 de Outubro de 1958,   “As Águas Santas do Vimeiro e as suas termas” in Panorama, nº 23, IIª série, Setembro de 1961 e “Os Vastos Recursos do Concelho de Torres Vedras em Terapêutica Associada Termal e Heliolimarítima”, in Termas e Turismo, brochura editada pela CMTV em 1970. Refira-se também o conjunto de artigos sobre este tema incluídos na já citada obra colectica A dos Cunhados, Itenerários da Memória, principalmente os sub-capítulos “Os recursos termais”, da autoria de José Luís Inglês Fontes, pp.195-200, e  “exploração dos recursos termais : As Termas do Vimeiro (Maceira)”, por Ana Sofia Nunes Cordeiro, pp.286-292;

(3)    FONTES, José Luís Inglês, ob. cit., pág.195;

(4)    BALBI, Adrien, Essai Statistique sur le Royaume de Portugal et Algarve, ed. 1822;

(5)    FONTES, ob.cit, pág. 198 e 199;

(6)    leia-se reportagem do evento nas páginas do Badaladas de 15 de Julho de 1954;

(7)    Para esta fase, leia-se o referido estudo de Ana Cordeiro, citado em nota (2);

(8)    ANACLETO, ob. cit, 1970;

(9)    leia-se a entrevista, conduzida por Joaquim Ribeiro a Diogo Abreu, gerente da empresa, publicada no jornal Badaladas de 16 de Abril de 2021. 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os “Largos” de Torres Vedras


À volta dos “largos”  têm lugar festas, procissões, encontros, mercados, feiras, movimentos sociais e neles concentram-se os lugares nobres e as principais instituições da vida urbana.

Muitas vezes são os “largos”, “praças” ou “adros” que definem a malha urbana e a direcção das ruas de uma vila ou cidade.

No caso torriense, a primeira referência à malha urbana surge nos finais do século XIV, pela pena de Fernão Lopes, descrevendo Torres Vedras como um lugar que “he hua fortalleza aseemtada em çima dhua fremosa mota, a quall natureza criou em tam hordenada igualdade, como sse a maão fosse feita artefiçialmente (…). A villa tem sua çerca arredor do monte, e na mayor alteza delle esta o castello; e emtre a villa e o castello moravam tam poucos (…) e toda sua poboraçom era em huu gramde arravalde de muitas e boas casas, em bem hordenadas rruas ao pee do monte” (1). Contudo, essa descrição, demasiado genérica, não faz referência à possível existência de “praças” ou “largos”

A partir do século XV, já existem vários estudos que documentam a realidade urbana de Torres Vedras, nomeadamente o da autoria de Ana Maria Rodrigues (2).

Nesse estudo são referidos vários adros, praças e largos na malha urbana de Torres Vedras: o “adro de Santa Maria”, em frente à entrada principal do Castelo, o “terreirinho”, no cruzamento da antiga rua da judiaria  com a “rua do cano real” ( a parte norte do actual “estacionamento de S.Tiago”), o “adro de Santiago”, em frente à Igreja do mesmo nome, o “Outeirinho”, no actual “largo da Havaneza”, junto à porta de Santana, o adro de S. Pedro, frente à igreja do mesmo nome e o largo da “praça de víveres”, actual praça do município.

Com as característica de “largo” também se podem referir o espaço frente ao Chafariz dos Canos e, fora das “muralhas”, o campo da feira perto da ermida de Nossa Senhora do Amial ou de Nª Srª de Rocamador.

Esses “largos” situavam-se junto das Igrejas paroquiais, das ermidas, das fontes e das “portas” da vila.

Escreve Ana Maria Rodrigues sobre o centro urbano de Torres Vedras que, situadas “na confluência de várias ruas, as praças constituíam, na densa malha urbana, espaços abertos, ainda que geralmente não muito amplos, cuja função se consubstanciava em dois tipos principais, por vezes unidos no mesmo lugar: a praça da igreja e a do mercado” (3)

Do primeiro tipo, a autora inclui os “adros das três matrizes intra-muros”, a saber, os de Stª Maria, S. Pedro e S. Tiago, embora refira que apenas encontrou testemunhos coevos sobre o de S. Pedro, demonstrando a importância comercial do largo em frente desta Igreja, com referências à existência no local de tendas de ferreiro e oleiro, de um forno e de um sapateiro.

A autora encontrou também documentação sobre outra “praça”, na “Corredoira”, junto ao Chafariz dos Canos.

Quanto ao segundo tipo, refere a Praça dos víveres ou do Município, local de realização do “mercado diário”, onde existiam o Paço do Concelho e o Pelourinho, a zona “mais animada e concorrida da vila” (4).

Com rara referência documental anterior ao século XIX, há que recordar outros dois Largos ou Praças muito antigos, o Largo dos Pelomes, ou dos “ferradores”, a norte da vila, e o Largo do Rosário, nas traseiras da Igreja de S. Pedro, onde existiu a praça do peixe.

Existe também referência ao Largo do Espírito Santo, a norte do “Outeirinho”, no adro da Igreja da Misericórdia.

Já no início do século XIX, num dos documentos mais completos existentes no Arquivo Municipal sobre a toponímia da vila, o Livro de Registo do Pagamento de Sizas do ano de 1821, são referidas, como praças ou largos existentes na zona urbana, o Largo da Graça, o Largo de Sant Ana, o Largo do Rosário e o Largo de São Pedro. As novidades , neste caso, são a referência ao Largo da Graça e, mais a norte, ao Largo de Santa Ana, na zona do antigo “outeirinho”, e a “primeira” (?) referência ao “Largo do Rosário”.

Para a segunda metade do século XIX é possível confirmar, não só a existência daqueles largos, praças e adros, como alargar a referência aos que existiam na vila, com base num documento manuscrito, existe no Arquivo Municipal, da autoria de Gama Leal, datado de 1864, e que serviu de base para delimitar administrativamente o concelho.

Neste documento registava-se, na área urbana da freguesia de S. Pedro, os Largos de Santana, da Graça, de S. Pedro, do Rosário, da Praça e dos Canos, na da freguesia de Santiago, o Largo de Santiago e a Praça de Stª Maria, na da freguesia de Stª Maria, o Largo do Serieiro, e na da Freguesia de S. Miguel, o Largo de S. Miguel.

Ainda no final do século XIX, com a inauguração do caminho-de-ferro, surgiu o chamado Largo da estação, de onde partiu “nova” avenida Casal Ribeiro, actual 5 de Outubro.

A agitada vida política do século XX reflectiu-se na alteração da toponímia de alguns daqueles largos e praças.

Durante a primeira República, o Largo de Santana, que tinha mudado a designação para Largo D. Carlos I no final do século XIX, foi baptizado como Largo da República;  o Largo de Santiago foi rebaptizado como Praça Machado dos Santos, embora continuasse popularizada como “praça da batata” e outro Largo próximo, mas em frente à fachada da Igreja de Santiago, foi baptizado como Largo Dr. Justino Xavier da Silva Freira. O popularmente conhecido Largo de Santo António, foi baptizado como Largo Estevam Feyo.

Durante o Estado Novo o Largo da República foi “dividido”, mantendo o “largo da Havaneza”, o antigo Outeirinho, a designação e passando o lado sul, antigo Largo de Santana, a designar-se por Praça do Império, incluindo o jardim da antiga cerca do Convento da Graça.

Também terá sido nessa época que o Largo do Rosário foi rebaptizado com Largo Wellington.

Com o 25 de Abril a Praça do Império passou a designar-se Praça 25 de Abril.

Com o acentuado crescimento urbano, a partir da 2º metade do século XX as antigas praças e largos  perderam muito da sua centralidade para as novas  pracetas, sendo a  mais antiga de todas a Praceta Dr. Afonso Vilela, inaugurada na década de 60 do século XX.

Actualmente, no centro histórico, ainda se mantêm muitos dos largos referenciados desde a Idade Média, embora, na maior parte dos casos, com topónimos e dimensões diferentes, alterados pelo crescimento urbano e pelas várias alterações registadas ao longo do tempo.

O largo de S. Pedro é o único que mantem o nome original e foi, até meados do século XX, o “centro cívico” da “vila”. Nas traseiras da Igreja de S.Pedro existe o Largo Wellington, antigo Largo do Rosário. No extremo norte dos antigos limites da “vila”, junto das medievais “ferrarias”, fica o Largo dos Pelomes, ocupando uma área muito atrofiada e incaracterística . O “adro de Santa Maria”, frente à entrada do Castelo, é o actual Largo Coronel Morais Sarmento. O antigo Largo de Santiago está hoje dividido em dois Largos, a “Praça Machado dos Santos”, a sul, e o Largo Dr. Justino Freire, a poente. Também no antigo “Outeirinho”, que marcava o limite urbano a sul da vila, existem hoje dois largos, a “praça da República”, também popularemente designado por “Largo da Havaneza” e, na sua continuidade, para sul, ocupando a zona da antiga cerca do Convento, a “praça 25 de Abril”, popularmente designada por “Largo da Graça”, local hoje considerado por muitos como o “centro” da cidade. Por sua vez, a medieval “praça de víveres” tem hoje a designação de Praça do Município. O Largo que já existira junto ao centenário Chafariz do Canos tem hoje a designação de “Largo Infante D. Henrique”. Ainda nos limites do antigo centro histórico surgiu recentemente a Praça Dr. Alberto Avelino, muito próxima do antigo Largo de S. Miguel. O Largo de Stª António mantem a sua designação popular.

Não se pretendeu fazer neste texto a História das praças e largos torrienses, pretendendo-se apenas alertar para a importância em dinamizar e recuperar esses espaços, muitos deles em risco de desertificação humana.

Se as “ruas” são as “veias” dum centro urbano, os seus largos são os “corações” que medem a vivência palpitantes dos seus habitantes.

(1)    LOPES, Fernão, Cronica del Rei Dom Joham I de Boa Memoria (…), ed de Anselmo Braamcamp Freire, Lisboa, 1973, p. 318;

(2)    RODRIGUES; Ana Maria, Torres Vedras – a vila e o termo nos finais da Idade Média, ed. Fundação Calouste Gulbenkian e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1995;

(3)    RODRIGUES, ob. cit, pp.146-147;

(4)    RODRIGUES, ob.cit. pp. 147-148;

terça-feira, 19 de abril de 2022

Petróleo em Torres Vedras


Data de 1862 a primeira referência à existência de “óleo-petróleo” no território torriense, “junto aos banhos dos Cucos  e dos Coxos e no sítio dos Amiais” que “merecia ser explorado”. (1).

É preciso esperar pelo final do século XIX para surgirem os primeiros registos da descoberta de locais no concelho, com potencial na exploração de petróleo.

Foi em 1878 que um tal João José de Corpas registou a descoberta de uma mina de “calcário betuminoso” na Serra do Cabaço, na então freguesia de Matacães, cuja exploração foi concedida, por alvará do Diário do Governo de 23 de Novembro de 1880 à sociedade António Pinto & Companhia, constituída pelo descobridos e por João António Pinto, Joaquim Wagner Russel e Joaquim Maria de Oliveira Vale. Da exploração dessa “mina” pouco mais se sabe, a não ser que naquela serra, como ainda é visível actualmente, “se explorou durante alguns anos em pedreira a céu aberto” calcário e de onde se extraiu “matéria betuminosa que era depois utilizada e aplicada como asfalto”.

A mina da Serra do Cabaço foi declarada abandonada em Diário do Governo de 23 de Maio de 1898 e “em campo livre dois anos mais tarde” em Diário do Governo de 10 de Abril de 1900.

No relatório de reconhecimento dessa mina, feito no ano da sua descoberta, em 30 de Dezembro de 1878, da autoria do engenheiro Francisco Ferreira Roquette, chamava-se também a atenção para a “presença de numerosas e extensas galerias antigas praticadas nas rochas impregnadas de betume no sítio denominado da Cova da Moura” (2).

Por ocasião da abertura do túnel do Cabeço do Cabrito, em 1885, durante a construção do caminho-de-ferro, tanto nesse túnel com nas escavações efectuadas  junto do mesmo foram encontradas “fendas e geodes cheios de hidrocarboneto líquido, de que os operários se utilizavam como petróleo” (3).

Uma nova mina de “calcário Betuminoso” em Torres Vedras foi registada em 1900 com a designação de “Vale Escuro”, abrangendo uma área que “se sobrepunha, em grande parte, à da Serra do Cabaço” e integrada na freguesia de Santa Maria do Castelo.

Foi declarado “descobridor legal” um tal Rafael da Cruz Lezameta, tendo concedido os direitos de exploração dessa mina a uma companhia inglesa a “The Portuguese Petroleum Syndicate, Ltd.”,por alvará publicado em Diário do Governo de 28 de Abril de 1906.

A relação com aquela companhia inglesa teve origem no facto do tal Lezameta, que estava em tratamento nas Termas dos Cucos, ter conhecido um inglês, Coll Taylor que, conhecendo aquela descoberta “emitiu opinião de se tratar dum indício de petróleo em profundidade, pelo que fizeram em comum um manifesto de descoberta de petróleo” (4).

Segundo o autor que temos estado a citar, Fernando Macieira, “Lezameta e Coll Taylor se podem considerar os pioneiros do petróleo em Torres Vedras, e que o ano de 1901 em que, segundo Paul Choffat, se desenrolaram estes acontecimentos, é um marco na história do petróleo em Portugal” (5).

Em 1902 Lazameta pediu a Paul Choffat um relatório “sobre as condições geológicas de Torres Vedras, a fim de ser submetido a especialistas de pesquisa de petróleo” (6).

A notícia espalhou-se e “Torres Vedras atraiu a atenção dos pesquisadores. Local onde aparecesse presumível indício de petróleo logo era registado, e assim o País foi coberto de registos mineiros”, principalmente nos distritos de Lisboa e Leiria, estando registados em 1907, nestes distritos, 215 registos mineiros (7).

Contudo, não há notícias de se terem efectuado trabalhos e exploração no “Vale Escuro”, apenas a realização de duas sondagens, em 1905, as duas primeiras de pesquisa de petróleo na região, dirigidas pela concessionária inglesa, uma a nordeste do casal do Repelão, outra, depois de abandonarem aquela,  a sul da Quinta das Conquinhas.

A sondagem a nordeste do Repelão, dirigida pelo inglês William Calder,  foi “a primeira sondagem profunda para pesquisa de petróleo em Portugal”, tendo parado “ a uma profundidade vizinha dos 200 metros”, devido a uma avaria no “trépano”, mas tendo encontrado vestígios petróleo e de gás.

Abandonada aquela, iniciou-se nova sondagem, desta vez a sul da Quinta das Conquinhas e do actual Asilo de S. José, chegando à profundidade de 480 metros, sendo interrompida por novo acidente, “encravamento do trépano, hastes e tubagem”. Perante este fracasso, a companhia inglesa passou os seus direitos para a Sociedade Portuguesa de Terrenos Petrolíferos, a qual, “após ter resolvido o acidente, prosseguiu a perfuração até aos 518 metros, profundidade a que a sondagem parou definitivamente, em Dezembro de 1912, devido a novo acidente” (8).

Entretanto. aquela Sociedade, por fusão com outra, deu origem à Companhia Petrolífera Portuguesa, formada em 1908, que foi a responsável, a partir dessa data, pelas referidas prospecções e por novas perfurações, uma, realizada entre 1908 e 1910 até uma profundidade de 721 metros, perto da Quinta das Fontainhas e dos Cucos, e outra no Vale do Cabrito, junto à Quinta da Certã, realizada entre 1911 e 1912, até uma profundidade de 363 metros, interrompida devido a um acidente e por falta de capitais.

“Os resultados obtidos com estas sondagens não foram além da obtenção de indícios da existência de petróleo em profundidade, testemunhado pelo aparecimento de betuminosos na água de injecção da sondagem, acompanhados, por vezes, de emanações de gás” (9).

Foi necessário esperar pelo final da década de 1930 para se voltarem a realizar sondagens no concelho de Torres Vedras.

Por portaria de 7 de Abril de 1937 foi aberto concurso “para prospecção, pesquisa e concessão de hidrocarbonetos e substâncias betuminosas na área cativa” onde se incluíam as área de Torres Vedras, concurso esse ganho pelas companhias “Henry Joshua Pierce e Claude Hope Morley” e  “Anglo-Ecuadorian Oilfields, Lda.”, incumbindo os concessionários, à firma inglesa “A. Beeby Thompson & Partners” a realização de estudos geológicos no país, cujo resultado foi publicado em 1938, colocando em relevo, entre outras áreas do país a serem pesquisadas, “por entenderem que oferecem condições mais favoráveis à existência de petróleo”, o “Vale de Abadia”, em Torres Vedras (10).

Neste “Vale de Abadia”, a sul do actual Hospital de Torres, a oeste da estrada para Lisboa, na encosta do actual Bairro Vila Morena, realizaram-se duas sondagens.

A primeira sondagem teve início em 18 de Dezembro de 1939, parando a pouco mais de mil e cem metros, em 14 de Setembro, devido à “fraca potência da sonda”, mas, apesar “de não ter sido atingida a profundidade projectada, os resultados obtidos (…) foram bastante interessantes”, tendo encontrado “indicações de petróleo desde cerca de 96 metros” e de forma mais acentuada na profundidade entre os 581 e 630 metros.

Tendo interrompido aquela sondagem, e enquanto aguardava por material mais resistente para a prosseguir, foi efectuada uma segunda sondagem, a uns 400 metros a nordeste da primeira, que se iniciou em 23 de Janeiro de 1941, mas que teve de ser interrompida em 15 de Fevereiro dessa ano, quando já estava à profundidade de 160 metros, devido aos efeitos do ciclone que teve lugar nesta data, tempestade que danificou as torres de ambas as sondagens, bem como “a máquina de sonda  e outro material” (11).

Devido a esse facto e a outros problemas, aquela prospecção foi interrompida por mais de 6 anos, até a Repartição de Minas receber um requerimento, datado de 8 de Fevereiro de 1946, da Anglo-Portuguese Oil Company, Ltd.”solicitando autorização para efectuar trabalhos de prospecção geofísica na área da concessão”, autorização concedida de imediato, mas a título precário.

Os trabalhos de prospecção foram entregues por aquela companhia a uma empresa sueca especializada, tendo escolhido como primeira região escolhida para investigação, usando o método sísmico, o Vale da Abadia em Torres Vedras, começando os trabalhos em 26 de Março de 1946, os quais duraram até 19 de Julho desse ano.

Nesse período a companhia contratou um engenheiro inglês para iniciar a perfuração daquele local, aproveitando, depois de o reparar, o material que aí se encontrava, que tinha sido danificado pelo ciclone de 1941, trabalho iniciado em Julho de 1946, mas, não obtendo resultados, estes foram interrompidos em Outubro.

Esse mesmo engenheiro procedeu também “ a um reconhecimento geológico  em Torres Vedras, compreendendo as regiões de Runa, Matacães, Ordasqueira, Benfica, Gibraltar e Varatojo, durante o qual abriu 70 pequenos furos, num total de 250 metros”.

Com base nas suas investigações esse engenheiro, J.L. Mac Leod, aventou a teoria segundo a qual o “petróleo estaria muito mais à superfície” do que aquilo que sondagens anteriores revelavam. Baseado nessa teoria iniciou, em Maio de 1947, uma nova campanha de sondagens na zona do Varatojo, “campanha” que decorreu até Novembro, efectuando-se nove sondagens, revelando todas elas vestígios de petróleo.

No final desse ano os direitos dessa prospecção passaram para a Companhia dos Petróleos de Portugal que tinha sido fundada em 25 de Junho desse ano e que continuou a realizar sondagens (12).

Na década de 50 do século XX, continuaram a fazer-se prospecções, uma delas, realizada em 1951 no Vale da Abadia, “com profundidade de 2 340 metros produziu óleo nos testes” e, outras duas realizadas em 1954, uma “com 147 metros produziu (…) 170 400 litros durante 8 meses” e outra, a 190 metros, “produziu 4 000 m3/dia de gaz” (13).

A fraca rentabilidade económica dessa exploração levou ao abandono definitivo dessas estações de prospecção no final da década de 1950.

Foi preciso esperar mais de 50 anos para, já neste século XXI, se voltarem a fazer prospecções e sondagens, para procurar petróleo e gás neste concelho, duas em 2005, outras em 2011 nas freguesias de S. Pedro da Cadeira e Ventosa e, entre 2011 e 2012, em vários locais do concelho, usando a técnica de “propecção sísmica”, sob responsabilidade de uma companhia canadiana (14).

Numa altura de crise energética, mas também de crescentes preocupações ambientais, este é um tema que volta a ganhar actualidade, até porque essas prospecções não revelaram apenas a existência de petróleo, mas também de gás.

Como diria um amigo nosso, com preocupações ambientais e na defesa do nosso património, “só cá nos faltava o petróleo”!!

(1)    os editores de MADEIRA TORRES, Manuel Agostinho, Descrição Económica da Vila e Termo de Torres Vedras, (1ª edição em 1835, 2ª edição com notas dos editores, manuscrita, terminada em 1865, 3ª edição impressa em Dezembro de 2020 pela CMTV e ed. Colibri), nota 64 dos editores, pág. 117;

(2)    MACIEIRA; Fernando A. C. Gonçalves, Planificação Histórico- Cronológica das Pesquisas de Petróleo em Portugal, saparata do fasc. II do Vol. IV de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”, Porto 1948, págs.14-15;

(3)    MACIEIRA, ob. cit, pág.17;

(4)    MACIEIRA, ob. cit., pág.18;

(5)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(6)    MACIEIRA, ob. cit., pág.19;

(7)    MACEIRA, ob.cit., pág.19;

(8)    MACIEIRA, ob. cit., pág.25;

(9)    MACIEIRA, ob. cit. Pág.26; 

(10)  MACIEIRA, ob. cit., pp. 64 a 66;

(11) MACIEIRA, ob. cit. pp. 66 a 70;

(12) MACIEIRA, ob. cit. pp.70 a 74;

(13)PIRES; Pedro Miguel Paiva Trancha Correia, Estudo do Potencial Petrolífero de uma região no Onshore da Bacia Lusitânica : Sub-bacia Arruda, Vale da Abadia, Anticlinal de Montejunto, dissertação de Mestrado em Engenharia de Petróleos, Outubro de 2012, Instituto Superior Técnico, pág.5;

(14)PIRES, ob. cit.

ANEXO FOTOGRÁFICO (Fonte: MACIEIRA, ob. Cit.):













domingo, 3 de janeiro de 2021

PARA A HISTÓRIA DO LARGO DA GRAÇA


A propósito das obras de requalificação a decorrer no velho Largo da Graça, aqui recordamos um pouco da história desse espaço.

Na sua origem esteve a parte norte da antiga cerca do Convento da Graça.

Neste local existiu a antiga  Gafaria de Stº André, já documentada em 1309 e, segundo Madeira Torres rodeada de uma “larga cêrca” (1).

Quando a gafaria foi doada aos eremitas de Stº Agostinho em 1544, que para aí se mudaram em 30 de Novembro desse ano, retirando-se do antigo convento na “Várzea Grande”, herdaram também a referida “cerca”.

A  primeira pedra do novo convento foi colocada em 7 de Setembro de 1578, e a obra foi concluída por volta de 1580 (2).

 “O edifício estava rodeado a norte, poente e sul pela sua cerca, onde os agostinhos tinham uma vinha, muitas árvores de fruto, oliveiras, parreiras, uma horta e um poço” (3).

 A parte norte dessa “cerca”, devido à proximidade em relação ao centro da vila, foi muitas vezes palco de desentendimentos entre a Câmara e os eremitas.

Em 1736 a Câmara tentou mudar o mercado semanal, que se realizava às 3ªs feiras, para o Largo da Graça, mas sem êxito, por oposição dos frades.

Anos depois, em 1794, a Câmara contactou os frades para se colocar um chafariz a construir pelo município no “Largo do Convento”. “O chafariz de facto se construiu em forma de repuxo, mas nunca serviu, porque nunca se encanou a água “, tendo sido, “não há muitos annos[por volta de 1863]” demolido por inútil, e estorvar o tráfego do mercado que ali se faz mensalmente” (4).

Gravura Inglesa dos tempos da Guerra Peninsular, vendo-se o Convento a partir da Várzea(poente)

Em 1815 a Câmara voltou a designar o Largo da Graça para a realização do mercado mensal, por acórdão de 20 de Maio, “mandando também fazer barracas encostadas ao muro da Cerca do Convento e intimar todos os logistas para ali pôrem as suas lojas (…). As barracas chegaram com efeito a fazer-se mas n’ellas apenas os tendeiros, ou vendilhões  avulsos, hião por suas fazendas, e por fim foram mandados demolir por sentença, que os padres da Graça lançarão contra a Câmara, por serem feitas em terreno seu, e sem licença sua” (5).

Segundo Paula Silva os frades ainda chegaram a aceitar esse pedido da Câmara, mas na condição de as barracas se sustentarem por si “para evitar que o seu peso e balanço destruíssem o muro”, ao mesmo tempo que exigiram “que ficasse registado que aquele terreno lhes pertencia”. Ao que parece a Câmara não cumpriu o contrato e em 1824 os frades instauraram um processo contra a Câmara (6).

Em 20 de Março de 1832 a cerca foi arrendada por um período de 3 anos a Francisco de Assis e Silva e, depois da extinção do Convento em 1834, foi novamente arrendada em 21 de Julho deste ano, sendo finalmente vendida em hasta pública, juntamente com o Convento, em 1842, a Inácio Ferreira Campelo, pela quantia de 4 433$500 réis (7).

Gravura do Século XIX, vendo-se o sitio onde nasceu o jardim. Nota-se à esquerda, um aqueduto que transportava àgua a partir da "Fonte Nova" para o Convento e uma figura, no lado direito, junto de um poço.

Por deliberação de 1 de Abril de 1857, decidiu a Câmara expropriar a área norte da antiga cerca do Convento da Graça, com a finalidade de alargar o espaço do mercado mensal, decidindo que esse lugar servisse também de passeio público, plantando para isso algumas árvores nesse local.

Em 1863 a  Câmara deliberou e efectuou vários melhoramentos no Largo da Graça “na parte que faz frente para aquella rua [da Olaria] , e a parte que encabeça com a estrada de Lisboa, e dá entrada para a entrada para a Igreja da mesma Graça, aterrando-se de novo a parte maior do Largo, que não hé calçado, e ficando assim mais livres de lama, que por ocasião do Mercado ali se formava, e tirando-lhe as agoas por meio de grandes valetas calçadas do lado do Nascente e Poente” (8).

Em 1885 foi nesse largo instalado um coreto para a primeira actuação pública da “Fanfarra 24 de Julho” que ocorreu em 24 de Junho de 1885.Este coreto nada teve a haver com aquele que é mais conhecido, inaugurado em 1892 e que existiu até meados da década de 40 do século passado (9).

O Convento, tendo passado por várias mãos após a sua extinção, veio a ser comparado pela Câmara em 21 de Abril de 1887, instalando aí vários serviços e repartições públicas, tendo incluído na compra parte da cerca, onde está o jardim actual (10), embora, como vimos anteriormente, parte dela já tivesse sido expropriada em 1857. O resto da cerca, a que rodeava o Convento a sul e a poente, conhecida por “cerca do Doutor Freire”, foi comprada em 16 de junho de 1926 pela Câmara aos herdeiros do Dr. Justino Freire para construir abegoarias, logradouros, novas ruas municipais e as novas cocheiras da Guarda Nacional Repúblicana”(11).

Fotografia de meados do Século XIX, do lugar onde foi construído o Jardim, vendo-se a cerca norte do Convento.


Em
Janeiro de 1886 o largo da Graça foi notícia por causa da decisão camarária de mandar “construir um jardim na parte expropriada contigua ao largo da Graça. A planta será confeccionada pelo distincto engenheiro e nosso amigo, o sr. Mendes de Almeida, que esteve aqui tratando de outos estudos e melhoramentos públicos”, objectivo que ao que se sabe, não foi concretizado (12).

Finalmente, em 1892, um particular, D. Diogo de Nápoles, tomou a iniciativa de tornar aquele espaço, então praticamente abandonado, num ”Passeio Público”, com um corêto, encabeçando uma comissão para adquirir esse espaço por subscrição pública, apoiada pelo jornal “A Semana”.


Terá sido aquele cidadão, de origem italiana e então a viver em Torres Vedras, falecido em São Tomé e Príncipe, que “a 29 de Junho (…) falou em que era bonito dar ao Largo da Graça o aspecto de um passeio público, terraplanando-o, colocando-lhe bancos e candeeiros, e pondo-lhe ao centro um coreto de alvenaria e ferro, para a musica ali se fazer ouvir”. Previa um gasto de 2:000$000 réis e por isso “dias depois, em começos de Julho, principiava a pôr em prática o seu plano com tenacidade, abrindo a subscrição pública, e andando de porta em porta a solicitar donativos para o melhoramento público”, contando com o apoio do semanário local “A Semana” (13).

A primeira pedra para a construção do jardim e do coreto teve lugar a 11 de Junho de 1892, sendo inaugurado em 21 de Agosto, com festa e Kermesse.

Excertos da planta do Coreto (AMTV)

Raphael Bordallo Pinheiro desenhou a “barraca” do jornal “A Semana” colocado nessa ocasião no recinto da Kermesse (14).

Esse espaço foi baptizado com o nome do monarca que então reinava, D. Carlos . Em 1818 era conhecido por Largo de Santana, por causa da ermida que aí existiu, situada no prédio onde funcionou a casa “Napoleão”, junto a uma das portas medievais da vila, com o mesmo nome. Essa ermida ficou arruinada pelas invasões francesas, nunca mais sendo recuperada. Popularmente já era conhecido por Largo da Graça, nome que tem sobrevivido a todas as mudanças toponímicas desse lugar, muito marcadas pela conjuntura política (foi rebaptizado como Largo da República em 1911 e chegou a ser proposta a designação de Largo Sidónio Pais em 1919, intenção que não vingou. Como veremos mais à frente, essas mudanças toponímicas não se ficaram por aqui.


Duas fotografias da Ermida de Santana.


Em 12 de Maio de 1902 este largo foi visitado pela rainha D. Amélia, que se fez deslocar de automóvel, talvez o primeiro a rodar em Torres Vedras.

visita da Rainha D. Amélia.


Várias vistas, em fotos e postais antigos, do Largo no tempo do Coreto

A decisão da Direcção Geral de Viação de instalar junto ao Jardim um posto fixo de fiscalização de trânsito, pelo ofício de 17 de Abril de 1934, (igual ao que hoje existe junto à capela de Nª Srª do Amial) provocou acesa polémica entre duas facções no seio da vereação camarária, alegando uns que aquele posto não ía colidir com o equilíbrio do Jardim, até porque, junto do mesmo, já existia um posto de abastecimento de gasolina (que aí esteve até há poucas décadas, como se recorda ainda o autor deste texto) e outros invocavam motivos estéticos para criticarem essa decisão, como foi o caso do Dr. Moura Guedes.

Esse posto acabaria mesmo por ser aí instalado, sendo visível nalguns postais de meio do século XX e foi retirado anos mais tarde (15).

postais onde se vê o posto de gasolina e o o posto da Direcção Geral de Trânsito.
O Largo da Graça visto a partir do sul, ainda com o cruzeiro que existiu junto à Igreja da Graça

A mais radical transformação daquele espaço, desde 1892, teve lugar em 1954.

Em 10 de Outubro de 1954, depois de grandes obras, que culminaram com a colocação no lugar do velho coreto de um obelisco comemorativo das Guerras Peninsulares, foi oficialmente inaugurado o novo jardim, sendo na mesma ocasião aquele largo rebaptizado com o nome de Praça do Império, mantendo o espaço a norte (“Outeirinho”) a designação de Praça da República (Com o 25 de Abril foi o Largo da Graça rebaptizada como Praça 25 de Abril).

O "novo" jardim, ainda sem o Obelisco

As festas de inauguração do Obelisco e desse espaço, totalmente remodelado,  foram revestidas da pompa característica da época, iniciando-se com “toque de alvorada, às oito horas, pelo terno de clarins da Legião Portuguesa, seguida de uma salva de vinte e um morteiros”. Às 10 horas teve lugar, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o descerramento do retrato do Presidente da República de então, Craveiro Lopes.

Depois desse acto, as “entidades oficias” dirigiram-se para a Freixofeira, limite norte do concelho para receber os “ilustres convidados” para a inauguração, com destaque para a “mais alta individualidade” a estar presente, o sub-secretário de Estado do Exército o tenente-coronel Sá Viana Rebelo, “que vinha presidir às cerimónias”.

O cortejo, com cerca de 200 automóveis, saiu então da Freixofeira a caminho da então vila onde chegou ao largo dos Paços do Concelho por volta das 12 horas. Aqui estavam formados “o Corpo dos Bombeiros Voluntários, com bandeira e banda de música, o Terço da Legião Portuguesa, a Banda Recreativa Torreense, a Mocidade Portuguesa, deputações das várias colectividades locais, com seus estandartes e grande concurso de povo que vitoriou os recém-chegados, enquanto o ilustre membro do Governo passava, em revista, a guarda de honra e as músicas faziam ouvir os acordes da “Maria da Fonte”.

Seguiu-se a cerimónia oficial, com os discursos das autoridades no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

A cerimónia prosseguiu com um “Te-Deum” na Igreja de S.Pedro, seguindo-se um almoço no salão da Tuna Comercial.

Ás 15 horas procedeu-se ao acto de inauguração do Obelisco “junto do qual formavam, em guarda de honra, uma companhia do regimento de infantaria nº1, e um grupo de soldados com os fardamentos usados na época das Guerras Peninsulares, vendo-se ainda, no local, uma peça de artilharia, que nessas guerras serviu, vindo expressamente do Buçaco”.

Foi então lido o auto de inauguração:

“Saibam quantos este público auto virem, que no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil novecentos e cinquenta e quatro - Ano XXVIII da Revolução Nacional - pelas 15 horas, nesta mui nobre e antiga Vila de Torres Vedras, no Jardim da Graça, que doravante se passou a denominar Praça do Império, Sua Excelência o Tenente-Coronel Horácio de Sá Viana Rebelo, Ilustre Sub-Secretário do Estado do Exército, procedeu à inauguração solene deste monumento comemorativo das Campanhas da Guerra Peninsular -1808 a 1814- e especialmente das “Linhas de Torres Vedras” (...).

“A construção deste monumento teve a comparticipação dos ministérios das Obras Públicas e do Exército e a sua concepção foi do arquitecto Miguel Jacobety, e nele trabalharam o tenente coronel de Engenheiros Manuel Braz Martins, Engenheiro Altino Aldo Gromicho, o construtor civil José Pedro Lopes e os operários, Sebastião Pedro Henriques, Jaime Simões, Joaquim Miranda, José da Silva, José Correia, João Alves Carregueiro e António Chá. As cantarias foram fornecidas pela Firma Pardal Monteiro, Limitada, de Pero Pinheiro (...)”.

Seguiu-se um desfile militar junto à tribuna de honra montada numa das ruas próximas do jardim.

A cerimónia terminou com a inauguração no “Museu e Biblioteca Municipal” da exposição histórico-biblio-iconográfica dedicada às Linhas de Torres (16).




Cerimónias de inauguração do Obelisco

Vivendo-se em ditadura e em regime de censura, não se encontra registada qualquer crítica pública àquele que foi, ainda hoje, para uns, um atentado ao património, retirando o único corêto existente dentro da cidade, para outros, uma obra inovadora e de referência.

O silêncio sobre reacções criticas não quer dizer que não tivessem existido manifestações de desagrado.

António Augusto Sales, jovem nessa época, refere-se às criticas então manifestadas nas mesas dos cafés, a “rede social” da época:

“Quando José Figueiroa Rêgo, no último ciclo do seu mandato de quatorze anos como presidente da Câmara decidiu derrubar o velho coreto e arrasar o antigo jardim para construir o actual colocando no meio um enorme obelisco em memória da Guerra Peninsular e das Linhas de Torres, muito e apaixonadamente se discutiu a deliberação. Técnicos que por  o serem entendiam as suas opiniões acima de qualquer critica, idosos que sentiam o desaparecimento do velho jardim como perca da sua identidade geracional, intelectuais, que viam monumento uma manifestação da arquitectura fascista, estetas da ironia que lhe vislumbravam uma grandeza fálica, assanhados conservadores incapazes de aceitar o bulir de uma pedra, músicos das bandas que sem o coreto perdiam o mais simbólico palco para a exibição da sua arte, gente nova fazendo parte de uma geração voltada decididamente para um novo conceito de jardim que introduzia na vila modernidade, todos discutiam o assunto e lançavam “bocas de bancada” pelos cafés que naquele tempo, eram os templos por onde passava qualquer iniciativa, escândalo público ou privado. No meio de uma guerra de opiniões a obra foi em frente (…)” (17).

Várias vistas do Jardim após a inauguração do Obelisco.

É preciso esperar por 1970 e por alguma “abertura” da “Primavera marcelista” para encontrarmos a publicação pública de um texto crítico sobre o jardim:

“Se me perguntarem o que penso daquele mini-jardim, responderei que é o único local aprazível da parte urbanística da vila. Mas não posso deixar de dizer que tem ali verdadeiras aberrações (…).

“Já repararam que as árvores que o circundam escondem a fachada da Graça, ofuscando-lhe toda a graça e austeridade que são uma mensagem da fé dos nossos antepassados?

“Já repararam que essas mesmas árvores escondem também o belo obelisco (…)?

“Já repararam que, por sua vez, o referido obelisco não se enquadra bem no mini-espaço que o circunda e donde só é visível?

“Contudo, benditas sejam aquelas árvores que protegem com a sua sombra os que procuram aquele local porque outro não há onde se possa ter a sensação de frescura nos dias de calmaria ou onde se possa refazer o corpo das fadigas que o dia a dia acarreta.

“Quando um dia houver jardins com árvores (…) talvez possam ficar ali só arbustos que não ofusquem a graça da Graça que serve de fundo àquele largo.

“Talvez que o obelisco se apresente, então, com toda a sua beleza, e bem enquadrado (18). Nas décadas de 70 e 80, período em que a vila, tornada cidade em 1979, conheceu um grande crescimento urbano, o jardim perdeu importância e tornou-se quase um “saguão” gigante no meio de uma urbanização caótica que cresceu à sua volta, rompendo-se o diálogo visual entre a fachada do velho Convento e o Castelo, um equilíbrio que devia ter sido garantia de preservação da identidade da terra.

O próprio Obelisco, obra polémica, perdeu fulgor no meio do caos urbano à sua volta, atarracado pelo arvoredo cada vez mais denso.

Em 2002 gerou-se nova “ronda” polémica, devido à publicação de uma sugestão de requalificação defendida pelo então vereador do planeamento Carlos Miguel, propondo a retirada do Obelisco daquele espaço e substituir as árvores de grande porte por outras de dimensões mais reduzidas, com o objectivo de alargar a zona pedonal e realçar a fachada do velho Convento.

A ideia acabou por não ira para a frente, devido à reacção popular e da imprensa, ficando-se por alguns arranjos na parte norte do jardim(19).

Ficou-se também a saber que a remoção do Obelisco era tecnicamente impossível sem destruir por completo o monumento.

Hoje, as obras de requalificação que estão a decorrer, mantêm o Obelisco, passam pelo alargamento da zona pedonal à custa do estreitamento da faixa rodoviária, embora se tema pelo futuro do arvoredo.

Desta vez as reacções públicas tem sido moderadas, talvez devido às preocupações com a actual situação pandémica. Destaque-se, contudo, um dos raros textos críticos sobre essa obra, da autoria de Jorge Ralha(20).

Pela nossa parte…esperemos que o popular Largo da Graça volte a ganhar…alguma graça!

 

(1)    - TORRES, Madeira, parte histórica da sua conhecida monografia, 2ª edição, página 126;

(2)    - SILVA, Paula Correia da, O Convento da Graça de Torres Vedras, a comunidade eremítica e o património, Livro do Dia/CMTV, Abril 2007, capítulo “A segunda fundação”, pp.34 a 36.Esta é a melhor e mais completa e actualizada obra sobre o dito Convento;

(3)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.38;

(4)    – anotadores de Madeira Torres, parte económica, manuscrita, 5º caderno, f.6, AMTV;

(5)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 8º caderno, f.7, AMTV;

(6)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.65;

(7)    – SILVA, Paula Correia, ob.cit., pág.114;

(8)    - anotadores de MT, parte económica, manuscrita, 2º caderno f.6, AMTV;

(9)    – in  Jornal de Torres Vedras, 30 de Julho de 1885;

(10) – SILVA, Maria Manuela Gonçalves Silva, Convento da Graça - Torres Vedras, parte 1, tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997, dactilografada;

(11)  – SILVA, Paula Correia, ob.cit.,, pág.115;

(12)   – in Jornal de Torres Vedras, 22 de Janeiro de 1886;

(13) - in A Semana, número comemorativo da Kermesse de abertura do novo jardim,  Domingo 21 de Agosto de 1892. Ver também o suplemento do nº 46 de  “Toitorres Notícias” de Maio/Junho de 1998, coordenado por António Rodrigues e Adão de Carvalho;

(14)  CARVALHO, Adão de e PAULO, Joaquim, “Ontem e Hoje – Rafael Bordallo Pinheiro e o Coreto da Graça”, in Badaladas de 27 de Março de 1992;

(15) – leia-se, sobre o tema,  o texto assinado por Moura Guedes, “O Jardim do Largo da Graça – uma “nota” oficiosa”, in Alta Extremadura, 20 de Março de 1935;

(16)– CUNHA, Augusto M. Lopes da, Memória das Festas da inauguração do obelisco comemorativo da guerra peninsular e Catálogo da exposição hiistórico-biblio-iconográfica, ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, 10 de Outubro de 1954;

(17) – SALES, António Augusto, “Um referendo para o Jardim da Graça e o seu Obelisco”, in Frente Oeste de 2 de Maio de 2002;

(18)  – DIOGO, A., “As tarimbas do mini-jardim da Praça do Império”, in Badaladas de 27 de Junho de 1970;

(19)   – ver Badaladas de 12 de Abril de 2002 e Torres Vedras em Revista, nº1, Março de 2002;

(20)   – RALHA, Jorge, “A desgraça da Graça”, in Badaladas de 20 de Novembro de 2020.