Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
segunda-feira, 25 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
"Torreense" no Final da Taça em 1956 - 70 anos depois, a história repete-se
O “Torrense” volta a estar no final da Taça de Portugal, exactamente 70 anos depois da sua primeira participação numa final dessa prova.
Essa foi a época áurea da equipa de Torres Vedras, campeão
da 2ª Divisão na época de 1954/1955 e presente pela primeira vez no campeonato
nacional da 1ª Divisão na época de 1955/1956, tendo terminado no 7º lugar entre
14 equipas.
Os jogos, a partir dessa eliminatória, realizaram-se todos
ao longo do mês de Maio de 1956, depois de terminado o campeonato da 1ª
Divisão, ganho nessa época pelo Futebol Clube do Porto.
Na realidade nos 16 avos de final apenas se realizaram 14
jogos, já que, nos quartos de final, seria incluída a equipa apurada numa fase
de eliminatórias entre as equipas das ilhas, da qual o Marítimo foi o vencedor,
com direito a disputar a Taça a partir dessa fase da prova.
Mas voltamos ao Torreense e à sua participação nessa prova.
A primeira eliminatória foi disputada pelo Torreense em
casa, como ditou o concurso, batendo o Desportivo de Beja, da 2ª divisão, por
2-0 no jogo disputado em 2 de Maio.
Foi um jogo “algo difícil e enervante”, como intitulava Rui
de Belchior nas páginas do “Jornal do Torreense” na sua edição nº 17 de Maio de
1956.
O único golo da equipa torriense foi marcado apenas aos 40
minutos: “na marcação dum canto, a bola é repelida para perto por um defesa
contrário, permitindo a João Mendonça, com um toque subtil, encaminhá-la para a
baliza”. João Mendonça era, então, uma das estrelas da equipa de Torres Vedras,
tendo sido o 13º melhor marcador do campeonato da 1ª Divisão.
Aos 18 minutos do segundo-tempo o Torreense passou um mau bocado, quando sofreu a marcação de uma grande penalidade contra si, mas que foi desperdiçada pela equipa alentejana. Até que, a 3 minutos do fim, o “Torreense” viu confirmada a vitória na eliminatória com um golo de Carlos Alberto.
Nos oitavos de Final, disputados em 7 jogos, no dia 6 de
Maio, aconteceu a primeira surpresa com o Torreense a eliminar, em jogo
disputado em casa, o Sporting, por 1-0.
O primeiro tempo terminou com uma igualdade a zero, mas aos
10 minutos do recomeço, “Carlos Alberto quando corria pelo seu corredor foi
carregado irregularmente” (relato de Fernando Monteiro nas mesmas páginas do
jornal acima citado) por um jogador do Sporting e, na marcação do livre feita
por aquele jogador a bola foi interceptada por Forneri que marcou de cabeça o
golo decisivo para o Torreense fazer a surpresa e passar mais uma eliminatória.
O jogo terminou empatado a zero golos no final do primeiro
tempo. Foi no recomeço do jogo que o resultado funcionou a favor da equipa
torriense, logo no primeiro minuto, com a marcação de um golo de cabeça pelo já
citado João Mendonça. O Torreense consolidou o resultado aos 12 minutos com um
novo golo de cabeça do mesmo João Mendonça, fixando o resultado final nos 2-0.
O Torreense chegou assim às meias-finais, o que, já por si,
era um feito histórico. O jogo realizou-se em 20 de Maio no Estádio do
Belenenses, que tinha sido o terceiro classificado do campeonato. Ao lado do
Benfica, do Sporting e do Porto, o Belenenses era então um dos “grandes”. Para
surpresa geral, a equipa de Torres Vedras obrigou o Belenenses, a jogar em
casa, a ir a prolongamento e…venceu o jogo por 3-2, sendo apurado para o final
no Jamor contra o “Porto”, campeão nacional.
O jogo não começou bem para a equipa de Torres Vedras, que
sofreu um golo aos 24 minutos, marcado pelo célebre Matateu. Mas o Torreense
não se ficou e, aos 32 minutos um “remate forte e bem colocado” de João
Mendonça restabeleceu a igualdade (seguimos o relato de Rui Belchior no citado
jornal).
Na segunda parte da partida o Belenenses voltou a aumentar a
vantagem com um golo de Di Pace. Foi já
perto do final da partida que a equipa torriense voltou a igualar a partida com
um golo de cabeça marcado por Fernandes, na sequência de um canto bem marcado
por José da Costa.
Terminado empatado tempo regulamentar, procedeu-se a um
prolongamento de meia-hora. Quando tudo parecia apontar para a manutenção do
empate e para necessidade de se repetir o jogo, a 2 minutos do fim o jogador
torriense Gonçalves marcou o golo da vitória que colocou a equipa de Torres
Vedras no final da Taça.
A final realizou-se no Estádio Nacional no dia 27 de Maio. O Porto marcou cedo e, no inicio da segunda parte, foi marcado um penalti, muito duvidoso, contra o Torrense, encerrando cedo as hipóteses para a equipa de Torres Vedras, que perdeu por 2-0. Para o Porto foi a primeira Taça de Portugal conquistada e também a primeira dobradinha.
O Porto marcou logo aos 3 minutos após o início : o jogador
portista Perdigão “num lançamento de linha lateral” enviou “a bola para Jaburu
que, por sua vez, a lança para a frente da baliza de Gama. A nossa defesa ficou
parada, consentindo que Hernani cabeceasse com êxito” (seguimos o relato de
Fernando Monteiro no citado jornal)”.
Foi aos 12 minutos do segundo tempo que “tudo terminou” para
as ambições do Torreense com a marcação de um contestado penalti a favor do
Porto, convertido por Hernani, fixando o resultado final de 2-0 a favor da
equipa do norte.
Um acontecimento curioso desta final foi a iniciativa dos
adeptos do Torreense que espalharam pelas bancadas “milhares de barretes de
papel – encarnados e azuis”.
O Torreense teve de esperar mais 70 anos para repetir a
proeza, desta vez a jogar uma nova final da Taça de Portugal contra o Sporting,
equipa que, naquele ano distante de 1956, foi eliminada pelo “pequeno”
Torreense.
A final disputa-se no próximo dia 24 de Maio.
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
TUNA - Histórias de uma associação centenária
A Tuna Comercial Torreense é uma associação centenária desde 5 de Abril de 2004.
Com base num rápido levantamento de fontes sobre a origem e evolução dessa prestimosa associação local, pretendo neste texto elaborar um primeiro balanço, ainda que incompleto e lacunar, dos principais dados recolhidos que possam servir para, futuramente, aprofundar e contribuir para um primeiro historial da Tuna.
É do
conhecimento público que esta associação foi fundada a partir de uma cisão no
interior do “Grémio Artístico-Commercial”, (actual Clube Artístico Comercial),
em 1904, oficialmente provocada por divergências sobre a acessibilidade do
público às sessões de animatógrafo que então se tinham iniciado no Salão-Teatro
desta associação.[1]
Parece-nos, contudo, terem existido também razões políticas por detrás dessa cisão, pois
vamos encontrar à frente dos destinos da Tuna, desde o princípio e ao longo de
vários anos, algumas das mais destacadas figuras do então embrionário movimento
republicano torriense, como José da Silva Carnide,
José António Lisboa, Celestino da Silveira Almendro, José Lobo Mendes ou Álvaro
Lafaya de Castro.
A Tuna
chegou mesmo a actuar durante um banquete de homenagem aos deputados republicanos
António José de Almeida, Alexandre Braga, Bernardino Machado e Afonso Costa, realizado no Hotel Natividade, em 14 de Abril de 1907 , tendo de enfrentar a
proibição, por parte das autoridades locais, de tocar na estação de
caminhos-de-ferro na despedida daquelas personalidades.[2]
Ainda em
pleno regime monárquico, no dia 18 de Outubro de 1909, teve lugar no salão da
Tuna uma “conferência anti-clerical”,
proferida por António Macieira, que veio a ser ministro da Justiça e dos
Negócios Estrangeiros em dois dos governos republicanos. Para essa sessão, o “salão encheu-se litteralmente de ouvintes,
entre os quaes algumas senhoras”, causando essa conferência “grande enthusiasmo nos assistentes”.[3]
Quando
Machado dos Santos, pouco mais de um mês após a proclamação da República,
visitou a vila de Torres Vedras, foi na Tuna
uma das colectividades onde aquele mais se demorou, sendo proclamado
presidente honorário e homenageado com o descerramento de um retrato na sede da
Tuna.[4]
Como prova de agradecimento, aquela figura histórica do republicanismo ofereceu à associação uma granada usada na Rotunda no dia 5 de Outubro.
Todos estes dados parecem comprovar a origem republicana desta associação.
Fundada
oficialmente no dia 5 de Abril de 1904, no dia 29 desse mês anunciava-se
publicamente a organização de “uma tuna
composta de empregados de commercio, em número de 25, sob a regência do sr.
Joaquim Nicolau Jorge”, tomando o nome “Tuna
Commercial Torrense” e entrando “já
em ensaios”. [5]
Aquela data
fundadora é confirmada na primeira reunião formal da associação que se realizou
no dia 6 de Maio de 1904 e que teve lugar numa cassa pertencente ao Grémio
Artístico e Comercial.
A esta
reunião assistiram todos os sócios da Tuna Comercial Torreense , entre os quais
Joaquim Nicolau Jorge “regente da
referida Tuna” que propôs, “para
melhor andamento e regularidade dos assumptos d’este grupo”, a nomeação de
uma direcção, “o que immediatamente se
fez, sendo unanimemente aclamados os cidadãos seguintes: Ulpino da Silva, Presidente; António Alves,
Secretário; Candido Francisco d’ Avellar, Thezoureiro”[6]
Uma das
primeiras preocupações dessa nova associação foi encontrar instalações onde
pudesse desenvolver as suas actividades.
Só em 1906
foi inaugurada a sua primeira sede, um salão de 1º andar no “edifício do sr. Angelo Custódio Rodrigues,
ao fim da rua Dias Neiva”. A inauguração desta sede e a estreia do
estandarte da colectividade tiveram lugar no dia 23 de Setembro de 1906,
incluindo também a comemoração, por
parte dos empregados de comércio, do 10º aniversário do encerramento dos estabelecimentos de
Torres Vedras ao Domingo e dias santificados, de tarde[7]
:
Do programa
dessa “Festa dos Caixeiros” e da
inauguração da sede da Tuna constava
o seguinte:
“Ás 4 horas da manhã – alvorada pela Tuna,
percorrendo em seguida as principais ruas da villa;
“Á 1 hora da tarde, chegará uma deputação de
socios da Tuna Commercial de Lisboa com o seu valioso estandarte, que será
acompanhado pela Fanfarra União Torrense, desde a estação até á séde da Tuna;
“Ás 4 horas da tarde – distribuição de
distinctivos á classe dos caixeiros na mesma séde:
“Ás 4 e meia – a Tuna com o seu estandarte,
irá cumprimentar a auctoridade administrativa, percorrendo em seguida varias
ruas da villa.
“Ás 5 e meia – será recitada uma poesia
allusiva pelo sr. S. H. Gouveia, a qual será distribuida em seguida por toda a assistência;
“Em seguida, distribuição de um bôdo a 60
pobres no salão da Tuna, durante o qual, a mesma sociedade se encontrará
tocando o seu novo reportório.
“Ás 9 horas da noite – recitará outra poesia
allusiva, o sr. F. J. Jeronymo, que será também distribuida profusamente.
“A seguir, a Tuna dará começo á “soirée”
sendo intervallada por diversos monologos, e a qual terminará por um bonito
cotillon, para o qual se estão confeccionando marcas de magnifico effeito” [8],
tendo a soirée durado até às 5 horas da manhã.[9]
Com a
inauguração deste salão a Tuna passou a poder “recreiar os socios (...) promovendo
bailes e saraus dramatico-musicaes, bem como” prestar “, sempre que possa, o seu concurso a qualquer festa de caridade”.[10]
Ainda nesse
ano a direcção da colectividade propôs-se instituir um “gabinete de leitura”, pelo que solicitou a várias pessoas a oferta
de livros, iniciativa que encontrou bom acolhimento.[11]
Nessa sala
organizaram-se bailes para os sócios, geralmente intervalados com cançonetas e monólogos, actuações da Tuna (incluindo no
seu repertório “valsas”, “passe-calle”, “polkas” e “mazurkas” [12]),
saraus dramático-musicais, execuções musicais ao piano, etc..
Em 1909 foi
contratado Artur Rodrigues para, “às 2ªs,
4ªs e 6ªs feiras dar lições de musica” aos sócios da Tuna e aos seus
filhos.[13]
Entre outras
iniciativas da Tuna contavam-se os passeios recreativos, destacando-se o que se
realizou à praia de Santa Cruz em finais de Outubro de 1908, merecendo uma
detalhada reportagem nas páginas da Folha...
:
“Pouco depois do meio dia [de
Segunda-feira 26 de Outubro] dava
entrada, tocando, na aprazivel e pittoresca Santa Cruz aquella sociedade que
foi recebida com chuveiro de flôres, que gentis senhoras as colonia balnear,
lançavam sobre os tunos.
“ A gentileza da parte das senhoras que alli
se encontram a banhos não ficou só por aqui.
“Ao parar a tuna no largo principal, as srªs
D. Hilda Batoreu e D. Maria Valente distribuiram a todos os tunos graciosos
raminhos de flôres que collocaram nas “bastonnières”.
“Ao
jantar, que correu animadissimo compareceram aquellas damas, vestidas á moda do
Minho, servindo ao “toast” vinhos finos, offerecidos por varios cavalheiros
“Ás 6 horas principiou o concerto no Casino,
que se achava vistosamente ornamentado,
o qual durou até ás 8 horas.
“Em seguida teve logar o baile que correu
animadamente até ás 11 horas, regressando a Torres a tuna, depois de ter sido
novamente obsequiada por uma commissão se senhoras, de que faziam parte D.
Suzana Reis e D. Maria Celeste Fonseca, e que lhe offereceu dôces e vinhos
finos”.[14]
Em assembleia
geral realizada no dia 3 de Janeiro de 1910 decidiu-se mudar a sede “para o 1º andar da rua de S.
Pedro sobre o estabelecimento dos srs. Trindade e Cª.”.[15]
Ao que
parece, essa mudança de instalações ter-se-á ficado a dever aos estragos
provocados na primeira sede por uma inundação na véspera de Natal.[16]
A nova sede
foi inaugurada no Domingo de Carnaval, 6 de Fevereiro de 1910:
“A casa em que se acha agora installada reune
todas as condições necessarias para uma collectividade como a Tuna, cujo fim é
o recreio dos seus socios.
“Alem da elegante sala de baile com palco,
tem outras espaçosas salas e gabinetes, que, n’um futuro de prosperidade
poderão ser susceptiveis de alargamento.
“A sala achava se vistosamente ornamentada
devido ao bom gosto do sr. José da Silva Carnide, que foi auxiliado pelo sr.
Joaquim Marques Trindade.
“No Domingo gordo, depois da Tuna ter
executado o seu programma, sob a habil direcção do seu regente, sr. José
Candido de Mello, tendo recebido muitas ovações, subiram á scena a comedia em 1
acto, Depois de Velhos e a comedia
em 2 actos, Amores de um soldado,
original do sr. Thomaz do Nascimento que foi um dos interpretes. Todos os
outros amadores que eram os srs. Severino Gouveia, Joaquim Rodrigues , José
Barreto, José Canha, Mário de Magalhães e António de Carvalho, fizeram um
desempenho que agradou, tendo por isso sido muito applaudidos.
“Apoz o espectaculo, foi feita uma chamada á
direcção da Tuna, que tem sido incansavel de esforços para o augmento das
prosperidades da mesma e a quem se deve a nova instalação. A direcção veio ao proscenio e foi recebida com uma
prolongada salva de palmas, depois do que se seguiu um animado baile até de
madrugada (...)”.[17]
Contudo,
alguns anos mais tarde, lamentava-se “as
pequenas dimensões do salão de baile, que mais uma vez se mostrou deficiente
para o número dos associados”[18]
Respondendo
a esta preocupação, a direcção eleita para o ano de 1929 reconhecia que desde
há muito tempo "que se tem pensado
na construção de um novo salão de baile”, mas apontava a “falta de capital para a realização dêste
projecto” como “a principal causa de
até hoje se não ter efectuado a sua construção”, prometendo esta nova
direcção procurar mais uma vez encarar esse problema.[19]
Ainda nesse
ano, numa outra entrevista concedida ao “O Jornal de Torres Vedras”, o então
presidente da direcção da Tuna, Emídio Bandeira, anunciava a construção de um
grande salão em terreno situado na retaguarda
da seda, pertencente ao comendador Francisco Avelino Nunes de Carvalho,
autorizado por este para utilizar com esse fim e cedido pelos
arrendatários João Marques Trindade e
Leonel Trindade, tendo-se formado uma comissão composta por Jacinto Rodrigues,
Joaquim Vaquinhas, Francisco Jerónimo, António Ferreira, Ernesto José da Costa,
Avelino Ferreira, Marques de Carvalho e José Lisboa para angariar fundos para
realizar essa obra. [20]
O novo salão, obra arquitectonicamente arrojada e inovadora para a época, foi construído e inaugurado na década de 30.
Os
estatutos da Tuna foram aprovados em
Assembleia geral de 25 de Novembro de 1912.
Indicavam-se
com finalidades da associação proporcionar “aos
sócios e suas famílias o maior número de distracções, como bailes, récitas,
jogos que não sejam de parada ou azar e quaisquer divertimentos que possam
contribuir para o desenvolvimento da mesma associação”, assim como a
criação de “uma biblioteca” e a
promoção de “prelecções e conferências
artísticas e cientificas ou doutrinárias”, não permitindo, contudo, “conferências políticas, pessoais ou
partidárias”.
Sem
esquecer a origem social da associação, indicavam-se igualmente como
finalidades a discussão de “todas as
questões de carácter comercial” e “promover
a colocação para os filhos menores dos sócios falecido, quando sem meios de
subsistência, encaminhando-os na vida comercial”.
Promovendo
desde logo um certo elitismo que se tornou a imagem de marca desta
colectividade, os mesmos estatutos defendiam que só podiam ser admitidos como
sócios os indivíduos que exercessem “emprego decente, de boa reputação moral e
civil” , permitindo à direcção que pudesse “convidar para todas as festas da associação, as senhoras de família em
que não haja varões de mais de 17 anos de idade”.[21]
Essa
tendência elitista da associação está patente em várias reportagens sobre as
suas actividades, como, por exemplo, nas duas seguintes:
Em 1915, referindo-se a uma festa desta colectividade: “Via-se ali uma selecta reunião das famílias
mais distintas da terra, e as “toilettes” das senhoras punham um tom realmente
chic e de bom gosto no aspecto geral da sala”.[22]
Em 1920:
uma referência à Tuna como uma “sociedade
com bons elementos de vida e d’uma familiaridade intima entre todos os seus
associados”[23]
Por ocasião
do aniversário da colectividade nesse mesmo ano e da sessão solene para a entrega
do novo estandarte da associação, descrevia-se a assistência onde “o chic e apelon” da mesma “se casava num verdadeiro élan com a frescura
e beleza das toilettes que damas gentis e galantes envergavam com singular
gosto e distinção”. [24]
Esta postura era assumida em entrevista concedida ao “Gazeta de Torres”, em 1929, pela então recém eleita direcção, indicando como principais característica da Tuna a “escrupulosa selecção de associados” e a “proverbial disciplina que sempre reinou dentro daquela casa”.[25]
Em 1913 uma
“commissão composta pelos srs. Luís Gualdino Pereira, Alvaro Augusto Rodrigues
e António Alves, exercendo respectivamente os cargos de thesoureiro, secretário
e fiscal, resolveram de comum accordo com a direcção d’esta collectividade,
reorganisar a Tuna (parte musical), bem como dar começo aos ensaios da parte
dramatica”, sendo responsável pela direcção musical o maestro Francisco Xavier
de Mello.[26]
Em 18 de Julho de 1920 uma novamente reorganizada Tuna musical, mas ainda sob a direcção daquele maestro, realizava um “sarau musical” de apresentação, onde fez ouvir os “melhores trechos do seu selecto reportorio”. [27]
Na década de 20, no dia de aniversário da colectividade, os recém criados clubes de futebol de Torres Vedras, o Sporting Torrense e o União Torreense, disputaram a Taça 5 de Abril, atribuída pela Tuna[28]
Uma das
iniciativas que mais contribuiu par identificar esta colectividade foi a da
organização dos bailes de carnaval, tornando-se, com o tempo, a mais
prestigiada e cobiçada festa do carnaval de salão em Torres Vedras.
Logo em
1906, ainda sem sede própria, a Tuna organizou, na Terça-feira de Carnaval, uma
soirée , no salão do Hotel Natividade, “o
qual terminará com um surpreendente
Cotillon”.[29]
O primeiro carnaval organizado em instalações
próprias teve lugar no ano seguinte, na primeira sede da rua Dias Neiva.
Neste
carnaval a “sala da Tuna estava enfeitada
de festões de cores diversas, vendo-se pelas paredes varias caricaturas e ao
fundo uma boneca garridamente vestida.
“Na noite de Domingo houve regular animação”,
tendo a Tuna executado “todas as peças
com a maior correcção, pelo que foi justamente ovacionada.
“A parte dramática foi desempenhada pelos
amadores Gouveia, Vaquinhas, Avelino, Canha, Magalhães e Alves, nas comedias Um ensaio de Hamlet e Ideias
do sr. Sardinha ,sendotodos muito applaudidos.
“Abreu no monologo Ponham os seus chapeus, Tito dos Santos no monologo Um fraco e Arthur Freire na cançoneta Láter...tenho, mostraram as suas
aptidões recebendo geraes applausos.
“Na Terça-feira o sr. António Alves recitou
com muita graça a cançoneta Ui que danxa
e a poesia Que desgraça de nariz.
“O baile esteve animadissimo e o cotillon terminou às 6 horas da manhã
no meio de grande enthusiasmo (...)”.[30]
Foi por ocasião das festas de carnaval de 1910 que se
inauguraram as novas instalações, onde se encontra a sede actual, com já
tivemos ocasião de ver anteriormente.
Naquela que foi uma das primeiras tentativas de organizar
um carnaval de rua , em 1912, a Tuna fez parte da sua comissão organizadora,
conjuntamente com o “Grémio”, o “Casino”
, o “Salão-avenida animatographo” e a “Filarmónica Torrense”[31].
O aparecimento na Tuna, na Terça-feira de Entrudo de 1922,
de vários mascarados que a partir daí foram percorrer as outras colectividades
da vila[32],
esteve na origem do primeiro Carnaval de rua que se realizou no ano seguinte,
já com o primeiro rei do Carnaval.
Nestas breves linhas procurou-se apenas efectuar um primeiro balanço de alguns dos momentos e de algumas das características mais importantes desta colectividade.
[1] Cem Anos de Vida, ed. do Clube Artístico Comercial, T. Vedras,
1991, pág. 41.
[2] Ver Folha de Torres Vedras de 14, 21 e 28 de Abril de 1907.
[3] Folha de Torres Vedras de 24 de Outubro de 1909.
[4] Folha de Torres Vedras de 13 de Novembro de 1910.
[5] Folha de Torres Vedras de 29 de Abril de 1904.
[6] Livro de “Actas da Tuna Commercial Torreense”
(direcção), acta nº1 de 6 de Maio de 1904.
[7] Folha de Torres Vedras de
8 de Julho de 1906.
[8] Folha de Torres Vedras de 16 de Setembro de 1906.
[9] Folha de Torres Vedras de 30 de Setembro de 1906.
[10] Folha de Torres Vedras de 8 de Julho de 1906.
[11] Folha de Torres Vedras de 21 de Julho de 1907.
[12] Folha de Torres Vedras de 20 de Janeiro de 1907.
[13] Folha de Torres Vedras de 18 de Julho de 1909.
[14] Folha de Torres Vedras de 1 de Novembro de 1908.
[15] Folha de Torres Vedras de
9 de Janeiro de 1910.
[16] CARVALHO, Adão de
“Recordando...Dois incêndios na cidade”, in Badaladas
de 17 de Março de 1995.
[17] Folha de Torres Vedras de 13 de Fevereiro de 1910.
[18] O Torreense de 18 de Abril de 1920.
[19] Gazeta de Torres de 6 de Janeiro de 1929.
[20] O Jornal de Torres Vedras de 3 de Maio de 1929.
[21] Estatutos da Tuna Comercial Torreense –aprovados em Assembleia Geral de
25 de Novembro de 1912, ed. tip. A União, T. Vedras, 1960, em especial os
capítulos I, II e VII.
[22] Folha de Torres Vedras de 4 de Fevereiro de 1912.
[23] A Vinha de Torres Vedras de 29 de Maio de 1915
[24] O Torreense de 18 de Abril de 1920.
[25] Gazeta de Torres de 6 de Janeiro de 1929.
[26] A Vinha de Torres Vedras de 11 de Setembro de 1913.
[27] O Torrense de 17 de Julhode 1921.
[28] O Torrense de 2 de Abril de 1922
[29] In Convite para o
Carnaval de 1906 –Tuna Commercial Torrense.
[30] Folha de Torres Vedras de 17 de Fevereiro de 1907.
[31] Folha de Torres Vedras de 11 e 22 de Fevereiro de 1912.
[32] O Torrense, 5 de Março de 1922.








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