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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Vida Torriense nos caracteres da Imprensa Local (Finais do Século XIX) - (1885-1890) - Janeiro de 1888

JANEIRO de 1888

O ano novo não começou da melhor maneira para Torres Vedras nesse ano de 1888.

O mau tempo continuava a impedir, desde finais de Dezembro, a realização dos trabalhos agrícolas, prejudicando os “pobres trabalhadores, que têm passado dias e dias sem ganhar jorna “ (1).

Os temporais que tinham tido lugar em 27 e 28 de Dezembro de 1887, provocaram cheias e interromperam a ligação ferroviária entre Torres Vedras e Lisboa, provocando a “irregularidade” do serviço de correio (2).

Atribuía-se às obras na linha férrea a responsabilidade pelos prejuízos que o temporal provocou nalgumas terras, “devido ao desvio que se permitiu fizesse, no rio Sizandro”, citando-se o caso da “propriedade do sr. João Victorino Pereira da Costa, bastante danificada hoje em consequência da Câmara transacta ter consentido no que não devia consentir (…) assim com deixou que se construísse, sem as necessárias condições, requeridas ali pela afluência das àguas, o aterro sobre a Várzea do Reguengo (…). Os resultados não podem ser piores. Aí estão patentes” (2).

Uma certa decepção perante as possibilidades do novo meio de transporte recentemente inaugurado não impedia  que se apostasse no seu futuro, chegando a defender-se a construção de um ramal ferroviário que ligasse Pêro Negro ao Turcifal, proposta que seria nesse mês apresentada à direcção da Companhia dos Caminhos de Ferro portugueses.

Em decadência encontrava-se o único meio de transporte alternativo de então, embora durante alguns dias tenha sido o único meio de ligação com Lisboa, com os inconvenientes abaixo referidos:

“As correspondências expedidas de Lisboa a Torres, por uma só diligência, chega aos seus destinos atrasada, e a horas incertas da noite.

“É assim que estamos recebendo os Jornais de Lisboa e a da província” (2).

Tais inconvenientes demonstrados pelo transporte tradicional não impediram que, em 8 de Janeiro, fosse inaugurada uma nova carreira de diligência entre Torres Vedras e  capital, pertencente à companhia “António Alves Gato & Irmão (…) saíndo de Lisboa dois carros – um às 9 horas da manhã e outro ao meio dia, passando o das 9 por Dois Portos, e o do meio dia pelo Turcifal.

“Sai de Torres o primeiro carro às 5 horas da manhã, passando em Dois Portos; e o segundo às 10, pelo Turcifal.

“Os bilhetes vendem-se em Lisboa na Tabacaria Neves, e em Torres Vedras, na loja do sr. José Avelino (…). Preço, 1$000 réis” (2).

Uma das maiores preocupações da imprensa de então era com o saneamento da vila:

“Pedimos à Ex.ma Câmara que provindencie no sentido de serem mais rigorosamente cumpridas as disposições que sabemos estarem no ânimo de todos os srs. Vereadores, com respeito à limpeza e saneamento da vila.

“Nem a todos os pontos chegam a vassoura a limpar as imundices que a falta de saguões e pias obriga a acumular na ruas e vielas, havendo sítios onde a falta de asseio é positivamente uma vergonha (…)” (3).

A defesa do consumidor era então uma idéia ausente na  preocupação de alguns comerciantes, mas já então a imprensa local desempenhava o importante papel em denunciara os abusos, como se revela na seguinte notícia:

“O leite que alguns vendedores estão fornecendo para consumo, nesta vila, é uma perfeita burla feita aos consumidores. A um freguês foi vendido, no dia de Ano Bom, um litro de leite que, analisando no aparelho, continha 65 por cento de àgua (…)” (1).

Outro problema com que a população local então se debatia era com a iluminação pública.

 Iniciaram-se então experiências com um novo tipo de iluminação: “já estão colocando nas ruas da vila os novos candeeiros para a iluminação pelo sistema gasogénio.

“Os candeeiros são muito elegantes e darão a Torres Vedras um aspecto moderno” (4).

De facto, avelha iluminação a petróleo, inaugurada em Fevereiro de 1864, parecia condenada:

“É de péssima qualidade o petróleo que há tempos para cá se consome na iluminação da vila. As luzes parecem de lamparina. Ousamos lembrar à nossa vereação que mude de freguês; porque o actual está a mangar com a gente desde que se faz a experiência da luz a gasolina.

“Convém notar que as noites estão escuras, e a respeito de policias nikles (…)” (2).

A falta de policiamento era outra preocupação de então, provocando alguns casos graves de criminalidade:

“Afiançam-nos que nas imediações da vila têm sido atacados transeuntes sendo assaltados de preferência os trens, e já se mencionam alguns furtos cometidos por ataques de mão armada.

“Como boato cita-se que existe um grupo de homens que se acoitam pelos pinhais do Vale Paxis, a quem saem à estrada.

“Como Torres Vedras não tem policia será bom que estejamos de prevenção para não transitar de noite fora da vila, pois diz-se que ante-ontem, mesmo junto aos arcos do aqueduto, fora assaltado um cocheiro que guiava um trem de retorno (…)” (3).

Nessa época eram raros os espectáculos com os quais a população se pudesse distrair. Por isso era motivo de entusiasmo a presença na vila de uma companhia de teatro, “Theatro Recreios Dramáticos”:

“Depois d’uma longa interrupção nos espectáculos, devido ao mau tempo, que não permite representações no teatro barraca, onde o público ficava muito exposto às intempéries da estação, realizou-se no domingo [8 de Janeiro] na sala generosamente cedida no Convento da Graça, um sarau que a companhia Dias convocou em auxílio das suas despesas e transtornos.

“O público foi, como de costuma ser, generoso e pronto (…)” (3).

Mas um dos mais importantes acontecimentos desse mês de Janeiro de 1888 foi a realização do mercado de S. Vicente, com cuja descrição encerramos esta nossa crónica:

“A vila no Domingo [22 de Janeiro] tinha um aspecto estranho. Por todas as ruas e praças transitavam grupos, procurando os estabelecimentos e fazendo as suas compras. A faina comercial desenvolveu-se sofrivelmente, mostrando uma certa animação.

“Na Várzea do Amial fez-se a feira do gado suíno. O dia esteve benigno, apesar do Sol se não mostrar muito expansivo. O aspecto do mercado era deveras atraente. A concorrência foi enorme, e os grupos mercadejavam por todos os lados, e cada um seguia depois com o seu suíno alentejano, gordo, futigado, de calcheta no chispe, como verdadeiros condenados à morte.

“O preço da carne começou por ser de 2 800 a 2 700 réis, e já para o fim do mercado estava a 2 400 réis, havendo ainda bastante por onde escolher.

“Na ermida de N. S. do Amial, fez-se festividade a S. Vicente, havendo de tarde arraial. É a festa chamada dos charnequeiros, e reinou bastante alegria, não sendo alterada a ordem.

“ A Phylarmonica Torreens eabrilhantou a festividade.

“A policia do mercado foi feita por alguns gurdas civis vindos da capital, e pelos oficiaes da administração deste concelho, e o zelador municipal.

“Foi capturdo um contrabandista (…)” (4).

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(1) A Semana de 5 de Janeiro de 1888;
(2) Voz de Torres Vedras de 7 de Janeiro de 1888;
(3) A Semana de 12 de Janeiro de 1888;
(4) A Semana de 26 de Janeiro de 1888.



terça-feira, 8 de março de 2016

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da imprensa local (1885-1890) – 14 e 15.


14 - FEVEREIRO DE 1886

O principio do mês começa com o anuncio da chegada das andorinhas, avistadas pela primeira vez na vila no dia 19, “doces mensageiras da primavera” (JTV, 25-2-1886).

A vida cultural da vila também se animou nesse mês com a presença de um teatro infantil:

“O popular empresário mr. Dallot, bem conhecido em Belem e na feira das Amoreiras, improvisou no largo da Graça um teatro espaçoso e com certas comodidades, onde no dia 30 [de Janeiro] se inauguraram os espectáculos com a opera cómica “o traga bullas” e a comédia “os milagres de Santo António” que conheceu “enchentes sucessivas”(JTV, 4-2-1886).

A presença desse teatro ambulante veio animar a discussão sobre a idéia e necessidade de se construir em Torres Vedras um teatro local fixo.

No mês de Fevereiro a imprensa publica alguns dados estatísticos relativos ao ano anterior:

“No anno de 1885, abateram-se no matadouro d’esta villa 952 rezes bovinas, 213 porcos e 916 carneiros” .

Na mesma edição divulga-se o movimento da prisão da vila nos anos anteriores:

Em 31 de Dezembro de 1884 estavam presos 14 homens e 4 mulheres aos quais se juntaram, no ano findo de 1885, “130 homens e 7 mulheres”, número a que talvez não seja estranho o grande número de trabalhadores que afluíram ao concelho para a construção do caminho-de-ferro, foco de muitos conflitos registados ao longo do ano anterior nas páginas do mesmo jornal (JTV .11-2-1886).


15 - MARÇO de 1886

Durante o mês de Março desse na de 1886 os trabalhos do caminho-de-ferro foram interrompido por causa do mau tempo que então de fez sentir (JTV, 18-3-1886).

O Carnaval tinha tido lugar no início desse mês, mas os seus festejos não passaram d algumas festas particulares ou do desfile de grupos de mascarados pelas ruas:

“No domingo [7 de Março] appareceu uma mascarada notável, representando um bom typo da localidade, victima permanente do Deos cupido, aos…sessenta e tantos annos de idade. A imitação do rosto, do traje, da maneira de andar e até da falla era perfeita(..).

“Saiu também em carro descoberto uma bem vestida mascarada politica, representando vários vultos notáveis da política indígena.

“Na terça feira [9 de Março] percorreu as ruas da villa uma Estudantina de emigrantes  hespanhoes, vestidos muito bem a caracter. De tarde , apareceu um carro de mascarados com engraçados costumes.

“Tiradas estas quatro exhibições, o resto foi de uma semsaboria atroz, como é costume aqui e em toda a parte”, registando ainda uma “soirée de terça” em casa entre amigos (JTV, 11-3-1886).

Março foi também mês da Procissão do Senhor dos Passos, acontecimento marcante para a população local de então e descrita pelo ”Jornal de Torres Vedras”:

“Na passada quinta-feira [25 de Março] depois das 9 horas da noite, a devota imagem do Senhor dos Passos foi conduzida processionalmente com grande  acompanhamento de irmãos da Igreja da Graça para a colegiada de S. Pedro, aonde no dia seguinte houve enorme concorrência de visitantes celebrando-se também algumas missas.

“De tarde , próximo das 4 horas, saiu, percorrendo o itinerário dos mais annos, a solenne Procissão dos Passos, uma das que se celebram n’esta terra com mais compustura e recolhimento. Grande número de irmãos e bastantes eclesiásticos, a mesa da irmandade, a autoridade administrativa, a guarda de honra composta de todo o destacamento de cavalaria, a magnifica Banda Torrenese, e uma considerável concorrência de Povo, da villa e de fora , o melhor de cinco mil pessoas, acompanharam a veneranda Imagem”.

“(…) Houve ordem completa . Apenas notámos com desprazer a grande balburdia e barulho na collegiada de S. Pedro. A casa de Deos não é logar próprio para scenas tão pouco edificantes” (JTV, 25-3-1886).

De registar ainda um serão musical no “club torreense, na segunda feira à noite [22 de fevereiro]”, dado por “um artista hespanhol” que “tocou magistralmente e foi grandemente aplaudido em viola franceza”(JTV , 25-3-1886).


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A VIDA TORRIENSE NOS FINAIS DO SÉCULO XIX, nos caracteres da Imprensa Local (1885-1890)


Retomamos aqui o nosso projecto de registar a vida de Torres Vedras nos finais do século XIX, tendo como fonte a imprensa local do período entre 1885-1890, que corresponde ao início da publicação dos primeiros títulos da Imprensa local (sobre a história da Imprensa local podem ler mais AQUI).

Já publicámos AQUI a selecção das notícias mensais dos primeiros oito meses de 1885.

Completamos agora as notícias dos quatro últimos meses desse ano, esperando continuar a publicar regularmente um resumo .

9 - Setembro de 1885

Os trabalhos da construção da linha férrea continuavam a bom ritmo e este mês anunciava-se que ía “muito adiantada a terraplanagem para a estação”, tendo-se feito “o importante trabalho de desvio de uma das curvas do rio Sisandro, e o grande cano coberto”, esperando-se a chegada de “tubos para canalisar o aqueducto” , enquanto o “túnel da Certã”  de 150 metos, já estava perfurado em 80 metros, “o túnel em seguimento já está perfurado de todo (60 e tantos metros) , e começou o trabalho da abobada; e o da Boiaca (160 metros), também está perfurado em mais de metade da sua extensão” (JTV, 3/9/1885).

As condições sanitárias da vila e dos seus habitantes era uma outra preocupação reveladas nas páginas do “Jornal de Torres Vedras” nesse mês de Setembro, anunciando-se as “visitas sanitárias” dos “srs. administrador d’esta concelho, sub-delegado de saúde, secretário d administração, e bem mais assim todos os mais empregados subalternos  da administração (…) incansáveis nas visitas domiciliárias”. Registava-se então um surto de varíola, e de tosse convulsa e sarampo entre crianças e alguns adultos.

Os trabalhos sanitários tinham permitido fazer  desaparecer “da villa todos os chiqueiros “ permitindo registar a este nível “uma melhoria como nunca se viu n’esta terra”(JTV, 3/9/1885).
Na noite do dia 8, pelas 21.30, chegava à vila “o cyrio de S. João das Lampas em transito para a Nazareth. Trazia uma guarda de honra de 8 praças de lanceiros nº 2 , e a banda marcial de Mafra. Seguiam o cyrio uns 8 a 10 trens. À entrada da villa três anjos lançaram loas, que foram repetidas à porta da colegiada de S. Pedro, onde ficou recolhida a imagem da Virgem.

“No dia seguinte às 10 horas, depois da missa, e posta na berlinda a imagem, continuou o cyrio e a sua penosa peregrinação pela estrada das Caldas da Rainha. Muita gente a ver a desfilada e a admirar os “hectolitros” que o sr. juiz da festa e mais romeiros levavam na cabeça. Finalmente os anjos lançaram ao quatro ventos a despedida:

“Adeus Torres, villa afamada,
“S. Pedro tens por padroeiro…
“E aos desentoados accordes  do “himno da Carta” tudo debandou sem mais incidentes” (JTV, 10/9/ 1885).

Em finais de Setembro começavam a debandar de Santa Cruz algumas das famílias mais abastadas da vila, que aí costumavam passar as férias de Verão, anunciando-se que que se “começa a sentir bastante desanimação n’ aquella praia” anunciando-se a despedida, num dos dias da terceira semana de Setembro com um “pic-nic” no Alto da Vela “a que concorreram mais de sessenta pessoas, d’entre as famílias da praia e outras de fóra idos expressamente.

“A tarde estava formosíssima. Muitos brindes, cincoenta dúzias de foguetes. Os petiscos foram conduzidos por duas dúzias de jumentos, e dizem-nos que tudo foi devorado, menos os sobreditos conductores, Uma bateria de garrafas de champagne, e bella pinga de Torres…a rodo. Sessenta dúzias de perdizes. Tresentos coelhos” (JTV, 24/9/1885).

O “resto da colónia torreense” que ainda se conservava em Santa Cruz “ retirou-se no dia 31. (JTV, 1/10/1885).

Mês de Setembro era  mês de vindimas, esse anos iniciadas com algum atraso:

“Começaram as vindimas na nossa região vinícola; mas por ora estão limitadas à uva branca. Já se vindima a eito no Sobreiro Curvo, Cunhados, Villa Facaia, Amial, Ramalhal e Monte Redondo, onde a grande maioria da uva é de terreno baixo ou varzea.

“Ainda assim, os proprietários abastados, attendendo ao estado de maturação da uva, que n’este anno se atrazou consideravelmente, ocupam-se por enquanto no trabalho da “monda” (…)”.(JTV,  12/9/1885).

A imprensa desse mês também refere algumas medidas tomadas de tratamento e substituição de vinhas atacadas pela filoxera:

“Em Torres Vedras fez-se ultimamente  um tratamento bastante extenso na quinta da Pederneira do sr. Barros e Cunha, o qual custou nos primeiros dias menos de 1$000 réis por milheiro, em vinha regular plantada a 1 metro de distância (…).

“Em Torres Vedras as plantações americanas têem tomado um desenvolvimento extraordinário, mormente os bacellos que já vinham enraizados que têem varas de 3 metros. As plantações feitas em terreno onde se arrancou vinha velha , destruída pela phyloxera, também se mostram bem, apesar do parque ter bastantes insectos nas raízes (…) ( noticia de F. de Almeida e Brito, inspector, retirada do “Boletim Phylloxerico”, in JTV de 12/9/1885).

10 - OUTUBRO de 1885

Como não podia deixar de ser, nesse primeiro mês de Outono de há cem anos, a maioria das notícias então publicadas referiam-se ao modo como decorriam as vindimas : “cootínua o envasilhamento do vinho branco. A produção no geral é abundante, e a qualidade, peto que ouvimos dizer, não é das peores (...) Por ora há fraquíssima vindima de tinto (...)(JTV, 15/10/1885)”.

Mas para os finais do mês chegaram à região os compradores de vinho, entre os quais ingleses com interesses no vinho do Porto. Procurava-se experimentar a possibilidade de uitilizar o vinho de Torres no fabrico do vinho do Porto cuja produção havia sido bastante afectada pela filoxera.

Talvez porque esta região não tivesse sido das mais afectadas por aquela doença da vinha, os preços eram nesse ano bastante lucrativos  para os produtores locais:

“Em Runa já se têm feito compras de vinho a 43$200 reis o tonel de 918 litros, e algumas casas de Lisboa têem offerecido em várias localidades d’esta região por cada tonel  48$000 reis e os vendedores não se mostram ainda muito condescentes, prevendo já uma procura excepcional.

“À última hora, sabemos  que tem concorrido um grande numero da compradores estrangeiros e nacionais às nossas bellas vinhas. 

“Na quinta da Alagôa (...) pertencente ao Sr. José Damaso de Carvalhosa, foi vendido a 55$000 réis cada tonel de 918 litros.

“Há muitas vendas Já realisadas entre 50 e 52$000 réis.

“A procura é extraordinária”.

“(…) Há grande movimento nas ruas da villa, e podemos dizer que a atmosfera está impregnada de vapores do vinho”.

O outro grande acontecimento jornalístico do mês continuava a ser a  construção do caminho de ferro. Outubro foi, neste campo, um mês de grandes novidades, como se pode provar pela selecção de notícias em baixo transcritas:

“Estão abertos e preenchidos os alicerces da estação d’esta villa, que ficará com perto de 90 metros de comprimento.

“Foi cortada parte do antigo aqueduto da villa e substituida por encanamentos subterraneos com fortes manilhas de ferro” (JTV ,  1/10/1885);    

“Foi aprovado o projecto do caminho de ferro de Torres Vedras a Figueira da Foz e Alfarelos (...) (JTV, 8 /10/ 1885).

“O tunnel da Certã, a 2 Kilómetros d’esta villa. ficou totalmente perfurado na manhã de 2 de Outubro (...).

“Quando appareceu a luz do lado do cabeço do cabeço do Cabrito subiram no ar muitos foguetes (...).

“O Tunnel tem sido percorrido da um a outro lado por muitas pessoas d’esta villa (…).

“Ficou também perfurado no dia 5 o tunnel da Boica, cuja extensão é de 160 metros.

“O tunnel da Azenha do cabaço, o primeiro que foi aberto, já está abobedado” (JTV, 8/10/ 1885).

Era dado assim um passo Importante na concretização do projecto de caminho-de-tferro.
Mas outros acontecimentos marcaram o mês de Outubro.

Um deles foi a visita do Cardeal Patriarca:

“No sábbado 3, já de noite, chegou a esta villa sue emª o sr. Canteal Patriarca, que. depois de descançar alguns momentos em casa do sr. desembargador Abreu Castello Branco, digno vigário da Vara da Tome Vedras; se dirigiu ao colégio do Vratojo, onde pernoitou e se demorou no dia seguinte, annuncian do para segunda feira a sua entrada solene (...)” (JTV, 8/10/1885).

Outro acontecimento foi a realização domercado mensal: “O mercado mensal de domingo último, n’esta villa, que costuma ser o principal de todo o ano, esteve de facto muito concorrido e fizeram-se valiosas transacções nas casas Comerciais da villa e no local do mercado, o largo da Graça” (JTV, 22/10/1885).

Notícia foi também, e para encerrar a crónica deste mês, a partida das andorinhas, anunciando o início do outuno:

“Estas interessantes aves partiram no dia 3 do corrente, às 3 horas, 3 minutos e 3 segundos da tarde”.

11 - NOVEMBRO DE 1885

Este foi um mês importante  na venda do vinho produzido pelo trabalho das vindimas.

Registou-se com agrado a grande procura de vinhos torrienses  por parte de comerciantes portugueses e estrangeiros,  estes últimos em grande parte provenientes da praça de Bordéus, em França. Eram apontadas como razões para essa procura o facto de as vinhas francesas terem sido fortemente contaminadas pela filoxera e pelo míldio, bem como pela fraca produção de vinhos na Itália e em Espanha, assim como o facto de entre “ nós, e principalmente na nossa região, alem de ser muito regular a produção, ella é excellente tanto quanto se pode apreciar na elaboração- dos mostos. 

“Alem d’isso, os nossos vinicultores, geralmente fallando, primam pela honestidade e boa fé. Os vinhos saem das adegas para o poder dos compradores taes quaes foram fabricados, sem materiais extranhos ,nem mesmo corantes, a maior parte sem alcool de sobrecellente, e sobretudo sem gesso, o que não succede na Hespanha, onde este adminiculo é empregado em larga escala, e por isso afasta a concorrência dos conhecedores.

“São estas algumas das causas que no anno corrente attrahiram ao nosso mercado tantos compradores. Outros haverá porventura que se relacionem com a propriedade que têem os nossos vinhos de servirem essencialmente de «typo». Outra será também, a propaganda excepcional que d’elles se tem feito ultimamente, tornando-os conhecidos em muitas partes; e cremos que a última exposição agrícola de Lisboa, não contribuiu pouco para este resultado”(JTV, 12/11/1885).

12 - DEZEMBRO DE 1885

Mês grande para o associativismo local; dava-se início à discussão do projecto de estatutos da “Associação Torrense de Socorros Mútuos”: “O projecto foi elaborado por uma Commissão de três membros ,que espontaneamente tomaram esta iniciativa com os intuitos de protecção e auxilio às classes desprotegidas, e tendo também em mira o progresso e desenvolvimento localidade”. Refira-se,  como aspecto  revelador do espirito progressista que esteve na origem da criação dessa associação, tendo em conta a época que se vivia,  que o “sexo feminino, de ordinário posto injustamente de parte, em tudo o que pode contribuir para a sua educação e engrandecimento, será admitido n’esta associação”(JTV,24/12/1885).

Cerca de 100 pessoas participaram activamente na reunião onde foi discutido o projecto de estatutos, que teve lugar no dia 27 de Dezembro, no salão do Club Torreense.       
  
Nesse mesmo mês anunciava-se que “o  elegante edifício do matadouro municipal, à Cruz das Almas, vae em grande adiantamento. Por todo o proximo mez de Janeiro deverá ficar prompto para funccionamento este importantíssimo melhoramento de primeira necessidade para esta terra”(JTV,  10/12/1885).

Data igualmente  de Dezembro de 1885 a primeira referência à existência de uma instalação telefónica: “Entre Torres Vedras e o Casal da Lapa, na freguesia de A-dos-Cunhados, com sete kilometros de distância , acabou de  colocar-se há poucos dias uma linha telephonica, propriedade do sr. Joaquim Marques Tio, que para tal fim obteve a necessária autorização.

“O aparelho é  de systema  Hermann, privilegiado, e funciona perfeitamente. O  trabalho da collocação dos postes e os da installação foi dirigido habiimente pelo ar Joaquim Pedro Marques Sobrinho, que ha mezes tem dentro da villa montado um  telephone entre a  sua importante fabrica de moagem  a vapor e o estabelecimento commercial na rua dos Balcões”(JTV, 24 /12/ 1885).