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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PORTO NOVO NA HISTÓRIA

Diz a tradição que o nome de “Porto Novo” ficou a dever-se a “ter-se aberto para dar mais saída às águas e servir de foz ao rio Alcabrichel”, abandonando-se “a foz antiga, que descrevia uma grande volta” (1).

Uma bem documentada alegação judicial proferida no tribunal de Torres Vedras, em 1939 questionou essa tradição ao demonstrar que a actual localidade de Porto Novo já foi em tempos um ilhéu, formando o areal de Santa Rita uma imensa lagoa, situando-se a foz do Alcabrichel mais no interior, aproximadamente no sítio onde se iniciam os agora desactivados campos de golfe (2).

A primeira tentativa de fundação de um porto junto à foz do Alcabrichel ocorreu durante o reinado de D. Dinis que, para o efeito, mandou edificar uma Igreja sob invocação de S. Dinis, cuja primeira pedra foi benzida em 15 de Outubro de 1318, na presença do monarca, do infante D.Pedro e de muita nobreza, objectivo que, contudo  não se concretizou por divergências entre o concelho de Torres Vedras e os frades de Alcobaça quanto à posse do local, diferendo que se arrastou até 1322, e que acabou por ser decidido a favor o mosteiro(3).

Finalmente, por carta régia de 6 de Maio de 1436, sabe-se que D. Leonor, esposa do rei D. Duarte, mandou abrir naquele lugar um “porto novo” ao qual deu o nome de Porto Real “em direito de pena firme”, concedendo várias isenções aos seus 10 povoadores. Para Veríssimo Serrão, razões “de defesa marítima contribuíram para a criação desse povoado que servia uma zona agrícola importante. Mas o local nunca se transformou num grande centro piscatório, visto a pequena baía não dispor de condições nem área para desembarque, não tardando um século para o vizinho porto de Peniche se tornar no local predominante daquela zona costeira” (4).

Essa falta de condições daquele local para se desenvolver como grande porto de pesca confirma-se em 1758, na memória Paroquial referente à Paróquia de A Dos Cunhados onde se pode ler que esse “porto” não é capaz de “embarcar calois grandes; mas tão somente barcos piquenos que no verão fazem suas pescas”.

Contudo, em 7 de Maio de  1902, foi inaugurada em Porto Novo uma armação de pesca “valenciana”, para a pesca de sardinha, por iniciativa de uma “Sociedade Piscatória de Porto Novo”, cujo êxito inicial levou à inauguração de uma nova armação de pesca em 16 de Abril de 1906, pertencente a Rufino de Carvalho. Contudo tal iniciativa não terá durado muitos anos, embora tenha contribuído para dar a conhecer  a beleza natural daquela praia (5).

Mesmo assim regista-se alguma actividade regular de pesca nas primeiras décadas do século XX, actividade que terminou “em Janeiro de 1938, na sequência da crise das pescas iniciada em 1935” (6).


Já em relação às condições como local de defesa, Porto Novo revelou-se mais importante.

A costa da zona de Porto Novo e Santa Rita, junto do hoje arruinado convento quinhentista, foi por várias vezes assaltada por piratas “mouros”, principalmente no verão e ao longo do século XVII.

O facto de nesse local existirem várias fontes de água e de se situar longe de povoações que pudessem rapidamente defender a costa, terá motivado esses assaltos.

Segundo a opinião de frei Agostinho de Santa Maria, os corsários que frequentavam esta costa “vinhão muitas vezes a fazer nella água em suas lanchas, e a furtar o gado que podião, e também a cativar alguns pescadores, que fugindo delles se hião recolher no Porto Novo, ou estavão naquella praza reparando seus barcos & redes & por vezes intentarão acometer o Convento, para roubar, & cativar os religiosos”(7).

Por causa desses assaltos os frades de Penafirme tomaram várias iniciativas para se protegerem: reforçaram as portas do convento com trancas de ferro, armaram-se e passaram a vigiar a costa de dia e de noite.

Se avistassem os piratas durante o dia, faziam tocar a rebate o sino da torre da Igreja. Se os avistassem durante a noite, usavam como sinal um facho que acendiam, colocado na mesma torre.
No caso de ataques de maior gravidade usava-se um sistema de sinalização luminosa, com fachos que eram acesos nos locais mais altos, desde a costa até Torres Vedras. Daí os nomes ainda hoje conhecidos, de “ponta da Vigia”, em Vale de Janelas, “Alto da Vela”, em Santa Cruz, ou “Casal do facho”, no Varatojo.

Nesses tempos, os habitantes de Penafirme estavam isentos da prestação do serviço militar, para ocorrerem à defesa da costa.

Data dessa época o episódio que imortalizou o frade Roque da Gama. Ajudado por quatro lavradores, defendeu o convento de um ataque de 14 piratas, em 30 de Junho de 1620, conseguindo aprisioná-los.

Terá sido em resultado desse acontecimento que o rei Filipe III decretou “que ouvesse no Convento hua (...) praça de armas (...) & assim mandou dessem para o convento hus tantos mosquetes, & lanças, hum tambor, & frascos, que alli se conservão para esse fim; & ordem para cobrarem em Lisboa cada hum anno certa quantidade de polvora & balas” (8).

Perante a continuação e frequencia dos actos de pirataria naquele local, D. Afonso VI mandou construir uma fortaleza junto de Porto Novo, o forte de Nossa Senhora da Graça, cuja construção se iniciou em 1662.

Nessa fortificação foram instaladas cinco peças de artilharia, com uma pequena força militar, que ainda se mantinha artilhado e guarnecido em 1707 (9), mas terá sido totalmente destruído por ocasião do terramoto de 1755.

A costa de Porto Novo foi bastante assolada pelo maremoto que se seguiu a esse terremoto sendo deste local a única descrição desse fenómeno referente ao litoral do distrito de Lisboa.
Quando se deu o terramoto, o “mar estava acabando de encher”. O maremoto deu-se nesta costa cerca de 1 hora e 1/4 depois do abalo, por volta das 11 da manhã.

A descrição daquele padre confirma as descrições do que por essa altura se passou em Lisboa, registando-se três grandes fluxos de subida e descida da água: “o fluxo e refluxo extraordinário só foi por três vezes (…) porém, toda aquela tarde continuou enchendo e vazando, recolhendo as águas com tanta velocidade que ficava tudo enchuto até à distância em que se tinha levantado e mandando-as com a mesma velocidade para terras”, ou seja, para além daquelas três grandes ondas, outras ondas mais pequenos tiveram lugar nesse dia, calculando-se actualmente que se registaram ao todo 16 ondas de grandes dimensões, destacando-se, contudo, aqueles três momentos.

Observada a partir de Penafirme e Porto Novo, “a novidade que se viu do mar (…) foi o levantar-se esta coisa de meia légua |cerca de 2 quilómetros e meio| distante da terra em um grande monte em que algumas pessoas divisaram diversas cores nas águas, pondo esta novidade em tão grande pasmo e temor a toda aquela vizinhança, que quase toda, imaginando era chegado o tremendo dia do juízo, da mesma sorte que estavam, ou bem ou mal compostos, sem fecharem suas casas e sem cuidarem de seus bens, fugiram para este lugar e igreja”.

Continuando a relatar-nos o tsunami, refere o cura António Duarte: “esse grande monte de mar veio discorrendo com voracidade para terra e combateu as arribas na altura de nove ou dez braças (…) Em um vale que corre do Sul para o norte e desagua na praia de Porto Novo, passando-se naquele tempo a pé enchuto correu tão cheio de água que por algum tempo se não pôde passar, cuja enchente lhe procedeu dos muitos olhos de água que circunvizinhos rebentaram (…).

“Os palmos que cresceu mais do ordinário se pode conjecturar pela altura das nove ou dez braças |algures entre os 16 e 20 metros de altura| em que combateu as arribas (…) chegando pela terra dentro a distancia que não há tradição chegasse em tempo algum [de facto, terá entrado, na zona de Porto Novo, pelo menos até às proximidades da actual “fonte dos frades]”(10).

Porto Novo voltou a entrar na história por ocasião da Batalha do Vimeiro, por junto a esta localidade desembarcaram parte das tropas inglesas, as divisões dos generais Anstruther e Ackland.

Foi, aliás, para defender aquele desembarque que Arthur Wellesley, posicionou as tropas terrestres, sob seu comando,  entre o Vimeiro e a Maceira, na tarde de 19 de Agosto de 1808.

O desembarque daquelas divisões efectuou-se “a uma legua de distancia do” Vimeiro, “na pequena bahia ou sitio do Porto Novo, junto a Maceira, onde desemboca uma ribeira ou pequeno rio chamado Alcobrichel (sic)”.

“No Vimeiro o campo de Wellesley era formado pela seguinte maneira: a sua ala esquerda achava-se postada na capella do referido logar, tendo a direita na praia da Maceira. Na ponta d’esta ala achava-se ancorada uma fragata de guerra e uns trinta navios de transporte com barcaças fóra. No dia 20 desembarcára a brigada do general Antruther, que se uniu ao exercito de Wellesley na força de 2:400 homens, e de tarde chegou á Maceira o tenente general sir Harry Burrard. Aos 21 pela manhã cedo desembarcou e se juntou ao exercito inglez a brigada do general Ackland, na força de 1:750 homens”. (11).

Foi para tentar travar aqueles desembarques que Junot avançou sobre o Vimeiro, desencadeando a célebre batalha.

Já depois da Batalha do Vimeiro de 21 de Agosto de 1808, no dia 24, chegaram a Porto Novo as tropas de sir John .Moore que só fundearam  a 25.

“O desembarque das tropas de sir John Moore fez-se com grande difficuldade, pois levou 5 dias, e pereceram afogados bastantes marinheiros e soldados. Os transportes soffreram taes estragos que só 30 ficaram em condições de prestarem serviço (12)”.

Já mais perto de nós, durante a 2ª Guerra Mundial, há a noticia de no grande vale arenoso em frente à praia de Santa Rita, aí ter aterrado, em 31 de Março de 1943, um bombardeiro inglês, o “Consolidated Catalina IB da RAF com dez tripulantes”. Segundo o relato que seguimos, depois “ de várias tentativas foi possível desencalhá-lo da areia e levá-lo para o Centro de Aviação Naval de Lisboa, onde ficou a degradar-se” (13).


Porto Novo e a sua “irmã” Santa Rita, apesar de um passado histórico mais “rico”, perderam terreno, ao longo do século XX, para a praia de Santa Cruz, como lugar de destaque no litoral torriense.

Foi esse interessante passado que procurámos aqui destacar.

(1)   COSTA, António Baptista da, “Porto Novo” in Enciclopédia das Famílias, nº 259, ed. 1908;
(2)   SILVA, Dr. Augusto Paes de Almeida e, Em Defesa do Património Nacional (…), ed. Biblioteca Municipal de Torres Vedras, ed. 1939;
(3)   FONTES, João Luís Inglês, in A Dos Cunhados – Itinerários da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág.88, e RODRIGUES, Ana Maria, “O Porto Novo de D. Dinis e o “Porto Carro” de D. Fernando”, comunicação apresentada ao IV Congresso sobre Monumentos Militares Portugueses, Santarém, 2 e 5 de Outubro de 1987;
(4)   SERRÃO, J. Veríssimo, História de Portugal, Vol. II, pág. 176;
(5)   Anuário da “Folha de Torres Vedras” para o ano de 1907;
(6)   CORDEIRO, Ana Sofia Nunes, in FONTES, João Luís Inglês (coord.), A Dos Cunhados – Itinerário da Memória, ed. Pró-Memória, 2002, pág. 286;
(7)   SANTA MARIA, frei Agostinho de, Santuário Mariano, tomo II, ed. 1707, p.74.
(8)   SANTA MARIA, ob. cit., p.75;
(9)   ANACLETO, Pedro Garcia, “Grandezas e desventuras na história de um pequeno porto do litoral de Torres Vedras”, in Panorama, nº 41, IV série, Março de 1972;
(10)DUARTE, padre António, cópia do manuscrito existente nos registos paroquiais de A-Dos-Cunhados (original de 1756, cópia de 1908).
(11)SORIANO, Simão José da Luz, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871, p. 392
(12)CÉSAR, Victoriano J. Invasões Francesas em Portugal - 1ª parte (...) Roliça e Vimeiro, Lisboa 1904, pp.141 a 143.
(13)OLIVEIRA, Hermínio de, in “Crónicas do meu pequeno mundo”, Gazeta das Caldas de 22 de Agosto de 2009.

segunda-feira, 28 de março de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Uma tartaruga "Torriense" com 145 milhões de anos.


Público - Tem 145 milhões de anos. É a tartaruga de água doce mais antiga da Europa. E é de Torres Vedras (clicar para ler a notícia completa).

Foi descoberta em 2003 pela Associação Leonel Trindade junto à foz do Alcabrichel e é já considerado um dos mais importantes achados paleantológicos do mundo.
É, para já, a tartaruga mais antiga da Europa, com 145 milhões de anos e a sua descoberta vem revolucionar o conhecimento sobre a deriva dos oceanos e o nascimento do Atlântico.
A descoberta da associação torriense merece um grande destaque na edição deste mês da revista norte-americana "Journal of Vertebrate Paleontology".
A notícia completa dessa descoberta pode ser lida na edição de hoje do Público, acima transcrita.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O "ruivaco-do-oeste" nos rios torrienses.

A edição de hoje do Público, integra uma reportagem sobre o perigo de estinção em que se encontra uma das poucas espécies ainda existentes nos rios torrienses, alertando também para o estado ambiental do Sizandro e do Alcabrichel.
Já noutra ocasião aqui divulgámos um outro trabalho sobre as espécies ameaçadas dos rios do Oeste, que pode ser revista AQUI
Será ainda interessante consultar a lista de espécies de àgua doce que ainda vivem nos rios portugueses AQUI.
Sobre o que se pode fazer ou está a ser feito para salvar o ruivaco-do-oeste aconselhamos ainda a consulta deste site AQUI.
reproduzimos em baixo o artigo do Público:

"Quatro tanques separam o ruivaco-do-oeste da extinção

Por Nicolau Ferreira

In “Público” de 29 de Abril de 2010

O ruivaco-do-oeste integra um projecto para a conservação de peixes fluviais que estão a desaparecer. Nos tanques, a reprodução em cativeiro está a ser um sucesso, só falta poder trazê-los de volta para os rios.

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“À saída de Torres Vedras o rio Sizandro já está morto. É um canal de cor acastanhada que se precipita para o oceano Atlântico com rapidez.

Tínhamos sido avisados por Carla Santos-Sousa, uma bióloga de 32 anos. Vinte minutos antes, na estrada que serpenteia o Sizandro a caminho da cidade, entre a passagem de vilarejos, suiniculturas, campos verdes e cooperativas de vinho, a investigadora foi directa: "Querem ver o rio antes ou depois de Torres Vedras? Mau ou mesmo mau?" Mesmo mau.

Não é só o rio poluído, a paisagem é desoladora porque estéril de ideias. É estéril o declive artificial das margens com uma vegetação rudimentar, são inconsequentes as pedras que tentam segurar as margens do rio por baixo de uma ponte. A imaginação dos homens que não consegue fazer melhor.

"É ridículo. Já temos as ferramentas, conhecimento académico e há experiências feitas noutras partes do mundo que se podem aplicar na reabilitação deste rio", desabafa a investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), que estuda há quase dez anos peixes fluviais, enquanto olha para a água incessante a passar. Carla Santos-Sousa é uma das muitas pessoas envolvidas no Projecto de Conservação Ex-situ de Organismos Fluviais em risco de extinção. O ruivaco-do-oeste, das cinco espécies de peixes que estão criticamente em perigo escolhidas para este projecto, é o caso mais preocupante.

O peixe só existe em Portugal, em três rios do Oeste: o Alcabrichel, o Sizandro e o Safarujo. Só em 2005 é que a equipa do ISPA, liderada pelo professor Vítor Almada, compreendeu com ajuda da genética que estas três populações pertenciam a uma espécie que está individualizada do outro ruivaco que existe mais a norte.

Mais cedo no mesmo dia, a montante de Torres Vedras, perto da aldeia Dois Portos, quando Carla nos mostra um Achondrostoma occidentale nas suas mãos, o que ela vê é "uma linhagem independente com cinco milhões de anos de evolução". E tudo se perderá se não for feita a reabilitação dos rios.

O Sizandro que passa em Dois Portos ainda é outro - mais calmo, selvagem e mais limpo, apesar dos canos de esgotos vindos das habitações. A paragem reservou boas surpresas à bióloga, que repete a técnica que já aplicou em dezenas de rios portugueses, de norte a sul. Da bagageira do carro saem umas jardineiras de borracha com botas incorporadas e uma mochila com uma bateria de carro ligada a um aparelho eléctrico. A investigadora vai à caça.


Liga o aparelho a um camaroeiro e solta um fio directamente para a água. Escolhe um fundão à esquerda para fazer a primeira tentativa. "Ninguém toca na água", avisa. Descarga eléctrica. Salta uma enguia para a rede que acaba num balde preto com água. Mais descargas. No fundão, onde normalmente os peixes se protegem no Inverno contra a velocidade do rio e sobrevivem no Verão às secas, nada. "Não há peixes", diz a bióloga, enquanto se ouve uma ovelha a balir para os lados do amieiro que está do outro lado da margem.

Mas não desiste, anda uns metros para baixo e instala-se a seguir a uns mini-rápidos para voltar a fazer uso dos 16 quilos que leva às costas na mochila. Desta vez é diferente e quando olhamos já Carla tem vários ruivacos-do-oeste na rede. "Quando dei o primeiro choque, vieram logo uns 50!" No balde contamos 13, três não aguentaram a descarga e morreram.

A bióloga segura um exemplar e faz-nos uma descrição física da espécie: um adulto alcança uns nove centímetros, tem nas costas um padrão oliváceo que é muito diferente da barriga branca e manchas laranjas na base de todas as barbatanas.

Abril é época de reprodução e só agora é possível distinguir os machos das fêmeas. Carla diz-nos para passarmos o dedo pela cabeça do macho e confirmamos a existência de tubérculos: pontos rijos que aparecem agora e servem para estimular a fêmea. "Aqui está outra fêmea bastante cheia", mostra-nos a bióloga, acrescentando que largam centenas de ovos.

Perguntamos se está contente com o número de peixes que encontrou: "É muito bom, não estava à espera."

Cada curso tem um ecossistema próprio e vive em isolamento. Do ponto de vista biológico, mesmo falando da mesma espécie, quando se perde uma população de um rio, perde-se uma riqueza genética única, que teve uma evolução distinta de tudo o resto.

Projecto com quatro anos

"Cada rio é uma ilha, os princípios biológicos que se aplicam a uma ilha aplicam-se aqui a um rio", explica a investigadora, enquanto devolve ao rio os ruivacos-do-oeste, a enguia e a água do balde e depois de ter medido o oxigénio, o pH, a temperatura, a condutividade e a concentração de oxigénio no rio. Os parâmetros estão bons. "Temos grande disponibilidade de água, daqui a um mês as condições mudam radicalmente." E é tempo de deixar o Sizandro.

Além da poluição, a seca é outro problema que afecta estes rios e a sobrevivência deste peixe. Desde a seca de 2005 que não se encontra o ruivaco no rio Safarujo, que com os seus 20 quilómetros é o mais pequeno dos três cursos de água onde vive a espécie.

Vítor Almada arrancou com a ideia do projecto na sequência da famosa seca de 2005. "O projecto surgiu porque havia espécies que estavam muito em perigo", explica Vítor Almada por telefone, que reuniu à equipa do ISPA o Aquário Vasco da Gama e a Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza.

O primeiro passo era garantir a conservação das espécies através da reprodução em cativeiro e garantir a reintrodução no habitat natural, depois de os rios serem recuperados. Além do ruivaco-do-oeste, a boga- portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum), a boga- do-sudoeste (Iberochondrostoma almacai) e duas espécies de escalo que só existem em Portugal, o Squalius torgalensis e o Squalius aradensis.

O primeiro protocolo foi feito em 2006. Às três instituições juntaram-se a Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, a Câmara de Figueiró dos Vinhos e a EDP - a empresa termina a sua ligação com o projecto a 1 de Junho depois de um apoio de três anos. "Temos dinheiro até ao final do ano", disse Paulo Lucas, da Quercus; a partir daí continuam com fundos próprios da associação. "Uma eventual extensão do projecto está dependente de uma candidatura ao Fundo EDP para a Biodiversidade", disse por email Gilda Sousa, do departamento de comunicação da EDP.

Luz no cativeiro

No Aquário Vasco da Gama, subimos até ao terraço do edifício que recicla a água salgada, de onde se avista o Tejo e ao fundo Lisboa. Às 10h30 da manhã, o sol aquece a água dos vários tanques cheios de peixinhos.

Onde é que está o ruivaco-do-oeste? Do lado do rio, no tanque mais à direita, 265 indivíduos nadam num espaço com plantas que filtram a água, lugares para se esconderem feitos de rede e tijolos, vasos cheios de seixos para as fêmeas colocarem os ovos. O habitat mais natural possível dentro de um tanque rectangular com cerca de três metros quadrados.

Fátima Gil está colada ao tanque e remexe as pedrinhas dos vasos. "Uma forma de se dar com os ovos do ruivaco-do-oeste é apalpar as coisas", explica a bióloga, que trabalha no museu há 22 anos. Encontra primeiro um ovo com um aspecto envelhecido, já morto. Procura mais e anos de experiência com a reprodução de peixes em cativeiro não a deixam ficar mal. Colado a um seixo está um ovo pequenino, de um branco translúcido, com um ar decididamente vivo. "Vêem-se dois pontos pretos brilhantes que são os olhos do embrião. Se utilizássemos uma lupa, até se conseguia ver o coração a bater."

O Aquário Vasco da Gama também serviu para Alexandrina Pipa aprender as bases da reprodução em cativeiro, durante o mês que esteve em Lisboa, antes de voltar à aldeia de Campelo, perto de Figueiró dos Vinhos. É aí que ficam as instalações onde se fará a reprodução a longo prazo do ruivaco-do-oeste. Com a ajuda da câmara, que cedeu as instalações, o projecto investiu 35 mil euros para recuperar os tanques da Estação Aquícola de Campelo.

Mais de 500

Encontramos Alexandrina, que é voluntária da Quercus há 12 anos, na estação de comboio da Caxarias. No caminho até Campelo, vai explicando as espécies vegetais da paisagem. Vêem-se muitos Quercus faginea, o carvalho-português que nos últimos 20 anos tem vindo a substituir antigas zonas de cultivo. Mas existem também azinheiras, medronheiros, pilriteiros, além do tradicional pinhal e das manchas de eucalipto, onde Alexandrina diz que já viu veados e javalis.

A ribeira do Alge, que passa por Campelo, uma aldeia com menos de 30 habitantes, alimenta continuamente os viveiros. Na estação, só se ouve a água a correr. "Apostámos mais na recuperação dos tanques do que no edifício", explica a técnica.

Cá fora, há vários tanques muito maiores do que os do Aquário Vasco da Gama. Um deles, com cerca de nove metros de comprimento e três de largura, está pronto para receber a boga-portuguesa que vem do aquário de Lisboa. Só falta a temperatura da água subir mais um pouco.

Os moradores de dois dos nove tanques são ruivacos-do-oeste, um com exemplares do rio Sizandro, o outro do Alcabrichel, que chegaram a 31 de Março de 2009. Já desovaram no ano passado. Há 400 jovens de Alcabrichel e entre 150 e 200 do Sizandro, que ainda não se conseguiram contar. "Eu espero que, se não for este ano, seja para o próximo que se faça a reintrodução destes peixes na natureza", explica Alexandrina Pipa. "Não faz sentido fazer reintrodução, se o local ficar com as mesmas condições que existiam", defende.

À espera do Alcabrichel

Voltámos para o concelho de Torres Vedras, mas agora estamos a torrar ao sol, junto à margem do rio Alcabrichel, um calor insuportável. À nossa frente está parte do troço de 1500 metros do rio que corre por baixo da ponte do Ramalhal, a norte de Torres Vedras, até à ponte da A8.

Paulo Lucas, o responsável da Quercus pelo projecto, aponta para o cano do esgoto de onde corre um risco viscoso e castanho, tira fotografias e desabafa: "Isto é inacreditável."

O projecto da Quercus para a reabilitação do rio Alcabrichel ainda tem que ser aprovado pela Administração da Região Hidrográfica do Tejo, mas deverá avançar.

O futuro do ruivaco-do-oeste vai começar aqui - é esta fatia de 300 metros do rio que vai sofrer uma intervenção de reabilitação.

Mas o líquido castanho que corre constantemente do esgoto e se dissolve no ribeiro, com o cheiro indiscutível de uma suinicultura, compromete tudo. "Há alguma decantação dos materiais sólidos, mas a carga poluente é elevadíssima", explica o ambientalista de 41 anos que trabalha na Câmara Municipal de Ourém. O esgoto é uma fonte de matéria orgânica, faz explodir o crescimento de microrganismos que consomem o oxigénio e tornam inviável a existência do ruivaco. "Já pedimos uma solução para esta suinicultura. Só colocamos aqui os peixes quando o problema estiver resolvido."

Antes disso, contudo, há muito trabalho a fazer. O Alcabrichel é mais um exemplo de um rio encanado. O início dos trabalhos será em Junho: alargar as margens entre seis a sete metros para cada lado; retirar o canavial com cinco metros de altura; plantar salgueiros, choupos-negros, espécies autóctones que criam raízes, filtram o rio e dão sombra aos fundões, que no Verão são a salvação das populações de peixes. No final de Novembro, Paulo Lucas espera ter a primeira fase terminada. Os 300 metros de reabilitação vão custar 50 mil euros e o ambientalista calcula que vão ser necessários mais cinco anos de trabalho e 200 mil euros por ano para o Alcabrichel voltar ao que era, quando se podia tomar banho no rio.

Peixes no lago

O Sizandro vai ter que esperar. Apesar da melhoria da cobertura da rede de esgotos domésticos que passou de cerca de 50 por cento em 2000 para 75 por cento em 2010, só no final de 2011 o vereador Carlos Bernardes, vice-presidente da Câmara de Torres Vedras, espera ter 90 por cento das casas do concelho com os esgotos tratados. Mesmo assim, o tratamento dos resíduos da indústria agro-pecuária continua a léguas do necessário e em 2009 o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos lançou um relatório onde o Sizandro, com leituras feitas já perto da foz, era dos rios mais poluídos do país.

Junto à entrada do rio em Torres Vedras, onde o leito está cimentado, há quem diga que o Sizandro está mais limpo do que era, depois do encerramento da destilaria de Runa, há uns anos. José Anselmo Gregório, um ferroviário de 59 anos, lembra-se de outro rio: "Dantes não estava cimentado, havia fundões onde a malta apanhava peixe. Tomava-se banho no rio." Já voltou a ver peixes na cidade, diz sentado num banco da estação de comboios.

Mostra-nos um pequeno lago ao lado do muro da estação. A água tem uma película de algas verdes. Com uma mangueira afasta as algas e aponta. Um peixe-vermelho grande passa. Ao lado, mais pequenos, com uma cor escura no dorso e brancos na barriga, ruivacos-do-oeste. Estão lá.”

domingo, 8 de novembro de 2009

Ainda existem peixes nos rios torrienses



BOGAS NO RIO ALCABRICHEL E NO RIO SIZANDRO...

A notícia foi hoje divulgada pela LUSA:


“Bancários limparam ribeira para evitar extinção de boga do Oeste

“Meia centena de trabalhadores de uma empresa que gere cartões bancários estiveram ontem a limpar as margens de um troço do rio Alcabrichel, no concelho de Torres Vedras, para evitarem a extinção da boga do Oeste, uma espécie de peixe característica da região.
"Estivemos a fazer o corte de um conjunto de canas que abrangem as margens desta ribeira e as canas que foram retiradas vão depois cobrir parte das margens para garantir que ficam estabilizadas, em vez de se utilizar o habitual betão", explicou Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Quercus, que promoveu a iniciativa. Praticamente extinta nos rios da região devido à poluição provocada pelos esgotos domésticos e pelas suiniculturas, a boga do Oeste continua apenas a existir - ainda que de forma escassa - nos rios Alcabrichel e Sizandro, ambos no concelho de Torres Vedras.
A acção marcou o arranque de uma parceria de cinco anos entre a Quercus e a Unicre, a primeira empresa de capitais privados em Portugal a aderir ao compromisso de redução da chamada "pegada ecológica". "Temos um conjunto de iniciativas como a redução do papel e a redução [do consumo de] energia nos edifícios", afirmou o administrador da empresa, António Ramalho.
"O objectivo neste tipo de acções é que fora da actividade profissional e em conjunto com uma associação de defesa do ambiente os esforços se juntem no sentido de salvaguardar determinadas zonas naturais e, neste caso, recuperar a boga do Oeste", esclareceu Francisco Ferreira. A Quercus põe a hipótese de vir a desenvolver outras acções de limpeza e despoluição do rio Alcabrichel e de vir a plantar nas suas margens vegetação característica na zona, de modo a combater a erosão”.

É um motivo de orgulho para Torres Vedras que detenha nos seus domínios os dois únicos rios do Oeste ainda habitável por peixes. Mas é também motivo de maior responsabilidade por parte das autoridades para preservação dessas espécies e da qualidade desses rios, que nos últimos anos já foram vitmas de muitas acções criminosas.

Note-se, a título de curiosidade, que nas Memórias Paroquias de 1758 eram referidas outras duas espécies existentes nesses rios, os “Ruivacos” e as “Enguias”. Aliás, ainda sou do tempo em que era possível pescar enguias no Rio Sizandro, ali para os lados das Termas dos Cucos.
Segundo essas Memórias, os Ruivacos, e “outros semelhantes” [resposta do pároco de A-Dos-Cunhados] existiam no Alcabrichel, embora em pouca quantidade [resposta do pároco do Ramalhal]. Mesmo assim referia-se a existência de alguma pesca nesse rio.
Já no Sizandro existia “peixe míudo” [resposta do pároco de Runa], identificado como Ruivacos e enguias [resposta do pároco de S. Miguel], sendo habitual a sua pesca no Inverno [resposta do pároco da Ponte do Rol].


RUIVACO...



E ENGUIA.