Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
quarta-feira, 11 de setembro de 2024
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
As primeiras “Máquinas Voadoras” em Torres Vedras
Comemora-se este ano o centenário da célebre travessia do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro, preconizada por Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1891-1924), com recurso a três aviões e que decorreu entre 30 de Março e 17 de Junho de 1922.
O entusiasmo que esse feito despertou em Portugal deu um grande
contributo para a divulgação do avião, um meio de transporte que revolucionou a
forma de viajar (1).
O feito não passou despercebido aos torrienses da época e logo se
desenvolveu a ideia de criar condições para a prática de voo neste concelho.
Desconhecendo-se quando é que este conselho foi sobrevoado pela
primeira vez por esse novo meio de transporte, a primeira referência conhecida
e documentada sobre a aterragem de um avião na zona de Torres Vedras data de
1930.
Na sua edição de 31 de Agosto de 1930 o jornal “Gazeta de Torres”
anunciava, em título, um “Passeio de Aviadores” no concelho, programado para a
6ª feira seguinte, 5 de Setembro,
formado por “um grupo de aeroplanos da Esquadrilha de Aviação República”, da
Amadora, que se deslocava em excursão a Santa Cruz, prevendo-se a sua aterragem
“nas Várzeas defronte da Quinta d’Alfaiata”, sendo recebidos “pela rapaziada de
Santa Cruz que lhes oferecerá uma caldeirada fragateira servida nos pinhais
d’Alfaiata”.
O mesmo semanário publicou na sua edição de 7 de Setembro de 1930 uma
reportagem sobre esse dia histórico para o concelho de Torres Vedras.
Muito antes da hora marcada para a chegada dos aviadores, prevista para
as 10 da manhã, “já o vasto campo de Alfaiata se encontrava povoado por muitas
centenas de pessoas”.
O primeiro avião surgiu do lado norte, dando uma “volta sobre o campo,
em reconhecimento, e pouco depois o avião aterra”, um Marone 4 da esquadrilha
de Tancos, pilotado pelo capitão Frederico Costa, que resolveu “fazer uma
surpresa aos seus colegas da 5ª arma” que vinham da Amadora e que vão chegar um
pouco mais tarde.
Em curiosa entrevista recolhida pelo repórter da “Gazeta”, o primeiro
aviador a aterrar em solo torriense deu a sua opinião sobre o improvisado campo
de aviação junto à Quinta dos Casalinhos, que, sim, tinha condições, “aparte o
ter sido um campo de cultura, preparado à ultima hora, e que se ressente desse
facto. Já pela sua vastidão, já pela sua situação, este campo é, salvo os
pequenos inconvenientes que se encontram, devido mais à sua rápida
transformação que às suas condições naturais, um belo aeródromo. O seu terreno
demasiado macio, porque há poucos dias deixou de ser um terreno de cultura,
presta-se, depois de devidamente calçado, a ser um magnifico campo de aviação”.
Como veremos mais à frente, não foi este o local escolhido para a instalação do primeiro
aeródromo torriense.
Entretanto, surgem “ao longe, entre os flocos brancos das nuvens, mais
trez aviões”, e, mais atrás, outros dois.
Deste grupo da Esquadrilha da Aviação República da Amadora, aterra
primeiro o Vickers 9, “pilotado pelo tenente Umberto Cruz” acompanhado pelo
mecânico Ramos. “Há palmas na assistência , ao verem a sua aterragem, feita em pura perda, a melhor da tarde”.
Seguem-se as aterragens do Vickers 4, “tripulado pelo tenente Manuel
Gouveia, o heroe que acompanhou Brito Pais e Sarmento de Beires no seu glorioso
raid” (Lisboa-Macau em 1924), do “Vickers 6 com o capitão Sergio e o major
Cunha e Almeida”, do Vicker 8 com “o capitão Mendonça e o tenente Pimenta”, e,
por último, “o Breguet 11, com os tenentes Sanos Moreira e Cunha Abreu”.
“Um outro aeroplano surge no espaço, mas afasta-se passando a oeste do
campo na direcção norte”.
Público e aviadores juntam-se “na sombra da sádia dos pinhais de
Alfaiata”, comendo as suas merendas, enquanto “meia dúzia de fragateiros
preparam a caldeirada típica, que há de ser servida na sombra apetecível do
pinhal, há vinho branco de uma dezena de anos e anedotas do Pistachini, que
entreteem a assitencia”.
Depois de preparar a caldeirada, juntam-se todos à volta de uma mesa em
U, no meio do pinhal, onde o “vinho com gelo” é servido pelo “João Pedro”, e a
refeição pelo “Faustino Antolin”. Todos os participantes, com excepção dos
aviadores, “eram obrigados a levar copo, prato e talher”.
Terminada a refeição, e “depois do clássico cafezinho”, todos se
dirigem ao “improvisado campo de aviação”, de onde “os aeroplanos vão, um a um,
levantando de novo em direcção ao sul”, acompanhados de dois novos passageiros,
o tenente França Borges e o acima referido “João Pedro”.
Ainda antes do ano de 1930 acabar, anunciou-se que aquela Comissão de
Iniciativas tinha “resolvido tomar de arrendamento, pela quantia de 300$000
anuais, o terreno próximo de Santa Cruz destinado a pista de aviação”, tendo
igualmente aprovado “a verba de 3.000$000 para proceder ao nivelamento do mesmo
terreno” (3).
Esse terreno é aquele onde actualmente se localiza aeródromo de Santa
Cruz e foi usado pela primeira vez, como ensaio pré-inaugural, na aterragem de
“um aparelho” na 2ª feira, dia 27 de Abril de 1931 (4).
Para melhor servir esse aeródromo e a praia de Santa Cruz, iniciaram-se
os trabalhos, em Maio de 1931, da estrada camarária a ligar os Casalinhos
àquele local.
Na sua edição de 19 de Julho de 1931 o semanário “Gazeta de Torres”
anunciou a inauguração desse aeródromo no dia 27 desse mês, integrado num
pacote de melhoramentos para aquela praia, como a canalização da água, a linha
telefónica e um campo de ténis.
A festa foi abrilhantada pela Banda dos Bombeiros e contou com a
presença de várias “individualidades”, sendo a inauguração do campo de aviação
feita pela presença de “grande número de aviões”, oferecendo-se aos aviadores e
aos “elementos oficiais” um almoço, no Hotel Miramar.
Ao todo aterraram no novo aeródromo cerca de vinte aviões (5).
Só anos depois é que a gestão deste aeródromo ficou à responsabilidade do Aero Clube de Torres Vedras, a partir da inauguração oficial desta associação em 15 de Setembro de 1944.
(1) – leia-se o excelente dossier sobre esse acontecimento e a História da aviação em Portugal, na revista Visão-História nº 69 de Fevereiro de 2022;
(2) – in Gazeta de Torres de 7 de Setembro de 1931;
(3) – in Gazeta de Torres, de 7 de Dezembro de 1931;
(4) – in Gazeta de Torres, de 3 de Maio de 1931;
(5) – leiam-se as detalhadas reportagens desse evento nas edições dos jornais “Gazeta de Torres” e “Jornal de Torres Vedras” de 2 de Agosto de 1931. Leia-se também, sobre o assunto, a muito bem documentada edição da “Toitorres Notícias” nº 37, Março/Abril de 1996, com tratamento de texto de António Rodrigues e fotografias e outros documentos do arquivo de Adão de Carvalho.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
O Avião de Sanjurjo em Santa Cruz (19 e 20 de Julho de 1936)
terça-feira, 16 de junho de 2015
o avião de Sanjurjo em Santa Cruz: Novas informações
Trata-se da tradução do seu primeiro livro de memórias publicado originalmente em espanhol em Buenos Aires, pela editora Vasca Ekin.
A aplicação da classificação de "comunistas" às pessoas da oposição ou desafectas ao regime era uma designação normal na propaganda da época, e que englobaria todos aqueles que se opunham ao regime.
Curiosamente o próprio Ansaldo, que mais tarde, tendo entrado em dissidência como regime franquista, foi obrigado a exilar-se, sendo no exilio que escreveu e editou as suas memórias , no prefácio da segunda edição da sua obra, se queixava do "regime franquista com a sua táctica, infelizmente hoje copiada por outros países, de chamar comunista a quem se recuse a ser seu escravo", tentando assim, "caluniar o autor "(pág.9).
Uns levaram os elementos da GNR a "tomar um copo", enquanto outros, à volta do avião, momentânea mente sem vigilância, tentavam danificar o avião, pulando sobre ele ou tentando danificar partes do avião.
Recorde-se que a GNR local, pelo menos nas primeiras décadas da ditadura, era conhecida pelas relações de amizade entre alguns dos seus membros e elementos da oposição, sendo até coniventes com estes nalgumas situações, com aconteceu mais tarde com o meu pai que, depois de dois anos de prisão em Peniche, tinha de se apresentar regularmente no posto local da GNR, onde recebeu sempre compreensão e até conselhos para escapar à vigilância policial...mas isto é outra história. Apenas o refiro aqui para demonstrar que na GNR de Torres Vedras muitos dos seus elementos não eram apoiantes incondicionais do regime e, no caso de Santa Cruz, tinham relações de amizade pessoal como os elementos da oposição que procuravam sabotar o avião de Sanjurjo.
Contudo, para grande surpresa dos "sabotadores" de Santa Cruz o avião acabaria por levantar voo, sem qualquer problema. Recorde-se aqui que a intenção manifestada pelos sabotadores, como o referiu o "sr.T", não era matar ninguém, mas apenas atrasar o voo e a saida de Sanjurjo do país.
Por isso terão ficado aterrorizados quando, horas mais tarde, souberam do acidente que matou o general Sanjurjo e guardaram segredo da sua actuação. Apenas o "sr.T" confirmou a tentativa de sabotagem, mesmo assim no regato da família, recusando-se mais tarde a aprofundar a história, revelando sempre um grande receio que a história se viesse a saber , mesmo muito tempo depois do 25 de Abril.
Entretanto continuamos a narração de Ansaldo.
Saindo do Estoril a caminho de Santa Cruz, refere que o"pior inimigo da navegação aérea apareceu nessa manhã de um 20 de Julho, meridional e quente: o nevoeiro. À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, ele tornava-se mais denso, escondendo o sol, tornando mesmo difícil avançar pela estrada. Das 10 horas da manhã à duas horas da tarde eu esperei furioso. De tempos a tempos, um pálido reflexo de sol brilhava no terreno e eu punha os motores em marcha; logo de seguida a neblina espalhava-se tão baixo que não nos conseguíamos ver uns aos outros.Telefonei várias vezes para o Estoril para explicar o que se passava; respondiam-me que o general me esperava com alguns amigos(...)".
Finalmente, por volta da uma hora e meia da tarde "como as condições atmosféricas íam de mal a pior, eu decidi adiar o voo" . Estando a almoçar, uma hora mais tarde "o nevoeiro dissipou-se. Com toda a pressa corri para o avião, pus o motor em marcha e descolei para Alverca". Acompanhou-o no voo um elemento da PVDE. Em Alverca tratou das formalidades e partiu, a meio da tarde para "a Marinha", o campo improvisado onde iria embarcar Sanjurjo.
O resto da história é sobejamente conhecida e pode ser lida, não só no nosso post anterior como AQUI, uma interessante tese de mestrado da autoria do brasileiro Gabriel de Senna Pondé, intitulada "A Morte do General Sanjurjo - Análise do tratamento da imprensa escrita portuguesa da época relativa ao acontecimento público", defendida na Universidade Lusófona de Lisboa em 2012.
A tese de atentado, que chegou a ser ventilada à época, foi descartada pelo próprio piloto, apontando outras razões para o mesmo: as más condições da pista da Marinha, o tempo que obrigou a levantar na direcção mais difícil e o excesso de carga com as malas que o general Sanjujo quis levar.
Técnicamente o avião não conseguiu ganhar velocidade suficiente para sobrevoar as árvores que se encontravam no final da pista e a hélice falhou e partiu-se, não se sabe por ter embatido numa árvore se por qualquer problema técnico. Ansaldo salvou-se porque foi projectado do avião quando este, em queda, embateu num muro, mas o general morreu carbonizado, embora antes já tivesse sofrido um ferimento mortal, atravessado por um ferro do avião.
Geralmente um acidente acontece porque se combinam vários factores. Os "sabotadores" de Santa Cruz não foram os responsáveis directos por qualquer falha técnica, mas nunca se virá a saber se contribuiram para potenciar as dificuldades técnicas que levaram o avião a não conseguir ganhar altitude no voo fatal.
Especula-se muito com o que teria acontecido se o general Sanjurjo tivesse chegado vivo a Espanha.
Uma das consequências seria o facto de o General Franco não aceder tão fácilmente à liderança do movimeto nacionalista.
Depois, se fosse o general Sanjurjo a liderar a Espanha durante a segunda Guerra mundial talvez a posição da Espanha no conflito tivesse sido diferente, já que se conhece a maior simpatia de Sanjurjo por Hitler, maior do que aquela que era nutrida por Franco.
Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas.

quarta-feira, 20 de julho de 2011
20 DE JULHO DE 1936 - SANTA CRUZ, O MEU AVÔ E O AVIÃO DE SANJURJO
Fonte : site "Accidentes que nos hacen pensar", http://www.turismoyarte.com/ )
Esse acontecimento marcou a memória de muita gente em Torres Vedras da geração do meu avô. Ao longo do ano correram mesmo rumores de uma hipotética sabotagem do avião ainda em Santa Cruz.
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