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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Homenagem a António Augusto Sales


No próximo Sábado, 30 de Maio, pelas 16 horas, nos Paços do Concelho, terá lugar uma sessão de homenagem a António Augusto Sales, que inclui o lançamento de uma nova obra da sua autorias

António Augusto Sales completou 90 anos de vida no passado dia 29 de Abril.

Nascido em Torres Vedras em 1936,  António Augusto Sales “estudou e viveu na sua terra natal até 1964. Exerceu a sua atividade profissional nas áreas da comunicação, marketing e publicidade. Foi fundador do Cineclube de Torres Vedras (1956) e do Suplemento Cultural do jornal «Badaladas» (1961). Escreveu contos, novelas e romances”. Em 1964 foi viver para Algueirão, onde vive actualmente, mas mantendo-se sempre ligado à sua terra natal

Foi autor  da biografia de António Botto, e de obras como “A Primeira Manhã”, contos, (1964;) “Uma longa e estranha pausa” romance, (1970) “Barcelona, cidade na Catalunha” crónicas, (1972), “Requiem pelos fieis defuntos”(1976) e “Corpo Enigmático”(1993), entre outros,

Publicou textos nos blogues «A Viagem dos Argonautas» e «Estrolábio». “Exerceu durante bastante tempo o papel de crítico de cinema em revistas da especialidade. Tem colaboração espalhada por diversos órgãos da imprensa nacional e regional, sobretudo crónicas de carácter político e social”.

Segundo o próprio, cometeu “um erro na juventude que infelizmente nunca mais o largou:levar a vida a sério.

Em sua homenagem, aqui recordamos o que na altura escrevemos sobre uma das suas obras mais emblemáticas, “Os Guardadores do Tempo”, as crónicas contemporâneas da cidade de Torres Vedras contadas à boa maneira de um Fernão Lopes

 


“OS GUARDADORES DO TEMPO”, de António Augusto Sales é uma daquelas obras que se lê de um fôlego, como se de um romance histórico se tratasse, cruzando personagens inventadas (ou talvez não), com personagens reais, enquadrando devidamente acontecimentos locais nas tendências sociais e culturais que marcaram o País e o mundo nos últimos cem anos.

Torres Vedras e a sua cultura, ao longo de um século, serve de fio condutor a este livro que é muito mais que um livro de História Local, que um Livro de Memórias ou um Romance Histórico, mas é tudo isto no seu melhor.

Historicamente o autor revela um exaustivo e rigoroso levantamento de fontes, cruzando fontes tradicionais com fontes menos ortodoxas como o são as notícias publicadas na imprensa, as fontes orais e a própria memória do autor.

O autor fez um levantamento exaustivo de tudo o que nesta terra marcou a cultura ao longo do último século, não esquecendo mesmo os acontecimentos aparentemente mais insignificantes, mas marcantes naquilo que revelaram de inovador e criativo, ou de fundamental para traçar a identidade desta cidade, fosse de forma meramente  conjuntural ou a um nível mais estrutural.

Tendo o livro nascido do interesse do autor em escrever a história do teatro torriense, acabou por ultrapassar esse âmbito, abordando todos os campos da cultura, das artes e das ideias que marcaram a realidade contemporânea de T. Vedras. Deixa mesmo algumas pistas incontornáveis para quem, por exemplo, tencione fazer a história da rádio, a história da fotografia ou das páginas culturais desta localidade, temáticas ainda pouco exploradas na historiografia local.

Enquanto memória, esta obra está mais próxima da memória colectiva desta cidade do que da mera autobiografia.

A memória, para António Augusto Sales, é, neste livro, mais um instrumento de trabalho, literariamente esculpida ao estilo vivo, divertido e impressionista que caracteriza a sua obra.

Esse mesmo estilo impressionista da escrita de Augusto Sales dispensa qualquer ilustração ou fotografia porque, ao lê-la, conseguimos “ver”, “ouvir” e “cheirar” cada um dos  momento da vida torriense ao longo de um século.

O autor, nesta obra, veste o papel clássico do cronista que, numa linguagem elegante, historicamente bem documentado, não disfarça a sua própria subjectividade, dando-nos, a nós torrienses, o raro privilégio de desfrutar um magnífico fresco histórico sobre esta nossa cidade.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Recordar o Ceia - Breve Homenagem a um AMIGO


Conheci o Ceia (1944-2024) no Cineclube de Torres Vedras, aí pelos idos de 1973, altura em que um lote de jovens professores, com novas ideias, vieram arejar o velho liceu de Torres Vedras.

Nunca fui seu aluno, na escola, mas ele foi das pessoas que mais contribuiu para a minha formação.

O cinema foi a sua primeira paixão e deu um grande contributo para retirar o Cine Clube de Torres Vedras das cinzas em que vivia desde que lhe tinha sido imposta uma direcção devidamente domesticada pelo velho regime salazarista.

O seu humor, a sua criatividade e o seu entusiasmo eram contagiantes. A ele se deve uma total renovação na programação, no grafismo dos boletins e na vida do velho cineclube.

Os anos que se seguiram ao 25 de Abril foram de grande entusiasmo, com a criação das chamadas “brigadas móveis” de 16 mm, por ele baptizadas,  percorrendo as aldeias do concelho, permitindo que muita gente assistisse, muitos pela primeira vez na vida, a uma sessão de cinema.

Depois seguiram-se outros projectos que percorri na sua companhia e na de um lote de amigos que me acompanharam para a vida. Foi a colaboração irreverente no “Oeste Democrático”, foi a célebre e polémica sessão de cinema underground incluída na programação da chamada “semana contra a droga”, em consequência da qual, só faltou colocarem-no, a ele e aos que o acompanharam no projecto, às portas da “vila” com alcatrão e penas, foi o jornal Área, criado em 1979, com um grafismo arrojado para a época, até hoje um imbatível  projecto jornalístico no panorama torriense e até a nível nacional.

A partir do jornal Área nasceu aquele que foi o seu maior projecto cultural de vida, a criação da Cooperativa de Comunicação e Cultura, no âmbito do qual se incluiu, é bom aqui recordar, o Performarte de 1985, iniciativa pioneira em Portugal e ainda hoje muito citada.



A partir de 1981 iniciou a sua careira como professor da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, que marcou todos os alunos que frequentaram as suas aulas.

Pelo meio, a produção de alguns dos mais criativos cartazes e autocolantes, não só em Torres Vedras, mas também a nível nacional, com destaque para muitos cartazes para as sessões do cineclube, para as actividades da Cooperativa, para as comemorações do 25 de Abril, sem esquecer a autoria do mais icónico cartaz da centenária feira de S. Pedro.

Foram muitas as exposições dedicadas à sua actividade como artista plástico, para além de ter editado vários livros, abordando não só a sua actividade plástica, mas também as suas memórias associativas, com destaque para o livro “Pequenas Crónicas, Grandes Memórias”, em parceria com o Luís Filipe Rodrigues, editado em 2021, onde aborda, com humor e ironia, a sua experiência na criação da “Cooperativa”, e que foi a minha última colaboração com o Ceia, cedendo-lhe alguns documentos do meu arquivo.

Recentemente, aventurou-se pela ficção, com “O Amor Incerto”, editado já este ano.




Cruzei-me com ele, pela última vez, no final da Primavera, no seu espaço preferido, a “Cooperativa”, por ocasião da inauguração, nessa galeria, da exposição de BD de Vasco Parracho.
(Fotografia de Joaquim Esteves)

Ao longo das nossas vidas cruzamo-nos com muitas pessoas que nos marcam, umas pelo exemplo, outras pelas ideias e criatividade, outras pela amizade, outras pela parceria em projectos de vida. Com o Ceia cruzei-me em todas essas situações.

Dizem que só morremos totalmente quando já ninguém se lembra de nós. O Ceia vai ser recordado por muitos e por muito tempo, e por isso, vai continuar a “viver” por aí por muito tempo, tantas foram as marcas que deixou em nós.

O Ceia vai deixar saudade a todos que com ele se cruzaram.

Até sempre amigo!

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

“Apontamentos” para a História da Banda Desenhada em Torres Vedras

(proposta de capa, inédita, para o fanzine torriense Impulso)

A história da Banda Desenhada em Torres Vedras ainda está por fazer, pelo que registamos aqui apenas um breve apontamento que possa servir de base para que, futuramente, a  história da 9ª arte nesta cidade possa ser feita.

Convém, em primeiro lugar, que não se confunda a Banda Desenhada com o cartoon e a caricatura, nem mesmo com o cinema de animação, embora seja um “primo” próximo destas artes.

Em Torres Vedras existe uma boa tradição de caricaturistas e cartoonistas, pelo menos desde a edição do semanário humorístico “A Laracha”, editado pela primeira vez em 20 de Janeiro de 1929, do qual se editaram 10 números, onde aparecia uma caricatura por edição, a maior parte da autoria de Amílcar (Guerreiro), outras, em menor número, de Cruz Martins e de um tal Jacques.

Também o Carnaval de Torres foi um dos palcos onde se manifestou a veia artística, com recurso a caricaturas e cartoon´s, de muitos artistas torrienses, ao longo dos tempos, principalmente nos muitos folhetos de promoção dessa festa, tradição essa que conheceu o seu auge com a publicação da revista “O Barrete”, a partir de 1996.

Foi em 1996 se surgiu a primeira edição dessa revista independente do Carnaval de Torres Vedras, como alternativa à revista oficial e na sequência de um acto de censura sobre um carro de Carnaval num dos anos anteriores, da autoria da Associação de Defesa do Património e do Espeleo Clube de Torres Vedras e financiada pela RadioOeste.

Coube a estas duas associações o lançamento dessa revista, com uma tiragem de mil exemplares, impressa na Sogratol, uma revista de humor  com textos, banda desenhada e cartoon´s da autoria de vários autores locais que foram passando, com maior ou menor regularidade, pelas páginas dessa revista.

Foram fundadores Antero Valério, Daniel Abreu, José Afonso Torres, Jorge Delmar, José Eduardo Santos, Jorge Humberto Nogueira, José Pedro Sobreiro, Luís Fortes e Valdemar Neves, aos quais se deve juntar o trabalho do Carlos Ferreira, não referido nessa primeira edição, mas que foi um dos principais responsáveis pelo trabalho de sapa que está por detrás da construção de um projecto com este.

Aos fundadores foram-se juntando outros autores, ao mesmo tempo que alguns dos fundadores íam ficando pelo caminho.

Na última edição, a 19ª,  no ano de 2015 mantinham-se o Antero Valério, o Carlos Ferreira, o Jorge Delmar, o José Eduardo Santos e o José Pedro Sobreiro.

Joaquim Moedas Duarte (desde 2004), Joaquim Ribeiro (desde 2013), Luís Fili Rodrigues (desde 2005), Manuela Catarino (desde 2009) e Sérgio Tovar ( desde 2004) completam a equipa desta última edição.

A revista não foi publicada em 2001 e, em 2010, passou a ser patrocinada pela Promotorres. Desde 2011, a até 2015, foi editada apenas pela Associação do Património.

Para além dos nomes citados foram muitos os autores que passaram pelas suas páginas, com destaque para João Sarzedas (2006-2013),  Jaime Umbelino (1997-1999) ou José Almendro (1998-2007).

Colaboraram ainda, irregularmente, por vezes apenas numa ou duas edições,  a Ana Palma, o Carlos Bartolomeu, o Jordão Pereira, o Jorge Ralha, o João Camilo, o Vitor Alexandre, o Carlos Carneiro, o José Sanina, o Marcos Ferreira, o Venerando António, o Nuno  Raimundo, o Fernando Miguel, o Rui Matoso e o Tiago Ferreira.

(ver reprodução de todas as capas do Barrete AQUI)

Recentemente, um caricaturista torriense dessa revista, o professor José Sanina, viu uma caricatura sua selecionada para o World Press Cartoon de 2022.

Cartoon de José Sanina no World Press Cartoon 2022, Caldas da Rainha

Mas aqui estamos no domínio da caricatura e do cartoon, quando é da BD que pretendemos falar.

O que diferencia a BD do simples cartoon é a dinâmica da sua narrativa, numa sequência de imagens (fixas e bidimensionais, o que, por sua vez, a distingue do desenho animado), onde a fala dos personagens é representado dentro de um “balão” ou filoctera.

Embora chegassem regularmente a Torres Vedras alguns dos grandes títulos históricos da divulgação de BD, como o “Mosquito” (1936-1953), o “Diabrete” (1941-1951), ou o “Cavaleiro Andante” (1952-1962), entre muitas outras revistas de quiosque,  juntamente com as excelentes páginas dominicais do Primeiro de Janeiro (1948-1995), e quase todos os jornais publicassem diariamente “tirinhas” de BD, sem esquecer os suplementos como a  “Nau Catrineta” no Diário de Notícias (1964-1974) ou o “Pim-Pam-Pum” no Século (1925-1977), não encontramos qualquer BD publicada localmente ou por autores locais, antes dos anos 70.

Podemos referir uma única excepção, a publicação de umas “tirinhas”, com  as características gráficas da BD e o uso de balões, mas de tipo publicitário, da Casa Hipólito, no jornal do “Torreense” e no “Badaladas”, na década de 1950.

Tirinha publicitária à Casa Hipólito, de entre várias, publicada na década de 1950 na imprensa local (Jornal do Torreense e Badaladas)

Foi o aparecimento em Portugal da revista Tintin, em 1 de Junho de 1968, que contribui para o crescente entusiasmo do alguns jovens torrienses pela Banda Desenhada, tentando imitar o que liam produzindo “revistas” caseiras de exemplar único, dadas a ler à família.

Na edição portuguesa do “TinTin” destacou-se Vasco Granja como divulgador de uma nova forma de editar autores desconhecidos, ou que procuravam dar a conhecer as suas “obras”, entre o naif e o criativo, a edição de “fanzines”, situação facilitadas por novos processos tipográficos, mais simples e baratos, como o stencil, primeiro a álcool, com uma maquete em cera, depois electrónico.

o primeiro fanzine português

Essa técnica foi muito divulgada nas escolas, para reproduzir testes, e acabou por ser aproveitado para elaborar jornais escolares, onde se tornava possível a divulgação de Bandas Desenhadas amadoras.

Foi o que aconteceu em Janeiro/Fevereiro de  1971, no Liceu de Torres Vedras, com a publicação do jornal “O Padrão”, editado pelo “núcleo de jornalismo do Liceu Nacional D. Pedro V – secção de Torres Vedras”, ligado à Mocidade Portuguesa, o qual, nas duas primeiras edições, incluiu um suplemento, “O Padrão Ilustrado”, onde saíram 4 pranchas das “Aventuras de João Alfredo”, intitulando-se essa primeira, única e incompleta aventura “O Assalto ao Banco Nacional”, da autoria de Vaam.


Entretanto, nesse mesmo Liceu, cruzaram-se  vários entusiastas da revista TinTin e da BD, que seguiam com atenção o crescente movimento de fanzines.

Em 1972 surgiu o primeiro fanzine português de BD, o Argon e, em 6 de Janeiro de 1973, nascia o fanzine “Impulso”, editado pelo Liceu de Torres Vedras, usando a técnica do stencil electrónico, recorrendo aos recursos técnicos da escola para a reprodução de testes.

Expansão dos fanzines em Portugal deveu-se também a um certo abrandamento da censura, fruto da chamada “primavera marcelista”.

Quando da edição do Impulso apenas se editavam mais 4 fanzines em Portugal, para além do pioneiro “Argon”, editavam-se o “Quadrinhos”, o “Copra” e o “Saga”.

Neles publicavam-se críticas e noticias sobre o mundo da BD, bem como trabalhos originais de autores portugueses.

Em Janeiro de 1973 editavam-se em Portugal quatro revistas de BD com edição regular : para além do já citado Tintin, existiam o “Jornal do Cuto”, o “Jacto” e o “Mundo de Aventuras”.

Por sua vez, na imprensa editavam-se suplementos semanais colecionáveis de BD, como os citado “Quadradinhos”, “Pim-Pam-Pum” e “Nau Catrineta”.

O grupo que esteve na origem da edição do Impulso tinha em comum, para além da amizade pessoal, escolar e de vizinhança, de longa data entre alguns dos seus membros, o gosto pela leitura de Banda Desenhada e o desejo de editar aquilo que, de forma por vezes muito naif, cada um de nós ía fazendo.

A edição do “Impulso” contou com o apoio do então reitor do liceu, o Dr. Semedo Touco, homem liberal e compreensivo, e que nos garantiu, não só o suporte técnico, mas também o suporte financeiro para a edição desse fanzine, sem nunca ter intervindo nos conteúdos deste.

O fanzine tinha uma tiragem média de 150 exemplares e um custo de cerca de mil escudos (cinco euros) por edição, dois terços dos quais eram suportados pela escola e o restante pelas vendas. Inicialmente o “Impulso” vendia-se ao preço unitário de dois escudos e meio (pouco mais de …um cêntimo), mas o seu preço foi subindo ao longo do ano, 3$50 a partir do nº3, 5$00 a partir da 4ª edição.

Fizeram parte da equipa do “Impulso” o Vaam, o seu irmão Mário Luis, o Carlos Ferreira, o João Nogueira (Janeca), o Mário Rui Hipólito, o Manuel Vilhena, o Calisto,  o José Eduardo Miranda Santos (Zico), este exterior à escola mas amigo dos restantes, e que possui uma das mais variadas e extensa colecções de álbuns  e revistas de BD que todos liam avidamente.

Ao grupo de vizinhos e amigos de longa data, juntaram-se dois prometedores autores de BD, o Joaquim Esteves e o Antero Valério, sem dúvida os que, de todos nós, possuíam melhores qualidade artísticas. Mais tarde juntaram-se à equipa o Jorge Barata e o António Trindade.

O Carlos Caetano também andou com o grupo, mas acabou por não integrar a colaboração.

 Entretanto começaram a colaborar, nuns casos com textos sobre BD, noutros com desenhos, outros amigos de outra regiões do país, como o José de Matos-Cruz,  o Carlos Pessoa, o Jorge Magalhães, o Al Bonjour,  o Carlos Nina, o A. Vilarinho e a Maria Clara.

Alguns membros do Impulso, num encontro na década de 90 do século XX. Da esquerda para a direita, Joaquim Esteves, João Nogueira, Antero Valério, Vaam, e Mário Rui Hipólito

Encontro de "fanzinistas" torrienses, do Impulso, do Aleph e do BêDêzine, em 2014 [Da esquerda para a direita, de baixo para cima: no primeiro degrau, de casaco vermelho, o Mário Rui Hipólito, ao lado o Vaam, no segundo degrau, de óculos, o José Manuel Bastos, o José Eduardo Sapateiro (Zico) e, de camisa branca, o Calisto Ferreira. Atrás, de barbas brancas, o Joaquim Esteves e o Fernando Sarzedas e, sentado ao lado deste, o Mário Luís Matos. Depois, de pé, de camisola às riscas vermelhas, o Emílio Gomes, o Antero Valério e o Carlos Ferreira. Ao lado destes, sentado, o Manuel Vilhena e, de camisola verde, encostado à parede, o João Nogueira (Janeca)] (ver mais AQUI)

Do Impulso foram editados 5 números ao longo de 1973, feitos com a “revolucionária” tecnologia de então , o “stencil electrónico”, existente no liceu para a feitura dos testes escolares, contando então com a preciosa colaboração do Emílio Gomes que dominava essa tecnologia e ensinou a todos o seu uso.

Como todos se envolveram na vida associativa e política em 1974 e 1975, só voltaram, e pela última vez, a editar o “Impulso” em 1976, agora financiado pelo Cine-clube de Torres Vedras.

Refira-se ainda que, em finais de Outubro de 1976, a equipa do Impulso organizou a primeira exposição de BD realizada em Torres Vedras e uma das primeiras no país, integrada no 8º Encontro Nacional de Cine-Clubes.

Em Janeiro de 1973, o mais velho do grupo tinha 16 anos, quase 17,  e os mais novos tinham cerca de 11 anos.

(Ver mais sobre o Impulso AQUI).

Nas suas páginas surgiu também a primeira entrevista conhecida com Vasco Granja, dirigida pelo “Zico”, e que gerou alguma polémica com o fanzine “Aleph”.

Caricatura do grupo do Impulso publicada no Aleph, da autoria de João Sarzedas.


Da equipa do Impulso, apenas o Antero Valério acabou por se notabilizar como autor de BD, muito activo com a edição de um blog  Anterozóide, e, actualmente com  uma página do facebook, Facetoons, dedicados à divulgação dos seus cartoons.

Em Novembro de 2008 o Antero Valério editou o livro de cartoon´s e banda desenhada “Como se tornar um docentezeco”, reunindo a sua abordagem critica à acção da ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues, cartoon´s que mereceram reprodução em cartazes de manifestações de professores realizadas nessa época.


Em Fevereiro de 2022 o mesmo Antero Valério editou "Diário de uma Matrafona".

Em 1985, desta vez patrocinada pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, alguns elementos da mesma equipa organizaram uma nova e mais elaborada Exposição de Banda Desenhada, com  a pomposa designação de  1º Salão de Banda Desenhada de Torres Vedras, realizado  entre 14 e 22 de Dezembro desse ano.

Nessa ocasião foi editado um número único de um novo fanzine torriense de BD, o “Bêdêzine”, editado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura.

Esse número foi organizado pelo Vaam, pelo Esteves, pelo Antero e pelos irmãos Sarzedas, João e Fernando, estes dois ligados também ao movimento dos fanzines, no “Aleph”, e contou com a publicação de trabalhos originais da autoria de "Ruca" (Rui Cardoso), autor da Azambuja, ligado ao fanzine "Rumo", Humberto Leonardo, autor natural da Encarnação de Mafra, do torriense José de Sousa Bastos e do Antero.
Alguns dos responsáveis pelo "BêDêzine" e pelo "Salão de BD de T. Vedras de 1985. Da esquerda para a direita, Vaam, Jorge Delmar (Quinha), Joaquim Esteves e João Sarzedas.
Imagem de uma das salas do Salão de BD, nas primeiras intalações da CCC, Galeria Nova, no Convento da Graça.

José Basto publicava, nesse ano de 1985, uma BD humorística no suplemento “Espaço Novo” do jornal “Badaladas”.

A capa desse número Zero do “BêDêzine” foi da autoria do consagrado autor nacional Arlindo Fagundes e contou ainda com a colaboração de um histórico da BD nacional, o José Ruy, este com um texto sobre a condição de autor de BD em Portugal e um desenho original .

Uma pequena menção a João Sarzedas, nascido em Lisboa em 9 de Fevereiro de 1943, mas que se estabeleceu profissionalmente em Torres Vedras em 1979, falecendo em 27 de Julho de 2013.

Com o seu irmão Fernando, colaborou activamente como cartoonista e autor de BD nos dois primeiros números do fanzine Aleph, editados ainda antes do 25 de Abril, respectivamente em Julho de 1973 e Março de 1974.

Era um apaixonado pela Banda Desenhada e pelo cartoon, artes que desenvolveu ao longo da sua vida, dedicando-se profissionalmente às artes gráficas.

Ainda antes do 25 de Abril, e no período imediatamente a seguir, colaborou em várias outras publicações, como o Jornal do Exército, ou no famoso suplemento humorístico do Diário de Lisboa, "A Mosca", e numa revista feminina liderada por jornalistas como Helena Neves e Fernando Dacosta.

Em Abril de 1974 editou o seu primeiro livro de banda desenhada, “Luz Verde Para Tuntas”.

Motivos profissionais levaram-no a estabelecer-se em Torres Vedras em 1979, onde criou um atelier de serigrafia e de venda de artesanato gráfico da sua autoria, "Boom Serigrafia".

Em Torres Vedras continuou a dedicar-se à sua actividade preferida, o cartoon e a Banda Desenhada, que repartiu como outra paixão sua, a actividade policiária e charadista, sendo membro da Associação Policiarista, tendo realizado várias ilustrações e mais de 50 capas do orgão oficial daquela associação, "Célula Cinzenta".

Foi colaborador nos jornais Badaladas e Frente Oeste, fez parte da organização da já mencionado Exposição de Banda Desenhada de Torres Vedras, realizada em finais de 1985, e co-responsável pela edição do fanzine “BêDêzine”.

Foi contudo na já mencionada revista “O Barrete” que evidenciou todas as suas qualidades enquanto cartoonista e autor de Banda Desenhada.

Vítima de doença prolongada, ainda teve tempo para deixar pronto o livro de cartoon´ intitulado "Sorria com Eólicos na Paisagem" é editado a título póstumo em 7 de Fevereiro de 2015, que tem como temática uma realidade muito marcante na zona oeste, a profusão de moinhos eólicos, numa região com uma longa tradição de moinhos e azenhas para moer o trigo.

edição a título póstumo do último projecto de João Sarzedas

A arte de João Sarzedas, a sua simplicidade e irreverência, sem cedências à sociedade de consumo e profundo respeito pela cultura local, marcaram profundamente todos aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer e com ele conviver.

Recorde-se ainda que, entre 20 de Junho de 1975 e o início de 1976, se publicou, durante cerca de 30 semanas, uma série de “tirinhas” de Banda Desenhada, nas páginas do jornal local de Torres Vedras "Oeste Democrático", intitulada “Rei Minimus” da autoria de Vaam.

Também o jornal “Área” publicou, regularmente, em 1979, uma BD da autoria de Jorge Delmar, com argumento de Mário Luís Matos.

Regularmente, a partir dessa década de 1970, encontram-se várias bandas desenhadas em jornais escolares editados pelas escolas locais.

Recorde-se ainda que, em 2008, a Banda Desenhada foi o tema escolhido para o Carnaval de Torres Vedras desse ano:





Recentemente editaram-se dois álbuns de BD de autores torrienses ou por cá radicados, como “As Aventuras do Matame – o super-herói do carnaval torreense”, com argumento de Fred Zombie, personagens de David Cara-Nova e desenhos de Filipe Branco, e “Homo-Inventor – Quando o Homem se Pôs a Inventar”, da autoria de um professor de português numa escola torriense, Lança Guerreiro, consagrado autor da nova geração de autores portugueses, uma edição da Escorpião Azul, editora da Lourinhã, de Outubro de 2019.




Existe assim uma tradição de autores e amadores  de BD em Torres Vedras, e seria interessante criar uma bebeteca nesta cidade, integrada num dos vários espaços já existentes,, aproveitando muitas colecções privadas existentes em Torres Vedras, uma delas, uma das melhores a nível nacional, na posse dos herdeiros do grande colecionados, já falecido, sr. Aurélio Lousada (ver AQUI, reportagem sobre esse espólio).

Seria igualmente interessante comemorar o cinquentenário do fanzine Impulso, em 2023, com a reactivação da organização regular de “Exposições”, “Encontros” ou salões de BD.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Ainda o 40º aniversário da CCC : um texto de Aurelindo Ceia


    "ÁREA, BREVE HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

por AURELINDO CEIA

    "Estávamos em finais de 1978. O Portugal democrático estava em plena construção, num  processo onde se cruzavam realizações, contradições, insuficiências e desejos – esbracejando na aprendizagem (teórica e prática) do viver em liberdade.

   "Este processo, depois de quatro décadas do fascismo lusitano, veio a revelar-se bem mais difícil do que a simples vontade de o concretizar. Muitas alegrias, no meio de inúmeras decepções.

 "Demora a aprender o modo de passar do sonho à realidade, porque a liberdade tem que ser arduamente construída, nunca nos é ofertada numa embalagem fácil. E é condição necessária à democracia, mas não suficiente.

  " O 25 de Abril cavou muito sobre a nossa alegria ingénua e sobre as nossas fragilidades. Sair de quatro décadas de obscurantismo implica longas marchas em vias abertas na esperança, mas detrás de cujas margens começaram logo a emergir monstros diversos para assalto ao poder. Isto para além do ressabiamento e desejo de vingança dos vencidos, súbita e inesperadamente despojados das benesses e dos longos banquetes da ditadura salazarenta.  
   
   "No dia 22 de Setembro de 1978 dezoito jovens reuniram na praia de Santa Cruz, em casa do Fernando Mouro e da Manuela Ribeiro, com o objectivo de fundar um jornal.

  " Parecia fácil. Era, pelo menos bem intencionado – concretizar algo para poder partilhar com os outros as alegrias, as críticas e as expectativas da revolução de Abril, quatro anos depois.

  " Ainda não era bem um jornal – a ideia era mais a de uma “revista”, não se temiam quaisquer obstáculos. Todos se dispuseram a colaborar nas diferentes secções de trabalho. A coisa era ambiciosa: desde a história e a educação, até à música, literatura, cinema, ecologia, religiões fotografia, psicologia, sociologia política, teatro, saúde... Só.

 "  Primeira decisão: organizar um grupo para marchar até Lisboa, onde se realizariam contactos com agências publicitárias, gráficas, distribuidoras, sindicato dos jornalistas. Objectivo: perceber as condições concretas para começar a construir um edifício com estruturas sólidas.

  " Na segunda reunião, uma semana depois, analisaram-se as informações colhidas e percebeu-se que não adiantava avançar nada por fora, sem estruturar a ideia por dentro.

 "  Objectivos aprovados para a (ainda) revista? Primeiro: ter como alvo a “população do distrito de Lisboa, especialmente região do Oeste”. Restantes: complicado, seriam discutidos na reunião seguinte.

 "  Entretanto, achou-se por bem consultar a “lei de imprensa” e, no terceiro encontro (6 de Outubro), as catorze pessoas então presentes debateram os erros a evitar, abordaram algumas alternativas e tentaram distribuir os colaboradores pelos principais temas entretanto afinados.

  " A 10 de Outubro foi enfim possível encontrar os responsáveis pelos assuntos principais: criatividade, direito à diferença, informação, teatro, sociedade em análise, bd, música...

  " Será interessante que se mencionem alguns dos nomes que resistiam então desde a primeira hora: Fernando Mouro, Manuela Ribeiro, Venerando António, Guilhermina Pacheco, Armando Jorge, Joaquim Esteves, Carlos Ferreira, Jorge Vareda, Travanca Rodrigues, Jorge Barata, Constância Bataglia, Luis Filipe Rodrigues, o Ceia na parte gráfica. Outros se lhe vieram juntar, como o Vitor-Luis Grilo (primeiro director indigitado, que recusou por, aparentemente, não lidar muito bem com o razoável granel naturalmente instalado) e o José Eduardo Miranda (que viria a ser o primeiro director).

 "  A ideia da revista desaparece das actas e, a partir de 18 de Outubro já se fala de “jornal”.

 "  Um ano correrá ainda, antes do primeiro número sair dos prelos, em Novembro. Entretanto, o trabalho não pára. Duas questões importantes surgem. Uma, o contacto com a imprensa próxima, “Oeste Democrático”, “Badaladas” e “Gazeta das Caldas”.

"Outra: “questões relacionadas com objectivos e viabilidade técnica e financeira da publicação”.

"Pequenas coisas, não é? O entusiasmo não esmorecia, talvez porque o mundo da realidade estava ainda muito embalado no mundo dos sonhos. Mas, pergunta-se: não é assim que deve ser? De outro modo, como avançar, como progredir, como inovar? E foi isso mesmo que o futuro ÁREA procurou fazer, em boa parte o tendo conseguido. “Viabilidade financeira”? Claro que havemos de lá chegar! Pensar, escrever, paginar, editar, administrar, distribuir, vender – isso tudo se conseguirá, verão! A verdade é que, nos primeiros tempos, o núcleo de trabalho inicial, com mais uma ou duas aquisições, o conseguiu fazer.

   "Ainda se não mencionou outro aspecto. Quem ou que organização assumiria a propriedade legal da publicação? Achou-se que este problema seria resolvido com a criação de uma Cooperativa cultural – que vem a denominar-se “Cooperativa de Comunicação e Cultura” (1).

  " O título do jornal começou a ser debatido nas primeiras reuniões de Novembro.

  " Avançam-se, em jeito de curiosidade, com alguns dos nomes, dos mais de três dezenas sugeridos e sujeitos a votação do grupo: Novoeste, Encontro, Diálogo, Interoeste, Ensaio, A Palavra, Novos Caminhos, Evolução, Pesquisa, Novo, Oeste Regional, Fase 1, Gazetilha, Espaço, Terra Cultura, Terra Nova...

 "   Um nome – ÁREA – curiosamente, nunca foi mencionado e não aparece nas hipóteses em discussão registadas nos papéis do Venerando, mas veio a ser o escolhido numa reunião em que foi proposto pelo A. Ceia, que entretanto já apresentara uma maquette para a capa. Será aqui justo que se registe ter o José Pedro Sobreiro sido entretanto proposto pelo Vitor-Luis Grilo para responsável gráfico, ideia que não chegou a vingar.

"   A Cooperativa assumiu o papel de suporte legal do jornal e passou a promover diversas actividades culturais, para apresentação da ideia à comunidade. A primeira realiza-se em 18 Novembro de 1979, já com Torres promovida a cidade, para lançamento do número 1 do ÁREA – “1º. Passeio de Domingo - Um itinerário histórico em Torres Vedras”, liderado por Cecília Travanca e Manuela Ribeiro.

  " O jornal insiste numa tonalidade local, aberta à modernidade e à diversidade cultural. O número inaugural publica uma extensa mesa redonda (5 páginas) – “Torres Vedras, Cidade / Novos Rumos, Velhos Problemas”, na qual participam Alberto Avelino, António Augusto Sales, Filomena Moura Guedes, José António Gomes e Padre José Manuel. Durante muito tempo o público se interrogou, perplexo sobre “quem estaria por trás deste arraial de putos” – isto é: que partido movimentava estas tropas? Nunca o desvendaram, pela elementar razão de não haver nenhum! Os jovens (na maioria estudantes e professores) queriam agir, com prazer e sentido cívico, apenas. Pena que o tal pormenor “viabilidade financeira” tenha sempre sido encarado com excessivo optimismo (sejamos simpáticos). Após a saída dos dois primeiros números o gerente da tipografia “Sogratol” mandou parar as máquinas, face às dificuldades em resolver a factura da respectiva produção.

  " As coisas depois equilibraram-se, porque a direcção da Cooperativa conseguiu encontrar uma gráfica alternativa (a Grafibom, do Bombarral) e reunir fundos que fossem permitindo aguentar uma publicação mais ou menos periódica. O jornal, “mensal”, publicaria até Junho de 1981 treze edições... Nesta altura assiste-se a uma cisão dentro do pessoal que fazia e vendia o jornal, e que era, em boa parte, pessoal da Cooperativa. O seu director, José Eduardo Miranda, publicou então um Editorial (assinado, ironicamente, por “Os putos do ÁREA”), onde dizia, despedindo-se até Outubro: “Aliás, só nos lê quem gosta, quem quer, quem pode. E, quem gosta, quer. E como ‘querer é poder’, somos um jornal difícil para toda a gente.”

 "  O número seguinte sairia em... Junho de 1982, dirigido agora por Luis Filipe Rodrigues.

"   Número 15, Junho 1983; número 16, Novembro 1984; número 17, número 17, Abril 1990, número 18, Novembro 1999; número 19, Outubro 2009...

  " Esta sequência diz tudo sobre a morte lenta – adiada – de um projecto editorial cujas bases amadoras não foram suficientes. O entusiasmo precisava de estrutura. Esgotou-se. A soma das ideias e dos sonhos sucumbiu à dureza da realidade e, sejamos claros, à inexistência de uma orgânica profissional. Há quem opine que o esforço feito para desenvolver o programa cultural da Cooperativa terá matado o projecto jornalístico. Na realidade, os activistas eram basicamente os mesmos. A verdade é que a Cooperativa foi crescendo, até à construção de uma sede e do seu “Centro de Cultura Contemporânea” e a sua dimensão e perspectivas foram também criando contradições internas, algumas insanáveis. Hoje, o projecto cultural para Torres Vedras mantém-se e foi acrescentado de novas instalações e novos objectivos com a “Câmara Escura”, trabalhando na área da fotografia contemporânea, em torno de (outro) grupo de jovens entusiastas.

 "  Quarenta anos se passaram. A sede da Cooperativa de Comunicação e Cultura, na rua da Cruz, continua aberta e as actividades sucedem-se, em menor número que há dez, vinte, trinta anos, mas prosseguindo uma ideia teimosa: criação de um clima cultural.

 "  Torres Vedras, mesmo que o não queira ou não saiba, merece o trabalho inovador destes novos putos...

 "  (1)  Designação sugerida por Aurelindo Ceia
  
"   Nota:
   Este texto foi escrito a partir dos apontamentos e actas das reuniões, recolhidos por Venerando António".



    

terça-feira, 12 de novembro de 2019

No 40º aniversário da Cooperativa de Comunicação e Cultura - Recordando os seus "primórdios":



No mês em que se comemora o 40º aniversário da fundação oficial da Cooperativa de Comunicação e Cultura (CCC), aqui recordamos os primórdios desse projecto, iniciado quase um ano antes, em finais de 1978.

Com base num conjunto de apontamentos manuscritos, que recentemente descobri no meio dos meus papéis, um pequeno caderno onde registei as primeiras reuniões que culminaram na criação da Cooperativa de Comunicação e Cultura, onde  registei datas, locais, presenças e decisões das primeiras 12 reuniões, aqui apresentamos um contributo para recordar os primórdios da CCC.

Para perceber esse início há que recuar um pouco no tempo, aos efervescentes tempos entre 1973 e 1976, onde muitos dos que se reuniram para lançar o projecto forjaram conhecimentos e cumplicidades.

Foi nessa época que muitos dos que participaram na fundação da “Cooperativa” se conheceram e cimentaram amizades, cruzando-se no fanzine de BD da Escola secundária, “o Impulso”, no Cine-clube de Torres Vedras, na oposição ao Estado Novo, na Associação de Estudantes do Liceu e nos anos “iniciais e limpos” do PREC ou nos simples encontros de Verão em Santa Cruz.
(registo da data das primeiras reuniões para lançar o projecto que levou à CCC)

Foi no rescaldo dessa época, após a “normalização” democrática de 1976, que um grupo de amigos, no desejo de darem solidez à sua “experiência” cultural, à sua amizade  e ao desejo de fazer coisas novas em comum, resolveu reunir informalmente em casa de uns ou de outros para encontrar um espaço para concretizarem as suas ideias e projectos.

Pensou-se então que o melhor espaço para concretizar essas ideias era a criação de uma publicação periódica, revista ou jornal.

Pusemo-nos a caminho elaborando uma lista de gente a contactar e iniciando as reuniões para debater e preparar o projecto.

De uma lista inicial de mais de 60 nomes, conseguimos contactar 43, comparecendo às primeiras reuniões 28, nem todos ao mesmo tempo, alguns comparecendo no início e abandonando o projecto em pouco tempo.

A primeira reunião teve lugar em Santa Cruz, em casa do Fernando Mouro e da Manuela Ribeiro, no dia 22 de Setembro de 1978. A ela compareceram 18 pessoas.





(rascunho da acta da 1ª reunião que lançou o futuro projecto CCC)

Nenhuma das restantes reuniões preparatórias voltou a registar aquele número de presenças, embora se tivessem juntado, posteriormente, alguns que não estiveram nessa primeira reunião.
O núcleo forte do projecto envolveu, nos primeiros tempos, umas 12 pessoas.

Presentes nessa primeira reunião estiveram o Fernando Mouro, a Manuela Ribeiro, o Carlos Ferreira, os irmãos Jorge e “Chico” Vareda, os irmãos Rui Luís e Sílvia Coelho, as irmãs Constância e Dulce Bataglia, o Jaime Ceia, o José Travanca, a Guilhermina Pacheco, o Jorge Barata, o meu irmão Mário Luís e eu próprio, para além de uma “Ana” (será a Ana Mourão?) e de um “Jaime” que não consigo identificar.

Desse grupo inicial nem todos tiveram a mesma dedicação e importância, alguns deixaram o projecto ao fim de algumas reuniões.

O objectivo dessas primeiras reuniões, realizadas no final de 1978, foi o de planificar a edição de um jornal ou revista, definindo secções, conteúdos e colaboração.

Da primeira reunião saiu a decisão de uma “excursão” a Lisboa para contactar vários organismos e instituições com o objectivo de nos inteirarmos de modos de distribuição de uma publicação, do levantamento de preços em tipografias, da angariação de publicidade e das obrigações legais.

Essa deslocação teve lugar em 27 de Setembro de 1978, e o grupo era composto por mim, pelo Fernando Mouro, pela Manuela Ribeiro, pelo Ceia e pelo Rui Luís, colmatando alguns contactos que entretanto já tinham sido feitos pelo Jorge Barata e pela Guilhermina Pacheco. Estes já tinham contactado uma tipografia que estava ligada a um amigo comum, professor em Torres Vedras, o “Xico” Carreira.

Nessa ocasião contactou-se com o Sindicato dos Jornalistas, para nos informarmos das formalidades legais, tendo-nos sido aconselhado contactar o  Ministério da Comunicação Social, o que foi feito, de onde viemos com todas as informações necessárias para efectuar o registo de propriedade de um jornal.

Com base nessa deslocação, realizou-se um segunda reunião, deste vez em já em Torres Vedras, em casa do Jorge Barata e da Guilhermina Pacheco, para organizar a informação obtida e começar a aprofundar o projecto inicial.

Esta reunião teve lugar em 29 de Setembro e contou com 14 presenças e nela estiveram presentes, pela primeira vez, o Mário Rui Hipólito, o Fernando Meireles e o Antero Valério.

O tema mais discutido e aprofundado nesta reunião foi a definição do âmbito da “revista”, concluindo-se que devia abranger o Distrito de Lisboa, “mais especificamente a região Oeste”.

Em 3 de Outubro realizou-se nova reunião, da âmbito mais restrito, deste vez em minha casa, com o objectivo de preparar uma reunião mais alargada e mais definitiva, onde se começasse a avançar com tarefas mais detalhadas. Com a presença de 6 elementos, eu, o Carlos Ferreira, o Fernando Mouro, a Manuela Ribeiro, o Rui Jorge e a Cecília Travanca (estes dois presentes pela primeira vez), prepararam-se dois documentos a debater na reunião alargada, um da autoria do Fernando Mouro, outro elaborado por mim e pelo Jorge Barata, definindo a filosofia e a estruturação da “revista”, bem como a Ordem de Trabalhos da próxima reunião.

Esta realizou-se em 6 de Outubro, na sede do Cine-Clube, local que passou a funcionar como “sede” provisória e onde se efectuaram mais 3 reuniões, antes de passarmos a reunir em “sede” própria”.

Contou com 14 presenças, três delas pela primeira vez, o Emanuel Carvalho, o Armando Jorge e o Joaquim Esteves. Estes dois últimos passaram a ter, a partir de então, um papel importante na construção do projecto.

Nesta e nas reuniões seguintes o tema principal foi estruturar a publicação do jornal, organizando-se secções, tarefas administrativas e distribuindo responsabilidades.

Na 5ª reunião, que teve lugar em 10 de Outubro de 1978, naquele mesmo lugar, abordou-se pela primeira vez a necessidade de avançar com a forma de suporte administrativo e legal do jornal, abordando-se a criação de uma “Cooperativa”.

Registe-se a entrada para o colectivo, neste período, de alguns nomes fundamentais para se avançar, quer com o projecto de jornal, quer com o projecto da Cooperativa: o Luís Filipe Rodrigues, que esteve presente pela primeira vez naquela 5ª reunião, e o Victor Luís Grilo, na reunião seguinte, a 6ª, em 26 de Outubro. Outros nomes fundamentais só terão integrado o projecto a partir de Janeiro ou Fevereiro de 1979, período que não cabe no âmbito deste texto, como foi o caso, entre outros, do  José Eduardo Miranda Santos (“Zico”), do José Manuel Pinto Gouveia, da “Cinhas” Sousa Dias, do Joaquim Moedas Duarte, do Luís Cunha e da Maria de Jesus Cunha, do Acácio Lopes, da Maria Lucília Rocha e do José Paulo Rocha, da Conceição Carichas ou da Ana Mourão.

A 8ª reunião, realizada em 2 de Novembro, foi uma das mais importantes, já que, pela primeira vez, se reuniu no lugar que veio a ser, durante anos, a sede da “Cooperativa”, umas instalações cedidas pela Câmara, no Convento da Graça, um andar “falso” por cima da sala actual do Museu Leonel Trindade, onde está a exposição permanente do Castro do Zambujal, andar que hoje já não existe, deitado abaixo quando da remodelação dessa sala.

Nesse local funcionavam outras associações locais.

Nessa mesma reunião começou a tentar escolher-se um título para o jornal. Curiosamente, tanto no registo dessas reuniões como numa folha manuscrita em anexo, onde registei todos os títulos propostos, não vem qualquer menção àquele que veio a ser o título definitivo, “Área”, um nome que foi mais tarde proposto pelo Aurelindo Ceia.




(rascunhos com ideias para o título do que veio a ser o "Área")

Foi ainda nessa reunião que se abordou a necessidade de realizar iniciativas de âmbito cultural, em paralelo com a edição do jornal, que servissem para “angariar fundos”, criando assim uma dinâmica própria que tornaria a “Cooperativa” independente do jornal.

Importante foi igualmente a 9ª reunião, realizada em 8 de Novembro, onde, de forma definitiva, se fala na  Cooperativa, no âmbito da sua legalização e da elaboração dos seus estatutos, como suporte legal para o jornal. Foi o Armando Jorge que ficou, nesta reunião, encarregue de elaborar uma proposta de Estatutos, penso que com o apoio do Carlos Ferreira.

Nessa mesma reunião elaborou-se uma lista dos nomes que deviam ser considerados sócios fundadores: Fernando Mouro, Manuela Ribeiro, Victor Luís Grilo, Armando Jorge, Joaquim Esteves, Carlos Ferreira, Luís Filipe, Guilhermina Pacheco, José Travanca, Jaime Ceia, Constância Bataglia, Jorge Barata e eu próprio.

Foi na reunião de 1 de Dezembro, a 10ª, que se iniciou a preparação de uma proposta de actividades a desenvolver pela Cooperativa, tendo-se também registado a data de legalização oficial da Cooperativa, no dia 15 de Dezembro de 1978, no notário de Torres Vedras.

Nem todos aqueles nomes acima mencionados compareceram para esse acto de legalização. Apenas compareceram 9 (não tenho neste momento os seus nomes). Contou-me o Armando Jorge que, nesse acto formal, como a legalização só era possível com dez nomes, e faltou um dos 10, teve de se pedir a um senhor que estava naquele notário para dar o seu nome, em troca de pagamento, como era norma então (existiam pessoas que estavam presentes nos notários e tribunais apenas com essa tarefa, em troca de um pagamento). Existe assim, como sócio fundador, um ilustre desconhecido.

Legalmente, a partir de então, estava criada a “Cooperativa de Comunicação e Cultura”.

O seu próprio nome correspondia ao espírito dos fundadores:

- “Cooperativa”, porque todas as decisões se pretendiam colegiais, mesmo quando, por razões legais, a cada um dos intervenientes era dado um cargo. Foi assim com o jornal “Área” onde “títulos” com o de “director”, “administrador” e outros eram apenas um “pró-forma” legal. Era isso que se pretendia inicialmente com os cargos da direcção da Cooperativa. A própria numeração dos dez sócios fundadores foi sorteada;

- “Comunicação”, porque este foi então considerado um dos pilares da associação, a edição de um órgão de comunicação social como o “Área” e de outras edições;

- “Cultura” porque a realização de actividades culturais, inicialmente, era um pilar fundamental para a divulgação e apoio à edição do jornal. Com o tempo este “pilar” acabou por se tornar independente e, posteriormente, prioritário nas actividades da colectividade.

Essa componente veio a marcar também algumas das primeiras divergências no seio do grupo fundador.

O primeiro “caso” começou com a escolha do “director” do “Área”, que inicialmente recaiu sobre o Victor Luís Grilo, mas que, por levar muito a peito a função do cargo, sem se integrar no espírito “colegial”, acabou por ser substituído pelo José Eduardo Miranda Santos (“Zico” para os amigos), que acabou por se tornar o primeiro “director” do jornal.

O segundo “caso” foi-se acentuando ao longo do tempo, tendo atingido o período crítico já em meados da década de 80, quando se formaram duas tendências quase inconciliáveis entre os que pretendiam dar prioridade à edição do “Área” e os que pretendiam sacrificar o jornal para poderem desenvolver um projecto de actividade cultural mais consistente, sendo esta segunda tendência que acabou por vingar.

Mas isto é já outra história, que não cabe já neste texto.

Antes de concluir, recordar apenas que o ano de 1979 foi marcado pela consolidação do projecto, coordenado por uma comissão instaladora que teve como tarefas a estruturação da Cooperativa, o lançamento do “Área” e a eleição da primeira direcção legal da CCC.




No dia 28 de Novembro de 1979 realizou-se o “1º Passeio de Domingo”, “Um Itinerário Histórico em Torres Vedras”, conduzido pela Cecília Travanca e pela Manuela Ribeiro, que culminou com o lançamento do 1º número do Jornal “Àrea”.



Recorde-se aqui as funções dos responsáveis por essa primeira edição:

Director:- José Eduardo Miranda Santos;
Director Adjunto: - Armando Jorge Fernandes;
Direcção Gráfica: -Aurelindo Ceia
Chefe de redacção:- Carlos Ferreira;
Redactores: - Fernando Mouro, Guilhermina Pacheco, Joaquim Esteves, Jorge Barata, Manuela Ribeiro, Mário Luís Matos e eu próprio.
Publicidade : Publitorres (Jordão  Pereira).
Tipografia: Sogratol.

Entre Novembro de 1979 e Junho de 1981 publicaram-se, mensalmente, com uma ou outra falha, 13 números do “Área”.



Entretanto, em Janeiro de 1980 foi eleita a primeira direcção da Cooperativa, assim constituída:

Assembleia Geral: Lucília Miranda Santos (presidente), Luís Filipe Rodrigues, e Mário Luís Aspra de Matos;
Direcção: José Manuel Pinto Gouveia (o primeiro presidente eleito), Fernando Mouro, Lucília Rocha, Antunes Corado, Conceição Carichas, Pereira da Costa e Guilhermina Pacheco;
Concelho Fiscal: Adérito Moreira, Carlos Mota e Jordão Pereira.

Aqui fica, em breves traços, um pouco da história dos primórdios da Cooperativa de Comunicação e Cultura, recordando também alguns dos fundadores e pioneiros na construção desse projecto que tem hoje uma história longa e consolidada no panorama cultural de Torres Vedras e da região.