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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Um Falso D. Sebastião na região de Torres Vedras

(Gravura-de-Mateus-Alvares (História de Portugal de Pinheiro Chagas- séc. XIX))

No dia 11 de Junho de 1585 conheceu um triste fim o chamado “rei da Ericeira”.

Foi o culminar de uma rebelião popular que agitou a região em 1585, numa tentativa de depor a autoridade castelhana.

Foi mais um episódio de afirmação do mito  “sebastianista”, que se desenvolveu após a morte de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir , em 4 de Agosto de 1578.

Aconteceu que um ermitão da Ericeira, Mateus Alvares, se fez passar por D. Sebastião, apoiado por um lavrador da zona, um tal Pedro Afonso.

Mateus Álvares era natural da Vila da Praia na Ilha Terceira dos Açores, filho de um pedreiro, tendo estudado num Convento franciscano, vindo para o continente para iniciar o seu noviciado no Mosteiro de S. Miguel, perto de Óbidos.

Mais tarde abandonou o noviciado e tornou-se eremita e estabeleceu-se junto da Ermida de S. Julião, perto da Ericeira, na freguesia da Carvoeira do concelho de Mafra. Aí abordava os camponeses e outros frequentadores desse sítio “entre gemidos e flagelações” proferindo palavras enigmáticas que aqueles identificavam como “prova” de estarem perante D. Sebastião.

Vários fidalgos de Lisboa deslocaram-se ao local para confirmarem a sua identidade, mas a maior parte confirmou o embuste.

Isso não fez desistir dois fervorosos defensores do falso D. Sebastião, entre os quais António Simões, escrivão dos Armazéns de Lisboa, muito influenciado pela sua mulher, sebastianista convicta, e Pedro Afonso, lavrador rico, proprietário de uma azenha em Rio de Mouro (Sintra), que tinha combatido ao lado do prior do Crato contra o domínio filipino.

Este Pedro Afonso tornou-se o mais acérrimo defensor da identificação do eremita Mateus Álvares como D. Sebastião, mesmo contra a resistência inicial do próprio falsário, mas que acabou por colabora na farsa.

O rico lavrador de Rio de Mouro rapidamente conseguiu reunir à sua volta mais de 800 homens armados, simpatizantes da causa, reunidos entre as gentes da Ericeira e de outras regiões à volta, de Sintra, Torres Vedras e Mafra.

Entusiasmado com o apoio granjeado por Pedro Afonso, o eremita Mateus Álvaro, montou corte na Ericeira, proclamando-se rei, distribuindo cargos e títulos de nobreza e publicando alvarás “régios”, ao mesmo tempo que enviava cartas às Câmaras de algumas cidades e vilas para o ajudarem a expulsar os castelhanos.

Pedro Afonso tomou o nome de D. Pedro de Menezes, apelido dos condes da Ericeira, proclamando-se Conde de Torres Vedras.

Casou a sua filha com o falso “D. Sebastião” da Ericeira, coroada rainha com uma coroa de prata de uma Imagem de Nossa Senhora retirada de uma capela da freguesia.

Por essa via, Pedro Afonso foi agraciado com o título de marquês de Torres Vedras, conde de Monsanto, senhor de Cascais e Alcaide-mor de Lisboa.

Entretanto, na  “quinta-feira de Ascensão desse ano de 1585, quando o cardeal arquiduque Alberto saía da capela real, veio ao seu encontro um jovem que lhe entregou uma carta”. O mensageiro era o filho do acima referido António Simões e dizia entregar a carta em nome de D. Sebastião, o da Ericeira. Essa carta intimava o vice-rei a “desocupar o Paço e ir-se embora para Castela”. O jovem foi imediatamente preso (1).

Alertados por essa iniciativa e alarmadas com a crescente agitação popular à volta do autoproclamado “Rei da Ericeira”, as autoridades em Lisboa ordenaram ao juíz de fora de Torres Vedras, Manuel Ataíde de Sarrea, que fosse à Ericeira prender os líderes dos amotinados. Este fez-se acompanhar pelo seu escrivão e outros oficiais, mas os revoltosos, em vez de lhe obedecerem, executaram-nos, lançando-os das arribas para o mar.

O doutor Gaspar Pereira, ouvidor da comarca de Torres Vedras e do Conselho Régio de Lisboa, ao criticar a crueldade daquelas execuções, acabou assassinado na sua quinta, juntamente com um filho e um sobrinho e a sua casa saqueada. O mesmo destino tiveram outros habitantes que se recusaram a aceitar as ordens do falso D. Sebastião.

Perante esses acontecimentos, o vice-rei decidiu-se por uma intervenção militar de larga escala. Deu ordens a Diogo da Fonseca para esmagar a rebelião. Este Diogo da Fonseca tinha acompanhado o verdadeiro D. Sebastião na sua campanha africana e era agora corregedor do crime ao serviço de Filipe II, tendo ganho notoriedade entre os castelhanos por ter posto termo a outro episódio de um falso D. Sebastião, o célebre “rei” de Penamacor, sentenciado em 1584.

Acompanhado por um exército de “quatrocentos castelhanos bem armados e comandados pelo capitão Calderon” partiu para a Ericeira para prender o falso “rei”. O combate terá tido início junto da Ermida de S. Julião. “Esperava-os uma forte carga de arcabuzaria e mosqueteria”, resultando vários mortos e feridos de ambos os lados, mas a vantagem estava do lado castelhano, fugindo a maior parte dos revoltosos “por montes e vales”, entre eles o “rei”, Mateus Álvares, sendo capturado no 12 de Junho em Colares, o dia a seguir à batalha.

De imediato Mateus Álvares confessou que não era D. Sebastião e que a sua intenção era entrar em Lisboa, “na noite de S. João, e depois de degolarem e matarem os que não quisessem obedecer ao nome D. Sebastião, iria a uma janela dizer ao povo” que não era D. Sebastião, mas um homem “que veio para libertá-los da tirania dos castelhanos”, proclamando de seguida: “agora fazei rei a quem quiserdes”.

Teve um fim trágico e cruel, esse Mateus Álvares (2). Conduzido do Limoeiro para o pelourinho, foi-lhe cortada a mão direita, antes de ser enforcado. Depois cortaram-lhe a cabeça, que ficou exposta na forca durante um mês. O seu corpo esquartejado ficou exposto nas quatro portas da cidade de Lisboa. O mesmo aconteceu no dia seguinte a todos os que tinham sido presos com ele.

Pedro Afonso ainda andou fugido mais uns dias, mas acabou por ser preso no Bombarral, sofrendo o mesmo destino do genro, executado no dia 22 de Junho.

Outros dos “nomeados como principais delinquentes e autores das mortes, roubos e insultos e dos mais males e danos que se seguiram e puderam seguir aquietação e sossego público” escaparam à morte, mas foram enviados para as galés (3). Entre estes encontramos habitantes do Barril, da Fonte Boa, da Ericeira, das Casas Velhas, do Brejo, dos Alvarinhos, do Sobral, de Ribamar, de Monterroio, do Turcifal, da Feiteira, da Ribeira, lugares localizados em grande parte no termo de Mafra, mas também de Sintra e Torres Vedras, mostrando a dimensão da insurreição.

Foi necessário esperar mais 55 anos para que Portugal recuperasse a independência.

(1)    – DINIZ, Sebastião, “Mateus Álvares, Eremita e Rei – Da Ilha Terceira à Ericeira”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo, obra colectica, coordenada por Manuel J. Gandra, ed. C.M de Mafra, 1998, pp.299-312. Baseámo-nos neste estudo para a elaboração deste texto. Sobre este acontecimento leia-se também outras versões desse acontecimento da autoria de Manuel Novais Granada, publicadas nas páginas do jornal “Badaladas” : “Revista de Lisboa garantia em 1932: Última batalha entre as tropas castelhanas e as milícias do “rei da Ericeira” deu-se no castelo de Torres Vedras”, em 27 de julho de 2018; “Justiça de Filipe I abateu-se de modo implacável sobre os revoltosos de “D. Sebastião da Ericeira”, em 17 de Agosto de 2018;

(2)    – Um presumível retrato desse Mateus Álvares foi publicado nas páginas da História de Portugal de Pinheiro Chagas, publicada no século XIX, e que reproduzimos nesta página;

(3)     - “Carta de perdão geral concedido aos rústicos do termo de Sintra”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo , ob. Cit, pp.318 a 323.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

…era o Vinho! (breve evocação da produção vinícola na história torriense

 


A história de Torres Vedras é transversal à história da produção de vinho.

Contudo, não existe nenhuma monografia aprofundada e diacrónica sobre a história do vinho nesta região, apesar de muitas referência e estudos de tipo conjuntural.

Com este texto procuramos elaborar uma pequena síntese que, quem sabe, possa servir de base para uma história do impacto da produção vinícola na região de Torres Vedras.

Não se conhecendo quando é que esse produto foi introduzido na região ou se existia em estado selvagem, existem vestígio de videiras por altura da época de ocupação do Castro do Zambujal (c.2500 a 1700 aC.), como é referido por Margarethe Upermann  (UERPMANN, Margarethe, “A indústria da pedra lascada do Zambujal”, in KUNST, Michael (coord.), Origens, Estruturas e Relações das Culturas Calcolíticas da Península Ibérica, Actas das I Jornadas Arqueológicas de Torres Vedras, 3-5 Abril 1987, Trabalhos de Arqueologia 7, IPPAA, Lisboa 1995, pp.37-44).

Também Ana Arruda refere que a população indígena da região de Torres Vedras consumia vinho importado da Fenícia, durante a chamada Idade do Ferro europeia, no século VIII a.C (ARRUDA, Ana Maria, “O comércio fenício”, in História de Portugal – Dos Tempos Pré-Históricos aos Nossos Dias, dir. João Medina, 2º Vol, pp.17 a 34, Ediclube, 1993).

Contudo, em ambas as épocas referidas, se existem evidências de consumo, não existem provas de produção local.

Ao que parece, a produção local de vinho terá conhecido um grane incremento comercial durante a ocupação romana, e está na base da existência, nesta região, de várias villae, uma espécie de “quintas”, que abasteciam Olisipo, através de uma rede viária com alguma dimensão.

Contudo, é preciso esperar pelo foral de 1250 para encontrarmos a primeira referência documental à produção de vinho local:

“Aquele que arrombar o relego do vinho, e vender o vinho no seu relego, e provada a infracção (…) pague cinco soldos. E se for achado de novo em falta pela terceira vez, (…), todo o vinho seja entornado e os arcos dos tonéis sejam cortados. Do vinho de fora dêem um almude por cada carga e o outro seja vendido no relego”.

Pouco depois, surge o mais antigo documento conhecido que nos permite analisar, com algum rigor, a importância produtiva e a localização no concelho da produção vinícola na Idade Média, documento de 1309 ( Este documento foi publicado, analisado e divulgado por aqueles que se têm dedicado ao estudo da Idade Média em Torres Vedras: Félix Lopes, John Jonhson, Manuel Clemente, Manuela Catarino, Ana Maria Rodrigues, Carlos Guardado Silva…).

Pelos dados desse documento, calcula-se que o vinho, sendo produto importante, representava pouco mais de 30% do total dos produtos agrícolas produzidos no concelho, dominando a produção de cereis.

O Clero (com mais de 6 mil almudes) e a nobreza (com quase 5 mil almudes) dominavam a produção do vinho local (num total, nesse ano, de cerca de 16 mil almudes).

A zona do concelho onde se concentrava a maior parte da produção do vinho era no vale do Sizandro, principalmente o sudeste, na região entre Dois Portos e a Ribeira de Pedrulhos, estendendo-se para o Barro e a Orjariça, até ao Turcifal. As aldeias do Varatojo, Turcifal, Ribaldeira e Ribeira de Manjapão concentravam cerca de 20% de toda a produção vinícola.

Com a excepção desse documento, é muito escassa e dispersa a documentação existente sobre esse tipo de produção neste concelho.

De referir, no foral manuelino de Torres Vedras, doado em 1510, o destaque à produção de vinho, como se revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região começava a ter.

A abundância de vinho nesta região é referida em 1589, quando o  exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato,  entrando em Torres Vedras, a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português, aqui se demorou mais do que o necessário, porque muitos dos soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer, incidente que provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas, que defendiam a capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

O  desenvolvimento da expansão portuguesa ao longo do século XVI parece ter contribuído para o crescimento da importância comercial da produção do vinho desta região, como o atesta Duarte Nunes de Leão, na sua obra datada de 1599 : “par carrego sam infiniros os vinhos que da Santarem, Alenquer e Torres Vedras e seu grande termo”, os quais “com os de Lamego e Monção poderiam bastecer um reino deixando à parte os que se dam na Beira”.

A meio do século XVII também Rodrigo Mendez da Silva  anotava a abundância, na vila de Torres Vedras, por ordem de importência, de “pan, vino, azeyte, ganados [gado] y cazas [caça]”

As qualidades do vinho Torrienses foram igualmente gabado no principio de “setecentos”  por António Carvalho da Costa, indicando que “esta villa” de Torres Vedras, para além de ser “abundante de excelente trigo, frutas, gado, caça & vinho”, “lavra mais de seis mil pipas” de vinho “que vão para a Índia, por serem de grande substancia para passarem os mares”.

É igualmente no século XVIII, a partir de 1723, que o preço do vinho passa a ser regular e anualmente taxado nos acórdãos camarários, juntamente  com o trigo, a cevada, o milho e o azeite.

Contudo, na segunda metade desse século, durante o governo do Marquês de Pombal, a sua produção vai conhecer um período de incerteza, quando dois alvarás, um datado de 20 de Outubro de 1765 outro de 8 de Fevreiro de 1766, ordenam o arranque de vinhas, um pouco por todo o país, com o objectivo de libertar terras para o cultivo de “pão”, mas que visava, na realidade a produção do Douro. No primeiro desses alvarás a região de Torres Vedras, entre foi excluída dessa decisão, mas, no segundo, as terras cultivadas com vinhas neste concelho passam a ser consideradas impróprias para o seu cultivo.

Ao que parece, esta segunda decisão ficou sem efeito, pois, segundo Veríssimo Serrão, nesse ano de 1766 a coroa determinou “que se fizesse destinção no preço dos vinhos, de modo a não prejudicar a qualidade do fino tinto produzido no Alto Douro” medida essa que, entre outras consequências, valorizou “o produto da região estremenha (Santarém, Torres Vedras) e também Bairrada, que se tornaram ricas zonas vinícolas do País”.

Ao longo do século XVIII o vinho tornou-se um dos principais produtos da região, embora nunca ultrapasse muito os 30% de toda a produção agrícola, 39,1% em 1764 ou 32,2% em 1799.

Parece ter sido ao longo do século XIX, embora com variações, que o seu peso se tronou esmagador, rondando 50% de toda a produção agrícola local logo em 1812, em crescimento contínuo até ao final desse século. (1799 – Mapa do rendimento da Dízima eclesiástica publicada por João Pereira; 1812 – Dados publicados na parte económica de Madeira Torres, aferidos por João Pereira).

A crescente importância da produção vinícola foi observada ainda na primeira metada desse século por Madeira Torres, que escreveu , na parte económica da sua obra, escrita no primeiro quartel do século, refrindo-se a essa produção no “terreno da villa, e seu termo, he muito considerável, e até verdadeiramente singular na generalidade dos fructos que abrange. A producção do vinho he sobre todas a mais abundante” (p.246).

A tão temida filoxera, tema estudado com bastante detalhe por Célia Reis ( “Problemas dos Vinhos Torrienses no Final da Monarquia”, in Turres Veteras III- Actas de História Contemporânea, ed. CMTV/IERMAH-Un. Letras, T. Vedras 2000, pp.123 a 158).

A filoxera manifestou-se pela primeira vez no concelho em 1883, numa vinha da Quinta Nova, junto da Ordasqueira, expandindo-se no ano seguinte pelas vinhas de várias Quintas da freguesia da Ventosa, uma das mais importantes na produção do vinho do concelho, atingindo o seu auge em 1885, quando atingiu todo o concelho, obrigando à substituição das cepas afectadas pelo chamado bacelo americano a partir de 1886.

A crise da Filoxera, ao obrigar a grandes mudanças no tipo de vinhas e no modo de produção vinícola, parece terem contribuído para o rápido crescimento da sua produção local, ultrapassando em 80% o total de toda a produção agrícola ao longo da última década do século e contribuindo para uma profunda alteração na paisagem rural do concelho.

As freguesias de A-Dos-Cunhados, Matacães, Carmões, S.Pedro da vila e S.Mamede da Ventosa foram aquelas onde se iniciou esse processo de substituição.

Em 1888 a vinha “americana” era dominante em relação à “europeia” na maior parte das freguesias e em 1891 já não existia nenhuma vinha de bacelo “europeu” plantada e registada no concelho.

A acção dos viticultores torrienses foi assim rápida e eficaz. Para isso muito contribui a imprensa local, que surgiu em 1885 e dedicava grande parte do seu conteúdo aos problemas da viticultura, bem como a existência de uma escola vitivinícola na Quinta da Viscondessa, no Turcifal, dirigida pela família Batalha Reis, principalmente o irmão António, cujo papel na economia e na sociedade da região ainda está por estudar.

Com a plantação da vinha “americana” a região recuperou rapidamente da crise, tornando-se um importante centro de exportação de vinhos, não só para o Douro, mas também para Bordéus.

José de Campos Pereira, na sua obra publicada em 1915, baseada em dados de 1911, intitulada “A Propriedade Rústica em Portugal”, revela dados que colocam o concelho de Torres Vedras em primeiro lugar no distrito de Lisboa, que então incluía a área do actual distrito de Setúbal, quer quanto à área de cultivo da vinha (21 000 hectares, cerca de ¼ do total distrital), quer quanto ao rendimento (15 mil contos, pouco menos de 1/3 do total distrital ) quer quanto à produção (808 500 hectolitros, cerca de 1/3 do total distrital).

Todos os dados confirmam o peso da produção vinícola até meio do século XX, vinha, ocupando quase metade da superfície agrícola do concelho, seguindo-se o cultivo de batata, trigo e milho, que apesar de tudo, no seu conjunto, ocupavam menos área que a do vinho.

É na segunda metade do século que a produção do vinho vai conhecer profundas mudanças estruturais, reduzindo a área de cultivo mas, apostando-se na qualidade para expostação. Mas essa é outra história.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Torres Vedras no Reinado de D. Manuel (n. 1469, r. 1495, f. 1521)


Dois dias depois da morte de D. João II, em 27 de Outubro de 1495, ascendia ao trono D. Manuel I.

“Nomeado” rei, de forma algo surpreendente, D.Manuel foi escolhido pelo “príncipe perfeito”, dois anos antes, em 1493, para lhe suceder no trono, já que o sucessor natural, D. Afonso, único filho legítimo de D. João II, tinha falecido aos 16 anos, num trágico acidente, uma queda de cavalo  num passeio junto ao Tejo, lá para os lados de Almeirim, em 1491.

Diz-se que, quando foi chamado à coroa por D. João II para ser designado sucessor, D. Manuel, duque de Viseu, temeu que o tivessem chamado para conhecer o mesmo destino do seu irmão, D. Diogo, assassinado, anos antes, em 1484, às mãos do próprio rei, o culminar de uma conspiração da grande nobreza contra as medidas centralistas do “príncipe perfeito”.

D. Manuel era primo direito e cunhado de D. João II e foi o primeiro caso, e único na dinastia de Aviz, em que o sucessor à coroa não foi um descendente directo do rei.

O reinado do “Venturoso” foi considerado o mais brilhante da história da monarquia portuguesa, talvez o auge da história nacional, apesar de beneficiar de muito do “trabalho” iniciado no reinado anterior.

Foi durante o reinado de D. Manuel I que se “descobriu” o caminho marítimo para Índia (viagem de Vasco da Gama de 1497-1498), se “descobriu” o Brasil (viagem de Pedro Álvares Cabral em 1500) e se iniciou a construção do Império do Oriente, dominando as rotas comerciais do Golfo Pérsico e do Índico (com a nomeação do primeiro vice-rei, D. Francisco de Almeida, em 1505).

Dizem os especialistas que foi também no seu reinado que se iniciou a construção daquilo que dominou a política régia nos séculos seguintes, o prenuncio do absolutismo régio, tomando importantes medidas de reforço do centralismo régio, como a reforma dos forais ou a publicação, já no final do seu reinado, das Ordenações Manuelinas.

Como lado negro do seu reinado, há a referir a expulsão dos judeus e o tratamento que foi dado aos convertidos.

Par além da importante comunidade de judeus que vivia em Portugal, pelo menos desde a época muçulmana, se não mesmo da romana, milhares de judeus tinham entrado em Portugal em 1492, fugindo às perseguições, em Espanha, do Reis Católicos.

Quando D. Manuel negociou o seu casamento com D. Isabel, filha dos reis católicos, uma das condições foi expulsar os judeus de Portugal, ordem que o monarca deu em Dezembro de 1496, apenas um mês depois desse casamento.

De qualquer modo, D. Manuel, a fim de evitar a fuga em massa de judeus, podendo arruinar as finanças do país, já que muitos deles detinham muito poder económico-financeiro, acabaria por aceitar, por decisão de 1497, “fechar os olhos” às suas práticas religiosas, desde que não fossem praticadas “às claras” e se se deixassem baptizar, convertendo-se nos chamados “cristão-novos”. Isso não evitou que o seu reinado fosse marcado por um dos episódios mais negros da intolerância religiosa, o massacre de Judeus em Lisboa de 1506. Foi também este monarca que, em 1515, solicitou ao papa a instituição da Inquisição em Portugal, apenas concretizada no reinado seguinte (1).

É nesse contexto que vamos tentar abordar alguns dos momentos que marcaram a história torriense, durante esse importante reinado de pouco mais de 25 anos (2).  

Em termos locais, a vida religiosa, central na vivência das populações dessa época, estava muito marcada pela memória recente dos feitos do beato Gonçalo de Lagos, falecido no início do século XV (provavelmente em 15 de Outubro de 1422), cujo culto conheceu um grande desenvolvimento nos finais desse mesmo século, em vésperas do início do reinado de D. Manuel.

Em 1492 realizou-se a primeira transladação dos restos mortais daquele “milagreiro” para um local mais digno, junto à capela-mor do velho convento agostiniano e, a poucos dias da subida ao trono do “Venturoso”, no dia 13 de Outubro de 1495, o Senado da Câmara de Torres Vedras tomou a decisão de eleger Gonçalo de Lagos como padroeiro da vila.

Em 1518 foi feito um sepulcro de pedra, com a imagem de Gonçalo, esculpida na tampa, para recolha da terra da sepultura do beato. Foi também fundada, por essa ocasião, uma confraria dedicada ao “santo” (3).

Ainda no primeiro ano do seu reinado, ao longo dos meses de Agosto, Setembro e Outubro de 1496, o monarca fixou residência neste concelho, talvez nos chamados Paços Novos, que, no seu reinado, substituíram os Paços Velhos , ou então no Convento do Varatojo, local escolhido pelos seus dois antecessores para se hospedarem quando se deslocavam a este concelho. Foi durante essa estadia, no mês de Setembro, que aqui recebeu uma importante embaixada da República de Veneza.

No âmbito da politica de reorganização administrativa e de centralização de poder, foi no seu reinado que Torres Vedras recebeu o seu segundo foral conhecido. O anterior datava de 1250 e tinha sido doado por D. Afonso III.

O chamado “Foral Manuelino” de Torres Vedras, que vigorou nos séculos seguintes, foi doado com a data de 1 de Junho de 1510.

A primeira transcrição conhecida do “Foral Novo” de Torres Vedras deve-se a Madeira Torres, no apêndice da sua “Descripção Histórica e económica (…) de Torres Vedras”, cuja 1ª edição, publicado em artigo do Boletim da Academia de Ciências, data de 1819, copiada do original da Torre do Tombo e “conferido com [a cópia] que se acha no Cartório da Câmara” desta vila.

Tendo como objectivo reforçar a submissão do poder concelhio ao central, obedecendo a um modelo normalizado e formatado, onde, na generalidade, apenas muda o nome do concelho e a data de doação, este é um documento menos rico, do ponto de vista informativo, em relação a anteriores forais, que tinham características muito mais diversificadas, limitando-se aquele a regularizar e actualizar a cobrança de direitos reais.

Um dos direitos, de entre os consignados nesse documento, mais revelador e com consequências para a economia da região, foi o do relego, segundo o qual o rei tinha o exclusivo da venda do vinho durante os três primeiros meses de cada ano.

O incumprimento desse direito estava sujeito a pesada pena, uma multa de 9 reais pago ao relego, das duas primeiras vezes em que se vendesse vinho sem licença do almoxarife régio e, à terceira, seria entornado o vinho e destruído o vasilhame em que ele era transportado (4).

Segundo a tradição, o local do relego situava-se junto e a norte da Igreja de S. Tiago.

O vinho, produção importante nesta região, pelo menos desde os inícios do reino, terá ganho uma importância crescente, quer do ponto de vista comercial quer do ponto de vista da paisagem rural, com o desenvolvimento da expansão, ao longo deste reinado, como se comprova de uma afirmação, editada em 1610, mas que parece retratar uma realidade anterior, do cronista Duarte Nunes de Leão (1530? – 1608)  que afirmava, que “par carrego sam infiniros os vinhos que de Santarém, Alenquer e Torres Vedras e seu grande termo”, os “quais com Lamego e Monção poderiam bastecer um reino” (5), ideia reforçada  por outro cronista, já do século XVIII, o padre António Carvalho da Costa (1650-1715), que escreveu que os vinhos da região de Torres Vedras eram dos preferido para ir “para a Índia, por serem de grande substancia para passarem os mares” (6).

Naquele mesmo foral, se é que ele revela alguma realidade local, e não é apenas uma cópia formatada de um modelo nacional, o trigo e o milho teriam também alguma importância na realidade da produção local, já que, segundo esse documento, a jugada era paga em moios de trigo ou milho e se esmiuçava as condição da venda do pão, logo a seguir às acima mencionadas condições da venda do vinho .

Muitas outras medidas de centralização e reorganização administrativa, apanágio desse reinado, começaram a reflectir-se localmente, como a afirmação e organização de paróquias rurais, acção continuada e que se acentuará no reinado seguinte.

Talvez, como reflexo local do afã da reorganização administrativa que marcou esse reinado, não seja de estranhar o facto de terem ocorrido, neste período, nomeadamente ao longo dos anos de 1506 e 1507, uma grande quantidade de abertura de  tombos, registando os bens de várias instituições religiosas locais, a saber:

- em 1506,  abertura dos Tombos dos bens da Confraria do Corpo de Deus da Carvoeira (reformado em 1541); da Confraria da Ermida de Stº Isidoro da Freixofeira; da Ermida de S. Gião da Serra de S. Julião (reformado em 1540); da confraria da Ermida de Stª Margarida (hoje Stº Amaro) da Ordasqueira (reformado em 1541); da confraria da Ermida o Divino Espirito Santo de Monte Redondo (reformada em 1542); da Ermida do Santo Espírito (mais tarde Stº António do Amial), no Amial (reformada em 1540); do compromisso do Hospital de Nª Srª da Piedade do Maxial; da Ermida de S. José, da Quinta da Bugalheira (reformado em 1542); da Ermida de S. Mateus, na Lobugueira (Maxial) (reformado em 1540);

- em 1507: da Confraria de Santa Maria do Mosteiro de Matacães (reformado em 1541); da Ermida de Stª Maria do Ameal de Rocamador (reformado em 1540); do Hospital do Santo Espírito e das Ovelhas Pobres, na vila (reformado em 1539); da Confraria da Ermida de Stª Cruz de Ribamar (reformado em 1540); da confraria da igreja de S. Lourenço do Ramalhal (reformados em 1540); da confraria da Ermida da Senhora da Cathedra (ou “Cátela”) de S. Pedro da Cadeira (reformada em 1540) (7).

A existência dessas confrarias é um bom indicador do povoamento da região nessa época.

Apesar de ter sido efectuado 6 anos depois da morte de D. Manuel, em 1527, o primeiro censo nacional pode-nos dar também algumas indicações sobre o povoamento do concelho nesse período.

Datado de 15 de Setembro de 1527, o recenseador Jorge Fernandes conta no concelho 1946 “vizinhos”, um concelho que tinha então uma extensão maior, incluindo localidades e freguesias actualmente integrantes de concelhos vizinhos, como Mafra. Na então vila viviam 3 fidalgos, 15 cavaleiros, 23 escudeiros, 31 viúvas, 257 vizinhos, e “o mais he povo”.

De acordo com esse documento , transcrito por Madeira Torres, e tendo por base o número de “vizinhos”, as dez localidades mais povoadas do concelho eram, além da vila, o Turcifal (104 vizinhos), o Maxial (61), a Aldeia Grande (54), Runa (45),a Carvoeira (41),o Amial (28), a Caixaria (27), a Ribaldeira (26)  e Casalinhos de Alfaiate (25), num total de 113 lugares referenciados nos actuais limites do concelho.

O grande impulso que a expansão portuguesa conheceu a partir do reinado de D. Manuel I também envolveu, nesse esforço, não só muitos anónimos locais, mas algumas importantes figuras da elite local, contemporâneas desse reinado.

Foram os casos de   João Lopes Perestrelo, da Quinta da Ermegeira, e  de  Lopo Soares de Albergaria, irmão do alcaide de Torres Vedras Gomes Soares de Albergaria.

João Lopes Perestrelo comandou uma nau, na segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, que partiu de Lisboa em 10 de Fevereiro de 1502, e, em resultado dessa acção, recebeu, no reinado seguinte, em 1542, o vínculo da chamada Quinta do Espanhol. Sepultado na Igreja de S. Pedro, era primo da esposa de Cristovão Colombo (8).

Por sua vez, Lopo Soares de Albergaria, tendo enveredado pela Carreira militar, e depois de ter capitaneado S. Jorge da Mina e andado pelo oriente, onde estabeleceu boas relações com as autoridades locais, de onde regressou a Lisboa em 1505, foi nomeado governador da Índia, em 2 de Outubro de 1515, para substituir  Afonso de Albuquerque, exercendo esse cargo até 1519, entrando então em ruptura com o monarca, acabando por se  “auto  exilar” neste concelho, numa das quintas da família, provavelmente a Quinta do Amo, na paroquia de Dois Portos. Só terá regressado ao convívio da corte depois do falecimento de D.Manuel (9).

Recorde-se que Lopo Soares pertencia a uma das famílias então dominantes em termos locais, os Alarcões. O seu irmão, Gomes Soares, que foi conselheiro de D. Manuel, tinha herdado a alcaiadaria do castelo de Torres Vedras, de D. João de Alarcão, por falecimento do seu sogro Gomes Soares em 12 de Janeiro de 1514 (10).

Foi aquele D. João de Alarcão  que mudou a sede do alcaide-mor do Paço do Patim para o novo palácio construído no Castelo, em 1514. Dois anos depois, iniciou-se a  reconstrução da muralha. Essas obras continuaram nos anos seguintes, das quais resultaram as armas manuelinas, esculpidas sobre o portal daquele reduto militar.

A estrutura hoje visível da sua muralha e dos vestígios do palácio dos alcaides, datam, em grande parte, dessa remodelação (11).

Também, grande parte  da estrutura patrimonial e urbana do actual centro histórico torriense, data desse período, pelo que, quando se fala no “centro histórico medieval de Torres Vedras”, será mais correcto falar em “centro histórico quinhentista ou manuelino”.

Vestígios dessa época são  também os pórticos “manuelinos” das Igrejas de Santiago e S. Pedro. Esta última exibe as armas de D. Maria, filha dos Reis Católicos, 2ª esposa do monarca (entre 1500 e 1517) e donatária de Torres Vedras, privilégio concedido como dote de casamento.

Esse brasão que encima o pórtico dessa igreja representa, numa metade, as armas de Portugal  e, na outra, as de Castela (12).

Como complemento dessa acção de renovação  patrimonial, há a destacar a profusão de obras de pintura que enriqueceram o património religioso, com destaque para os painéis do retábulo do Altar mor da Igreja de Stª Maria do Castelo, hoje no museu municipal (Anunciação, Visitação, Presépio,  Adoração dos Magos e Assunção da Virgem) executada para a reconstruída Igreja de Stª Maria, provavelmente durante o reinado D. Manuel, obra  atribuída a um discípulo de Gregório Lopes, Jorge Leal, havendo quem interprete uma das figuras representadas num desses quadros como um “retrato” do  próprio D. Manuel, no quadro “Adoração dos Magos”, devido à macromelia (comprimento excessivo do braço) da figura do “rei mago” em primeiro plano, uma deficiência física conhecida do próprio monarca.

Data também provavelmente desse reinado o “retábulo da Vida da Virgem”, um conjunto de 6 pinturas atribuídas a Francisco Henriques, um pintor flamengo ao serviço de D. Manuel entre 1503 e 1518, ligado à “escola de Évora”.

Este retábulo foi colocado no primeiro convento da Graça e encontra-se ,actualmente, no Museu Municipal Leonel Trindade

Também de data coincidente com esse reinado parecem ser as obras atribuídas aos Mestres do Sardoal (Vicente Gil e o filho Manuel Vicente), pintores da corte de D. Manuel e D. João III, os quatro santos, S. Lourenço, S. Sebastião, S. Pedro e S. Paulo, que pertenceram ao Convento do Varatojo, passando no século XIX para a capela de Nª Srª do Amial, e que hoje estão ao cuidado da Santa Casa da Misericórdia (13).

Já no final do seu reinado,  D. Manuel tomou duas importantes decisões que muito contribuíram para o desenvolvimento social, económico e cultural do concelho.

Uma delas foi a publicação do alvará de 26 de Julho de 1520, que fundou a Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, na continuidade de procurar expandir pelo reino a  iniciativa da rainha viúva D. Leonor, que fundou em Lisboa, em 1498, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia, com o objectivo de, ao centralizar numa instituição como essa a acção assistencial e de cuidados de saúde, melhorar a sua gestão em cada localidade.

A sede da Misericórdia de Torres Vedras foi instalada no edifício do Hospital do Santo Espírito, que já possuía à época os bens do Hospital de Santa Maria dos Farpados e do Hospital do Mostardeiro, juntando-se agora os bens da Confraria das Ovelhas Pobres e os do Hospital de São Gião, ou confraria dos sapateiros, continuando a integrar-se naquela nova instituição, nos anos e séculos seguintes, muitos outros bens.

“Começou a Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras a sua vida com duas salas para ambos os sexos e uma capela, e segundo Madeira Torres, com um rendimento de : 6 moios de trigo, 3 de cevada. 36 almudes de vinho, 3 potes de azeite, 56 galinhas e frangos, um carneiro, 13 : 888 reis em dinheiro e 2 óvos, além dos sobejos de todos os outros Hospitais e Albergarias.

“Além destes rendimentos, estava a Santa Casa autorizada  a ter Mamposteiros ou arrecadadores d’esmolas em todas as freguesias do arciprestado, encarregados de pedirem para ela”(14).

Muito provavelmente esta iniciativa foi patrocinada pela infanta D. Isabel, que era então donatária desta vila(15).

 A outra medida importante foi a publicação do alvará, datado de 22 de Setembro de 1521, confirmado nos reinados seguintes, que fazia “mercê nos mosteiros de Santo Agostinho, a saber, ao convento da Graça de Lisboa, a Évora, a Santarém, a Torres Vedras, a Penafirme (…) de 6 arrobas de açucar anuais a cada um dos conventos, pagas no Almoxarifado do um por cento, e obras pias (…)” (16) beneficiando assim dois dos mais antigos conventos locais (o da “Graça” em Torres Vedras e o de Penafirme) com os lucros da expansão, o que talvez justifique a criação de condições económicas que tornaram possível a construção de um novo edifício para instalar os agostinianos de Torres Vedras, cujo projecto de obras se iniciou já no reinado seguinte, em 1544.

O reinado do “Venturoso” parece ter tido, assim,  um forte impacto no desenvolvimento económico, social e cultural deste concelho, obra continuada pelo seu sucessor D. João III.

(1)    - entre muitas outras obras, leia-se : OLIVEIRA e COSTA, João Paulo de , D, Manuel I, Círculo de Leitores. Para uma visão mais tradicional, leia-se : GÓIS, Damião de, Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, ed. Universidade de Coimbra, 1926.

(2)    - para uma contextualização da vida torriense neste período: VEIGA, Carlos Margaça, “A modernidade Torriense – Século XVI”, in Nova História Local – Torres Vedras, Colibri/CMTV/FLL, 2018, pp. 81 a 96; consulte-se também alguma da principal documentação existente sobre Torres Vedras durante esta época em: SOUSA, J.M. Cordeiro de , Fontes Medievais da História Torreana, ed. C.M.Torres Vedras, 1957;

(3)    - leia-se GUIMARÃES, Jorge Gonçalves, São Gonçalo de Lagos – Hagiografia, Culto e Memória – Séc.XVI/XVIII, ed. CMTV, col. Linhas de Torres, H5, 2004. Uma boa síntese sobre essa mesma personagem pode ser lido em ANTUNES, Vitória Baltazar, S. Gonçalo de Lagos, CMTV/ Agrupamento de Escolas de S. Gonçalo, T.Vedras, Dezembro de 2010;

(4)    - leia-se SILVA, Carlos Guardado da, e VARGAS, José Manuel, O Foral Novo-Torres Vedras -1510 – Estudo e edição interpretativa, ed. CMTV, 2016;

(5)    - Descripção do Reino de Portugal, 1ª edição póstuma de 1610;

(6)    - Corographia portugueza e descripção topográfica do famoso Reyno de Portugal (…), 3 volumes, 1706-1712;

(7)    - ver MADEIRA TORRES; Manoel Agostinho, Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras – Parte Histórica – 2ª edição anotada, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1862;

(8)    - leia-se SOUSA, Augusto Quirino de, “Torrienses na Expansão Quinhentista no Oriente”, in Turres Veteras II – Actas de História Moderna, ed. CMTV/FLL, 2000, pp.155 a 189;

(9)    -  ver SILVA, Maria Natália da, A Casa de Torres Vedras – de Rui Gomes de Alvarenga aos Marqueses do Lavradio – séculos XV-XIX, ed. CMTV/ed. Colibri, H19, Dezembro 2019, pp.46-47;

(10)                       - sobre esta família leia-se a acima citada obra de Maria Natália da Silva;

(11)                       - uma descrição dessa remodelação pode ser lida no texto, recentemente publicado no Badaladas, de José Pedro Sobreiro e Joaquim Moedas Duarte, na edição de 5 de Novembro de 2021, a 1ª parte de “Castelo de Torres – Reconstruir ou conservar?”;

(12)                       - leia-se TAVARES, Ana Maria, “Os Testemunhos Torrienses do Manuelino”, in Turres Veteras II – Actas de História Moderna, ed. CMTV/FLL, 2000, pp.97 a 115;

(13)                       - consultem-se as obras da autoria de Fernando António Baptista Pereira que corroboram muitas destas essa informações, ou então o arquivo do Museu Municipal Leonel Trindade;

(14)                       - SALINAS CALADO, Rafael, Origens e Vida da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, ed. 1936;

(15)                       - para  um estudo actulizada sobre esta instituição leia-se : REIS, Célia, A Misericórdia de Torres Vedras (1520-1975), ed. Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, 2016;

(16)                       - ), in “Inventário Provisório do Arquivo da Cúria Patriarcal de Lisboa, Lusitânia Sacra, Tomo IX, 1970/71/72.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Há 430 anos, em 1589 - D. António Prior do Crato na Região de Torres Vedras


(D. António, Prior do Crato)


Em 29 de Maio de 1589, um exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato, entrava em Torres Vedras, dirigindo-se a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português.

A História deste episódio está bem documentada num manuscrito da autoria de André Falcão de Resende, existente na Torre do Tombo.

O conhecido poeta quinhentista tinha sido “juiz de fora” em Torres Vedras desde finais de 1576, onde estabeleceu amizade com o alcaide D. Martinho Soares de Alarcão, já não exercendo esse cargo, pelo menos desde o início de 1586.

Antes, em 18 de Abril de 1589, saiu de Plymouth, na Inglaterra, uma armada, a bordo da qual seguia D. António Prior do Crato com a sua “corte”, com o objectivo de conquistar o reino de Portugal.

Era uma armada de “cento e setenta navios grandes e pequenos”, com “perto de vinte mil homens”, ingleses, escoceses, “gente  vadia  de França” e da Flandres, alguns espanhóis “portugueses e castelhanos”, isto é, composta por mercenários.

A armada era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake,  acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.

Atacando, sem êxito,  a Corunha, na Galiza, dirigiu-se então para território português.

Tomando-se conhecimento da sua aproximação, entre Lisboa e Cascais foram tomadas várias medidas para a defender a capital de um desembarque e ataque dos ingleses, apesar de os armazéns da cidade estarem “muito faltos de armas e de munições, por se gastar muito na armada do ano passado” (refere-se ao desgaste da armada portuguesa, motivada pela derrota luso-castelhana da Armada Invencível, cerca de um ano antes).

No dia 23 de Maio de 1589, uma sexta-feira , a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.

As tropas estacionadas para defender o local e a fortificação, perante a dimensão da armada, fugiram ou renderam-se de imediato.

A facilidade com que os ingleses entraram em Peniche, está na origem do dito popular dos “amigos de Peniche”.

O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.

Em Torres Vedras estavam  estacionadas  12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por  Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.

Este Gaspar Ruiz de Alarcão tinha vindo para Portugal em 1587, com quatro companhias a cavalo, para apoiar o Vice-rei, Cardeal D. Alberto.

Do Turcifal saiu Pero Correia, filho de Lourenço Correia, com três “homens seus” a cavalo, e quatro a pé com “espingardas” e outra gente a pé, para se juntar ao alcaide de Torres.

No Sábado seguinte, dia 24, Dom Martinho Soares juntou-se  às tropas comandadas por Pedro de Gusmão, num local a meia légua de Peniche, “sobre hum alto que chamão o Coymbram”, avistando daí os inimigos.

Sobre estes “discorreram” os “Ginetes de Gaspar de Alarcon”, fazendo prisioneiro um soldado do exército inglês que tinha sido ferido, e que disse ser francês, tendo por missão entregar uma mensagem de D. António para “hu Mosteiro de frades ahy vezinhos” , revelando o número de tropas inglesas, 20 mil “infantes”, e informando que já tinham desembarcado em Peniche seiscentos cavalos.

Impressionados com esses números, os “nossos” “aballarão dalli para outro lugar mais alto, e mais afastado do inimigo”, enquanto que “os de Torres Vedras e seu termo que erão todos até trezentos, os mais delles gente rústica”, fugiram para Torres Vedras, as tropas de Dom Martinho e de João Gonçalves de Atayde.

No dia seguinte, Domingo vinte e oito de Maio, juntaram-se a estes, em Torres Vedras, onde já estavam Pedro de Gusmão e Gaspar de Alarcão, duas companhias de “arcabuzeiros a cavalo” comandadas por D. Sancho Bravo (ou Branco) e outras duas de “infantaria do terço”, comandadas por Dom Francisco de Toledo, alojando-se “esta gente toda” no Castelo de Torres Vedras, que consideravam “forte e defençável, principalmente vindo o I[n]imigo sem artilharia e com poucos cavallos”.

Contudo, dando-se rebate, por volta da meia noite, que os inimigos vinham marchando da Lourinhã para esta vila, que distava duas léguas, “partirão todos logo com muita pressa” para Enxara dos Cavaleiros, ficando apenas Gaspar de Alarcan, como os seus “ginetes”, “sempre” à vista do inimigo.


(Percurso das tropas luso-inglesas, de Peniche a Cascais (Fonte-João Pedro Vaz, ob. cit.)

Na segunda-feira, vinte e nove de Maio, pela manhã “entrou em Torres Vedras hum clérigo que era cura no lugar do Vimieiro [será Vimeiro ?], notificando aos que estavão na villa que se não fossem della, por que lhes não farão mal, prometendo lhes disto seguranças, por parte de Dom António”.

Tomando conhecimento dessa situação, os ginetes de Gaspar de Alarcão avançaram para Torres Vedras, com o objectivo de prenderem esse clérigo.

Com esse pretexto entraram “em muitas casa da villa e termo”, provocando a fuga dos seus habitantes para lugares altos.

Os abusos cometidos por algumas tropas de Gaspar de Alarcão e “outros soldados” castelhanos, provocaram o rumor segundo o qual os ginetes andavam a roubar e a matar, “e disto lançarão fama e causando com isto grande inquietação por esta comarca” de Torres Vedras, “e por  outras temendo se e escondendo se  a gente miúda e molheres, por montes e covas”, embora o narrador refira que os capitães e nobres não foram responsáveis por esses excessos.

Espalhando-se pela região a notícia dos saques, roubos e assassinatos feitos pelas topas luso-castelhanas, a população temia mais “destes nossos amigos e naturaes que dos Ingleses”, até porque estes, até então, não roubavam nem saqueavam, pelo que começaram a ter apoio popular, dando mantimentos e juntando-se às tropas anglo-lusas de Norris e D. António.

Nessa segunda-feira “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris, “onde alguns poucos e falhos de força e conselho o esperarão, não seguindo a muitos outros que o não quiserão esperar e se ausentarão”, isto é, a vila estava quase desabitada.

D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.

“Sem mantimentos, e com tanta fome”, as tropas inglesas “comerão muitas imundices”, isto porque tinham ordens para não proceder a qualquer saque.

Contudo, muitos desses soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.

Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

Só na quarta-feira seguinte, dia 30 de Maio, é que as tropas inglesas retomaram a sua marcha sobre Lisboa, avançando por Enxara dos Cavaleiros até Frielas.

Tendo chegado a informação aos castelhanos que as tropas inglesas estavam “tomadas” de vinho, avançaram sobre o acampamento inglês onde deram conta que, afinal, “estavão mais expertos do que cuidaram e bem entricheirados”, retirando-se para Lisboa com algumas baixas em confrontos esporádicos com os ingleses.

Entretanto, André Falcão de Resende, que, quando da tomada do Castelo por D. António, tinha escondido alguns livros numa casa a meia légua de Torres Vedras, voltou à vila assim que os ingleses se retiraram para avançarem sobre Lisboa.

Entrando em Torres Vedras, encontrou-a praticamente deserta, descobrindo, junto ao “pelourinho  da praça” uma carta, assinada por D. António, na qual com “graves penas e ameaças, assumindo-se nella como Rei, mandava que todos o fossem logo servir e acompanhar, dentro de vinte e quatro horas”.

A título de curiosidade, refira-se que esta é uma das mais antigas referências coevas ao Pelourinho quinhentista de Torres Vedras.

Dirigindo-se depois para um ponto alto perto da vila, Falcão de Resende avistou a marcha do inimigo, contando cerca de “doze mil homens, e sessenta cavallos somente”, sem artilharia, sem mantimentos e sem bagagens. De imediato enviou esta informação ao seu filho, Luís Falcão, que estava em Lisboa, para conhecimento dos defensores desta cidade.

No dia 1 de Junho, 5ª feira, o “inimigo” avançou sobre Lisboa até Alvalade “mea legoa” de Lisboa.

Eram as tropas inglesas abastecidas por Gaspar Campello, que tinha negociado com D. António a entrega de mantimentos às tropas luso-inglesas. Gaspar Campello tinha sido juiz em Torres Vedras e era “muito conhecido nesta comarca” e tinha forçado “a gente fraca, com nome de Almotacel moor para trazerem mantimentos aos Ingleses”.

A cavalaria luso-castelhano conseguiu, contudo, fazer “presas” desses mantimentos.

Durante este tempo ocorreram escaramuças esporádicas entre os dois exércitos.

No dia seguinte, sexta-feira 2 de Junho, os ingleses marcharam de Alvalade até “perto da cidade” entrando pelos arrabaldes e pelas ruas e travessas.

Do Castelo e das Galés estacionadas no Tejo receberam os ingleses muito fogo.

No dia seguinte os sitiados conseguiram receber mantimentos e vários reforços.

Os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas, entre elas os “ginetes” de Gaspar Alarcão que prenderam e mataram muitos dos soldados luso-ingleses.

De sitiantes, os ingleses passaram, em Cascais, a sitiados.

Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada inglesa.

Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras.

Algumas fontes referem uma segunda tentativa das forças do Prior do Crato de conquistarem o Castelo, sem o êxito da primeira vez.

A ter acontecido, terá ocorrido entre essa data de 6 de Junho e o início da retirada inglesa do território português, que ocorreu entre 18 e 22 de Junho.

Segundo Vieira da Mota, deve-se a este episódio o facto de D. António apelidar esta localidade de “Torres Traidora”.

O mesmo Martim Soares, em 22 de Junho, marchou sobre Peniche, levando consigo “30 de cavallo”, com “gente de pé”. Chegado à Lourinhã, foi informado por uma espia que os inimigos estavam a embarcar em Peniche, levando consigo a artilharia da fortaleza, pelo que apressou o seu avanço sobre aquela vila, de onde grande parte dos ingleses já se tinham retirado.

Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.

Retirando-se definitivamente de Portugal, D. António, faleceu na miséria em Paris em Agosto de 1595.

FONTE PRINCIPAL:
(Parte do Documento de André Falcão de Resende que refere a chegada de D. António a Torres Vedras).

FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147,   Arquivo Nacional da Torres do Tombo.

PARA SABER MAIS (outras fontes consultadas):

AZEVEDO, Maria Antonieta Soares de, “D. Martinho Soares de Alarcão, alcaide-mor de Torres Vedras e avô do Padre Francisco Soares”, in Arquivo do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol.I,  Paris 1969, pp. 470-486.
BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II, Câmara Municipal de Torres Vedras, Edições Colibri, Lisboa 2009.
MOTA, A. Vieira da Mota, “Memórias de Torres Vedras”, Capítulo IX,  in O Torrense, nº 52, 17 de Setembro de 1922.
RAMALHO, Américo da Costa, O Essencial sobre André Falcão de Resende, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1988.
RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa 2004.
VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato – 1580-1589 – Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, ed Tribuna, sem data [séc. XXI].

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Estudo histórico-arquitectónico sobre a Casa Senhorial torriense

Esta obra foi lançada em Torres Vedras em Abril do corrente ano, mas só agora tomei conhecimento da sua edição.
Despertou-me a atenção a capa, uma fotografia da Quinta das Lapas, numa montra da livraria Ferin, em Lisboa.
 
A obra foi editada em Novembro do ano passado pela editora Caleidoscópio e analisa um tema raramente investigado neste concelho, a não ser de forma isolada e meramente descritiva, que é a interpretação arquitectónica e histórica das casa senhoriais da região.
 
O concelho é rico nesse tipo de património, situação que não passou despercebida a uma das autoras, Ana Feliciano, nascida em Torres Vedras e que trabalhou na Câmara de Torres Vedras, leccionando actualmente na Faculdade de Arquitectura, onde leciona igualmente o outro autor do livro, António Miguel Leite (ler biografias no final).
 
O livro faz a contextualização artística, arquitectónica e histórica das casas senhoriais deste concelho, incluindo várias dezenas de fotografias e gravuras para ilustrar o tema.
 
Relativamente ao concelho torriense encontramos referências à Quinta de Santa Margarida no Varatojo, que merece atenção em dois capítulos deste livro, a Quinta da Cadriceira e a Quinta Da Conceição, ambas estudadas mais em pormenor em capítulo próprio, a Quinta de A-Da-Rainha,  a Quinta do Calvel, as Quintas Nova e do Juncal, a Quinta das Lapas, também com capítulo próprio, e um capítulo próprio sobre as várias Quintas existentes junto à localidade do Turcifal.
Para aguçar o interesse dos interessados, em baixo transcrevemos as notas de apresentação publicadas na página da Câmara Municipal de Torres Vedras, por ocasião do lançamento do livro nesta cidade em Abril passado:
“A síntese que agora se publica, “A Casa Senhorial como Matriz da Territorialidade; A Região de Torres Vedras entre o Tempo Medieval e o Final do Antigo Regime”, que enquadra o enorme período que abrange desde o Tempo Medieval até ao final do Antigo Regime, destaca como expressão principal da investigação o significado específico da Casa Senhorial como matriz identitária estruturadora do habitar e do território.
 
“Deste modo, a investigação fez emergir desde o seu início a ideia totalizadora e simbiótica que integra a casa senhorial, paradigmática da construção e organização de uma primária territorialidade, como um todo amplo e contínuo, um todo culturalmente orgânico que tende apenas a poder explicar-se pelas suas múltiplas permeabilidades fácticas e funcionais, realidades essas marcadas pelas inevitáveis circunstancialidades e pragmatismos próprios de uma adaptação contínua às mudanças de tempos e à ausência de uma estrita linearidade racional dos percursos da História.
 
“Assim, constata-se hoje a importância da compreensão destas ‘casas’ para o entendimento da caracterização dos territórios e das paisagens que tenderam a estruturar, realidade que se revela no presente, seja num entendimento historiográfico, seja num mais amplo contexto cultural, fundamental para preservar e potenciar o efectivo capital de memória e identidade que lhes está matricialmente implícito. Na verdade, num tempo em que se valorizam cada vez mais as diferenças e as identidades culturais, a compreensão do significado matricial das casas senhoriais como realidades estruturadoras do território, abre-nos um maior conhecimento sobre o seu significado, realidade que poderá contribuir para uma reflexão mais profunda e para o apontar de caminhos mais operativos para uma efectiva valorização do património, realidade que é hoje, indiscutivelmente, um dos temas centrais de uma qualquer política cultural e um dos modos mais sustentáveis de construir um verdadeiro futuro. 
“Nota Biográfica dos autores
“ANTÓNIO MIGUEL NEVES DA SILVA SANTOS LEITE, Lisboa 1966
Arquitecto, Professor Doutor da FAUL
“Licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa em 1995, colaborou com o Arq. Victor Figueiredo entre 1993 e 1997 exercendo também, desde 1995, actividade profissional, sendo responsável por diversos projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa o grau de Mestre em Arquitectura de Habitação, com a Tese “A Influência do Romantismo Alemão no Espaço Arquitectónico, Procura de um Entendimento Crítico de uma Casa Romântica nos seus Múltiplos Significados” e entre 2003 e 2007 foi Bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, obtendo em 2008 o grau de ‘Doutor Europeu’ conferido pela Universidad Politecnica de Madrid, com a defesa da tese “La Casa Romántica; de la Matriz Romántica a un Concepto Acrónico y Operativo en la Contemporaneidad”.
 
“É docente e investigador da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa desde o ano lectivo de 1996/1997, onde tem leccionado disciplinas teórico-práticas de Projecto de Arquitectura tendo orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de Urbanismo e Arquitectura.
“Escreve para publicações de Arte e Arquitectura, das quais se destaca a publicação em 2014 do Livro “A Casa Romântica; uma Matriz para a Contemporaneidade”.
 
“É actualmente investigador do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como principais temas de investigação a Arquitectura Experimental, a Habitação e a Casa Individual, bem como se interessa especificamente sobre os processos e metodologias de Reabilitação Urbana e Arquitectónica como processo de valorização do Património, condição que assume como desencadeante de uma efectiva sustentabilidade sociocultural.
“ANA MARTA DAS NEVES SANTOS FELICIANO, Torres Vedras 1971

Arquitecta, Professora Doutora da FAUTL
“Natural de Torres Vedras, licenciou-se em 1995 em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), trabalhou na Camara Municipal de Torres Vedras entre 1996 e 1997, exercendo também actividade profissional tendo sido responsável por projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve o grau de mestre no 2º Curso de Mestrado em Arquitectura da Habitação da FAUTL, com a defesa da dissertação “Habitação e Utopia nos Anos Sessenta; As Propostas do Grupo Archigram no Contexto de uma Década de Rupturas”.
“Entre 2003 e 2007 foi bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia e frequentou o Curso de Doutoramento Teoría y Practica del Proyecto do Departamento de Proyectos Arquitectónicos da Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad Politécnica de Madrid, onde obteve o Doutoramento Europeu em Arquitectura com a defesa da tese “La Metáfora del Organismo en las Arquitecturas Visionarias de los Años Sessenta; La Obra del Grupo Archigram como Reinvención de un Nuevo Habitar”.
“Desde o ano lectivo de 1997 é docente e investigadora da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa onde lecciona disciplinas de Projecto de Arquitectura, publicando regularmente em revistas e livros de Arquitectura e Urbanismo, bem como tem orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de arquitectura.
“Entre as suas publicações destaca-se a publicação em 2014 do Livro “A Metáfora do Organismo nas Arquitecturas dos Anos Sessenta; a Obra dos ‘Archigram’ como Manifesto de um Novo Habitar”.
“A autora é igualmente investigadora efectiva do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como actuais interesses de investigação a Reabilitação Urbana e Arquitectónica, a Arquitectura Experimental e a Casa e a Habitação num contexto culturalmente alargado.”