Ainda sob o efeito da tempestade Joseph, que provocou inundações históricas nas margens do Rio Sizandro e uma agitação marítima preocupante, esta madrugada a região foi afectada pela tempestde Krisin, que entrou nesta região por volta das 3 da manhã com ventos que ultrapassaram os 100 klm hora.
Pela manhã, na cidade, deparámo-nos com árvores caidas e ramos espalhados por todo o lado, com destaque para a zona da Avenida 5 de Outibro, Av. Humberto Delgado e Largo da Graça.
À volta e no interior da escola Madeira Torres deparámo-nos com várias árvores arrancadas, com destaque para as que cairam sobre o depóssito de gaz da escola.
Aqui ficam, para memória futura, algumas imagens da situação junto à Escola Madeira Torres.
Na sua edição de 15 de Fevereiro de 1904 a revista "Ilustração Portuguesa" publicou aquelas que são, até ao momento, as mais antigas fotografias de umas cheias em Torres Vedras.
As cheias tiveram lugar no fim-de-semana do Carnaval desse ano e essas fotografias ilustram, juntamente com uma outra do vale de Santarém, o resultados das grandes chuvadas desses dias.
O artigo onde se inclui essas fotografias e a legenda acima transcrita, é assinado por um tal João Paulo, desconhecendo-se se é ele o autor dessas fotografias.
No dia em que se comemora mais um ano passado sobre as maiores cheias registadas no concelho nos últimos 50 anos, as cheias de 19 de Novembro de 1983, aqui recordamos as mais antigas fotos de um fenómeno constante ao longo dos séculos, o transbordar das águas do rio Sizandro para as ruas baixas da então vila.
A partir de 1983 foram efectaudas várias obras de regularização do rio, pelo que deixou de haver as tradicionais e destruidoras inundações no centro urbano
“Andorinhas da arte, não poderam suportar as neves de Fevereiro e o
frio da indiferença publica.
“Embrulhados nos mantos reaes de paninho bordado a lantejoulas,
pozeram-se ao caminho com uma bagagem de dramas e uma perspectiva de miséria,
seguindo a estrella dos bohemios, para irem levar ao seio das multidões a
malícia da Nitouche e o surdo ranger de dentes de D. Afonso IV” (1).
Com estas palavras metafóricas começava a crónica de Carlos Velloso nas páginas de
“A Semana”, nesse distante mês de Março de 1888, referindo-se à retirada de
Torres Vedras da companhia teatral que aqui havia permanecido alguns meses.
Carlos Velloso, curioso cronista, de estilo muito peculiar na Torres
Vedras oitocentista, prosseguia essa crónica com estas palavras:
“A brazeira voltou ao centro da sala, a chinela forrada, com bordados,
tem na meia escuridão, por baixo da secretária, uns brandos fulgores de
missangas: o “Diário de Notícias” retomou o seu império, e na leitura dos
versos do sr. Luís d’ Araujo faz-se tranquilla a digestão das torradas, livre
já da peste dos maus hábitos, lançada a despeza com theatro na coluna dos
ganhos e perdas.
“O Convento da Graça vae perdendo o feitio pavoroso da Bastilha, já não
se lhe suppõedentro um Minotauro que
devora tostões e – quem poderia crer ? – já olhos humanos contemplam, sem
estremecer, as taboas desunidas, meio enterradas, que eram ponte oscillante e
perigosa n’aquelle patíbulo da riqueza (…)” (2).
O citado Convento da Graça, que serviu de sombra às noites de teatro,
era o centro de outras realidades da época, como se pode ler noutra notícia
publicada no mesmo jornal:
“Vae ser provisoriamente mudado o hospício dos expostos, n’esta villa,
da antiga casa que se vendeu, para um edifício mais amplo e confortável, até
que se realizem as obras no convento da Graça, onde ficará definitivamente
instalado” (3).
O mês de Março de 1888 foi mês de temporais que se fizeram sentir
principalmente no estado em que deixaram os velhos caminhos que ligavam Torres
Vedras aos concelhos vizinhos e as ruas da villa:
“A pouca àgua que caiu nos
últimos dias da semana passada bastou para tornar intransitáveis os caminhos,
convertendo-se em verdadeiros lamaçaes, onde os carros se enterram até aos
eixos (…).
“Só quem anda na estrada conhece os dannos que provém de similhante
desmazelo, demais na presente ocasião, quando se procede às tiradas do vinho.
“Aqui mesmo na villa temos um espelho à nossa frente.
“O caminho da estação, aquelle decantado caminho a que tantas vezes nos
temos referido, está n’um estado tal, que bem demonstra a forma porque se zomba
do interesse publico, mangando com as povoações.
“Aquilo não é um caminho, principalmente apenas caem algumas gotas de
chuva: - é um mar de lama, um precipício, incapaz de servir para o trânsito geral.
“Apenas ali se chega logo se adivinha o serviço de uma via férrea, que
tem os aterros especados com madeira, onde os wagons, velhos e ameaçando
desconjuntar-se, andam à aposta, no que se refere a velocidade, com os carros
dos almocreves!
“Realmente, estamos abaixo das povoações mais insignificantes, pelo
abandono a que somos votados (4)”.
Então, como hoje, a linha do Oeste parecia condenada a prestar um mau
serviço aos seus utentes (embora fosse então um dos mais prometedores e
modernos meios de transporte), situação que não impedia a companhia de obter
lucros significativos para a época:
“Reunindo as receitas d’este novo caminho de ferro, desde 1 de Janeiro
até 12 do corrente [ mês de Março] , vemos que o seu produto monta a
25:901$010, pertencendo à Linha de Cintra a Torres 18:424$010 e à de Torres a
Leiria 7:477$000.
“Com tão boas receitas bem podia a companhia mandar esphaltar o recinto
da estação d’esta villa, ou mac- adamisar os caminhos que conduzem não só a
esta, mas a outra estações da linha, os quaes estão intransitáveis, a ponto de
terem já causado alguns desastres (5).
Mas nem tudo era criticável em relação àquela companhia, pois,
entretanto, anunciava-se o ajardinamento da estação do caminho de ferro de
Torres Vedras “no espaço que medeia entre o edifício e as arrecadações de
material circulante”.
A recente inauguração do caminho de ferro não impediu o surgimento de
um novo estabelecimento de trens de aluguer, propriedade de Januário Vieira,
“habil cocheiro muito conhecido em todo o Concelho de Torres” (6).
O saneamento básico era outra das preocupações da época:
“A mudança da estação faz-nos ocorrer a necessidade de abastecer de
água a nossa villa, evitando as dificuldades dos annos anteriores.
“A água que temos não é boa, nem sufficiente, todos o sabem (…).
“E já agora lembramos à Câmara a conveniência, de proceder ao
saneamento da povoação, fazendo com que se observem os preceitos salutares da
hygiene.
“Actualamente, a nossa villa, com as montureiras, os canos rotos, as
ruas sujas, não peca por aceiada, nem attraente(…)” (7).
Um dos melhoramentos então recentemente inaugurado, a iluminação a gaz,
atravessava algumas dificuldades, que acabaram por levar ao regresso `da velha
iluminação a petróleo, só abandonada em 1912 com a inauguração da iluminação
eléctica:
“Desde terça-feira [6 de Março] que a villa é iluminada a petróleo. A
naphta foi por algum tempo posta de parte “ (8).
Outro melhoramento então anunciado para o concelho foi a instalação de
uma linha telefónica particular, ainda não inaugurada por razões burocráticas:
“Está prompta há mais de um mez o telefone que deverá funcionar entre
S. Domingos de Carmões e o Sobral de Mont’ Agraço, sem que ainda chegasse ordem
official para a sua abertura ao público, que ainda não poude utilizar este
melhoramento com que foi contemplado” (9).
Uma última nota sobre este mês de Março de 1888 para referir que se
anunciava para o primeiro dia de Abril o encerramento dominical dos
estabelecimento comerciais, a partir das 4 horas da tarde, iniciativa que muito
contribui para alargar os tempos livres dos torrienses, alterando muitos
hábitos dos seus habitantes no final do século XIX.
( a partir de texto por nós publicado no jornal Badaladas em 25 de
Março de 1988).
(1)– in
A Semana de 1 de Março de 1888;
(2)–
idem, idem;
(3)–idem,
idem;
(4)– in
Voz de Torres Vedras de 3 de Março de 1888;
(5)–idem.
Idem;
(6)– in
Voz de Torres Vedras de 24 de Março de 1888;
(7)–
idem, idem;
(8)– in
Voz de Torres Vedras de 10 de Março de 1888;
(Uma Cheia em Torres Vedras nos anos 40, na "várzea" - Foto Estúdio)
Até há poucos anos, antes das grandes obras de regularização do rio
Sizandro, realizadas depois da catástrofe de 1983, a zona baixa de Torres
Vedras sofria quase todos os anos, pelo inverno, o incómodo das cheias, umas
maiores que outras. Aquela que ficou na memória colectiva por mais tempo foi a
chamada “Cheia Grande” de 7 de Dezembro de 1876.
Teve origem na forte precipitação que se registou em todo o país, tendo
originado a maior cheia histórica do rio Tejo, com um caudal que só seria
ultrapassado em 1997, e que foi a mais devastadora de sempre na região do baixo
Tejo (1). Nesse dia também o rio Guadiana registoua maior cheia da sua história.
Em Torres Vedras o rio Sizandro atingiu um nível de cheia nunca visto
anteriormente e que foi um dos maiores até 1983. A situação que então se viveu neste
concelho foi referida porvários autores
coevos, como Pinho Leal:
“(…) Ainda com os temporaes do
inverno de 1876, [o rio Sizandro] cresceu tanto, que causou graves prejuïzos
nas terras das suas margens . Em 30 [?] de dezembrod' esse anno, se viu passar pelos sitios da
Ponte do Rol , uma cavalgadura morta , arrastando, preso por um pé ao estribo ,
um homem tamb6m morto.
“As chuvas torrenciaes do inverno de 1876 causaram grandes prejuizos
n’esta villa.
“0 Sizandro, que muitas vezes secca completamente na estiagem, cobriu de
agua todas as varzeas das suas margens.
“Todas as casas na baixa da villaforam abandonadas . A gente pobre foi recolhida no hospital , onde lhe
deram alimento e agasalho. Muitos habitantes foram salvos às costas por pessoas
dedicadas e transportados em carros para sitio seguro. Andaram empregados
n’este serviço , sete carros, generosamente emprestados por varios
particulares. Os empregados da administração do concelho foram salvos do mesmo
modo.
“Houve scenas afflitivas . No largo da egreja de S . Miguel , ha umas
barraquinhas que serviam de abrigo a uma pobre gente. Quando lhe accudiram
dava-lhe já a agua pelos peitos . Imagine-se a sua afflicção.
“Os prejuizos foram grandes em vinho , azeite, milho , etc . 0 campo da
Feira Nova, às portas da Varzea, ficou todo inundado, padecendo immenso os
numerosos armazens que alli há . No lagar do sr. Augusto Miranda, a cheia fez
grande destroço; a rua da Olaria , onde elle esta estabelecido, parecia um rio
de azeite. No armazem do sr. Fivelim, na rua Nova , os cascos e pipas de vinho
andaram boiando. A agua n’esta rua chegava à bocca do forno de pão que aIli há
.
“Ameaçavam ruina varias casas, entre outras a do sr. João dos Reis ,
edificada recentemente , onde morava o Sr. Schiappa, conductor das obras
publicas ; a do medico, o Sr. dr . Mauricio, etc .
“Estas inundaçoes teem-se repetido com
frequencia, todas as vezes que o Sizandro, de humilde ribeiro, se torna um rio
furioso, sahindo do seu leitoalagando
as suas margens, e causa de grandes destroços e ruinas .
“Em 1876, subiu em alguns pontos a altura de trez metros .
“O lençol d' agua estendia-se pelas varzeas do Arial , Ramalhão, Maxial
e Ermigeira até Villa Verde, n’uma extensão de cerca de 15 kilometros ; proximo
d’esta ultima povoação morreu afogado um rapaz que andava apascentando gado.
“A importante povoação da Merceana , situada ao
sul e nas faldas da serra de S . Matheus, esteve prestes a submergir-se .
“Na estrada que vae de Monte Redondo para a Ermigeira , abateu o muro
da tapada da quinta das Lapas, n' uma grande extensao, ficando impedido o
transito.
“Na quinta de Ermigeira, propriedade do sr. visconde de Balsemão, foi
completamente destruido um importante encanamento de agua na extensao de 500
metros”(2) .
António Batista da Costa, autor de uma monografia manuscrita inédita,
“Memórias de Torres Vedras”, escrita no inicio do século XX, também escreveu, de
memória, sobre o efeito da cheia de 1876, classificando-a como a “maior cheia
que visitou Torres Vedras, desde de tempos conhecidos (…)”, descrevendo os seus
efeitos:
“Toda a vila baixa fôra inundada, chegando a agua à Praça do Município,
a S. Pedro, ao Largo do Rozario, etc, etc.
“Foi no sitio denominado a Porta da Varzea, onde a agua atingiu a sua
maior altura, correndo risco a vida d’algumas famílias que ali moravam, as
quaes foram salvaspelo benemérito
cidadão Victorino Pereira da Costa, que então exercia o cargo de Secretário da
Administração do Concelho, e outros cujos nomes não me ocorre.
“Muitas creaturas reciosas de que a cheia aumentasse e tomasse outras
proporções invadindo as suas habitações, por quanto a noite continuava sob o
mesmo aspecto tempestuoso, abandonaram-nas , ouvindo-se ais e gritosde angustia e de aflição que, ecoando por
entre o sussurro murmurado e patético das aguas, causava um certo pavor, ainda
aos mais animosos. Essa gente deveras apavorada com o aspecto tenebroso que a
cheia ía tomando, pois que até às 2 da madrugada ainda chovia torrencialmente,
dirigiu-se ao Hospital [da Misericórdia, junto à Igreja da mesma instituição],
afim de ali encontrar guarida, a qual lhe fôra pronto e generosamente dada pela
sua ilustre direcção, ficando ali umas três noites”.
O autor refere que, “na actualidade”[por volta de 1915] “esse mal”, das
inundações do Sizandro que invadiam a zona baixa da vila, “desapareceu um
pouco”, dado que se tinha procedido a sucessivos aterramentos , “atingindo
n’alguns pontos a altura de 2 metros, pouco mais ou menos” (3).
(Cheia na "Corredoura" em 1943 - Fotografia de Emílio Costa)
Aliás, logo nos dias a seguir à trágica cheia, o executivo camarário
tomou medidas para atenuar a situação, convidando “o conductor d’obras Publicas
Jorge Arthur Scchiappa Monteiro para estudar o meio de evitar que as aguas ,
que caém dos montes do sudueste desta villa, atravessem esta”, e dirigindo “uma
representação ao Governo de Sua Magestade pedindo-lhe a Egreja de S. Miguel e
casas juntas, que estão em completa ruina para tudo ser demolido, a fim do
material ser aproveitado tanto no atterro da parte mais baixa do citio de S.
Miguel como na ponte e outras obras que são de urgente necessidade fazer-se
junto ao rio Sizandro, próximo à mesma Egreja” (4).
Dias depois, o mesmo executivo, “considerando o imenso prejuízo que
soffre a rua da Olaria, pelo facto de por ella passar em caudaloza torrente a
agua que corre das montanhas a sudueste da villa; e reconhecendo a impreterível
necessidade do seu imediato desvio, deliberou convidar o Ill.mo Sr. Francisco
de Borja, a fim deste cavalheiro declarar se consentia que pella sua
propriedade da Graça se effectuasse aquelle desvio d’aguas” tendo esse
proprietário anuído “com condição” de ser indemnizado pela câmara“dos prejuízos que sofresse, o que estaacceitou”(5).
Fica aqui retratado, em jeito de reportagem, um dos acontecimentos mais
marcantes registado na memória colectiva dos habitantes de Torres Vedras.
1 – ver LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias –
1800-2007”, colecção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009 (versão disponível
na internet);
2 - LEAL, Pinho, “Sizandro” in PORTUGAL ANTIGO E MODERNO vol . IX, 1880
pp . 405 ; 661—662;
3 – COSTA, António Batista, “Memórias de Torres Vedras”, manuscrito
inédito, AMTV, [1915?], folhas 15 e 16;
4 – Livro de Actas da Câmara, sessão de 9 de Dezembro de 1876, ff170
e170v;
5Livro de Actasda Câmara, sessão de 26 de Dezembro de 1876, f.171
verso.
No final da manhã do dia 15 de
Fevereiro de 1941, perto do meio-dia, foi o país, e toda a Peninsula Ibérica,
assolado por um dos mais violentos fenómenos atmosféricos de que há memória,
que ficou conhecido pelo “Grande Ciclone”, cujos efeitos se continuaram a
sentir ao longo desse dia até perto das 18 horas.
Terá sido o mais violento fenómeno natural que assolou até hoje toda a
Península Ibérica depois do terramoto de 1755, registando os ventos mais
violentos desde que há recolha de registos meteorológicos (em Lisboa a rajada
máxima atingiu os 127 Km/hora. No país a maior rajada registada nesse dia teve
lugar em Portimão, atingindo os 150 Km/hora. Como termo de comparação, a rajada
máxima registada no temporal de 23 de Dezembro de 2009 foi registada em Torres
Vedras e atingiu os 142 Km/hora) (1).
Um raro registo cinematográfico desse acontecimento na Península foi
filmado em Santander, no norte de Espanha e pode ser visto em baixo.
Estava-se no início da 2ª Grande Guerra, a Alemanha nazi estava no auge
do seu poder, faltava um mês para iniciar a invasão da Grécia e menos de seis
meses para se iniciar a ofensiva contra a União Soviética.
Então não se sabia, mas a Alemanha estava a um passo de invadir
Portugal, numa acção táctica que visava conquistar Gibraltar, acção que apenas
foi abandonada para preparar a invasão da Grécia em Março desse ano, uma acção
não prevista mas que visava emendar a derrota italiana naquele país.
Durante dias as notícias da guerra passaram para segundo plano, espaço
ocupado pela reportagem da tragédia que se abateu sobre Portugal.
As zonas de Portugal mais atingidas foram o litoral e os locais mais
altos, principalmente a região de Lisboa e o norte do país.
A agitação do mar, que provocou ondas com cerca de 20 metros, levando à
salinização de vários rios até uma distância de cerca de 40 kilómetros da
costa, e os ventos fortes, provocaram mais de cem mortos em todo país. Muitos
edifícios ficaram totalmente destelhados e em muito mau estado, caíram muitas
chaminés e, um dos acontecimentos mais
simbólicos, a estátua do Infante D. Henrique, no Padrão dos Descobrimentos em
Lisboa, foi arrancada do monumento e arrastada para o Tejo.
Só nos estuário do Tejo afundaram-se 150 embarcações e em Sesimbra essa
número ascendeu às três centenas.
Centenas de milhares de árvores foram derrubadas por todo o país. Só no
Pinhal de Leiria 300 mil árvores ficaram danificadas e a sua queda interrompeu
a circulação na linha do Oeste.
(fotografias do efeito do ciclone no Pinhal de Leiria)
Registarem-se ainda vários acidentes de comboios que descarrilaram por
efeito do temporal.
Na região vizinha de Torres Vedras a imprensa nacional destacou a
destruição do Teatro do Bombarral, a queda da chaminé do hospital de Arruda dos
Vinhos, o descarrilamento de um comboio na Malveira ou a destruição do Jardim
Público das Caldas da Rainha.
(registo de destruições)
Em Torres Vedras o fenómeno foi igualmente muito sentido e ficou na
memória dos mais velhos, que passou oralmente de geração para geração, estando
ainda vivas muitas pessoas que guardam a recordação desse acontecimento .
Segundo o testemunho de um familiar, que então tinha 9 anos (2), na
manhã desse dia, um Sábado, os alunos da escola primária da vila, que
funcionava no lado poente do edifício onde hoje está instalada a Câmara, na
Avenida 5 de Outubro, foram mandados para casa.
Regressando a casa, inconscientes do perigo, divertiam-se a ver as
pessoas a correr atrás dos chapéus que voavam com o vento (a maioria dos homens
dessa época usavam chapéu) ou a preocupação do padre e do sacristão em segurar
as sotainas, enquanto acompanhavam um funeral (3).
Segundo a mesma testemunha, o que mais a impressionou foi ver, no dia
seguinte, as árvores de grande porte que
ladeavam a Avenida quase todas arrancadas
pela raíz e tombadas.
A imprensa da época que consultámos, o Diário de Lisboa, cuja edição
integral está disponível on-line no site da Fundação Mário Soares, fazendo uma
ronda pelos estragos na província, apenas se refere Torres Vedras em breves
linhas anunciando que nesta localidade se “resolveu suspender as festas
carnavalescas” e registando o derrube de
“um barracão” e “prejuízos em outros edifícios” (4).
Contudo os estragos foram muito maiores do que aqueles que a notícia
revela.
A imprensa local, “A Voz do Concelho”, na sua edição 20 de Fevereiro de
1941, sob o título de “O Ciclóne em Tôrres Vedras”, refere que as “pessoas mais idosas desta
região, não se lembram de catástrofe semelhante”, continuando coma descrição
dos estragos: “Há casas demolidas; imensos postes telefónicos tombados;
milhares de árvores derrubadas ;chaminés, às dezenas, desmoronadas; portas,
portões e janelas despedaçadas; e quási não escapou uma casa onde as telhas não
tivessem voado, pelo menos na sua grande parte.
“Á tarde, já não se podia comunicar, telegráfica ou telefonicamente,
com o resto do país; e as camionetas de carreira, automóveis de praça e
comboios tinham deixado de circular por completo.
“As duas grandes tôrres da empresa de exploração de petróleo, situadas
cêrca desta vila, também foram arrancadas pela base, tombando com grande
estrondo; e cruzes de igreja, clarabóias, fumeiros, taboletas, vidros de
janela, vedações de madeira, gradeamentos, muros, etc. ,tudo cedeu à fúria
dominadora e terrível do ciclone. A rêde eléctrica, atingida seriamente, não
permitiu que houvesse luz, na noite dêsse dia , em toda a vila, pelo que Tôrres
Vedras apresentava um aspecto devéras impressionante.
(postal antigo da exploração de Petróleo em Torres Vedras, então ainda apenas com uma torre. No ciclone, as duas Torres então existentes foram derrubadas)
(imagens das torres de prospecção do petróleo em Torres Vedras, derrubadas pelo ciclone)
“Nas freguesias, as sementeiras, encontram-se , na sua grande parte,
perdidas ou gravemente prejudicadas, o que provoca uma situação angustiosa em
todos os meios rurais; e na vila, o campo da Porta da Várzea, o Jardim da Graça
e o Parque da Senhora do Ameal, estão num estado desolador”.
As consulta das actas das reuniões camarárias permitem observar mais em
pormenor a destruição causada pelo ciclone neste concelho (5).
Ao longo de todo o ano são muitas as referências nessas actas às
medidas de recuperação do que foi destruído.
Logo na sessão de 20 de Fevereiro é tomada a decisão de se efectuar uma
vistoria conjunta pela secção de obras da Câmara e pelos Bombeiros torrienses,
por sugestão destes, ao estado das chaminés, fumeiros, paredes, telhados e
empenas que, segundo os Bombeiros, ameaçavam ruir.
Revelador do impacto do ciclone no Parque do Choupal, a acta de 13 de
Março delibera “pôr em arrematação as árvores de madeira de plátano, derrubadas
pelo último ciclone no Parque da Senhora do Ameal”.
Numa acta de 31 de Julho, onde se exara em acta um agradecimento ao
governo pelos subsídios entregues para reparar os estragos causados pelo
ciclone, ficamos a saber de outros estragos : “vários edifícios escolares ,
igrejas, cemitérios, asilo de S. José e Hospital da Misericórdia”.
Praticamente todos os cemitérios
do concelho foram danificados, referindo-se em especial a danificação da casa
do despacho do cemitério da vila (acta de 6 de Novembro).
Há também a referência, na acta de 4 de Dezembro, a um subsidio à empresa “Viúva Cabral, Ldª”
para “matériais para reparação de estragos do ciclone”, surgindo nas actas
seguintes , até ao final do ano, muitas referências a vários particulares que
receberam subsídios para reparar estragos provocados pelo ciclone (José Pedro
Lopes, Florêncio Augusto Chagas (acta 9 de Outubro), José Ferreira Pinto &
Cª, Carlos da Silva Cardoso, Joaquim dos
Santos Pio e José Barreto Garcia (acta de 26 de Dezembro).
Ao todo, e contagem por alto, em subsídios e materiais para reparos, ao
longo do ano foram gastos mais de 20 contos, em moeda antiga.
O prejuízo provocado no total do país ascendeu a mais de um milhão de
contos, metade do orçamento nacional para a época.
(Memorial de homenagem às vítimas da aldeia da Gralheira, no Marão, a aldeia "mais alta do país", onde morreram vários habitantes devido ao ciclone)
A dimensão da tragédia , numa Europa
devastada pela guerra, levou o articulista do jornal torriense a “A Voz do
Concelho”, num editorial intitulado “Depois do ciclone…”, a concluir que, numa “Europa desgraçada, nós eramos,
talvez, uma excepção. Agora, a distância é menor, a excepção menos gritante.
Agora, temos também a nossa guerra - a
guerra pela restauração da nossa economia abalada”. (6).
Notas :
(1)– os
dados gerais sobre a situação do país foram consultados em três estudos
consultáveis on-line: GANHO, Nuno, Riscos de Ventos Tempestuosos de escala
sinóptica em Portugal: análise causal,
s/d, Centro de Estudos de Geografia e
Ordenamento do território; NUNES, Adélia, PINHO, João, GANHO, João, “O
“ciclone” de fevereiro de 1941: análise histórico-geográfica dos seus efeitos
no município de Coimbra”, in Cadernos de Geografia, nº 30/31, 2011/12, FLUC,
Coimbra, pp.53-60;MUIR-WOOD, Robert , The 1941 February 15 th Windstorm in the
Iberica Peninsula, London 2011 (existe versão em espanhol)).
(2)–
Maria Helena Costa Aspra de Matos.
(3)–
Nessa manhã realizou-se o funeral de um jovem torriense, então apenas com 25
anos, José Augusto Estevinha Lopes,
filho do proprietário e notável local José Augusto Lopes Júnior, como se
confirma por notícia de “A Voz do Concelho” de 20 de Fevereiro de 1941.
(4)–
“Diário de Lisboa” de19 de Fevereiro de 1941, pág.7.
(5)–
Actas da Câmara Municipal de 1941, Arquivo Municipal de Torres Vedras.
Agradecemos a colaboração da equipa dessa arquivo na recolha de dados sobre o
tema nessas actas.
(6)– “A
Voz do Concelho”, nº 61, Torres Vedras, 6 de Março de 1941.
(o único filme conhecido sobre o ciclone, mostrando a situação vivida em Santander)
Torres Vedras está a participar numa investigação pioneira, orientada
pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, envolvendo 26 municípios.
O objectivo dessa investigação é fazer um retrato nacional dos impactos das alterações climáticas
a nível local , preparando o país para as alterações climatéricas previstas até
ao final do século.
Um primeiro balanço foi apresentado ao público no final do mês passado.
Torres Vedras está entre o lote de municípios que vai registar um maior
aumento de períodos de chuva no Inverno, mais 12%, o sétimo concelho, dos 26
analisados, onde essa situação será mais extrema.
Quanto ao aumento das situações de seca na primavera, onde, pelo
contrário, se registará um redução da pluviosidade, a situação no concelho
ainda será mais grave, sendo o 4º pior, com uma redução de 49% na chuva.
Quanto ao aumento da temperatura, a situação de Torres Vedras será
menos grave que na maior parte dos restantes concelhos, encontrando-se entre os
menos graves, mas mesmo assim prevê-se, no cenário mais extremo, um aumento de
35% de dias com temperaturas superiores aos 35 graus.
Quanto ao aumento médio da temperatura, a situação é igualmente grave,
com uma previsão do aumento médio da temperatura no concelho em 5 graus.
Reproduzimos em baixo o artigo do Público sobre a primeira apresentação
de resultados desse projecto:
“Retrato climático local prevê ondas de calor três a doze vezes mais
frequente
por RICARDO GARCIA, in Público de 18/10/2015 .
“Os municípios portugueses vão ter de se preparar para um futuro com
ondas de calor que podem ser três a doze vezes mais frequentes do que hoje.
Vários concelhos terão de suportar mais de 50 dias adicionais com temperaturas
acima dos 35oC. A chuva pode diminuir para mais da metade no Verão, mas
aumentar até cerca de 20% no Inverno.
“Estes são cenários que resultam de um primeiro retrato nacional dos
impactos das alterações climáticas a nível local no país, traçado por um
programa pioneiro envolvendo 26 autarquias.
“Nesse conjunto de municípios, meia centena de técnicos estão a ser
formados para elaborar e pôr em prática estratégias locais de adaptação às
alterações climáticas. E adaptar-se será inevitável.
“Cientistas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa olharam
para o futuro de todos estes concelhos, segundo dois cenários de concentrações
de gases com efeito de estufa na atmosfera, um mais moderado e outro mais
extremo. Os resultados serviram de ponto de partida para as autarquias
começarem a pensar no que devem fazer.
“E o que se antecipa não é tranquilizador. No cenário mais moderado,
prevê-se em todos os municípios uma subida da temperatura média anual de um a
dois graus Celsius até 2100. No cenário extremo, os valores aumentam para algo
entre três graus, nos Açores e na Madeira, e seis graus em Évora.
“Onze concelhos poderão ver o termómetro subir em cinco graus: Castelo
de Vide, Castelo Branco, Amarante, São João da Pesqueira, Bragança, Montalegre,
Coruche, Ferreira do Alentejo, Tondela, Barreiro e Torres Vedras. Em Lisboa e
no Porto, os valores vão de um a quatro graus.
“O número de dias muito quentes – com mais de 35oC de temperatura
máxima – vai subir em todos os concelhos. No topo da lista está Castelo Branco,
que terá, em cada ano, mais 37 a 61 deles, conforme o cenário climático. Évora, Coruche e Ferreira do Alentejo poderão
chegar aos 60.
“Nalguns pontos do país onde há poucos dias tão quentes, como Seia e
Montalegre, estes passarão a ser frequentes.
“Haverá mais ondas de calor, e mais longas. No pior cenário, prevê-se
um aumento de pelo menos três vezes na frequência destes episódios, chegando a
seis vezes em Tondela, Amarante, Montalegre e Ílhavo, e mesmo a doze vezes em
Loulé.
“A Primavera promete ser muito menos chuvosa, com uma quebra de 58% na
precipitação em Loulé, 53% em Odemira, 52% no Barreiro e 51% em Lisboa. Em
compensação, estima-se um aumento da chuva no Inverno, que pode chegar aos 19%
em São João da Pesqueira e 16% em Viana do Castelo. Lisboa também está entre os
que mais verá um aumento na precipitação no Inverno (15%), um problema
adicional a uma cidade já vulnerável a cheias em dias de muita chuva.
“Para todos prevê-se o mal dos dois lados da meteorologia: mais
episódios de chuvas rápidas e intensas, porém mais secas e incêndios
florestais. Numa nota mais positiva, poderá cair substancialmente o número de
dias com geada.
“Não foram feitos cenários locais da subida do nível do mar. Apenas há
referência ao que se prevê para o mundo como um todo: um aumento de 26 a 82 centímetros
até 2100.
“Estes cenários climáticos são apenas o ponto de partida para o
planeamento das acções dos municípios envolvidos no projecto ClimAdaPT.Local –
liderado pelo centro de investigação climática CCIAM, da Universidade de
Lisboa. O objectivo do projecto é não só chegar a estratégias de adaptação em
cada um dos concelhos, como garantir que nas câmaras municipais haja técnicos
treinados para elaborar, pôr em prática e monitorizar esses planos.
“As 26 autarquias já fizeram parte do trabalho. Identificaram as suas
vulnerabilidades actuais e também as futuras, com base nos cenários para 2050 e
2100. O passo mais recente foi a identificação de possíveis medidas de
adaptação.
“As mais comuns são as que têm a ver com os recursos hídricos, em
particular as destinadas a prevenir cheias. Aí estão, por exemplo, a construção
de bacias de retenção, para segurar a água de ribeiras em dias de forte chuva,
ou o redimensionamento das redes pluviais.
“Entre as medidas estão também a adopção de culturas agrícolas mais
resistentes à seca, a regeneração de cordões dunares, a criação de sistemas de
alerta local para eventos extremos ou a criação de corredores verdes nas
cidades”.
O Instituto de Meteorologia divulgou hoje a descrição científica daquilo que se passou em Torres Vedras e na região Oeste no passado dia 23:
“Na madrugada do dia 23 de Dezembro de 2009, a região do Oeste de Portugal Continental foi atravessada por uma depressão muito cavada, tendo sido registado um valor mínimo da pressão ao nível médio do mar de 969.4 hPa às 04:20 horas locais na estação do Cabo Carvoeiro.
De acordo com uma análise preliminar, no presente episódio e considerando a rede de estações do IM (cuja distância média entre estações é inferior a 30 km), verificou-se que foi também na mesma estação que se registaram os valores mais elevados da intensidade do vento. Em particular, o vento médio atingiu cerca de 90 km/h às 4:40 e a rajada 140 km/h às 4:50 de dia 23.
O cavamento da depressão, ou seja, a diminuição da pressão no seu centro, foi muito acentuado, em particular no momento da passagem sobre o território. Uma análise preliminar permite estimar um cavamento de cerca de 20 hPa num período de 24 horas, o que à latitude de Portugal Continental permite classificar este evento como um episódio extremo.
As observações efectuadas pelo sistema de radar Doppler de Coruche permitiram identificar e seguir o referido núcleo depressionário, à aproximação e passagem pela referida região. Na animação do produto MAXZ (ver Enciclopédia METEO.PT/Observação Remota/Radar) o núcleo depressionário começa a ser identificado pelas 3:10 UTC ainda sobre o mar, a sudoeste do Cabo Carvoeiro; pelas 4:20 UTC, no seu deslocamento para nordeste, o núcleo da depressão encontra-se já sobre o mesmo cabo, à hora a que foi observado na referida estação o valor mínimo de pressão atmosférica. Ao prosseguir o seu movimento para nordeste, para o interior do território, o núcleo depressionário foi enchendo (aumentando a presão no seu centro) e os ventos associados diminuíndo de intensidade.
O presente episódio é semelhante a outros que ocorreram em Portugal Continental no passado, como são exemplos os temporais de 5 a 6 de Novembro de 1997 no Alentejo e de 6 a 7 de Dezembro de 2000 no litoral Norte e Centro.
É importante clarificar que este fenómeno não se enquadra na classe de ciclones tropicais, cuja natureza é distinta da do fenómeno actual. Por exemplo, é de notar, que um ciclone tropical de categoria 1 apresenta vento médio superior a cerca de 120 km/h, valor que não foi registado em nenhuma das estações da rede do IM.”