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sexta-feira, 27 de junho de 2014

A propósito do início de mais uma edição da Feira de S. Pedro: recordando a feira de S. Pedro em 1963:


Adquiri recentemente num alfarrabista um folheto editado por ocasião da realização da Feira de S. Pedro de 1963.

Para além de um excelente texto de apresentação, não assinado, mas bastante crítico sobre o tempo de então,  que penso ser da autoria de António Augusto Sales, e que transcrevemos em baixo, são 46 páginas preenchidas com vários anúncios publicitários que nos permitem reconstituir a vida económica, industrial e comercial de Torres Vedras na década de 60 do século passado, para além de outros dados e referências estatísticas e culturais feitas com o objectivo de informar  os visitantes que aquela Feira já então recebia de muitos lugares vizinhos.

A publicação foi editada por António Augusto Sales e Tancredo Costa, impresso na Gráfica Torriana, com uma tiragem de 2 mil exemplares e de distribuição gratuita.

Os mesmos justificavam a sua edição nos seguintes termos: “Dentro da pobreza de meios, impeditiva de plano mais ambicioso, procurou-se dar ao opúsculo um cuidado equilíbrio gráfico, desde o texto à própria concepção da publicidade. (…) se entretanto, este trabalho puder contribuir de algum modo para a melhoria da Feira de S. Pedro e incitar, o espírito de quem dirige, à iniciativa de a reformar, actualizando-a e engrandecendo-a, nós ficaremos duplamente felizes, como editores e como torreenses”.

Aqui fica uma breve recordação da feira de S. Pedro de outros tempos, agora que teve lugar a abertura da edição de 2014 desse evento que continua a marcar a vida torriense e da região.

“A FEIRA DE S. PEDRO

“A feira é um acto popular. A feira de S. Pedro, em Torres Vedras, é a marca de ama tradição abrangendo uma área enorme da Estremadura.

“A feira é negócio e diversão, uma fórmula de fundir a aldeia e a vila num ambiente ruidoso e colorido.

“Para muitos, o dia da feira é o sonho guardado em todo o ano. Sonho de um negocio bem feito, duma experiência diferente nas suas existências iguais, duma oportunidade de estrear fato novo e de levar toda a família em passeio. A feira é uma paragem nas dores da vida.

“Tal como o visitante, cada terra guarda dentro do peito um certo amor pela sua feira pois não se trata de um acontecimento vulgar mas de um acto vivo e pleno na estrutura económico-social da região. E, em cada ano, a feira renova-se numa marcha progressiva de acompanhamento do seu tempo e das exigências do povo.

“Assim acontece em muitos lados, e seria ocioso enumerar alguns por sobejamente conhecidos, onde a par do carrocel e da quinquilharia se oferecem aos visitantes amplos «stands» com as mais modernas máquinas e alfaias agrícolas.

“Mas o que de mais curioso podemos encontrar, mesmo nos centros modestos, é um elevado sentido de exposição, alindamento e limpeza por toda a área da feira.

“Torres Vedras, que se deseja como verdadeiro e importante epicentro do oeste estremenho, não tem pela sua feira o requinte de carinho que lhe deveria dedicar. Não tem a perspectiva de a alindar agradecendo assim, ao visitante, a honra da sua presença. A feira chega..., a feira parte..., ano após ano, sempre igual, sempre descuidada, sem vida, sem alma, sem atractivos.

“Consideremos, mais uma vez, que será urgente acertar o passo pelos nossos vizinhos já que não vamos a tempo de os obrigar a acertar o deles pelo nosso. Não falemos, por enquanto, em festas extra, que bem se poderiam aproveitar neste período, mas foquemos apenas o essencial: esquema funcional de disposição de barracas e diversões; alindamento do recinto e conveniente limpeza; terraplenagem do piso; factores de estímulo para a exposição de carácter industrial.

“Para já não seria mau pôr-se em prática, alguma vez, tais aspectos. Olhar o ano seguinte com a esperança de que os poderes transformem os anseios que anualmente se escutam, em fórmulas concretas de renovação”.

Texto de apresentação do folheto dedicado à Feira de S. Pedro de 1963, da autoria de António Augusto Sales.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Homenageando o Projecto "Livro do Dia"...ou um contributo para a história das livrarias torrienses...


No final do passado mês de Março, 6ª feira 28, encerrou definitivamente um dos projectos livreiros mais originais deste concelho, o “Livro do Dia”.

Nascido em 2005, o projecto “Livro do Dia” começou por abrir num pequeno espaço do cruzamento entre o final da rua Henriques Nogueira e a Avenida Humberto Delgado, para adquirir em 2007 o espaço mais central, junto à Igreja de Santiago, antiga “Praça da batata”, praça Machado dos Santos, da antiga livraria Index.

A Livro do dia realizou várias actividades culturais no seu espaço, com uma pequena cafetaria, distinguindo-se igualmente pela actividade editorial.

A “Livro do Dia” tornou-se uma livraria de referência na região, nomeadamente nas áreas da literatura e da poesia.

Infelizmente acabou por ser mais uma das vitimas da actual crise financeira, que muito tem atingido o comércio local, nomeadamente aquele que se dedica ao livro.

Ficam a restar a velha “Gráfica Torriana”, na rua 9 de Abril, que sobrevive mais da sua ligação à Igreja e aos materiais do culto do que da venda de livros, e a “União”, com sete lojas espalhadas pela cidade, mas que sobrevive principalmente como papelaria e tabacaria.

Sobra a loja mais recente, a secção local da Livraria Bertrand, no Centro Comercial Arena.

Com o encerramento do Livro do Dia, a cultura torriense fica mais pobre e o centro histórico ainda mais desertificado.






Em homenagem a este projecto e aos seus responsáveis, recuperamos aqui um pequeno estudo de divulgação, da nossa autoria, sobre as livrarias históricas de Torres Vedras, trabalhado publicado num suplemento que nós dirigimos, com o grafismo do Aurelindo Ceia, coordenado pela Cooperativa de Comunicação e Cultura, que fazia parte do jornal Badaladas, e que conheceu quatro edições entre 1993 e 1994.

Um desses Suplementos, o nº4, integrado na edição nº 1990 do jornal “Badaladas”, de Fevereiro de 1994, com o título genérico “Recordações da Casa dos Livros”, foi dedicado  à história das livrarias torrienses .

Para além da minha síntese histórica, abaixo transcrita, escreveram nessa edição Ana Mourão, prefaciando o tema, Maria Helena Aspra de Matos, Cristina Lopes e Maria Hermínia Guilherme, familiares dos donos de algumas das livrarias históricas (respectivamente da Papelaria Escolar de António Ferreira Aspra, Galeria 70 de António Pedro Lopes, e  Papelaria 9 de Abril, de Raul Guilherme), descrevend de memória as suas vivências nesses espaços.

Para nós, esta é uma pequena forma de homenagear mais um projecto cultural que morre em Torres Vedras.

Tintas e Papéis

Por Venerando Aspra de Matos

Pertenço a uma família que há várias gerações se encontra, de algum modo, ligada aos papéis e às tintas: trisavô e bisavô tipógrafos, avô livreiro e pai ligado à arte da escrita. Esta circunstância despertou a minha curiosidade para a procura de dados sobre as antigas livrarias de Torres Vedras.

A história dos livreiros torrienses anda associada à história das tipografias desta cidade, isto porque as mais antigas livrarias eram também tipografias.

Desconhece-se a data exacta da fundação da primeira tipografia em Torres Vedras. Júlio Vieira (1) dá-nos a mais antiga referência conhecida, a “Torreense", de Manoel do Nascimento Aspra, existente em 1887, que , teria surgido para apoiar o jornal “Voz de Torres Vedras”, editado pela primeira vez a 5 de Fevereiro desse ano. Os Anuários Comerciais editados na época (2) confirmam Manoel do Nascimento Aspra como o mais antigo responsável por uma tipografia neste concelho.

As primeiras tipografias surgiram e desenvolveram-se nesta terra, quase sempre ligadas à imprensa local. Curiosamente, o primeiro periódico torriense, o “JORNAL DE TORRES VEDRAS” fundado em 1885, não indica o local de impressão, situação igualmente confirmada na obra citada de Júlio Vieira. Provavelmente terá sido editado fora de Torres Vedras.

As primeiras tipografias locais não se dedicavam, contudo, exclusivamente à edição de jornais. Editavam, também, folhetos, relatórios, e estatutos de várias associações instituições locais. Já a edição de livros era rara.

O jornal “A Semana” anunciava em 14 de Maio de 1895 uma nova edição, a terceira, da “Descripção histórica e económica da Villa e termo de Torres Vedras”, de Manoel Agostinho Madeira Torres, obra a editar por “Cabral & Irmão", e informava sobre as condições de assinatura para aquisição dessa obra, a tratar na “Tabacaria Havaneza Torreense’’. Pelo que sabemos, aquela obra nunca conheceu a anunciada terceira edição, a não ser a que saiu há pouco mais de dez anos, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras.

O primeiro livro comprovadamente editado em Torres Vedras foi a obra de Júlio Vieira, “Torres Vedras Antiga ê Moderna”, editada em 1926 pela Livraria da Sociedade Progresso Industrial - Victor Fonseca & Almeida, Limitada”.

No Arquivo Municipal (3), a primeira tipografia registada que encontrámos foi a de António Augusto Cabral, em 17 de Fevereiro de 1900, como “tipografia com venda de papel”, e “papelaria” a partir do ano seguinte. Com base noutros documentos, nomeadamente fotografias antigas e anúncios publicitários publicados na imprensa local, podemos afirmar, com alguma segurança, que a “Typografia e Papelaria Cabral” foi o primeiro estabelecimento a funcionar como livraria em Torres Vedras, a partir de 1893, data exacta da fundação dessa loja.

Com base na bibliografia citada, em anúncio de jornais, na indicação dois editores de vários folhetos (4), em folhas de recibo e mesmo em recolha oral, foi-nos possível elaborar o Quadro I, evidentemente incompleto, mas que pode servir como esboço de um primeiro registo histórico da actividade tipográfica e livreira em Torres Vedras. Limitámos esse quadro ao período anterior ao 25 de Abril. A História mais recente, bem como o importante papel desempenhado peias livrarias de Torres Vedras, será abordado em futuro Suplemento.

Venerando Aspra de Matos



(1) VIEIRA, Júlio. Torres Vedras, Antiga e Moderna, T. Vedras, 1926.
(2)ANNUÁRIO DO COMÉRCIO - PROVÍNCIA, 1891 ANNUÁRIO - ALMANACH COMERCIAL E INDUSTRIAL PARA... 1893,1895, 1896.
(3)“REGISTO DE LICENÇAS DE ESTABELECIMENTOS CONCEDIDAS PELA CÂMARA” (VÁRIOS VOLUMES), Arquivo Municipal deT.V.
(4)ALMANACH DA “FOLHA DE TORRES VEDRAS" PARA-1904,1906            
   —
- ANNUÁRIO DA REGIÁO DE TORRES VEDRAS. 1907

- “A União”, nº único 1968