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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A segunda Fundação da Escola Secundária Municipal (1919) – Breves apontamentos




(versão integral do texto que já tinha sido apresentado neste espaço, mas de forma resumida)

Depois de termos evocado, em crónica anterior, a primeira Escola Secundária a funcionar em Torres Vedras, entre 1890 e 1903, aqui recordamos agora a segunda fundação da escola de ensino secundário torriense, inaugurada em 3 de Novembro de 1919.

Não pretendemos fazer a história desta escola que esteve na origem da actual Escola Madeira Torres, mas apenas coligir alguns breves apontamentos que possam servir de ponto de partida para quem pretenda fazer a História desse estabelecimento de ensino.

Em 1918 Victor Cesário da Fonseca, que tinha frequentado a escola encerrada em 1903, republicano activo, e que sempre responsabilizou os monárquicos locais pela decisão daquele encerramento (1), iniciou uma campanha, nas páginas do jornal “Ecos de Torres” em defesa de se retomar o funcionamento de uma Escola Secundária, a partir de um artigo não assinado na edição de 28 de Janeiro desse semanário.

Em sessão camarária  de Abril de 1919 o vereador José Anjos da Fonseca  propôs o lançamento de um imposto de 5% sobre as contribuições pagas pelas freguesias do concelho, para apoiar a abertura da Escola Secundária, proposta aprovada apenas pela diferença de um voto (2) , constituindo-se uma comissão instaladora que levou o projecto a bom termo.

Dessa comissão fizeram parte Afonso Pedreira Vilela, João Fernandes Caldeira, Victor Cesário da Fonseca, Joaquim Rodrigues Cardoso e António Germano Marques de Carvalho.

A nova Escola Secundária foi inaugurada em 3 de Novembro de 1919, uma segunda-feira, provisoriamente num edifico da Travessa da Olaria, mudando-se em definitivo para o edifício localizado na Avenida 5 de Outubro, onde funcionam actualmente os serviços camarários, em 1921, edifício que então tinha apenas um andar.

Foi nomeado como seu primeiro director o professor Augusto do Nascimento Gonçalves, até então director do Instituto Politécnico de Torres Vedras (3), escola que tinha sido inaugurada em de Outubro de 1911, e onde se ministravam a “instrucção primária, secundária e commercial” e que admitia “alumnos de ambos os sexos como internos, semi-internos e externos”, leccionando também “piano e lavores”, funcionando na Rua Barreto Bastos, nº 3, 1º Direito (4) .

O jornal “A Vinha de Torres Vedras”  referia-se nos seguintes termos àquela inauguração:
“Como amigos da instrução e partidários da fundação deste útil estabelecimento de ensino, não podemos deixar de nos congratular com este acontecimento, por todos os títulos importante e cuja falta há muito se fazia sentir nesta villa.

“Ao acto da inauguração da nova escola presidiu o sr. António Cabral, presidente da Camara e assistiram a vereação e muitas pessoas” (5).

Até 1923 os alunos não pagavam propinas.

No primeiro ano lectivo, o de 1919/1920, inscreveram-se 56 alunos, 26 no 1º ano, 12 no 2º ano, 6 no terceiro, 4 no 4º ano e 8 no 5º ano, entre eles algumas alunas, 15 no 1º ano, 2 no 3º ano e uma no 5º ano.

Entre os inscritos encontramos nomes que vieram a ser figuras proeminentes na vida cultural, social, económica e política de Torres Vedras : Alberto Vieira Jerónimo e  Galileu Silva, inscritos no 1º ano; Amílcar Guerreiro, Hélder dos Santos Torres, Inácio do Nascimento Clemente, José Hipólito e Manuel Duarte Capote, no 2º ano e Leonel Trindade no 5º ano (6).
(Alunos e professores da Escola Secundária, nos anos de 1940 - Arquivo de Maria Helena Aspra de Matos)


No primeiro livro de matriculas onde se regista a profissão dos encarregados de educação, o referente ao ano lectivo de 1942/1943, não deixa de ser significativo registar o domínio de filhos de funcionários públicos e comerciantes.

Entre um total de 164 alunos inscritos em todos os níveis de ensino nesse ano, 52 eram filhos de gente ligada ao comércio (45 comerciantes, 6 empregados de comércio, e um ajudante de farmácia) , 40 estavam ligados ao funcionalismo público (10 funcionários públicos, 8 conservadores, 5 professores, 4 empregados da CP, 3 funcionários municipais,  2 funcionários dos CTT, 2 ajudantes de notário, 2 oficiais do exército, 1 funcionário colonial, 1 funcionário público aposentado, 1 notário e 1 solicitador) seguindo-se os filhos de “proprietários” (21).

Refira-se ainda o número de pais com formação média e superior:   9 médico, 4 advogados, 3 enfermeiros, 2 engenheiros e 2 empregados bancários (sem contar com os 5 professores e outros profissionais acima incluídos no funcionalismo público). Refiram-se ainda os filhos de “industrias” (em número de 8).

Em contrapartida, apenas encontramos 3 filhos de operários e 1 de agricultor.

Não espanta que a maioria dos alunos residisse na vila, 133 dos inscritos. Runa é a freguesia fora da vila que sobressai, com 7 alunos inscritos, situação que não será estranha à proximidade permitida pelo caminho-de-ferro.

Nas décadas de 1960/70 a Escola atraia alunos de muitos concelhos vizinhos, nomeadamente do sobral de Monte Agraço, sendo uma escola “com forte poder de atracção” devido à sua “posição bastante central em relação à sua área de influência”, e bem servida de transportes, começando a colocar-se um problema de crescimento (7).

No ano lectivo de 1968/1969 começou a funcionar o chamado ciclo preparatório, provocando uma ligeira redução no número de alunos inscritos na Escola Secundária. Dos 334 inscritos em 1967/68 passou para 318 no ano seguinte.

A barreira das 3 centenas de alunos inscritos na Escola Secundária tinha sido ultrapassada, pela primeira vez, no ano lectivo de 1964/1965, com 310 inscritos (8).

Por despacho de dezembro de 1969, e após intensa campanha iniciada nesse ano nas páginas do “Badaladas”, por ocasião do cinquentenário, a Escola Secundária, tornou-se secção do Liceu Nacional D. Pedro V, deixando de ser o município a suportar financeiramente essa escola, o que permitiu uma redução das propinas pagas pelos alunos (9).

Oficialmente o Reitor da escola torriense era o reitor do Liceu D.Pedro V, o Dr. Estevão Ferreira Moreira, passando o director da antiga secundária, o Dr. João Carlos da Cunha, a ser designado por “vice-reitor” (10).

Contava nessa data com 19 professores e cerca de 400 alunos.

Em 12 de Outubro de 1971 o Conselho de Ministros aprovou um decreto ( Decreto 447 de 25 de Outubro) que criou 21 liceus nacionais, entre os quais o de Torres Vedras, passando a escola secundária, então com 540 alunos incritos, a denominar-se, a partir do ano lectivo de 1972/73, Liceu Nacional de Torres Vedras, abrindo uma secção na Lourinhã, sendo nomeado como reitor o Dr. Joaquim Semedo Toco e tendo sessão inaugural em 2 de Outubro de 1972 (11).

Sobre este tema, registamos aqui uma recolha oral que fizemos junto do sr. Adão de Carvalho, em Abril de 1990, onde ele nos contou que, em meados de 1971, o sr. Fernando Leal se deslocou ao Ministério do Interior para que o ministro exigisse, junto do Ministro da Educação, José Hermano Saraiva,  a passagem da Escola Secundária a Liceu.

Uma das condições que Fernando Leal tinha posto para aderir à União Nacional tinha sido a de que a escola secundária fosse elevada a Liceu.

Como, nesse encontro, o Ministro referiu que Torres Vedras já tinha sido beneficiada em demasia, Fernando Leal ameaçou demitir-se a ele, a toda a direcção regional da União Nacional.

Quando vinha a sair desanimado do encontro, encontrou Marcelo Caetano, que regressou com ele ao ministério e pressionou a passagem da escola a Liceu Nacional.

Foi assim, no início da década de 70 do século passado, que  o “liceu” deixou de ser a escola elitista que tinha sido, para se “democratizar” e abrir à população que até aí tinha como única saída para os seus filhos o ensino técnico ou comercial, muito também devido à chamada reforma Veiga Simão, situação que levou a um grande aumento do número de alunos a frequentá-la.

No ano lectivo de 1971/1972 era frequentada por cerca de 540 alunos. No ano lectivo de 1973/1974 já a frequentavam mais de 800 alunos, ultrapassando o número de mil alunos nos anos seguintes.

Já em 1971 o jornal “Badaladas” referia que se impunha “com a maior urgência, a construção dum novo edifício para o Liceu”, propondo que ficasse para “a Escola Preparatória todo o imóvel municipal da Avenida 5 de Outubro”.

É em 1975 que o assunto voltou a merecer atenção, num artigo publicado por António Leal d’Ascensão intitulado “Liceu de Torres Vedras –Torres Vedras precisa e merece um Liceu Novo” (12).

Em sessão de 9 de Fevereiro de 1977 iniciou-se o debate sobre a criação das novas instalações para o Liceu, então designado por Escola Secundária nº 2, e para a Escola Preparatória, processo que vai ser liderado pela vereadora Ana Maria Bastos, coadjuvda pelo vereador António Leal d’Ascensão, durante o primeiro mandato de Alberto Avelino como presidente da Câmara (13).

O processo vai-se arrastar pelos anos seguintes e, em Março de 1978, a Direcção Geral das Construções Escolares informa a Câmara da previsão do concurso para esse ano e o início das obras para o final do ano ou início de 1979 (14).

Embora se defendesse uma maior participação dos pais no destino da escola, logo na sessão solene da criação do Liceu de Torres Vedras, só depois do 25 de Abril é que foi eleita a primeira comissão de pais, em 11 de Dezembro de 1974, tendo como primeiro presidente da direcção a Drª Maria Aldina Rebelo (15), altura em que surgiu igualmente a primeira associação de estudantes.

Em 2 de Abril de 1987,o Liceu passou a designar-se Escola Secundária Madeira Torres, três anos depois de ter mudado para novas instalações, no ano lectivo de 1983/1984, aquelas onde ainda hoje funciona (16).

Aqui ficam algumas notas de uma História por fazer, de uma escola centenária que ainda tem muito por contar.

  1. (1)    – leia-se  FONSECA, Victor Cesário da ,  Retalhos Para a História de Torres Vedras, ed. Associação da Defesa do Património de Torres Vedras, 1979;
  2. (2)    –PEREIRA, Dr. Paulino, “Porque se espera para planear a comemoração do cinquentenário da Escola Secundária ?”, in Badaladas, de 26 de Abril de 1969;
  3. (3)    – in “Folha de Torres Vedras”, edições de 13 de Agosto , 10 de Setembro e 15 de Outubro de 1911;
  4. (4)    Sob a designação de “Fragmentos”, “Cinquentenário da Escola Secundária Municipal! e “Recordar é viver” publicaram-se no jornal “Badaladas”, ao longo do ano de 1969, vários documentos relativos aos primeiros anos do funcionamento da escola secundária, artigos não assinados mas que foram escritos pelo Dr. João Carlos Cunha, autoria que ele me revelou. Chama-se a atenção para os dados publicados nas edições de 14 de Junho, 5 de Julho, 2 de Agosto e 1 de Novembro de 1969 do jornal “Badaladas”; Leia-se igualmente “A História da E.S.M. E A Homenagem Aos Municípios e Fundadores”, da autoria do então Conta-almirante Lino Paulino Pereira, comunicação lida por ocasião da sessão solene comemorativa do cinquentenário da escola municipal, realizadas em Junho de 1970 e transcrita integralmente na reportagem, da autoria de Francisco Vieira Jerónimo, publicada na edição de 20 de Junho de 1970 do jornal “Badaladas”;  
  5. (5)    – in “A Vinha de Torres Vedras” de 8 de Novembro de 1919;
  6. (6)    – Livros de Matriculas da Escola Secundária existentes no Arquivo Municipal de Torres Vedras.
  7. (7)    – in SALGUEIRO, Teresa Barata, “Documentos para o Ensino – A Área de Influência da Escola Secundária de Torres Vedras”, separata de Finisterra, Vol.VI - 12, Lx, 1971, pp. 302 a 307;
  8. (8)    – in Arquivo Municipal de Torres Vedras, Elementos de Estudo do Presidente da Câmara, Frequência da Escola Secundária Municipal de Torres Vedras, 7 de Maio de 1969;
  9. (9)    – in “Badaladas”  de 10 de Janeiro de 1970;
  10. (10)                       – in “Badaladas” de 28 de Março de 1970;
  11. (11)                       - in “Badaladas” de 16 de Outubro de 1971, 30 de Setembro e  7 de Outubro de 1972;
  12. (12)                       – in “Badaladas” de 22 de Março de 1975;
  13. (13)                       – in “Badaladas” de 24 de Fevereiro de 1977;
  14. (14)                       – in “Badaladas” de 16 de Março de 1978;
  15. (15)                       – in “Badaladas” de 28 de Dezembro de 1974;
  16. (16)                       – sobre o patrono e o processo de escolha do nome, leia-se a publicação, de autoria colectiva, “O Patrono da Escola Secundária Madeira Torres, Manoel Agostinho Madeira Torres”, editada em Fevereiro de 2006 conjuntamente pela escola e pela Câmara Municipal.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Da primeira Escola Secundária de Torres Vedras, inaugurada em 1890, à actual Escola Secundária, hoje Madeira Torres, inaugurada em 3 de Novembro de 1919.



1 - Breve história da primeira Escola do Ensino Secundário em Torres Vedras.

Local onde funcionou a primeira Escola Secundária de T.Vedras (1890 a 1903)

Foi em 1880 que se publicou uma reforma de ensino, da autoria de José Luciano de Castro, na qual era referida a criação de “escolas municipais secundárias”. Até então o ensino secundário era ministrado apenas nas capitais de distrito.

A partir de então passaram a existir três tipos de escolas desse tipo, “liceus nacionais centrais”, “liceus nacionais” e “escolas municipais secundárias”.

Os “Liceus nacionais centrais” estavam sediados em Lisboa, Porto e Coimbra e eram os únicos onde se leccionava  o curso complementar de seis anos ( quatro de curso geral, com oito disciplinas, duas por ano, e dois anos de curso complementar, com cinco disciplinas anuais). Os “liceus nacionais” estavam sedeados nas restantes capitais de distrito. Apenas leccionando  os quatro anos do curso geral. As “escolas municipais secundárias” leccionavam apenas os dois primeiros anos do Curso Geral (1).

Na sequência dessa reforma, a Câmara Municipal de Torres Vedras pediu autorização para criara um escola de ensino secundário, requerimento concedido por portaria de 6 de Fevereiro de 1890, nos seguintes termos:

“Attendendo ao que me representou a Câmara Municipal da villa de Torres Vedras, pedindo a creação de uma escola municipal secundária na sede do conselho, na qual se ensinem as línguas portuguesa, franceza e inglesa, geographia e desenho, regidas por dois professores, cada um como ordenado annual de 400$000 réis.
“Considerando que a câmara requerente se obriga a contribuir com 600$000 réis para os ordenados dos professores, além de 300$000 réis para acquisição de mobília e objectos de ensino, 50$000 réis para gratificação do professor que exercer as funções de director, e mais 90$000 réis para vencimento do porteiro da escola, perfazendo a quantia de 1.040$000 réis em cada ano.
“Considerando que a mesma Câmara offerece, para estabelecimento e exercício da mesma escola um edifício adequado ao fim que se destina e a mobília e utensílios necessários;
“(…) Hei por bem decretar o seguinte:
“1ª É creada na villa de Torres Vedras uma escola municipal secundária, nos termos requeridos pela câmara municipal da mesma villa.
“2ª O provimento dos lugares de professor será feito pelo Governo.
“3º As alunos que pretendem frequentar a escola pagarão, em cada anno, de propina de matricula e exame, a quantia de 2$500 réis.
“O presidente do conselho de ministros, ministro e secretário de estado de negócios do reino, assim o tenha entendido e faça executar. Paço de Belém, em 6 de Fevereiro de 1890 – Rei – António de Serpa Pimentel” (2).

Criada a escola, os preparativos para o lançamento do primeiro ano lectivo levaram ainda vários meses, quer pela necessidade de contactar professores, quer para preparar as instalações.

A escola ficou instalada nos paços do concelho “na sala onde estava o tribunal, no andar nobre dos paços do concelho, passando as sessões judiciaes a celebrar-se no seu novo aposento do edifício da Graça (…)” (3).

Por portaria de 30 de Junho de 1890 eram finalmente nomeados os dois professores para leccionar na escola: João José Esteves, nomeado director e professor nas disciplinas de língua portuguesa, geografia e desenho, e Jerónymo Martins Pamplona Corte Real, professor de língua francesa e inglesa.

As matriculas estiveram abertas aos jovens torrienses entre 20 de Setembro e 4 de Outubro de 1890.

Ainda segundo os dados do jornal “A Semana”, os alunos matriculados distribuíram-se do seguinte modo:

Português – 14 alunos;
Francês – 13 alunos;
Desenho – 10 alunos;
Geografia – 1 aluno;
Inglês – nenhum.

A sessão de abertura decorreu em 9 de Outubro de 1890 e as aulas começaram no dia seguinte.

Em finais de Janeiro de 1891 a Câmara Municipal aprovou por unanimidade um pedido ao governo para transformar a escola secundária em liceu. Contudo, o pedido não foi atendido, pois, quando do seu encerramento em 1903, continuavam a leccionar apenas dois professores, o doutor Silvino Simões, sacerdote formado em letras que tinha substituído o primeiro director, e o professor Pamplona Corte Real que se mantinha no seu posto desde a fundação da escola.

À data do encerramento desta primeira tentativa de estabelecer uma Escola Secundária em Torres Vedras, a escola era frequentada pelos seguintes alunos: Carlos Manuel das Neves Barateiro, Francisco Teixeira, Henrique Maria Pedreira Vilela, José Maria Fialho de Carvalho, Leandro Teófilo da Cunha, Afonso Avelino Pedreira Vilela, Alberto Gomes Pedreira, António Casimiro Roque, Asdrúbal José Rodrigues da Silva, César António Maximino de Sant’Ana, António do Patrocínio Martins, João Rodrigues, Joaquim Ferreira da Encarnação, Joaquim Augusto Santos, Virgílio da Conceição Costa, António Manuel Freira Nunes, Absinto Ramires Ferreira Nobre, António dos Santos Vaquinhas, Francisco José Cláudio júnior, Francisco Maria Fialho de Carvalho, Joaquim José Paiva, José Augusto Guimarães Pinheiro, José Augusto de Almeida Trigueiros, José Henriques dos Santos, Joaquim António Rodrigues, Raúl Avelino Cardoso, Sabino Galrão, Victor Cesário da Fonseca, José Manuel da Fonseca, Guilherme Elias das Chagas, José Joaquim Pinto Monteiro, José Tito dos Santos (4).

Quais as razões que levaram os vereadores da câmara de Torres Vedras a pedir, em 1903, a extinção desta primeira escola secundária do concelho? A mesma pergunta foi feita pelo professor José Carvalho Mesquita, numa palestra proferida na sessão solene comemorativa da abertura das aulas da escola comercial António Augusto Cabral em 13 de Novembro de 1944:

“Alegava-se que a escola tinha fraca frequência. Não era bastante o argumento. O que a câmara devia fazer era procurar aumentar o número dos seus alunos. Sempre o mesmo critério estreito da pretensa economia. É preciso atender, sempre, a que a seara do ensino é, de todas, a mais ingrata. Atira-se a semente à terra e só anos volvidos, consumidas as energias dos semeadores é que a semente germina e acaba por frutificar” (5).

Mais incisiva foi a explicação dada por Victor Cesário da Fonseca, uma das vítimas daquela polémica decisão. Para ele, tal atitude ficou a dever-se à “influência Vesga e retrograda dos políticos de então”, e recordava mesmo “um diálogo conversado entre dois “luminares” torreenses que, na vida política da terra, desempenhavam então lugares importantes (um era o presidente da câmara, outro o chefe político progressista).

“Conversavam os dois à porta da Farmácia Cézar Simões, e este diálogo foi ouvido por quem no-lo contou. Dizia um  : “NADA, NADA! É PRECISO ACABAR COM A ESCOLA ( a que fecharam em 1903) SE NÃO ELES DAQUI A POUCO SABEM MAIS DO QUE NÓS” . A que o outro respondeu: “E NÓS PARA GANHAR ALGUM VINTÉM NÃO PRECISAMOS DA ESCOLA”. Pudera, eram burros, egoístas e ignorantes (…)” (6).

E foi assim a curta história da primeira escola secundária de Torres Vedras.

Apesar de todas as contrariedade desses primeiros tempos, a semente ficou e, após o advento da República, voltou-se a relançar o ensino secundário no concelho, inaugurando-se em definitivo uma escola municipal secundária em 1919, há cem anos.

Esta foi oficialmente inaugurada em 3 de Novembro de 1919, funcionando na Travessa da Olaria, da qual é herdeira a actual Escola Secundária Madeira Torres.

Mas esta é outra história que ainda está por contar.

Deixamos aqui alguns apontamentos para a construção desta história:

2 - A segunda Fundação da Escola Secundária Municipal – Breves apontamentos.
(ao fundo à esquerda, edifício onde funcionou, entre 1921 e 1984,  a 2ª Escola Secundária de T.Vedras, inaugurada em 1919)


Em 1918 Victor Cesário da Fonseca, que tinha frequentado a escola encerrada em 1903, republicano activo, e que sempre responsabilizou os monárquicos locais pela decisão daquele encerramento, iniciou uma campanha, nas páginas do jornal “Ecos de Torres” em defesa de se retomar o funcionamento de uma Escola Secundária.

Em sessão camarária  de Abril de 1919 o vereador José Anjos da Fonseca  propôs o lançamento de um imposto de 5% sobre as contribuições pagas pelas freguesias do concelho, proposta aprovada apenas pela diferença de um voto (7) , constituindo-se uma comissão instaladora que levou o projecto a bom termo.

Dessa comissão fizeram parte Afonso Pedreira Vilela, João Fernandes Caldeira, Victor Cesário da Fonseca, Joaquim Rodrigues Cardoso e António Germano Marques de Carvalho.

A nova Escola Secundária foi inaugurada em 3 de Novembro de 1919, provisoriamente num edifico da Travessa da Olaria, mudando-se em definitivo para o edifício localizado na Avenida 5 de Outubro, onde funcionam actualmente os serviços camarários, em 1921, edifício que então tinha apenas um andar.

Foi nomeado como seu primeiro director o professor Augusto do Nascimento Gonçalves, até então director do Instituto Politécnico de Torres Vedras.

Até 1923 os alunos não pagavam propinas.

No primeiro ano lectivo, o de 1919/1920, inscreveram-se 56 alunos, 26 no 1º ano, 12 no 2º ano, 6 no terceiro, 4 no 4º ano e 8 no 5º ano, entre eles algumas alunas, 15 no 1º ano, 2 no 3º ano e uma no 5º ano.

Entre os inscritos encontramos nomes que vieram a ser figuras proeminentes na vida cultural, social, económica e política de Torres Vedras : Alberto Vieira Jerónimo ou Galileu Silva, inscritos no 1º ano; Amílcar Guerreiro, Hélder dos Santos Torres, Inácio do Nascimento Clemente, José Hipólito e Manuel Duarte Capote, no 2º ano ou Leonel Trindade no 5º ano (9).

Em 1970, por ocasião do cinquentenário, e após intensa campanha iniciada no ano anterior nas páginas do jornal “Badaladas”, a Escola Secundária, tornou-se secção do Liceu Nacional D. Pedro V, deixando de ser o município a suportar financeiramente essa escola, o que permitiu uma redução das propinas pagas pelos alunos.

Contava nessa data com 19 professores e cerca de 400 alunos.

Em 12 de Outubro de 1971 o Conselho de Ministros aprovou um decreto que criou 21 liceus nacionais, entre os quais o de Torres Vedras, passando a escola secundária a denominar-se desde 1972 Liceu Nacional de Torres Vedras, abrindo uma secção na Lourinhã (8).

 Foi assim, no início da década de 70 do século passado, que  o “liceu” deixou de ser a escola elitista que tinha sido, para se “democratizar” e abrir à população que até aí tinha como única saída para os seus filhos o ensino técnico ou comercial, muito também devido à chamada reforma Veiga Simão, situação que levou a um grande aumento do número de alunos a frequentá-la.

No ano lectivo de 1971/1972 era frequentada por cerca de 54º alunos. No ano lectivo de 1973/1974 já a frequentavam mais de 800 alunos, ultrapassando o número de mil alunos nos anos seguintes.

Depois do 25 de Abril de 1974, passou a designar-se Escola Secundária nº2 e , em 2 de Abril de 1987, passou a designar-se Escola Secundária Madeira Torres, três anos depois de ter mudado para novas instalações, aquelas onde ainda hoje funciona,  a sul do Hospital.

(NOTA: A primeira parte deste texto teve origem num conjunto de trabalhos da minha autoria, editados nas páginas do  Badaladas em 1990, com o objectivo de historiar a origem da Escola Secundária Henriques Nogueira. Neste caso baseá-mo-nos no texto “O Nascimento do Ensino Secundário em Torres Vedras”, publicado por nós neste semanário em 30 de Março de 1990. Em 1997 foi publicado um estudo mais elaborado, melhor documentado e mais completo da autoria  da Drª Cecília Travanca, nas páginas do nº 6 da revista “Torres Cultural” (pp.48 a 55), intitulado “Primórdios do Ensino Secundário em Torres Vedras”).

(1)    – CARVALHO, Rómulo de, História do Ensino em Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986;
(2)    – A Semana, nº 155, 13 de Fevereiro de 1890;
(3)    – A Semana, nº 164, 17 de Abril de 1890;
(4)     [CUNHA, Dr. João Carlos],“Cinquentenário da Escola Secundária Municipal – Recordar é viver”, in Badaladas nº 706 de 5 de Julho de 1969;
(5)    – MESQUITA, José Carvalho, História do Ensino Secundário em Torres Vedras, 1969;
(6)    – FONSECA, Victor Cesário da . Retalhos Para a História de Torres Vedras, ed. Associação da Defesa do Património de Torres Vedras, 1979;
(7)    – PEREIRA, Dr. Paulino, “Porque se espera para planear a comemoração do cinquentenário da Escola Secundária ?”, in Badaladas, de 26 de Abril de 1969;
(8)    – in “Badaladas” de 16 de Outubro de 1971;
(9)    – Livros de Matriculas da Escola Secundária existentes no Arquivo Municipal de Torres Vedras.