VEDROGRAFIAS
Torres Vedras e a História (breves apontamentos, esboços, documentos, efemérides, estudos, fotografias, notícias...)
segunda-feira, 25 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
"Torreense" no Final da Taça em 1956 - 70 anos depois, a história repete-se
O “Torrense” volta a estar no final da Taça de Portugal, exactamente 70 anos depois da sua primeira participação numa final dessa prova.
Essa foi a época áurea da equipa de Torres Vedras, campeão
da 2ª Divisão na época de 1954/1955 e presente pela primeira vez no campeonato
nacional da 1ª Divisão na época de 1955/1956, tendo terminado no 7º lugar entre
14 equipas.
Os jogos, a partir dessa eliminatória, realizaram-se todos
ao longo do mês de Maio de 1956, depois de terminado o campeonato da 1ª
Divisão, ganho nessa época pelo Futebol Clube do Porto.
Na realidade nos 16 avos de final apenas se realizaram 14
jogos, já que, nos quartos de final, seria incluída a equipa apurada numa fase
de eliminatórias entre as equipas das ilhas, da qual o Marítimo foi o vencedor,
com direito a disputar a Taça a partir dessa fase da prova.
Mas voltamos ao Torreense e à sua participação nessa prova.
A primeira eliminatória foi disputada pelo Torreense em
casa, como ditou o concurso, batendo o Desportivo de Beja, da 2ª divisão, por
2-0 no jogo disputado em 2 de Maio.
Foi um jogo “algo difícil e enervante”, como intitulava Rui
de Belchior nas páginas do “Jornal do Torreense” na sua edição nº 17 de Maio de
1956.
O único golo da equipa torriense foi marcado apenas aos 40
minutos: “na marcação dum canto, a bola é repelida para perto por um defesa
contrário, permitindo a João Mendonça, com um toque subtil, encaminhá-la para a
baliza”. João Mendonça era, então, uma das estrelas da equipa de Torres Vedras,
tendo sido o 13º melhor marcador do campeonato da 1ª Divisão.
Aos 18 minutos do segundo-tempo o Torreense passou um mau bocado, quando sofreu a marcação de uma grande penalidade contra si, mas que foi desperdiçada pela equipa alentejana. Até que, a 3 minutos do fim, o “Torreense” viu confirmada a vitória na eliminatória com um golo de Carlos Alberto.
Nos oitavos de Final, disputados em 7 jogos, no dia 6 de
Maio, aconteceu a primeira surpresa com o Torreense a eliminar, em jogo
disputado em casa, o Sporting, por 1-0.
O primeiro tempo terminou com uma igualdade a zero, mas aos
10 minutos do recomeço, “Carlos Alberto quando corria pelo seu corredor foi
carregado irregularmente” (relato de Fernando Monteiro nas mesmas páginas do
jornal acima citado) por um jogador do Sporting e, na marcação do livre feita
por aquele jogador a bola foi interceptada por Forneri que marcou de cabeça o
golo decisivo para o Torreense fazer a surpresa e passar mais uma eliminatória.
O jogo terminou empatado a zero golos no final do primeiro
tempo. Foi no recomeço do jogo que o resultado funcionou a favor da equipa
torriense, logo no primeiro minuto, com a marcação de um golo de cabeça pelo já
citado João Mendonça. O Torreense consolidou o resultado aos 12 minutos com um
novo golo de cabeça do mesmo João Mendonça, fixando o resultado final nos 2-0.
O Torreense chegou assim às meias-finais, o que, já por si,
era um feito histórico. O jogo realizou-se em 20 de Maio no Estádio do
Belenenses, que tinha sido o terceiro classificado do campeonato. Ao lado do
Benfica, do Sporting e do Porto, o Belenenses era então um dos “grandes”. Para
surpresa geral, a equipa de Torres Vedras obrigou o Belenenses, a jogar em
casa, a ir a prolongamento e…venceu o jogo por 3-2, sendo apurado para o final
no Jamor contra o “Porto”, campeão nacional.
O jogo não começou bem para a equipa de Torres Vedras, que
sofreu um golo aos 24 minutos, marcado pelo célebre Matateu. Mas o Torreense
não se ficou e, aos 32 minutos um “remate forte e bem colocado” de João
Mendonça restabeleceu a igualdade (seguimos o relato de Rui Belchior no citado
jornal).
Na segunda parte da partida o Belenenses voltou a aumentar a
vantagem com um golo de Di Pace. Foi já
perto do final da partida que a equipa torriense voltou a igualar a partida com
um golo de cabeça marcado por Fernandes, na sequência de um canto bem marcado
por José da Costa.
Terminado empatado tempo regulamentar, procedeu-se a um
prolongamento de meia-hora. Quando tudo parecia apontar para a manutenção do
empate e para necessidade de se repetir o jogo, a 2 minutos do fim o jogador
torriense Gonçalves marcou o golo da vitória que colocou a equipa de Torres
Vedras no final da Taça.
A final realizou-se no Estádio Nacional no dia 27 de Maio. O Porto marcou cedo e, no inicio da segunda parte, foi marcado um penalti, muito duvidoso, contra o Torrense, encerrando cedo as hipóteses para a equipa de Torres Vedras, que perdeu por 2-0. Para o Porto foi a primeira Taça de Portugal conquistada e também a primeira dobradinha.
O Porto marcou logo aos 3 minutos após o início : o jogador
portista Perdigão “num lançamento de linha lateral” enviou “a bola para Jaburu
que, por sua vez, a lança para a frente da baliza de Gama. A nossa defesa ficou
parada, consentindo que Hernani cabeceasse com êxito” (seguimos o relato de
Fernando Monteiro no citado jornal)”.
Foi aos 12 minutos do segundo tempo que “tudo terminou” para
as ambições do Torreense com a marcação de um contestado penalti a favor do
Porto, convertido por Hernani, fixando o resultado final de 2-0 a favor da
equipa do norte.
Um acontecimento curioso desta final foi a iniciativa dos
adeptos do Torreense que espalharam pelas bancadas “milhares de barretes de
papel – encarnados e azuis”.
O Torreense teve de esperar mais 70 anos para repetir a
proeza, desta vez a jogar uma nova final da Taça de Portugal contra o Sporting,
equipa que, naquele ano distante de 1956, foi eliminada pelo “pequeno”
Torreense.
A final disputa-se no próximo dia 24 de Maio.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Tempestade Kristin em Torres Vedras
Ainda sob o efeito da tempestade Joseph, que provocou inundações históricas nas margens do Rio Sizandro e uma agitação marítima preocupante, esta madrugada a região foi afectada pela tempestde Krisin, que entrou nesta região por volta das 3 da manhã com ventos que ultrapassaram os 100 klm hora.
Pela manhã, na cidade, deparámo-nos com árvores caidas e ramos espalhados por todo o lado, com destaque para a zona da Avenida 5 de Outibro, Av. Humberto Delgado e Largo da Graça.
À volta e no interior da escola Madeira Torres deparámo-nos com várias árvores arrancadas, com destaque para as que cairam sobre o depóssito de gaz da escola.
Aqui ficam, para memória futura, algumas imagens da situação junto à Escola Madeira Torres.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
BARRO - De Convento a Sanatório
“Pousado num recanto a meia encosta, o Sanatório do Barro é uma ilhota: por todos os lados, até onde a vista alcança, são vinhas e mais vinhas. À saída de Torres Vedras, daqui distante cerca de uma légua, a estrada para Lisboa atravessa primeiro uma zona industrial e, logo depois, corre entre vinhedos. A marcha amarelo-esverdinhada das vides alinhadas tapa a larga bacia em que o vale se desdobra, espreguiçando-se até quase ao cume da barreira de cristas nuas ou, então, pontuada pelo toco branco pardo, descarapuçado, de velhos moinhos já sem serventia”.
A descrição é do escritor Luiz Pacheco (1925-2008), que,
nos anos 80 do século passado, esteve internado naquele estabelecimento de
saúde, situado no edifício do antigo convento do Barro (1).
Do primitivo Convento do Barro pouco resta, apenas a
capela de Nossa Senhora dos Anjos.
Esse convento foi fundado em 1570 pela Infanta D. Maria,
donatária de Torres Vedras e filha de D. Manuel I, tendo a primeira pedra sido
lançada em 2 de Agosto.
Aí se instalaram os religiosos Arrábidos, da ordem
franciscana. o Convento foi inicialmente dedicado ao acolhimento de monges
"fraquinhos do peito", “como eram denominados aqueles que padeciam de
doenças pulmonares” (2) .
Sabe-se que o primitivo convento “não logrou, pela pouca
solidez das paredes mestras, resistir por muito tempo às invernias e
consequentes inundações, que despenhando-se dos montes, que lhe ficavam a
cavaleiro e em cujas abas fôra construído, lhe foram socavando os alicerces e
batendo as paredes de forma, que entrou a ameaçar vir-se a baixo. Houve por
tanto de apear-se e ser construído de novo com mais fortaleza e grossura de
paredes: e a mesma fortuna correu a egreja, que também foi reedificada com dimensões
mais avantajadas em comprimento e largura (…) dedicada a Nª S.ª dos Anjos” (3).
No século XVII, em 1619, fizeram-se alguns melhoramentos
do edificado, reedificação iniciada em 15 de Março desse ano (4).
No inicio do século XIX, por volta de 1819, Madeira
Torres considerava que a “situação do Convento não é muito agradável, por ficar
entre montes próximos, que lhe tomam a vista, gosando-a apenas mais extensa
para o nascente, onde alcança a estrada principal de Lisboa. O edifício é muito
regular, e reputado entre os antigos da sua Provincia pelo mais amplo na
grandeza dos cubículos e das oficinas”, descrevendo a sua cerca como incluindo
“bons taboleiros d’horta (de que não se tira na força do verão maior vantagem
pela falta d’agua) de algum pomar [de laranjas] , vinha e mata” (5).
Os frades possuíam então uma enfermaria dentro da então
vila , no hospital da Misericórdia, para tratar das suas enfermidades.
Referia Madeira Torres que “ainda há poucos annos por
occasião de haver n’elle Collegio de Filosofia, excedeu a vinte; actualmente
reduz-se a 12 professos, e 2 donatos” (6).
Por altura da Extinção do Convento, em 1834, residiam
nele 10 sacerdotes e 2 leigos.
Extinto, os seus bens foram integrados da fazenda
Nacional, posteriormente vendidos, passando pela mão de vários proprietários,
entre eles o Marquês de Valadas, que o comprou em 1857, tendo efectuado algumas
reparações, nomeadamente na Igreja, pois então tudo se encontrava quase em
estado de ruina. Posteriormente, o Convento foi vendido ao reverendo padre Carlos Rademaker, de
Lisboa, para aí instituir um colégio de órfãos, de educação gratuita,
inaugurado ao culto em 2 de Agosto de 1860, no dia a seguir à realização da
solene procissão que reconduziu a imagem de Nª Sª dos Anjos à Igreja do
convento, imagem que tinha sido enviada para a Igreja de S. Pedro em Torres
Vedras depois do decreto de extinção:
“Saíu a dicta procissão da parochia de S. Pedro e
desfilou, engrossando cada vez mais, pelas ruas de Torres, pela estrada real e
logar do Barro até ao antigo convento, campeando soberana, entre acordes de
duas philarmónicas, que n’ella tomaram parte, entre os cânticos solemnes d’uma
multidão enorme de povo e o esfuziar de muitas girandolas de
foguetes.Encorporaram-se na procissão alem dos nossos, que se achavam já então
no Barrro, com os alumnos órfãos, o clero de Torres Vedras e arredores com suas
confrarias e irmandades e immensa mó de povo de toda a cercania” (7).
Em 14 de Agosto foi inaugurado o noviciado no Convento
com 8 noviços.
No espaço exterior existe um monumento de devoção à
Excelsa Mãe de Deus, edificado em 1908, por ocasião das comemorações dos 50
anos da aparição da Virgem Imaculada em Lourdes. Nas imediações do convento
localiza-se a capela de São José, erigida no século XVI.
Com a implantação da República em Portugal foi
definitivamente encerrado enquanto convento.
Essa situação foi descrita n’ "A Vinha de Torres
Vedras" , na sua edição do dia 6 de Outubro de 1910 que, referindo-se à situação em Torres Vedras,
destacava, em título, a "prisão dos professores e seminaristas do
Barro", na manhã desse mesmo dia 6, por "uma força de cento e tantos
praças de infantaria 15, e outro de quarenta praças de cavallaria" que,
apresentando-se "inesperadamente no Collegio do Barro (...) intimaram os
professores e seminaristas, a que por ordem do governo os acompanhassem.
"A intimação foi rigorosamente cumprida, e os
moradores, em numero de 82, condusidos para esta villa, onde a população os
recebeu com respeito, foram horas depois condusidos para Lisboa, no comboio,
acompanhados pela força de infantaria 15.
"No collegio do Barro ficou uma força commandada por
um alferes, guardando o edificio, onde se encontram dois moradores doentes e as
pessoas que d'elles tratam"(8).
Em notícia divulgada na mesma edição, referia-se o
assassinato de um camponês da Serra da Vila, localidade vizinha daquele
convento pelo guarda do Colégio do Barro, não lhe dando qualquer carácter
político, ao contrário da “Folha de Torres Vedras” que, na sua edição de 9 de
Outubro, na descrição dos acontecimentos de 5 e 6 de Outubro, se referia ao
facto de se ter tido conhecimento, no dia 6 de "que um empregado do
convento dos Jesuítas assassinara com um tiro um pobre homem do
campo" associando esse facto com a
ordem para aprisionar os Jesuítas do Barro.
O encerramento dos dois conventos existentes no concelho
e o arrolamento dos seus bens foi um dos primeiros actos do novo poder neste
concelho, motivo de uma das primeiras comunicações do novo administrador do
concelho para o governo, dirigida ao Ministério dos Negócios da Justiça, datada
de 13 de Outubro:
"Em cumprimento das ordens de Vª Exª tenho a honra
de informar que estão fechadas 5 casas das ordens religiosas neste concelho,
que são as seguintes:
"1º O Convento do Barro, que se compõe de tres
grandes edificios, tendo todo o mobiliario que se encontrou á sahida dos
Jesuitas, 4 vacas leiteiras, 2 mullas, 4 porcos e algumas galinhas. Está
situado longe de povoações e guardado por uma força militar d'Infantaria 7.
"2º Pertencendo ha (sic) mesma ordem á (sic) outro
edificio denominado a quinta da Cadriceira, freguesia do Turcifal, o qual já
está fechado e lacrado, tendo todo o mobiliario, 3 vaccas pequenas, 1 porco e
35 galinhas, ficando depositario Angelo Custodio Botelho da Cadriceira (…)” (9).
O espaço daquele convento foi transformado no “Asilo
Elias Garcia”, formalmente inaugurado pelo Presidente da República, Teófilo
Braga, em visita inaugural realizada em 2 de Agosto de 1915 (10).
No início do século XX, o Asilo assumiu um papel
importante no combate ao flagelo da tuberculose, tendo sido confiado à
Assistência Nacional aos Tuberculosos, na segunda metade do século. Em 1956, é
nomeado para diretor clínico do sanatório o Dr. José Maria Antunes Júnior. A
partir de 1956, os serviços gerais do Asilo passam a ser assegurados por
freiras, possibilitando o internamento dos doentes. Esta situação manteve-se
até 1992, ano em que as religiosas deixaram de prestar serviço hospitalar. Em
1993, o Sanatório do Barro passou a ser designado de Hospital Dr. José Maria
Antunes Júnior, alargando a sua ação terapêutica ao tratamento de doenças da
área da pneumologia.
Encerrado e devoluto desde 2015, o edifício está a ser
restaurado e requalificado para
dar origem a campus na área da saúde que pretende ser “um
espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, à formação
de profissionais da saúde, ao ensino e à investigação em Medicina e em outras
Ciências Biomédicas”, de acordo com o protocolo assinado em 28 de Junho de 2019
entre a Câmara Municipal de Torres Vedras e a Faculdade de Medicina da
Universidade de Lisboa.
Ao contrário dos outros antigos conventos torrienses,
sobre os quais existem boas e actualizadas monografias, sobre o Convento do
Barro está por fazer um estudo actualizado sobre a sua longa história.
Sabe-se que, por informação existente no site da Torre do
Tombo que, em 1894, a documentação desse Convento “foi remetida pela Direcção
Geral dos Próprios Nacionais à Torre do Tombo” e que a sua documentação foi “sujeita
a tratamento arquivístico, no final da década de 1990, empreendido por técnicos
da Torre do Tombo e por investigadores externos” e que, em Outubro de 1998, “foi decidido abandonar a
arrumação geográfica por nome das localidades onde se situavam os conventos ou
mosteiros, para adoptar a agregação dos fundos por ordens religiosas”.
A documentação que se encontra instalada em maços foi
considerada como uma colecção ao nível da série, com a designação de
'Documentos vários', não tendo sido objecto de intervenção.
Este projecto deu origem à publicação da monografia designada 'Ordens monástico-conventuais: inventário', com a coordenação de José Mattoso e Maria do Carmo Jasmins Dias Farinha” (11).
(1) -
PACHECO, Luiz, “O País das uvas”, in Textos do Barro, ed. Contraponto [1984 ?],
obra dedicada ao Dr. José Maria Antunes jr.;
(2) -informação
de Helena Rodrigues no site da DGMN, em2005;
(3) -COSTA
CORDEIRO, P. António da Collegio do Barro Jubileu – 1860-1910 – Noticia
Historica da Sua Fundação e Ministerios até ao anno Presente. Ed. Braga 1910,
pág. 1;
(4) -ALMEIDA,
Fortunato de História da Igreja em Portugal, – Nova edição preparada e dirigida
por Damião Peres, Volume II, ed. Portucalense editora, Porto 1968, pp 182-183;
(5) -
MADEIRA TORRES, Manoel Agostinho, Descripção Historica e Economica da Villa e
Termo de Torres Vedras – Parte Histórica – 2ª edição anotada, Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1862, pág. 143;
(6) –
MADEIRA TORRES pág. 144;
(7) –
COSTA CORDEIRO, ob.cit, pp.9 e 10;
(8) -
"A Vinha de Torres Vedras", 6
de Outubro de 1910;
(9) -
Livro de Correspondência Externa (do Administrador do Concelho),(1908-1912), nº
304 de 13 de Outubro de1910, AMTV;
(10)
- reportagem n’ “A Vinha de Torres Vedras” de
5 de Agosto 1915;
(11)
- informação recolhida no site do Arquivo Nacional da Torres do Tombo.
terça-feira, 28 de outubro de 2025
Um Falso D. Sebastião na região de Torres Vedras
No dia 11 de Junho de 1585 conheceu um triste fim o chamado “rei da Ericeira”.
Foi o culminar de uma rebelião popular que agitou a região
em 1585, numa tentativa de depor a autoridade castelhana.
Foi mais um episódio de afirmação do mito “sebastianista”, que se desenvolveu após a
morte de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir , em 4 de Agosto de 1578.
Aconteceu que um ermitão da Ericeira, Mateus Alvares, se fez
passar por D. Sebastião, apoiado por um lavrador da zona, um tal Pedro Afonso.
Mateus Álvares era natural da Vila da Praia na Ilha Terceira
dos Açores, filho de um pedreiro, tendo estudado num Convento franciscano,
vindo para o continente para iniciar o seu noviciado no Mosteiro de S. Miguel, perto
de Óbidos.
Mais tarde abandonou o noviciado e tornou-se eremita e
estabeleceu-se junto da Ermida de S. Julião, perto da Ericeira, na freguesia da
Carvoeira do concelho de Mafra. Aí abordava os camponeses e outros
frequentadores desse sítio “entre gemidos e flagelações” proferindo palavras
enigmáticas que aqueles identificavam como “prova” de estarem perante D.
Sebastião.
Vários fidalgos de Lisboa deslocaram-se ao local para
confirmarem a sua identidade, mas a maior parte confirmou o embuste.
Isso não fez desistir dois fervorosos defensores do falso D.
Sebastião, entre os quais António Simões, escrivão dos Armazéns de Lisboa,
muito influenciado pela sua mulher, sebastianista convicta, e Pedro Afonso,
lavrador rico, proprietário de uma azenha em Rio de Mouro (Sintra), que tinha
combatido ao lado do prior do Crato contra o domínio filipino.
Este Pedro Afonso tornou-se o mais acérrimo defensor da
identificação do eremita Mateus Álvares como D. Sebastião, mesmo contra a
resistência inicial do próprio falsário, mas que acabou por colabora na farsa.
O rico lavrador de Rio de Mouro rapidamente conseguiu reunir
à sua volta mais de 800 homens armados, simpatizantes da causa, reunidos entre
as gentes da Ericeira e de outras regiões à volta, de Sintra, Torres Vedras e
Mafra.
Entusiasmado com o apoio granjeado por Pedro Afonso, o
eremita Mateus Álvaro, montou corte na Ericeira, proclamando-se rei,
distribuindo cargos e títulos de nobreza e publicando alvarás “régios”, ao
mesmo tempo que enviava cartas às Câmaras de algumas cidades e vilas para o
ajudarem a expulsar os castelhanos.
Pedro Afonso tomou o nome de D. Pedro de Menezes, apelido
dos condes da Ericeira, proclamando-se Conde de Torres Vedras.
Casou a sua filha com o falso “D. Sebastião” da Ericeira,
coroada rainha com uma coroa de prata de uma Imagem de Nossa Senhora retirada
de uma capela da freguesia.
Por essa via, Pedro Afonso foi agraciado com o título de
marquês de Torres Vedras, conde de Monsanto, senhor de Cascais e Alcaide-mor de
Lisboa.
Entretanto, na “quinta-feira
de Ascensão desse ano de 1585, quando o cardeal arquiduque Alberto saía da
capela real, veio ao seu encontro um jovem que lhe entregou uma carta”. O
mensageiro era o filho do acima referido António Simões e dizia entregar a
carta em nome de D. Sebastião, o da Ericeira. Essa carta intimava o vice-rei a
“desocupar o Paço e ir-se embora para Castela”. O jovem foi imediatamente preso
(1).
Alertados por essa iniciativa e alarmadas com a crescente
agitação popular à volta do autoproclamado “Rei da Ericeira”, as autoridades em
Lisboa ordenaram ao juíz de fora de Torres Vedras, Manuel Ataíde de Sarrea, que
fosse à Ericeira prender os líderes dos amotinados. Este fez-se acompanhar pelo
seu escrivão e outros oficiais, mas os revoltosos, em vez de lhe obedecerem,
executaram-nos, lançando-os das arribas para o mar.
O doutor Gaspar Pereira, ouvidor da comarca de Torres Vedras
e do Conselho Régio de Lisboa, ao criticar a crueldade daquelas execuções,
acabou assassinado na sua quinta, juntamente com um filho e um sobrinho e a sua
casa saqueada. O mesmo destino tiveram outros habitantes que se recusaram a
aceitar as ordens do falso D. Sebastião.
Perante esses acontecimentos, o vice-rei decidiu-se por uma
intervenção militar de larga escala. Deu ordens a Diogo da Fonseca para esmagar
a rebelião. Este Diogo da Fonseca tinha acompanhado o verdadeiro D. Sebastião
na sua campanha africana e era agora corregedor do crime ao serviço de Filipe
II, tendo ganho notoriedade entre os castelhanos por ter posto termo a outro
episódio de um falso D. Sebastião, o célebre “rei” de Penamacor, sentenciado em
1584.
Acompanhado por um exército de “quatrocentos castelhanos bem
armados e comandados pelo capitão Calderon” partiu para a Ericeira para prender
o falso “rei”. O combate terá tido início junto da Ermida de S. Julião.
“Esperava-os uma forte carga de arcabuzaria e mosqueteria”, resultando vários
mortos e feridos de ambos os lados, mas a vantagem estava do lado castelhano,
fugindo a maior parte dos revoltosos “por montes e vales”, entre eles o “rei”,
Mateus Álvares, sendo capturado no 12 de Junho em Colares, o dia a seguir à
batalha.
De imediato Mateus Álvares confessou que não era D.
Sebastião e que a sua intenção era entrar em Lisboa, “na noite de S. João, e
depois de degolarem e matarem os que não quisessem obedecer ao nome D.
Sebastião, iria a uma janela dizer ao povo” que não era D. Sebastião, mas um
homem “que veio para libertá-los da tirania dos castelhanos”, proclamando de
seguida: “agora fazei rei a quem quiserdes”.
Teve um fim trágico e cruel, esse Mateus Álvares (2).
Conduzido do Limoeiro para o pelourinho, foi-lhe cortada a mão direita, antes
de ser enforcado. Depois cortaram-lhe a cabeça, que ficou exposta na forca
durante um mês. O seu corpo esquartejado ficou exposto nas quatro portas da
cidade de Lisboa. O mesmo aconteceu no dia seguinte a todos os que tinham sido
presos com ele.
Pedro Afonso ainda andou fugido mais uns dias, mas acabou
por ser preso no Bombarral, sofrendo o mesmo destino do genro, executado no dia
22 de Junho.
Outros dos “nomeados como principais delinquentes e autores
das mortes, roubos e insultos e dos mais males e danos que se seguiram e
puderam seguir aquietação e sossego público” escaparam à morte, mas foram
enviados para as galés (3). Entre estes encontramos habitantes do Barril, da
Fonte Boa, da Ericeira, das Casas Velhas, do Brejo, dos Alvarinhos, do Sobral,
de Ribamar, de Monterroio, do Turcifal, da Feiteira, da Ribeira, lugares
localizados em grande parte no termo de Mafra, mas também de Sintra e Torres
Vedras, mostrando a dimensão da insurreição.
Foi necessário esperar mais 55 anos para que Portugal
recuperasse a independência.
(1) – DINIZ, Sebastião, “Mateus Álvares, Eremita e Rei – Da Ilha Terceira à Ericeira”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo, obra colectica, coordenada por Manuel J. Gandra, ed. C.M de Mafra, 1998, pp.299-312. Baseámo-nos neste estudo para a elaboração deste texto. Sobre este acontecimento leia-se também outras versões desse acontecimento da autoria de Manuel Novais Granada, publicadas nas páginas do jornal “Badaladas” : “Revista de Lisboa garantia em 1932: Última batalha entre as tropas castelhanas e as milícias do “rei da Ericeira” deu-se no castelo de Torres Vedras”, em 27 de julho de 2018; “Justiça de Filipe I abateu-se de modo implacável sobre os revoltosos de “D. Sebastião da Ericeira”, em 17 de Agosto de 2018;
(2) – Um presumível retrato desse Mateus Álvares foi publicado nas páginas da História de Portugal de Pinheiro Chagas, publicada no século XIX, e que reproduzimos nesta página;
(3) - “Carta de perdão geral concedido aos rústicos do termo de Sintra”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo , ob. Cit, pp.318 a 323.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
CIDADE - S. PEDRO, Stª Maria e Matacães
Santa Maria, São Pedro e Matacães
Campelos e Outeiro da Cabeça








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