Na passada semana Torres Vedras despediu-se de mais um torriense de mérito, Renato Valente.
Não tendo nascido em Torres Vedras, aqui se estabeleceu no início da sua longa vida profissional, como técnico de farmácia, destacando-se rapidamente pelo seu dinamismo ao serviço da região.
Nasceu em Évora em 1930 e veio para Torres Vedras na década de 50, depois de uma curta passagem por Caldas da Rainha, para inaugurar a farmácia Torreense de José Perdigão.
O seu dinamismo e entusiasmo cedo o levaram a colaborar activamente no associativismo torriense.
Nos mais de 60 anos que viveu em Torres Vedras não houve praticamente associação cultural, desportiva ou social deste concelho que não tivesse beneficiado do seu dinamismo, das suas idéia e apoio.
Do "Torrense" aos "Bombeiros", passando pela "Tuna", pela "Física", pelo "Sporting de Torres" ou, mais recentemente, pelos "Os Paulenses", entre tantas outras, todas foram beneméritas de Renato Valente.
Foi ainda responsável pelo êxito e dinamismo de eventos como o Carnaval de Torres, a Feira de S. Pedro ou a Festa das Vindimas.
Como empresário de sucesso, sempre partilhou as suas capacidades financeiras, exercendo um cada vez mais raro "mecenato" desinteressado para apoiar hospitais, escolas (entre elas a "minha" Escola Secundária Henriques Nogueira) e muitos projectos.
Recentemente ligou-se muito a Cabo Verde, onde apoiou vários projectos educativos e solidários.
A sua calma e o seu bom senso muito contribuíram para o êxito das iniciativas em que se envolveu.
Conversar com ele, como fizemos frequentemente, era sempre motivante e, quase até ao fim, continuava sempre a idealizar projectos para beneficiar Torres Vedras e as pessoas que ele podia ajudar.
Dizer que Renato Valente vai fazer falta a esta cidade não é um mero lugar comum que se costuma dizer nestas ocasiões, é mesmo uma triste constatação.
Como torriense e amigo, aqui fica um agradecimento pelo privilégio de o ter conhecido.
AQUI podem consulta uma das raras entrevistas que concedeu e onde nos conta, na primeira pessoa, alguns aspectos da sua vida.
(representação da localização dos representantes em cortes. Os procuradores de Torres Vedras sentavam-se no 7º "banco")
Em 1441 o regente D. Pedro
convocou aquelas que foram as únicas cortes realizadas em Torres Vedras, que terão
tido lugar de 25 de Abril a 24 de Maio desse ano (1).
Alguns historiadores referem que
essas cortes foram convocadas em Fevereiro desse ano. Contudo o único documento
conhecida, convocando-as, data de 14 de Março de 1441.
Trata-se da convocatória enviada
ao concelho de Coimbra, emitida pelo infante regente em Lamego, onde se marcaram
as cortes para 25 de Abril, mas sem especificar o local da sua realização (2) .
D.Pedro tinha-se tornado regente,
após a morte do irmão D. Duarte, por decisão das Cortes de Lisboa de 1439.
Sem certezas, Torres Vedras, como
terra da rainha, terá tomado o partido desta, que se opunha àquela regência.
Esse foi o caso de Sintra e é provável que tivesse acontecido noutras
localidades como a torriense.
Naquelas cortes de Lisboa
ordenou-se que na vila se Sintra “como nas restantes terras da rainha D. Leonor
[que incluiria Torres Vedras] se cumpram os mandados régios e do infante D.
Pedro”(3).
Afirma Veríssimo Serrão que
Sintra, Alenquer e Óbidos acabaram por obedecer ao infante D. Pedro, “cujo
poder, desde início de 1440, não oferecia dúvidas”, o que, por exclusão de
partes, pode dar a entender que Torres Vedras, ou já não obedecia à rainha
desde o principio ou, pelo contrário, continuava a não obedecer ao regente.
Fica a dúvida por esclarecer (4).
A realização das cortes em Torres
Vedras parece ter sido casual, já que na convocatória conhecida, a do concelho
de Coimbra, não se marcou o lugar das cortes, devendo estas realizar-se “onde
quer que estevermos” (5).
E de facto o regente D. Pedro
“estava” em Torres Vedras, pelo menos desde 22 de Abril, e aqui se manteve,
pelo menos até depois do encerramento das cortes, ainda em 29 de Maio, assim o
revelam a origem dos documentos por ele assinados (6).
Não chegaram até nós os capítulos
gerais dessas cortes, apenas os capítulos especiais apresentados pelos
procuradores de alguns concelhos. Estes pretendiam a recuperação de
determinados privilégios fiscais, administrativos e militares, perdidos ou
violados, e a abolição de outros conferidos em prejuízo da organização interna
dos municípios, durante os dois reinados anteriores, apresentando ainda várias
queixas contra funcionários régios, militares, fiscais de justiça ou
administrativos e nobres do termo(7).
Vários outros capítulos dessas
cortes revelam as dificuldades financeiras do regente, tendo-se votado um
pedido que visava fins militares, com o objectivo de enfrentar a reacção dos
partidários da rainha viúva, D. Leonor, que contestavam a regência do infante
D. Pedro por menoridade de D. Afonso V.
Afirmam alguns historiadores que
nestas cortes de Torres Vedras se terá decidido o casamento de Dª Isabel, filha
de D. Pedro , com D. Afonso V .
Quanto aos participantes nessas
cortes, além “da participação das delegações de cujos concelhos há capítulos
especiais (…), apenas se sabe que estiveram presentes “procuradores das cidades
e vilas”, referindo o cronista Rui de Pina, para além destas, a “presença das
“pessoas principais do reino” (8).
Os concelhos com capítulos
especiais nessas cortes foram Porto, Coimbra, Évora, Guarda, Lamego, Santarém,
Lisboa e Viseu, para além do reino do Algarve (9).
O movimento das grandes figuras
políticas da época não terá passado despercebido à população torriense, alguma ainda
recordada de azáfama idêntica, menos de 30 anos antes, por ocasião do célebre
conselho régio onde se decidiu a conquista de Ceuta.
Podemos especular que, a receber
os ilustres participantes, terá estado o alcaide de Torres Vedras, Martim
Afonso de Miranda, que exerceu esse cargo entre 1434 e 1470, os vereadores
desse ano, Álvaro Rodrigues, Salvador Martins e Fernão Vaz e o procurador do
concelho, o escudeiro “Mestre Diogo” , que deve ter participado nessas cortes
(10).
O impacto na sociedade e na
economia local da presença das personalidades que participaram nessas cortes,
bem como o lugar (ou lugares) da sua realização, são um tema não esclarecido e a merecer mais
investigação, pois a hospedagem e a alimentação dessa gente terá tido impacto
na economia e na vivência da vila de Torres Vedras.
Durante cerca de um mês Torres
Vedras foi o centro da vida política do reino, numa época marcada pelo início
da expansão e por uma complicada situação política, que culminaria numa curta
guerra civil e na morte, ainda hoje mal esclarecida, de D. Pedro na Batalha de
Alfarrobeira em 1449.
(1)Monumenta
Henricina, vol. II, ed. Coimbra 1965, p. 222, nota 3 ao doc. 141.
(2)SOUSA,
Armindo de , As Cortes Medievais Portuguesas (1385-1490), vol.I, ed. Instituto Nacional
de Investigação Científica, Porto 1990, pág.360.
(3)Monumenta
Henricina vol VII, p. 28, doc. 19.
(4)SERRÃO,
Veríssimo, História de Portugal, Vol II, p.58.
(5)SOUSA,
ob.cit, pág.360.
(6)AZEVEDO,
Pedro, Documentos da Chancelarias Reais, Anteriores a 1531, Relativos a
Marrocos, Tomo 1 – 1415-1450, Academia de Sciencias de Lisboa, 1915.
(7)RODRIGUES,
Maria Teresa Campos [M.T.C.R], “Torres Vedras, cortes de 1441”, in Dicionário
de História de Portugal, Vol. VI, ed. Livraria Figueirinhas, Porto, pp.179-180.
(8)SOUSA,
ob.cit, pág.361.
(9)SILVA,
Carlos Guardado,”As Cortes de 1441, em Torres Vedras”, in Torres Vedras Antiga
e Medieval, edições Colibri/CMTV,2008, pp.127 e 128.
(10)RODRIGUES,
Ana Maria, Torres Vedras – A Vila e o Termo nos Finais da Idade Média, Fundação
Gulbenkian/INICT, 1994, pp. 605 a 613.
Conheci o Pedro no início do seu percurso, sempre simpático e simples.
Era acima de tudo um grande fotógrafo, muito ligado à fotografia de moda.
Torres Vedras, aliás, tem sido berço de grandes fotógrafos com Nanã Sousa Dias, Adriana Lousada ou o Pedro Cláudio.
Por triste fatalidade o Pedro, o mais novo dos três, é o primeiro a deixar-nos trágicamente.
Não o via há muitos anos mas ía tendo notícias regulares do seu trabalho, quer por os ver publicados, quer pela sua irmã, a quem manifestamos aqui o nosso pesar.
A criatividade de Pedro Cláudio vai fazer-nos falta.
José Damas Antunes é o autor da obra "Os Expostos da Roda de Lisboa - Percursos de vida na Lourinhã e em Torres Vedras - séc. XVII-XIX.
Editada pela Colibri, esta obra é fundamental para o conhecimento da sociedade torriense na transição do "Antigo Regime" para a "Época Contemporânea".
Este valioso contributo para a história local vai ser lançado em sessão pública que se realiza no Auditório Municipal da AV. 5 de Outubro, no próximo Sábado, 9 de Abril, pelas 15.30, com a presença do autor.
A propósito do próximo lançamento no próximo Sábado 19 de Março (pelas 16 horas no auditório dos Paços do Concelho, AQUI) de uma reedição e estudo sobre o
foral manuelino de Torres Vedras, da autoria de Carlos Guardado Silva e José Manuel Vargas, aqui deixamos o que escrevemos sobre a
relação de D. Manuel com Torres Vedras, um texto algo datado, escrito por volta
de 1989, inédito, mas que esteve par incluir a monografia local lançada por
essa altura, obra colectiva na qual participei.
Na certeza que aquela nova obra
de história local vai acrescentar, rever e desactualizar profundamente aquilo
que então escrevi, um texto meramente de síntese e divulgação, aqui deixo, como
memória, com poucas alterações, esse texto:
D. Manuel e Torres Vedras – Nos Tempos da “Misericórdia”.
Alguns historiadores apontam que,com a subida de D. Manuel ao poder, em
1495, se deu o declínio do poder concelhio, patente na promulgação de “forais
novos”. Estes novos forais resumem praticamente a autonomia dos concelhos à
mera cobrança de direitos reais, rega a que o novo foral de Torres Vedras,
doado em 1 de Junho de 1510, não fugiu.
De referir, no foral manuelino de Torres Vedras, o destaque da produção de vinho, como se
revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar
privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas
das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e
o valor que o vinho da região começava a ter.
Onze anos antes, tinha-se iniciado a perseguição aos judeus do concelho
que até essa data aqui gozavam de grande prestígio.
Durante aquele reinado Torres Vedras foi o centro do país quando, em
1496, o monarca aqui permaneceu por três meses (Agosto, Setembro e Outubro),
ocasião em que recebeu uma importante embaixada
da República de Veneza.
O mesmo monarca mandou realizar obras no castelo em 1516, documentadas
nas ainda hoje visíveis armas manuelinas esculpidas sobre o portal daquele
reduto.
Muitas outras obras em igrejas e públicas têm sido registadas neste concelho como
datando do seu reinado.
Datam também do final do seu reinado duas importantes decisões que
muito contribuíram para o desenvolvimento social e cultural do concelho.
Uma delas foi a publicação do alvará, datado de 22 de Setembro de 1521,
confirmado em reinados sucessivos, fazendo “mercê aos mosteiros de Santo Agostinho,
a saber, ao convento da Graça de Lisboa, a Évora, a Santarém, a TORRES VEDRAS, a PENAFIRME [sublinhado
nosso] (…) de 6 arrobas de açúcar anuais a cada um dos conventos, pago no
Almoxarifado do um por cento, a obras pias (…)”, beneficiando assim os
conventos locais com os lucros da expansão, o que talvez possa ter contribuído para
criara as condições económicas para a refundação do novo convento da Graça,
projecto iniciado no reinado seguinte, em 1544.
Outra medida, tomada um ano antes, por alvará de 26 de Julho de 1520,
revelou-se a mais marcante iniciativa tomada localmente pelo monarca.
Referimo-nos à fundação da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras,
iniciativa enquadrada na continuidade da acção da rainha viúva D. Leonor que
criou em 1498, em Lisboa, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia.
A sede torriense dessa instituição foi instalada no Hospital do Santo
Espírito, que já possuía os bens do Hospital de Santa Maria dos Farpados e do
Hospital do Mostardeiro, juntando-se então a esses, os bens da Confraria das
Ovelhas Pobres e os do Hospital de S. Gião, ou Confraria dos Sapateiros, aos
quais se juntariam outros bens ao longo dos séculos.
A Misericórdia de Torres Vedras
começou a sua vida “com duas salas para ambos os sexos e uma capela, e segundo Madeira Torres, com
um rendimento de : 6 moios de trigo, 3 de cevada, 36 almudes de vinho, 3 potes
de azeite, 56 galinhas e frangos, um carneiro, 13.888 réis em dinheiro e 2
óvos, além dos sobejos de todos os outros Hospitais e Albergarias.
“Além destes rendimentos, estava a Santa Casa autorizada a ter Mamposteiros
ou arrecadadores d’esmola em todas as freguesias do arciprestado, encarregados
de pedirem para ela” (1).
Ficam aqui algumas das iniciativas locais que marcaram o reinado de D. Manuel
I, iniciado em 1495 e que terminou com o seu falecimento em 13 de Dezembro de
1521.
(1)CALADO,
Rafael Salinas, Origens e Vida da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras,
ed. 1936, pág.6.
O principio do mês começa com o anuncio da chegada das andorinhas,
avistadas pela primeira vez na vila no dia 19, “doces mensageiras da primavera”
(JTV, 25-2-1886).
A vida cultural da vila também se animou nesse mês com a presença de um
teatro infantil:
“O popular empresário mr. Dallot, bem conhecido em Belem e na feira das
Amoreiras, improvisou no largo da Graça um teatro espaçoso e com certas
comodidades, onde no dia 30 [de Janeiro] se inauguraram os espectáculos com a
opera cómica “o traga bullas” e a comédia “os milagres de Santo António” que
conheceu “enchentes sucessivas”(JTV, 4-2-1886).
A presença desse teatro ambulante veio animar a discussão sobre a idéia
e necessidade de se construir em Torres Vedras um teatro local fixo.
No mês de Fevereiro a imprensa publica alguns dados estatísticos
relativos ao ano anterior:
“No anno de 1885, abateram-se no matadouro d’esta villa 952 rezes
bovinas, 213 porcos e 916 carneiros” .
Na mesma edição divulga-se o movimento da prisão da vila nos anos
anteriores:
Em 31 de Dezembro de 1884 estavam presos 14 homens e 4 mulheres aos
quais se juntaram, no ano findo de 1885, “130 homens e 7 mulheres”, número a
que talvez não seja estranho o grande número de trabalhadores que afluíram ao
concelho para a construção do caminho-de-ferro, foco de muitos conflitos
registados ao longo do ano anterior nas páginas do mesmo jornal (JTV .11-2-1886).
15 - MARÇO de 1886
Durante o mês de Março desse na de 1886 os trabalhos do
caminho-de-ferro foram interrompido por causa do mau tempo que então de fez
sentir (JTV, 18-3-1886).
O Carnaval tinha tido lugar no início desse mês, mas os seus festejos
não passaram d algumas festas particulares ou do desfile de grupos de
mascarados pelas ruas:
“No domingo [7 de Março] appareceu uma mascarada notável, representando
um bom typo da localidade, victima
permanente do Deos cupido, aos…sessenta e tantos annos de idade. A imitação do
rosto, do traje, da maneira de andar e até da falla era perfeita(..).
“Saiu também em carro descoberto uma bem vestida mascarada politica,
representando vários vultos notáveis da política indígena.
“Na terça feira [9 de Março] percorreu as ruas da villa uma Estudantina
de emigrantes hespanhoes, vestidos muito
bem a caracter. De tarde , apareceu um carro de mascarados com engraçados
costumes.
“Tiradas estas quatro exhibições, o resto foi de uma semsaboria atroz,
como é costume aqui e em toda a parte”, registando ainda uma “soirée de terça”
em casa entre amigos (JTV, 11-3-1886).
Março foi também mês da Procissão do Senhor dos Passos, acontecimento
marcante para a população local de então e descrita pelo ”Jornal de Torres
Vedras”:
“Na passada quinta-feira [25 de Março] depois das 9 horas da noite, a
devota imagem do Senhor dos Passos foi conduzida processionalmente com
grande acompanhamento de irmãos da Igreja
da Graça para a colegiada de S. Pedro, aonde no dia seguinte houve enorme
concorrência de visitantes celebrando-se também algumas missas.
“De tarde , próximo das 4 horas, saiu, percorrendo o itinerário dos
mais annos, a solenne Procissão dos Passos, uma das que se celebram n’esta
terra com mais compustura e recolhimento. Grande número de irmãos e bastantes
eclesiásticos, a mesa da irmandade, a autoridade administrativa, a guarda de
honra composta de todo o destacamento de cavalaria, a magnifica Banda Torrenese,
e uma considerável concorrência de Povo, da villa e de fora , o melhor de cinco
mil pessoas, acompanharam a veneranda Imagem”.
“(…) Houve ordem completa . Apenas notámos com desprazer a grande
balburdia e barulho na collegiada de S. Pedro. A casa de Deos não é logar próprio
para scenas tão pouco edificantes” (JTV, 25-3-1886).
De registar ainda um serão musical no “club torreense, na segunda feira
à noite [22 de fevereiro]”, dado por “um artista hespanhol” que “tocou
magistralmente e foi grandemente aplaudido em viola franceza”(JTV , 25-3-1886).
Nas comemorações do 25 de Abril de 2014 a Câmara de Torres Vedras promoveu duas sessões públicas que contaram com a presença de muitos torrienses que combateram contra o Estado Novo, entre os quais muitos que tinham estado presos.
Na sequência dessas sessões, no ano seguinte o município, com a coordenação de Carlos Guardado Silva, resolveu realizar um pequeno filme com entrevistas a alguns antigos presos políticos torrienses, aqueles que se mostraram disponíveis, onde eles contavam a sua história.
Foram entrevistados quatro antigos presos políticos, Duarte Nuno Climaco Pinto, João Marins, Firmino Rosa Santos e Herculano Neto da Silva.
Essas entrevistas foram conduzidas por mim e pelo Carlos Guardado e a realização ficou à responsabilidade da Modular Studio.
Este filme foi apresentado publicamente por ocasião das comemorações locais do 25 de Abril de 2015 e está agora disponível no Youtube:
22 de fevereiro de 2016 | segunda | 18h00 às 19h30
Local: Auditório do Edifício Paços do Concelho
"Sobre a importância das conhecidas “ Linhas de Torres Vedras” no contexto das invasões francesas se têm debruçado os historiadores. A linha de fortificações que susteve as tropas de Massena continua, ainda nos dias de hoje, a fascinar a imaginação dos que visitam os fortes e redutos que delas foram preservados. Apoiados em documentos vários, é possível recriar a sua operacionalidade militar e estratégica, tão importantes para o desfecho da guerra peninsular."
"Mas importa, igualmente, entrever os personagens que viveram os acontecimentos aí ocorridos. Homens decisivos, militares de génio, mas também anónimos que atrás delas se refugiaram; gentes que passaram por elas, ou as avistaram de longe; aliados numa causa comum ou inimigos ditados pelo confronto bélico. Na realidade, na ficção, nas cartas escritas à família distante, na correspondência militar, os testemunhos continuam vivos séculos depois. Revisitando alguns desses escritos, poderemos encontrar diferentes “visões” de Portugal, dos portugueses, de quotidianos críticos e contrastes de emoções. Poderemos, em suma, encontrar sinais de vida em cenários de guerra…"
Manuela Catarino
No dia 27 de fevereiro decorrerá uma saida de campo, incidindo sobre a mesma temática, e as inscrições para esta saida deverão ser realizadas no dia 22 de fevereiro, aquando da realização da conferência.
Organização:Centro de Formação das Escolas de Torres Vedras e Lourinhã
Informações: Centro de Formação das Escolas de Torres Vedras e Lourinhã, pelo tlf.: 261 315 905.
No final da manhã do dia 15 de
Fevereiro de 1941, perto do meio-dia, foi o país, e toda a Peninsula Ibérica,
assolado por um dos mais violentos fenómenos atmosféricos de que há memória,
que ficou conhecido pelo “Grande Ciclone”, cujos efeitos se continuaram a
sentir ao longo desse dia até perto das 18 horas.
Terá sido o mais violento fenómeno natural que assolou até hoje toda a
Península Ibérica depois do terramoto de 1755, registando os ventos mais
violentos desde que há recolha de registos meteorológicos (em Lisboa a rajada
máxima atingiu os 127 Km/hora. No país a maior rajada registada nesse dia teve
lugar em Portimão, atingindo os 150 Km/hora. Como termo de comparação, a rajada
máxima registada no temporal de 23 de Dezembro de 2009 foi registada em Torres
Vedras e atingiu os 142 Km/hora) (1).
Um raro registo cinematográfico desse acontecimento na Península foi
filmado em Santander, no norte de Espanha e pode ser visto em baixo.
Estava-se no início da 2ª Grande Guerra, a Alemanha nazi estava no auge
do seu poder, faltava um mês para iniciar a invasão da Grécia e menos de seis
meses para se iniciar a ofensiva contra a União Soviética.
Então não se sabia, mas a Alemanha estava a um passo de invadir
Portugal, numa acção táctica que visava conquistar Gibraltar, acção que apenas
foi abandonada para preparar a invasão da Grécia em Março desse ano, uma acção
não prevista mas que visava emendar a derrota italiana naquele país.
Durante dias as notícias da guerra passaram para segundo plano, espaço
ocupado pela reportagem da tragédia que se abateu sobre Portugal.
As zonas de Portugal mais atingidas foram o litoral e os locais mais
altos, principalmente a região de Lisboa e o norte do país.
A agitação do mar, que provocou ondas com cerca de 20 metros, levando à
salinização de vários rios até uma distância de cerca de 40 kilómetros da
costa, e os ventos fortes, provocaram mais de cem mortos em todo país. Muitos
edifícios ficaram totalmente destelhados e em muito mau estado, caíram muitas
chaminés e, um dos acontecimentos mais
simbólicos, a estátua do Infante D. Henrique, no Padrão dos Descobrimentos em
Lisboa, foi arrancada do monumento e arrastada para o Tejo.
Só nos estuário do Tejo afundaram-se 150 embarcações e em Sesimbra essa
número ascendeu às três centenas.
Centenas de milhares de árvores foram derrubadas por todo o país. Só no
Pinhal de Leiria 300 mil árvores ficaram danificadas e a sua queda interrompeu
a circulação na linha do Oeste.
(fotografias do efeito do ciclone no Pinhal de Leiria)
Registarem-se ainda vários acidentes de comboios que descarrilaram por
efeito do temporal.
Na região vizinha de Torres Vedras a imprensa nacional destacou a
destruição do Teatro do Bombarral, a queda da chaminé do hospital de Arruda dos
Vinhos, o descarrilamento de um comboio na Malveira ou a destruição do Jardim
Público das Caldas da Rainha.
(registo de destruições)
Em Torres Vedras o fenómeno foi igualmente muito sentido e ficou na
memória dos mais velhos, que passou oralmente de geração para geração, estando
ainda vivas muitas pessoas que guardam a recordação desse acontecimento .
Segundo o testemunho de um familiar, que então tinha 9 anos (2), na
manhã desse dia, um Sábado, os alunos da escola primária da vila, que
funcionava no lado poente do edifício onde hoje está instalada a Câmara, na
Avenida 5 de Outubro, foram mandados para casa.
Regressando a casa, inconscientes do perigo, divertiam-se a ver as
pessoas a correr atrás dos chapéus que voavam com o vento (a maioria dos homens
dessa época usavam chapéu) ou a preocupação do padre e do sacristão em segurar
as sotainas, enquanto acompanhavam um funeral (3).
Segundo a mesma testemunha, o que mais a impressionou foi ver, no dia
seguinte, as árvores de grande porte que
ladeavam a Avenida quase todas arrancadas
pela raíz e tombadas.
A imprensa da época que consultámos, o Diário de Lisboa, cuja edição
integral está disponível on-line no site da Fundação Mário Soares, fazendo uma
ronda pelos estragos na província, apenas se refere Torres Vedras em breves
linhas anunciando que nesta localidade se “resolveu suspender as festas
carnavalescas” e registando o derrube de
“um barracão” e “prejuízos em outros edifícios” (4).
Contudo os estragos foram muito maiores do que aqueles que a notícia
revela.
A imprensa local, “A Voz do Concelho”, na sua edição 20 de Fevereiro de
1941, sob o título de “O Ciclóne em Tôrres Vedras”, refere que as “pessoas mais idosas desta
região, não se lembram de catástrofe semelhante”, continuando coma descrição
dos estragos: “Há casas demolidas; imensos postes telefónicos tombados;
milhares de árvores derrubadas ;chaminés, às dezenas, desmoronadas; portas,
portões e janelas despedaçadas; e quási não escapou uma casa onde as telhas não
tivessem voado, pelo menos na sua grande parte.
“Á tarde, já não se podia comunicar, telegráfica ou telefonicamente,
com o resto do país; e as camionetas de carreira, automóveis de praça e
comboios tinham deixado de circular por completo.
“As duas grandes tôrres da empresa de exploração de petróleo, situadas
cêrca desta vila, também foram arrancadas pela base, tombando com grande
estrondo; e cruzes de igreja, clarabóias, fumeiros, taboletas, vidros de
janela, vedações de madeira, gradeamentos, muros, etc. ,tudo cedeu à fúria
dominadora e terrível do ciclone. A rêde eléctrica, atingida seriamente, não
permitiu que houvesse luz, na noite dêsse dia , em toda a vila, pelo que Tôrres
Vedras apresentava um aspecto devéras impressionante.
(postal antigo da exploração de Petróleo em Torres Vedras, então ainda apenas com uma torre. No ciclone, as duas Torres então existentes foram derrubadas)
(imagens das torres de prospecção do petróleo em Torres Vedras, derrubadas pelo ciclone)
“Nas freguesias, as sementeiras, encontram-se , na sua grande parte,
perdidas ou gravemente prejudicadas, o que provoca uma situação angustiosa em
todos os meios rurais; e na vila, o campo da Porta da Várzea, o Jardim da Graça
e o Parque da Senhora do Ameal, estão num estado desolador”.
As consulta das actas das reuniões camarárias permitem observar mais em
pormenor a destruição causada pelo ciclone neste concelho (5).
Ao longo de todo o ano são muitas as referências nessas actas às
medidas de recuperação do que foi destruído.
Logo na sessão de 20 de Fevereiro é tomada a decisão de se efectuar uma
vistoria conjunta pela secção de obras da Câmara e pelos Bombeiros torrienses,
por sugestão destes, ao estado das chaminés, fumeiros, paredes, telhados e
empenas que, segundo os Bombeiros, ameaçavam ruir.
Revelador do impacto do ciclone no Parque do Choupal, a acta de 13 de
Março delibera “pôr em arrematação as árvores de madeira de plátano, derrubadas
pelo último ciclone no Parque da Senhora do Ameal”.
Numa acta de 31 de Julho, onde se exara em acta um agradecimento ao
governo pelos subsídios entregues para reparar os estragos causados pelo
ciclone, ficamos a saber de outros estragos : “vários edifícios escolares ,
igrejas, cemitérios, asilo de S. José e Hospital da Misericórdia”.
Praticamente todos os cemitérios
do concelho foram danificados, referindo-se em especial a danificação da casa
do despacho do cemitério da vila (acta de 6 de Novembro).
Há também a referência, na acta de 4 de Dezembro, a um subsidio à empresa “Viúva Cabral, Ldª”
para “matériais para reparação de estragos do ciclone”, surgindo nas actas
seguintes , até ao final do ano, muitas referências a vários particulares que
receberam subsídios para reparar estragos provocados pelo ciclone (José Pedro
Lopes, Florêncio Augusto Chagas (acta 9 de Outubro), José Ferreira Pinto &
Cª, Carlos da Silva Cardoso, Joaquim dos
Santos Pio e José Barreto Garcia (acta de 26 de Dezembro).
Ao todo, e contagem por alto, em subsídios e materiais para reparos, ao
longo do ano foram gastos mais de 20 contos, em moeda antiga.
O prejuízo provocado no total do país ascendeu a mais de um milhão de
contos, metade do orçamento nacional para a época.
(Memorial de homenagem às vítimas da aldeia da Gralheira, no Marão, a aldeia "mais alta do país", onde morreram vários habitantes devido ao ciclone)
A dimensão da tragédia , numa Europa
devastada pela guerra, levou o articulista do jornal torriense a “A Voz do
Concelho”, num editorial intitulado “Depois do ciclone…”, a concluir que, numa “Europa desgraçada, nós eramos,
talvez, uma excepção. Agora, a distância é menor, a excepção menos gritante.
Agora, temos também a nossa guerra - a
guerra pela restauração da nossa economia abalada”. (6).
Notas :
(1)– os
dados gerais sobre a situação do país foram consultados em três estudos
consultáveis on-line: GANHO, Nuno, Riscos de Ventos Tempestuosos de escala
sinóptica em Portugal: análise causal,
s/d, Centro de Estudos de Geografia e
Ordenamento do território; NUNES, Adélia, PINHO, João, GANHO, João, “O
“ciclone” de fevereiro de 1941: análise histórico-geográfica dos seus efeitos
no município de Coimbra”, in Cadernos de Geografia, nº 30/31, 2011/12, FLUC,
Coimbra, pp.53-60;MUIR-WOOD, Robert , The 1941 February 15 th Windstorm in the
Iberica Peninsula, London 2011 (existe versão em espanhol)).
(2)–
Maria Helena Costa Aspra de Matos.
(3)–
Nessa manhã realizou-se o funeral de um jovem torriense, então apenas com 25
anos, José Augusto Estevinha Lopes,
filho do proprietário e notável local José Augusto Lopes Júnior, como se
confirma por notícia de “A Voz do Concelho” de 20 de Fevereiro de 1941.
(4)–
“Diário de Lisboa” de19 de Fevereiro de 1941, pág.7.
(5)–
Actas da Câmara Municipal de 1941, Arquivo Municipal de Torres Vedras.
Agradecemos a colaboração da equipa dessa arquivo na recolha de dados sobre o
tema nessas actas.
(6)– “A
Voz do Concelho”, nº 61, Torres Vedras, 6 de Março de 1941.
(o único filme conhecido sobre o ciclone, mostrando a situação vivida em Santander)