sexta-feira, 28 de outubro de 2016

TORRES VEDRAS E AS MANOBRAS DA 1ª DIVISÃO – OUTUBRO DE 1916


(O general Pereira D'Eça no comando da 1ª Divisão, durante as manobras militares de Outubro de 2016 . Fotografia de Joshua Benoliel na Ilustração Portuguesa , nº555 de 9 de Outubro de 1916)
 
Em Março de 1916 Portugal entrava oficialmente na Primeira Guerra, apesar de já estar envolvido nela desde 1914 na frente Africana.
De imediato se iniciou a mobilização militar e a preparação das tropas para participarem na frente europeia.
Uma das iniciativas com maior impacto na região de Torres Vedras  foi a realização de manobras militares da 1ª Divisão, com cerca de 20 mil homens, comandada pelo General Pereira D’Eça, em Outubro, mostrando a importância militar que a  região ainda tinha, por via das Linhas de Torres Vedras e do caminho-de-ferro.
Um dos momentos altos dessas manobras foi a realização de exercícios de combate junto do Vimeiro.
David Salsa, repórter de “A Capital” descreve o ambiente que se vivia na vila, na véspera da chegada da primeira coluna e do comando da 1ª Divisão, em 7 de Outubro : “na avenida que liga a estação do caminho de ferro ao centro da villa, deparei com um pequeno grupo de officiaes do estado maior. Andavam escolhendo edifício próprio para instalação do quartel  general que dentro em breves dias ali deve chegar.
“Os mesmos officiaes percorreram differentes armazéns e barracões que servissem a arrecadação de subsistências estando também na estação do caminho de ferro, onde o movimento de mercadorias, devido á próxima chegada das tropas, augmentou consideravelmente”, anunciando também que “algumas praças da secção de quartéis de cavallaria 4” estavam acantonados próximo do Turcifal, preparando-se para avançar para Torres Vedras no dia seguinte. (1).
Nas páginas do jornal “Vinha de Torres Vedras” refere-se o inicio da entrada das tropas da 1ª Divisão em Torres Vedras:
“No dia 8 chegaram a esta vila dois pelotões  do primeiro esquadrão de cavalaria 4 , dois do segundo com respectivo estado maior (…) e uma secção de exploração
“Às 9 horas chegaram as primeiras patrulhas que tomaram as embocaduras  das ruas, indo uma até ao Castelo.
“Depois chegou o resto da força composta de 200 praças, 16 sargentos e 42 oficiais, que seguiu em direcção à praça de touros onde bivacou”.
O mesmo articulista informava também que a “Infantaria 5” estava estacionada no Turcifal e “outros regimentos em diversas localidades aqui perto” aguardando-se a sua chegada a Torres Vedras para os dias seguintes, assim como do quartel general “cujos alojamentos para oficiais e secretarias já estão prontos” (2).
O mesmo periódico local descreveu em pormenor a forma como as tropas, após a sus chegada. se distribuíram pela vila:
“O quartel general (…) instalou-se num prédio da rua Valadim (…).
“Na sede da Associação de Socorros Mutuos 24 de Julho, foi montada a estação central de telefones.
“A pagadoria ficou num prédio da rua Paiva de Andrada e o correio militar noutro, à esquina do Largo de S. Tiago.
“Na Porta da Varzea montaram-se os serviços de telegrafia sem fios, parque de automóveis e serviço de saúde . No prédio do sr.José PedroLopes a secção de camions.
“Nos armazéns das Covas, ficaram os depósitos de provisões.
“No campo de S. João foram montados dois hospitais de sangue.
“Na vila acham-se aboletados soldados e oficiais em grande número, e foi interessante e pitoresco o aspecto de Torres Vedras, no domingo de mercado, pela grande quantidade de famílias que vieram visitar oficiais e soldados.
“Os diversos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia acham-se bivacados em roda de Torres Vedras, pelo que se póde  dizer-se  que neste concelho estão concentradas tropas no efectivo de alguns milhares de homens.
“O matadouro  municipal desta vila foi tomado militarmente, não sendo ali abatidas senão rezes da administração militar (…)” (3).
(postal de Torres Vedras de Outubro de 1916, apelando à "mobilização).
 
As manobras militares duraram praticamente todo o mês de Outubro e mereceram a atenção da comunicação social, atraindo vários repórteres a Torres Vedras.
Entre eles o conhecido Júlio Dantas, um dos intelectuais mais consagrados do início do século XX, mas que passou para a história como o personagem caricaturado por Almada Negreiros no célebre “Manifesto Anti-Dantas”.
Deve-se a Júlio Dantas uma das mais pormenorizadas e interessantes descrições sobre as manobras militares neste concelho, onde fez, igualmente, um colorido retrato da paisagem deste concelho.
A reportagem foi publicada originalmente nas páginas do “Primeiro de Janeiro”, transcrita integralmente nas páginas de “A Capital” em 3 de Novembro de 1916 e, seguidamente, nas páginas da “Vinha de Torres Vedras”, na sua edição de 9 de Novembro desse ano, desconhecendo-se a data da visita, mas que terá sido nos finas de Outubro.É desta última versão que reproduzimos alguns trechos desse saboroso texto:
“Partimos de Torres Vedras às 10 da manhã num automóvel do Quartel General. A Divisão Pereira d’Eça estacionava ao norte, dispersa numa extensão de noventa quilómetros quadrados, ao longo de três grandes estradas divergentes. Tomámos pela estrada Torres-Lourinhã-Peniche.
“Uma admirável manhã de outôno, fresca, descoberta de sol, viçosa ainda dos chuveiros asperos da noite. Enquanto o focinho de ferro do Hudson cortava o ar, a brava paisagem estremenha ía-se desdobrando em lombas de pinhal e em chãos de vinhedo, luminosa, fecunda, gotejante de orvalho – para um lado até às arribas do oceano, raza de névoa; para o outro, de ondulação em ondulação, de montanha em montanha, até à serrania azul de Monte-Junto. A atmosfera scintilava. Passavam carros de lenha a caminho dos bivaques. De vez em quando, à beira da estrada, vermelho, fumegante, enorme, pojava o mamilo de barro dum forno de tijolo.
“Vinte minutos depois, estávamos em Paio Correia – uma mão cheia de casinholas caiadas. Perto, um veio de agua espelhava: era o Alcobrichel [sic]. Numa terra ceifada, como pinceladas de oiro, alastravam as tendas do primeiro bivaque: era o batalhão de infantaria 11. Começava a subir o fumo das cosinhas [sic].  Um carro alentejano despejava pão. (…) Bandos de soldados, risonhos, tisnados, uma toalha branca ao pescoço, vinham de lavar-se no ribeiro .(…) “Seguimos. A estrada abria-se agora entre pinhais bravos (…); corria entre vinhas e vindimadas, onde fossavam e farejavam cães; talhava-se mais adiante, entre tratos de terra barrenta, cavada de barrocais, borbulhentos de cascalho, onde o automóvel saltava como uma péla. Principiaram a alvejar  (…) umas casas de adobe caiado. Era “A dos Cunhados”, centro de abastecimento, coalhado de carros de bois e de camions militares (…). Andando o casario, num campo á mão esquerda, estendia-se o bivaque do 3º grupo de baterias divisionárias (artilharia 3), numa grande mancha ruiva e buliçosa de gado (…). Dois soldados, a cara lambuzada de sabão, faziam  a barba, á beira da estrada. Uma nuvem de pardais atravessou diante do automóvel cujo leve chassis americano saltava, estremecia, devorava caminho a favor do vento. Principiava agora a região de grandes vinhedos. Ao longe, na encosta, matinando sinos, um povoado alegre branquejava: era o Sobreiro Curvo. De novo os pinhais ramalhavam; de novo surgiram os fornos de telha (…) e a primeira casa do Vimeiro (…). Estavam ali duas formações sanitárias – a ambulância nº2 e uma coluna de transportes - ; e, mais adiante, num vasto campo, perto das aguas lampejantes da Maceira, os dois batalhões de infantaria 1. Sentia-se já o ar do mar. A paisagem tinha agora uma expressão barbara de aridez, com as suas terras escalvadas, os seus pinhais longínquos ao nascente, as suas moitas cheirosas do alecrim bravo, rescendendo á beira da estrada. Quando chegámos a Toledo, em cujas casas se encontravam acantonados os sapadores mineiros, arrepiámos caminho, deixámos á mão esquerda Cabeça Gorda e o Casal do Grilo, voltámos a Paio Corrêa – e cortando a direito, entre sobreiros descascados e sangrentos, metemos à estrada das Caldas. Pouco depois, entravamos no Amial. Um povoado branco, alegre, cheirando a mosto, com as suas hortas verdes, o seus carinhosos beirais pojando de aboboras doiradas  (…). Logo adiante, (…) subindo por uma encosta de pinhal, um vasto bivaque de três batalhões, infantaria 16 e 17 (…) o Hudson do general seguiu, a direito do Ramalhal, onde vimos infantaria 5 e metralhadoras; daí para a Bogalheira, mais ao norte, onde em volta de um velho casal amarelo bivacava o 2º grupo de baterias divisionárias (artilharia 1); outra vez arrepiámos caminho, para alcançar a estrada Torres – Cadaval; metemos a um desvio aberto a picareta, numas terras barrentas; seguimos até Ermijeira, por entre grandes chãos de vinha, onde pareciam escorrer, ao sol, babas vermelhas de cobre; entramos na Quinta do Visconde, estacionamento de uma formação sanitária com tendas Bussoneau armadas; e, pela estrada do Cadaval adiante, entre barricas de mosto e carros de bois, jumentos bíblicos e cães hirsutos como lobos (…) chegámos ao Maxial, onde estacionava o 1º grupo de baterias; atingimos Malpique e a Mecejana, por cujas terras se estendiam, num mancha fulva  de tendas e de gado, o bivaque do 2 e a bela tropa algarvia de infantaria 4.
“Tínhamos percorrido, em três horas, uma extensão de 15 quilómetros (…) Quando chegámos a Torres, a poeira sufocava-nos, o sol ardia-nos a pela. É 1 hora da tarde”.
Os vários corpos de tropas da 1ª Divisão continuaram em manobras, entre  Torres Vedras e Caldas da Rainha, até ao principio de Novembro.
Já próximo dos finais de Outubro, numa correspondência datada do Ramalhal do dia 25, o repórter David Salsa de “A Capital” anunciava que “a testa da divisão, com as competentes patrulhas de exploração de cavalaria 4 e 5, sob o comando do sr.capitão Madureira está em Bombarral”, prevendo-se que avançasse daí S. Martinho do Porto, ultrapassando Caldas da Rainha, enquanto “o grosso da columna ultrapassasse já o Ramalhal, onde acantonam as forças de artilharia e infantaria”.
De Torres Vedras, onde ficou a “secção administrativa”, partiam todas as manhãs, o “comboio de abastecimento de víveres para Outeiro da Cabeça, Ramalhal e Bombarral, transportando os camions pão em grande quantidade que a Manutenção Militar fornece (…) além de outros comestíveis, predominando as conservas e as carnes frescas” (4).
A retirada da 1ª Divisão para Lisboa, encerrando as manobras militares, estava prevista para 8 de Novembro, mas foi antecipada para dia quatro, devido “ao mau tempo”.
Só no inicio de 1917 partiriam os primeiros contingentes para a Frente Ocidental.
As manobras militares da 1ª Divisão foram o mais próximo que os habitantes de Torres Vedras estiveram do ambiente da Primeira Guerra.
(1)    SALSA, David, “Nos campos de concentração –Os exercícios de combate nas linhas de Torres”, in “A Capital” de 8 de Outubro de 1916, pág.2;
(2)    “Vinha de Torres Vedras”  de 12 de Outubro de 1916;
(3)    “Vinha de Torres Vedras” de 19 de Outubro de 1916;
(4)    SALSA, David, “As Manobras da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 27 de Outubro de 1916, pág.2;
(5)    In “Mobilisação da 1ª Divisão”, in “A Capital” de 4 de Novembro de 1916, pág.2.
(um resumo deste texto foi publicado nas páginas do jornal Badaladas na sua edição de 21 de Outubro de 2016)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Começam hoje as Festas da Cidade de Torres Vedras

Festas da Cidade de Torres Vedras: São Gonçalo de Lagos e São Martinho voltam a dar as mãos para acolher as Festas da Cidade de Torres Vedras que terão a sua décima terceira edição, a decorrer a partir de 27 de outubro (dia dedicado a este primeiro santo), e estendendo-se para além do dia dedicado ao segundo (terminando a 12 de Novembro).
 
Integrada nas festas está mais uma edição de "Acordeões do Mundo" (clicar para ver programa).

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Torres Vedras Há 55 Anos , em Outubro de 1961


Outubro de 1961
Prestes a terminar um ano charneira para a história do regime salazarista…
De facto, esse ano assinalou o início da guerrilha angolana, marcado por massacres de parte a parte, entre os africanos comandados por Holden Roberto e os brancos defensores do colonialismo.
Por cá, nessa altura, já o “Badaladas” se editava semanalmente.
Era notória o impacto dos acontecimentos “ultramarinos” nas páginas do jornal torriense, nos artigos de opinião de “notáveis” da terra em defesa do governo e na rubrica “Correio do Ultramar”, onde os jovens torrienses que partiam para a guerra em África comunicavam com familiares e amigos.
Aliás, a leitura atenta dessa correspondência, regularmente publicada nas página desse periódico local, é um documento fundamental para se conhecer o reflexo da guerra colonial entre a população torriense, nomeadamente entre a juventude que partia para essa guerra, à espera de quem as estude.
Por cá, no dia 9 de Outubro, era apresentado publicamente o “Rancho Folclórico do Varatojo”, formado no seio da Associação Cultural e de Beneficência de Santo António do Varatojo.
Em 10 de Outubro falecia um dos professores mais prestigiados da Escola Secundária de Torres Vedras, António Fivelim Costa, aos 67 anos.
No dia 16 de Outubro realizou-se a 1ª Feira de S. Gonçalo de Lagos, padroeiro de Torres Vedras, que coincidiu com a habitual feira mensal na última segunda-feira de cada mês.
A feira teve lugar na Porta da Várzea e incluiu a bênção do gado e a escolha dos melhores cavalo e égua, junta de bois e parelha de muares, com distribuição de prémios aos vencedores.
A Banda dos Bombeiros de Torres Vedras animou essa noite, actuando no Largo da Graça.
Nesse mesmo Largo da Graça teve lugar a inauguração, nesse mesmo mês de Outubro, da nova sede do jornal “Badaladas”, no sítio onde funcionou até há poucos anos.
A vida cultural torriense era então marcada pelas actividades do Cine Clube de Torres Vedras e pelo Suplemento Cultural do jornal “Badaladas”, com publicação mensal e de grande qualidade, quer gráfica, quer de conteúdo.
Na edição de Outubro desse mesmo suplemento António Augusto Sales entrevistava o Grupo de Teatro Procenium e Cordeiro Melo analisava a “Guernica de Picasso”, enquanto Claro Ceia e Ruy de Moura Guedes divulgavam os seus originais.
Mas a notícia mais importante desse suplemento era a referente à presença em Torres Vedras do Coro da Academia de Amadores de Música dirigido por Fernando Lopes Graça, uma iniciativa do Cine clube local e que muito preocupou o establishement ligado ao Estado Novo, cada vez mais preocupado com as iniciativas “subversivas” dessa associação.
António Augusto Sales, um dos torrienses de então mais tento à realidade local, publicou em 28 de Outubro, nas páginas do “Badaladas”, uma Carta Aberta à Comissão Municipal de Turismo, criticando as condições dos balneários da Praia de Santa Cruz, carta que fez corres muita tinta por parte de uma administração municipal pouco habituada a ouvir críticas sobre a sua actuação, numa época em que fazê-las era perigoso.
Foi assim o mês de Outubro de 1961, há 55 anos.
(texto baseado numa crónica lida em 1986 numa rubrica da Rádio Extremadura intitulada “Aconteceu no Oeste”).

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Este Sábado : Lançamento de "As Linhas de Torres Vedras"

LANÇAMENTO de “AS LINHAS DE TORRES VEDRAS”, de CARLOS MANUEL ANTUNES BERNARDES – SÁBADO, 8 de OUTUBRO, às 18 horas, na COOPERATIVA DE COMUNICAÇÃO E CULTURA, Rua da CRUZ, 13, TORRES VEDRAS.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma descrição de Torres Vedras em 1906 (1)


Gabriel Pereira, intelectual de mérito na transição do século XIX para o século XX, tradutor de clássicos gregos e latinos e director da Biblioteca Nacional entre 1888 e 1902, dedicou os últimos anos da sua vida a descobrir o património da região à volta de Lisboa.
Desta sua curiosidade nasceu uma obra, editada em 1910, intitulada “Pelos subúrbios e visinhanças de Lisboa”, onde dedicou um capítulo a Torres Vedras (“Torres Vedras – Notas d’arte e arqueologia”(2)).
Este capítulo foi escrito em 1906 e, segundo se percebe pela sua leitura, teve por base várias visitas aqui efectuadas em 1904 e 1905, ao que parece para fazer tratamento termal nos Cucos.
O mérito dessa obra reside no facto de a sua descrição se basear na observação directa e não na mera readaptação da obra de referência de Madeira Torres, como aconteceu com outros autores desse período.
Ao longo de vários sub-capítulos vai descrevendo os motivos de interesse que encontrou no património local, destacando-se a sua descrição de usos e costumes da época.
Nessa obra foram abordados vários temas:
- “Painéis antigos em Torres Vedras”, sobre as pinturas antigas que encontrou nas Igrejas da vila e no Varatojo;
- “O Túmulo dos Perestrellos”, existente na Igreja de S. Pedro;
- “Capiteis românicos”, da Igreja de Stª Maria do Castelo;
-“Ermida e forte de S. Vicente”, falando das Linhas de Torres e registando as “vistas variadas da villa”, a partir desse lugar, “que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjunto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicados de casaes”;
-“Imagens dos Santo”, descrevendo algumas que encontrou em Igrejas da vila e no Varatojo;
- “Uma cadeira do século XV”, sobre a célebre cadeira atribuída ao uso de D. Afonso V quando estava no Convento do Varatojo, então ainda neste lugar, hoje no Museu de Arte Antiga em Lisboa;
-“Brasões da Villa”, descrevendo os três que encontrou na Câmara, no Chafariz dos Canos e na Fonte Nova;
- “Archivos – Camara, Misericordia , Egreja de Santa Maria”, um dos capítulos mais interessantes, pois permite redescobrir alguns documentos ainda hoje pouco conhecidos da maior parte do público, a maior parte, felizmente, actualmente preservados, quer no novo espaço do Arquivo Municipal, quer no Arquivo da Misericórdia;
- “No Varatojo”, onde faz um levantamento de inscrições e pinturas então aí existentes, um “bello sitio para dulcificar maguas e sossegar corações atribullados”;
- “Uma inscrição moderna”, relativa ao túmulo de Luís Mouzinho de Albuquerque na Igreja de S. Pedro;
- “Sinos”, os de S.Pedro;
- “Quinta das Lapas”, onde o autor faz uma pormenorizada descrição da paisagem ao longo do caminho que liga a vila àquela Quinta, “por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas”, antes de descrever a Quinta, a sua arquitectura e o seu jardim, num dos capítulos mais desenvolvidos;
- “A caminho dos Cucos”, elogiando as qualidades das suas àguas, nomeadamente as de mesa que o autor refere como “não bebendo outra” durante a sua estadia;
- “Casa dos Clérigos pobres”, então estruturalmente separada da Igreja de S. Pedro, destacando os seus azulejos e o seu tecto pintado com as figuras dos quatro evangelistas;
- “O Asylo da Conquinha” (actual Lar de S. José), então de inauguração recente,  distante, “vinte minutos de agradável passeio a pé” da  vila, seguindo-se “a estrada da Varzea” através de uma “amplo valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos” e “bello vinhedos”;
- “Ruços, além”, descrevendo o famoso “conselho de Ceuta” de 1414;
Para o fim, aqueles se são os mais pitorescos capítulos, e interessantes do ponto de vista documental, com descrições saborosas da vida e da paisagem local :
- “Passeio a Santa Cruz de Ribamar”, a descrição que o autor fez de uma viagem “em commodo trem” até àquela praia, no dia 27 de Setembro de 1905, já por nós usada em crónica anterior, passando por “campos animados”  e “estradas concorridas”, uma “festa”, “a grande festa das vindimas” e onde se encontra uma referência a um “grande rochedo alteroso” que se “destaca na praia” o Penedo do Guincho, que o autor refere como tendo sido “acessível em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha” (?);
- “Na missa e no mercado”, com uma curiosa descrição da missa à qual o autor assistiu na Igreja de S. Pedro, num domingo, 14 de Agosto de 1904. Parado à porta da Igreja o autor anotou “o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa (…) Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparável”. Na mesma ocasião realizava-se o mercado, no “terreiro próximo da egreja”, onde se vendiam,  “melões, melancias, uvas lindas, brunhos vários, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça”. Atrás da Igreja ficava o mercado do peixe, onde se vendiam “sardinhas e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes”. Num “cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura”, notando o autor que “o povo d’estes sítios é calçado”. Nesse Domingo era grande a “freguesia” pelas lojas da vila, próximas da Igreja”, registando o autor a existência de uma “industria de ferragens e mobilia especial, com muito geito”.
Por último, o autor regista “A feira franca” que se realizou em 21 de Agosto de 1904, na varzea, onde, na “parte arborizada enfileiram-se barracas e tendas” e, “no rocio nú é  feira de gados e a corredoura”, barracas de ourivesaria, de utensílios de “arame, cobre, ferro entanhado, latoaria”, de vidro, “perto do grande estendal de louças brancas e vermelhas”, notando-se ainda a presença de “um especialista de buzinas de moinhos de vento”. Vende-se ainda “calçado grosso, bastante correaria”, pequenas “quinquilherias”,vendas de madeira,  material “vinário”, carros para bois. Podem ainda ver-se “modestas roletas” e ,”leiloeiros de várias qualidades”, chamando “a gritos a atenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo”. Já a feira de gado pareceu ao autor menos importante, parecendo-lhe “em geral mal tratado”, mais “ a pancada que a alimentação regular”.
Enfim, este é uma das obras mais interessantes, não tanto pela informação histórica, mas pelo retrato pitoresco de uma época.
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(1) - PEREIRA, Gabriel, Pelos Suburbios e vizinhanças de Lisboa, Lisboa, 1910, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira e Cª, 1910 (texto publicado na secção "Vedrografias" do Jornal "Badaladas" de 23 de Setembro de 2016);
(2) – PP.253 a 305.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Estudo histórico-arquitectónico sobre a Casa Senhorial torriense

Esta obra foi lançada em Torres Vedras em Abril do corrente ano, mas só agora tomei conhecimento da sua edição.
Despertou-me a atenção a capa, uma fotografia da Quinta das Lapas, numa montra da livraria Ferin, em Lisboa.
 
A obra foi editada em Novembro do ano passado pela editora Caleidoscópio e analisa um tema raramente investigado neste concelho, a não ser de forma isolada e meramente descritiva, que é a interpretação arquitectónica e histórica das casa senhoriais da região.
 
O concelho é rico nesse tipo de património, situação que não passou despercebida a uma das autoras, Ana Feliciano, nascida em Torres Vedras e que trabalhou na Câmara de Torres Vedras, leccionando actualmente na Faculdade de Arquitectura, onde leciona igualmente o outro autor do livro, António Miguel Leite (ler biografias no final).
 
O livro faz a contextualização artística, arquitectónica e histórica das casas senhoriais deste concelho, incluindo várias dezenas de fotografias e gravuras para ilustrar o tema.
 
Relativamente ao concelho torriense encontramos referências à Quinta de Santa Margarida no Varatojo, que merece atenção em dois capítulos deste livro, a Quinta da Cadriceira e a Quinta Da Conceição, ambas estudadas mais em pormenor em capítulo próprio, a Quinta de A-Da-Rainha,  a Quinta do Calvel, as Quintas Nova e do Juncal, a Quinta das Lapas, também com capítulo próprio, e um capítulo próprio sobre as várias Quintas existentes junto à localidade do Turcifal.
Para aguçar o interesse dos interessados, em baixo transcrevemos as notas de apresentação publicadas na página da Câmara Municipal de Torres Vedras, por ocasião do lançamento do livro nesta cidade em Abril passado:
“A síntese que agora se publica, “A Casa Senhorial como Matriz da Territorialidade; A Região de Torres Vedras entre o Tempo Medieval e o Final do Antigo Regime”, que enquadra o enorme período que abrange desde o Tempo Medieval até ao final do Antigo Regime, destaca como expressão principal da investigação o significado específico da Casa Senhorial como matriz identitária estruturadora do habitar e do território.
 
“Deste modo, a investigação fez emergir desde o seu início a ideia totalizadora e simbiótica que integra a casa senhorial, paradigmática da construção e organização de uma primária territorialidade, como um todo amplo e contínuo, um todo culturalmente orgânico que tende apenas a poder explicar-se pelas suas múltiplas permeabilidades fácticas e funcionais, realidades essas marcadas pelas inevitáveis circunstancialidades e pragmatismos próprios de uma adaptação contínua às mudanças de tempos e à ausência de uma estrita linearidade racional dos percursos da História.
 
“Assim, constata-se hoje a importância da compreensão destas ‘casas’ para o entendimento da caracterização dos territórios e das paisagens que tenderam a estruturar, realidade que se revela no presente, seja num entendimento historiográfico, seja num mais amplo contexto cultural, fundamental para preservar e potenciar o efectivo capital de memória e identidade que lhes está matricialmente implícito. Na verdade, num tempo em que se valorizam cada vez mais as diferenças e as identidades culturais, a compreensão do significado matricial das casas senhoriais como realidades estruturadoras do território, abre-nos um maior conhecimento sobre o seu significado, realidade que poderá contribuir para uma reflexão mais profunda e para o apontar de caminhos mais operativos para uma efectiva valorização do património, realidade que é hoje, indiscutivelmente, um dos temas centrais de uma qualquer política cultural e um dos modos mais sustentáveis de construir um verdadeiro futuro. 
“Nota Biográfica dos autores
“ANTÓNIO MIGUEL NEVES DA SILVA SANTOS LEITE, Lisboa 1966
Arquitecto, Professor Doutor da FAUL
“Licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa em 1995, colaborou com o Arq. Victor Figueiredo entre 1993 e 1997 exercendo também, desde 1995, actividade profissional, sendo responsável por diversos projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa o grau de Mestre em Arquitectura de Habitação, com a Tese “A Influência do Romantismo Alemão no Espaço Arquitectónico, Procura de um Entendimento Crítico de uma Casa Romântica nos seus Múltiplos Significados” e entre 2003 e 2007 foi Bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia, obtendo em 2008 o grau de ‘Doutor Europeu’ conferido pela Universidad Politecnica de Madrid, com a defesa da tese “La Casa Romántica; de la Matriz Romántica a un Concepto Acrónico y Operativo en la Contemporaneidad”.
 
“É docente e investigador da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa desde o ano lectivo de 1996/1997, onde tem leccionado disciplinas teórico-práticas de Projecto de Arquitectura tendo orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de Urbanismo e Arquitectura.
“Escreve para publicações de Arte e Arquitectura, das quais se destaca a publicação em 2014 do Livro “A Casa Romântica; uma Matriz para a Contemporaneidade”.
 
“É actualmente investigador do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como principais temas de investigação a Arquitectura Experimental, a Habitação e a Casa Individual, bem como se interessa especificamente sobre os processos e metodologias de Reabilitação Urbana e Arquitectónica como processo de valorização do Património, condição que assume como desencadeante de uma efectiva sustentabilidade sociocultural.
“ANA MARTA DAS NEVES SANTOS FELICIANO, Torres Vedras 1971

Arquitecta, Professora Doutora da FAUTL
“Natural de Torres Vedras, licenciou-se em 1995 em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), trabalhou na Camara Municipal de Torres Vedras entre 1996 e 1997, exercendo também actividade profissional tendo sido responsável por projectos de Arquitectura e Urbanismo e por participações premiadas em concursos de arquitectura nacionais e estrangeiros.
“Em 2001 obteve o grau de mestre no 2º Curso de Mestrado em Arquitectura da Habitação da FAUTL, com a defesa da dissertação “Habitação e Utopia nos Anos Sessenta; As Propostas do Grupo Archigram no Contexto de uma Década de Rupturas”.
“Entre 2003 e 2007 foi bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia e frequentou o Curso de Doutoramento Teoría y Practica del Proyecto do Departamento de Proyectos Arquitectónicos da Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad Politécnica de Madrid, onde obteve o Doutoramento Europeu em Arquitectura com a defesa da tese “La Metáfora del Organismo en las Arquitecturas Visionarias de los Años Sessenta; La Obra del Grupo Archigram como Reinvención de un Nuevo Habitar”.
“Desde o ano lectivo de 1997 é docente e investigadora da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa onde lecciona disciplinas de Projecto de Arquitectura, publicando regularmente em revistas e livros de Arquitectura e Urbanismo, bem como tem orientado em Portugal e no estrangeiro seminários e workshops de projecto de arquitectura.
“Entre as suas publicações destaca-se a publicação em 2014 do Livro “A Metáfora do Organismo nas Arquitecturas dos Anos Sessenta; a Obra dos ‘Archigram’ como Manifesto de um Novo Habitar”.
“A autora é igualmente investigadora efectiva do Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design e tem como actuais interesses de investigação a Reabilitação Urbana e Arquitectónica, a Arquitectura Experimental e a Casa e a Habitação num contexto culturalmente alargado.”

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Novas edições de "CLIC", a revista torriense on-line (nº 3 e nº4)

Estas são as últimas edições da revista torriense on-line "CLIC" (podem ser consultadas clicando no endereços em baixo):

 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Santra Cruz de outros tempos, no postal ilustrado

Aqui reproduzimos pouco mais de uma vintena de postais que mostram Santa Cruz de outros tempos (entre os finais do século XIX e a primeira metade do século XX).
 
Fazem parte de uma colecção pessoal que conta com algumas centenas de postais.
 
Não reproduzo todos os mais antigos ou raros, mas apena aqueles que já digitalizei.
 

























 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Avião de Sanjurjo em Santa Cruz (19 e 20 de Julho de 1936)

(A fotografia em cima mostra o meu avô, António Ferreira Aspra, fotografado junto ao avião de Sanjurjo, no campo de aviação de Santa Cruz, fotografia que terá sido tirada a 19 ou 20 de Julho de 1936).
 
No dia 19 de Julho de 1936, Domingo, um avião pilotado por um ás da aviação espanhola, Juan Ansaldo, aterrava, semi-clandestinamente no campo de aviação de Santa Cruz.
 
Trazia uma missão, ir buscar a Cascais o General Sanjurjo para este comandar a sublevação iniciada dois dias antes em Marrocos contra o governo republicano de Madrid.
 
Esse episódio marcou a memória colectiva dos torrienses desse tempo, até pelo desfecho trágico desse voo.
 
No primeiro fim-de-semana do conflito, os “naciolalistas” estavam separados, ocupando Marrocos e as Canárias, o Sul à volta de Sevilha, cidade tomada pelo General Queipo de Llano, e o Norte (Galiza e Castela e Leão).
 
Estava-se no início da Guerra Civil de Espanha, que se prolongou até 1939 e que, lançando a Espanha num banho de sangue, é por muitos considerada um ensaio geral para a IIª Guerra Mundial.
 
Embora o líder máximo fosse o Genaral Mola, o objectivo era colocar rapidamente à frente dos nacionalistas um General mais prestigiado , o General Sanjurjo, que , no seu exilio português, em Cascais, acompanhava e era informado à distância sobre os acontecimentos.
 
Para isso Mola enviou a Portugal um herói da aviação espanhola, Juan Ansaldo, que partiu de Pamplona para Portugal no dia 19 de Julho chegando nesse mesmo dia ao "campo de aviação auxiliar de Santa Cruz, no limite ocidental da Europa" , que "acolhe docemente o avião", um "Pass Moth" com a matricula EC-VAA. (4).
 
Ao aterrar no campo de aviação de Santa Cruz era aguardado por dois automóveis, onde encontra um seu velho amigo, "Tavares", recebendo a notícia, que se confirma ser falsa, segundo a qual o general Sanjurjo já tinha partido para "Burgos a bordo de um avião francês".
 
Seguindo a narração de Ansaldo, este, tomando todas as precauções para abrigar o avião porque "não existia nesse aeródromo nenhum serviço de sobrevivência [apoio]" (pág.51), partiu de seguida para Lisboa, a caminho do Estoril, numa das viaturas que o aguardavam, confirmando, á sua chegada ao Estoril, que o general continuava nessa localidade.
 
Foi aí que se negociou uma saída airosa que não comprometesse o regime português face a um desfecho ainda imprevisível da situação em Espanhola, assim descrita por César de Oliveira:
 
 “Ansaldo vinha buscar Sanjurjo para o transportar para Burgos, a fim de que este assumisse a chefia do movimento militar. Chegado a Portugal, Ansaldo, com o apoio da PVDE e do ajudante de campo do Presidente da República portuguesa, iniciou a preparação da descolagem do avião em direcção a Burgos. No entanto, Oliveira Salazar fez saber aos emigrados espanhóis, por intermédio do capitão Agostinho Lourenço, director da polícia política, que “interditava o uso de aeródromos militares para a descolagem do avião mas que nada tinha a ver com o que se passava em aeródromos civis”. Em reuniões sucessivas no Estoril – e sempre com o ajudante de campo do Presidente Carmona a fazer as ligações entre os emigrados espanhóis e as autoridades portuguesas - chegou-se a uma solução satisfatória para o lder do Alzamento e que “cobria” eventuais complicações para o governo de Salazar: o avião iria de Santa Cruz para Alverca. Aeródromo militar a 20 Km de Lisboa, aí seria reabastecido e deslocaria normalmente como se o fizesse para Espanha; aterraria, depois, num campo improvisado nas imediações de Cascais e aí embarcaria o general e rumaria a Burgos” (2) .
 
Nessa noite do dia 19,  Ansaldo recebeu um telefonema que o inquietou: era uma chamada de Santa Cruz que o informava que "elementos comunistas andavam à volta do avião", apelando para que tomasse todas as providências para se evitar qualquer "sabotagem". Ansaldo ficou indignado com o facto de "tais elementos" serem deixados em liberdade pela ditadura portuguesa e mandou que guardassem o avião. Depois de vários telefonemas, Ansaldo recebeu finalmente a confirmação de que tudo tinha sido feito de acordo com as suas ordens para resguardar o aparelho (pág.53).
 
É neste ponto que a referência de Ansaldo à presença de gente da oposição (que ele designa como "comunistas", mas que podiam ser outros oposicionistas, como era o caso de dois elementos da maçonaria local que lá estiveram), se cruza com a tradição oral local,segundo a qual teria havido uma tentativa, em Santa Cruz, de sabotar o avião.
 
A aplicação da classificação de "comunistas" às pessoas da oposição ou desafectas ao regime era uma designação normal na propaganda da época, e que englobaria todos aqueles que se opunham ao regime.
 
Curiosamente o próprio Ansaldo, que mais tarde, tendo entrado em dissidência como regime franquista, foi obrigado a exilar-se, sendo no exilio que escreveu e editou as suas memórias , no prefácio da segunda edição da sua obra, se queixava do "regime franquista com a sua táctica, infelizmente hoje copiada por outros países, de chamar comunista a quem se recuse a ser seu escravo", tentando assim,  "caluniar o autor "(pág.9).
 
Segundo o testemunho de tradição oral que recolhemos, em “segundas àguas”, vários elementos da oposição republicana  local tinham estado em Santa Cruz a tentar sabotar o avião de Ansaldo. Para isso tentaram desviar as atenções dos elementos da GNR que guardavam o avião.
 
Uns levaram os elementos da GNR a "tomar um copo", enquanto outros, à volta do avião, momentâneamente sem vigilância, tentavam sabotar o avião, pulando sobre ele ou tentando danificar partes do avião.
 
Contudo, para grande surpresa dos "sabotadores" de Santa Cruz o avião acabaria por levantar voo, sem qualquer problema. Recorde-se aqui que a intenção manifestada pelos sabotadores, não era matar ninguém, mas apenas atrasar o voo e a saida de Sanjurjo do país.
 
Por isso terão ficado aterrorizados quando, horas mais tarde, souberam do acidente que matou o general Sanjurjo e guardaram segredo da sua actuação.
 
Entretanto continuamos a narração de Ansaldo:
 
Saindo do Estoril a caminho de Santa Cruz, refere que o"pior inimigo da navegação aérea apareceu nessa manhã de um 20 de Julho, meridional e quente: o nevoeiro. À medida que nos aproximávamos de Santa Cruz, ele tornava-se mais denso, escondendo o sol, tornando mesmo difícil avançar pela estrada. Das 10 horas da manhã às duas horas da tarde eu esperei furioso. De tempos a tempos, um pálido reflexo de sol brilhava no terreno e eu punha os motores em marcha; logo de seguida a neblina espalhava-se tão baixo que não nos conseguíamos ver uns aos outros. Telefonei várias vezes para o Estoril para explicar o que se passava; respondiam-me que o general me esperava com alguns amigos(...)".
 
Finalmente, por volta da uma hora e meia da tarde "como as condições atmosféricas íam de mal a pior, eu decidi adiar o voo" . Estando a almoçar, uma hora mais tarde "o nevoeiro dissipou-se. Com toda a pressa corri para o avião, pus o motor em marcha e descolei para Alverca".
 
 Acompanhou-o no voo um elemento da PVDE. Em Alverca tratou das formalidades e partiu, a meio da tarde para "a Marinha", o campo improvisado onde iria embarcar Sanjurjo.
 
Em Cascais, nesse dia 20 de Julho, já no início da tarde, o avião levantou voo , mas não conseguiu subir o suficiente, pelo que Ansaldo tentou regressar à pista, mas o avião acabou por se esmagar contra o solo, incendiando-se. O piloto foi cuspido e sobreviveu ao acidente, mas o general morreu logo no embate, ficando depois o seu corpo envolvido pelas chamas.
 
A edição do Diário de Lisboa de 21 de Julho descreve as explicações de Ansaldo sobre o acidente:
“Ao levantar voo, um forte torrão, dos que abundam no local, ou uma cova, causou a rotura da hélice. Senti que o aparelho ia afocinhar mas consegui manter a horisontalidade. A queda inevitável foi, assim, em pleno, de “barriga”. Gritei ao general que saísse do aparelho. Não me respondeu. Tentei ajuda-lo, mas não se movia. Julguei que havia perdido os sentidos, como eu depois os perdi ante a tragédia e os baldados esforços que fiz para a evitar. Mas não, o general estava morto. Quando as chamas o envolveram já estava insensível”.
 
O piloto desmentia assim a descrição feita por alguns observadores, que diziam ter visto o avião a cair na vertical, bem como a ideia, que continuou muito divulgada, segundo a qual o general tinha morrido queimado. Como revelou nessa mesma reportagem o marquês de Quintana,que observou o cadáver do general , este apresentava uma “ferida profunda, em cruz, que deve ter sido produzida por um ferro do aparelho, no momento da queda e que lhe deu morte imediata”. (5).
 
Logo correram rumores sobre a hipótese de um atentado, inicialmente atribuído aos republicanos portugueses, mais tarde, e perante o desenrolar dos acontecimentos em Espanha, atribuído a Franco, já que foi este que acabou por beneficiar com a morte de Sanjurjo (6), sucedendo-lhe na liderança dos nacionalistas, rumor que ganhou maior peso quando, no ano seguinte, também o general Mola morreu noutro acidente de avião mal esclarecido.
 
Contudo, em termos oficiais, e com base no testemunho do piloto, o acidente foi atribuído ao excesso de carga e às más condições da pista de Cascais.
 
A tese de atentado foi descartada pelo próprio piloto, apontando outras razões para o mesmo: as más condições da pista da Marinha, o tempo que obrigou a levantar na direcção mais difícil e o excesso de carga com as malas que o general Sanjujo quis levar.
 
Técnicamente o avião não conseguiu ganhar velocidade suficiente para sobrevoar as árvores que se encontravam no final da pista e a hélice falhou e partiu-se, não se sabe por ter embatido numa árvore se por qualquer problema técnico.
 
Geralmente um acidente acontece porque se combinam vários factores. Os "sabotadores" de Santa Cruz, a ser verdade a tradição oral, não foram os responsáveis directos por qualquer falha técnica, mas nunca se virá a saber se contribuiram para potenciar as dificuldades técnicas que levaram o avião a não conseguir ganhar altitude no voo fatal.
 
Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas.
 
Especula-se muito com o que teria acontecido se o general Sanjurjo tivesse chegado vivo a Espanha.
 
Uma das consequências seria o facto de o General Franco não aceder tão fácilmente à liderança do movimeto nacionalista.
 
Depois, se fosse o general Sanjurjo a liderar a Espanha durante a segunda Guerra mundial talvez  a posição da Espanha no conflito tivesse sido diferente, já que se conhece a maior simpatia de Sanjurjo por Hitler, maior do que aquela que era nutrida por Franco.
 
Mais do que certezas, a história que aqui se conta continua envolta em mistério e duvidas, as quais provávelmente, nunca virão a ser cabalmente esclarecidas.
NOTAS:
(1) – ORNELLAS, Carlos d’ , “Por Espanha – Crónica de viagem”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1552, Lisboa, 16 de Agosto de 1952, pp. 227-228, edição disponibilizada na internet, no site da Hemeroteca de Lisboa;
(2) – OLIVEIRA, César, Salazar e a Guerra Civil de Espanha, ed. O Jornal, Lisboa 1987, pp.141-142;
(3) ANSALDO, Juan Antonio, Mémoires d'un Monarchiste Esoagnol , 1931-1952 (tradução de Jean Viet), Mónaco, Éditions du Rocher, 1953. (Trata-se da tradução do seu primeiro livro de memórias publicado originalmente em espanhol em Buenos Aires, pela editora Vasca Ekin).Nesse livro as paginas 50 a 57 são dedicadas à sua malograda viagem a Portugal, falando da sua passagem por Santa Cruz.
(4) Site  Aeropinakes / La máquina de la civilización, dedicado à história da aviação na Guerra Civil de Espanha.Também no site "Registro de aviones comerciales en Espana" - http://www.sbhac.net/Republica/Fuerzas/FARE/Materiales/Registro.htm , onde se pode ler o seguinte registo: "EC-VAA -  DH.80A Puss Moth 2246 G-ACBL EC-W18 EC-VAA Teodoro Martel Olivares > Francisco Moreno 27.01.34 Written off Cascais 20.07.36 Canc 12.11.40 EC-VAV” .
(5)  Diário de Lisboa, edição de 21 de Julho de 1936, edição disponibilizada na internet, no site da Fundação Mário Soares.
(6) É esta a tese escolhida no recentemente editado romance histórico “O Nosso Homem no Estoril” que defende que o avião teria sido sabotado, não em Santa Cruz, mas durante a sua escala em Alverca.
 
Podem ver mais sobre o tema AQUI.
(um resumo deste texto foi publicado no jornal Badaladas no passado dia 22 de Julho de 2016).