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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

1846 – Os horrores da Guerra em Torres Vedras


Ao longo da sua História, a população de Torres Vedras assistiu e foi vítima de muitos conflitos militares, até porque deve muito da sua existência à importância estratégica da região em relação à defesa de Lisboa.

Felizmente, há quase 180 anos que a região não é palco de combates militares de grandes dimensão, e só indirectamente as suas populações sofreram as agruras da guerra, tendo muitos torrienses participado na 1ª Guerra e na Guerra Colonial, conflitos que, pelo menos, pouparam os habitantes de Torres Vedras de serem vítimas directas de crimes de guerra e da destruição dos seus bens em conflitos militares.

A última vez em que a região foi palco de uma batalha de grandes dimensões e que provocaram a destruição, o medo e a aflição dos seus habitantes aconteceu nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1846, na célebre Batalha de Torres Vedras, episódio da “Patuleia” ao qual já nos referimos em crónicas e estudos anteriores.

O que pretendemos aqui abordar é o efeito que esse conflito teve junto das populações locais da época, principalmente com uma referência aos eventuais crimes de guerra contra civis torrienses, alguns deles ainda com a memória dos conturbados tempos das Invasões Francesas (1808-1810)  e da guerra civil entre liberais e absolutistas (1832-1834).

A presença de tropas neste concelho durante vários dias, bem como a sua movimentação, já seria, só por si, motivo de preocupação e incómodo para os habitantes, tendo em conta a necessidade de acomodar e alimentar os militares.

Ainda por cima a principal Batalha, ao contrário do que aconteceu durante as Invasões Francesas, teve lugar dentro da própria vila, com o confronto de artilharia entre o Forte, dominado por Saldanha, e o Castelo, dominado por Bonfim.

Os tiros entre os dois exércitos e o bombardeamento do Castelo terá atingido muito provavelmente alvos civis, embora não existam muitas notícias sobre esta situação.

Sabe-se também que a entrada das tropas fiéis à rainha na vila foi acompanhada de intensos combates pelas ruas de Torres Vedras, ao longo do final da tarde desse dia 22 de Dezembro, onde algumas casas de civis foram usadas como pontos de defesa e ataque (1).

José Eduardo César, na sua conhecida memória manuscrita sobre a batalha, refere a noite de 22 de Dezembro, a que se seguiu à Batalha ganha pelo exército de Saldanha, como uma “noite de horrorosa recordação para os moradores da vila”, onde “todas as portas eram arrombadas indistintamente” e “todas as casas roubadas”.

O jornal O Espectro, órgão de propaganda Patuleia, vai ainda mais longe, referindo os “horrores” vividos pelos habitantes de Torres Vedras, e o “saque” das “forças da rainha”, que “não respeitaram mulher nem donzela” (2), ideia reforçada pelo mesmo jornal na sua edição de 30 de Dezembro, insistindo no “saque de Torres Vedras” e sublinhando “a violação de mulheres e donzelas” apelando a que se vingasse “a honra de nossos irmãs, de nossas mulheres, de nossas filhas”.

Numa memória posterior, mas publicada ainda em vida de muitos torrienses que tinham vivido aquele momento (3) , não se faz referência a tais “violações”, alegação que parece falsa e de mera propaganda, que designaríamos hoje por “fake news”, mas descreve, de forma mais realista, a forma como a população civil foi incomodada pela batalha e pela entrada das tropas de Saldanha:

“Se o dia (…) tinha sido de horror para os habitantes de Torres Vedras, pelo estampido da arti- Iheria e fuzilaria, que dizimava tantas vidas, e pelos projecteis e balas, que tinham cahido em cima de seus telhados, e até mesmo dentro em suas casas; a noite, que estava bastante escura, não foi menos horrorosa (…)  pela bulha e estrondo das coronhadas com que a deshoras o exercito vencedor batia, e pretendia arrombar as portas, como de facto muitas arrombou; pelo espirito de. saque, e vertigem de que vinha possuido e cheio, julgando conquista sua esta villa, como se os seus habitantes tivessem culpa em vir o exercito vencido tomar aqui posições, ou concorresse na sua generalidade para as desgraças, que acabavam de sofrer. Com effeito o saque não foi ordenado, mas parecia tolerado; muitas casas foram limpas de tudo, e não se fazia duvida em lançar mão das cousas, à vista mesmo de seus donos, que se davam pressa em socorrer os seus hospedes com a comida que tinham; de maneira que por alguns dias se não abriu loja alguma, que vendesse comestíveis, chegando a haver falta para o exercito e para os habitantes, até que o duque de Saldanha as mandou abrir com sentinellas às portas, para que seus donos podessem vender sem ser roubados, e desde então appareceu a abundancia. Não foram só estas as desgraças que teve a sentir esta villa, pois teve também a de sentir a morte de quatro dos seus habitantes inermes e pacíficos, um dos quaes, que era um taverneiro, se achou morto na rua, segundo parece, de baionetadas, e os outros tres foram atravessados com balas à entrada d’essa pouca força, que penetrou na villa quasi à noite. E soffreu tambem o peso do aboletamento de toda a divisão do exercito da rainha, por muitos dias, até que o general fez sahir da villa vários corpos para os logares visinhos, a fim de allivial-a”.

O mesmo articulista fazia justiça ao Duque de Saldanha, considerando que, se não fosse o seu espírito de “moderação e cavalheirismo”, sempre “prompto em dar guardas e attender a quem receiava violências, ou se queixava das que lhe faziam”, “muito pior teria sido a sorte dos habitantes d’esta terra”.

Ficamos assim a saber que não se terão registado violações de “donzelas” e que morreram 4 civis, três, ao que parece, vítimas de balas perdidas durante os confrontos nas ruas da vila por ocasião da entrada nela das tropas de Saldanha, e apenas um eventualmente morto na sequência de um assalto a um estabelecimento por soldados.

Nada que se compare aos horrores e aos verdadeiros crimes de guerra que, nos nossos dias, vemos serem cometidos por esse mundo fora.

Esperamos que aquela tenha sido a última vez que esta vila e os seus habitantes conheceram os horrores da guerra.

(1)    – “A Noite Horrível e o Dia de Gloria”, in Diário do Governo nº 302 de 22 de Dezembro de 1847;

(2)    - O Espectro de 28 de Dezembro de 1846;

(3)    – “Antiguidades de Torres Vedras”, in A Semana de 21 de Abril de 1887.

terça-feira, 3 de maio de 2022

1846 - As “milícias” da “Patuleia” na Região de Torres Vedras

(lugares, na região de Torres Vedras, onde se registaram movimentações de guerrilhas da Patuleia)

Na sequência do movimento da “Maria da Fonte”, a conhecida revolta popular iniciada no Minho em 15 de Abril de 1846, provocada pelo aumento de impostos e pela lei dos enterramentos, um pouco por todo o país formaram-se juntas populares de apoio à revolta.

Convém recordar, para facilitar, que entre os liberais, vencedores da guerra civil contra o absolutismo “miguelista”, se formaram duas tendências, uma a dos defensores do regresso à Contituição de 1822, que limitava os poderes do rei, outra a dos defensores da Carta Constitucional de 1826, que dava ao rei um “quarto poder”, o “moderador”, sendo esta “Carta” que vigorou desde 1834 e, com algumas interrupções e alterações, até 1910.

Em Setembro de 1836 deu-se uma revolta dos liberais anti-“cartistas”, que passaram a ser designados por “setembristas”, e, em 1842, numa novo “golpe palaciano”, os defensores da “Carta” voltaram ao poder, liderados por Costa Cabral, passando a ser conhecidos também por “cabralistas”.

Desde então, a até à “regeneração” de 1851, confrontaram-se essas duas tendências do “liberais”, os “setembristas”, também “patuleias” a partir de 1846, e os “cartistas” ou “cabralistas”, respectivamente, e para simplificar, a “esquerda” e a “direita” dos “liberais”.

Para responder aos “anseios populares” desencadeados pela “Maria da Fonte”, em 20 de Maio de 1846  a rainha D. Maria II exonerou o governo “cabralista” e nomeou o “setembrista” Duque de Palmela (1).

Torres Vedras não foi excepção no levantamento anti cabralista e no dia 25 de Maio realizou-se uma sessão camarária extraordinária para a subscrição de um “Auto de Proclamação” de adesão “aos princípios do Grito Popular, principiado na Provincia do Minho contra o sistema governativo no Ministério Cabral”, jurando os 198 cidadãos torrienses subscritores dessa proclamação “não mais obedecer” às ordens desse governo.

Nessa mesma sessão foi nomeada uma “junta” provisória presidida por um jovem advogdo da vila, apenas com 27 anos, sem passado político conhecido, o Dr. Francisco Maria de Carvalho, junta essa formada por 7 elementos, entre eles o futuro Visconde de Balsemão.

Essa junta não tinha por objectivo substituir a Câmara em funções, presidida desde a sua eleição, em Janeiro de 1845, por Francisco Tavares de Medeiros, um “liberal” da velha guarda, mas apenas supervisionar a actividade dessa Câmara.

Pelo contrário, uma  das decisões mais importantes dessa sessão foi nomear um novo administrador do concelho, cargo de nomeação governamental, representante local do Governo Civil de Lisboa.

A escolha recaiu no “cirurgião” Maurício José da Silva, homem com simpatias “setembristas” e que vai ter um papel de destaque, como veremos mais à frente, na organização de milícias na “Patuleia” (2).

(Maurício José da Silva)

Chegado ao poder, logo Palmela procurou dissolver as “juntas revolucionárias” e em Junho, segundo Oliveira Martins, já todas tinham sido dissolvidas, datando de 6 de Junho a última referência à “Junta” torriense.

Apesar da dissolução das Juntas, em Torres Vedras manteve-se em funções o acima mencionado administrador “Patuleia” que, presente em sessão camarária em 28 de Julho, mandou dissolver o executivo torriense, nomeando uma vereação provisória, para ficar em funções até ser eleita uma nova Câmara nas eleições municipais previstas para 27 de Setembro.

Para presidir a essa comissão foi escolhido o ex-presidente da “Junta revolucionária” torriense, o jovem Francisco Maria de Carvalho.

Entre os membros dessa comissão administrativa apenas um deles tinha passado político conhecido, como vereador substituto numa Câmara “setembrista”, todos bastante jovens, tendo em conta a habitual média de idades dos anteriores ocupantes desse cargo municipal.

Quando se deu a Batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro, era essa a comissão administrativa que se mantinha em funções, já que a Câmara eleita em 27 de Setembro, liderada por José Eduardo César e maioritariamente composta por antigos “miguelistas”. nunca assumiu funções, isto porque o panorama político voltou a mudar.

Na noite de 6 de Outubro, a cinco dias da data prevista para a eleição dos deputados, com poderes constitucionais, a rainha demitiu o Duque de Palmela e nomeou, para chefiar o governo, o Duque de Saldanha, apoiado por “cartistas moderados”, acto considerado pelos “setembristas” um golpe de estado dos “cabralistas”, conhecido pela “emboscada”.

Em 9 de Outubro, a renascida “Junta do Porto”, presidida pelo Conde das Antas, proclamou-se como “Junta Provisória do Governo Superior do Reino” e declarou guerra ao governo de Lisboa, dando início à “Patuleia”, que se transformou numa guerra civil entre “cartistas” e ”cabralistas” de um lado, e “miguelistas” e “setembristas” do outro, apesar das divisões iniciais entre estes duas tendências.

Um pouco por todo o país, mas maioritariamente a norte, surgiram pronunciamentos a favor da Junta do Porto.


Também a região a norte de Lisboa assistiu ao levantamento de várias “guerrilhas” populares em defesa da “Patuleia”, registando-se uma situação de duplicação de poderes.

Por um lado, o governo de Lisboa nomeou como governador civil do Distrito de Lisboa o Marquês de Fronteira que nomeou como administrador do concelho de Torres Vedras Ignácio Campelo, um antigo liberal ant-miguelistas, substituído em 13 de Dezembro por um natural de Vila Franca de Xira, José Hippolyto d’Almeida, que só entraria em Torres Vedras depois da derrota dos “Patuleias” na Batalha de 22 de Dezembro, substuido localmente, até essa data e interinamente, por João Ferreira Rijo.

Por outro lado, a Junta do Porto nomeou para o cargo de Governador Civil de Lisboa Anselmo José Braamcamp que, segundo Oliveira Martins, na companhia do Conde de Vila Real, andou pelo distrito, de terra em terra “aliciando sectários, fomentando a revolta”, mantendo Maurício José da Silva com “administrador Patuleia” de Torres Vedras, liderando uma guerrilha local bastante activa na região, entre Outubro e Novembro,  recrutando partidários para a causa da “Junta do Porto” (3).

A acção dessas guerrilhas “Patuleias” na região, está bem documentada na correspondência envida pelo Marquês da Fronteira para o Duque de Saldanha, existente no Arquivo Histórico Militar (4).

Ficamos assim a saber algumas das movimentações das guerrilhas “setembristas” em Torres Vedras e nos concelhos próximos.

A primeira notícia refere uma fracassada tentativa de assalto ao deposito de armas do Quartel de Mafra em 14 de Outubro, data em que se registou também a passagem de “alguns indivíduos com direcção para o Norte”. Por essa altura, em documento de 19 de Outubro, a mesma fonte denuncia o clima “insurrecional” nos concelhos de Sintra, Torres Vedras e “noutros limítrofes”, ligado a “hum foco de insurreição proveniente de Caldas da Rainha”, registando o “aparecimento” do Visconde de Sá da Bandeira em Torres Vedras, responsabilizado pela “grande agitação” que grassava na região.

Por essa altura, a “sublevação” armada das forças “patuleias” estava generalizada entre os “povos” de Torres Vedras e da Lourinhã, estendendo-se aos concelhos próximos, chegando ao “arrojo de atacar o destacamento” governamental “de infantaria nº8” que, da Lourinhã “se recolhia para a capital”, pretendendo os sublevados juntarem-se aos de Caldas e Óbidos, estes últimos liderados pelo capitão José Estevão.

Com a data de 23 de Outubro, Saldanha recebeu um relatório do Governo Civil de Lisboa informando que, em Torres Vedras, “os agitadores” patuleias eram “comandados por um Mayor, Escrivão do Juizo de Direito” e estavam “combinados com os das Caldas para darem um assalto à Praça de Peniche, com o fim de se apoderarem de algumas armas e petrechos de guerra e a fazer ahi fortes”, constando igualmente que se propunham “exigir um empréstimo forçado aos Negociantes e Proprietários do concelho de Torres Vedras”, situação que teria provocado a fuga de muitos desses negociantes e proprietários”, deixando “desamparadas” as suas residências.

Continuando a registar a situação em Torres Vedras, o relatório refere que “os Povos olhão com indiferença para os movimentos que fazem os revoltosos, e que a maior parte dos a eles reunidos são atraídos com a promessa de 120 réis diários, em uma época em que os trabalhadores não teem serviço rural onde se empregarem”.

Um outro relatório de 2 de Novembro refere a saída de Leiria de um grupo de 400 guerrilheiros armados, liderados por César Vasconcelos,  em direcção a Torres Vedras, com passagem por  Montejunto, detectando-se ordens enviadas às “forças populares” de Caldas, Pederneira (Nazaré), Alcobaça, Óbidos e Ourém para se juntarem em Torres Vedras àquela força.

Nos primeiros dias de Novembro continuaram a ser detectadas, pelos informadores do Governo Civil de Lisboa, vários movimentos de “forças populares”, entre os quais a entrada de um grupo de “patuleias” no Cadaval e Alenquer a “aprontar rações” e fazer “várias extracções, principalmente de cavalgaduras”.

Em 1 de Novembro, “pelas 6 horas da manhã”, tinha-se apresentado na Ericeira “Huma força de mais de trezentos guerrilheiros armados”, vindos de Sintra, exigindo dinheiro ao presidente da Câmara, retirando-se “pelas 11 horas”.

No dia 17 de Novembro apresentou-se ao administrador do concelho do Cadaval o governador civil patuleia, Anselmo José Braamcamp , exigindo que se preparassem “trezentas rações para os guerrilheiros de Cintra e Torres Vedras”, que chegariam no dia seguinte, ao mesmo tempo que “apreendeu” dinheiro, “tirou” cavalos e armas e nomeou um novo administrador para esse concelho.

De facto, aquelas “forças populares” chegaram à vila do Cadaval no dia 18, retiram-se no dia 20, dirigindo-se para Torres Vedras, de onde acabaram por “fugir”, no dia 25 de Novembro, a mesma data em que os guerrilheiros que ocupavam Caldas da Rainha deixam esta localidade.

Talvez influenciada pela presença daquela força em Torres Vedras, no dia 24, noticia-se a formação de  “uma guerrilha no lugar do Sobreiro [de Mafra]” que tinha “como objectivo entrar em Mafra”, e a presença de “150 guerrilheiros na Encarnação”.

Saídos de Torres Vedras os “poucos guerrilheiros do Batalhão popular de Torres Vedras, de que se diz comandante o Administrador do Conselho [Maurício José da Silva]”, são localizados em Patais, na região de Caldas da Rainha, no dia 27, depois de terem ido “quebrar as pontes do rio de S. Martinho”, vindos da Nazaré, para onde regressaram.

Em 28 de Novembro o governador civil de Lisboa anuncia a Saldanha que “já não há guerrilheiros entre Lisboa e Leiria”.

Ao que se supõe, essas guerrilhas patuleias foram juntar-se às forças de Bonfim e do Conde da Antas que, em Santarém, preparavam o seu avanço sobre Lisboa e que voltaram a Torres Vedras, onde chegaram em 19 de Dezembro, integrados na força militar “Patuleia” comandada por Bonfim, que nesta localidade combateram na Batalha de Torres Vedras em 22 de Dezembro desse ano de 1846.

Sabe-se que os  “batalhões populares de Alcobaça e Torres Vedras”, guerrilheiros, comandados pelo Conde de Vila Real, D. Fernando, em número de “mil”, se posicionaram, maioritariamente, no Forte de S. Vicente.

Derrotadas em Torres Vedras, as forças “patuleias” que não foram mortas ou presas, fugiram e juntaram-se às forças do Conde das Antas, que estavam estacionadas em Vila Franca de Xira, acompanhando-as em direcção ao Porto, de onde continuaram a resistir até meados do ano seguinte, ficando esta região, definitivamente livre da influência dessas guerrilhas populares (5).

Há, contudo, uma enigmática referência,  no jornal “O Espectro”, partidário dos “patuleias”, na sua edição de 11 de Janeiro de 1847, ao aparecimento, após aquela batalha,  de “uma guerrilha junto a Torres Vedras”, apontada como “espectro das victimas [da Batalha de Torres Vedras] que se levantam a pedir vingança”.

A “Patuleia” terminou com a assinatura da Convenção do Gramido em 29 de Junho de 1847.

Desconhece-se quase tudo sobre o destino dos “guerrilheiros” torrienses da “patuleia” a não ser o do seu líder, o administrador Maurício José da Silva que, após a “regeneração” de 1851, voltou a ocupar o lugar de administrador do concelho, ficando desta feita “famoso” por ter derrubado o pelourinho de Torres Vedras, em Maio de 1852, para “facilitar a passagem” da comitiva da monarca que ele tinha combatido, a rainha D. Maria II, em visita a este concelho em 13 de Maio de 1852 (6).

(1)    Para um conhecimento da história deste período recomendamos a leitura da obra de Maria de Fátima Bonifácio “História da Guerra Civil da Patuleia, 1846-1847”, ed. Estampa, 1993, e de Oliveira Martins,  no 2º Volume do seu “Portugal Contemporâneo”, do qual existem várias edições;

(2)    Para saber mais sobre a conjuntura local, leia-se o ensaio de José Travanca Rodrigues, “A Restauração do cartismo. Os dramas da Maria da Fonte e da Patuleia”, publicado  o 1º volume de “Torres Vedras – Passado e Presente”;

(3)    Para saber mais sobre este período consulte-se o meu ensaio “Torres Vedras – da “Maria da Fonte” à Patuleia (1846) – a sociedade, a política e a Batalha de Torres Vedras”, in Turres Veteras V – História Militar e da Guerra;

(4)    “Correspondência do marquês da Fronteira, governador civil de Lisboa, para o marques de Saldanha (…) sobre as acções da guerrilha em diversas localidades, nomeadamente (…) Torres Vedras (…)”, 1 d e Agosto a 30 de Novembro de 1846, Arquivo Histórico Militar de Lisboa, disponível na internet;

(5)    Sobre a “Batalha de Torres Vedras de 22 de Dezembro de 1846” leia-se o meu ensaio com esse título publicado na “Revista Militar” nº 2 459 de Dezembro de 2006, também disponível na internet, onde também se indicam algumas das fontes primárias sobre o tema;

(6)    Sobre o administrador “patuleia” Maurício José da Silva existem dois bons ensaios, um da autoria de Rafael Salinas Calado, “o administrador patuleia Maurício José da Silva e o pelourinho quinhentista”, publicado na revista “Estremadura”, 2ª série, nº13, de 1946, outro, mais actualizado, da autoria de Andrade Santos, intitulado “O Pelourinho de Torres Vedras e as Lutas Liberais (1820-1852)”, publicado no jornal “Badaladas” de 27 de Novembro de 1992.

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

22 de Dezembro de 1846 - O dia da Batalha de Torres Vedras


“Batalha de Torres Vedros(sic)” Reprodução de uma estampa existente no Arquivo Municipal de Torres Vedras. Sabemos existir uma gravura igual na Biblioteca Nacinal de Lisboa. Desconhecemos qual delas é a original. Note-se a figura da rainha, as cabras (os “cabralistas”) e a figura por elas transportada numa maca (Mouzinho?).“Quando a rainha soube da morte e aprisionamento dos bravos, saiu às janelas do palácio e como uma bacante gritou para a sua guarda: “Vitória! Vitória !Vitória” (Espectro, citado por Oliveira Martins).




Há 163 anos, no dia 22 de Dezembro de 1846 teve lugar a chamada “Batalha de Torres Vedras”, um dos episódios mais dramáticos da Patuleia.

Recordamo-la aqui através de uma descrição feita por alguém que assistiu àquele acontecimento e que o registou por escrito apenas uma semana depois, em jeito de rascunho, daí o mau português do texto.
O seu autor é anónimo, mas a comparação da grafia do mesmo com outros documentos da época assinados por José Eduardo César leva-nos a atribuir a sua autoria a este ilustre torriense do século passado.
Aliás, quem ler a descrição daquele acontecimento na obra histórica de Madeira Torres, anotada pelo mesmo J.E.César, poderá, ao ler a nota (a) da página 76, encontrar algumas similitudes entre o conteúdo da mesma e o documento que vamos transcrever.
Para um melhor enquadramento histórico da Batalha de Torres Vedras recomendamos a leitura do artigo de José Travanca Rodrigues "A restauração do cartismo.Os dramas da Maria da Fonte e da Patuleia" publicado na monografia TORRES VEDRAS - Passado e Presente, páginas 216 a 224, que inclui igualmente uma reprodução fotográfica do documento que vamos transcrever.
Podem também consultar um trabalho da minha autoria sobre o mesmo assunto, publicado pela Revista Militar em 2006, consultável na net AQUI.


"No dia 22 de Dezembro de 1846 - Se deu em Torres Vedras huma renhida e sanguinolenta Batalha entre Portugueses (!!!!!!) de diferentes partidos (todos constitucionais) huns do partido chamado Setembrista, ou popular comandados pelo Conde de Bonfim, e os outros chamados Cartistas, ou Cabralistas, ou da Rainha, comandados pelo Marechal Saldanha, ficando este vencedor, com a perda total da Divisão do Conde de Bomfim, q no fim da tarde se meteu com os restos da tropa no castello, onde esteve athe ao dia seguinte (23) em que se entregou prizioneiro de guerra, com esses restos ditos. O conde de Bonfim tinha chegado no Sabado -19- a Torres Vedras, com a sua Devisão q dizião ser huns cento e quarenta cavallos; na infantaria entravão alguas guerrilhas -batalhões organisados do povo, q, no meu parecer, pouco valião, mas trazia então alguns batalhões de linha m.to bons. No Domingo (20) descançou na villa, e acabou de chegar o resto da sua força. Na 2º feira (Dia de S.Thome) logo se conheceu q elle sentia o inimigo perto porq principiou a tomar posições no castello, forte de S.Vicente, forte da Forca, S.João e a colocar a peça e o obuz em posição, tomando m.tas disposições. Na terça feira -22- amanheceu m.to chuvoso tendo chovido toda a Noite de sorte q o rio Cizandro estava cheio e em algumas partes a deitar fora, não deichando com tudo a chuva, q era hum nevoeiro molhado m.to cerrado, a ver cousa algua, de modo q a vinte passos já se não conhecia hum indeviduo.

"Serião onze horas, pouco antes, entrei a sentir alguns tiros dispersos, pª o lado do Forte de S. Vicente e Amiaes, fui colocar me em St. António, ponto de onde podia ver tudo m.to bem, e sem o menor perigo; porem o nevoeiro fechado e molhado não deichava ver cousa algua, ouvido-se comtudo destinctamente as cornetas e os seus toques de avançar de fogo por filas, e as vozes dos officiaes e hum fogo exasperado e conheci q o exercito do Saldanha tinha tomado o Forte de S.Vicente, por vivas á Carta e outras vozes, isto seria meio dia, o q logo sube por gente q chegou da villa, continuamdo a sentir-se m.to fogo, mesmo de artelharia pª o outro lado da villa, parecendo pª o Forte da Forca, Sarges, Fontainhas, e naquella direcção.E vim jantar algua cousa e antes das tres horas voltei pª sima, continuando sempre o fogo vivissimo, e o nevoeiro q nada deichava ver, sendo só por tres horas e meia, q o nevoeiro principiou a abrir, e a deichar ver o campo da peleija, q se extendia por todas as iminencias, principiando pouco depois a ver se q se aproximavão das pontes, e avançavão, pª a villa debaicho de hum fogo q horrorijava, vendo-se destinctamente cahir cavallos, e cavaleiros, e choverem as ballas em todas as direcções, e assim aturou athe noite fechada, ficando eu e os mais que estavamos, na incerteza de que lado ficou o vencimento, supondo mesmo q o Saldanha sim tinha tomado S.Vicente, e os Fortes, e posições à direita do Cizandro, mas q a vila, e toda a esquerda do rio estava ainda occupada pelo Bomfim, com o Castello, o q não admira, porq d'essa mesma opinião estavão, como depois se soube, os mesmos moradores da maior parte da villa, e as mesmas tropas do Saldanha, e talvez ali mesmo, foi necessario mandarem-nas chamar, dizendo-lhe q a vila ou parte d'ella, estava tomada, q podião vir, da sorte q estiverão a entrar toda a noite, noite de horroroza recordação pª os moradores da villa, todas as portas erão arrombadas indestinctamente, todas as cazas roubadas; o saque não foi positivamente mandado, mas foi m.to de proposito convertido. tropa mais indesciplinada, mais ladrões, nunca em epoca algua aqui aparecerão, tendo nós já aqui visto Francezes, Inglezes, Hespanhoes e em m.to maior numero, e nem se podem disculpar com a Batalha, porq antes d'ella, e depois, na marcha pª sima, na volta pª baicho, sempre ladroes desaforados tudo lhe servia!!! Em abono da verdade, porq esta he quem sempre nos derige, o Saldanha conduzio-se na sua victoria com moderação, tratou com moderação os prezioneiros, a maior parte consta terem fugido, e todos deverão ter feito, porq, ao menos os officiaes, consta terem sido em Lisboa m.to mal tratados, alguns, os principaes, athe dizem terem sido mandados pª Angola.

"O Forte da Forca nunca se rendeu, foi de noite abandonado, quando souberão q'a villa estava occupada pelo Saldanha, e a Acção perdida. A artilharia do Saldanha esteve colocada, no dia da acção, na Sera da Almofalla, d'onde deitou hum sem numero de projecteis sobre a villa, principalmente bombas, e foguetes de Conggreave, d'estes mais de 60 - com tanta felecidade pª a villa q poucos, ou nenhuns estragos produsirão, como se os não deitassem.No dia 23 vierão colocar 4 bocas de fogo em o moinho por sima do nicho de Stº Antonio de Varatojo, pª ameaçarem os do Castello pª se renderem mas não chegarão a fazer fogo. A artilharia do Bomfim, pouca, apenas 2 bocas de 6 fogos, causou terriveis estragos na devisão do Saldanha, por mais bem colocado, e optimamente deregida (pelo Mouzinho)
Mouzinho de Albuquerque, falecido nesta mesma Batalha
. A perda do Saldanha foi m.to grande em mortos e feridos.A batalha so foi perdida, por culpa do general, faltou-lhe a presença de esppirito e sangue frio indispensaveis; os soldados, quse sós, abandonados baterão-se athe à noite como leões, o Bonfim no meio da tarde os abandonou, indo meter-se no Castello, e dizem q athé em hum confessionario = estamos perdidos,estamos perdidos - sem dar mais providencias alguas, nem se lembrar do artº 5º dos da guerra.Com soldados taes como elle tinha, ainda q em m.to menor numero, e com taes posições, e o rio cheio, a deitar por fora, como estava naquelle dia, he opinião de todos q prezenciarão a acção, q nunca a perderia; o ir-se meter no Castello, onde nada tinha, nem pão, nem agoa, podendo athe ainda dali sahir de noite, ou ao menos a Cavallaria, pª o lado da ponte do Alpilhão, em direitura a Varatojo, lado q lhe ficou todo aberto athe ao dia seguinte, tanto q os moradores da villa q estavão proximos á porta do Castello, e de todo o lado dito só no seguinte dia he q souberão q o outro lado da villa estava occupado pelo Saldanha."
....
"Lavrei estes apontamentos no dia 29 de Dezbº de 1846 - com tenção de continuar, addicionar-lhe factos q depois se forão sabendo, e apurando, passado depois tudo pª limpo; corregido, e melhor organisado, porem não tive occasião pª isso - ".