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quarta-feira, 17 de julho de 2024

A Transição do Poder Municipal no 25 de Abril


Quando da imposição de uma ditadura militar, em 28 de Maio de 1926, foram dissolvidos todos os corpos administrativos, e nomeadas comissões administrativas para gerir o poder municipal. Esta situação conheceu várias vicissitudes e alterações, resultado da indefinição política saída desse golpe militar, situação que só se clarificou com a aprovação da Constituição de 1933, que inaugurou o regime do Estado Novo.

Só com a promulgação do Código Administrativo de 1936, desenvolvido no Código Administrativo de 1940, se estabilizou o modelo organizativo da administração municipal do Estado Novo.

Uma das medidas tomadas em 1936 foi abolir o cargo de Administrador do Concelho, que tinha sido criado em 1835. Sendo um cargo de nomeação governamental, desde longa data, a suas funções e competências passaram, naquela data, para os Presidentes da Câmara.

A partir de então, o Presidente e o vice-presidente  da Câmara passaram a ser de nomeação governamental. Por sua vez o Código de 1940 dividiu os órgãos de administração municipal em “comuns” e “especiais”.

Dos órgãos “comuns” faziam parte o Presidente da Câmara, a Câmara Municipal e o Conselho Municipal.

Dos órgãos “especiais” faziam parte as Juntas de Turismo e comissões especiais de Turismo, que tinham um papel importante a nível das decisões urbanísticas, as Comissões Municipais de Assistência, com funções caritativas de apoio a populações carenciadas, e um órgão municipal  com funções meramente consultivas nos domínios da arte, arqueologia, higiene e turismo.

Mas eram os chamados órgãos “comuns” que detinham um verdadeiro poder político a nível concelhio. Como vimos atrás, o Presidente e o Vice-presidente do município eram de nomeação governamental, com um mandato de 4 anos sem limites de renovação, liderando o executivo camarário, ao qual se juntavam 6 vereadores nomeados pelo Conselho Municipal. Este Conselho Municipal era um órgão com características corporativas, formado por representantes das juntas de freguesia, das ordens profissionais, dos sindicatos, dos grémios, das Casas do Povo e das misericórdias, todos com o necessário aval governamental.

Quando se deu o 25 de Abril, a câmara torriense era presidida por Joaquim Pedro Belchior Fernandes, que assumiu essas funções em Maio de 1971, vereador municipal desde 1963. O seu curto mandato conheceu algumas vicissitudes. O vice-presidente nomeado para esse cargo, um jovem militar sem experiência autárquica, demitir-se-ia do cargo em finais de 1973, desagradado com o modo como se viu envolvido no encerramento de um comício da oposição democrática, em Outubro de 1973. Foi substituído no cargo, oficialmente em Janeiro de 1974, por um dos vereadores mais antigos, António Maria de Sousa, vereador desde 1959.

Se os dois membros do executivo de nomeação governamental, acima referidos, eram políticos experientes, seis dos  restantes sete vereadores, nomeados pela Conselho Municipal em 1972, não tinham experiência anterior nesse cargo, reflectindo uma certa tentativa de renovação do executivo, característico do período “marcelista” em vigor.

As divergências entre os nomeados pelo governo e os nomeados pelo conselho municipal corporativo vão-se tornar evidentes nos dias a seguir ao 25 de Abril.

A primeira reunião desse executivo, no pós 25 de Abril, teve lugar no dia 29 de Abril, com a presença de vários cidadãos, dentro e fora do edifício, que exigiam a demissão dessa câmara.

Sob a presidência de Joaquim Belchior Fernandes e com a presença da maior parte dos vereadores, um dos seus membros, o vereador Guia, levantou o problema da legitimidade das funções desse executivo, principalmente do seu presidente e do vice-presidente, devido à destituição do governo e do ministro que os tinham nomeado, respondendo-lhe o presidente que se considerava em situação legitima, já que o governador civil de Lisboa, do qual dependia directamente, não tinha sido demitido.

O então jovem vereador Guia apresentou uma moção de apoio à Junta de Salvação Nacional, propondo que a Câmara se colocasse à disposição da mesma, com um voto de apoio ao 25 de Abril, moção aprovada pelos vereadores presentes.

Contudo, essa manobra foi de imediato denunciada por Francisco Fernandes, intervenção aplaudida e apoiada pelo público presente.

Nos dias seguintes a situação evoluiu rapidamente.

No dia 30 de Abril os oposicionistas locais, organizados à volta do CDE, publicam um comunicado intitulado “Saudação ao povo de Torres Vedras” (1), apelando à urgência de se formar uma nova instituição politica e administrativa, tema de muitas das intervenções da grande manifestação do 1º de Maio que percorreu as ruas da vila de Torres Vedras, encerrando com intervenções de , entre outros, Afonso de Moura Guedes, João Carlos, e Francisco Fernandes, responsáveis, nos meses seguintes, pela implantação em Torres Vedras dos três principais partidos fundadores do regime pós-25 de Abril, PSD, PS e PCP (2).

No dia 2 de Maio é publicada um portaria da JSN exonerando todos os presidentes de Câmara, mas não se definindo em relação à restante vereação.

No dia 6 de Maio a Câmara ainda em funções volta a reunir, digladiando-se mais uma vez as duas facções, uma liderada pelo ex-presidente Belchior Fernandes, outra pelo engenheiro Guia, confronto provocado em parte por se ter sabido que o presidente, sem consultar a restante vereação, tinha contactado o Governo Civil, do qual teria recebido ordens para continuar em funções. A facção Guia, criticando essa iniciativa, defende uma deslocação de toda a vereação a Lisboa para contactar a JSN, para porem os seus lugares à disposição da mesma, mas oferecendo-se para continuar a dirigir o executivo camarário até à realização de eleições municipais(3).  

Essa manobra, de tentativa de colagem ao novo regime, habitual noutros momentos históricos (vejam-se as actas da Câmara torriense na primeira metade do século XIX), acabou por fracassar, ultrapassada pelos acontecimentos.

Já sem poderes, mais para encerrar actividade, a câmara deposta ainda se reuniu uma última vez em 13 de Maio, presidida pelo vice-presidente, “presidente” por um dia.

As forças oposicionistas, legitimadas pelo derrube do regime em 25 de Abril, ainda unidas à volta do CDE, depois de várias reuniões públicas, acaba por convocar uma grande Assembleia Popular para 12 de Maio, que decorreu no estádio do Torreense, depois de um jogo do clube, e que contou com mais de duas mil pessoas, para propor a aprovar uma comissão provisória de 18 personalidades, para dirigir o executivo camarário (4).

Depois de uma deslocação a Lisboa, essa comissão reuniu em 14 de Maio com um delegado da JSN, na sede local do CDE (antiga sede local da ANP, ocupada em 26 de Abril), para efectivar a constituição de uma comissão administrativa, reduzida para 9 membros, por sugestão desse delegado, tendo-se escolhido para a presidir Francisco Fernandes.

Essa Comissão Administrativa tomou posse do cargo no dia 15 de Maio, realizando a primeira sessão em 20 de Maio (5).

Essa comissão administrativa conheceu algumas vicissitudes ao longo da sua existência, mas foi responsável por muitos melhoramento e obras de saneamento, de que o concelho carecia, apoiada no voluntarismo da população organizada em dinâmicas comissões de moradores e nas comissões administrativas das juntas de freguesia.

Esteve em funções até Janeiro de 1977, substituída pela primeira Câmara Municipal eleita em 12 de Dezembro de 1976.Mas esta é outra história (6).

(1)    – Documento do aquivo pessoal do autor;

(2)    - CARLOS, João, “Dia 1º de Maio – Festa do Trabalho”, reportagem publicada nas páginas do Jornal “Badaladas” de 11 de Maio de 1974;

(3)    - acta da reunião camarária de 6 de Maio de 1974, in “Voz do Município”, “Badaladas” de 25 de Maio de 1974. Consultem-se igualmente os livros de acta da Câmara, depositados no Arquivo Municipal para acompanhar o que se passou nas referidas reuniões do executivo. Leia-se também o conjunto de artigos da autoria do ex-vereador Guia no jornal “Badaladas”, sob o título de “Os actos incómodos a as actas malditas”, provocatoriamente assinados como “a ex-vereação “Fascista” e a polémica que eles provocaram com vários “oposicionistas”, publicadas nas páginas daquele  semanário entre as edições de 18 de Maio e 29 de Junho de 1974;

(4)    - Convocatória para a assembleia popular de 12 de Maio. Arquivo do autor;

(5)    - CARLOS, João, “Democratas de Torres Vedras aprovaram a nomeação de uma comissão para a gerência da Câmara”, in “Badaladas” de 18 de Maio de 1974;

(6)    - Para acompanhar os vários episódios deste período leia-se a obra fundamental de Andrade Santos, CRÓNICA DE TANTOS FEITOS, 1ª edição, Livros Horizonte, 1986, e com mais duas reedições.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Um colóquio da SEDES em Torres Vedras em 1973: à vigilância da PIDE, nem a SEDES escapava:


 Informação da Legião Portuguesa à PIDE-DGS, relativa a colóquio da SEDES em Torres Vedras. A informação faz referência à presença de Magalhães Mota. Fonte: ANTT, Legião Portuguesa.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

As memórias do Carnaval de António Carneiro

                                               

Se há acontecimento que une todas as gerações torrienses vivas, ele é o Carnaval de Torres.

Toda a gente que tenha nascido ou vivido em Torres Vedras tem histórias da sua vida relacionadas com esse evento.

Se essa memória for a de alguém que esteve por dentro da organização e da expansão que o Carnaval de Torres conheceu nas últimas décadas, estão reunidas as condições para que essas memórias se tornem um documento fundamental para conhecer a evolução, a transformações e o espírito desse acontecimento único que é o Carnaval de Torres.

É o que acontece com António Carneiro, que acaba de nos brindar com um surpreendente livro de memórias sobre o Carnaval de Torres: “Aconteceu assim…memórias e …outras histórias”.

Este livro, tratado graficamente pelo Antero Valério e ilustrado com um conjunto de fotografias ,  muitas da autoria de Carlos Miguel (cronista visual do nosso carnaval das últimas décadas, como se revela pela extraordinária fotografia que foi escolhida para capa do livro), é já uma obra fundamental para se conhecer como é que o Carnaval de Torres atingiu a sua actual dimensão e notoriedade.

Como responsável activo pela fase moderna do nosso Carnaval, António Carneiro dá-nos uma obra fundamental para quem queira construir, para memória futura, uma História do Carnaval de Torres.

O memorialismo não é um género muito cultivado por estas bandas, muito menos na forma despretensiosa, mas bem documentada e experienciada, como o faz o nosso amigo “Toni” Carneiro.

Para além de António Carneiro, temos, felizmente, João Maria Brandão de Melo que nos vai deliciando, nas páginas do jornal  Badaladas, de forma irregular, com as suas memórias carnavalescas, trabalho que também merecia ser reunido em livro.

Pena temos nós que não houvesse outras figuras históricas do nosso Carnaval que publicassem as suas memórias (lembramo-nos de um Amílcar, de um Luís Faria, de um Jaime Alves, de um Levy dos Santos, de um Verino, de  um Renato Valente…e tantos outos que construíram o nosso Carnaval).

O livro de António Carneiro lê-se de um trago. Lê-lo, para além do grande prazer que nos deu, é um forma de penetrarmos  no espírito do centenário Carnaval de Torres, pois as saborosas histórias que ele nos  revela não são as  de um mero observador exterior, mas muitas delas tiveram a cumplicidade activa do autor e foram “estruturantes”  para a identidade actual do nosso Carnaval.

Este é um livro fundamental na estante de qualquer torriense, goste-se ou não do Carnaval.

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Data de 1729 a mais antiga “Monografia” sobre Torres Vedras


Talvez seja um pouco exagerado falar de “monografia” para referir um manuscrito que sistematiza várias informações sobre a História e o Património de Torres Vedras.

Mas existe nesse documento uma primeira tentativa de organizar um conjunto de informações históricas sobre o concelho, atitude que é pioneira em relação à História local deste concelho.

Referimo-nos ao manuscrito intitulado “Livro de Notícias Varias, composta por hum vario autor. Anno de 1729”, que esteve, primeiro, depositado na Biblioteca Municipal de Torres Vedras, e se encontra actualmente à guarda do Arquivo Municipal.

Quando consultámos pela primeira vez esse manuscrito, em 1988, encontrava-se junto um pequeno papel em anexo onde se indicava que esse “manuscrito foi feito pelo capitão Luiz Botto Pimentel Corte real e pertencia ao sr. Augusto Botto Pimentel, morador na casa da Ribeira, na Bulegueira, que em 1926 o mostrou a Júlio Vieira”.

Esta anotação, datada de 26 de Maio de 1976, era assinada pelo conhecido arqueólogo torriense, sr. Leonel Trindade.

Pouco se sabe sobre a vida do capitão Boto Pimentel. Terá vivido entre 1684 e 1741, a fazer fé na placa toponímica que se encontra na rua baptizada com o seu nome, e pertencia a uma das mais antigas famílias do concelho, ainda hoje existente.

Júlio Vieira afirmou que a família dos Bôtos “em 1729 era representada pelo capitão Luiz Bôto Pimentel Côrte Real, autor do manuscrito a que faço referência (…) e que naquela época era “vereador mais velho”.

Voltando ao manuscrito em causa, ele foi pela primeira vez mencionado com data e autoria correcta pelo citado Julio Vieira, na sua “Torres Vedras Antiga e Moderna”, obra editada em 1926.

Contudo, na 2ª edição da obra de Madeira Torres, “Descripção Historica e económica da villa e termo de Torres-Vedras”, publicada em 1862, os seus editores e anotadores, Dr. José António da Gama Leal e bacharel José Eduardo Cezar de faro e Vasconcelos, referem-se amiudadas vezes a uma “memória” de 1734 que nos parece ser o mesmo documento a que nos estamos a referir.

Comparando as informações por eles atribuídas à tal memória de 1734 com as informações do “Livro de Notícias Várias” de 1729, elas são , na grande generalidade, coincidentes.

Isto leva-nos a colocar duas hipóteses:

- ou aqueles editores copiaram mal os dois últimos algarismos do rosto do manuscrito, o que é perfeitamente possível, pois a forma como os números 2 e 9 estão grafados podem ser confundidos com os números 3 e 4;

- ou o manuscrito de 1729 foi uma primeira versão, uma espécie de “caderno de apontamentos”,  que serviu de base para uma outra versão, passada a limpo, com a data de 1734.

Esta última hipótese também é credível já que, em 1734, o capitão Boto Pimentel ainda estava vivo.

Porém, até hoje, nunca foi encontrada qualquer versão datada de 1734.

É igualmente importante analisar o “Livro de Notícias Várias (…)” no contexto da historiografia característica da época.

(excerto de uma passagem do documento)


Oliveira Marques, no volume primeiro da sua “Antologia da Historiografia Portuguesa”, editada em 1974 pelas Publicações D. Quixote, considera que, sendo a historiografia portuguesa de setecentos dominada por uma “ideologia clerical”, consequência do predomínio eclesiástico na historiografia da época, marcada pela profusão de “histórias monásticas (…) tradutoras de uma lamentável ausência de espírito crítico e de uma assombrosa guarida à lenda e à patranha”, já se registavam então alguns progressos na “maneira de redigir a história”, marcada pela influência humanista, concedendo o “documento como fonte primeira da história”.

Esta influência provoca, na época, apesar do domínio da tal “história clerical”, um “surto  de novos métodos críticos e comparativos com os primeiros passos das ciências auxiliares –a diplomática, a paleografia, a filologia, a arqueologia, a cronologia, etc”, atitude que se reflecte na historiografia portuguesa.

Apesara deste avanço, Oliveira Marques alerta para o facto de “que o recurso a essas “ciência auxiliares”, pelo estado mais que infantil em que se encontravam ainda, escondia perigos imensos, quais os de extrair conclusões e fomentar hipóteses a partir de dados que de verídico nada tinham”.

De facto, o documento por nós aqui recordado, revela algumas das novidades que começam a surgir em setecentos, pois o texto do capitão Boto Pimentel recorre a várias fontes, citando a sua origem (obras impressas, manuscritos existentes nos arquivos da Câmara, pedras tumulares, etc.), mas também comete alguns erros.

Quanto ao estilo, o “Notícias Várias (…)” parece estar mais de acordo com a caracterização feita por Oliveira Marques para as narrativas ao estilo medieval que ainda eram dominantes na época: o documento em causa apresenta uma “ordenação e abundância desconexa de factos”, residindo aqui um dos maiores defeitos do manuscrito.

O Manuscrito é um único caderno que se pode dividir em 3 partes distintas. Numa primeira parte intitulada “Reys de Portugal”, descreve-se, resumidamente, a vida dos nossos monarcas, desde Afonso Henriques até D. João V, com pouco interesse. Numa segunda parte, que é aquela que nos interessa, reúnem-se, de forma desordenada, várias informações sobre Torres Vedras, sendo a partir desta parte que o autor começou a numerar as páginas do caderno.

Finalmente, temos uma terceira parte de apontamentos dispersos, uma descrição da evolução e valor das moedas portuguesas, onde aparecem dados dispersos sobre História Universal e de Portugal, sem nada de relevante. Contudo, no meio dessas notas dispersas, semeadas no conteúdo genérico desta terceira parte, encontram-se mais algumas informações sobre Torres Vedras.

Um dos aspectos a valorizar neste conjunto da apontamentos sobre Torres Vedras é o facto de eles terem sido escritos antes do incêndio do cartório da câmara, em 1745, e do efeito devastador do terramoto de 1755, pelo que, neste ensaio de monografia, se encontram transcritos, em primeira mão, documentos desaparecidos na voragem dos referido e trágicos acontecimentos, como é o caso, por exemplo, de uma carta de D. Afonso IV, integralmente citado neste documento, sobre a doação de uma vinha.

Há ainda a tentativa de reproduzir graficamente símbolos e letras de sepulturas, lápides e brasões, alguns já desaparecidos.

Seria interessante editar e tornar acessível ao público torriense este documento, anotado criticamente, mais por curiosidade do que pela novidade, pois, o que de mais importante nele se encontra, já foi usado por Júlio Vieira e pelos anotadores da 2ª edição da monografia de Madeira Torres  nas obras já citadas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Uma descrição de Torres Vedras em 1906 (1)


Gabriel Pereira, intelectual de mérito na transição do século XIX para o século XX, tradutor de clássicos gregos e latinos e director da Biblioteca Nacional entre 1888 e 1902, dedicou os últimos anos da sua vida a descobrir o património da região à volta de Lisboa.
Desta sua curiosidade nasceu uma obra, editada em 1910, intitulada “Pelos subúrbios e visinhanças de Lisboa”, onde dedicou um capítulo a Torres Vedras (“Torres Vedras – Notas d’arte e arqueologia”(2)).
Este capítulo foi escrito em 1906 e, segundo se percebe pela sua leitura, teve por base várias visitas aqui efectuadas em 1904 e 1905, ao que parece para fazer tratamento termal nos Cucos.
O mérito dessa obra reside no facto de a sua descrição se basear na observação directa e não na mera readaptação da obra de referência de Madeira Torres, como aconteceu com outros autores desse período.
Ao longo de vários sub-capítulos vai descrevendo os motivos de interesse que encontrou no património local, destacando-se a sua descrição de usos e costumes da época.
Nessa obra foram abordados vários temas:
- “Painéis antigos em Torres Vedras”, sobre as pinturas antigas que encontrou nas Igrejas da vila e no Varatojo;
- “O Túmulo dos Perestrellos”, existente na Igreja de S. Pedro;
- “Capiteis românicos”, da Igreja de Stª Maria do Castelo;
-“Ermida e forte de S. Vicente”, falando das Linhas de Torres e registando as “vistas variadas da villa”, a partir desse lugar, “que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjunto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicados de casaes”;
-“Imagens dos Santo”, descrevendo algumas que encontrou em Igrejas da vila e no Varatojo;
- “Uma cadeira do século XV”, sobre a célebre cadeira atribuída ao uso de D. Afonso V quando estava no Convento do Varatojo, então ainda neste lugar, hoje no Museu de Arte Antiga em Lisboa;
-“Brasões da Villa”, descrevendo os três que encontrou na Câmara, no Chafariz dos Canos e na Fonte Nova;
- “Archivos – Camara, Misericordia , Egreja de Santa Maria”, um dos capítulos mais interessantes, pois permite redescobrir alguns documentos ainda hoje pouco conhecidos da maior parte do público, a maior parte, felizmente, actualmente preservados, quer no novo espaço do Arquivo Municipal, quer no Arquivo da Misericórdia;
- “No Varatojo”, onde faz um levantamento de inscrições e pinturas então aí existentes, um “bello sitio para dulcificar maguas e sossegar corações atribullados”;
- “Uma inscrição moderna”, relativa ao túmulo de Luís Mouzinho de Albuquerque na Igreja de S. Pedro;
- “Sinos”, os de S.Pedro;
- “Quinta das Lapas”, onde o autor faz uma pormenorizada descrição da paisagem ao longo do caminho que liga a vila àquela Quinta, “por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas”, antes de descrever a Quinta, a sua arquitectura e o seu jardim, num dos capítulos mais desenvolvidos;
- “A caminho dos Cucos”, elogiando as qualidades das suas àguas, nomeadamente as de mesa que o autor refere como “não bebendo outra” durante a sua estadia;
- “Casa dos Clérigos pobres”, então estruturalmente separada da Igreja de S. Pedro, destacando os seus azulejos e o seu tecto pintado com as figuras dos quatro evangelistas;
- “O Asylo da Conquinha” (actual Lar de S. José), então de inauguração recente,  distante, “vinte minutos de agradável passeio a pé” da  vila, seguindo-se “a estrada da Varzea” através de uma “amplo valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos” e “bello vinhedos”;
- “Ruços, além”, descrevendo o famoso “conselho de Ceuta” de 1414;
Para o fim, aqueles se são os mais pitorescos capítulos, e interessantes do ponto de vista documental, com descrições saborosas da vida e da paisagem local :
- “Passeio a Santa Cruz de Ribamar”, a descrição que o autor fez de uma viagem “em commodo trem” até àquela praia, no dia 27 de Setembro de 1905, já por nós usada em crónica anterior, passando por “campos animados”  e “estradas concorridas”, uma “festa”, “a grande festa das vindimas” e onde se encontra uma referência a um “grande rochedo alteroso” que se “destaca na praia” o Penedo do Guincho, que o autor refere como tendo sido “acessível em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha” (?);
- “Na missa e no mercado”, com uma curiosa descrição da missa à qual o autor assistiu na Igreja de S. Pedro, num domingo, 14 de Agosto de 1904. Parado à porta da Igreja o autor anotou “o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa (…) Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparável”. Na mesma ocasião realizava-se o mercado, no “terreiro próximo da egreja”, onde se vendiam,  “melões, melancias, uvas lindas, brunhos vários, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça”. Atrás da Igreja ficava o mercado do peixe, onde se vendiam “sardinhas e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes”. Num “cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura”, notando o autor que “o povo d’estes sítios é calçado”. Nesse Domingo era grande a “freguesia” pelas lojas da vila, próximas da Igreja”, registando o autor a existência de uma “industria de ferragens e mobilia especial, com muito geito”.
Por último, o autor regista “A feira franca” que se realizou em 21 de Agosto de 1904, na varzea, onde, na “parte arborizada enfileiram-se barracas e tendas” e, “no rocio nú é  feira de gados e a corredoura”, barracas de ourivesaria, de utensílios de “arame, cobre, ferro entanhado, latoaria”, de vidro, “perto do grande estendal de louças brancas e vermelhas”, notando-se ainda a presença de “um especialista de buzinas de moinhos de vento”. Vende-se ainda “calçado grosso, bastante correaria”, pequenas “quinquilherias”,vendas de madeira,  material “vinário”, carros para bois. Podem ainda ver-se “modestas roletas” e ,”leiloeiros de várias qualidades”, chamando “a gritos a atenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo”. Já a feira de gado pareceu ao autor menos importante, parecendo-lhe “em geral mal tratado”, mais “ a pancada que a alimentação regular”.
Enfim, este é uma das obras mais interessantes, não tanto pela informação histórica, mas pelo retrato pitoresco de uma época.
-
(1) - PEREIRA, Gabriel, Pelos Suburbios e vizinhanças de Lisboa, Lisboa, 1910, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira e Cª, 1910 (texto publicado na secção "Vedrografias" do Jornal "Badaladas" de 23 de Setembro de 2016);
(2) – PP.253 a 305.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Presos à Liberdade - ( 4 entrevistas a antigos presos políticos torrienses)

Nas comemorações do 25 de Abril de 2014 a Câmara de Torres Vedras promoveu duas sessões públicas que contaram com a presença de muitos torrienses que combateram contra o Estado Novo, entre os quais muitos que tinham estado presos.

Na sequência dessas sessões, no ano seguinte o município, com a coordenação de Carlos Guardado Silva, resolveu realizar um pequeno filme com entrevistas a alguns antigos presos políticos torrienses, aqueles que se mostraram disponíveis, onde eles contavam a sua história.

Foram entrevistados quatro antigos presos políticos, Duarte Nuno Climaco Pinto, João Marins, Firmino Rosa Santos e Herculano Neto da Silva.

Essas entrevistas foram conduzidas por mim  e pelo Carlos Guardado e a realização ficou à responsabilidade da Modular Studio.

Este filme foi apresentado publicamente por ocasião das comemorações locais do 25 de Abril de 2015 e está agora disponível no Youtube:

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Breve História do Cinema em Torres Vedras - 100ª Sessão Café com Filmes


O "Académico de Torres Vedras" acaba de divulgar um filme onde reúne as cinco comunicações que tiveram lugar no Teatro-Cine Ferreira da Silva por ocasião das sessões comemorativas da 100ª sessão da iniciativa "Café com Filmes".

Cada uma dessas comunicações resume cinco períodos da história do cinema em Torres Vedras, enquadradas na periodicidade do documentário sobre a História do Cinema Mundial que foi exibido.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Apresentação do documentário "Torres Vedras, Memórias do Século XX"

Este documentário é uma iniciativa da Associação de defesa do Património de Torres Vedras.

Segundo refere o documento de apresentação "O documentário «Torres Vedras, Memórias do Século XX» aborda as principais dinâmicas e transformações sociais do Centro Histórico de Torres Vedras no decurso do século XX, com particular enfoque entre as décadas de 20 e de 70". 


Produção: Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, Carlos Levezinho, Jorge Ferreira


Realização: Jorge Ferreira

Direcção de Fotografia/Câmara: Jorge Ferreira 

Câmara adicional: Carlos Ferreira, Carlos Levezinho

Montagem/Edição: Carlos Levezinho

Sonoplastia: Carlos Levezinho



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Presos à Liberdade, um documentário torriense a estrear no 25 de Abril:


Integrado nas comemorações do 25 de Abril em Torres Vedras, vai ser apresentado o documentário "Presos à Liberdade", uma conversa com quatro torrienses que estiveram presos antes do 25 de Abril.

A estreia vai ter lugar na noite de 24 de Abril em A-Dos-Cunhados e repete-se em Torres Vedras, nos Paços do Concelho, na tarde de Sábado, 25 de Abril, pelas 16 horas: 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Torres Vedras - Um castelo em imagens (EB São Domingos de Carmões)

A História local tem sido um precioso auxiliar de aprendizagem usado nas escolas para o ensino da História.

A história local aproxima muito os jovens estudantes da realidade histórica, pela proximidade com os vestígios dessa realidade conhecidos de todos.

Em Torres Vedras e no seu concelho não faltam exemplos e vestígios do passado histórico.

O Castelo de Torres Vedras é sem dúvida um dos objectos históricos mais conhecidos e mais explorados.

As escolas do concelho, ao longo dos tempos, têm desenvolvido um grande trabalho de divulgação e investigação em torno da história local, um trabalho muitas vezes injustamente desconhecido e valioso.

É o caso deste trabalho realizado pela Escola Básica de São Domingos de Carmões, disponibilizado na internet e que merece ser conhecido e divulgado:

quinta-feira, 5 de março de 2015

Castelo de Torres Vedras - Nos Alvores da Idade Moderna








Conhecer o Castelo de Torres e os mais recentes conhecimentos sobre a sua origem e evolução é o objectivo deste excelente video, produzido para o Centro Interpretativo localizado naquele monumento, à volta do qual cresceu e viveu a actual cidade de Torres Vedras.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Um Filme sobre Torres Vedras nos anos 30

Agradeço ao meu amigo Iidefonso Neves por me ter enviado este link AQUI  (clicar para ver o filme) com um magnifico filme sobre Torres Vedras, filmado aí pelos anos 30

O filme está no arquivo da Cinemateca que, sobre ele apresenta os eguintes dados:

Artur Costa de Macedo (1894-1966) - Realizador
Portugal, 1934?
Género: Documentário
Duração: 00:30:02, 16 fps
Formato: 35mm, Cor, sem som
AR: 1:1,33
Descrição: Aspectos de Torres Vedras. Tipos Populares. Pórtico de São Pedro. Igreja da Graça. Chafariz dos Carros. Castelo. Ermida de Nossa Senhora do Ameal. Mercado. Agricultura – vinha. Indústria de tanoaria e indústria metalo-mecânica. Corpo de bombeiros. Rio Sizandro. Termas dos Cucos. Quinta das Lapas. Asilo de Runa. Praia de Santa Cruz.
ID CP-MC: 3002600-001-00.02.00.01

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A propósito do início de mais uma edição da Feira de S. Pedro: recordando a feira de S. Pedro em 1963:


Adquiri recentemente num alfarrabista um folheto editado por ocasião da realização da Feira de S. Pedro de 1963.

Para além de um excelente texto de apresentação, não assinado, mas bastante crítico sobre o tempo de então,  que penso ser da autoria de António Augusto Sales, e que transcrevemos em baixo, são 46 páginas preenchidas com vários anúncios publicitários que nos permitem reconstituir a vida económica, industrial e comercial de Torres Vedras na década de 60 do século passado, para além de outros dados e referências estatísticas e culturais feitas com o objectivo de informar  os visitantes que aquela Feira já então recebia de muitos lugares vizinhos.

A publicação foi editada por António Augusto Sales e Tancredo Costa, impresso na Gráfica Torriana, com uma tiragem de 2 mil exemplares e de distribuição gratuita.

Os mesmos justificavam a sua edição nos seguintes termos: “Dentro da pobreza de meios, impeditiva de plano mais ambicioso, procurou-se dar ao opúsculo um cuidado equilíbrio gráfico, desde o texto à própria concepção da publicidade. (…) se entretanto, este trabalho puder contribuir de algum modo para a melhoria da Feira de S. Pedro e incitar, o espírito de quem dirige, à iniciativa de a reformar, actualizando-a e engrandecendo-a, nós ficaremos duplamente felizes, como editores e como torreenses”.

Aqui fica uma breve recordação da feira de S. Pedro de outros tempos, agora que teve lugar a abertura da edição de 2014 desse evento que continua a marcar a vida torriense e da região.

“A FEIRA DE S. PEDRO

“A feira é um acto popular. A feira de S. Pedro, em Torres Vedras, é a marca de ama tradição abrangendo uma área enorme da Estremadura.

“A feira é negócio e diversão, uma fórmula de fundir a aldeia e a vila num ambiente ruidoso e colorido.

“Para muitos, o dia da feira é o sonho guardado em todo o ano. Sonho de um negocio bem feito, duma experiência diferente nas suas existências iguais, duma oportunidade de estrear fato novo e de levar toda a família em passeio. A feira é uma paragem nas dores da vida.

“Tal como o visitante, cada terra guarda dentro do peito um certo amor pela sua feira pois não se trata de um acontecimento vulgar mas de um acto vivo e pleno na estrutura económico-social da região. E, em cada ano, a feira renova-se numa marcha progressiva de acompanhamento do seu tempo e das exigências do povo.

“Assim acontece em muitos lados, e seria ocioso enumerar alguns por sobejamente conhecidos, onde a par do carrocel e da quinquilharia se oferecem aos visitantes amplos «stands» com as mais modernas máquinas e alfaias agrícolas.

“Mas o que de mais curioso podemos encontrar, mesmo nos centros modestos, é um elevado sentido de exposição, alindamento e limpeza por toda a área da feira.

“Torres Vedras, que se deseja como verdadeiro e importante epicentro do oeste estremenho, não tem pela sua feira o requinte de carinho que lhe deveria dedicar. Não tem a perspectiva de a alindar agradecendo assim, ao visitante, a honra da sua presença. A feira chega..., a feira parte..., ano após ano, sempre igual, sempre descuidada, sem vida, sem alma, sem atractivos.

“Consideremos, mais uma vez, que será urgente acertar o passo pelos nossos vizinhos já que não vamos a tempo de os obrigar a acertar o deles pelo nosso. Não falemos, por enquanto, em festas extra, que bem se poderiam aproveitar neste período, mas foquemos apenas o essencial: esquema funcional de disposição de barracas e diversões; alindamento do recinto e conveniente limpeza; terraplenagem do piso; factores de estímulo para a exposição de carácter industrial.

“Para já não seria mau pôr-se em prática, alguma vez, tais aspectos. Olhar o ano seguinte com a esperança de que os poderes transformem os anseios que anualmente se escutam, em fórmulas concretas de renovação”.

Texto de apresentação do folheto dedicado à Feira de S. Pedro de 1963, da autoria de António Augusto Sales.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Exposição Agrícola nos anos 20 no arquivo da Cinemateca :

(O Choupal no ínicio do século XX)

No dia 22 de Agosto de 1926 teve lugar em Torres Vedras, no Choupal, a inauguração de uma grande exposição "agrícola, pecuária e industrial", motivo de uma rara reportagem cinematrogáfica, em baixo reproduzida dos arquivos da Cinemateca Portuguesa, disponíveis on-line:

Cinemateca - Ficha(clicar para ver)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Memórias da luta antifascista em Torres Vedras

(De Caxias foi libertado o último preso político antifascista, Pedro Fernandes)

Em boa hora foram incluídos nas comemorações do 25 de Abril dois momento de memórias sobre por resistentes ao Estado Novo do concelho de Torres Vedras.

Em  Campelos, na noite de 24 de Abril último, e nos Paços do Concelho, na tarde do dia seguinte, tiveram lugar duas sessões em que várias pessoas puderam testemunhar o que foi a luta contra o regime deposto em 1974.

Tivemos pessoas que foram presas e torturadas, outras, mais novas, que, não tendo conhecido as prisões, também participaram em actividades contra o regime salazarista.

Alguns, por razões pessoais, estiveram presentes apenas numa dessa sessões, outros estiveram nas duas.

Entre os testemunhos ouvidos estiveram os ex-presos políticos Armando Pedro Lopes, Duarte Nuno Clímaco Pinto, Firmino Rosa Santos, Herculano Neto Silva, João Martins, Luís Perdigão e Polidoro Correia.

Entre os que nunca foram presos, apesar dos riscos que correram, em parte porque entretanto sucedeu o 25 de Abril, caso contrário também teriam conhecido a prisão, pois eram activos na oposição, estiveram Francisco Manuel Fernandes, Graça Oliveira, Jorge Ralha, José Travanca e Sérgio Simões, não tendo podido comparecer o Hélio Samorrinha  filho.

O tempo foi pouco para as histórias que tinham para contar e por isso foi lançado o desafio para que se viesse a desenvolver um trabalho de recolha de memórias orais, para que a luta e o sofrimento de muitas dessas pessoas não fossem esquecidos.

Os participantes não esgotam o leque de pessoas, ainda vivas ou já falecidas, que, naturais de Torres Vedras ou combatendo nesta região, contribuíram para a vitória democrática.

Para além daqueles, e entre falecidos e vivos, recordo aqui alguns outros nomes que ao longo dos últimos anos recolhi nos arquivos nacionais, referenciados nos relatórios da PIDE, que por esta policia eram seguidos em  todos os seus passos por Torres Vedras.

Para que não sejam esquecidos, aqui acrescento mais os seguintes aos nomes acima referidos:
Com Processo detalhado nos Arquivos da PIDE, na Torres do Tombo:

- Fernando Vicente; João Paulino de Sousa, Gabriel dos Santos Gomes, Alzira Gomes  Boavida; Clotilde Amélia da Silva Neoes de Carvalho; Miguel Camilo; Victor Hugo da Costa Tomás dos Santos, Armando Pedro Lopes; Victor Cesário da Fonseca; Galileu da Silva; José Carvalho Mesquita; Venerando Ferreira de Matos.

Sem registo nesse arquivo PIDE, provavelmente por extravio durante o período do “PREC”, mas com prisão conhecida, existindo  o respectivo processo em parte incerta , João Capão, Raimundo  Porta, Joaquim de Oliveira e Pedro Fernandes.

Também vigiados, mas sem processo, entre os que conheceram a prisão e os que eram “apenas” vigiados e referenciados, estavam os seguintes habitantes de Torres Vedras, de acordo com uma primeira recolha, ainda incompleta, feita nos arquivos da Pide na Torres do Tombo:

- António Leal d’Ascensão; Joaquim Bandeira; Jorge Vivaldo; Luis Perdigão pai; José António de Sá Seixas Ramos,; Artur da Silva Lino; Luis Brandão de Melo; Jerónimo Albarran Grilo; Ruy de Moura Guedes; Alberto Rodrigo Bandeira; Mário de Sousa Dias; Rui da Costa Tomás dos Santos, Augusto Troni; Hélio Samorrinha pai, Luís Fernando Andrade Santos; José Afonso Alves Torres; José da Costa e Sá;  Francisco Vasco das Neves;  Luís dos Passos  Pinto Teixeira;  Francisco Ferreira; Carlos Augusto Bernardes; António Augusto Sales, Francisco Quaresma de Almeida, entre outros.

Esta lista é apenas uma referência. Alguns nunca chegaram a ser presos. Muitos dos que foram presos não estão nesta lista, ou porque o seu processo ainda não foi localizado naquele arquivo, ou porque se perdeu na voragem dos tempos do PREC.

Há ainda muita gente em Torres Vedras resistiu ao Estado Novo, de várias maneiras, mas que nunca foi referenciada pela PIDE.

Ao registarmos estes nomes, fazemo-lo apenas para recordar a urgente necessidade de recolher o testemunho oral dos que ainda vivem e proceder a uma recolha de documentação que permita um dia fazer a história da resistência local ao regime salazarista.

Essa história passa igualmente por colectividades ou sítios referenciados nesse mesmos arquivos, como o Cineclube de Torres Vedras, o Clube Artístico e Comercial, o jornal Badaladas, a Galeria 70,o Aéreo Clube de Torres Vedras, o pelouro cultural da Física e a própria Associação de Educação Física, bem como estabelecimentos comerciais como o Café Império, o Solar, a café Avenida, o café Vera Cruz, a Farmácia Perdigão, o “estabelecimento” de João Martins ou a casa particular de Pedro Fernandes, sem esquecer as movimentações operárias, com destaque para com as da Casa Hipólito.

Por último há que não esquecer o papel de advogados torrienses que defenderam, com coragem, muitos torrienses detidos, destacando-se o nome da Drª Lucília Miranda Santos, a única mulher que defendeu presos políticos antes do 25 de Abril. 

Fica aqui este esboço e este apelo para que se comece a construir essa história de Torres Vedras.