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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Um Falso D. Sebastião na região de Torres Vedras

(Gravura-de-Mateus-Alvares (História de Portugal de Pinheiro Chagas- séc. XIX))

No dia 11 de Junho de 1585 conheceu um triste fim o chamado “rei da Ericeira”.

Foi o culminar de uma rebelião popular que agitou a região em 1585, numa tentativa de depor a autoridade castelhana.

Foi mais um episódio de afirmação do mito  “sebastianista”, que se desenvolveu após a morte de D. Sebastião, na Batalha de Alcácer-Quibir , em 4 de Agosto de 1578.

Aconteceu que um ermitão da Ericeira, Mateus Alvares, se fez passar por D. Sebastião, apoiado por um lavrador da zona, um tal Pedro Afonso.

Mateus Álvares era natural da Vila da Praia na Ilha Terceira dos Açores, filho de um pedreiro, tendo estudado num Convento franciscano, vindo para o continente para iniciar o seu noviciado no Mosteiro de S. Miguel, perto de Óbidos.

Mais tarde abandonou o noviciado e tornou-se eremita e estabeleceu-se junto da Ermida de S. Julião, perto da Ericeira, na freguesia da Carvoeira do concelho de Mafra. Aí abordava os camponeses e outros frequentadores desse sítio “entre gemidos e flagelações” proferindo palavras enigmáticas que aqueles identificavam como “prova” de estarem perante D. Sebastião.

Vários fidalgos de Lisboa deslocaram-se ao local para confirmarem a sua identidade, mas a maior parte confirmou o embuste.

Isso não fez desistir dois fervorosos defensores do falso D. Sebastião, entre os quais António Simões, escrivão dos Armazéns de Lisboa, muito influenciado pela sua mulher, sebastianista convicta, e Pedro Afonso, lavrador rico, proprietário de uma azenha em Rio de Mouro (Sintra), que tinha combatido ao lado do prior do Crato contra o domínio filipino.

Este Pedro Afonso tornou-se o mais acérrimo defensor da identificação do eremita Mateus Álvares como D. Sebastião, mesmo contra a resistência inicial do próprio falsário, mas que acabou por colabora na farsa.

O rico lavrador de Rio de Mouro rapidamente conseguiu reunir à sua volta mais de 800 homens armados, simpatizantes da causa, reunidos entre as gentes da Ericeira e de outras regiões à volta, de Sintra, Torres Vedras e Mafra.

Entusiasmado com o apoio granjeado por Pedro Afonso, o eremita Mateus Álvaro, montou corte na Ericeira, proclamando-se rei, distribuindo cargos e títulos de nobreza e publicando alvarás “régios”, ao mesmo tempo que enviava cartas às Câmaras de algumas cidades e vilas para o ajudarem a expulsar os castelhanos.

Pedro Afonso tomou o nome de D. Pedro de Menezes, apelido dos condes da Ericeira, proclamando-se Conde de Torres Vedras.

Casou a sua filha com o falso “D. Sebastião” da Ericeira, coroada rainha com uma coroa de prata de uma Imagem de Nossa Senhora retirada de uma capela da freguesia.

Por essa via, Pedro Afonso foi agraciado com o título de marquês de Torres Vedras, conde de Monsanto, senhor de Cascais e Alcaide-mor de Lisboa.

Entretanto, na  “quinta-feira de Ascensão desse ano de 1585, quando o cardeal arquiduque Alberto saía da capela real, veio ao seu encontro um jovem que lhe entregou uma carta”. O mensageiro era o filho do acima referido António Simões e dizia entregar a carta em nome de D. Sebastião, o da Ericeira. Essa carta intimava o vice-rei a “desocupar o Paço e ir-se embora para Castela”. O jovem foi imediatamente preso (1).

Alertados por essa iniciativa e alarmadas com a crescente agitação popular à volta do autoproclamado “Rei da Ericeira”, as autoridades em Lisboa ordenaram ao juíz de fora de Torres Vedras, Manuel Ataíde de Sarrea, que fosse à Ericeira prender os líderes dos amotinados. Este fez-se acompanhar pelo seu escrivão e outros oficiais, mas os revoltosos, em vez de lhe obedecerem, executaram-nos, lançando-os das arribas para o mar.

O doutor Gaspar Pereira, ouvidor da comarca de Torres Vedras e do Conselho Régio de Lisboa, ao criticar a crueldade daquelas execuções, acabou assassinado na sua quinta, juntamente com um filho e um sobrinho e a sua casa saqueada. O mesmo destino tiveram outros habitantes que se recusaram a aceitar as ordens do falso D. Sebastião.

Perante esses acontecimentos, o vice-rei decidiu-se por uma intervenção militar de larga escala. Deu ordens a Diogo da Fonseca para esmagar a rebelião. Este Diogo da Fonseca tinha acompanhado o verdadeiro D. Sebastião na sua campanha africana e era agora corregedor do crime ao serviço de Filipe II, tendo ganho notoriedade entre os castelhanos por ter posto termo a outro episódio de um falso D. Sebastião, o célebre “rei” de Penamacor, sentenciado em 1584.

Acompanhado por um exército de “quatrocentos castelhanos bem armados e comandados pelo capitão Calderon” partiu para a Ericeira para prender o falso “rei”. O combate terá tido início junto da Ermida de S. Julião. “Esperava-os uma forte carga de arcabuzaria e mosqueteria”, resultando vários mortos e feridos de ambos os lados, mas a vantagem estava do lado castelhano, fugindo a maior parte dos revoltosos “por montes e vales”, entre eles o “rei”, Mateus Álvares, sendo capturado no 12 de Junho em Colares, o dia a seguir à batalha.

De imediato Mateus Álvares confessou que não era D. Sebastião e que a sua intenção era entrar em Lisboa, “na noite de S. João, e depois de degolarem e matarem os que não quisessem obedecer ao nome D. Sebastião, iria a uma janela dizer ao povo” que não era D. Sebastião, mas um homem “que veio para libertá-los da tirania dos castelhanos”, proclamando de seguida: “agora fazei rei a quem quiserdes”.

Teve um fim trágico e cruel, esse Mateus Álvares (2). Conduzido do Limoeiro para o pelourinho, foi-lhe cortada a mão direita, antes de ser enforcado. Depois cortaram-lhe a cabeça, que ficou exposta na forca durante um mês. O seu corpo esquartejado ficou exposto nas quatro portas da cidade de Lisboa. O mesmo aconteceu no dia seguinte a todos os que tinham sido presos com ele.

Pedro Afonso ainda andou fugido mais uns dias, mas acabou por ser preso no Bombarral, sofrendo o mesmo destino do genro, executado no dia 22 de Junho.

Outros dos “nomeados como principais delinquentes e autores das mortes, roubos e insultos e dos mais males e danos que se seguiram e puderam seguir aquietação e sossego público” escaparam à morte, mas foram enviados para as galés (3). Entre estes encontramos habitantes do Barril, da Fonte Boa, da Ericeira, das Casas Velhas, do Brejo, dos Alvarinhos, do Sobral, de Ribamar, de Monterroio, do Turcifal, da Feiteira, da Ribeira, lugares localizados em grande parte no termo de Mafra, mas também de Sintra e Torres Vedras, mostrando a dimensão da insurreição.

Foi necessário esperar mais 55 anos para que Portugal recuperasse a independência.

(1)    – DINIZ, Sebastião, “Mateus Álvares, Eremita e Rei – Da Ilha Terceira à Ericeira”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo, obra colectica, coordenada por Manuel J. Gandra, ed. C.M de Mafra, 1998, pp.299-312. Baseámo-nos neste estudo para a elaboração deste texto. Sobre este acontecimento leia-se também outras versões desse acontecimento da autoria de Manuel Novais Granada, publicadas nas páginas do jornal “Badaladas” : “Revista de Lisboa garantia em 1932: Última batalha entre as tropas castelhanas e as milícias do “rei da Ericeira” deu-se no castelo de Torres Vedras”, em 27 de julho de 2018; “Justiça de Filipe I abateu-se de modo implacável sobre os revoltosos de “D. Sebastião da Ericeira”, em 17 de Agosto de 2018;

(2)    – Um presumível retrato desse Mateus Álvares foi publicado nas páginas da História de Portugal de Pinheiro Chagas, publicada no século XIX, e que reproduzimos nesta página;

(3)     - “Carta de perdão geral concedido aos rústicos do termo de Sintra”, in O Falso D. Sebastião da Ericeira e o Sebastianismo , ob. Cit, pp.318 a 323.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Há 430 anos, em 1589 - D. António Prior do Crato na Região de Torres Vedras


(D. António, Prior do Crato)


Em 29 de Maio de 1589, um exército anglo-luso, onde se encontrava D. António Prior do Crato, entrava em Torres Vedras, dirigindo-se a caminho de Lisboa, com o objectivo de restaurar o trono português.

A História deste episódio está bem documentada num manuscrito da autoria de André Falcão de Resende, existente na Torre do Tombo.

O conhecido poeta quinhentista tinha sido “juiz de fora” em Torres Vedras desde finais de 1576, onde estabeleceu amizade com o alcaide D. Martinho Soares de Alarcão, já não exercendo esse cargo, pelo menos desde o início de 1586.

Antes, em 18 de Abril de 1589, saiu de Plymouth, na Inglaterra, uma armada, a bordo da qual seguia D. António Prior do Crato com a sua “corte”, com o objectivo de conquistar o reino de Portugal.

Era uma armada de “cento e setenta navios grandes e pequenos”, com “perto de vinte mil homens”, ingleses, escoceses, “gente  vadia  de França” e da Flandres, alguns espanhóis “portugueses e castelhanos”, isto é, composta por mercenários.

A armada era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake,  acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.

Atacando, sem êxito,  a Corunha, na Galiza, dirigiu-se então para território português.

Tomando-se conhecimento da sua aproximação, entre Lisboa e Cascais foram tomadas várias medidas para a defender a capital de um desembarque e ataque dos ingleses, apesar de os armazéns da cidade estarem “muito faltos de armas e de munições, por se gastar muito na armada do ano passado” (refere-se ao desgaste da armada portuguesa, motivada pela derrota luso-castelhana da Armada Invencível, cerca de um ano antes).

No dia 23 de Maio de 1589, uma sexta-feira , a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.

As tropas estacionadas para defender o local e a fortificação, perante a dimensão da armada, fugiram ou renderam-se de imediato.

A facilidade com que os ingleses entraram em Peniche, está na origem do dito popular dos “amigos de Peniche”.

O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.

Em Torres Vedras estavam  estacionadas  12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por  Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.

Este Gaspar Ruiz de Alarcão tinha vindo para Portugal em 1587, com quatro companhias a cavalo, para apoiar o Vice-rei, Cardeal D. Alberto.

Do Turcifal saiu Pero Correia, filho de Lourenço Correia, com três “homens seus” a cavalo, e quatro a pé com “espingardas” e outra gente a pé, para se juntar ao alcaide de Torres.

No Sábado seguinte, dia 24, Dom Martinho Soares juntou-se  às tropas comandadas por Pedro de Gusmão, num local a meia légua de Peniche, “sobre hum alto que chamão o Coymbram”, avistando daí os inimigos.

Sobre estes “discorreram” os “Ginetes de Gaspar de Alarcon”, fazendo prisioneiro um soldado do exército inglês que tinha sido ferido, e que disse ser francês, tendo por missão entregar uma mensagem de D. António para “hu Mosteiro de frades ahy vezinhos” , revelando o número de tropas inglesas, 20 mil “infantes”, e informando que já tinham desembarcado em Peniche seiscentos cavalos.

Impressionados com esses números, os “nossos” “aballarão dalli para outro lugar mais alto, e mais afastado do inimigo”, enquanto que “os de Torres Vedras e seu termo que erão todos até trezentos, os mais delles gente rústica”, fugiram para Torres Vedras, as tropas de Dom Martinho e de João Gonçalves de Atayde.

No dia seguinte, Domingo vinte e oito de Maio, juntaram-se a estes, em Torres Vedras, onde já estavam Pedro de Gusmão e Gaspar de Alarcão, duas companhias de “arcabuzeiros a cavalo” comandadas por D. Sancho Bravo (ou Branco) e outras duas de “infantaria do terço”, comandadas por Dom Francisco de Toledo, alojando-se “esta gente toda” no Castelo de Torres Vedras, que consideravam “forte e defençável, principalmente vindo o I[n]imigo sem artilharia e com poucos cavallos”.

Contudo, dando-se rebate, por volta da meia noite, que os inimigos vinham marchando da Lourinhã para esta vila, que distava duas léguas, “partirão todos logo com muita pressa” para Enxara dos Cavaleiros, ficando apenas Gaspar de Alarcan, como os seus “ginetes”, “sempre” à vista do inimigo.


(Percurso das tropas luso-inglesas, de Peniche a Cascais (Fonte-João Pedro Vaz, ob. cit.)

Na segunda-feira, vinte e nove de Maio, pela manhã “entrou em Torres Vedras hum clérigo que era cura no lugar do Vimieiro [será Vimeiro ?], notificando aos que estavão na villa que se não fossem della, por que lhes não farão mal, prometendo lhes disto seguranças, por parte de Dom António”.

Tomando conhecimento dessa situação, os ginetes de Gaspar de Alarcão avançaram para Torres Vedras, com o objectivo de prenderem esse clérigo.

Com esse pretexto entraram “em muitas casa da villa e termo”, provocando a fuga dos seus habitantes para lugares altos.

Os abusos cometidos por algumas tropas de Gaspar de Alarcão e “outros soldados” castelhanos, provocaram o rumor segundo o qual os ginetes andavam a roubar e a matar, “e disto lançarão fama e causando com isto grande inquietação por esta comarca” de Torres Vedras, “e por  outras temendo se e escondendo se  a gente miúda e molheres, por montes e covas”, embora o narrador refira que os capitães e nobres não foram responsáveis por esses excessos.

Espalhando-se pela região a notícia dos saques, roubos e assassinatos feitos pelas topas luso-castelhanas, a população temia mais “destes nossos amigos e naturaes que dos Ingleses”, até porque estes, até então, não roubavam nem saqueavam, pelo que começaram a ter apoio popular, dando mantimentos e juntando-se às tropas anglo-lusas de Norris e D. António.

Nessa segunda-feira “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris, “onde alguns poucos e falhos de força e conselho o esperarão, não seguindo a muitos outros que o não quiserão esperar e se ausentarão”, isto é, a vila estava quase desabitada.

D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.

“Sem mantimentos, e com tanta fome”, as tropas inglesas “comerão muitas imundices”, isto porque tinham ordens para não proceder a qualquer saque.

Contudo, muitos desses soldados “se embebedarão, por aver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.

Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

Só na quarta-feira seguinte, dia 30 de Maio, é que as tropas inglesas retomaram a sua marcha sobre Lisboa, avançando por Enxara dos Cavaleiros até Frielas.

Tendo chegado a informação aos castelhanos que as tropas inglesas estavam “tomadas” de vinho, avançaram sobre o acampamento inglês onde deram conta que, afinal, “estavão mais expertos do que cuidaram e bem entricheirados”, retirando-se para Lisboa com algumas baixas em confrontos esporádicos com os ingleses.

Entretanto, André Falcão de Resende, que, quando da tomada do Castelo por D. António, tinha escondido alguns livros numa casa a meia légua de Torres Vedras, voltou à vila assim que os ingleses se retiraram para avançarem sobre Lisboa.

Entrando em Torres Vedras, encontrou-a praticamente deserta, descobrindo, junto ao “pelourinho  da praça” uma carta, assinada por D. António, na qual com “graves penas e ameaças, assumindo-se nella como Rei, mandava que todos o fossem logo servir e acompanhar, dentro de vinte e quatro horas”.

A título de curiosidade, refira-se que esta é uma das mais antigas referências coevas ao Pelourinho quinhentista de Torres Vedras.

Dirigindo-se depois para um ponto alto perto da vila, Falcão de Resende avistou a marcha do inimigo, contando cerca de “doze mil homens, e sessenta cavallos somente”, sem artilharia, sem mantimentos e sem bagagens. De imediato enviou esta informação ao seu filho, Luís Falcão, que estava em Lisboa, para conhecimento dos defensores desta cidade.

No dia 1 de Junho, 5ª feira, o “inimigo” avançou sobre Lisboa até Alvalade “mea legoa” de Lisboa.

Eram as tropas inglesas abastecidas por Gaspar Campello, que tinha negociado com D. António a entrega de mantimentos às tropas luso-inglesas. Gaspar Campello tinha sido juiz em Torres Vedras e era “muito conhecido nesta comarca” e tinha forçado “a gente fraca, com nome de Almotacel moor para trazerem mantimentos aos Ingleses”.

A cavalaria luso-castelhano conseguiu, contudo, fazer “presas” desses mantimentos.

Durante este tempo ocorreram escaramuças esporádicas entre os dois exércitos.

No dia seguinte, sexta-feira 2 de Junho, os ingleses marcharam de Alvalade até “perto da cidade” entrando pelos arrabaldes e pelas ruas e travessas.

Do Castelo e das Galés estacionadas no Tejo receberam os ingleses muito fogo.

No dia seguinte os sitiados conseguiram receber mantimentos e vários reforços.

Os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas, entre elas os “ginetes” de Gaspar Alarcão que prenderam e mataram muitos dos soldados luso-ingleses.

De sitiantes, os ingleses passaram, em Cascais, a sitiados.

Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada inglesa.

Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras.

Algumas fontes referem uma segunda tentativa das forças do Prior do Crato de conquistarem o Castelo, sem o êxito da primeira vez.

A ter acontecido, terá ocorrido entre essa data de 6 de Junho e o início da retirada inglesa do território português, que ocorreu entre 18 e 22 de Junho.

Segundo Vieira da Mota, deve-se a este episódio o facto de D. António apelidar esta localidade de “Torres Traidora”.

O mesmo Martim Soares, em 22 de Junho, marchou sobre Peniche, levando consigo “30 de cavallo”, com “gente de pé”. Chegado à Lourinhã, foi informado por uma espia que os inimigos estavam a embarcar em Peniche, levando consigo a artilharia da fortaleza, pelo que apressou o seu avanço sobre aquela vila, de onde grande parte dos ingleses já se tinham retirado.

Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.

Retirando-se definitivamente de Portugal, D. António, faleceu na miséria em Paris em Agosto de 1595.

FONTE PRINCIPAL:
(Parte do Documento de André Falcão de Resende que refere a chegada de D. António a Torres Vedras).

FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147,   Arquivo Nacional da Torres do Tombo.

PARA SABER MAIS (outras fontes consultadas):

AZEVEDO, Maria Antonieta Soares de, “D. Martinho Soares de Alarcão, alcaide-mor de Torres Vedras e avô do Padre Francisco Soares”, in Arquivo do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol.I,  Paris 1969, pp. 470-486.
BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II, Câmara Municipal de Torres Vedras, Edições Colibri, Lisboa 2009.
MOTA, A. Vieira da Mota, “Memórias de Torres Vedras”, Capítulo IX,  in O Torrense, nº 52, 17 de Setembro de 1922.
RAMALHO, Américo da Costa, O Essencial sobre André Falcão de Resende, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1988.
RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa 2004.
VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato – 1580-1589 – Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, ed Tribuna, sem data [séc. XXI].

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Torres Vedras e o Domínio Filipino


(Filipe IIº)

Em 13 de Setembro de 1598, há 420 anos, morria um dos monarcas mais poderosos do mundo, o rei Filipe IIº, rei de Espanha desde 1556 e de Portugal “e dos Algarves” desde 1581, governando no nosso país com o título de Filipe Iº.

O seu reinado deu inicio, em Portugal, à dinastia filipina, que só terminou em 1640.

A propósito dessa efeméride vamos tentar traçar, em poucas palavras, aquilo que foi o domínio filipino em Torres Vedras (1).

O domínio filipino foi bem aceite pelas famílias dominantes da região, com a do “Alarcões” à frente.

Esta família, de origem espanhola, dominava a alcaidaria da então vila desde o reinado de D. Manuel, quando D. João de Alarcão herdou do seu sogro, Gomes Soares, falecido em 12 de Janeiro de 1514, o cargo de alcaide-mor de Torres Vedras.

Terá sido também nessa altura que os alcaides-mores, que tradicionalmente habitavam os chamados “Paços do Patim”, passaram a ocupar o “palácio” do Castelo, restaurado no tempo de D. Manuel, como o atestam ainda hoje as esferas armilares aí existentes.

Quando da aclamação do rei espanhol em 1581, exercia o cargo da alcaide-mor de Torres Vedras D. Martim Soares de Alarcão, que foi um dos mais fiéis defensores da causa castelhana (2).

Esse alcaide teve um papel importante na repressão das revoltas locais que tiveram lugar nesse período.

Uma das mais conhecidas foi a chamada revolta do “Rei da Ericeira”, liderada por um tal Mateus Álvares, natural doa Açores, filho de um pedreiro, que se fez aclamar como rei pela  população da Ericeira em 1585 , mobilizando os camponeses da região contra o Castelo de Torres Vedras.

Um dos seus principais seguidores foi um vinhateiro de Torres Vedras, Pedo Afonso, nomeado pelo falso rei estribeiro mor e marquês de Torres Vedras e que casou com a filha daquele, “coroada” rainha.

O movimento acabou afogado em sangue, quando o exército do “Rei da Ericeira” foi travado na estrada de Lisboa pelos bem organizados batalhões filipinos.

O falso rei e o seu genro foram enforcados em Junho de 1585 (3).

Outra ocasião difícil para o alcaide-mor de Torres Vedras foi quando  D. António Prior do Crato, em 1589, apoiado por forças inglesas, atacou e ocupou Torres Vedras, depois de desembarcar em Peniche e antes de se dirigir para Lisboa.
(D. António Prior do Crato)


Existem várias versões sobre este acontecimento, mas a mais credível é a descrição de um manuscrito da Torre do Tombo, da autoria de André Falcão de Resende.

A armada inglesa era comandada pelo “General do mar”, Francis Drake,  acompanhado pelo “General de terra” Henrique Norris,”capitão escocês muito conhecido”, conde de Norwich.

No dia 23 de Maio de 1589 a Armada Inglesa chegou a Peniche, entrando no porto da vila, que tomou, e a praia em frente, a praia de Nª Senhora da Consolação.

O alcaide local, João Gonçalves de Ataíde , de imediato mandou enviar recado a “Sua Alteza” e ao alcaide-mor de Torres Vedras, Dom Martinho Soares de Alarcão e Melo, acerca do sucedido.
Em Torres Vedras estavam  estacionadas  12 “companhias” comandadas por Martinho Soares, que logo na noite desse dia partiu com elas na direcção de Peniche, acompanhado por  Gaspar de Alarcão, morador nesta vila, com cento e dez “ginetes” de que era capitão.

Impressionados com o número de tropas inglesas, as tropas fiéis a Castela regressaram a Torres Vedras, de onde se retiraram quando, por volta da meia-noite do Domingo 28 de Maios, quando se soube que a tropas de D. António vinham marchando da Lourinhã para esta vila.

No dia 29 de Maio “já tarde”, entraram na vila de Torres Vedras o exército inglês e D. António, sob o comando de Norris.

D. António aposentou-se nas casas do prior de Stª Maria do Castelo, “e a noite foy dormir no Castello, onde pousava Francisco de Seixas” Cabreira, natural da vila, que veio a ser preso mais tarde pelo governo filipino, por causa desta sua atitude de facilitar a aposentação de D. António em Torres Vedras.

Contudo, muitos dos soldados ingleses “se embebedarão, por haver muito vinho nesta villa”. Beberam em tal excesso que muitos adoeceram e alguns chegaram mesmo a morrer.

Este incidente provocou um atraso no avanço dos Ingleses sobre Lisboa, dando tempo às tropas luso-castelhanas que defendiam a capital, de se prepararem para a chegada dos apoiantes de D. António.

Chegados próximo de Lisboa, os ingleses, perante a resistência dos sitiados, resolveram, no Domingo 4 de Junho, retirar-se a caminho de Cascais., onde chegaram no dia seguinte, perseguidos pelas tropas luso-castelhanas.

Em 18 de Junho iniciaram a sua retirada, embarcando na armada estacionada em Peniche .

Entretanto, no dia 6 de Junho, cerca de mil homens comandados por D. Martim Soares e pelo capitão António Pereira, reconquistaram, quase sem combate, o castelo de Torres Vedras(4).


Em definitivo, a região voltou a obedecer a D. Filipe II.

Depois desses dois episódios de resistência local inicial ao domínio filipino, não se voltaram a assinalar episódios político-militares  significativos até à Restauração.

Apenas um ano antes da Restauração, num documento enviado ao alcaide de então, D. João Soares de Alarcão, se revela alguma preocupação em defender a região de um possível ataque da armada francesa em apoio de uma possível insurreição no Reino.

Nesse documento, datado de 26 de Junho de 1639, já no reinado de D. Filipe IV (IIIº de Portugal), o monarca encarrega o alcaide de Torres Vedras de levantar a gente de armas da região.

Por esse documento, que refere números relativos ao total da Comarca de Torres Vedras (muito mais extensa que os limites do concelho), ficamos a saber que, na comarca, existiam 9 743 homens capazes de pegar em armas, dos quais 5722 tinham espingardas e arcabuzes e 991 “piques”.

Por ordem do mesmo monarca foram escolhidos 1 200 homens para se reunirem na vila de Torres Vedras, prontos a resistir a um ataque da armada francesa à costa portuguesa, um reflexo local da chamada “Guerra dos 30 anos”(5).

Durante esse período, a vila de Torres Vedras adquiriu uma considerável importância politica e económica, patentes no prestígio da família dos Alarcões junto da coroa espanhola e na concretização da Comarca de Torres Vedras, criada anos antes mas que só passou a ser efectiva em 1617 (6).

Sem procuramos ser exaustivos, aqui pretendemos deixar uma breve síntese sobre os episódios mais marcantes da história torriense durante o domínio filipino.

  • (1)   Existem duas obras fundamentais sobre esse período em Torres Vedras: BRAGA, Paulo Drumond, Torres Vedras no reinado de Filipe II – Crime, Castigo e Perdão, ed. Câmara Municipal de Torres Vedras/Edições Colibri, Lisboa 2009; VEIGA, Carlos Margaça e SILVA, Carlos Guardado da, O Livro de Acordãos do Município de Torres Vedras – 1596-1599, ed. CMTV, 2003.
  • (2)   RÊGO, Rogério de Figueirôa , “O Castelo de Torres Vedras”, in Boletim da Junta da Província da Estremadura, nº 21, Série II, Maio/Agosto de 1949, pp. 195-209.
  • (3)   Existe muita bibliografia e muitas referências a esse episódio. Recentemente, nas páginas do “Badaladas”, foi publicada uma excelente síntese sobre esse episódio, da autoria de GRANADA, Manuel Novais, “Revista de Lisboa garantia em 1932 – Última batalha entre as tropas castelhanas e as milícias do “rei da Ericeira” deu-se no castelo de Torres Vedras”, edição de 27 de Julho de 2018; e “Justiça de Filipe I abateu-se de modo implacável sobre os revoltosos de “D. Sebastião da Ericeira” (conclusão), edição de 17 de Agosto de 2018.
  • (4)   FALCÃO de RESENDE, André, “Carta que o autor escreveo a hum Amigo em que se conta a vinda dos Ingleses a Lisboa com dom António Prior do Crato no Ano de mil quinhentos e oytente e nove annos”, in Manuscrito da Livraria, cota 1147,   Arquivo Nacional da Torres do Tombo. Voltaremos a este tema, com mais pormenor, no próximo ano, por ocasião da comemoração da efeméride deste episódio.
  • (5)   “Menção Histórica”, in A Semana de 23/6/1892.
  • (6)   SERRÂO, Joaquim Veríssimo, O Surto Regional na legislação dos Filipes (1581-1625), ed. 1975 e O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil, ed. Colibri, Lisboa.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Damas Antunes lança uma nova obra sobre a história torriense

José Damas Antunes é o autor da obra "Os Expostos da Roda de Lisboa - Percursos de vida na Lourinhã e em Torres Vedras - séc. XVII-XIX.

Editada pela Colibri, esta obra é fundamental para o conhecimento da sociedade torriense na transição do "Antigo Regime" para a "Época Contemporânea".

Este valioso contributo para a história local vai ser lançado em sessão pública que se realiza no Auditório Municipal da AV. 5 de Outubro, no próximo Sábado, 9 de Abril, pelas 15.30, com a presença do autor.



quinta-feira, 17 de março de 2016

A Propósito de uma edição actualizada do Foral Manuelino de Torres Vedras, aqui recordamos Torres Vedras no Tempo de D. Manuel

A propósito do próximo lançamento no próximo Sábado 19 de Março (pelas 16 horas no auditório dos Paços do Concelho, AQUI) de uma reedição e estudo sobre o foral manuelino de Torres Vedras, da autoria de Carlos Guardado Silva e José Manuel Vargas, aqui deixamos o que escrevemos sobre a relação de D. Manuel com Torres Vedras, um texto algo datado, escrito por volta de 1989, inédito, mas que esteve par incluir a monografia local lançada por essa altura, obra colectiva na qual participei.

Na certeza que  aquela nova obra de história local vai acrescentar, rever e desactualizar profundamente aquilo que então escrevi, um texto meramente de síntese e divulgação, aqui deixo, como memória, com poucas alterações, esse texto:



D. Manuel e Torres Vedras – Nos Tempos da “Misericórdia”.

Alguns historiadores apontam que,com a subida de D. Manuel ao poder, em 1495, se deu o declínio do poder concelhio, patente na promulgação de “forais novos”. Estes novos forais resumem praticamente a autonomia dos concelhos à mera cobrança de direitos reais, rega a que o novo foral de Torres Vedras, doado em 1 de Junho de 1510, não fugiu.

De referir, no foral manuelino de Torres Vedras,  o destaque da produção de vinho, como se revela pela importância dada ao relego real, cuja venda tinha lugar privilegiado nos três primeiros meses do ano e cujo desrespeito motivava algumas das mais pesadas penas estabelecidas nesse foral, demonstrando a importância e o valor que o vinho da região começava a ter.

Onze anos antes, tinha-se iniciado a perseguição aos judeus do concelho que até essa data aqui gozavam de grande prestígio.

Durante aquele reinado Torres Vedras foi o centro do país quando, em 1496, o monarca aqui permaneceu por três meses (Agosto, Setembro e Outubro), ocasião em que recebeu uma importante embaixada  da República de Veneza.

O mesmo monarca mandou realizar obras no castelo em 1516, documentadas nas ainda hoje visíveis armas manuelinas esculpidas sobre o portal daquele reduto.

Muitas outras obras em igrejas e públicas  têm sido registadas neste concelho como datando do seu reinado.

Datam também do final do seu reinado duas importantes decisões que muito contribuíram para o desenvolvimento social e cultural do concelho.

Uma delas foi a publicação do alvará, datado de 22 de Setembro de 1521, confirmado em reinados sucessivos, fazendo “mercê aos mosteiros de Santo Agostinho, a saber, ao convento da Graça de Lisboa, a Évora, a Santarém, a TORRES VEDRAS, a PENAFIRME [sublinhado nosso] (…) de 6 arrobas de açúcar anuais a cada um dos conventos, pago no Almoxarifado do um por cento, a obras pias (…)”, beneficiando assim os conventos locais com os lucros da expansão, o que talvez possa ter contribuído para criara as condições económicas para a refundação do novo convento da Graça, projecto iniciado no reinado seguinte, em 1544.

Outra medida, tomada um ano antes, por alvará de 26 de Julho de 1520, revelou-se a mais marcante iniciativa tomada localmente pelo monarca.

Referimo-nos à fundação da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, iniciativa enquadrada na continuidade da acção da rainha viúva D. Leonor que criou em 1498, em Lisboa, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia.

A sede torriense dessa instituição foi instalada no Hospital do Santo Espírito, que já possuía os bens do Hospital de Santa Maria dos Farpados e do Hospital do Mostardeiro, juntando-se então a esses, os bens da Confraria das Ovelhas Pobres e os do Hospital de S. Gião, ou Confraria dos Sapateiros, aos quais se juntariam outros bens ao longo dos séculos.

A Misericórdia de Torres Vedras  começou a sua vida “com duas salas para ambos os sexos  e uma capela, e segundo Madeira Torres, com um rendimento de : 6 moios de trigo, 3 de cevada, 36 almudes de vinho, 3 potes de azeite, 56 galinhas e frangos, um carneiro, 13.888 réis em dinheiro e 2 óvos, além dos sobejos de todos os outros Hospitais e Albergarias.

“Além destes rendimentos, estava a Santa Casa autorizada a ter Mamposteiros ou arrecadadores d’esmola em todas as freguesias do arciprestado, encarregados de pedirem para ela” (1).

Ficam aqui algumas das iniciativas locais que marcaram o reinado de D. Manuel I, iniciado em 1495 e que terminou com o seu falecimento em 13 de Dezembro de 1521.

(1)    CALADO, Rafael Salinas, Origens e Vida da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, ed. 1936, pág.6.