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domingo, 28 de novembro de 2010

SOLIDÁRIOS COM A ESCOLA DE PENAFIRME

A NOTÍCIA FOI DIVULGADA PELA LUSA, NO PASSADO DIA 24 de NOVEMBRO:

"Torres Vedras: Manifestação "abraça" Externato de Penafirme para evitar o seu encerramento



24 de Novembro de 2010, 16:42

"Torres Vedras, Lisboa, 24 nov (Lusa)- As associações de pais e alunos do Externato de Penafirme, concelho de Torres Vedras, anunciaram hoje que vão organizar terça feira um abraço à escola para protestarem contra os cortes no financiamento que podem levar ao seu encerramento.

"Queremos reunir cerca de três mil pessoas, entre alunos, funcionários docentes e não docentes, pais e comunidade em geral para conseguirmos fazer um cordão de mãos dadas à volta dos muros para darmos um abraço ao Externato", disse o presidente da associação de pais, Paulo Gonçalves.

Os participantes vão concentrar-se antes pelas 08:30 no campo de futebol da escola para através de uma moldura humana escreverem a expressão "Externato de Penafirme", iniciativa que vai ser fotografada por via aérea".






Foi uma das primeiras escolas onde dei aulas. Depois foram muitas as ocasiões em que colaborei com essa escola, uma escola que tem sido fundamanetal para gerações de alunos deste concelho e onde tenho bons e grandes amigos.

Por razões profissionais não vou poder estar  presente na manifestação de terça-feira, mas daqui envio um abraço de solidariedade para alunos, funcionários e professores dessa escola.

domingo, 1 de novembro de 2009

O Terramoto de 1 de Novembro de 1755 em Torres Vedras


(ruinas do antigo Convento de Penafirme)


Rezam as crónicas que aquele Sábado, dia 1 de Novembro de 1755, amanheceu sereno e soalheiro.
Era dia de Todos os Santos e muitas igrejas estavam cheias de fiéis desde as 9 da manhã.
Nessa manhã o padre António Duarte, pároco de A dos Cunhados, entregava-se às cerimónias litúrgicas do dia, quando, pelas 9 horas e meia dessa manhã começou a sentir um forte abalo. Na realidade o abalo iniciou-se às 9h40.
A ele devemos um dos mais completos relatos sobre a forma como o terramoto foi sentido na região.
Afirma o pároco que este durou cerca de um quarto de hora. Segundo outras testemunhas, referindo-se à forma com foi sentido em Lisboa, o abalo durou 9 minutos, divididos por três abalos. Outros ainda referem que a terra tremeu por três vezes durante 17 minutos, tendo o mais forte durado 7 minutos.
António Duarte descreve o momento nos seguintes termos: pulsava “a terra para cima e ao mesmo tempo balanceava para as quatro partes, norte, sul, oriente e poente, e sendo maiores os balanços que dava do oriente para poente”.
Um dos maiores impulsos deu-se nessa direcção, “a meio do terramoto”. Nessa altura o padre António Duarte estava no interior da Igreja de A-dos-Cunhados, “de joelhos junto ao altar-mor capitulando as preces que nesse acto se fazem” e viu “a tribuna da capela-mor” sobre ele, “o que tão bem viram as mais pessoas que estavam no corpo da Igreja e além disso viram o coro e porta principal ir submergindo para o fundo”. Quando o abalo terminou, os paroquianos, vendo a sua igreja ilesa, em reconhecimento de tal facto, prometeram “à Senhora de mais se não apagar a sua lâmpada, nem de noite, nem de dia”, mantendo a cera acesa nos oito dias seguintes.
No lugar de A-dos-Cunhados não caiu qualquer casa, “só duas moradas de casas ficaram somente com sinais do que foi e as mais delas totalmente ilesas”, situação atribuída a milagre “de Maria Santíssima Senhora da Luz”.

Os estragos do terramoto no concelho de T. Vedras

Nem todos os lugares do concelho tiveram a mesma sorte de A-dos-Cunhados. Nas proximidades, no “lugar da Póvoa (…) e seus arrabaldes (…) ficaram assolados por terra e de todo destruídas seis moradas de casas; outras ainda que em pé, inabitáveis e todas padeceram mais ou menos ruínas”. Na Maceira “ficaram inabitáveis, e em muita parte destruídas, cinco moradas de casas e todas as mais, ainda que habitáveis, com mais ou menos ruína”. Noutros casais da freguesia “não houve ruína que obrigasse aos seus moradores a mudar sua morada, porém em todas se vê ou méis ou menos sinais do que foi”.
Ainda na freguesia, o Convento de Penafirme, o de segunda fundação, ficou em ruínas e o novo, que estava em construção, junto à actual escola de Penafirme, “ficou tão arruinado que é preciso tornar dos fundamentos”.
Nas respostas ao inquérito paroquial de 1758 é possível perceber o impacto do terramoto nas outras freguesias do concelho:
Na Carvoeira a capela-mor da Igreja paroquial padeceu de ruína, bem como a torre sineira, e em toda a freguesia arruinaram-se sete casas.
Em Dois Portos caiu um sino e a abobada da capela-mor ficou gravemente danificada, sendo necessário deitá-la abaixo para a reparar. Nesta freguesia os edifícios das localidades da Maceira e do Mato da Granja ficaram fortemente danificados, ficando por terra a totalidade das habitações deste último lugar, vendo-se os seus habitantes obrigados a viver algum tempo fora desses lugares. Só a Caixaria não registou qualquer prejuízo.
A vizinha freguesia de Runa sofreu igualmente “grande ruína”, desconhecendo-se mais pormenores.
Em Carmões “padeceram as habitações todas da freguesia, umas com maior ruína por se demolirem paredes e pedaços delas, por isso inabitáveis, e outras com menor, mas fendidas e abertas de sorte que causavam medo para se habitarem”. A igreja paroquial foi parcialmente destruída, tendo caído dois pedaços da abóbada, “um sobre o coro que todo o abateu e outro junto ao arco do cruzeiro, e toda a abóbada ficou fendida pelo meio e a da capela-mor mais traçada e moída, e as paredes laterais da mesma sorte: o arco do cruzeiro desuniu-se em várias partes e a tribuna da capela-mor”. A torre sineira “ficou com muitas aberturas e fendas, mas não caiu, talvez por estar presa na parte superior com linhas de ferro”.
O pároco da Freiria limitou-se a referir ter padecido “esta Igreja” e toda a freguesia “tanto o terramoto, tanto, que se conta pela mais destruída de todas”.
A freguesia da Ventosa sofreu igualmente grandes estragos. A Igreja paroquial sofreu estragos nas colunas que sustentavam as naves e em todo o corpo. Igualmente arruinada ficou a Ermida de Nª Srª da Piedade, no Cadouço.
A abobada e uma torre que “se achava feita havia poucos anos” na Igreja de Ponte do Rol foi o principal estrago registado nesta freguesia, embora “quase todas as habitações desta terra” tivessem “padecido” com o terramoto.
Ao contrário das anteriores freguesias, a do Ramalhal foi das que menos sofreu com o terramoto: a “ruína que padeceu do terramoto não foi muito grande nem fez muita destruição”.
Desconhece-se o que se passou nas freguesias de Matacães, Monte Redondo e Maxial, S. Pedro da Cadeira e Turcifal, devido à escassez de informações sobre este tema referidas na resposta ao inquérito de 1758. As freguesias de Campelos, Silveira, Outeiro da Cabeça e Maceira, não existiam então como tal, pertencendo, respectivamente, a Stª Maria, a S. Pedro da Cadeira, ao Maxial e A-dos-Cunhados.


Na vila de Torres Vedras

A então vila de Torres Vedras foi “das mais bem livradas do terramoto”, segundo o relato do pároco de Stª Maria, o padre António Ribeiro. Contudo conheceu alguns estragos consideráveis nas suas casas e monumentos.
A igreja de Stª Maria do Castelo viu as suas duas torres caírem.
A torre do relógio “caiu para dentro sobre o coro”, quebrando “as grades e a imagem do Santo Cristo que nelas estava”. Uma estante de livros “levou abaixo uma linha de ferro que estava correspondente ao órgão, o qual pegando por ele o botou abaixo a igreja”.
A torre sineira caiu para fora “quebrando os dois sinos que tinha” e a sineta.
Quanto aos edifícios particulares “padecerão muitas ruínas (…), uns totalmente caídos, os mais todos ficaram vários sentimentos, principalmente nas paredes da rua, que sobre ela ficarão pendentes”.
Sabe-se também que o Castelo, embora não habitado e já em parte arruinado, sofreu graves estragos, ainda hoje visíveis.

O maremoto no litoral torriense

Dos fenómenos associado ao terramoto que mais impressionaram os homens daquele tempo, o maremoto que se seguiu ao abalo de terra, atingindo toda a costa portuguesa, foi sem dúvida o mais assustador de todos.
Deve-se mais uma vez ao pároco de A-dos-Cunhados a única descrição conhecida desse fenómeno no nosso litoral
Quando se deu o terramoto, o “mar estava acabando de encher”. O maremoto deu-se nesta costa cerca de 1 hora e 1/4 depois do abalo, por volta das 11 da manhã.
A descrição daquele padre confirma as descrições do que por essa altura se passou em Lisboa, registando-se três grandes fluxos de subida e descida da água: “o fluxo e refluxo extraordinário só foi por três vezes (…) porém, toda aquela tarde continuou enchendo e vazando, recolhendo as águas com tanta velocidade que ficava tudo enchuto até à distância em que se tinha levantado e mandando-as com a mesma velocidade para terras”, ou seja, para além daquelas três grandes ondas, outras ondas mais pequenos tiveram lugar nesse dia, calculando-se actualmente que se registaram ao todo 16 ondas de grandes dimensões, destacando-se, contudo, aqueles três momentos.
Observada a partir de Penafirme e Porto Novo, “a novidade que se viu do mar (…) foi o levantar-se esta coisa de meia légua
cerca de 2 quilómetros e meio
distante da terra em um grande monte em que algumas pessoas divisaram diversas cores nas águas, pondo esta novidade em tão grande pasmo e temor a toda aquela vizinhança, que quase toda, imaginando era chegado o tremendo dia do juízo, da mesma sorte que estavam, ou bem ou mal compostos, sem fecharem suas casas e sem cuidarem de seus bens, fugiram para este lugar e igreja”.
Continuando a relatar-nos o tsunami, refere o cura António Duarte: “esse grande monte de mar veio discorrendo com voracidade para terra e combateu as arribas na altura de nove ou dez braças (…) Em um vale que corre do Sul para o norte e desagua na praia de Porto Novo, passando-se naquele tempo a pé enchuto correu tão cheio de água que por algum tempo se não pôde passar, cuja enchente lhe procedeu dos muitos olhos de água que circunvizinhos rebentaram (…). Os palmos que cresceu mais do ordinário se pode conjecturar pela altura das nove ou dez braças
algures entre os 16 e 20 metros de altura
em que combateu as arribas (…) chegando pela terra dentro a distancia que não há tradição chegasse em tempo algum
de facto, terá entrado, na zona de Porto Novo, pelo menos até às proximidades da actual “fonte dos frades".
Hoje pensa-se que a onda maior, que pode não ter sido a primeira, a atingir, em impacto directo, a costa portuguesa tinha um altura de cerca de 15 metros, com uma velocidade junto ao litoral de cerca de 60 Km por hora, embora a que atingiu Lisboa tenha sido mais pequena, talvez com uns 6 metros, devido ao factor atenuante da menor profundidade do rio Tejo.

Consequências na vida das pessoas

No concelho de Torres Vedras não existe qualquer registo conhecido sobre mortos ou feridos. A lenda refere apenas o caso de um frade de Penafirme que, ao subir ao monte em frente ao convento para fugir ao maremoto, teria falecido de ataque cardíaco.
Pior foi o agravamento das condições de vida das populações, como revela o pároco de Carmões: “Padeceram todos a falta de condutos para a sustentação costumada por ficarem destroçados os engenhos de moer pão, nas lojas ou tendas faltaram coisas comestíveis, e isto por tempo de mês e meio (…): houve também falta de materiais para a reedificação das casas”. E, à laia de conclusão, rematava o pároco Baltazar Freire da Costa: “esta freguesia é pequena e pobre (…) e no tempo presente estão mais necessitados pela falta e custo do pão, por cuja causa estão mais aptos para pedirem esmola” do que para ajudar a reconstruir a igreja paroquial.
No inquérito realizado dois anos depois daquele evento, vários párocos referem o atraso na reconstrução das igrejas paroquiais e habitações mais atingidas, bem como das dificuldades por que passavam os seus paroquianos desde aquela data.
Embora Torres Vedras não tenha sofrido o que sofreram outras localidades do país, com destaque para o que sucedeu em Lisboa, este trágico acontecimento ficou bem marcado no inconsciente colectivo de gerações de torrienses.

Fontes : Cópia do manuscrito do Padre António Duarte, existente nos registos paroquiais de A-Dos-Cunhados original de 1756, cópia de 1908 ; Dicionário Geográfico memórias Paroquiais de 1758, depositadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

sábado, 30 de maio de 2009

30 de Maio de 1834 . decreto de extinção das Ordens Religiosas - Recordando os Conventos Torrienses - Convento de Penafirme

Ruinas do "Convento Velho" de Penafirme.

Igreja do "Convento Novo" de Penafirme


Jorge Cardoso, autor do “Agilogio Lusitano” atribui a fundação do Convento de Penafirme a um eremita germânico, Santo Ancirado, no ano de 850, data discutível, se tivermos em conta que esse eremita faleceu nesse mesmo ano.
Diz a lenda que existia por esses tempos um convento junto a Torres Vedras, nas margens do rio Sizandro mas, porque não podia pagar os impostos devidos aos árabes, que então dominavam este território, eram frequentemente maltratados por estes.
Aquele eremita, então em peregrinação por esta região, conseguiu convencer os religiosos que habitavam esse convento a abandonarem-no e a fundarem outro em local mais seguro.
Escolheram então um local junto ao Oceano e perto da foz do rio Alcabrichel para construírem uma capela de invocação a Nossa Senhora da Graça, que deu origem ao primeiro convento instalado junto ao lugar de Penafirme.
Foi o primeiro agostiniano fundado em Portugal, segundo a opinião dos vários cronistas da Ordem dos Agostinhos Calçados. Contudo esta opinião é discutível, já que “desde os primeiros séculos do cristianismo foram aparecendo pequenas comunidades e conventos de frades eremitas sem se regerem por regras próprias e aprovadas, acontecendo que a partir de certa altura alguns deles adoptaram o nome genérico de “Agostinhos”, mas cujas observâncias eram variadissimas - não significando, portanto, a existência dessa ordem religiosa”.
Só em 1255 é que o Papa Alexandre IV unificou as várias congregações de frades eremitas “de que resultou o código uniforme da Ordem dos Eremitas de St.º Agostinho”(1).
Vários autores, entre os quais Frei Jerónimo Romano, autor de “Centurios da Ordem Agostiniana”, afirmam que o duque de Aquitânia, passando por aquele mosteiro por volta de 1140, em peregrinação para Santiago de Compostela, gostou tanto dele e do lugar onde estava, que por lá ficou alguns anos, mandando reconstruí-lo.
A primeira referência documental à existência desse convento data de 1226. Trata-se de uma doação da câmara de Torres Vedras, citada por Madeira Torres.
Frei António da Purificação, autor de uma das crónicas da ordem de Stº Agostinho, descrevia do seguinte modo o primitivo convento:
“(...) Todo elle é mais pequeno que o mais limitado mosteiro de padres capuchos d’este reino. As cellas não teem de largo mais do que dez palmos craveiros”(2)”, e as janelinhas mais parecem portinholas de navio que janellas. O tecto de cada uma é tão baixo, que eu, com ser de pequena estatura, lhe chego com a mão, posto com os pés no pavimento. O dormitório é tão estreito, que não é capaz de mais passagem, que de duas pessoas somente. A claustra mui estreita, de um só andar e térrea. A igreja e todo o mais edifício em proporção ao que temos representado. E, finalmente, tudo tão tosco e humilde, que tirando os tectos da igreja e sacristia, todos os demais foram de telha vã até ao anno de 1575, rm que o prior, que então era, quiz forrar as cellas e dormitórios, para que os religiosos que estivessem no Verão mais reparados das calmas, e no inverno dos frios” (3).
As precárias condições de vida existentes no primitivo convento levaram os frades a iniciar a construção de um novo edifício em 1597, mas foi só em 15 de Agosto de 1638 que se celebrou missa, pela primeira vez, na nova igreja.
Sobre este segundo convento escreveu Vilhena Barbosa : “ a sua fábrica não tinha sumptuosidade, nem se fazia notar por sua vastidão, antes pelo contrário, era modesta nas proporções e simples na architectura. Porém comparada com a do velho conventinho poderia chamar-se-lhe grandioso”(4). Este segundo convento é o que actualmente se encontra em ruínas, julgando-se que o que está à mostra é apenas o segundo andar do edifício, estando soterrados o rés-do-chão e o primeiro andar, opinião que aguarda a confirmação de um trabalho de pesquisa arqueológica no local.
O período áureo da história de Penafirme parece corresponder ao período de ocupação deste segundo convento, pois foi entre os séculos XVI e XVII que o habitaram alguns frades de renome, como, entre outros, o frei Tomé de Jesus, o frei João Bom, o frei Agostinho da Graça, o frei António de S.tª Maria, o frei João de Estremoz ou o frei Gaspar das Chagas.
Atribui-se geralmente o abandono e ruína deste segundo convento ao terramoto de 1755. Confirmando esta hipótese, refere-se a existência, ainda hoje visível, de uma cruz no topo do monte, a norte das ruínas desse velho convento, que, segundo a voz comum, testemunha “ a morte de um frade que na manhã do Terramoto terá conseguido subir o monte, mas que terá morrido de cansaço ao atingir o cimo”(5).
Se esse convento ainda era habitado à data do terramoto, o seu estado de degradação já era evidente, como é testemunhado, quer por Madeira Torres, ao indicar a fundação do novo convento, o de terceira fundação, num ano entre 1735 e 1755, isto é, antes daquela catástrofe, quer pelo padre António Duarte na sua resposta ao inquérito paroquial de 1758.
Este, na parte em que refere os estragos provocados na freguesia de A-Dos-Cunhados pelo terramoto, afirma que o “ Convento de Pena Firme ficou inabitável, e hum novo, que os Religiosos edificarão junto ao lugar da Póvoa(onde fizerão um hospício em que morão) ficou tão arruinado que he preciso tomar dos fundamentos no que já se trabalha”(6).
Ficamos assim a saber que, quando se deu o terramoto, o convento quinhentista ainda era habitado, tendo ficado destruído nessa ocasião, mas também que já então estava em construção o novo convento, que ficou igualmente destruído.
O avanço natural do areal e o próprio envelhecimento do edifício já tinham iniciado aquilo que o terramoto completou.
O terceiro convento “deveo o seu principio ao provincial Frei António de Souza da Casa de Távora, que por duas vezes foi promovido a esse emprego, e ultimamente ao Bispado do Porto. Apenas se edificou um único dormitório, pelo qual se vê a grandeza, e que a sua fábrica fora desenhada ao gosto d’um fundador capaz de maiores projectos. A igreja aparta-se da architectura ordinária, pois no interno representa um octogono, e apesar de haver sido cortado para limitar despesa, com isso não lhe diminuiu a capacidade, mas sómente a belleza, e regularidade. Sua porta principal é uma obra bem acabada no seu género, e realmente excessiva na perfeição e segurança, e muto mais na somma, que n’ella se diz dispendida”(7).
Poucos anos antes da extinção das ordens religiosas, Madeira Torres descrevia as propriedades do Convento por volta de 1819: “Este Convento tem por património um vasto terreno de legua de comprimento, e quase meia de largura, povoado de varios casaes d’onde recebe rendas e pensões, e tambem cultiva alguns terrenos especialmente de vinhos, resultando-lhe de tudo um rendimento proporcionado a subsistencia de maior Comunidade e susceptivel de grande melhoramento” (8).
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Convento de Penafirme foi vendido “em hasta pública, passando à posse de estranhos, entre eles, o Vice-almirante inglês Jorge Rosa Sertorius, que depois recebeu o título de conde de Penafirme” (9). Também foi seu proprietário José Avelino Nunes de Carvalho, negociante de Torres Vedras, ficando o edifício ao abandono e o seu património sujeito a sucessivos saques.
Mais tarde o edifício foi adquirido pelo pároco de A- Dos- Cunhados José Jorge Fialho e no final dos anos 50 deste século foi restaurado e aumentado com mais um andar “e vários melhoramentos com vista ao seu aproveitamento para a instalação de um seminário menor”(10).
No verão de 1959 foi oficializada a criação do “Seminário-Liceu de Penafirme”, a funcionar nas instalações do convento, tendo-se iniciado o primeiro ano lectivo em Outubro desse ano (11). Em 1975 esse seminário passou a funcionar como externato semi-oficial, sendo hoje uma das escolas mais prestigiadas neste concelho do ensino básico e secundário.
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(1)VITAL, Angelo, “O enigma de Penafirme ou a história do seu convento”, 3 partes, in Badaladas, 9-2-1978,16-2-1978, 23-2-1978.
(2)Dez palmos craveiros correspondem a 2,2 metros, Vital, ob.cit, 16-2-1978.
(3)PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656.Esta obra não está em condições de ser consultada na Biblioteca Nacional, pelo que recorremos à leitura de Vilhena Barbosa, em obra citada na nota 4, p.349.
(4)BARBOSA, J. Vilhena, Estudos Históricos e Arqueológicos, tomo II, ed. 1875, p.351.
(5)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(6)DUARTE, António, resposta ao inquérito paroquial de 1758,in MATOS, Venerando Aspra de, “Torres Vedras e o seu concelho em 1758 (VII parte) - A-Dos-Cunhados (I)”, in Badaladas, 19-1-1990.
(7)TORRES, Manoel Agostinho Madeira, Descripção historica e economica da villa e termo de Torres Vedras, 2º ed., Coimbra 1862 (edição fac-similada, editada pela Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras em 1988),p.134.
(8)TORRES, ob.cit, p.135.
(9)ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958.
(10)VITAL,ob.cit.,23-2-1978.
(11)Badaladas, 1-7-1959.

Factos curiosos

“Sómente os frades de Penafirme tinham direito de fornecer o peixe a El-Rei quando ele visitasse esta região” (ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”, in Badaladas, 1-10-1958)

“Nas Termas do Vimeiro, as antigas Fontes de Penafirme, uma das nascentes é dedicada à Rainha Santa (...). A outra nascente tem actualmente a designação de “Fonte dos Frades”, em homenagem aos beneméritos monges Agostinhos, seus primeiros possuidores”(ANACLETO, Pedro Garcia, “As fontes termais do convento de Penafirme”,in Badaladas, 1-10-1958).

No adro do actual convento de Penafirme existe um cruzeiro com a data de 1787

“Frei António da Purificação refere-se (...) à realização, no Convento de Penafirme, “ainda em 1642 e desde tempos imemoráveis”, da festa “da Santíssima Assunção a 15 de Agosto”,
acrescentando que “desta invocação há no altar-mor uma imagem sua, antiga (...) a qual é muito venerada pelos povos circunvizinhos. que todos os anos vêm a este mosteiro celebrar a sua festa com grande devoção e todo o aparato, principalmente os lugares de Rendide, Aldeia Gavinha e Merceana”.(PURIFICAÇÂO, frei António da, Chronica da Antiquíssima Provincía de Portugal da Ordem dos Erimitas de Stº Agostinho (...), Lisboa 1642 e 1656).

Nota: posteriormente à elaboração deste texto, surgiu um estudo mais actualizado e fundamentado sobre este convento, da autoria do Dr. Carlos Guardado Silva:
SILVA, Carlos Guardado da, “O Mosteiro de Penafirme – Das origens ao Século XVI”, in Turres Veteras II – Actas de História Moderna, CMTV, sem data (2000?).